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A Torre – Steven James

A grande caminhonete parou derrapando no trecho encharcado por uma camada de neve fora de época, e Creighton Melice adentrou a penumbra. Ele examinou o bairro decrépito de Washington DC. Traficantes de droga nas esquinas. Alguns rostos vazios o observavam através de janelas de edifícios mortos. Sombras espessas se espalhavampela rua. Creighton inspirou o ar estagnado. Sim. Estar no centro podre da cidade com o dia morrendo ao seu redor fazia Creighton Melice se sentir em casa. Seu advogado, Jacob Weldon, suspirou nervoso pela janela do SUV. – Então, você quer que espere por você? Creighton olhou para ele. Weldon. Um homenzinho tímido com olhos arregalados. – Não, vou ficar bem. – Tome cuidado. – Weldon parecia aliviado. – Eu sempre tomo. Há menos de três horas Creighton estava preso. Cela úmida. Acusações de assassinato em segundo grau – e provavelmente uma longa sentença na cadeia. Mas então, bem quando Creighton estava ensaiando sua história, Weldon apareceu e anunciou que havia pago a fiança. – Você é um homem livre. – ele disse. – Não brinca comigo. – É sério. – Quem? Quem pagou? Weldon balançou a cabeça.


– Não sei. Alguém. Um amigo. Creighton franziu a testa. – Como você não sabe? Ele não teve que assinar? – Ele mandou alguém. Um cara grande, que já vi antes, sentado nas preliminares. Mas ele era só um pau-mandado. Outra pessoa pagou a conta. – Um amigo, é? Bom, nenhum dos meus amigos tem esse tanto de dinheiro. – Talvez você tenha um novo amigo. Vem, vamos sair desse lugar. Seja quem for, a pessoa quer ver você. Então eles deixaram a cadeia, dirigiram por um bom tempo para garantir que nenhum policial estivesse tentando vigiá-los, e então chegaram aqui, no número 1311 da Donovan Street, em frente a esse edifício vazio e cinzento com uma placa torta escrita The Blue Lizard Lounge. O lugar onde o novo amigo de Creighton havia escolhido para o encontro. Após o carro de Weldon ter desaparecido na esquina, Creighton vasculhou o chão procurando algum tipo de arma, agarrou uma garrafa de cerveja quebrada e empurrou a porta de metal desgastada da danceteria. Ela enganchou no trinco por um momento e então se abriu. Um corredor esticava-se à sua frente, iluminado apenas por um escasso conjunto de lâmpadas penduradas em ângulos estranhos, mais ou menos a cada dois metros. Ele não gostou nada disso. O encontro. O espaço confinado. Um cara que ele nem conhecia pagando sua fiança. Creighton segurou mais firme o gargalo da garrafa. Ele havia usado uma garrafa quebrada como arma apenas uma vez. Aquela noite havia terminado bem para ele e não muito bem para o cara que deu em cima da mulher que estava prestes a se tornar sua namorada. Ele sabia que poderia pelo menos causar tanto dano quanto daquela vez, se fosse preciso.

Enquanto Creighton aproximava-se do fim do corredor, ele pôde ver duas portas, uma de cada lado. Uma única palavra havia sido rabiscada em cada uma das portas. E, mesmo sendo difícil dizer com certeza por causa da luz fraca, as palavras pareciam ter sido escritas com sangue. Ele esticou sua mão. Sentiu a palavra Dor . Ainda úmida. Provou. Sim. Sangue. A palavra Liberdade estava pintada na porta do outro lado do corredor. Creighton olhou para trás. Só um corredor vazio. Ele então checou as portas, procurou por luz vazando sob elas. Nada. Olhou mais uma vez para o corredor. Nada. Apenas um corredor vazio que terminava ali. Naquelas duas portas. Liberdade ou dor. Creighton pressionou seu ouvido contra cada uma das portas. Escutou. Nenhum som. Ele precisava fazer uma escolha. A decisão era fácil. Creighton escolheu dor.

Com um clique suave, a porta escancarou-se para um vestíbulo estreito. Talvez cinco metros à sua frente uma luz bem focada cortava o centro de uma sala adjacente, provavelmente a pista de dança abandonada da danceteria. Uma luminária? Por que uma luminária? Creighton sentiu cheiro de fumaça de cigarro. Alguém o esperava. Seu novo amigo. Creighton atravessou o vestíbulo, e assim que chegou na luz forte, uma voz o interrompeu. – Já foi longe o suficiente. – A voz era alterada eletronicamente, mas para Creighton, quem falava parecia ser um homem. Creighton parou. No outro lado da sala, cerca de uns oito metros à frente, estava sentada uma figura com uma forte lâmpada industrial de halogênio brilhando por trás de sua cadeira. Mesmo com a iluminação forte por trás da pessoa, Creighton podia ver que, seja quem fosse, possuía uma arma. – Você escolheu a porta correta, Creighton. – Sim. Bom, vamos ver. – Ele cobriu seus olhos e fez um gesto em direção à arma. – Então, você me libertou só para poder atirar em mim? Uma risada eletrônica reverberou pela sala. A pessoa moveu a arma em direção à garrafa que Creighton estava segurando. – E você veio aqui só para poder me cortar? – Talvez. Uma pausa. – Quero te oferecer algo. – Eu não trabalho para ninguém e você não pode me comprar. Então, se você for atirar em mim, atire bem, porque se você só me ferir, vou pegar você. – Creighton ergueu a arma pontiaguda. – Eu sou muito rápido, e se eu atravessar a sala, vou enterrar isso na sua barriga. O que acha dessa oferta? – Eu não mereço nem um “obrigado”? Sua fiança não foi pequena, e nós dois sabemos que você não vai aparecer para o julgamento.

Foi um belo punhado de dinheiro que paguei só para você vir aqui e me ameaçar. Creighton tentou pegar o tom de voz verdadeiro da pessoa, mas seja quem fosse, deveria estar usando um microfone que mudava a afinação e o tom de cada palavra enquanto ele falava. – Bom, – disse Creighton – eu nunca pedi sua ajuda. Uma voz grave veio pelo microfone. – Sr. Melice, eu estive, como posso dizer, acompanhando sua carreira. – Então você é um fã. Nossa, que ótimo. – De certo modo, sim. Sou um fã. Você tem um grande dom. – Ah, é assim que você chama isso. – Não foi bem uma pergunta. O silêncio tomou a sala. Creighton esperou a pessoa responder, e quando a resposta não veio, Creighton virou sua cabeça e tocou com a garrafa em sua própria nuca. – A base da nuca, bem aqui, ou talvez a parte de trás da cabeça, seria sua melhor escolha. Porém, dessa distância, é bom você saber o que está fazendo. Estou me virando para ir embora, agora. Faça o melhor que pode. – Creighton esperava ouvir o clique da pessoa destravando a arma; isso diria muito, se ele fizesse. Nenhum dos caras com quemele já havia trabalhado usava a trava de segurança. Creighton deu dois passos. Então ouviu a voz novamente. – Eu sei porque você escolheu essa porta. Creighton parou.

– Posso conseguir o que você quer. Creighton virou. – Ninguém pode conseguir o que quero. – Meu amigo, você não estaria aqui se eu não pudesse. Nunca teria me importado com você. Você que publicou os vídeos. Leio o seu blog. Sei o que você quer. Creighton queria perguntar como foi possível ligar os vídeos e o blog a ele, mas obviamente isso já havia acontecido e nesse momento isso era tudo o que importava. – Estou ouvindo. – Existe algo que gostaria que você me ajudasse a obter. Seu passado, suas habilidades e… seus gostos peculiares… tornam você eminentemente qualificado para esse trabalho. Quando tiver emminhas mãos, darei a você a coisa que pessoa nenhuma no planeta pode dar. – O que quer que eu “obtenha”? Ele movimentou com desprezo o cano da arma. – Falarei mais na hora adequada, meu amigo. Por enquanto, eu apenas gostaria de saber se você está interessado o suficiente para continuar essa discussão. Caso contrário, está livre para ir. Vou considerar o dinheiro da fiança como um investimento que não deu certo. – Livre para ir, é? Assim que eu virar as costas, você mete uma bala na minha cabeça. – Não, – disse a voz. – Eu escolho a base da nuca ao invés disso. Um calafrio repentino. Erro de cálculo. – O quê? Um instante depois, Creighton escutou o estalo simultâneo da arma e a explosão brilhante de vidro ao seu lado. Ele não sentiu o impacto da bala, mas rapidamente procurou em seu corpo pela ferida, por uma mancha crescente de sangue.

Não encontrou nada. Foi apenas a garrafa. O cara havia atirado na garrafa que estava na mão de Creighton. Bem na base do gargalo. – Esse tiro – disse Creighton, segurando o pouco que sobrou da garrafa – foi impressionante. – Se quisesse matar você, – disse a voz, – você estaria morto. Eu quero sua ajuda. Quando Creighton jogou o resto da garrafa no chão, ele percebeu que cacos de vidro haviamatingido sua coxa. O sangue começou a escorrer de uma dúzia de ferimentos. Ele esticou sua mão e passou a arrancar os pedaços de vidro de sua perna, pensando no quanto deveria ter doído. – Como sei que posso confiar em você? – Não sabe. E não posso confiar em você também. Mas essa é a natureza desses relacionamentos, não é? Ultimamente, Creighton estivera trabalhando sozinho, mas não havia sido assim sempre. – Sim – ele disse. – É mesmo. – Então, você está dentro? Creighton não respondeu, apenas terminou de remover o vidro da sua perna e jogá-lo no chão. Mas ele também não se virou para ir embora. – Tudo bem. Bom. Então eu tenho uma surpresa para você. – E seria? – Sua namorada. Ela está esperando por você lá fora, no carro. Creighton se endireitou. – Minha namorada? – Aham. Ele olhou ao redor da sala.

– Onde? O homem balançou a arma em direção à parede mais distante. – A porta está ali. As chaves, no carro. Também estão sua passagem de avião, carteira de motorista, crachá de identificação do FBI e um pouco de dinheiro para gastar, sr. Neville Lewis. Creighton deixou escapar um suspiro áspero. – Neville Lewis? Foi o melhor que pôde fazer? Um estalo de risada eletrônica. – Vá em frente. Nos falamos em breve. Eu sei que você deve estar ansioso para vê-la. – Espere. Você sabe meu nome, como eu devo chamar você? – Você pode me chamar de Shade 1. A luz se apagou e Creighton percebeu que não conseguia enxergar nada, exceto o resíduo do clarão e cores movendo-se por sua vista. O corredor por onde tinha vindo emitia uma luz leve, mas tirando isso, o quarto estava um completo breu. Ele ouviu um leve ruído de movimento ao lado da cadeira e percebeu que se ele não conseguia enxergar o atirador, atirador também não conseguia. Então. Uma chance. Dê um jeito nesse cara agora. Daí você não terá que se preocupar em confiar nele, ou trabalhar para ele, ou pagar a ele por qualquer favor. Creighton agachou-se e deslizou ao longo da parede. Foi apressado na direção da cadeira. Apalpando pela escuridão, ele trombou com a lâmpada industrial, que caiu no chão, as lâmpadas quentes explodindo com o impacto. As mãos de Creighton encontraram a cadeira e a ergueram, balançaram, com a esperança de encontrar a pessoa que havia atirado na garrafa em sua mão, mas ao invés disso encontrou apenas o vazio. Ele balançou novamente. Explorou em volta.

Nada. Cutucou o vazio com a cadeira por mais alguns minutos mas não achou nenhum sinal do homemque o convidou para estar ali. Finalmente, decidiu que o cara deve ter escapado de algum jeito, talvez por uma outra porta. Ao invés de ficar perdendo mais tempo perambulando pelo escuro, tentando atacar um fantasma, ele jogou a cadeira no chão e partiu em direção à parede mais distante. O cara havia garantido que sua namorada estava esperando. Ele não tinha certeza sobre o que pensar daquilo, mas certamente queria descobrir. Creighton encontrou a porta e abriu-a. Saiu para o beco atrás da danceteria. Um sedan com as janelas escuras estava parado ao lado de uma lixeira fétida. A noite tinha chegado, mas a luz amarelada do poste no fim do beco fornecia claridade suficiente para que Creighton enxergasse. Ele conferiu se não havia mais ninguém no beco, então aproximou-se do carro e tentou espiar pelo vidro. Muito escuro. Ele não confiava no cara com a arma e não tinha certeza sobre o que esperar quando abrisse a porta do carro. Um carro bomba? Mas por que? Por que desperdiçar o dinheiro da fiança? Além disso, o cara poderia tê-lo matado dentro do edifício. Barulhos suaves vindo de dentro do carro. Ele alcançou a maçaneta da porta. Abriu com um clique. – Olá? – ele chamou incrédulo. Ninguém no banco da frente. Ele entrou no carro. – Olá? – ele se virou. E a encontrou, deitada no banco de trás. Uma mulher que ele nunca havia visto. Amarrada e amordaçada. Ele fechou a porta.

Os olhos suplicantes da mulher arregalaram-se de terror quando ela o viu e percebeu que ele não fez nenhuma tentativa de libertá-la. Eles nunca haviam se encontrado, mas ele já havia visto o rosto dela. Sabia quem ela era. Ela se contorceu. Não conseguia se livrar. – Então, – disse ele, olhando para ela, sorrindo, acariciando seu cabelo loiro e macio – talvez eu possa confiar nele, afinal – Creighton virou-se para frente e ligou o motor. – Vamos, querida. É hora de nos conhecermos. Vou ser seu novo namorado. Saindo do beco, Creighton podia ouvir os gritos abafados e desesperados que vinham do banco de trás. Não era preciso se virar para saber o que era. Ele conhecia esse som muito bem. Ele já havia escutado antes. Ela estava tentando gritar por trás da mordaça. Sim, ele conhecia esse som muito bem. Parece que Weldon estivera certo o tempo todo. Creighton Melice havia feito um novo amigo. 1 Três meses depois Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 San Diego, Califórnia 17h46 Olhei para o conjunto de talheres em torno do meu prato. – Eu nunca me lembro qual é o garfo para salada. Minha enteada Tessa apontou. – O que está para o lado de fora, Patrick. Você começa nesse e vai indo para os do meio. – Tem certeza? Ela pegou meus garfos um de cada vez, uma porção de pulseiras de couro balançando para cima e para baixo em seu pulso, por cima dos quatro elásticos que ela usava sob eles. – Salada, prato principal e daí a sobremesa. Ao colocar de volta meu garfo de sobremesa, percebi o quanto nós dois nos destacávamos neste restaurante.

Todas as outras pessoas vestiam smoking, ou vestido de festa; nós dois estávamos de camiseta – a minha, uma camiseta esportiva desbotada da Marquette University, a dela, uma camiseta preta de manga longa do DeathNail 13, com o logotipo da banda, um olho com um prego enfiado. Ao lado da imagem, ela usava um pequeno bóton: Salve Darfur. Agora 2. Tessa havia escolhido um batom rosa claro essa noite, mas esmalte preto e sombra preta para combinar com seu cabelo negro como um corvo. Eu não estava muito animado com os piercings na sobrancelha e no nariz que ela havia feito mês passado sem minha permissão, mas eu tinha que admitir que ficaram bonitos. E com sua meia três quartos preta sob uma saia de tecido plissado, ela parecia um pouco gótica, um pouco ousada e sombria, mas ainda assim feminina e inocente aos 17 anos. – Então, como sabe tanto sobre a organização da mesa? – perguntei. – Eu trabalhei no La Saritas, lembra? Antes da mamãe morrer. Seu comentário me pegou de surpresa, me levou de volta para o funeral de Christie. Olhei pela janela. O vento estivera forte por toda a tarde, e naquela hora, logo após o pôr-do-sol, o mar parecia agitado e cinzento. A luz do sol restante foi arrastada lentamente para o mar enquanto algumas poucas gaivotas voavam sob as nuvens, eventualmente mergulhando para pegar um peixe que estivesse vagando perto demais da superfície acidentada da água. – É, desculpa. – Eu disse. – Eu tinha esquecido. Por quanto tempo você trabalhou lá, mesmo? – Dois dias. O gerente disse que eu não tinha “espírito de trabalho em equipe”. – Ela bebeu umgole de sua água com gelo. – Babaca. Eu havia escolhido uma mesa no fundo do restaurante, minhas costas viradas para a parede. Força do hábito. Por um momento, observei os garçons caminhando entre o labirinto de mesas, reparando nas rotas que tomavam, nas escolhas que faziam. Hábito de novo. Alguns minutos antes, a garota que nos levou ao nosso lugar colocou um prato com pão na minha frente. Ela deixou do lado uma tigela com uma espécie de azeite, e as pessoas em suas mesas, ao redor, estavam mergulhando seus pães no líquido amarelo forte e comendo.

Preferi passar. Nosso atendente, um homem magro com um nariz que parecia um bico, chegou para pegar nosso pedido. – Senhor – disse ele. Então se virou Tessa. – Mademoiselle. Gostariam de saber quais são os pratos especiais? Essa noite estamos oferecendo um adorável lombo de porco, acompanhado de molho de manga e… Tessa lançou um olhar mortal. – Você tem ideia das condições a que esses porcos são forçados a viver antes de serem mandados para o matadouro? Gaiolas de ferro. Pequenas gaiolas de ferro… – Tessa… – disse eu. – Onde eles são alimentados à força, drogados com hormônios de crescimento até ficarem gordos demais para levantar… – Tessa Bernice Ellis. – Só estou dizendo… Dei a ela o meu melhor olhar “fique quieta agora ou vamos comer no Burger King”. Nossos olhares batalharam por um tempo, e finalmente ela cedeu. – Tudo bem, tudo bem. Eu quero a salada da casa. – Ela apontou no cardápio. – E sem o bacon defumado. – Sim, senhora. – Ele virou-se para mim, inclinou a cabeça e deu um sorriso falso. Ele parecia umrobô. – E para o senhor? Percebi Tessa olhando para mim. – Acho que vou pedir a salada também. – eu disse. – Mas estou com fome, a minha pode ser uma grande. – Grande, senhor? Desculpe, mas nossa salada vem apenas em um tamanho, mas eu garanto que a porção é generosa. Eu tinha visto algumas dessas “porções generosas” quando Tessa e eu viemos até nossa mesa. – Bom, eu vou querer duas dessa, então.

Mas jogue as duas em um prato bem grande. Assim vai ficar bom. Ele rabiscou algo em sua caderneta, porém não achei que nosso pedido tinha sido tão complexo. Tessa limpou a garganta. – Patrick, falando sério, você pode pedir o lombo de porco se você quiser que prometo não falar nada sobre como os porcos são amontoados em jaulas cheias de fezes, onde eles não conseguem nemse virar, como são levados para um matadouro onde são atingidos por uma arma de ar comprimido que os deixa vivos, gritando e sangrando até a morte, enquanto são jogados vivos em água fervendo para remover os pelos e amaciar a carne, para que restaurantes como esse possam temperá-los commangas e servi-los para seus clientes. Prometo que não vou dizer nada disso. A mulher na mesa ao nosso lado baixou lentamente até a mesa seu garfo de prato principal. – Que atencioso da sua parte, Tessa. – eu disse. Matadouros. Ótimo. Exatamente sobre isso que eu precisava pensar agora. Percebi que o rosto do nosso atendente havia se tornado branco pastoso. – Pode me trazer as duas saladas em um prato grande mesmo e uma xícara de café. Calma, que tipo de café você tem? Ele tentou se recompor. – Nós servimos uma variedade de espressos e cappuccinos, além do normal e do descafeinado… – Não, não, não. Eu quero dizer o tipo, como o Ruiru 11 do Quênia, ou La Magnolia da Costa Rica, ou algo da região do cerrado do Brasil. Qual o tipo do café? De que país ele é? – Acredito que ele é comprado aqui nos Estados Unidos… Meu deus. – Quando você pega o café na loja, ele vem numa lata grande de metal? Ele sorriu. – Certamente. Era tudo que eu precisava saber. – Chá. Uma xícara de chá. – Obrigado, senhor. Olhei para a tigela de azeite.

– E um pouco de manteiga também. – Chá… – Ele balbuciou as palavras enquanto escrevia em seu bloco. – E manteiga. – Então ele virou-se na direção de Tessa, hesitante. – E sua bebida, senhora? – Refrigerante. E não coloque nenhum queijo na minha salada, nem nada do tipo. Ele fez um pequeno aceno com a cabeça. – Nem molho ranch. É nojento. – Sim, senhora. – Nem ovos. Mais um rápido aceno e ele desapareceu. – Bom, – eu disse – nada como visitar um restaurante chique. Deveríamos fazer isso mais vezes. – Sim,– ela disse, mergulhando um pedaço de pão no azeite e segurando-o contra a luz. Nacos de azeite da cor de vômito pingaram no prato dela. – Nada melhor. Tentei relaxar e aproveitar os próximos minutos. Tentei engatar uma conversa coerente, tentei ouvi-la falar de uma casa noturna sobre a qual estavam comentando e ela queria conhecer mas que de qualquer jeito eu nunca iria deixá-la ir, tentei pensar em coisas inteligentes para dizer sobre o garçom com cara de passarinho. Tentei, mas não consegui. A imagem de um matadouro pousou em minha cabeça e se recusava a sair. Eu conseguia ouvir os gritos vindo de dentro. Gritos agudos e desesperados. Mas nem esse matadouro nem os gritos tinham alguma coisa a ver com porcos.

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