| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Torre de Ebano – John Fowles

David chegou a Coëtminais na tarde após aquela em que desembarcara de avião em Cherburgo e seguira de carro até Avranches, onde passara a noite de terça-feira. Isso lhe permitira uma perambulação agradável, cobrindo a distância que faltava, a visão distante do sonho espetacular e espiralado do Monte St. Michel, passeios em torno de St. Maio e Dinan, depois rumo ao sul naquele tempo esplêndido de início de setembro, percorrendo o campo de vegetação renovada. Gostara imediatamente das paisagens tranquilas, plantadas e de colheita feita, bem definidas e podadas concentradas em si próprias e evolando o aroma de fertilidade gaste. Por duas vezes estacara, observando combinações especialmente agradáveis de tonalidade e profundidade — faixas paralelas de aquarela com notas a lápis de ampliação em seu punho firme. Embora houvesse alguma indicação da origem das formas nessas anotações verbais — que uma faixa de cor se ligava a um campo, àquela muralha ensolarada, ao morro distante — não desenhou coisa alguma. Também registrou a data, a hora do dia e o tempo predominante, antes de prosseguir. Sentia-se um pouco culpado por estar-se divertindo tanto, achar-se ali tão inesperadamente a sós, sem Beth e depois de ter criado tamanho problema; mas o dia, a sensação de descoberta e, está claro, o objetivo de todo aquele exercício a se apresentar de modo formidável e, no entanto, agradável, bem à frente, tudo conspirava para conferir-lhe uma ilusão saborosa de liberdade de homem solteiro. E depois os poucos quilômetros finais, atravessando a floresta de Paimpont, um dos últimos remanescentes maiores dos antigos bosques e matas da Bretanha, tudo se apresentava deliciosamente certo: estradas rurais verdes e cobertas de sombras, com vistas ensolaradas e ocasionais pelas trilhas estreitas que serpenteavam entre as árvores sem fim. Os fatos referentes à fase mais recente e celebrada do velho ajustaram-se imediatamente. Nenhuma medida de dedução inteligente ou de leitura poderia suplantar aquela vivência de primeira mão. Muito antes de chegar David sabia que não perdera a viagem. Enveredou por trilha florestal ainda menor, uma voie communale onde não se via vivalma; e mais ou menos um quilômetro após tê-la tomado chegou ao letreiro que lhe havia sido prometido. Manoir de Coêtminais. Chemin prive. Via-se ali um portão branco, que teve de abrir e fechar. Mais ou menos meio quilômetro de caminhada novamente pela floresta e descobriu o caminho impedido, pouco antes de as árvores darem para a luz do sol e umpomar relvado? por outro portão. Havia letreiro pregado na barra de cima e suas palavras fizeram-no sorrir por dentro, já que por baixo do letreiro Chin méchant, estava em inglês: Strictly no visitors except by prior arrangement. Mas como a confirmar que o letreiro não devia ser desprezado encontrou o portão trancado a cadeado pela parte interna. Deviam ter-se esquecido de que ele chegaria àquela tarde. Por momentos sentiu-se perturbado. Teria o velho demônio esquecido por completo sua vinda? Ali ficou na sombra profunda, fitando a luz do sol além. Não teria podido esquecer-se, pois David lhe enviara um bilhete de aviso e agradecimentos antecipados na semana anterior. Em algum lugar próximo, nas árvores por trás, um pássaro emitiu seu curioso canto de três sílabas como se fosse uma flauta de lata, muito mal tocada.


Olhou ao redor mas não conseguiu divisá-lo. Não era ave inglesa e de algum modo obscuro isto fez David lembrar-se de que ele o era. Cão de guarda ou não, não se podia… voltou para o automóvel, desligou o motor e fechou as portas, regressando em seguida ao portão e passando por cima do mesmo. Seguiu a pé pelo caminho de acesso que atravessava o pomar, cujas árvores antigas estavam cheias de maçãs pequenas e outras, vermelhas, de fazer sidra. Não se distinguia qualquer sinal de cachorro, latido algum. O manoir, ilhado e ensolarado na abertura em meio ao mar de carvalhos e bétulas imensas, não era exatamente o que ele esperava, talvez porque falasse pouquíssimo francês — e mal conhecia o campo em volta de Paris — e traduzira a palavra de modo visual, bem como verbal, em termos de uma manor inglesa. Na verdade tinha mais a aparência de fazenda que já fora próspera; nada se notava de muito aristocrático na fachada de emboço cor de ocre pálido amplamente treliçado por vigas avermelhadas e contrabalançadas por venezianas em marrom-escuro. Para o nascente via-se pequena ala em ângulo reto, parecendo construção feita em data mais recente. Mas o conjunto tinha encanto, era antigo e compacto uma face cálida de caráter, uma boa sensação de solidez. Simplesmente contara com algo mais grandioso. Notava-se um pátio de saibro em frente à ala setentrional da casa. Gerânios ao pé da parede, duas antigas rosas trepadeiras, um salpicado de pombos brancos sobre o telhado; todas as persianas estavam fechadas, o lugar adormecido. Mas a porta principal encimada por escudo de pedra heráldica, os entalhes apagados pela intempérie e colocada de modo excêntrico, voltada para a extremidade ocidental da casa, achava-se aberta. Em passos cautelosos David atravessou o saibro até lá. Não havia aldrava nem sinal de campainha; tampouco, felizmente, qualquer sinal do cachorro com que fora ameaçado. Viu o saguão com lajes de pedra, a mesa de carvalho ao lado de antiga escadaria de madeira onde os corrimões exibiam seu aspecto medieval, dando para cima. Mais além, na extremidade distante da casa, outra porta aberta emoldurava o jardim cheio de sol. Hesitou, percebendo que chegara mais cedo do que anunciara e depois bateu na porta principal com os nós dos dedos. Alguns segundos depois, compreendendo a futilidade do som assim emitido, atravessou o umbral. À direita estendia-se uma sala de estar comprida, parecendo-se a uma galeria. As divisões antigas deviam ter sido derrubadas, mas parte dos pilares negros e principais fora mantida e se apresentava em destaque contra as paredes brancas, ostentando-se como um esqueleto. O efeito era levemente Tudor, muito mais inglês do que o exterior da casa. Peça muito bela de espaço denso, porém arejado, móveis antigos de madeira entalhada, jarras de flores, um grupo de poltrona e dois sofás mais além; tapetes roxos e vermelhos, antigos e, de modo inevitável, a arte… o que não constituía surpresa — só que alguém a pudesse encontrar com tanta naturalidade — já que David sabia que havia pequena e distinta coleção ao lado do trabalho artístico do velho. Os nomes famosos já se anunciavam. Ensor, Marquet, aquela paisagem lá ao canto deve ser um Derain “fresco”, e sobre a lareira… Era preciso anunciar-se, entretanto.

Percorreu o chão de pedra ao lado da escadaria até a porta no canto distante do aposento. Lá se estendia um gramado amplo, canteiros, grupos de arbustos, algumas árvores ornamentais. Achava-se protegido do norte por muro alto e David percebeu por ali outra fileira de edifícios mais baixos, ocultos da parte dianteira da casa; paióis e estábulos de vacas, de quando aquele lugar fora fazenda. No meio do gramado via-se uma catalpa podada na forma de enorme cogumelo verde e à sua sombra, viam-se, como em pose, conversando, uma mesa de jardim e três cadeiras de vime. Mais além, em fechado círculo de calor, duas jovens despidas estavam deitadas lado a lado na grama. A que estava mais distante, semi-oculta, achava-se de costas, como a dormir. A mais próxima deitara sobre o estômago, o queixo apoiado nas mãos, lendo um livro. Usava chapéu de palha de aba larga, a copa ostentando alguma fita frouxa em vermelho-vivo. Ambas estavam bem tisnadas, de modo uniforme, e pareciam não perceber o estranho que se colocara no umbral à sombra, a vinte metros de distância. Ele não entendia que não houvessem ouvido o ruído de seu automóvel, no silêncio da presta. Mas realmente chegara mais cedo do que na “hora de chá” que propusera na carta; ou talvez houvesse uma campainha à porta, algum criado que devesse tê-lo ouvido. Por alguns segundos observou as tonalidades quentes das duas figuras femininas indolentes, o verde à sombra do catalpa e o verde da grama, o carmesim intenso da fita no chapéu, o muro roxo mais além, com suas fruteiras antigas de latada. Depois fez meia-volta e regressou à porta principal sentindo-se mais divertido do que embaraçado. Voltou a pensar em Beth, como ela teria adorado esse mergulho direto na lenda… o velho fauno imoral e as famosas tardes que passava. Onde entrara pela primeira vez notou de imediato o que, na curiosidade de antes, deixara de enxergar. Uma campainha de bronze achava-se no chão de pedras, por trás de uma das ombreiras da porta. Apanhou-a então e tocou — logo desejando não o ter feito, pois o tilintar estridente e colegial atacou a casa em silêncio, sua paz ensolarada. E nada ocorreu, não ouviu passos lá em cima, nenhuma porta se abriu na extremidade distante do aposento comprido em que se achava. Continuou esperando no umbral. Talvez decorresse meio minuto e depois uma das jovens, não sabia qual delas, apareceu à porta do jardim e veio em sua direção. Usava agora um gala-biya simples de algodão branco, era jovem esguia com pouco mais do que estatura média e vinte anos de idade, cabelos castanhos e dourados, braços regulares; olhar firme, olhos bastante grandes e estava descalça. Era iniludivelmente inglesa. Estacou a alguma distância dele, ao pé da escada. — David Williams? Ele fez um gesto, como a pedir desculpas. — Estavam à minha espera? — Sim.

Ela não estendeu a mão para cumprimentá-lo. — Sinto muito entrar assim, furtivo. O portão de vocês, lá fora, está trancado. Ela sacudiu a cabeça. — É só empurrar. O cadeado. Sinto muito — não parecia sentir coisa alguma e estar desconcertada. Disse, então: — O Henry está dormindo. — Nesse caso, pelo amor de Deus, não o acorde — pediu David, e sorriu. — Cheguei umpouco cedo. Julguei que seria mais difícil encontrar este lugar. Ela o examinou por momentos, o pedido do recém-chegado, o de ser bem recebido. — Ele fica uma porcaria, se não puder fazer a sesta. David sorriu. — Olhe, eu aceitei a carta dele literalmente… no que dizia de me acomodar aqui, sabe?… Mas se… Ela olhou mais além de David, pela porta aberta, depois voltou a examinar-lhe o rosto, comleve toque indiferente de indagação. — E sua esposa? Ele explicou que Sandy apanhara catapora, ocasionando assim uma crise no último instante. — Ela vai de avião a Paris na sexta-feira. Se minha filha houver melhorado. Eu a apanharei lá. Os olhos firmes voltaram a avaliá-lo. — Nesse caso vou mostrar-lhe a casa? — Se tem a certeza… — Não há problema. Ela fez um gesto vago para que a seguisse e voltou para a escada, muito simples, alva, estranhamente modesta e serviçal após aquele primeiro olhar. — Ele comentou: — Sala maravilhosa. Ela tocou o corrimão enegrecido pela idade, que subia ao lado deles. — Isto é do século quinze.

Dizem. — Mas não olhou para ele, nem para o aposento, e não fez pergunta alguma, como se David houvesse percorrido apenas alguns quilômetros na viagem para chegar lá. No topo da escada entrou para um corredor à direita. Um comprido tapete de junco estendia-se pelo meio do mesmo. Ela abriu a segunda porta a que chegaram e deu um passo para dentro, segurando a vela, observando, estapafurdiamente parecida à patronne no hotel onde ele se hospedara na noite anterior. David quase contava ouvi-la determinar o preço. — O banheiro fica ao lado. — Está muito bom. Vou apanhar meu automóvel. — Como desejar. Ela fechou a porta. Havia naquela jovem algo sobrenaturalmente sério, quase victoriano, a despeito do garabiya. David sorriu como incentivo enquanto regressavam pelo corredor, rumo às escadas. — E você é…? — Henn me chama de A Ratinha. Finalmente surgira leve secura em seu semblante, ou seria um desafio, não podia ter certeza. — Faz muito que o conhece? — Desde a primavera. Ele procurou despertar alguma solidariedade. — Eu sei que ele não adora este tipo de coisa. O dar de ombros, nela, foi quase imperceptível. — Basta saber enfrentá-lo. Não passa de latidos, na maior parte. Ela procurava dizer-lhe algo, e dizê-lo com muita clareza; talvez que se a vira no jardim era aquela a distância verdadeira que sabia manter quanto às visitas. Afigurava-se a algum tipo de equivalente a sua anfitrioa mas mesmo assim se comportava como se a casa não tivesse grande coisa a ter com ela. Chegaram ao pé das escadas e ela voltou-se para o jardim… — Lá fora? Meia hora? Eu o desperto às quatro. David voltou a sorrir observando o tom de voz da jovem, como o de uma enfermeira, tomindiferente quanto a tudo que o mundo externo pudesse pensar do homem a quem ela chamara “Henry” e “ele”.

— Ótimo. — Fique comme chez vous. Certo? A jovem hesitou por instante, como se percebesse que estava sendo distanciada e sibilina além da conta. Percebia-se até um leve traço de desconfiança e a sombra muito distante de um sorriso acolhedor. Depois baixou o olhar, voltou-se e seguiu em silêncio rumo ao jardim; ao passar pela porta o galabiya perdeu por momentos seu caráter opaco contra a luz do sol mais além; e era uma sombra despida e efêmera. David percebeu então que esquecera de perguntar sobre o cachorro, mas era de presumir que a jovem o houvesse providenciado e procurou lembrar-se de quando fora menos acolhido em casa alheia… como se houvesse presumido em demasia, quando tal não ocorrera — e, com certeza, não a presença dela. Fora informado de que o velho deixara tudo aquilo para trás. Voltou, passando pelo pomar até o portão. Pelo menos ela não o enganara naquele particular. O fecho do cadeado abriu-se, assim que o puxou. Tomou então o volante e estacionou à sombra da castanheira em frente à fachada da casa, desembarcou a bolsa de objetos pessoais e pasta de documentos, bem como um terno comum, que trazia ao cabide. Relanceou o olhar pela porta, fitando o jardim por trás, ao subir, mas as duas jovens pareciam ter sumido. No corredor acima deteve-se para olhar duas pinturas que observava quando ela lhe mostrara a parte de cima da casa, e não conseguira descobrir o pintor… mas agora, era bem claro, tratava-se de Maximilien Luce. Velho de sorte, ter comprado antes que a arte se tornasse um ramo da cobiça, fazendo assim um investimento astuto. David esqueceu-se da recepção fria que lhe fora dispensada. Seu quarto era mobiliado com simplicidade, a cama de casal feita de algum estilo rural e canhestro de móveis do Império, o guarda-roupa de nogueira cheio de cupins, uma cadeira, a antiga chise-longue com estofado verde e fatigado; espelho emoldurado, manchas no amálgama de mercúrio. No aposento tresandava odor levemente bolorento, demonstrando que era pouco usado; fora mobiliado com peças tiradas dos leilões locais. O incongruente era o Laurencin assinado, acima da cama. David tentou suspendê-lo do gancho para ver o quadro em luz melhor mas a moldura estava aparafusada à parede. Sorriu e sacudiu a cabeça. Se ao menos a pobre Beth estivesse ali… David fora advertido pela casa editora londrina — e pelo sócio principal da mesma, que organizara aquela empreitada — dos recifes, muito mais formidáveis do que os portões trancados, a dificultarem qualquer visita a Coètminais. A irascibilidade, os nomes que não devia mencionar em hipótese alguma, a linguagem grosseira, os vexames a que estaria sujeito; não haviam deixado dúvida alguma de que esse “grande homem” também sabia ser o maior dos filhos da puta. Era-lhe igualmente possível, ao que parecia, mostrar-se encantador — caso gostasse da pessoa. Ingênuo como criança em alguns modos, dissera o editor. E mais a recomendação: não discuta com ele sobre a Inglaterra e os ingleses, basta aceitar que ele exilou-se por toda a vida e não tolera que alguém o lembre do que pode ter perdido.

E por fim: ele quer desesperadamente que façamos o livro. David não devia deixar-se levar a pensar que o tema desse livro não se importava coisa alguma com a opinião nacional. De muitos modos sua viagem não fora, a rigor, necessária. Já rascunhara a introdução, sabia muito bem o que ia dizer; e existiam os ensaios nos catálogos maiores, principalmente aquele da Retrospectiva Tate 1969… o galardão artístico inglês; também os catálogos de duas apresentações recentes em Paris e o de New York, a pequena monografia de Myra Levey na série Métodos Modernos e a correspondência com Matthew Smith; e toda uma série de entrevistas úteis, concedidas a revistas diversas. Alguns detalhes biográficos ainda estavam por ser esclarecidos, embora pudessem ter sido feitos por carta. Havia, naturalmente, toda uma série de indagações artísticas que se podia apresentar ao grande pintor — ou David teria vontade de fazê-las, mas o velho jamais se mostrara muito prestativo nesse aspecto; na verdade, em grande maioria de casos registrados sobre sua vida apresentara-se inapelavelmente crítico, propositalmente enganador ou pura e simplesmente grosseiro. Aquela, portanto, era de modo fundamental a oportunidade de conhecer o homem que ele passara tempo estudando e cujo trabalho ele admirava, genuinamente e sem qualquer reserva… e o bom que era, poder dizer que o conhecera. Afinal de contas a criatura alcançara agora o destaque maior, era preciso colocá-la juntamente com os Bacons e Sutherlands. Podia-se até afirmar que era o mais interessante de todo esse grupo seleto, embora fosse provável afirmar, falando de causa própria, que ele era apenas o menos maldito dos ingleses. Nascido em 1896, estudante em Slade nos grandes dias do regime Steers-Tonks, pacifista caracteristicamente militante quando fora preciso preencher os cartões de 1916, em Paris (e espiritualmente fora da Inglaterra para todo o sempre) em 1920, depois mais de dez anos na duvidosa — a própria Rússia se bandeara para o realismo socialista — terra de ninguém entre o surrealismo e o comunismo, Henry Breasley tivera outro decênio a esperar até merecer qualquer tipo de reconhecimento sério em seu país — a revelação, durante seus cinco anos de “um exílio para outro” no Gales durante a Segunda Guerra Mundial, dos desenhos feitos na Guerra Civil espanhola. Como a maioria dos artistas Breasley estivera bem à frente dos políticos. Para os ingleses a exposição de 1942, em Londres, de seu trabalho feito a partir de 1937-38 viera, de repente, a fazer sentido; também eles haviam aprendido o que era a guerra, a loucura amarga de dar o benefício da dúvida ao fascismo internacional. Os mais inteligentes sabiam que nada havia de muito presciente sobre seus registros do sofrimento espanhol. Na verdade, em espírito aquilo remontava diretamente a Goya. Mas sua força e habilidade, seu desenho soberbamente incisivo, eram inegáveis. Fizera sua marca, bemcomo se tornara assinalada, ainda que em caráter mais particular, a reputação de Breasley como pessoa “difícil”. A lenda de seu humor negro contra tudo que era inglês e, por convenção, da classe média — ainda mais se tivesse algo a ver com as opiniões oficiais sobre as artes, ou sua administração pública — ficara muito bem esclarecida à altura em que ele voltara a Paris em 1946. Por mais uma década, em seguida, não aconteceu grande coisa a seu nome, em questões de popularidade. Mas ele se tornara artista de quadros colecionáveis e havia um número crescente de admiradores influentes tanto em Paris quanto em Londres, embora, como qualquer pintor europeu, sofresse com a ascendência desenfreada de New York como árbitro mundial nos valores da pintura. Na Inglaterra ele jamais se aproveitara de todo o impacto selvagem, do “sarcasmo negro” famoso dos desenhos espanhóis, mas ainda assim demonstrava autoridade crescente, madureza no trabalho. A maioria dos grandes nus e interiores viera desse período, o humanista desde muito oculto começara a virá tona embora, como sempre, o público se achasse mais interessado pelo aspecto boêmio — os relatos de suas bebedeiras e suas mulheres, transmitidos em meio à perseguição espasmódica que sofria por parte da parcela mais chauvinista e difamatória da Rua Fleet. Antes da década de sessenta, todavia, tal modo de vida já se tornara coisa com leve sabor histórico. Os boatos e realidades de seu estilo de vida divertidos… e até agradavelmente autênticos para o homem vulgar, com sua inclinação a confundir a criação séria com a biografia picaresca, a deixar que o ouvido de Van Gogh venha a obscurecer qualquer tentativa de encarar a arte como lucidez suprema, em vez de melodrama baboso. Deve-se reconhecer que o próprio Breasley não recusou de modo perceptível o pape! que lhe era oferecido; se as pessoas queriam chocar-se, em geral fazia-lhes a vontade. Mas seus amigos mais íntimos sabiam que por baixo dos acessos ocasionais e contínuos de exibicionismo ele mudara muito.

Em 1963 ele comprara a velha manoir em Coètminais e abandonara sua amada Paris. Um ano depois surgiram suas ilustrações de Rabelais, sua última rodada como desenhista puro, em edição limitada que já se tornara um dos livros mais valiosos do gênero, no século atual; e no mesmo ano ele pintou o primeiro dos quadros da série final que viria determinar sua reputação internacional além de qualquer dúvida. Embora sempre houvesse rejeitado a idéia de uma interpretação mística —e nele restava bastante do antigo esquerdista para que qualquer intenção religiosa fosse expulsa — as telas enormes, tanto no sentido literal quanto no metafórico, com seus verdes e azuis dominantes que começavam a sair de seu novo estúdio, arraigavam-se em um Henry Breasley que o mundo exterior até então não soubera adivinhar. De certo modo era como se houvesse descoberto quem realmente era, muito depois da maioria dos artistas com sua capacidade técnica e experiência. Se não se tornara inteiramente recluso, deixara de ser um enfant terrible profissional. Ele próprio, certa feita, chamara as pinturas de “sonhos”; havia com certeza um traço surrealista de seu passado, dos anos vinte, uma queda para as justaposições anacrônicas. De outra vez ele as chamara de tapeçarias e, na verdade, o atelier de Aubusson efetuara trabalhos relacionados a seus desenhos. Havia um sentimento — “um casamento improvável de Samuel Palmer e Chagall”, como afirmara um dos críticos, ao examinar a obra na Retrospectiva Tate — de ecletismo inteiramente absorvido, algo que se tornara evidente por toda a sua carreira mas não chegara à madureza real antes de Coètminais; umlaivo de Nolan, embora o tema fosse muito menos explícito, mais misterioso e arquetipal… “Céltico” fora a palavra usada com frequência, com o reaparecimento do motivo florestal, as figuras e confrontos enigmáticos.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |