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A torre partida – J. Barton Mitchell

ELA SE AGACHOU no telhado do que restava do velho celeiro, observando as estranhas contradições da paisagem, toda luz e escuridão ao mesmo tempo. O céu estava repleto de espessas nuvens de tempestade, mas continuaria escuro mesmo sem elas. Naquele ponto remoto que os Bucaneiros costumavam chamar de Núcleo, o meio da tarde parecia noite, e a única luminosidade era o amarelo doentio que tingia o estranho céu ondulante e prismático. Raios flamejavam das nuvens. Riscas fulgurantes de vermelho, azul ou verde e, onde quer que caíssem, produziam um clarão colorido. Fragmentos de cristais reluzentes irrompiam do chão e congelavam no lugar, e a terra toda estava coberta com seus remanescentes, um labirinto de paredes pontiagudas e irregulares que cintilavam em várias cores. Elas preenchiam as ruínas do que antes era uma cidadezinha do interior, destruindo as ruas e estradas que um dia cortavam o centro. As velhas construções tinham, em sua maior parte, desmoronado ou sido calcinadas pelos raios, mas ela podia ver que aquele fora um belo lugar umdia. Agradável e tranquilo. Mas agora não era nem uma coisa nem outra. Mais relâmpagos, vermelhos dessa vez, iluminaram uma figura ao lado dela, vestida no mesmo estilo preto e cinza. Calças de um tecido rústico, botas leves, camisa enfiada dentro da calça, umcolete cheio de bolsos, tiras de utilidades cruzando o peito. Em torno do pescoço, ambos tinhampanos tecidos à mão, para cobrir o nariz e a boca, se necessário. No pescoço também usavam colares com pingentes idênticos. Dois cordões metálicos brancos entrelaçados, com barras entre eles, formando pequenas espirais — ou uma dupla “hélice”. Em cada dedo da mão esquerda, usavam um anel de um cristal resplandecente, idêntico ao que cobria o chão; e nas costas carregavam armas estranhas. Longas lanças de ponta dupla, quase da altura deles, com um cristal brilhante em ambas as extremidades. Cada cristal tinha sido polido e amolado até ficar afiado como uma navalha, e fixado numa bainha arredondada de latão, encaixada na haste. Era sem dúvida uma arma de ataque duplo, mas olhando mais de perto revelava outros aspectos. A base arredondada tinha punhos idênticos, um de cada lado, com dois gatilhos separados, como se a arma pudesse disparar as pontas de cristal a partir de qualquer posição. Era uma arma exótica. Ornamentada e entalhada com perícia, elegante até, mas também perigosa. O homem era oriental, mais velho, provavelmente com 60 e poucos anos. Seus olhos, embora livres da Estática, tinham uma aparência peculiar. Havia neles algo incomum.


Eram desfocados e enevoados, e não pareciam olhar para nada em particular; no entanto, suas profundezas ocultavam ummar de sabedoria e experiência. A garota ao lado dele era muito mais jovem, 16 anos aproximadamente. Negra, um tanto pequena, mas claramente ágil e veloz; o cabelo rebelde, preso num rabo de cavalo descuidado. Seus olhos tinham sinal de Estática, mas, ao contrário do velho, ela enxergava e tinha algo de que ele não precisava: óculos de proteção pretos na testa, que poderiam ser baixados rapidamente sobre os olhos, embora fosse improvável que pudesse enxergar alguma coisa através de suas lentes. Com os óculos, ela enxergaria tanto quanto o velho. Ele olhou sem enxergar em direção ao norte. As nuvens carregadas e a escuridão obscureciam o horizonte, mas para ele isso não fazia diferença. Ele não conseguiria ver nenhum dos dois. — O que estamos fazendo aqui? — ela perguntou. — Pensei que o objetivo fosse atacar a Estrela Polar. — Por que tem sempre tanta sede de violência? — O olhar cego do velho não vacilou. Sua voz era tranquila. Por mais que a garota o amasse, Gideon tinha o hábito irritante de responder perguntas commais perguntas. — Não estou interessada em violência — disse a menina com firmeza. — Só em ação. — A mudança vem tanto através da paciência, quanto da ação — disse ele. — Fique à beira do rio por algum tempo e os corpos de seus inimigos passarão boiando. — Não é nenhum segredo que paciência não é o meu forte, Mestre. Gideon sorriu. — Você é mais parecida com o seu pai do que gostaria de admitir. A garota sentiu a raiva crescendo dentro de si, mas não disse nada. Era provável que estivesse certo. Gideon sempre parecia estar certo, embora isso não significasse que ela fosse obrigada a concordar com ele. Relampejou novamente nas proximidades, uma luz esverdeada dessa vez, e uma estranha trovoada ressoou, como ondas quebrando na praia. A garota alisou os pelos arrepiados dos braços.

A Carga parecia diferente aquele dia. — Parece que vem outra tempestade por aí. O velho não disse nada. Apenas concordou com a cabeça. A menina contemplou o horizonte, mas tudo o que podia ver era a tempestade, as nuvens espessas que os rodeavam. Um raio riscou o ar de vermelho e azul. — Íon ou Antimatéria? — Nem uma coisa nem outra. A garota olhou para o velho, estranhando. Que outro tipo de tempestade haveria ali nas Terras Estranhas? — Devo levar o meu Arco de volta ao Santuário? O velho permaneceu calado durante um bom tempo, sondando o que se ocultava à distância. — Não — respondeu finalmente. — Esta tempestade… não podemos vencer. E é por isso que eu trouxe você aqui. Ele a fitou agora, ou pelo menos deu essa impressão. O olhar de Gideon sempre parecia pairar alguns centímetros na direção errada. — Tenho duas tarefas para você, Avril — disse ele. — De uma você vai gostar, mas da outra não. Ao longe, a tempestade formou um redemoinho e se partiu em duas como uma gigantesca cortina, permitindo um vislumbre do horizonte. À distância, o que restava dos edifícios depredados de uma cidade se assomava contra o céu, pequenos fragmentos reluzentes na escuridão. Além deles, distorcida por uma massa revolta de névoa ou poeira, uma forma maciça pairava sobre as ruínas. Parecia uma fortaleza ou torre colossal, ainda que, de alguma forma, estivesse suspensa no ar. Avril podia ver onde ela estava partida ao meio, perto do centro, o topo arrancado, separado do resto e prestes a cair, contudo congelado no céu. Como sempre, a visão lhe causou um arrepio; puro poder e desgraça combinados numa coisa só, mesmo assim ela não conseguiu desviar os olhos. Ficou aliviada quando a massa de nuvens se concentrou novamente e bloqueou a visão do vulto tenebroso, ocultando-o por trás delas ao se fecharem com um rugido. No ar acima, os estranhos raios faiscaram novamente e as trovoadas distorcidas ribombaram. A tempestade parecia mais próxima agora.

Como se estivesse ganhando força. PARTE UM AS TERRAS ESTRANHAS 1. BRUSCO DESPERTAR — MIRA… O chamado vinha de longe. Uma voz de menina, ela reconheceu. De uma menininha. E parecia preocupada. — Mira… Ela ouviu outros ruídos em seu delírio enevoado — baques surdos e estrondosos que poderiam ser explosões. Algo se estilhaçando. E outros sons — estranhos, distorcidos, eletrônicos, mas conhecidos o bastante para despertar medo nela. — Mira! O grito a arrancou dolorosamente da escuridão. Luz invadiu seus olhos quando ela piscou e depois os abriu. Viu o céu acima dela. Era a tarde de um dia luminoso e ensolarado. Ruínas de prédios e outras coisas passavam por ela — janelas, calhas, velhos outdoors que ela não conseguiu ler, a parte superior de um ônibus escolar enferrujado. Era como se ela estivesse flutuando abaixo deles. Então, ela se deu conta. Estava sendo carregada. Através das ruínas de alguma cidade. O mundo voltou a entrar nos eixos quando alguém a colocou no chão e a apoiou contra uma superfície dura e áspera. Parecia uma parede, de tijolos talvez. Mais sensações voltaram a assaltá-la. Dor de cabeça e um ardor latejante na perna esquerda, logo acima do joelho. Sua visão ficou mais nítida. Os sons se tornaram mais claros… Todos eles aterrorizantes. Uma explosão provocou um clarão e sacudiu o chão do outro lado da parede.

Jatos de luz amarela chiaram no ar em torno dela, atingindo outros edifícios de que só agora ela se dava conta. Uma farmácia, um posto de gasolina, uma agência dos correios, todos eles em ruínas e desmoronando. Quando a memória de Mira Toombs voltou, ela se lembrou de onde estava e por quê. Ela havia escondido um kit de emergência nessas ruínas alguns anos antes, em uma antiga escola. Suprimentos para as Terras Estranhas, se um dia precisasse explorá-las sozinha ou não tivesse muito tempo para providenciá-los. Ela tinha convencido Holt e Zoey a ajudá-la a encontrá-lo antes de partirem para as Estradas Transversais. A boa notícia era que eles tinham encontrado o kit. Uma bolsa de lona preta com uma tira para prender em torno da cintura. Ela ainda estava lá, Mira podia ver o símbolo d vermelho bordado na parte da frente. A má notícia era que, no instante em que a encontraram, eles apareceram. Caminhantes Confederados. Batedores das tropas do exército alienígena que havia conquistado o planeta quase uma década antes, e que os vinha perseguindo obstinadamente havia mais de um mês. Ela não tivera tempo para verificar de que tipo ou quantos eram antes de ser atingida pelos tiros e tudo ficar escuro, mas a julgar pelo número de raios calcinantes cruzando os ares agora, havia muitos deles. — Mira! — A voz era masculina dessa vez. Uma voz que ela reconhecia e na qual confiava. Mira sentiu mãos sobre ela, uma delas virando sua cabeça para a esquerda, e, quando fez isso, Holt Hawkins entrou em seu campo de visão. Mira sorriu, ainda meio atordoada. Ele parecia ter a mesma aparência de sempre. O cabelo ondulado e espesso estava desgrenhado, mas de alguma forma dava a impressão de que era só uma questão de estilo. Alto e bem constituído, com olhos castanhos que nunca demonstravam nada além de confiança, não importava quanto o mundo parecesse ensandecido. Mesmo agora, no meio do caos, havia neles uma consciência calculada de tudo o que estava acontecendo ao redor e que de algum modo a fazia se sentir mais segura. Holt era um dos poucos capazes de lhe causar essa sensação. — Mira! Consegue me ouvir? — Mais jatos de plasma foram deflagrados. Mira obrigou-se a se concentrar e tirou o cabelo ruivo dos olhos num gesto rápido. — Como você tirou a gente de lá? — Não foi fácil — Holt respondeu.

— Você é muito mais pesada do que Zoey. — Valeu! — disse ela, com sarcasmo. — Mira! — Era a mesma voz infantil de antes. Mira sentiu dois bracinhos em torno dela e baixou os olhos. A cabeça de Zoey estava enterrada sob o braço de Mira, os olhos da menina espreitando através do cabelo loiro. Era sempre estranho ver Zoey num lugar como aquele, num ambiente tão cheio de perigos. Uma garotinha que mal tinha completado 8 anos não combinava com aquele lugar. No entanto, ali estava ela. Ao lado de Zoey havia mais alguém, o focinho e as patas sobre as pernas da garotinha, os olhos redondos encarando Mira. Ela sentiu a mesma aversão habitual ao vê-lo. — Você… — resmungou ela. Max, o cão fedorento de Holt, rosnou para ela, mas isso não foi nenhuma surpresa. O cão ainda a via como uma prisioneira de Holt. Mas, contanto que Mira não tivesse que tocar nele, ela não se importava de tê-lo por perto. Holt tinha treinado Max muito bem, e ele tinha sua utilidade. Zoey se encolheu quando outra explosão sacudiu o chão. — Temos que sair daqui! — exclamou Holt. — Você consegue andar? — Acho que sim. — Ela sentiu o ferimento na perna e fez uma careta. Não era grave; o tiro de plasma só tinha chamuscado a pele, mas ardia um pouco. — O que está pensando em fazer? — Eu tenho… meio que um plano. — Ele não foi muito convincente. — Temos que encontrar um bairro residencial. O canto da parede explodiu, espalhando pedaços de gesso. Eles ouviram uma série de pancadas fortes no telhado acima deles, e Mira esticou o pescoço para olhar para cima.

Observando-os de cima, havia uma silhueta contra o céu claro. Uma máquina poderosa e aterrorizante. Como Mira adivinhara, era um caminhante dos Confederados, mas de um tipo que, até um mês atrás, ela nunca tinha visto. Verde e laranja, como aqueles que os haviam perseguido nas Planícies Alagadas; três pernas, um trípode, flexível e ágil, mas diferente. Parecia mais fortemente armado, com um equipamento pesado nas costas. Aparentava ser mais novo também. A couraça metálica e a pintura não tinham um arranhão. Lâmpadas LED piscaram em seu corpo, e seu “olho” trióptico triangular, vermelho, azul e verde, igual ao de todos os caminhantes, zumbiu quando se voltou para baixo, na direção de Mira. Ela olhou para ele, paralisada de medo. — Vamos! — ouviu Holt gritar enquanto a puxava para que ela se levantasse. O caminhante acima disparou uma rede metálica que bateu contra o solo, errando-os por pouco. Era clara sua intenção de capturá-los. — Pelo menos não estão tentando nos matar — Holt gritou e, em seguida, abaixou a cabeça para se proteger quando uma rajada de tiros de plasma destroçou o chão ao redor dele. — O que você estava dizendo? — Mira provocou. Enquanto corriam, barulhos estranhos encheram o ar. Sons parecidos com os de uma trombeta, mas eletrônicos e distorcidos. Eles pareciam ecoar de todos os lugares, respondendo uns aos outros. Max saiu embalado atrás de Holt, enquanto este se desviava de mais uma explosão de plasma. — Mira! — Zoey gritou atrás dela. A menina estava ficando para trás, suas perninhas incapazes de acompanhá-los. Mira levantou Zoey nas costas e correu atrás de Holt. Holt se dirigiu para uma fileira de casas em ruínas nas proximidades, mas os caminhantes estavampor toda parte. Ela podia vê-los nas ruas, saltando entre os velhos carros e edifícios. Eles estavamcercados. Enquanto corriam sem rumo, Mira viu Holt deslizar a mão para dentro do bolso da jaqueta.

Umsegundo depois, uma esfera de energia amarela crepitou brevemente em torno dele e desapareceu. Os olhos de Mira se arregalaram. Ela tinha acabado de ver o que pensava?… Mira se encolheu quando jatos de plasma passaram zunindo sobre ela e despedaçaram o que restava de um furgão. Eles estavam em campo aberto, os caminhantes não teriam dificuldade para atingi-los. Mas de alguma forma isso não tinha acontecido. Mira continuou correndo, seguindo Holt e Max. Zoey gritou quando um trípode surgiu atrás deles e começou a persegui-los, seus canhões começando a zumbir enquanto se preparavam para atirar. Mas antes que pudesse chegar perto, uma rajada errante de tiros de plasma o atingiu, fazendo-o girar e desabar no chão num amontoado de destroços em chamas, fulminado pelo fogo aliado. Outra improbabilidade. Mira continuou correndo com Zoey nas costas, esgueirando-se entre os carros antigos, em direção às casas logo à frente. Ela alcançou Holt, e juntos eles contornaram um velho outdoor, suspenso apenas por um dos lados, e pararam num solavanco, os pés derrapando. Diante deles havia outro Caçador. A coisa saltou em direção a eles… e o outdoor decrépito escolheu aquele momento para desabar. Holt empurrou Mira e Zoey para longe da estrutura, que se desprendeu da base e desabou numa chuva de madeira e aço, soterrando o trípode onde ele estava. Quando a poeira baixou, Mira conferiu para ver se Zoey estava bem. Estava. Assim como Holt e Max. Mira olhou para Holt com desconfiança. — Como você…? — começou a dizer. Holt pegou Zoey antes que Mira terminasse a pergunta e pôs a menina nas costas, enquanto todos começavam a correr outra vez. Outro lampejo cor de laranja explodiu em torno deles e o coração de Mira se encolheu quando ela viu. Agora não havia como negar. As cores. As coincidências improváveis que os mantinham a salvo. O Gerador de Oportunidade estava no bolso de Holt, e ele o estava usando.

Mais à frente, ela viu para onde Holt estava correndo. A garagem de uma casa arruinada; uma construção pequena e prestes a desabar, que guardava os restos de uma velha picape enferrujada. Holt correu para ela o mais rápido que pôde, carregando Zoey com ele, e Mira o seguiu. Max devia ter adivinhado a intenção de Holt também, porque disparou na frente e se atirou na caçamba do veículo. Mira sentiu o calor de um jato de plasma quando entrou na garagem com a cabeça abaixada. A picape estava em péssimo estado, uma tosca carcaça de metal com os vidros quebrados, mas, milagrosamente, tinha os quatro pneus em condições de rodar. — Zoey, entre! — disse Holt à garotinha quando a colocou no chão. A menina escalou os degraus do veículo desmantelado e passou para o lado do passageiro. — Esse é o plano? — perguntou Mira sem acreditar. — Se Zoey conseguir fazer o motor funcionar, sim — respondeu Holt. — A gente pode até deixar aqueles caminhantes para trás. — Essa coisa não consegue deixar nem uma baleia encalhada para trás! — Mira gritou. — Você tem uma ideia melhor? — ele perguntou. Mira franziu as sobrancelhas. Ela não tinha. — Você dirige. — Holt foi para a caçamba da picape. Mira foi para a porta e pulou para dentro. — E o que você vai fazer? — O que eu puder. — Holt saltou para a parte traseira, com Max. Ouviram mais sons de trombeta ao longe, aproximando-se. — Zoey, faz essa coisa funcionar! Zoey olhou para Mira do banco sujo do passageiro. Mira acenou com a cabeça para a menina. — Depressa, docinho. Se acha que consegue.

Zoey sorriu. Então fechou os olhos e se concentrou. — Eu consigo. Nada aconteceu a princípio. A menina só continuou sentada, sem se mexer, no banco rasgado, inspirando e soltando o ar. Então, um brilho surgiu em torno das mãos dela, fraco de início, depois mais intenso. Uma camada dourada e ondulante de… energia. Não havia outra palavra para descrever aquilo. Ela se movia e pulsava quase em câmera lenta, como fogo congelado, espalhando-se das mãos de Zoey para os braços e em direção aos ombros. Mira ficou olhando em choque, sentindo o coração acelerar. Holt tinha mencionado aquilo, a luz, mas era novidade para Mira. Ela não tinha visto Zoey usando seu dom na Cidade da Meia-Noite. Tinha quase morrido na ocasião, e a garotinha a salvara. Outro dos poderes dela, e o mais importante. Zoey podia deter a Estática. Bloqueá-la de alguma forma, tornar a pessoa imune. Pensar naquilo ainda a deixava atordoada. Mira assistiu enquanto a energia envolvia lentamente a menina, sabendo que estavam correndo contra o relógio. Se Zoey não conseguisse, eles bem podiam… Mira deu um pulo no banco quando a picape de repente estremeceu. Energia dourada borbulhava debaixo do capô, quando o motor, inacreditavelmente, deu partida e roncou alto. O painel acendeu uma vez, duas e, em seguida, os antigos medidores analógicos voltaram a funcionar. Um ruído de estática irradiou do rádio velho. Mira olhou para os controles, aturdida. Lembrou-se das ocasiões em que se sentava no colo do pai, quando criança, e dirigia o furgão da família num estacionamento. Até a invasão dos Confederados, aquela era toda a experiência que ela tinha atrás de um volante.

Ela esperava que fosse suficiente. Mira engatou a marcha e pisou no acelerador. A picape saltou para a frente… então parou com um solavanco. — Freio de mão! — Holt gritou atrás dela. — Onde ele fica? — Mira vasculhou freneticamente com os olhos o interior da picape. — Onde costuma ficar normalmente! — Já faz um tempo que não dirijo, ok? A garagem estremeceu quando a parede dos fundos foi totalmente arrancada por uma das máquinas alienígenas. Ela trombeteou de raiva, uma mistura medonha de tons eletrônicos e estática. — Mira! — Holt gritou, espremendo-se ao máximo contra a cabine. Max latia descontroladamente. Mira encontrou o freio, uma alavanca de mão no piso do veículo, e empurrou-a para baixo. A velha picape sacudiu violentamente e saiu rugindo da garagem. O Caçador atrás deles soltou um guincho agudo de surpresa e se lançou em perseguição. Enquanto a picape disparava em fuga, a máquina entrou na garagem, destruindo a moldura da porta — o que foi suficiente para levar a construção toda abaixo, como um castelo de cartas. Mira viu pelos retrovisores empoeirados quando o trípode foi soterrado pela enorme pilha de madeira e detritos. Um deles havia caído, mas havia muitos mais. Perto dali, novos caminhantes continuavam a perseguição, as três pernas pontudas impulsionandoos para a frente a uma velocidade atordoante. Ao lado de Mira, Zoey estava sentada com os olhos fechados, a energia dourada pulsando ao seu redor.

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