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A Terra da Bruma: edição comentada (Clássicos Zahar) – Arthur Conan Doyle

Arthur Conan Doyle já era o escritor consagrado pelas histórias protagonizadas por seu maior personagem, o detetive Sherlock Holmes, quando deu início a uma série de livros de aventuras vividas por outro extraordinário – e excêntrico – personagem: o professor George Edward Challenger. O escritor publicaria três narrativas longas e dois contos em que Challenger é o personagem principal: O mundo perdido (1912), A nuvem da morte (1913), A terra da bruma (1926), “Quando o mundo gritou” (1928) e “A máquina de desintegração” (1929). As histórias do professor Challenger se filiam a uma tradição fecunda da narrativa ocidental, aquela das histórias de aventuras, exploração e investigação, de autores como Jules Verne, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson e Edgar Allan Poe. Escritas no começo do século XX, as obras de Conan Doyle já reformulam a estrutura tradicional da aventura, em geral marcada por uma sucessão de episódios e peripécias, além de apontarem para alguns dos caminhos posteriores da literatura de ficção, conferindo aos enredos baseados na ação as contradições e impasses, inclusive formais, da contemporaneidade. Os dois primeiros livros trazem o zoologista George Edward Challenger no centro de acontecimentos extraordinários, imerso nos perigos e nas controvérsias científicas que movem as tramas. Challenger é um gênio de renome em toda a Europa, dotado de uma personalidade fascinante. Ele é também genioso, cético, intratável e irritadiço. Sua compleição física e seu comportamento instável fazem dele uma figura temida. A barba negra e comprida, a força descomunal, o enorme plexo e a compleição atarracada estão a serviço de sua fama de encrenqueiro e de inimigo da imprensa. Costuma expulsar de seu gabinete e até de sua casa – aos murros e pontapés, porta afora – os jornalistas mais audaciosos e impertinentes. Tudo isso contrasta com uma inteligência prodigiosa e uma dedicação inabalável à ciência. Inspirado em William Rutherford, um professor cujas conferências Conan Doyle assistia nos primeiros anos do curso de medicina, Edward Challenger se tornou, ao lado de Sherlock Holmes, umdos personagens mais cativantes do autor. Em suas histórias, o leitor é convidado a acompanhar as investigações científicas desse personagem que concentra em si mesmo as ideias de um período de grandes mudanças, quando os progressos da civilização, a ciência e a tecnologia atingiram níveis de eficiência e excelência, mas também começaram a mostrar sinais de seu potencial destrutivo. Seguir o professor Challenger nessas histórias é experimentar um pouco do fascínio, do suspense e dos limites da grande narrativa de aventura. Uma vida dedicada à medicina e à escrita Arthur Conan Doyle nasceu em Edimburgo, Escócia, em 22 de maio de 1859, em uma família católica bem-estabelecida e de certa tradição no mundo das artes – o avô e os tios paternos de Arthur se destacavam no campo da caricatura, do desenho e da pintura. O pai, Charles Altamont Doyle, seguiu uma carreira regular de funcionário público, mas sofreu com problemas decorrentes do alcoolismo e, no final da vida, com crises de epilepsia. A mãe, proveniente de uma família de ascendência irlandesa, foi a responsável pelos primeiros estudos do menino. Gostava de ler e de contar histórias ao filho, e ouvi-las deixou uma profunda impressão na criança. O prazer e a fantasia das narrativas da infância, além dos anos passados no colégio interno – um período intenso e difícil –, constituíram as primeiras experiências que inclinaram Conan Doyle à carreira literária. Aos onze anos, o menino foi mandado pela família para o Stonyhurst College, internato de orientação jesuítica na Inglaterra. Ali teve atritos com colegas, sofreu perseguições e voltou-se cada vez mais para os estudos e para a dedicação à literatura. Quando se formou, em 1876, com dezessete anos, surpreendeu a família ao decidir-se pela carreira de médico. O jovem Arthur matriculou-se no curso de medicina na Universidade de Edimburgo. São dessa época também seus primeiros questionamentos acerca da religião. Em 1875, já se declarava agnóstico, e na década seguinte teria início seu interesse pelo espiritismo, primeiro como umexpectador interessado nas palestras sobre mediunidade e comunicação com os espíritos, depois, na maturidade, como um ardoroso defensor e divulgador da causa.


Durante os anos de faculdade, começou a escrever os primeiros textos literários e a publicar as histórias ficcionais, como os contos “O mistério do vale Sasassa” e “The American’s Tale”. Uma das experiências como estudante definiu sua predileção pelas narrativas de aventura: Conan Doyle embarcou como médico em um navio baleeiro rumo ao Ártico. Depois de formado, voltaria a praticar a medicina na costa africana. A experiência em viagens marítimas não conquistaria o coração do médico, mas estimularia a imaginação do futuro escritor. Conan Doyle voltou a exercer a medicina na Inglaterra e passou a escrever nos intervalos que a profissão oferecia. Em 1885 casou-se com a irmã de um de seus pacientes, Louise Hawkins, comquem teve dois filhos: Mary Louise e Kingsley. A mulher morreria de tuberculose em 1906, e Conan Doyle voltaria a se casar, no ano seguinte, com Jean Leckie. Com a segunda esposa, o escritor teria mais três crianças: Denis, Adrian e Jean. Já no começo da década de 1890 surgiram as mais bem-sucedidas histórias daquele que viria a se tornar o seu personagem mais famoso: Sherlock Holmes. O primeiro dos livros protagonizados por ele foi o romance Um estudo em vermelho (1887). Uma série de contos publicados na Strand Magazine, depois reunidos em livro, fez a fama do escritor. Sua maior criação, o detetive capaz de solucionar crimes e mistérios por meio da dedução e do raciocínio lógico, também se inspirava emum dos antigos professores de Conan Doyle em Edimburgo; no caso, Joseph Bell foi o modelo para Sherlock Holmes. As histórias de Sherlock Holmes acabaram por ganhar tamanha projeção – para certo desconforto do próprio autor, que temia ficar conhecido apenas por elas – que Conan Doyle chegou a matar o seu principal personagem no conto “O problema final”, para depois revivê-lo no romance O cão dos Baskerville (1902) e em um conto, “A casa vazia”. A atitude de “matar” e “ressuscitar” Sherlock pode, a princípio, parecer inverossímil, mas é procedimento que só a grande ficção permite. E as histórias de Conan Doyle, tanto as protagonizadas por Sherlock Holmes como aquelas vividas pelo professor Challenger, estão repletas dessas viravoltas fascinantes, típicas dos relatos ficcionais: as elipses de tempo, os subentendidos, as mudanças repentinas, as inúmeras aventuras e acontecimentos que são mencionados e aludidos, permanecendo fora do âmbito daquela narrativa específica, mas que o leitor experimenta como se houvessem de fato ocorrido com os personagens. Mesmo com o enorme sucesso de suas histórias, Conan Doyle continuou exercendo a medicina. Nos últimos anos do século XIX, atuou como médico voluntário da campanha britânica na Guerra dos Bôeres, na África do Sul. Escreveu um panfleto defendendo a guerra e, em 1902, foi nomeado cavaleiro real. Com essa deferência, incorporou a distinção de tratamento ao seu nome, inclusive à sua assinatura como escritor: Sir Arthur Conan Doyle. Nos anos seguintes, a perda de familiares abateu a confiança do autor e o fez enfrentar umperíodo de grande depressão: sua mulher, Louise, morreu em 1906; no contexto da Primeira Guerra Mundial, perdeu o filho Kingsley. Esse impacto na vida pessoal, somado aos horrores da guerra num sentido mais amplo, intensificou as mudanças de convicções religiosas que Conan Doyle experimentava desde a década de 1880, e o autor passou a se dedicar cada vez mais ao espiritismo – com reflexos também em sua obra. O autor escreveu alguns estudos centrados no espiritismo, como A mensagem vital (1919), e após a morte de sua mãe, em 1921, Devaneios de um espírita. Em 1924, publicou sua autobiografia, Memórias e aventuras. Conan Doyle ainda viajaria à África e, em 1929, à Escandinávia e à Holanda. Morreu em julho de 1930, de ataque cardíaco, aos 71 anos.

A aventura sobrenatural em A terra da bruma A guinada para o tema do espiritismo talvez seja a mudança mais evidente da obra tardia de Conan Doyle. Junto com essa reorientação, ganha terreno também, na vida pessoal e na carreira literária do autor, o questionamento crescente da ação narrativa, da ciência e do pensamento racional, como mostram as aventuras da série protagonizada pelo professor Challenger. O progresso científico e tecnológico, seus benefícios e suas contradições passaram a ocupar o centro das histórias do autor. A terra da bruma, publicado em 1926, é o terceiro livro da série protagonizada por George Edward Challenger, e ganha tradução pela primeira vez no Brasil. Se nos primeiros livros, O mundo perdido e A nuvem da morte, somos apresentados a um cientista prodigioso e seguro de sua inteligência dedutiva e de sua capacidade criadora, à medida que as aventuras de Challenger avançam no tempo também percebemos que a crença ingênua na ciência e na capacidade humana de conhecer e de interferir na realidade se torna mais problemática nos enredos ficcionais. Este A terra da bruma, em particular, extrapola o âmbito da narrativa aventuresca, pois tem como assunto principal o espiritismo. Nele, o professor Challenger e seu ceticismo, sua paixão pela observação e pelas evidências são desafiados por fenômenos sobrenaturais, que escapam à compreensão do raciocínio e da lógica e questionam os limites entre vida e morte, ciência e religião, razão e crença. A princípio a possibilidade de comunicação com os mortos e a aparição ectoplásmica de pessoas que estão em outro plano da existência é vista como fraude, como manipulação de charlatães e de pessoas com intenção escusa, quando não criminosa. No livro, o espiritismo é inclusive perseguido pela polícia. Mas quando os personagens, especialmente o jornalista Edward Malone e a filha do professor Challenger, Enid, começam a frequentar sessões espíritas e travar contato com as manifestações vívidas de incorporação e mediunidade, as possibilidades de refutação diminuem. Até que o próprio Challenger é instado a participar de uma cerimônia mediúnica. A virada espírita de Conan Doyle não foi muito bem-vista pelos leitores e pela crítica, e alguns deles, especialmente os aficcionados pelas histórias de aventura e de dedução, consideram que este livro é uma espécie de peça de propaganda do autor em favor do espiritismo. Talvez por esse motivo – além da dimensão e repercussão extraordinárias que seu personagem Sherlock Holmes alcançou – A terra da bruma tenha permanecido como que relegado a uma posição de obra menor na carreira do autor, mesmo fazendo parte da fascinante série do professor Challenger. Um olhar menos prevenido sobre o livro e a história, porém, revelam que para além da intenção proselitista da narrativa, estão reunidos nesse romance todas as qualidades do grande escritor, o ritmo alucinante e o mesmo teor de ironia e humor sarcástico das histórias anteriores protagonizadas pelo zoologista George Edward Challenger, especialmente quando este personagem singular entra em cena. No primeiro livro da série, O mundo perdido, fomos apresentados ao personagem e seus companheiros de jornada: o jornalista Edward Malone, o aventureiro lorde John Roxton e outro cientista, o professor Summerlee, que é uma espécie de contraponto especular a Challenger. Juntos, eles se lançam a uma expedição à Amazônia, a fim de verificar algumas observações prévias do professor Challenger que vinham sendo questionadas nos círculos científicos britânicos. Em viagemanterior à América do Sul, Challenger havia documentado a sobrevivência de algumas espécies animais pré-históricas. Nesse primeiro romance Challenger é o protagonista e o homem a ser contestado, tanto pela comunidade científica de seu país, que o vê como um louco embusteiro, como pelos companheiros de viagem, especialmente por Summerlee, cuja presença na expedição tem como propósito tirar a limpo, com os próprios olhos, o que Challenger alegava ter descoberto. E, de fato, a inteligência e as capacidades científicas de observação e dedução de Challenger se provam corretas: a expedição consegue localizar um platô, no coração da Amazônia, onde ainda vivem dinossauros e os terríveis homens-macacos, um tipo de hominídeo que se perdera na cadeia evolutiva da espécie humana. Um dos aspectos formais mais interessantes desse extraordinário relato de aventura é o fato de a história ser narrada por Malone e não pelo protagonista. O procedimento é similar ao das histórias de Sherlock Holmes, que são narradas pelo assistente do detetive, dr. Watson, o que confere ao personagem principal a aura de heroísmo, singularidade e distinção que conhecemos bem dos contos e romances sherlockianos. Também a determinação e a excelência intelectual e de ação do professor Challenger, que a narrativa confirma e chancela, são inabaláveis na primeira história da série. Em A nuvem da morte, o cientista novamente ocupa posição central na trama. É ele quempercebe os sinais do perigo que pode se abater sobre Londres a qualquer momento: uma alteração cósmica ligada ao éter, uma substância química que seria condutora de todos os elementos do universo.

A mudança poderia levar ao envenenamento de toda a população, se esse distúrbio fizesse com que o éter que circunda a Terra se tornasse tóxico e passasse a carregar elementos letais e também doenças, como uma epidemia proveniente da ilha de Sumatra que está prestes a chegar à Inglaterra. Challenger manda telegramas com ordens expressas a seu antigos companheiros de aventura, que voltam a se reunir, mas agora acuados pela possível nuvem pestilenta que aniquilaria a todos. Logo os acontecimentos se sucedem e o cientista prova estar correto mais uma vez. À medida que as horas passam, toda a vida animal do mundo exterior começa a perecer. Restam apenas os velhos companheiros de aventura, refugiados na casa de campo de Challenger, em companhia do professor e sua mulher. A única esperança, se é que há alguma, é confiar na possibilidade de sobrevivência graças à reserva de oxigênio de que o grupo dispõe e na passagem do tempo, que talvez interceda emfavor do grupo. Se nas duas primeiras narrativas, a aventura e os perigos a que são submetidos os personagens vêm da natureza e do acaso inesperado – e a ciência é a grande arma de combate ao desconhecido –, em A terra da bruma e nos contos protagonizados por Challenger é a própria ciência que está emxeque. Este romance, então, apresenta a crise do protagonista, uma crise que é pessoal, por conta de acontecimentos que se abateram sobre a família Challenger (o professor, antes de a ação propriamente dita começar, havia perdido a esposa), mas também é profissional e científica. Agora, não se trata apenas de saber se as habilidades intelectuais de Challenger são capazes de prever os perigos e se precaver deles, mas se a ciência ela mesma é capaz de dar conta de toda a realidade. Mais que isso, trata-se de questionar quais são os limites e os contornos do que chamamos realidade, e se o conhecimento é algo intrinsecamente confiável e benéfico. O desafio final do professor Challenger Se neste livro os limites do pensamento científico são postos à prova pelo espiritismo, um tema que estava no centro do debate à época, é porque para Conan Doyle a guinada espírita prometia uma saída para o materialismo crescente e para a obtusidade do cientificismo, uma alternativa aos exageros da especulação científica, da racionalidade e da instrumentalização da vida, características que se agudizariam na passagem do século XIX para o XX, culminando na experiência terrível das duas grandes guerras mundiais. Essa desconfiança da exacerbação do racionalismo, e do progresso muitas vezes perigoso da ciência, está claramente formulada em A terra da bruma, quando um dos personagens observa: “A própria ideia de progresso materializou-se. É progresso mover-se com grande velocidade, enviar mensagens ágeis, construir novas máquinas. Tudo isso é um desvio da verdadeira ambição. Há somente um progresso, o progresso espiritual.” A terra da bruma então apresenta um outro mundo e um outro tipo de aventura: a morte pode não ser a fronteira final. O livro repõe, por meio de um novo pano de fundo, temas das narrativas anteriores, tais como o medo e o fascínio pelo desconhecido, as possibilidades investigativas da observação, o poder e os limites da ciência, conferindo a tudo isso um teor ainda mais problemático e contraditório. A própria constituição da narrativa e a capacidade de seu protagonista estão sob suspeição, como indica o notável começo do romance. Nas primeiras páginas da história, o leitor é apresentado a um abatido professor Challenger, que perdeu parte da vivacidade e da gana de outrora por conta da viuvez. O narrador deprecia o teor aventureiro das histórias anteriores, como que a ecoar o novo estado de espírito de Challenger, agora mais sereno e maduro. O grande protagonista, neste momento de recolhimento pessoal e intelectual, dá lugar a outros personagens, com destaque para sua filha, Enid, e mais uma vez ao charmoso, competente e dedicado jornalista Edward Malone. Diferentemente das outras vezes, Malone não é mais o narrador das aventuras, mas prossegue na sua incansável tarefa de relatar, com objetividade e minúcia, tudo o que envolve o fascinante mundo da ciência e de algo que, a princípio, parece ser anticientífico ou, muito pior, puro charlatanismo: as sessões mediúnicas que passa a frequentar ao lado de Enid, a filha de Challenger. E é nas páginas do jornal onde trabalha, o Daily Gazette, que ele irá contar essas suas experiências. Muitos novos personagens surgem durante as investigações de Malone, e um velho conhecido aparece em uma das sessões. As aventuras agora são sobrenaturais, os perigos e os desafios são ectoplásmicos e fantasmáticos.

Mesmo aqueles céticos cientistas e repórteres, por via das dúvidas, preferem ver com os próprios olhos para crer nas alegações dos médiuns e dos adeptos da religião espírita. Como não poderia deixar de ser, Challenger retorna no final da trama, e a expectativa recai sobre a possibilidade de também ele ser convencido da lisura do espiritismo. O desfecho do romance não frustra o leitor: a habilidade de construir cenas fortes e impactantes, seja qual for a situação narrativa, permanece em Conan Doyle, com alto grau de elaboração. Desafios de Challenger em duas narrativas curtas Os dois contos incluídos nesta edição, há muito tempo fora de catálogo no Brasil, ganham nova tradução. Eles dão prosseguimento às aventuras de Challenger e completam a série protagonizada pelo personagem. Os textos curtos propiciam também ver o professor Challenger em missões arriscadas, em que ele passa de desafiador a desafiado, mas sem perder a impetuosidade, fazendo jus ao seu nome – challenger, em inglês, significa desafiante. As duas histórias apresentam o professor envolto em experimentos que podem colocar em risco não apenas a vida no planeta, mas a constituição da Terra e, não menos importante, a sua própria vida. Em “Quando o mundo gritou” e “A máquina de desintegração” o que vemos é o retorno do irascível professor em sua velha e boa forma. No primeiro conto, o leitor é apresentado a um novo narrador, o amigo de Malone e especialista em poços artesianos Peerless Jones, e a temas também sem precedentes nas histórias da série: o mundo como um organismo vivo, as possibilidades e os limites de exploração do globo, o dinheiro e o caráter mercantil da ciência, a ganância e a prepotência científica, a exploração midiática do conhecimento e dos experimentos científicos, a competição e a rivalidade da imprensa pela cobertura de um evento espetacular. Temas que viriam a se transformar em rotina ao longo dos anos posteriores e que se tornaram ainda mais agudos no século atual. No segundo conto, Edward Malone retorna como narrador. É ele quem procura Challenger, a pedido de seu chefe, o sr. McArdle, editor do jornal Daily Gazette, para propor uma investigação sobre um invento que pode colocar em risco toda a humanidade e talvez o planeta, se cair em mãos erradas – o que parece prestes a acontecer. Com esta edição, o leitor tem em mãos histórias que apresentam o gênio de Arthur Conan Doyle em algumas de suas mais venturosas realizações. Além de permitir rever um romance até hoje relegado a segundo plano, possibilita que acompanhemos as aventuras de Challenger, Malone e companhia também nesses contos que levaram a obra de Conan Doyle a um campo da literatura, a ficção científica, tão fértil quanto aquele das histórias policiais e narrativas de aventura. Como diz o narrador de “Quando o mundo gritou”, “as coisas são sempre mais fáceis quando cessa a imaginação e começa a ação”. Se para o escritor que criou a história e a compôs repleta de lances imaginativos a frase chega a ser um contrassenso, ela é mais do que verdadeira para o mundo dos personagens e para a realidade da ficção, um universo de regras e leis próprias, que Conan Doyle conhecia e manipulava com a arte de um prestidigitador. Prova disso são suas histórias conduzidas por narradores dedicados e participantes, mas também distanciados, inquietos e irônicos, que são, sobretudo, magistrais contadores de histórias, interessados na investigação, na ação, na aventura e nos limites da aventura.

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