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A Torre das Almas – Eduardo Spohr

Nada de torres de ouro, catedrais cintilantes ou campos floridos. Esta história começa em um ambiente bem mais singelo – uma praça de subúrbio, sob o sol vespertino, ao som de crianças jogando bola em um campinho de futebol ali perto. Sentada em um banco de concreto, diante de uma mangueira sem frutos, Kaira observava o conjunto habitacional com seus varais apinhados e antenas de TV. Era uma bela jovem (ou assim parecia), ruiva clara, de cabelos longos e olhos azuis. Sardas pontilhavam a tez sob os olhos. Vestiase despojada, com jeans, camiseta e um fino casaco de moletom. Em pé, ao seu lado, um homem alto fazia a segurança. Seu nome era Zarion, um querubim de corpo atlético, pele negra e olhar felino. Usava roupas esportivas, para facilitar os movimentos em caso de luta, com tênis de corrida e jaqueta de lycra. Um táxi de luxo – quatro portas, último modelo – estacionou na rua atrás da pracinha. Mariah saiu do automóvel com todo o cuidado para não sujar o tailleur verde-musgo. Prendeu os cabelos negros em um coque e caminhou na direção de sua líder. – E então, quem falta? – os serafins às vezes lembram diretores de empresas cobrando os relatórios do mês. Mas era a ishim Kaira quem chefiava a missão. – Ismael – respondeu Zarion. Ele era um anjo guerreiro, e como qualquer soldado tanto suas respostas quanto ações eram precisamente diretas. – Não dá para acreditar que Gabriel indicou um carrasco para nos acompanhar. A casta reúne a maior corja de desagradáveis que eu já conheci – os serafins também gostam de reclamar. É uma mania inerente à sua ordem. – O que conseguiu na polícia? – perguntou Kaira, censurando a conversa. – Não mais do que já sabíamos. A mulher que viemos investigar suicidou-se há três dias. Uma senhora simpática, alegre, adorada por todos, acima de qualquer suspeita, 58 anos. Os vizinhos não entenderam como ela pôde se atirar da janela. Até aí, sinceramente, não sei por que nos mandaram para cá.


– É óbvio – disse uma quarta voz, que se aproximava pela pracinha. – Ela foi induzida ao suicídio. – Ismael – reconheceu Kaira. O recém-chegado era um hashmalim, a casta celeste de juízes e executores. Em sua forma material, chamada de avatar, Ismael tinha a aparência madura, em contraste com seus aliados, mais jovens fisicamente. A pele era morena, como a dos povos semitas, e o corpo era magro, ossudo. A voz grave dava a ele um ar magistral. – Nunca escutei uma hipótese tão ridícula – alfinetou Mariah, em resposta a Ismael. – E mesmo que fosse, o que nós, anjos, temos a ver com isto? – É o que vamos descobrir – decidiu Kaira. Era uma ishim, mestra na província do fogo. Os ishim ocupavam a linha de frente do exército de Gabriel, desde que o arcanjo refugiara-se na Cidadela do Fogo, fazendo dali sua fortaleza na guerra civil contra o príncipe Miguel. A desconfiança de Mariah a respeito de Ismael não era de todo infundada. Os hashmalim são os anjos da punição, e seus instintos os colocavam diretamente contra os ideais humanistas de Gabriel. Ismael declarara-se aliado aos rebeldes, abertamente, mas isso não o livrava do preconceito. – Tem alguma coisa aí dentro – pressentiu Ismael, deslizando os dedos sobre os números desgastados da porta. – Que coisa? – estranhou Kaira. – Nada que não possamos enfrentar. – Zarion – a ruiva deu uma ordem, e o querubim forçou a maçaneta, arrebentando o trinco sem muita dificuldade. No apartamento minúsculo, de um só quarto e banheiro, a bagunça reinava. A polícia já estivera ali, mas provavelmente decidira não alterar a desordem – a televisão estava em pedaços, roupas íntimas cobriam o chão e papéis rasgados forravam a cama. Uma grossa camada de poeira sujava a superfície dos móveis. – Não tem ninguém aqui – constatou Mariah. O que ela queria era desafiar Ismael. Zarion começou a farejar, procurando indícios da passagem de qualquer criatura não humana – os querubins têm sentidos de predador, e podem rastrear suas presas por vários quilômetros. Kaira investigou os papéis.

Mariah andou até o banheiro. – O tecido é mais suave deste lado. Isto é comum? – Eu disse que tinha alguma coisa neste apartamento – avisou Ismael, empurrando Mariah para o lado. Entrou no lavatório, tocou os azulejos, correu os olhos sobre a pia e, de repente, sua visão se perdeu no reflexo do espelho. – Algum pressentimento? – perguntou Kaira. Os hasmalim são hábeis em perceber indícios e impressões espirituais. – Acho que encontramos uma testemunha que os policiais não puderam interrogar. – Onde? Além do tecido? – Justamente. Não sei bem o que é. Posso me desmaterializar agora, mas gastarei muita energia na volta. Acha que vale a pena? – Mariah pode regular a membrana, temporariamente – Kaira olhou para a serafim. – Mas eu… – Mariah não queria facilitar as coisas para Ismael, mas entendeu que era uma ordem. – Está bem. Com uma simples concentração mental, a maioria dos serafins é capaz de distender o tecido da realidade, a fronteira invisível que divide o mundo físico do espiritual, facilitando a manifestação de efeitos místicos diversos, incluindo a materialização e desmaterialização de entidades celestes. Mesmo contrariada, Mariah ampliou suas qualidades mentais e sentiu como se esticasse um fragmento queimado de borracha, tornando-o mais frágil. O corpo de Ismael formigou, foi ficando dormente, até que seu avatar dissipou-se. No instante seguinte, estava em um banheiro, igual àquele de onde saíra, à exceção de um jovem magricelo agachado na banheira, tremendo, com os punhos cortados. Não deveria ter mais do que 20 anos: era branco, pálido, de cabelos castanhos, e estava nu! Quando viu Ismael, ele se levantou. – Onde vocês estavam? Por que me deixaram aqui? Deixa eu sair, me deixa morrer! – o jovem se desesperou. – Me tira daqui, pelo amor de Deus. Quero morrer! – Devagar – disse Ismael. – Vamos com calma. Vocês quem? – O anjo das trevas, porra! Ele me prendeu aqui. Por que não me deixou morrer, caralho! Eu só quero morrer – o rapaz aproximou-se de Ismael, mas ele não tinha muita paciência com almas penadas. Quando o jovem veio ao seu alcance, Ismael o agarrou pelo pescoço e o jogou contra o espelho, numa pancada violenta.

No plano material, Kaira, Zarion e Mariah sentiram a parede tremer, tal qual um fenômeno poltergeist – na verdade, era exatamente isso. Ismael prendeu o fantasma pela garganta, ameaçando enforcá-lo. – Me larga, cacete! Deixa eu ir embora, estou preso nesta merda. Eu quero morrer! – Nem isto você soube fazer direito, seu pedaço de bosta! São imbecis como você que corrompem a Criação. Sabe o que a gente costuma fazer com suicidas? Sabe? – gritou. – Não, não, não! – o rapaz berrava de medo, completamente apavorado. Ismael abaixou o tom de voz para, enfim, persuadi-lo. – Para começo de conversa, corrija o vocabulário. Quem te ensinou este palavreado? – O que você quer? – gaguejou o fantasma. – O que aconteceu? O que foi que você viu? Que história é esta de anjo das trevas? – Você vai me tirar deste lixo? Vai me deixar morrer? – Você quer morrer? Acha que vai sair daqui direto para o Paraíso? – Eu só quero morrer! – esgoelou-se o rapaz. Ele falava coisas sem nexo, e Ismael o lançou contra a banheira, para avivar suas ideias. – Eu te tiro daqui – concordou Ismael. – Pode começar a falar. Os hashmalim têm esta habilidade medonha de aprisionar certas almas não só em determinados lugares como em objetos materiais. Isso inclui os corpos físicos de pessoas vivas e até avatares! O efeito é semelhante àquele conhecido como possessão. – Era uma coisa como você. Não igual, mas com a mesma energia. Dá pra sentir – o jovem relaxou enquanto falava. – Capuz negro, rosto invisível, olhos vermelhos, asas… Ele me jogou dentro da velha. Na hora, eu nem percebi. Acordei, e de repente estava vivo de novo. Eu me desesperei. Olhei para janela, me joguei. Nem pensei. – E depois? – O anjo das trevas me trouxe de volta para cá, e me trancou neste banheiro.

Por que, porra? Por que eu não consigo sair? Por que eu não posso sair? Queima de arquivo, na certa – imaginou Ismael. – Como não se pode matar um espírito, a alternativa é prendê-lo. – Preferia estar no inferno – o suicida voltou a ficar agressivo. – Eu quero morrer! Os hashmalim não são exatamente bondosos, e têm um peculiar senso de justiça. Mais para encerrar a gritaria do que para socorrer o fantasma, Ismael sugou a alma com as mãos, e a guardou consigo. Os anjos da punição podem reter um número limitado de almas, por algum tempo. Investigação encerrada, Ismael materializou-se no banheiro, passando ao mundo físico enquanto o tecido estava delgado. Fatigado pelo gasto de energia, correu até a geladeira e bebeu uma caixa inteira de leite. – Notícias do além? – apressou-se Kaira. – Só uma – respondeu Ismael, ofegante. – Foi um anjo da minha casta. Já era noite quando Kaira, Ismael, Mariah e Zarion tomaram o metrô que deixava o subúrbio, ainda perdidos sobre o que fazer ou para onde ir. O vagão estava vazio, o que era comum àquela hora, dando aos celestiais a privacidade necessária para discutirem sobre a missão. – Não faz sentido para mim – avaliou Kaira. – Se os hashmalim podem capturar a alma de qualquer ser humano, estando eles vivos ou mortos, então porque precisavam de um fantasma para induzir a vítima ao suicídio? – A alma humana tem poderes ainda não totalmente compreendidos por nós, nem por eles – ponderou Ismael. – Magia, paranormalidade, fé… Se alguns mortais podem repelir o assalto de demônios e espíritos malignos, porque também não poderiam evitar o ataque de anjos? – Outra teoria idiota – provocou Mariah. – Nós somos servos de Deus. – Todos nós, tem certeza? – manobrou Ismael. – Então por que você está lutando esta guerra, Mariah? – Ei – chamou Zarion, mudando de assunto. – Não deveríamos estar indo para o centro da cidade? – Não estamos? – Kaira se levantou. – Acabamos de passar direto por uma estação, sem parar. – O trem está descontrolado – percebeu Ismael. Zarion enfiou a mão dentro da jaqueta e materializou sua espada, tirando uma lâmina de meio metro de onde não havia absolutamente nada. – Tem alguém se aproximando. Há passos no teto – o querubim ergueu a espada e assumiu posição defensiva.

Kaira inflamou as mãos com tremulantes labaredas vermelhas. – Zarion, tire os outros daqui. Agora! – ordenou a líder. O guerreiro arrombou a porta traseira, agarrou Ismael e Mariah e os arrastou para o vagão logo atrás. Kaira sentiu cheiro de pólvora e escutou um som engasgado além do forro de aço. Não esperou para ver o que era. Apontou os dedos para cima e disparou um jato de chamas, derretendo o metal como manteiga na brasa. O fogo fez o teto desabar, e junto ao ferro derretido, caiu uma celestial em forma humana, desnorteada pelo calor. Tinha cabelos curtos, louros, e carregava duas pistolas de grosso calibre. Na outra composição, Zarion decidiu voltar para ajudar sua líder, mas quando ia cruzar a porta uma lâmina curva, afiadíssima, quase decepou sua cabeça. Recuando, viu entrar no vagão um soldado inimigo, de espada na mão, cabelos longos e claros. O corpo magro o tornava extremamente veloz. Não vestia roupas modernas – seu traje lembrava um quimono de algodão cru, branco, preso por um cinto dourado. – Aonde pensa que vai, adorador de animais? – os subordinados ao arcanjo Miguel assim se referiam aos seguidores de Gabriel.

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