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A Terra dos Meninos Pelados – Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 27 de outubro de 1892, em Quebrângulo, Alagoas. Criado na Fazenda Pintadinho, no sertão de Pernambuco, aos sete anos de idade ingressou no internato Alagoano, em Viçosa, e ali publicou sua primeira obra: o conto “Pequeno pedinte”, no jornalzinho “O Dilúculo” (que significa alvorada) sob assinatura de G. Ramos. Em 1905, Graciliano foi para Maceió, sendo matriculado no Colégio Quinze de Março. Sob o pseudônimo “Almeida Cunha” — um dos hábitos do escritor era a adoção de pseudônimos —, publicou o soneto “Céptico” (cuja grafia atual é “cético” e significa “descrente”). Ao completar dezoito anos, foi para “Palmeira dos Índios”, em Alagoas, onde passou a residir, ajudando o pai em uma pequena loja de tecidos. Entre 1914 e 1915, então no Rio de Janeiro, trabalhou como revisor nos jornais “Correio da Manhã, A Tarde” e “O Século”, sob as iniciais R. O. (Ramos de Oliveira). Voltou a Palmeira dos índios onde vários de seus familiares haviam morrido num surto de peste bubônica. Em 7 de janeiro de 1928, Graciliano assumiu a prefeitura de Palmeira dos índios, experiência que lhe ofereceu material para o primeiro romance, “Caetés”, publicado em 1933. Em 1930, renunciou ao cargo, sendo, em seguida, nomeado diretor da Imprensa Oficial do Estado, de onde se demitiu em dezembro de 1931 por motivos políticos. No ano seguinte, começou a colocar no papel seu segundo romance, “São Bernardo”, em boa parte escrito na sacristia da igreja Matriz de Palmeira dos índios. Em 1933, foi nomeado Diretor de Instrução Pública de Alagoas — cargo hoje correspondente ao de Secretário de Estado da Educação —, permanecendo até 1936. Suas idéias políticas, consideradas na época “extremistas”, fizeram comque fosse detido e preso, sem processo regular, em vários presídios do Rio de Janeiro. Seu drama e dos companheiros de cadeia foram relatados em “Memórias do cárcere”, publicado postumamente em 1953. “Angústia”, lançado em 1936, é considerado o romance mais complexo de Graciliano Ramos, em que o autor retrata a cidade de Maceió da época. “A terra dos meninos pelados”, obra escrita exclusivamente para crianças, foi terminada nos últimos anos da década de 30, juntamente com as histórias de “Alexandre e outros heróis” e “Pequena História da República”. “A terra dos meninos pelados” recebeu o Prêmio de Literatura Infantil, concedido pelo Ministério da Educação, em 1937. Em 1938 o autor escreveu o livro que se tornou sua obra-prima: “Vidas secas”, seu quarto e último romance, voltado para o drama social e geográfico de sua região — o Nordeste. Graciliano Ramos — o Mestre Graça, como era carinhosamente tratado — morreu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953. Capítulo Um Havia um menino diferente dos outros meninos. Tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam: — Ó pelado! Tanto gritaram que ele se acostumou, achou o apelido certo, deu para se assinar a carvão, nas paredes: Dr. Raimundo Pelado.


Era de bom gênio e não se zangava; mas os garotos dos arredores fugiam ao vê-lo, escondiam-se por detrás das árvores da rua, mudavam a voz e perguntavam que fimtinham levado os cabelos dele. Raimundo entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavamdemais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura. Não tendo com quem entender-se, Raimundo Pelado falava só, e os outros pensavam que ele estava malucando. Estava nada! Conversava sozinho e desenhava na calçada coisas maravilhosas do país de Tatipirun, onde não há cabelos e as pessoas têm um olho preto e outro azul. Capítulo Dois Um dia em que ele preparava, com areia molhada, a serra de Taquaritu e o rio das Sete Cabeças, ouviu os gritos dos meninos escondidos por detrás das árvores e sentiu um baque no coração. — Quem raspou a cabeça dele? perguntou o moleque do tabuleiro. — Como botaram os olhos de duas criaturas numa cara? berrou o italianinho da esquina. — Era melhor que me deixassem quieto, disse Raimundo baixinho. Encolheu-se e fechou o olho direito. Em seguida, foi fechando o olho esquerdo, não enxergou mais a rua. As vozes dos moleques desapareceram, só se ouvia a cantiga das cigarras. Afinal as cigarras se calaram. Raimundo levantou-se, entrou em casa, atravessou o quintal e ganhou o morro. Aí começaram a surgir as coisas estranhas que há na terra de Tatipirun, coisas que ele tinha adivinhado, mas nunca tinha visto. Sentiu uma grande surpresa ao notar que Tatipirun ficava ali perto de casa. Foi andando na ladeira, mas não precisava subir: enquanto caminhava, o monte ia baixando, baixando, aplanavase como uma folha de papel. E o caminho, cheio de curvas, estirava-se como uma linha. Depois que ele passava, a ladeira tornava a empinar-se e a estrada se enchia de voltas novamente. Capítulo Três — Querem ver que isto por aqui já é a serra de Taquaritu? pensou Raimundo. — Como é que você sabe? roncou um automóvel perto dele. O pequeno voltou-se assustado e quis desviar-se, mas não teve tempo. O automóvel estava ali em cima, pega não pega. Era um carro esquisito: em vez de faróis, tinha dois olhos grandes, um azul, outro preto.

— Estou frito, suspirou o viajante esmorecendo. Mas o automóvel piscou o olho preto e animou-o com um riso grosso de buzina: — Deixe de besteira, seu Raimundo. Em Tatipirun nós não atropelamos ninguém. Levantou as rodas da frente, armou um salto, passou por cima da cabeça do menino, foi cair cinqüenta metros adiante e continuou a rodar fonfonando. Uma laranjeira que estava no meio da estrada afastou-se para deixar a passagem livre e disse toda amável: — Faz favor. — Não se incomode, agradeceu o pequeno. A senhora é muito educada. — Tudo aqui é assim, respondeu a laranjeira. — Está se vendo. A propósito, por que é que a senhora não tem espinhos? — Em Tatipirun ninguém usa espinhos, bradou a laranjeira ofendida. Como se faz semelhante pergunta a uma planta decente? — É que sou de fora, gemeu Raimundo envergonhado. Nunca andei por estas bandas. A senhora me desculpe. Na minha terra os indivíduos de sua família têm espinhos. — Aqui era assim antigamente, explicou a árvore. Agora os costumes são outros. Hoje em dia, o único sujeito que ainda conserva esses instrumentos perfurantes é o espinheiro-bravo, um tipo selvagem, de maus bofes. Conhece-o? — Eu não senhora. Não conheço ninguém por esta zona. — É bom não conhecer. Aceita uma laranja? — Se a senhora quiser dar, eu aceito. A árvore baixou um ramo e entregou ao pirralho uma laranja madura e grande. — Muito obrigado, dona Laranjeira. A senhora é uma pessoa direita. Adeus! Tem a bondade de me ensinar o caminho? — É esse mesmo.

Vá seguindo sempre. Todos os caminhos são certos. — Eu queria ver se encontrava os meninos pelados. — Encontra. Vá seguindo. Andam por aí. — Uns que têm um olho azul e outro preto? — Sem dúvida. Toda gente tem um olho azul e outro preto. — Pois até logo, dona Laranjeira. Passe bem. — Divirta-se. Capítulo Quatro Raimundo continuou a caminhada, chupando a laranja e escutando as cigarras, umas cigarras graúdas que passavam sobre enormes discos de eletrola. Os discos giravam, soltos no ar, as cigarras não descansavam — e havia em toda a parte músicas estranhas, como nunca ninguém ouviu. Aranhas vermelhas balançavam-se em teias que se estendiam entre os galhos, teias brancas, azuis, amarelas, verdes, roxas, cor das nuvens do céu e cor do fundo do mar. Aranhas em quantidade. Os discos moviam-se, sombras redondas projetavam-se no chão, as teias agitavam-se como redes. Raimundo deixou a serra de Taquaritu e chegou à beira do rio das Sete Cabeças, onde se reuniam os meninos pelados, bem uns quinhentos, alvos e escuros, grandes e pequenos, muito diferentes uns dos outros. Mas todos eram absolutamente calvos, tinham um olho preto e outro azul. Capítulo Cinco O viajante rondou por ali uns minutos, receoso de puxar conversa, pensando nos garotos que zombavam dele na rua. Foi-se chegando e sentou-se numa pedra, que se endireitou para recebê-lo. Um rapazinho aproximou-se, examinou-lhe, admirado, a roupa e os sapatos. Todos ali estavam descalços e cobertos de panos brancos, azuis, amarelos, verdes, roxos, cor das nuvens do céu e cor do fundo do mar, inteiramente iguais às teias que as aranhas vermelhas fabricavam. — Eu queria saber se isto aqui é o país de Tatipirun, começou Raimundo. — Naturalmente, respondeu o outro. Donde vem você? Raimundo inventou um nome para a cidade dele que ficou importante: — Venho de Cambacará.

Muito longe. — Já ouvimos falar, declarou o rapaz. Fica além da serra, não é isto? — É isso mesmo. Uma terra de gente feia, cabeluda, com olhos de uma cor só. Fiz boa viagem e tive algumas aventuras. — Encontrou a Caralâmpia? — É uma laranjeira? — Que laranjeira! É menina. — Como ele é bobo! gritaram todos rindo e dançando. Pensa que a Caralâmpia é laranjeira. Capítulo Seis Raimundo levantou-se trombudo e saiu às pressas, tão encabulado que não enxergou o rio. Ia caindo dentro dele, mas as duas margens se aproximaram, a água desapareceu, e o menino com umpasso chegou ao outro lado, onde se escondeu por detrás dum tronco. A terra se abriu de novo, a correnteza tornou a aparecer, fazendo um barulho grande. — Por que é que você se esconde? perguntou o tronco baixinho. Está com medo? — Não senhor. É que eles caçoaram de mim porque eu não conheço a Caralâmpia. O tronco soltou uma risada e pilheriou: — Deixe de tolice, criatura. Você se afogando em pouca água! As crianças estavam brincando. É uma gente boa. — Sempre ouvi dizer isso. Mas debicaram comigo porque eu não conheço a Caralâmpia. — Bobagem. Deixe de melindres. — É mesmo, concordou Raimundo. Eu pensava nos moleques que faziam troça de mim, emCambacará. O senhor está descansando, hein? — É. Estou aposentado, já vivi demais.

Raimundo levantou-se: — Bem, seu Tronco. Eu vou andando. — Espera aí. Um instante. Quero apresentá-lo à aranha vermelha, amiga velha que me visita sempre. Está aqui, vizinha. Este rapaz é nosso hóspede. Capítulo Sete A aranha vermelha balançou-se no fio, espiando o menino por todos os lados. O fio se estirou até que o bichinho alcançou o chão. Raimundo fez um cumprimento: — Boa tarde, dona Aranha. Como vai a senhora? — Assim, assim, respondeu a visitante. Perdoe a curiosidade. Por que é que você põe esses troços em cima do corpo? — Que troços? A roupa? Pois eu havia de andar nu, dona Aranha? A senhora não está vendo que é impossível? — Não é isso, filho de Deus. Esses arreios que você usa são medonhos. Tenho ali umas túnicas no galho onde moro. Muito bonitas. Escolha uma. Raimundo chegou-se à árvore próxima e examinou desconfiado uns vestidos feitos daquele tecido que as aranhas vermelhas preparam. Apalpou a fazenda, tentou rasgá-la, chegou-a ao rosto para ver se era transparente. Não era. — Eu nem sei se poderei vestir isto, começou hesitando. Não acredito… — Que é que você não acredita? perguntou a proprietária da alfaiataria. — A senhora me desculpa, cochichou Raimundo. Não acredito que a gente possa vestir roupa de teia de aranha. — Que teia de aranha! rosnou o tronco.

Isso é seda e da boa. Aceite o presente da moça. — Então muito obrigado, gaguejou o pirralho. Vou experimentar. Capítulo Oito Escolheu uma túnica azul, escondeu-se no mato e, passados minutos, tornou a mostrar-se vestido como os habitantes de Tatipirun. Descalçou-se e sentiu nos pés a frescura e a maciez da relva. Lá em cima os enormes discos de eletrola giravam; as cigarras chiavam músicas em cima deles, músicas como ninguém ouviu; sombras redondas espalhavam-se no chão. — Este lugar é ótimo, suspirou Raimundo. Mas acho que preciso voltar. Preciso estudar a minha lição de geografia. Nisto ouviu uma algazarra e viu através dos ramos a população de Tatipirun correndo para ele: — Cadê o menino que veio de Cambacará? Eram milhares de criaturas miúdas, de cinco a dez anos, todas cobertas de teias de aranha, descalças, um olho preto e outro azul, as cabeças peladas nuas. Não havia pessoas grandes, naturalmente. — Cadê o menino que veio de Cambacará? — Que negócio têm comigo? resmungou o pequeno alarmado. Parece uma procissão. — Parece um “meeting”, disse uma rã que pulou da beira do rio. — Parece um teatro, cantou um pardal. Raimundo pôs-se a rir: — Que passarinho besta! Ele pensa que teatro é gente. Teatro é casa. — Eu estou falando nos sujeitos que estão dentro do teatro, pipilou o pardal. — Bem, isso é outra cantiga, concordou Raimundo. Capítulo Nove — Cadê o menino que veio de Cambacará? gritava o povaréu. — Essa tropa não sabe geografia, disse Raimundo. Cambacará não existe. — E por que é que não existe? perguntou a rã. — Não existe não, sinha Rã.

Foi um nome que eu inventei. — Pois faz de conta que existe, ensinou a bicha. Sempre existiu. — A senhora tem certeza? — Naturalmente. — Então existe. A rã fechou o olho preto, abriu o azul e foi descansar numa poça d’água. — Cadê o menino que veio de Cambacará? — Estou aqui, pessoal, bradou Raimundo. Que é que há? O rio se fechou de repente e a multidão passou por ele num instante. Depois as margens se afastaram, a água tornou a aparecer. — Que rio interessante! exclamou Raimundo. Deve ter um maquinismo por dentro. — Por que foi que você fugiu de nós? perguntou o rapazinho que tinha falado sobre a Caralâmpia. — Espere aí. Eu já digo. Como é o seu nome?

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