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A Torre Negra VII – A Torre Negra – Stephen King

Père Callahan tinha sido o padre católico de uma cidade, ‘Salem‘s Lot era seu nome, que não existe mais em qualquer mapa. Ele não se importava muito com isso. Conceitos como o de realidade tinhamdeixado de ter importância. Este antigo padre tinha agora em seu poder um objeto pagão, uma pequena tartaruga talhada em marfim. Havia uma lasca no bico e um arranhado que lembrava umponto de interrogação no casco, mas apesar disso era uma bonita peça. Bonita e poderosa. Ele podia sentir o poder em sua mão como uma carga elétrica. — Como é bela — sussurrou para o garoto que estava com ele. — É a Tartaruga Maturin? É, não é? O garoto era Jake Chambers, que completara um longo circuito para voltar quase exatamente a seu ponto de partida ali em Manhattan. — Não sei — disse ele. — Ela a chama de sköldpadda. Pode nos ajudar, mas não pode matar os capangas que estão à nossa espera lá dentro. — Apontou a cabeça para o Dixie Pig, sem saber se pretendera se referir a Susannah ou a Mia ao usar o nada inocente pronome feminino ela. Há algum tempo teria dito que isso não importava porque as duas mulheres estavam inseparavelmente atadas. Agora, contudo, achava que tinha importância, ou logo iria ter. — Está pronto? — Jake perguntou ao Père, querendo dizer: Pronto pa- ra enfrentar. Pronto para lutar. Pronto para matar. — Oh, estou — Callahan disse calmamente, pondo a tartaruga de olhos sábios e casco arranhado no bolso da camisa, ao lado das balas extras de revólver que carregava. Depois deu batidinhas na peça habilidosamente trabalhada, para se certificar de que viajaria em segurança. — Vou atirar até as balas acabarem e, se eu ficar sem balas antes que me matem, vou acertálos com a. a coronha da arma. A pausa foi tão breve que Jake nem reparou. Mas nessa pausa, o Branco falou com o padre Callahan.


Era uma força que ele conhecia há muito tempo, desde a época de criança, embora tivesse havido alguns anos de má-fé ao longo do caminho, anos em que sua compreensão daquela força elementar primeiro se embaçara, depois se perdera. Mas aqueles dias tinham passado, o Branco era de novo seu e ele disse obrigado, Deus! Jake sacudia a cabeça, falando algo que Callahan mal conseguia ouvir. E o que Jake dizia não importava. O que aquela outra voz dizia — a voz de alguma coisa (Gan) talvez grande demais para ser chamada de Deus — sim. O garoto tem de continuar, a voz disse a Callahan. Aconteça o que acontecer aqui, dê no que dê, o garoto tem de continuar. Sua parte na história está quase acabada. A dele não. Passaram por uma placa num cavalete de cromo (FECHADO PARA REUNIÃO PARTICULAR), Oi, o amigo especial de Jake trotando entre os dois, as orelhas em pé e o focinho exibindo o habitual sorriso de dentes arreganhados. No alto dos degraus, Jake enfiou a mão no saco de pano que Susannah-Mia trouxera de Calla Bryn Sturgis e agarrou dois pratos — os pratos Orizas. Bateu umcontra o outro, abanou a cabeça ante o tilintar abafado e disse: — Vamos ver as suas armas. Callahan levantou a Ruger que Jake trouxera de Calla Nova York e que agora estava de volta; a vida é uma roda e todos devemos dizer obriga-do. Por um momento o Père colocou o cano da Ruger ao lado da face direita como um duelista. Depois tocou no bolso da camisa, volumoso das balas e da tartaruga. A sköldpadda. Jake abanou a cabeça — Depois que entrarmos, ficamos juntos. Sempre juntos, com Oi no meio. Sempre um trio. E depois que começarmos, não paramos mais. — Não paramos mais. — Certo. Está pronto? — Sim. Que o amor de Deus caia sobre você, garoto. — E sobre você, Père. Um. dois.

três. — Jake abriu a porta e juntos penetraram na luminosidade pálida e no aroma penetrante, adocicado, de carne assada. DOIS Jake caminhou para o que tinha certeza que seria sua morte recordando duas coisas que Roland Deschain, seu verdadeiro pai, havia dito. Batalhas que duram cinco minutos engendram lendas que vivem mil anos. E: Você não precisa morrer feliz quando seu dia chegar, mas deve morrer em paz consigo mesmo, achando que viveu sua vida do início ao fim e que o ka sempre foi servido. Jake Chambers inspecionou o Dixie Pig com a mente em paz. TRÊS E com uma clareza cristalina. Seus sentidos estavam tão aguçados que ele podia sentir não apenas o cheiro da carne sendo assada, mas o do alecrim com que fora temperada; podia ouvir não só o ritmo calmo de sua respiração, mas o murmúrio das ondas do sangue subindo em direção ao cérebro por um lado do pescoço e descendo para o coração pelo outro. Também se lembrava de Roland dizendo que mesmo a batalha mais curta, do primeiro tiro ao último corpo que cai, pareceu longa para os que dela participaram. O tempo ficava elástico; esticava-se a ponto de parecer ter sumido. Jake assentira a cabeça como se tivesse compreendido, embora na época não tivesse. Agora compreendia. Seu primeiro pensamento foi que eram muitos. realmente, realmente muitos. Estimava que chegassem quase a uma centena, a maioria sem dúvida do tipo que Père Callahan rotulava de ―homens baixosǁ (alguns eram na realidade, mulheres baixas, mas Jake tinha certeza que o princípio era o mesmo). Espalhados entre eles, menos corpulentos que o baixo folken e às vezes esguios como armas de esgrima, sempre de aspecto muito pálido e com os corpos cercados de sombrias auras azuis, estavam vultos que tinham de ser vampiros. Oi permanecia no calcanhar de Jake, o pequeno focinho de raposa com uma expressão severa, a garganta deixando escapar um rosnado baixo. Aquele cheiro de carne cozinhando que flutuava no ar não era de porco. QUATRO Três metros entre nós sempre que for possível, Père. Fora o que Jake dissera lá fora, na calçada, e mesmo enquanto ainda se aproximavam do balcão da gerência, Callahan seguia à direita de Jake mantendo a requerida distância entre eles. Jake também tinha lhe dito para gritar o mais alto e por mais tempo que pudesse, e Callahan estava abrindo a boca para começar a fazer exatamente isso quando a voz do Branco tornou a falar dentro dele. Só uma palavra, mas foi o bastante. Sköldpadda, disse ele. Callahan continuava segurando a Ruger junto à face direita. Agora mergulhava a mão esquerda no bolso da camisa.

Sua consciência da cena diante dele não se mostrou tão alerta quanto a de seu jovem companheiro, mas ele viu bastante coisa: os flambeaux elétricos, vermelho-alaranjados, nas paredes, as velas de cada mesa encapsuladas em redomas de vidro de um alaranjado mais vivo, como o do Halloween, os guardanapos brilhando. À esquerda da sala de jantar uma tapeçaria mostrava cavaleiros e suas damas sentados numa comprida mesa de banquetes. Havia uma certa atmosfera no lugar — Callahan não sabia exatamente o que a provocava, pois os diferentes sinais e estímulos eram demasiado sutis — de gente acabando de se recompor após um momento de nervosismo: por exemplo, um pequeno incêndio na cozinha ou umacidente de automóvel na rua. Ou uma dama tendo um bebê, Callahan pensou fechando a mão sobre a Tartaruga. Isto sempre acaba provocando uma boa e pequena pausa entre o aperitivo e o primeiro prato. — Chega agora o ka-mais de Gilead! — gritou uma voz agitada, nervosa. Não uma voz humana, disso Callahan tinha quase certeza. Tinha zumbido demais para ser humana. Callahan viu o que parecia ser algum tipo monstruoso de híbrido, pássaro-gente, parado na extremidade do salão. Usava uma calça jeans de corte reto e camisa social branca, mas a cabeça que saía da camisa estava coberta compenas sedosas de um tom amareloescuro. Os olhos pareciam gotas de alcatrão líquido. — Peguem os dois! — gritou a coisa apavorantemente ridícula, rapidamente removendo umguardanapo sob o qual havia algum tipo de arma. Callahan supôs que fosse um revólver, só que parecia o tipo de revólver que se vê em Jornada nas Estrelas. Como era mesmo que se chamavam? Phasers? Paralisadores? Não importava. Callahan tinha uma arma muito melhor e quis se certificar de que todos a viam. Derrubou o que havia sobre a mesa mais próxima, inclusive a redoma de vidro com a vela. Depois puxou bruscamente a toalha como um mágico fazendo seu truque. A última coisa que queria era tropeçar numa toalha no momento crucial. Então, com uma agilidade que uma semana antes se teria julgado incapaz, subiu numa das cadeiras e passou da cadeira ao tampo da mesa. Uma vez em cima da mesa, levantou a sköldpadda com a parte de baixo da peça apoiada nos dedos, permitindo que todos dessem uma boa olhada. Eu podia cantarolar alguma coisa? , ele pensou. Quem sabe “Moonlight Be- comes You” ou “I Left My Heart in San Francisco”. A essa altura estavam dentro do Dixie Pig há exatamente 34 segundos. CINCO Professores de escola secundária diante de um grande grupo de estudantes numa sala de estudos ou numa reunião de todo o colégio dirão que os adolescentes, mesmo de banho tomado e bemarrumados, fedem dos hormônios que seus corpos tão avidamente fabricam. Qualquer grupo de pessoas sob estresse emite um fedor similar, e Jake, com os sentidos sintonizados num tom dos mais sofisticados, sentiu-o ali.

Quando passaram pelo posto do maître (Central de Extorsão, como seu pai gostava de chamar esses locais), o cheiro dos freqüentadores do Dixie Pig estava fraco, era apenas o cheiro de pessoas voltando ao normal após algum tipo de rebuliço. Mas quando a criatura-pássaro lá no canto gritou, Jake já começara a sentir com mais intensidade o cheiro dos fregueses. Um aroma metálico, capaz, como o sangue, de estimular sua tempera e suas emoções. Sim, viu o Pássaro Canoro remover o guardanapo; sim, viu a arma embaixo; sim, compreendeu que Callahan, em cima da mesa, era alvo fácil. Mas Jake se preocupava muito menos com isso que com a arma engatilhada que era a boca do Pássaro Canoro. Jake estava fazendo recuar o braço direito, querendo atirar o primeiro de seus 19 pratos e amputar a cabeça onde aquela boca se encontrava, quando Callahan ergueu a tartaruga. Não vai dar certo, não aqui, Jake pensou, mas antes mesmo de a idéia se articular completamente em sua mente, ele compreendeu que estava dando certo. Soube pelo cheiro deles. A agressividade deixou a atmosfera. E os poucos que tinham começado a se levantar das mesas (os buracos negros nas testas dos homens baixos se abrindo mais, as auras azuis dos vampiros parecendo mais próximas dos corpos e mais intensas) voltaram a se sentar, a desabar nas cadeiras, como se, de repente, tivessem perdido o comando dos músculos. — Pegue os dois, são esses aí, Sayre. — Então o Canoro parou de falar. Sua mão esquerda (se é que uma garra tão feia podia ser chamada de mão) tocou a coronha do revólver high-tech e caiu ao lado do corpo. O brilho pareceu deixar seus olhos. — São esses aí Sayre. S-S-Sayre. — Outra pausa. Então a coisa-pássaro disse: — Oh, sai, que bela peça é essa que você tem na mão? — Você sabe o que é — disse Callahan. Jake estava andando e Callahan atento ao que o garotopistoleiro lhe contara lá fora ( cuide para que cada vez que eu olhe para a direita veja seu rosto), desceu da mesa para acompanhá-lo, sempre segurando a tartaruga no alto. Callahan quase pôde saborear o silêncio do salão, mas. Mas havia outro salão. Riso rouco e áspero, entremeado de gritos — pelo som, uma festa, e bem próxima. À esquerda. Por trás da tapeçaria que mostrava os cavaleiros e suas damas no jantar. Alguma coisa está acontecendo lá atrás, Callahan pensou, e provavelmente não é um baile de debutantes.

Ouviu Oi respirando depressa e baixo por entre seu eterno sorriso, um perfeito motorzinho. E mais alguma coisa. Umáspero som de chocalho com rápida crepitação por baixo, em surdina. A combinação fez os dentes de Callahan baterem e trouxe um frio para sua pele. Havia algo escondido embaixo das mesas. Oi foi quem primeiro viu os insetos avançando e ficou estático como um cachorro em posição de caça, uma pata erguida, o focinho empinado para a frente. Por um momento a única parte dele a se mover foi a escura e aveludada pele do focinho, primeiro se contraindo e revelando as cerradas agulhas dos dentes, depois relaxando para escondê-las, em seguida se contraindo de novo. Os insetos avançaram. Fossem o que fossem, a Tartaruga Maturin erguida na mão do Père nada significava para eles. Um sujeito gordo, usando um smoking com lapelas em xadrez, falou num tom baixo, quase indaga-dor, com a coisa-pássaro: — Não era para eles irem além daqui, Meiman, nem sair. Nos disseram… Oi se atirou para a frente, um rosnado passando entre os dentes apertados. Sem a menor dúvida um som nada habitual, fazendo Callahan se lembrar de uma legenda cômica de história em quadrinho: Arrrrrr! — Não! — Jake gritou, alarmado. — Não, Oi! Com o berro do garoto, os gritos e risos saindo de trás da tapeçaria cessaram abruptamente, como se o folken lá atrás tivesse de repente tomado consciência de que alguma coisa tinha se alterado no salão da frente. Oi nem pareceu ouvir o grito de Jake. Triturou três insetos em rápida sucessão, o estalar das carapaças quebradas com horrível nitidez no silêncio renovado. Oi não tentou comê-los. Simplesmente atirou os corpos, cada um do tamanho de um camundongo, para o ar com uma guinada do pescoço e um arreganhado abrir de maxilares. E os outros retrocederam para baixo das mesas. Ele foi feito para isto, Callahan pensou. Talvez em tempos muito recuados to- dos os trapalhões fossem feitos para isto. Feito para aquilo do modo como algumas raças de terrier são feitas para. Um grito rouco vindo de trás da tapeçaria interrompeu esses pensamentos. — Humes! — uma voz gritou e logo uma segunda: — Ka-humes! Callahan teve um absurdo impulso de gritar: Saúde! Antes que pudesse gritar isso ou qualquer outra coisa, a voz de Roland encheu de repente sua cabeça.

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