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A Tormenta de Espadas – George R.R. Martin

Odia estava cinzento e amargamente frio, e os cães não sentiam cheiro. A grande cadela preta, que uma vez farejara os rastros do urso, recuou e se escondeu no meio da matilha com o rabo entre as pernas. Os cães aninhavam-se juntos uns dos outros, com um ar infeliz, na margem do rio, enquanto o vento batia neles. Chett também o sentia morder através das camadas de lã negra e couro fervido. O frio era excessivo para homens ou animais, mas ali estavam eles. Sua boca retorceu-se e ele quase conseguiu sentir o rubor e a irritação invadindo as pústulas que lhe cobriam as bochechas e o pescoço. Eu devia estar em segurança na Muralha, tratando dos malditos corvos e acendendo fogos para o velho Meistre Aemon. Tinha sido o bastardo Jon Snow que lhe roubara isso, ele e Sam Tarly, seu amigo gordo. Era por culpa deles que estava ali, congelando as malditas bolas com uma matilha de cães de caça, nas profundezas da floresta assombrada. – Sete infernos. – Deu um forte puxão nas trelas para conseguir a atenção dos cães. – Sigam o rastro, seus idiotas. Aquilo é uma pegada de urso. Querem um pouco de carne ou não? Encontrem! – Mas os cães limitaram-se a se aconchegar mais, ganindo. Chett estalou seu chicote curto por cima da cabeça dos animais, e a cadela preta rosnou para ele. – Carne de cão tem um gosto tão bom quanto a de urso – preveniu-a, com o hálito congelando a cada palavra. Lark, o homem das Irmãs, estava em pé, com os braços cruzados sobre o peito e as mãos enfiadas sob as axilas. Usava luvas negras de lã, mas andava sempre se queixando de estar com os dedos gelados. – Tá frio demais pra caçar – disse. – Que se dane esse urso, não vale o suficiente pra congelarmos. – Não podemos voltar de mãos vazias, Lark – ribombou o Paul Pequeno através da barba escura que cobria a maior parte de seu rosto. – O Senhor Comandante não ia gostar disso – havia gelo por baixo do largo nariz do enorme homem, onde o ranho congelara. Uma mão gigantesca metida numa espessa luva de peles agarrava com força o cabo de uma lança. – Que se dane também o Velho Urso – disse o homem das Irmãs, um homem magro com feições bem definidas e olhos nervosos. – O Mormont vai tá morto antes de nascer o dia, esqueceu? Quem se importa com aquilo de que ele gosta? Paul Pequeno piscou seus miúdos olhos pretos.


Talvez tivesse esquecido, pensou Chett; era suficientemente burro para esquecer de quase qualquer coisa. – Por que é que temos de matar o Velho Urso? Por que simplesmente não vamos embora e deixamos o cara em paz? – E você acha que ele ia nos deixar em paz? – perguntou Lark. – Ele ia sair caçando a gente. Quer ser caçado, cabeção? – Não – respondeu Paul Pequeno. – Não quero isso. Não quero. – Então vai matar o homem? – disse Lark. – Sim. – O enorme homem bateu na margem congelada do rio com o cabo da lança. – Vou. Ele não devia caçar a gente. O homem das Irmãs tirou as mãos que estavam sob as axilas e virou-se para Chett. – Acho que devíamos matar todos os oficiais. Chett estava farto de ouvir aquilo. – Já falamos sobre isso. O Velho Urso morre e o Blane, da Torre Sombria, também. Grubbs e Aethan também, má sorte a deles por terem ficado com esse turno. Dywen e Bannen por serem bons batedores, e Sor Porquinho por causa dos corvos. É tudo. Matamos os caras em silêncio, enquanto dormem. Um grito, e viramos comida para vermes, todos nós. – Suas pústulas estavam vermelhas de raiva. – Faça a sua parte e trate de que seus primos façam a deles. E, Paul, tente se lembrar, é o terceiro turno, não o segundo. – Terceiro turno – disse o grande homem, através de pelos e ranho congelado.

– Eu e o Pé-Leve. Eu me lembro, Chett. A lua estaria nova naquela noite, e manipularam os turnos para terem oito dos seus de sentinela, com mais dois guardando os cavalos. As coisas não iam ficar muito melhores do que aquilo. Além disso, os selvagens estariam ali a qualquer momento. Chett pretendia encontrar-se bem longe do Punho antes que isso acontecesse. Pretendia sobreviver. Trezentos irmãos juramentados da Patrulha da Noite tinham avançado para o norte, duzentos de Castelo Negro e mais cem da Torre Sombria. Era o maior grupamento de que havia registro, quase um terço das forças da Patrulha. Queriam encontrar Ben Stark, Sor Waymar Royce e os outros patrulheiros que tinham desaparecido, e descobrir por que os selvagens andavam abandonando suas aldeias. Bom, não estavam mais perto do Stark e do Royce do que logo após partirem da Muralha, mas descobriram o local para onde todos os selvagens haviam ido – as alturas geladas das miseráveis Presas de Gelo. Podiam ficar agachados ali até o fim dos tempos, que isso não cutucava nem um pouquinho os furúnculos de Chett. Mas não. Vinham descendo. Pelo Guadeleite. Chett ergueu os olhos e ali estava ele. As margens pedregosas do rio encontravam-se debruadas de gelo, e suas águas claras e leitosas fluíam sem parar das Presas de Gelo. E agora Mance Rayder e seus selvagens se aproximavam, seguindo pelo mesmo caminho. Thoren Smallwood havia retornado em estado de alerta três dias antes. Enquanto contava ao Velho Urso o que seus batedores tinham visto, um de seus homens, Kedge Whiteye, contava aos outros. – Ainda estão bem alto nas Presas de Gelo, mas vêm aí – Kedge afirmou, aquecendo as mãos sobre a fogueira. – Harma Cabeça-de-Cão, aquela vadia purulenta, tem a vanguarda. Goady esgueirou-se até o acampamento dela e viu-a bem junto ao fogo. Aquele idiota do Tumberjon queria abatê-la com uma flecha, mas Smallwood teve mais juízo. Chett escarrou.

– Quantos eram, você conseguiu ver? – Muitos e muitos mais. Vinte, trinta mil, não ficamos para contar. Harma tinha quinhentos na vanguarda, todos eles a cavalo. Os homens que rodeavam a fogueira trocaram olhares receosos. Era coisa rara encontrar sequer uma dúzia de selvagens a cavalo, quinhentos então. – Smallwood mandou que eu e o Bannen rodeássemos a vanguarda para dar uma espiada no grupo principal – prosseguiu Kedge. – Não tinha fim. Movem-se devagar como um rio congelado, cerca de oito quilômetros por dia, mas também não dão sinal de quererem voltar às suas aldeias. Mais da metade são mulheres e crianças, e levam os animais com eles, cabras, ovelhas, até auroques arrastando trenós. Estão carregados com fardos de pele e pilhas de carne, gaiolas de galinhas, vasilhas para manteiga e rocas, todas as porcarias que possuem. As mulas e garranos vinham tão carregados que parecia que iam ter o dorso quebrado. As mulheres também. – E seguem o Guadeleite? – perguntou Lark, o homem das Irmãs. – Foi o que eu disse, não foi? O Guadeleite ia levá-los para o Punho dos Primeiros Homens, o antigo forte anelar onde a Patrulha da Noite montara acampamento. Qualquer homem com um pingo de bom senso via que era hora de empacotar a tralha e voltar para a Muralha. O Velho Urso tinha fortalecido o Punho com espigões, fossos e estrepes, mas, contra uma tropa tão grande, tudo isso era inútil. Se ficassem ali, seriam subjugados e esmagados. E Thoren Smallwood queria atacar. O Doce Donnel Hill era escudeiro de Sor Mallador Locke e, duas noites antes, Smallwood viera à tenda de Locke. Sor Mallador era da mesma opinião do velho Sor Ottyn Wythers, que insistia em uma retirada para a Muralha, mas Smallwood queria convencê-lo do contrário. – Esse Rei-para-lá-da-Muralha nunca nos esperará tão longe para o norte – ele dissera, segundo o Doce Donnel. – E essa sua grande tropa é desajeitada, cheia de bocas inúteis que não saberão de que lado da espada se pega. Um golpe vai tirar deles toda a vontade de lutar e botá-los em fuga, aos uivos, de volta às suas cabanas pelos próximos cinquenta anos. Trezentos contra trinta mil. Chett chamava isso de uma completa loucura, e o que era ainda mais insano era que Sor Mallador fora convencido, e os dois, juntos, estavam a ponto de fazer o Velho Urso mudar de ideia.

– Se esperarmos demais, essa oportunidade poderá ser perdida, e para sempre –Smallwood andava dizendo a quem quer que o quisesse ouvir. Contra isso, Sor Ottyn Wythers disse: – Somos o escudo que defende os reinos dos homens. Não se joga fora um escudo sem bons motivos. A essa afirmação, Thoren Smallwood retrucou: – Num duelo de espadas, a mais segura defesa de um homem é o rápido ataque que mata o inimigo, não aninhar-se com medo atrás de um escudo. Mas nem Smallwood nem Wythers tinham o comando. Quem o tinha era Lorde Mormont, e Mormont estava à espera de seus outros batedores, à espera de Jarmen Buckwell e dos homens que tinham escalado a Escada do Gigante, e de Qhorin Meia-Mão e Jon Snow, que tinham ido bater o Passo dos Guinchos. Mas a volta de Buckwell e do Meia-Mão estava atrasada. O mais certo é estarem mortos. Chett imaginou Jon Snow jazendo, azul e congelado, em algum cume gélido, com a lança de um selvagem enfiada naquele cu de bastardo. Essa ideia fez com que sorrisse. Espero que também tenham matado seu maldito lobo. – Aqui não há urso nenhum – decidiu abruptamente. – Não passa de uma velha pegada. De volta ao Punho. – Os cães quase o derrubaram no chão, tão ansiosos por retornar como ele. Talvez pensassem que iam ser alimentados. Chett não conseguiu evitar uma gargalhada. Já não os alimentava havia três dias, para deixá-los ferozes e famintos. Naquela noite, antes de desaparecer na escuridão, iria libertá-los no meio das fileiras de cavalos, depois de o Doce Donnel Hill e o Karl Pé-Torto cortarem as cordas que os prendiam. Vai haver cães latindo e cavalos em pânico por todo o Punho, atravessando fogueiras em corrida, saltando por cima da muralha e derrubando tendas ao chão. Com toda a confusão, podiam se passar horas até que alguém reparasse que catorze irmãos tinhamdesaparecido. Lark quisera reunir o dobro desse número, mas o que se podia esperar de um homem burro das Irmãs com a boca fedendo a peixe? Bastava murmurar uma palavra no ouvido errado para, antes de se dar conta, acabar sem a cabeça. Não, catorze era um bom número, homens suficientes para fazer o que tinha de ser feito, mas não tantos que não fossem capazes de manter segredo. Chett havia recrutado pessoalmente a maioria. Paul Pequeno era um dos seus; o homem mais forte da Muralha, mesmo que tivesse raciocínio mais lento do que o de um caracol morto.

Certa vez, quebrou as costas de um selvagem com um abraço. Também tinham o Adaga, assim chamado devido à sua arma preferida, e o pequeno homem grisalho que os irmãos chamavam de Pé-Leve, que estuprara uma centena de mulheres na juventude e agora gostava de se gabar de que nenhuma delas o viu ou ouviu até que enfiasse o pau nelas. O plano era de Chett. Era o mais inteligente; além de ter sido intendente do velho Meistre Aemon durante quatro bons anos até aquele bastardo do Jon Snow tramar para que seu trabalho fosse entregue ao porco gordo do amigo dele. Quando matasse Sam Tarly naquela noite, planejava murmurar ao seu ouvido: “Cumprimentos ao Lorde Snow”, antes de abrir a goela do Sor Porquinho e deixar que o sangue saísse borbulhando de todas aquelas camadas de sebo. Chett conhecia os corvos, portanto não teria aí nenhum problema, não mais do que teria com Tarly. Um toque de sua faca e aquele covarde mijaria nas calças e desataria a choramingar pela vida. Que suplique, não vai ganhar nada com isso. Depois de cortar sua goela, abriria as gaiolas e espantaria as aves, para que nenhuma mensagem chegasse à Muralha. Pé-Leve e Paul Pequeno matariam o Velho Urso, Adaga trataria de Blane, e Lark e os primos silenciariam Bannen e o velho Dywen, para evitar que depois farejassem seu rastro. Havia quinze dias que escondiam comida, e os cavalos de Doce Donnel e Karl Pé-Torto estariam preparados. Com Mormont morto, o comando passaria para Sor Ottyn Wythers, um velho acabado que já fraquejava. Antes do fim do dia, ele já vai estar fugindo para a Muralha, e também não deverá desperdiçar nem um homem à nossa procura. Os cães puxavam-no enquanto abriam caminho por entre as árvores. Chett via o Punho, que abria caminho para as alturas através da vegetação. O dia estava tão escuro que o Velho Urso mandara acender os archotes, um grande círculo deles ardia ao longo da muralha anelar que coroava o topo do íngreme monte pedregoso. Os três atravessaram um riacho. A água estava gelada, e manchas de gelo espalhavam-se por sua superfície. – Vou direto à costa – confidenciou Lark, o homem das Irmãs. – Eu e meus primos. Construímos um barco e voltaremos nele pra casa, pras Irmãs. E em casa saberão que são desertores e cortarão suas cabeças ocas, pensou Chett. Não se podia sair da Patrulha da Noite depois de proferir os votos. Em qualquer ponto dos Sete Reinos, apanhariam-nos e matariam-nos. Agora, o Ollo Mão-Cortada, esse andava falando em velejar de volta para Tyrosh, onde dizia que, por um pouco de honesta ladroagem, os homens não perdiam as mãos nem eram enviados para congelar se encontrados na cama com a mulher de um cavaleiro qualquer.

Chett cogitara ir com Ollo, mas não falava a língua úmida de menininhas que lá se falava. E o que poderia fazer em Tyrosh? Não aprendera ofício de que valesse a pena falar, ao crescer no Atoleiro da Bruxa. O pai passara a vida roçando nos campos dos outros e apanhando sanguessugas. Ficava nu em pelo, exceto por uma grossa fralda de couro, e entrava na água lamacenta. Quando de lá saía, estava coberto, dos mamilos aos tornozelos. Às vezes, obrigava Chett a arrancar as sanguessugas. Um dia, uma se prendera à palma de sua mão, e ele a esmagou de encontro a uma parede, repugnado. Por causa disso, o pai espancou-o até deixá-lo sangrando. Os meistres compravam as sanguessugas a um vintém por dúzia. Lark podia ir para casa, se quisesse, e o maldito Tyrosh também, mas Chett não. Se não voltasse nunca a ver o Atoleiro da Bruxa, ainda não seria tempo suficiente. Gostara do aspecto da Fortaleza de Craster. Craster vivia lá como um senhor, por que Chett não poderia fazer o mesmo? Que ironia do destino: Chett, o filho do apanhador de sanguessugas, um lorde com uma fortaleza. Seu estandarte podia ser uma dúzia de sanguessugas em fundo cor-de-rosa. Mas por que parar em lorde? Talvez devesse ser um rei. Mance Rayder começou como corvo. Eu podia ser rei assim como ele, e arranjar algumas mulheres. Craster tinha dezenove, isso sem contar as novas, as filhas com quem ainda não tinha se deitado. Metade daquelas mulheres era tão velha e feia quanto Craster, mas isso não importava. Chett podia pôr as velhas para cozinhar e limpar para ele, arrancar cenouras da terra e alimentar os porcos, enquanto as novas lhe aqueciam a cama e lhe davam filhos. Craster não faria objeções, pelo menos depois de Paul Pequeno lhe dar um abraço. As únicas mulheres que Chett conhecera eram as prostitutas por quem tinha pagado em Vila Toupeira. Quando era mais novo, as meninas da aldeia davam uma olhada em seu rosto, com furúnculos e quistos, e afastavam os olhos, repugnadas. A pior tinha sido Bessa, aquela vaca. Abria as pernas para todos os rapazes do Atoleiro da Bruxa, então Chett pensou: por que não as abriria para mim também? Até passou uma manhã apanhando flores silvestres quando ouviu dizer que ela as apreciava, mas Bessa limitou-se a rir na sua cara e dizer que antes se enfiaria numa cama com as sanguessugas do pai do que com ele.

Ela parou de rir quando ele enfiou a faca nela. Isso foi agradável, ver a expressão no rosto de Bessa, por isso tirou a faca e enfiou-a de novo. Quando o pegaram, perto de Seterrios, o velho Lorde Walder Frey sequer se incomodou em vir julgá-lo pessoalmente. Mandou um de seus bastardos, aquele Walder Rivers, e, quando Chett deu por si, estava a caminho da Muralha, com aquele demônio preto fedido do Yoren. Em troca de seu único momento de satisfação, tinham-lhe roubado a vida inteira. Mas agora pretendia roubá-la de volta, e também as mulheres de Craster. Aquele velho selvagem pervertido é que está certo. Se quer casar com uma mulher, basta tomá-la, e nada de lhe dar flores para que talvez não repare em suas malditas pústulas. Chett não pretendia cometer esse erro novamente. Iria dar certo, prometeu a si mesmo pela centésima vez. Desde que a gente consiga se afastar sem problemas. Sor Ottyn avançaria na direção da Torre Sombria, o caminho mais curto até a Muralha. Ele não vai se incomodar com a gente, o Wythers não é homem para isso, tudo que quer é voltar inteiro. Agora, Thoren Smallwood, esse ia querer avançar com o ataque, mas a cautela de Sor Ottyn era muito profunda e ele tinha uma patente mais elevada. Seja como for, que se dane. Depois de a gente ir embora, Smallwood pode atacar quem quiser. O que nos importa? Se nenhum deles voltar para a Muralha, ninguém virá à nossa procura, vão pensar que estamos mortos, como os outros. Aquela era uma nova ideia, e por um momento o tentou. Mas, para dar o comando a Smallwood, teriam de matar também Sor Ottyn e Sor Mallador Locke, e ambos eram bem escoltados dia e noite… não, o risco era grande demais. – Chett – disse Paul Pequeno enquanto avançavam penosamente por uma trilha pedregosa, aberta por animais entre árvores-sentinela e pinheiros marciais –, e o pássaro? – De que merda de pássaro você está falando? – A última coisa de que precisava agora era de um cabeça oca perguntando de um pássaro. – O corvo do Velho Urso – disse Paul Pequeno. – Se o matarmos, quem vai dar comida ao pássaro? – Quem liga pra isso? Mate o pássaro também, se quiser. – Não quero fazer mal a pássaro nenhum – disse o enorme homem. – Mas aquele é um pássaro que fala. E se ele contar a alguém o que fizemos? Lark, o homem das Irmãs, soltou uma gargalhada.

– Paul Pequeno, cabeça-dura como a muralha de um castelo – caçoou. – Fica quieto – disse Paul Pequeno, num tom que denotava perigo. – Paul – disse Chett antes que o grandalhão ficasse zangado demais –, quando encontrarem o velho numa poça de sangue, com a garganta aberta, não vão precisar de um pássaro para lhes dizer que alguém o matou. Paul Pequeno saboreou aquilo por um momento. – É verdade – concordou. – Nesse caso, posso ficar com o pássaro? Gosto dele. – É seu – disse Chett, só para que ele se calasse. – Sempre podemos comê-lo, se ficarmos com fome – sugeriu Lark. Paul Pequeno voltou a fechar o tempo. – É melhor que não tente comer meu pássaro, Lark. É melhor que não tente. Chett ouvia vozes vagueando por entre as árvores. – Fechem a porra dessas bocas, os dois. Estamos quase no Punho. Emergiram perto da vertente ocidental do monte e rodearam-no em direção ao sul, até o local onde o declive era mais suave. Perto do limite da floresta, uma dúzia de homens praticava tiro com arco. Tinham esculpido silhuetas nos troncos das árvores, e disparavam flechas contra elas. – Olha – disse Lark. – Um porco com um arco. E, logicamente, o arqueiro mais próximo deles era o próprio Sor Porquinho, o rapaz gordo que roubara o lugar de Chett junto ao Meistre Aemon. Bastava ver Samwell Tarly para se encher de raiva. Ser intendente do Meistre Aemon fora a melhor época de sua vida. O velho cego não era exigente e, de qualquer maneira, Clydas tratava da maior parte de seus desejos. Os deveres de Chett eram fáceis: manter a colônia limpa, acender uns fogos, buscar umas refeições… e Aemon não bateu nele uma única vez. Acha que pode chegar e me botar para fora, só porque é bem-nascido e sabe ler.

Pode ser que lhe peça para ler a minha faca antes de abrir sua garganta com ela. – Continuem – disse aos outros. – Quero ver isso. – Os cães estavam puxando, ansiosos por ir comos outros, até a comida que pensavam que os esperaria lá em cima. Chett chutou a cadela com a ponta da bota, e isso acalmou-os um pouco. Observou, das árvores, o gordo lutando com um arco tão alto quanto ele, com seu rosto vermelho e em forma de lua contraído de concentração. No chão, à sua frente, estavam enfiadas três flechas. Tarly encaixou uma e retesou o arco, manteve-o assim por um longo momento enquanto tentava mirar, e soltou. A flecha desapareceu no meio do verde. Chett soltou uma ruidosa gargalhada, uma bufada de doce repugnância. – Você nunca encontrará aquela, e quem vai arcar com a culpa sou eu – anunciou Edd Tollett, o severo escudeiro grisalho que todos chamavam de Edd Doloroso. – Nunca há nada que desapareça que não olhem para mim, desde aquela vez em que perdi meu cavalo. Como se tivesse podido evitálo. Ele era branco e estava nevando, o que esperavam? – Aquela foi levada pelo vento – disse Grenn, outro amigo de Lorde Snow. – Tente manter o arco firme, Sam. – É pesado – queixou-se o gordo, mas preparou a segunda flecha mesmo assim. Desta vez, ela saiu alta, metendo-se por entre os galhos, três metros acima do alvo. – Acho que você derrubou uma folha daquela árvore – disse Edd Doloroso. – O outono já as faz cair suficientemente depressa, não é preciso ajudá-lo. – Suspirou. – E todos sabemos o que se segue ao outono. Deuses, que frio. Dispare a última flecha, Samwell, acho que minha língua está congelando no céu da boca. Sor Porquinho abaixou o arco, e Chett achou que ele fosse desatar a berrar. – É difícil demais.

– Encaixe, puxe e solte – disse Grenn. – Vá lá. Obedientemente, o gordo arrancou a última flecha do chão, encaixou-a no arco, puxou e soltou. Fez isso rapidamente, sem focar os olhos de maneira cuidadosa ao longo da haste como fizera nas duas primeiras vezes. A flecha atingiu a parte inferior do peito da silhueta desenhada a carvão e ali ficou, tremendo. – Acertei. – O Sor Porquinho parecia chocado. – Grenn, você viu? Edd, olha, acertei nele! – Enfiou-a entre as costelas dele, eu diria – falou Grenn. – Matei-o? – quis saber o gordo. Tollett encolheu os ombros. – Podia ter perfurado um pulmão, se ela tivesse pulmões. A maior parte das árvores não tem, via de regra. – Tirou o arco da mão de Sam. – Mas já vi tiros piores. Sim, e já disparei alguns. Sor Porquinho resplandecia. Ao olhar para ele, dava para se pensar que tinha realmente feito alguma coisa. Mas quando viu Chett e os cães, seu sorriso ruiu e morreu aos guinchos. – Acertou numa árvore – disse Chett. – Vamos ver como é que dispara quando forem os moços de Mance Rayder. Eles não vão ficar parados com os braços esticados e as folhas restolhando, ah não. Vão vir direto em sua direção, gritando na sua cara, e eu aposto que vai mijar nas calças. Um deles vai enfiar um machado bem no meio desses olhinhos de porco. A última coisa que você vai ouvir será o tunc que o machado fará quando morder seu crânio. O gordo estava tremendo.

Edd Doloroso colocou uma mão no ombro dele. – Irmão – disse ele solenemente –, só porque foi assim com você, não quer dizer que Samwell passará pelo mesmo. – De que você está falando, Tollett? – Do machado que rachou seu crânio. É verdade que metade de seus miolos escorreu para o chão e foi comida pelos cães? O grande palhaço do Grenn riu, e até Samwell Tarly conseguiu dar um frágil sorrisinho. Chett chutou o cão mais próximo, puxou suas trelas e começou a subir o monte. Sorria quanto quiser, Sor Porquinho. À noite veremos quem vai rir. Só gostaria de ter tempo de também matar Tollett. Um babaca sombrio com cara de cavalo é o que ele é. A subida era íngreme, mesmo daquele lado do Punho, que tinha a inclinação menos pronunciada. No meio da subida, os cães começaram a latir e a puxá-lo, julgando que iriam ser alimentados embreve. Em vez disso, fez com que saboreassem um pouco de sua bota, e deu uma chicotada no animal grande e feio que tentou mordê-lo. Depois de amarrar os cães, foi fazer o relatório. – As pegadas estavam lá como o Gigante tinha dito, mas os cães não encontraram o cheiro – disse a Mormont, diante de sua grande tenda preta. – Junto ao rio, daquela maneira, podiam ser pegadas velhas. – Pena. – O Senhor Comandante Mormont tinha a cabeça calva e uma grande e hirsuta barba grisalha, e soava tão cansado quanto parecia estar. – Podíamos ter ficado todos melhores com um pouco de carne fresca. – O corvo em seu ombro inclinou a cabeça e ecoou: “Carne. Carne. Carne”. Podíamos cozinhar os malditos cães, pensou Chett, mas manteve a boca fechada até que o Velho Urso o mandasse embora. E essa é a última vez que vou precisar inclinar a cabeça a esse aí, pensou consigo mesmo, com satisfação. Parecia-lhe que estava ficando ainda mais frio, coisa que teria jurado não ser possível. Os cães aninhavam-se uns contra os outros, com um ar infeliz, sobre a lama dura e congelada, e Chett quase se sentiu tentado a engatinhar para o meio deles.

Em vez disso, envolveu a parte de baixo do rosto em um cachecol de lã preto, deixando entre as voltas uma fenda para a boca. Descobriu que ficava mais quente se continuasse em movimento, e deu uma lenta volta no perímetro, compartilhando um par de mastigadas de um maço de folhamarga com os irmãos negros que estavam de guarda e ouvindo o que eles tinham a dizer. Nenhum dos homens do turno do dia fazia parte de seus planos; mesmo assim, achou que era bom ter alguma ideia do que eles pensavam. Na maior parte, o que eles pensavam era que fazia um frio de lascar. O vento começou a soprar com mais força à medida que as sombras foram se alongando. Fazia umsom alto e fino, enquanto tremia através das pedras da muralha anelar. – Detesto esse som – disse o pequeno Gigante. – Parece um bebê na moita, chorando por leite. Quando terminou a volta e regressou para junto dos cães, encontrou Lark à sua espera. – Os oficiais tão outra vez na tenda do Velho Urso, numa grande discussão sobre qualquer coisa. – É o que eles fazem – disse Chett. – São bem-nascidos, todos menos Blane, e embebedam-se compalavras em vez de vinho. Lark aproximou-se de esguelha. – O cérebro-de-queijo não para de falar do pássaro – preveniu, olhando em volta para se certificar de que não havia ninguém por perto. – Agora anda perguntando se guardamos grãos para o maldito bicho. – É um corvo – disse Chett. – Come cadáveres. Lark deu um sorriso. – O dele, de repente? Ou o seu. Chett achava que precisavam mais do grandalhão do que de Lark. – Deixa o Paul Pequeno quieto. Faça a sua parte, ele vai fazer a dele. O ocaso já se espalhava pela floresta quando Chett conseguiu se livrar do homem das Irmãs e se sentou para afiar a espada. Era um trabalho difícil com as luvas calçadas, mas não ia tirá-las. Com o frio que fazia, qualquer imbecil que tocasse o aço com a mão nua perderia um pedaço de pele.

Os cães ganiram quando o sol se escondeu. Deu-lhes água e xingamentos. – Mais meia noite e podem encontrar sozinhos o banquete de vocês. – A essa altura, já sentia o cheiro do jantar. Dywen estava pregando tediosamente junto à fogueira, quando Chett recebeu seu pedaço de pão duro e uma tigela de sopa de feijão e bacon das mãos de Hake, o cozinheiro. – A floresta está silenciosa demais – estava dizendo o velho lenhador. – Nada de rãs perto do rio, nada de corujas no escuro. Nunca ouvi extensão de árvores mais morta do que esta. – Esses seus dentes parecem bastante mortos – disse Hake. Dywen estalou os dentes de madeira. – E também nada de lobos. Antes havia, mas já não há. Para onde vocês acham que eles foram? – Para algum lugar quente – disse Chett. Da dúzia de irmãos sentados junto à fogueira, quatro eram seus. Dirigiu a todos eles um olhar duro de viés enquanto comia, para ver se algum mostrava sinais de poder acovardar-se. Adaga parecia bastante calmo, sentado em silêncio e afiando a lâmina de sua arma, como fazia todas as noites. E Doce Donnel Hill era todo gracejos fáceis. Tinha dentes brancos, gordos lábios vermelhos e madeixas amarelas, que usava em artística desordem em volta dos ombros, e dizia ser bastardo de um Lannister qualquer. Talvez até fosse. Chett não tinha uso nenhum para dar a rapazinhos bonitos ou bastardos, mas Doce Donnel parecia capaz de se aguentar. Tinha menos certezas quanto ao forrageiro que os irmãos chamavam de Serrote, mais pelo modo como roncava do que por qualquer coisa que tivesse a ver com árvores. Naquele momento, parecia tão inquieto que podia bem não voltar a roncar. E Maslyn era pior. Chett via suor escorrendo por seu rosto, apesar do vento gelado. As pérolas de umidade cintilavam à luz da fogueira, como uma porção de pequenas joias molhadas.

Maslyn, além disso, não comia, estava apenas fitando a sopa como se seu cheiro estivesse a ponto de fazê-lo vomitar. Vou ter de vigiar aquele, pensou Chett. – Reunir! – O grito surgiu de súbito, vindo de uma dúzia de gargantas, e rapidamente se espalhou até todos os recantos do acampamento no alto do monte. – Homens da Patrulha da Noite! Reunir junto da fogueira central! Franzindo o cenho, Chett terminou a sopa e seguiu os outros. O Velho Urso estava em pé junto da fogueira, com Smallwood, Locke, Wythers e Blane alinhados em fila atrás dele. Mormont usava um manto de espessas peles negras, e o corvo estava empoleirado em seu ombro, alisando suas penas negras. Isso não pode ser bom. Chett enfiou-se entre o Bernarr Castanho e alguns homens da Torre Sombria. Depois de todos se reunirem, à exceção dos vigias na floresta e dos guardas na muralha anelar, Mormont pigarreou e escarrou. O cuspe congelou antes de chegar ao chão. – Irmãos – disse ele –, homens da Patrulha da Noite. “Homens!”, guinchou o corvo, “Homens! Homens!”. Ele prosseguiu: – Os selvagens estão em marcha, seguindo o curso do Guadeleite para fora das montanhas. Thoren crê que sua vanguarda estará aqui dentro de dez dias. Seus saqueadores mais experientes estarão comHarma Cabeça-de-Cão nessa vanguarda. Os outros provavelmente formarão uma tropa de retaguarda, ou então viajarão bem perto do próprio Mance Rayder. Nos outros pontos, os guerreiros deles estarão muito espalhados ao longo da linha de marcha. Têm bois, mulas, cavalos, mas poucos. A maior parte deles estará a pé, mal armada e sem treino. É mais provável que as armas que transportam sejam de pedra e osso do que de aço. Estão sobrecarregados com mulheres, crianças, rebanhos de ovelhas e cabras, e todos os seus bens materiais. Em suma, embora sejam numerosos, são vulneráveis… e não sabem que estamos aqui. Ou pelo menos temos que rezar para que não saibam. Eles sabem, pensou Chett. Seu maldito saco velho de pus, eles sabem, é tão certo como o nascer do sol.

Qhorin Meia-Mão não voltou, não é? Nem Jarman Buckwell. Se algum deles foi apanhado, sabe bem demais que os selvagens já arrancaram deles uma ou duas palavras a essa altura. Smallwood deu um passo à frente. – Mance Rayder planeja quebrar a Muralha e levar uma guerra sangrenta aos Sete Reinos. Bem, esse é um jogo que pode ser jogado por dois. De manhã, levamos a guerra até ele. – Partimos à alvorada, com todas as nossas forças – disse o Velho Urso, enquanto um murmúrio percorria a assembleia. – Avançaremos para o norte, contornando depois pelo oeste. A vanguarda de Harma já terá passado há muito pelo Punho quando virarmos. O sopé das Presas de Gelo está repleto de vales estreitos e sinuosos, perfeitos para emboscadas. A linha de marcha deles vai se estender ao longo de muitos quilômetros. Vamos cair sobre eles em vários locais ao mesmo tempo e obrigá-los a jurar que somos três mil homens, e não trezentos. – Atacaremos com força, e estaremos longe antes que seus cavaleiros consigam se organizar para nos enfrentar – disse Thoren Smallwood. – Se vierem em nosso encalço, vamos lhes dar o que fazer durante algum tempo, e depois daremos meia-volta para atacar a coluna novamente, mais abaixo. Queimaremos suas carroças, dispersaremos seus rebanhos e mataremos tantos selvagens quantos pudermos. O próprio Mance Rayder também, se o encontrarmos. Se quebrarem e voltarem às suas cabanas, ganhamos. Se não, vamos atormentá-los ao longo de todo o caminho até a Muralha, certificando-nos de que deixem um rastro de cadáveres marcando seu progresso. – Eles são milhares – gritou alguém atrás de Chett. – Vamos morrer. – Era a voz de Maslyn, verde de medo. “Morrer”, gritou o corvo de Mormont, batendo as asas negras. “Morrer, morrer, morrer.” – Muitos de nós, sim – disse o Velho Urso. – Talvez todos.

Mas, assim como outro Senhor Comandante disse há mil anos, é por isso que nos vestem de preto. Lembrem-se de suas palavras, irmãos. Pois somos as espadas na escuridão, os vigilantes nas muralhas… – O fogo que arde contra o frio. – Sor Mallador Locke puxou a espada. – A luz que traz consigo a alvorada – responderam outros, e mais espadas foram desembainhadas. E então todos eles estavam pegando as armas, e eram quase trezentas espadas erguidas para o céu e outras tantas vozes gritando: “A trombeta que acorda os que dormem! O escudo que defende os reinos dos homens!”. Chett não teve outra escolha a não ser juntar sua voz à dos outros. Havia uma neblina no ar, proveniente da respiração dos homens, e a luz da fogueira rebrilhava no aço. Sentiu-se contente por ver que Lark, Pé-Leve e Doce Donnel Hill também se juntavam, como se fossem tão tolos quanto os demais. Isso era bom. Não era sensato chamar a atenção quando a hora estava tão próxima. Quando os gritos silenciaram, voltou a ouvir o som do vento cutucando a muralha anelar. As chamas rodopiaram e estremeceram, como se também elas tivessem frio e, no súbito silêncio, o corvo do Velho Urso crocitou sonoramente e mais uma vez disse: “Morrer”

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