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A Testemunha da Noite – Kishwar Desai

Pediu-me que pusesse os meus pensamentos por escrito. Mas há demasiadas dúvidas na minha cabeça, demasiados receios. Primeiro, teria de afastar todas estas preocupações e só depois conseguiria voltar a pensar. Não imagina como é doloroso. Ninguém imagina. Como é que se evita a tirania dos sonhos? As pegadas que insistem em levar-nos de volta a uma casa cheia de fantasmas, onde todas as janelas têm um rosto à espreita, rostos outrora amados e conhecidos e agora com os olhos raiados de sangue e os lábios cinzentos, as mãos caídas, os corpos indolentes mas ansiosos. Todos em silêncio. A bílis espessa da tristeza que lhes saía dos corações regurgitou-lhes na garganta e bloqueou-lhes a voz, os seus cabelos pálidos e sombrios parecem plantas marinhas, verdes e viscosas, a flutuarem no ar. Porém, à volta dos seus corpos caídos está o odor escarlate de uma morte recente, a carne despedaçada aos seus pés para os cães, que são estranhos e nunca ladram. Nem sequer tocam na carne. Será que sabem de quem é? Como é possível? Será que a carne humana tem um sabor diferente? Haverá alguma espécie de lealdade no ADN dos animais que lhes permite fazer essa distinção? Não há nada na casa que seja como devia ser, porque agora há outro cheiro a invadi-la e a elevar-se no ar: o cheiro a carne queimada. A casa é um shamshamghat, e ainda é preciso apanhar as phool… as flores, porque é esse o nome que se dá aos ossos depois de incinerados – transformam-se em flores brancas. Cada um desses rostos que surgem nas janelas, acariciados pelas minhas mãos e beijados pelos meus lábios, será agora depositado, em flores brancas, em urnas de barro e atirado ao Ganges. Das águas profundas e implacáveis irão erguer-se bolhas que, como dedos ávidos, pegarão nelas, arrancando-as das minhas mãos impotentes. Irei rezar treze orações a cada uma delas, irei murmurar treze vezes o que me mandaram dizer. Olho para a casa e vejo-a oscilar ao vento… Está a chover; adoro a chuva. Fico absolutamente imóvel no jardim, no abraço aconchegado da noite, deixando que a chuva fustigue a minha pele. Quero que me toque em todo o corpo, quero que as minhas lágrimas se misturem com a água da chuva até já não conseguir distinguir o que são lágrimas e o que é chuva, até que tudo esteja em mim, a chuva, as nuvens, o vento e que esses milhares de gotas me deixem entorpecida e ceguem os meus olhos quando eles se voltarem para o céu, para que já não consiga ver a casa nem os rostos com o seu amor infinito a aparecerem nas janelas. Se pudesse fugir, era isso que faria, mas para onde? Volto-me para começar a correr pela estrada, apanhar um riquexó, ir até à estação dos comboios e partir para Deli, como me disseram para fazer. Mas há qualquer coisa que me retém. Será o sangue a secar nos degraus de mármore branco? Torno a voltar-me e, a tremer sob a chuva fria, tento lavar as minhas pegadas com a água da chuva, mas o sangue continua a escorrer da casa, e as pegadas tornam a desenhar-se, perfeitas e reconhecíveis. Afasto-me porque aos poucos apercebo-me de que a casa escura, que se ergue enorme do chão, é eterna, como se tivesse nascido com o resto da terra, uma construção que duraria para todo o sempre. E, a espreitar de cada uma das janelas, que deixei abertas para que o cheiro a carne e ossos queimados desaparecesse, continuarão a estar aqueles rosto dóceis e vazios, os treze, de olhos apáticos e dedos tenazmente retorcidos pela morte. Bastou-me atravessar a estrada, e lá estava ele à minha espera. Eu continuava a chorar e a limpar o sangue das mãos.


Ele tinha dito que íamos para Deli, onde começaríamos uma nova vida. No entanto, quando o vi, abrigado por um guarda-chuva, ele disse-me que não podíamos ir já porque precisávamos de dinheiro. E explicou-me o que tinha de fazer. Tinha de voltar para casa e, quando me encontrassem, tinha de gritar, como estava a fazer agora, e dizer que não me tinha sentido bem e estava a dormir no meu quarto. Tinha sido acordada pelo cheiro a carne queimada e, ao sair do quarto, deparara com todos aqueles corpos, um e depois outro, e depois outro. Tinha ficado completamente histérica e começara a gritar e, nesse momento, alguém me atacara. Não vi quem era. Era um homem vestido de preto e com uma máscara. Os criados estavam todos de folga, e eu não sabia o que havia de fazer. Sentia-me tonta e gritei por ajuda, mas ninguém me ouviu por estar a chover e já ser tão tarde. Voltámos então para casa, os dois, e ele esbofeteou-me porque eu estava a chorar de mais e depois prendeu-me as mãos e disse-me para tentar libertá-las, para ficar com marcas nos braços. Devia parecer que alguém tinha tentado atacar-me e atar-me. Apesar de à nossa volta só haver sangue e carne queimada, ele levantou-me a blusa e apertou-me os seios e depois levou-me para o meu quarto, onde me tirou o salwar e me empurrou para cima da cama. Sentia-me mal e não queria fazer o que ele me pediu para fazer, mas ele disse que tinha de ser, para que a nossa história parecesse mais credível. Escutei aquela voz familiar e razoável e entreguei-me às suas mãos e à sua boca. Abro os olhos de repente e olho para o tecto. Vejo as horas – três da manhã. De vez em quando, o quarto é iluminado pelos faróis de um carro a passar. Está tudo em silêncio – um silêncio que só existe em Jullundur. Depois de tantos anos de terrorismo, quando eram as bombas a explodir que iluminavam a noite, agora são só os faróis dos carros. Pego num cigarro. Há inúmeros prazeres em não ter de partilhar um quarto. Podemos peidar-nos na cama e podemos fumar sem ter de perguntar «Posso?». Olho para os lençóis às flores e imagino O Último Namorado ali deitado. Cabeludo, gordo e rico.

Melhor do que careca, magro e pobre. Mas insuportavelmente ligado à sua «Mãezinha». Curioso, este cordão umbilical. As raparigas mal podem esperar para o cortar. Porém, para os rapazes, as maminhas da Mãezinha continuam a deitar melaço em vez de leite. Via o Namorado com um sorriso deliciado sob o olhar da Mãezinha, enquanto ia acumulando os seus milhões em acções e obrigações. E, com cada vez mais milhões, e solitários cada vez mais brilhantes, por que havia ela de querer uma nora como eu, de pele escura e sempre de khadi? Expirei suavemente e afastei o Namorado com um sopro. É como se ainda ouvisse a voz chocada da Mãezinha e visse os solitários a tremer perante tamanho opróbrio: «Simran, és uma sardarni, uma sikhni, e fumas!» Procuro uma posição mais confortável na cama e volto-me para o lado onde estaria o Namorado. O quarto da Residência da Polícia do Punjab cheira a fumo. Dizem que, quando o fumo entra nas condutas do ar condicionado, continua a circular durante anos. Como a minha perturbação obsessivo-compulsiva, que me impede de apagar um único detalhe da minha mente. Revejo tudo incessantemente. Parece fumo a entranhar-se na minha mente. A rapariga. O centro de detenção. A teoria que eu tenho, que é ao mesmo tempo uma hipótese e um pesadelo. O cenário que revi mentalmente vezes sem conta durante três meses. A única coisa que me faz sentir mal é ter sido incapaz de juntar todas as peças. Haveria um homem, alguém de fora? A rapariga nega que houvesse – mas não havia dúvidas de que tinha sido violada. Ou teria sido um crime em legítima defesa? Terá matado alguém? O pai ou o irmão terão tentado abusar dela? Quando a encontraram, tinha tantos ferimentos e tanto sangue – dela própria e talvez de mais treze pessoas – que era difícil perceber o que tinha acontecido. E ainda por cima ela quase não conseguia falar. Esteve três meses no hospital e acabou de ser transferida para um quarto perto da prisão, em prisão preventiva. Preocupa-me. Há qualquer coisa que me diz instintivamente que as provas são demasiado óbvias. Sei por experiência própria que temos de redefinir os limites – derrubar os muros que estão a bloquear-nos.

Enquanto assistente social profissional mas sem remuneração, e alguém a quem chamam rudemente amiga das ONG (e sendo ainda uma psiquiatra muito amadora), chocame ver aquela pobre órfã de catorze anos, tão traumatizada. Nos últimos vinte e cinco anos de desgraças, nunca vi nada tão doloroso. Revejo as minhas notas, lendo mais uma vez que todos os membros da família tinham sido envenenados e algumas das vítimas esfaqueadas. Perante a ausência de provas ou impressões digitais, ela é a principal suspeita e está a ser investigada. Quando a polícia der o caso por concluído, poderá passar anos a ser julgada, pois há poucos casos na Índia que cheguem a tribunal antes de pelo menos vinte anos. Nessa altura, ela teria trinta e quatro anos, provavelmente seria imune a qualquer tipo de reabilitação e ter-se-ia tornado uma assassina, caso não o seja já. Acendo outro cigarro. Merda, faltou a luz. Porque é que alguém se dá ao trabalho de viver neste país corrupto? Lixam-nos se não pagarmos os impostos, mas, quando elegemos os estupores dos ministros, não podemos fazer nada contra eles, e lá vão vivendo no esplendor eléctrico dos seus palácios enquanto nós temos de nos desunhar para termos luz. Houve recentemente um casamento que ficou registado em recordações tecnicolor: a filha da melhor amiga da minha mãe casou com o filho de um ministro num sítio tão profusamente iluminado que parecia que o objectivo era guiar um vaivém espacial da NASA até à Terra. Os dois milhões de rupias gastos em geradores para os vários hotéis e casas dariam para iluminar os lares de várias centenas de famílias durante alguns anos. A minha mãe chorou, de felicidade, claro, por ver a filha da amiga a casar de forma tão brilhante e gloriosa. Ela sempre disse que o dinheiro é para se gastar, um princípio que era já uma antiga tradição punjabi da sua família. Tacteio à minha volta, encontro uma vela e volto às minhas notas sobre o «caso», pois não me sai da cabeça. Sinto o suor a escorrer-me pelas costas. É óbvio que ninguém queria saber de Durga. Se não fosse pela enorme herança que iria receber, o «caso» poderia não ter sequer tido a publicidade que teve. Iria essa publicidade forçar uma decisão rápida? Sei o que me faz sentir mal – o perigo de aceitar as explicações mais óbvias e fáceis. Sei – e é algo de que me arrependo sempre – que muitas vezes é essa a opção que tomamos. Podemos estar cansados e exaustos, o alegado criminoso pode não cooperar, a família da vítima podia ser mais rigorosa e exigente. Ou influente e exigente. É verdade, toda a gente sabe que o sistema judicial desiste e acaba a condenar a pessoa errada. Quando há condenação. Mas claro que hoje em dia estes casos famosos acarretam vigílias à luz da vela e umjornalismo activista. Não que isso ajude porque, graças ao escrutínio das massas, os tribunais sentem-se pressionados a tomar decisões populares.

É a democracia que manda em tudo. Hoje até se pode votar para decidir se uma pessoa é enforcada. Ainda bem que, há muito tempo, desisti de ser advogada. Escolhi o caminho muito mais espinhoso mas independente de tentar ajudar os que vão caindo pelo caminho. Parece que estou a gabar-me, mas deixem-me que vos diga que a presunção é a maior qualidade das assistentes sociais da Índia, sobretudo das que, como eu, preferem trabalhar como freelancers, não tomando o lado do governo. Porque assim tenho o direito de encher de palavrões a estúpida máquina burocrática do Estado e, ao mesmo tempo, insistir na minha mania virtuosa de tentar melhorar as coisas. Felizmente, como o governo dedica pouco tempo e esforço ao bem-estar social, eu posso usar a minha auréola de justiceira com grande panache. A minha tribo irrepreensível defende os direitos humanos dos milhões de oprimidos, dos que não têm voz nemrosto nem nome e, muitas vezes, nem culpa. Será que não se pode desculpar então um pouco de autopromoção e congratulação entre tantos momentos de preocupação e dor? Claro que posso estar completamente errada ao pensar que ajudei alguém. Mas pelo menos dá-me alento para continuar até de vez em quando chegar a um buraco e arrancar de lá alguémque foi espezinhado. Porque é que o faço? Por pura teimosia. Ou, como diz a minha mãe, escolhi deliberadamente uma profissão que faria a maioria dos homens solteiros (a menos que fossemcriminosos ou pervertidos) empalidecer. E fugir a sete pés. Prefiro fazer as coisas da maneira mais difícil. Quando acho que houve um deslize da justiça, entro no sistema, falo com toda a gente, não actuo em nome de ninguém, e tento descobrir a verdade. Nunca sei se os meus esforços vão ser bem sucedidos. Às vezes, há alguém que confessa ou dá uma dica. Curiosamente, acontece muitas vezes os criminosos confiarem em mimpor eu ser tão estranha, com o meu hindi de colégio de freiras e o meu cabelo encaracolado muito composto. Pareço tão diferente do mundo dos negócios escuros, das drogas, das facas e dos castigos que eles sabem que não posso ser uma advogada sedenta de dinheiro ou alguémcom influência: sou apenas uma assistente social sem poder, desde o meu bindi vermelho grande de mais às minhas sandálias de Kolhapur. Quando lhes digo que quero vê-los livres e a viverem num mundo justo, sabem que estou a ser sincera, porque uso o meu idealismo como se fosse uma brahmastra pronta a matar todos os rakshasas. Às vezes, também eles começam a acreditar, como eu, que pode haver redenção (no colégio de freiras ensinaram-me coisas optimistas sobre culpa, confissão e redenção). A verdade é que vi demasiados casos de criminosos a serem reabilitados e a voltarem para os seus antros, regressando ao ciclo familiar de casa-prisão-casa, até que a realidade fica completamente distorcida. Em muitos casos, é difícil distinguir o criminoso das suas circunstâncias, e é nessa altura que percebemos como a vida pode ser injusta. Agora que já descobriram o gene da infidelidade, deve ser só uma questão de tempo até descobrirem o «gene da criminalidade». E, quando isso acontecer, o que é que fazemos? Abrimos grandes centros de reconstrução genética e acabamos com as cadeias? Ou será que, depois de muitas experiências com ratinhos, os cientistas vão descobrir que, se injectarem mais serotonina e extraíremtestosterona, vão conseguir corrigir o desequilíbrio químico responsável, e vamos tornar-nos mais gentis, mais amáveis, mais compassivos…? Achava que não voltaria a fazer isto (a minha última experiência como boa samaritana quase me convencera de que não valia a pena), mas, quando li sobre este caso, fiquei intrigada por ser na minha terra natal, Jullundur.

Sabia perfeitamente o que era crescer numa terra pequena. Pode parecer uma ideia disparatada, mas achei que conseguia compreender Durga melhor do que a maioria das pessoas. Talvez pudesse ajudá-la a lidar com a sua dor. Hoje em dia, tudo é «um pedido de ajuda». Acho que matar treze pessoas também podia encaixar-se nesta ideia. Todos temos as nossas fraquezas. A minha sempre foi meter-me em coisas em que seria mais sensato não me meter. Quando Amarjit, um velho amigo da universidade (tivemos os nossos momentos…) que sempre me encorajou a prosseguir o meu trabalho nas prisões e que era agora inspector-geral no Punjab, me telefonou, não consegui recusar. Queria que eu fosse falar com a rapariga, que lhe desse algum apoio, que ajudasse a polícia a tomar uma decisão, fosse qual fosse, sobre o estado mental dela. Além disso, sentia-se responsável, pois os pais da rapariga eram amigos dos pais dele. Agora ela não tinha ninguém. À excepção de uma cunhada em Southall, que só tinha escapado à morte porque regressara pouco antes ao Reino Unido. O marido dela, irmão de Durga, tinha morrido. Por isso, aqui estou eu, às três da manhã, a olhar para uma vela numa residência da polícia. Tenho a roupa ensopada em suor. Dispo-me e meto-me debaixo do chuveiro, e sinto um alívio instantâneo com a água fria. Pego à vez em cada um dos meus seios flácidos de quarenta e cinco anos e apalpo-os à procura de alterações ou nódulos. Nada. Mas não consigo deixar de me preocupar. Será que estamos de algum modo a prender uma miúda de catorze anos num lodaçal de culpa? Será possível que ela tenha mesmo matado treze pessoas? Numa noite? Tinham sido todas envenenadas, algumas esfaqueadas e outras queimadas. Se não estivesse a chover, era bem possível que toda a casa tivesse ardido. E fora violada. Ou talvez não… Será que estou a ficar mentalmente perturbada ou estarei a ser atraída para aquele tipo de psicologia popular que considera a sexualidade das adolescentes um crime? A síndrome de Lolita. Vem-me à memória, com desagrado, outro caso que estive a ler hoje e que provavelmente me afectou mais do que eu pensava. Se é verdade que a Internet tornou o mundo mais pequeno, também o tornou mais sangrento e menos fiável.

Se dantes cada caso era um caso, agora sei que posso sempre encontrar algo, se não mais arrepiante, pelo menos que me ajude a compreender o que tenho entre mãos. Enquanto as outras pessoas navegam na Internet à procura de almas gémeas, eu utilizo-a para encontrar mentes perturbadas e vidas torturadas. E, com sorte, alguma informação sobre o que as tornou aquilo que são. Esse outro caso era o de uma rapariga chamada Billie Joe, que tinha sido assassinada emHastings, no Reino Unido. O padrasto foi acusado de a ter matado. A jovem foi esfaqueada até à morte, quando estava a pintar a porta de casa. Alguns dos depoimentos pareciam querer sugerir que a rapariga sabia que era atraente e servia-se disso para manipular o pai (que era director de uma escola) e os outros professores da escola que ela frequentava. Havia uma sugestão de umcaso ilícito, de o padrasto não ser capaz de controlar a sua raiva ou a sua paixão ou talvez de estar a ser chantageado pela filha. Acabou por ser considerado inocente. Como é óbvio, a explicação mais fácil nem sempre é a que está certa. É precisamente a explicação fácil que tenho de procurar. Enquanto percorro mentalmente várias possibilidades, sinto que o caso de Durga me fascina. O próprio nome não podia ser mais acertado – Durga, a deusa impetuosa, de dez braços, cuja sede de sangue e caos é puro teatro mitológico. Mas a Durga que vim examinar à cadeia sobrelotada de Jullundur pareceu-me terrivelmente insegura e apática. Tivemos ontem o nosso primeiro encontro, e senti-me completamente perdida. É óbvio que existe um abismo entre nós. Eu saí de Jullundur, uma cidadezinha do Punjab empoeirada e de construção desregrada, a fazer lembrar uma aldeia ambiciosa, quando tinha vinte anos. Quebrei todas as regras e dei um enorme desgosto à minha mãe ao desistir do casamento com um sardar que parecia ter uma carreira Muito Promissora no ramo da Roupa Interior. A princípio, como só via à minha volta casamentos «arranjados», achei que não tinha outra opção, apesar de já ter dezoito anos e, por isso, já ser maior. Felizmente, o negócio da lingerie pode ser muito libertador. Quando achei que já tinha aprendido tudo sobre decotes em V e soutiens acolchoados, e a diferença entre fibras sintéticas e naturais (ensinamentos que adquiri na sua maior parte em longas viagens de Vespa em que, de vez em quando, fazia uns desvios para canaviais com a altura adequada), senti que devia avançar. Ao voltar agora à mesma cidade, passados vinte e cinco anos, ainda solteira, mas uma mulher culta, veterana em casos amorosos, viajante experiente, especialista em «Mulheres Encarceradas: O Que a Falta de Liberdade Faz às Mulheres», o que posso ter em comum comuma menina assustada, criada nesta vila provinciana? Durga parece mais velha do que é. Tinha visto fotografias dela na televisão, mas em pessoa é muito mais magra. Tem um rosto oval, com um nariz arrebitado e uma boca amuada, de lábios carnudos. Quando a trouxeram para a antecâmara, ao lado do gabinete do director (eu insistira que precisava de privacidade), trazia um simples salwar kameez azul, não o uniforme da prisão – uma concessão especial, atendendo a que todas as pessoas importantes do governo conheciamos pais dela e a conheciam a ela desde criança.

É difícil para eles vê-la agora na prisão. E, pior ainda, ela continua a ser pouco mais do que uma criança. Por isso, foram-lhe dados alguns privilégios: comida melhorada, roupa em condições, acesso à televisão de vez em quando. (Apesar de me terem dito que este último lhe tinha sido retirado por ela ter reagido muito mal a algumas notícias sobre o crime.) Por outra decisão do tribunal, a polícia conseguiu selar uma sala e mantê-la lá. Nenhum destes privilégios a tornaria popular junto dos outros presos, e felizmente ela não tinha de os ver. Mas o mais triste é que ela nem sequer devia estar aqui. Devia estar num reformatório. Infelizmente, houve uma investigação recente ao reformatório e, segundo as notícias, muitas crianças estavam a ser sexualmente exploradas e utilizadas para a prostituição. Foi por isso que Durga veio para aqui, para um centro improvisado «para jovens em prisão preventiva».

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