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A Terceira Traducao – Matt Bondurant

Conheci a Estela de Paser em 1999, quando perambulava pelos corredores do Museu Britânico. Estava em Londres, na época, para ensinar Shakespeare e Literatura Inglesa Moderna aos alunos da graduação e passava muitas horas de folga no museu, logo abaixo da rua onde eu morava, na Great Russell Street. Examinei muitas vezes a majestosa Pedra de Roseta e adorava deixar os meus dedos passearem a centímetros das antigas seções de granito nu inscrito com hieróglifos nas galerias egípcias. Sentia-me mais atraído por esses escritos do que pelas múmias ou outros cardápios mais exóticos. Nesta tarde específica de outono, o Museu Britânico comemorava o bicentenário da descoberta da Pedra de Roseta com uma exposição especial: “Decifrando códigos: a Pedra de Roseta e a decodificação”. O fragmento remanescente da Estela de Paser era apenas um dos muitos objetos expostos, todos apresentavam problemas específicos de tradução ou decodificação. Quase todos eles, como a Estela de Paser, costumavam ficar fora da vista e da lembrança, nas salas do depósito, no porão do museu. Achei fascinante que esses escritos não tivessem sido resolvidos há vários milhares de anos, embora sejamos capazes de traduzir inteiramente as antigas línguas egípcias. Eu entendia pouco de hieróglifos na época, mas fui atraído pelo problema específico da Estela de Paser: que esses símbolos colocados numa grade pudessem ser lidos na horizontal e na vertical, dando variações diferentes do mesmo hino, e que um misterioso “terceiro caminho”, mencionado nas instruções para a leitura, ainda permanecesse desconhecido. Parecia uma tarefa absurda, e pensei imediatamente: que tipo de pessoa dedicaria a vida a uma coisa assim? Como seria esquadrinhar este texto impenetrável e extrair um significado que ficou oculto durante quase três mil anos? Quando a Estela de Paser voltasse ao depósito depois do fim da exposição, quem estaria lá, encolhido nos escuros recessos do porão, esperando por ela? Comprei o livro editado pelo Museu Britânico para acompanhar a exposição, Cracking Codes: The Rosetta Stone and Decipherment (Decifrando códigos: a Pedra de Roseta e a decodificação), de Richard Parkinson. Depois disso, comecei a reunir uma biblioteca modesta de livros de egiptologia, mas nenhum tão importante quanto o de Parkinson, já que este explica a base essencial da criptografia dos textos antigos. Voltei a Londres várias vezes e, em 2002, consegui um emprego no museu, que me deu acesso às várias regiões inferiores, assim como ao pessoal e aos curadores que trabalhavam com os objetos concretos. Em certo dia de outubro combinei de ver a Estela de Paser, de volta ao depósito, com um curador de egiptologia. Caminhamos por salas lotadas de estátuas e cerâmica, uma riqueza imensa de antiguidades. Depois de procurar um pouco, encontramos a Estela simplesmente encostada na parede de pedra bruta, com um pequeno marcador, E.A. 194 (E.A. = Egyptian Antiquites, Antiguidades Egípcias) designando o número da caixa. O egiptólogo que era meu guia simplesmente deu de ombros quando lhe perguntei sobre o “terceiro caminho” mencionado no texto. Eu já começara o romance nesta época e, exatamente como eu esperara, ainda era um mistério. E se descobrir o “terceiro caminho” permitisse algum tipo de entendimento novo dos antigos hieróglifos ou mesmo da cultura e do povo egípcios? E se a Estela de Paser fosse algum tipo de nova Pedra de Roseta? Esta é a premissa que criei e que impulsiona o meu protagonista, Dr. Walter Rothschild. Estela de Paser é uma peça muito danificada; como a maioria das esteias, tinha originalmente a forma clássica da lápide. A maior parte da seção superior redonda se perdeu, assim como parte dos lados e o quarto inferior.


Uma grande rachadura vai do canto inferior esquerdo ao canto superior direito, dividindo a estela em dois pedaços. O mistério da Estela de Paser da linha de texto horizontal superior, que é um hino do Médio Império egípcio à deusa Mut, e também contém instruções para a leitura: Este escrito é para ser lido três vezes. Igual a este nunca se viu antes, nem se ouviu, desde o tempo dos deuses. Está depositado no templo de Mut, Senhora de Isheru, pela eternidade como o sol, por todos os tempos. Já se sugeriu que o terceiro caminho seria ler os lados externos, mas a peça está danificada demais para permitir esta possibilidade. A Estela pode ser lida na vertical e na horizontal, devido ao tipo de jogo de palavras empregado por alguns escribas egípcios. Utilizavamartifícios de estilo, como a ortografia silábica (sequências de combinações de consoantes e vogais), ligaduras (sinais de união que criavam novos significados) e hieróglifos figurativos criados pelo escriba para evocar um novo entendimento metafórico dos símbolos. Como esses elementos criamum efeito “codificado”, costumam ficar sob a rubrica da criptografia. Imaginei que, para resolver este tipo de quebra-cabeça, seria preciso ter um dom especial que iria além do que se conhece sobre os hieróglifos. E por isso que o Dr. Walter Rothschild acredita em outro nível de significado, uma coisa que chamei de “interpretação poética”, que usa os elementos conhecidos da criptografia, além de algo mais que só ele e um punhado de outros no mundo conseguem fazer. Criei este novo entendimento dos hieróglifos para poder aplicar o que intuo sobre as traduções e a maneira como o Dr. Rothschild deve vê-las. Quanto mais mergulhava na egiptologia, mais intrigado ficava com o conceito do “terceiro caminho”. O conceito da “terceira terra” surge várias vezes nos antigos escritos egípcios, principalmente como um destino muito buscado. Isso tem a ver com o entendimento egípcio das “duas terras”, que são os reinos divididos do vale superior e inferior do Nilo. O objetivo de quase todos os reis foi unir as duas terras, criando a “terceira terra”. Deste modo, a “terceira terra” tornou-se uma metáfora para umtipo de terra prometida, um lugar que integra os dois modos conhecidos de viver e cria um terceiro modo, perfeito. É semelhante ao modo como diríamos que gostaríamos de fundir os aspectos separados da nossa vida moderna, os vivos e os mortos, ou caminhar no passado e no futuro ao mesmo tempo. Este antigo conceito egípcio adota os pares mais básicos especificados pela filosofia ocidental, positivo e negativo, verdade e falsidade, bem e mal, e luta para conciliá-los com os conceitos orientais de unidade orgânica, como yin e yang, buscando encontrar a unidade, o todo. O terceiro caminho é o trajeto do meio, a solução perfeita, o sonho de conciliação com tudo o que é certo e errado neste mundo e em nós mesmos. MATT BONDURANT Setembro de 2004 1: UM PORTO SEGURO HOJE DE MANHÃ me peguei pensando em como percebemos a vida de cada pessoa: os detalhes do acabamento, seus pigmentos, suas texturas. O modo como, no fim das contas, tudo se junta para projetar uma imagem na mente dos outros, um rastro vago que apenas se entrevê com o canto do olho. A figura de Alan Henry, por exemplo, é muito concreta, e até hoje ainda o vejo entrando de supetão no nosso apartamento naquela noite, feito um rinoceronte que acaba de se libertar. A lembrança de Mick Wheelhouse já não é tão nítida; vai esfumaçando nas bordas, como um papiro quebradiço.

Sei que os dois ficaram gravados dessa maneira na minha memória pelo papel que desempenhei nas suas mortes. Estávamos em Londres, fins de outubro de 1997. Em uma semana expiraria meu contrato com o Museu Britânico para desvendar o enigma criptográfico da Estela de Paser. Minha filha, que eu tinha abandonado muito nova e não via fazia três anos, chegaria à cidade dentro de alguns dias. Alan Henry veio nos intimar a sair naquela noite porque tínhamos de conhecer um novo amigo seu. Eu estava planejando uma noitada tranqüila no nosso sofazinho surrado, em companhia da obra de Gardiner sobre os hinos de Sobek, da XII dinastia, mas Alan Henry não era um sujeito que se deixasse estorvar pelos passivos caminhos da egiptologia. Usava uma camiseta branca e uma roupa de pesca verde, e suas botas pareciam saídas de um circo, extravagantemente grandes e de um azul berrante. Mick, com quem eu dividia o apartamento, estava de avental, fritando salsichas na chapa. Cuspiu na pia, amarrou seus cabelos finos num rabo-de-cavalo, despejou um rosário de xingamentos árabes sobre Alan e sua família — mas foi vestir uma calça. Enquanto isso, eu procurava a minha carteira numa pilha de roupas sujas. Mick Wheelhouse era meu colega no Museu Britânico, um egiptólogo e tradutor nascido e criado na Inglaterra. Costumava juntar-se a nós sempre que Alan aparecia, resmungando a maior parte do tempo e remexendo em seus amuletos. Mick e Alan eram dois garotos, que mal haviam passado dos 20; eu tinha, então, 46 anos, ainda no auge da minha carreira como egiptólogo e criptógrafo. Alan Henry precisava abaixar um pouco a cabeça devido à inclinação do teto do nosso microscópico apartamento. Era um gigante de mais de dois metros de altura, cujas mãos pareciam duas pencas de bananas; usava grandes óculos quadrados de armação preta grossa e volta e meia referia-se a si próprio como “um estudioso e um cavalheiro”. Pousando a mão no meu ombro, olhou as cópias ampliadas da Estela de Paser que eu espalhara pela parede e cobriam um lado inteiro do apartamento. As outras paredes haviam desaparecido debaixo de glosas da Estela, dos meus próprios diagramas manuscritos das transliterações e de algumas das tabelas de Champollion. Ah, sim!, suspirou. Fascinante. Mas vamos logo! — e acenou os braços enormes para Mick, que encarava sua panela no fogão de cara amarrada e sussurrava algo para um pequeno amuleto, uma orelha de madeira entalhada de Deir el-Bahri, levando-o à boca como um minúsculo telefone secreto. O que quer que estivesse dizendo, não era nada agradável. Antes de sairmos, Mick teve de guardar o cálamo e os tabletes de argila, embrulhando-os cuidadosamente em papel-manteiga a fim de que não perdessem a umidade. O chão estava sempre marejado de aparas porque Mick talhava seus próprios calamos, feitos de junco importado do Cairo. Sua especialidade e verdadeiro interesse eram as escritas hierática e demótica, que são basicamente as formas abreviada ou cursiva dos hieróglifos. Era um especialista em traduções complicadas de praticamente qualquer período, e fora trazido de Cambridge dois anos antes pelo Dr.

Klein para desvendar a Estela de Paser; como todos os seus antecessores, no entanto, nada conseguira. Agora era a minha vez. Nossos passeios com Alan geralmente começavam do mesmo jeito; ele estava sempre descobrindo alguma figura extraordinária ou importante que tínhamos de conhecer. Um dia seu amigo era uma velha lenda do rúgbi neozelandês; noutro era um cientista nuclear alemão que afirmava possuir seu próprio satélite pessoal — que se esforçou por nos mostrar de um beco em Mayfair. Estão vendo?, perguntou, apontando para a vaga noite londrina, com sua tonalidade amareloacinzentada. Aquele ali. O que eu estava vendo eram alguns pontinhos luminosos, mas nada que parecesse estar se movendo. Aquele? — e apontei para uma área genérica salpicada de branco. Não, aquele não, aquele outro! Não sou daqueles que nutrem especial fascínio por comportamentos excêntricos, embora minha exmulher costumasse afirmar que sim. Não obstante, apesar de suas constantes irrupções no nosso apartamento para nos arrastar para algum lugar, eu gostava de ter Alan Henry como amigo. Não passava de um garoto, e estava sempre empolgado com alguma coisa. Alan Henry morava no fim do corredor da nossa velha casa geminada georgiana, a uma quadra da Tottenham Court Road, em Bloomsbury, Londres. Era um escritor de Dakota do Norte e estava preparando um livro sobre uma malograda missão secreta canadense de alunissagem, ocorrida emfins da década de cinquenta — embora eu nunca tenha entendido muito bem por que ele precisava ir a Londres para isso. Gostava de embrenhar-se na Biblioteca Britânica para suas pesquisas, lendo herméticos e empoeirados textos religiosos, misticismo esotérico e física teórica — e foi lá que nos conhecemos. Um minuto depois, estávamos no encalço dos passos estrondosos de Alan, despencando-nos pelos sete lances de escada até a rua. A oeste, a Great Russell Street cruzava a Tottenham Court Road e desembocava na Oxford Street, a esquina mais movimentada de toda a Londres. As ruas estavam abarrotadas àquela hora, transbordando de turistas e londrinos que saíam para a noite na cidade. Era o tipo de área que, como a Times Square em Nova York, atrai uma multidão só para ver a multidão. Fora toda a problemática da esquerda e da direita — quer dizer, o inglês vai caminhar pela esquerda, evidentemente, mas como metade das pessoas que lotam as ruas são forasteiros que trafegam pela direita, o resultado é uma mixórdia de esquivas e passos de dança quando as turbas opostas tentampassar uma pela outra. Alan Henry arremeteu contra o redemoinho humano e foi pisoteando a Oxford Street comigo e Mick em seus calcanhares, na direção do Soho. O público dos teatros acabava de sair; no Dominion Theatre, na esquina, Les Miserables estava em cartaz, e os turistas enxameavamcomo moscas. A noite estava fria, com aquele tipo de umidade que, por mais à prova d’água e mais bem isolados que sejam os seus sapatos, consegue dar um jeito de infiltrar-se pela sola e aninhar-se nos nós e encaixes das suas juntas. Era aquele peculiar frio inglês que jamais nos abandona, que nos desperta ao alvorecer, soterrados debaixo de quatro cobertores, exigindo uma imediata inspeção dos nossos azulados dedos dos pés por um par de mãos dormentes e insensíveis. Aquele frio irritante, que provoca comichões e constitui motivo mais que suficiente para qualquer um sair conquistando e colonizando os quatro cantos do planeta. No caminho, Alan explicou que o tal cara que ele queria que conhecêssemos era um de seus escritores prediletos, com quem topara por acaso num bar.

E o próximo Salman Rushdie, garantiu. Podem acreditar. Alan Henry estava sempre às voltas com algum autor novo. Enquanto andávamos, ele ia bebendo de um frasco imenso que sempre levava no bolso do casaco. Passou-o para mim e dei um trago. O gim, aquecido pelo seu corpo, afundou no meu peito feito areia quente. A garrafa ostentava a imagem vistosa de um velho marinheiro inglês, encimada pelas palavras “HMS Valiant. Mick deu uma fungada ressabiada quando Alan agitou-a sob seu nariz; depois provou o líquido e fez uma careta. A Oxford Street estava particularmente conturbada porque um grande semicírculo de pessoas se formara em torno da entrada da megastore da Virgin, todas ávidas por ver um grupo de lutadores profissionais americanos que, ao que parecia, estava fazendo compras. Alan era um grande fã desse esporte. É a moderna arena romana, argumentou, girando sua cabeça quadrada, de cabelos eriçados, exceto pelo fato de que somos mais civilizados. Nós nos afastamos da violência, que virou uma coisa cartunesca e irreal. O embornal cultural das grandes massas plebeias. Igual ao teatro elisabetano. Poesia de terceira, resmungou Mick, batendo a cinza do cigarro. Fiquei surpreso. Achava que Mick não dava a menor bola para nada que não fosse relacionado a inseticidas industriais ou às suas circunspectas traduções e ranzinzices. Mas, naquela época, eu estava errado em relação a muitas coisas. Aglomerações, naquela parte do West End, nada têm de fora do comum; vários famosos vez por outra vão às compras nas proximidades do cruzamento da Tottenham Court Road com a Oxford Street, a porta de entrada do Soho, e com frequência arrastam multidões. Abrimos caminho em meio aos curiosos rumo à Frith Street. Ao atingirmos a Soho Square, Alan tomou alguns atalhos e começou a circular lentamente pelo tapete de guimbas de cigarro da pracinha, girando seu corpanzil maciço como um saca-rolhas. Deu pelo menos umas seis voltas seguidas, rodando por entre as sombras das pobres árvores estranguladas por fios. Mick e eu trotávamos atrás dele, tentando acompanhá-lo. Os cantos escuros da Soho Square eram preenchidos à noite por casais de homens, as calças abaixadas até os tornozelos, abraçando-se com sofreguidão sob os olmos retorcidos e a luz fosca das estrelas de Londres — e foi um agarrar de joelhos e ombros em pânico quando Alan passou por eles, atravessando para a rua do outro lado, onde encerrou sua última volta com um grito e uma profunda mesura. Alan fulgurava como um archote na escuridão.

Estava entusiasmado com a perspectiva de conhecermos seu novo amigo — e, lembrando-me dele agora, como eu gostaria de voltar a vê-lo assim. Acho que talvez eu fosse a última esperança, a última chance que o museu e o Dr. Klein tinham de decifrar a Estela. Eu estava muito satisfeito em Abu Roash, perto de Cairo, trabalhando numa escavação com um grupo italiano que gostava do meu trabalho, quando Klein me enviou umtelegrama de Londres. Na época, eu ia para onde quer que um tradutor especializado em criptografia e paleografia egípcias se fizesse necessário. Acho que se poderia dizer que eu não acalentava grandes ambições — pelo menos não em termos de prestígio e dinheiro. Estava chegando àquela altura da vida em que devia pensar em sossegar em algum lugar que me proporcionasse alguma segurança e privacidade. Mas eu não acreditava que tudo pudesse chegar a um fim. Sei que Mick ficou incomodado com o fato de a diretoria ter me enfurnado em seu apartamento na Great Russell Street, a três quadras do museu. A região de Bloomsbury, em Londres, é caríssima e os imóveis vagos são raros, de modo que foi preciso improvisar um pouco para as coisas darem certo. Eu não me importava muito com a precariedade das acomodações porque os benefícios eramimensos: acesso irrestrito ao Museu Britânico, dia e noite, com a maior coleção de antigüidades egípcias do mundo, publicação e bônus garantidos pela decifração da Estela de Paser, para não falar na chance de trabalhar de maneira independente num dos últimos enigmas criptográficos do mundo antigo ainda existentes.

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