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A transferência: uma história da série Divergente – Veronica Roth

ACORDO DA SIMULAÇÃO com um grito. Meu lábio arde, e, quando afasto a mão dele, há sangue nas pontas dos meus dedos. Devo tê-lo mordido durante o teste. A mulher da Audácia que está administrando o meu teste de aptidão — Tori, como ela disse se chamar —, olha para mim com uma expressão estranha ao prender o cabelo preto em um coque. Seus braços são marcados de cima a baixo com tatuagens — chamas e raios de luz e asas de gavião. – Enquanto estava na simulação… você tinha consciência de que ela não era real? – pergunta Tori ao desligar a máquina. Ela soa e age de forma natural, mas sua naturalidade é calculada, resultado de anos de prática. Percebo isso imediatamente. Eu sempre percebo. De repente, ouço o meu próprio batimento cardíaco. Isso é o que meu pai disse que aconteceria. Ele sabia que me perguntariam se eu estava consciente durante a simulação. E me preparou para o que eu deveria responder. – Não – respondo. – Se eu estivesse, acha que teria mordido o lábio deste jeito? Tori me estuda por alguns segundos, depois morde a argola em seu lábio antes de responder: – Parabéns. Você apresentou um resultado típico da Abnegação. Assinto com a cabeça, mas a palavra “Abnegação” é como uma corda ao redor do meu pescoço. – Não ficou satisfeito? – pergunta ela. – Os membros da minha facção ficarão. – Não perguntei sobre eles, perguntei sobre você. – Os cantos da boca e dos olhos de Tori desabam, como se carregassem pesos. Como se ela estivesse triste por algum motivo. – Esta sala é segura. Você pode falar o que quiser aqui. Eu sabia quais seriam as minhas opções no teste de aptidão antes mesmo de chegar na escola de manhã.


Escolhi a comida, e não a arma. Joguei-me na frente do cachorro para salvar a menininha. Eu sabia que depois de fazer essas escolhas o teste terminaria e o resultado seria Abnegação. E não sei se faria escolhas diferentes se meu pai não tivesse me preparado e controlado todos os aspectos do meu teste de aptidão a distância. Então, o que eu estava esperando? Qual facção queria? Qualquer uma. Qualquer uma, menos a Abnegação. – Estou satisfeito – respondo com firmeza. Não importa o que ela diz. Esta sala não é segura. Não existem salas seguras, assim como não existem verdades seguras, ou segredos que podem ser contados com segurança. Ainda consigo sentir os dentes do cachorro se fechando no meu braço, rasgando a minha pele. Assinto com a cabeça para Tori e começo a caminhar em direção à porta, mas, antes que eu saia, ela agarra o meu cotovelo. – É você quem precisará conviver com a sua escolha – diz ela. – Os outros vão superar, seguir em frente, não importa a sua decisão. Mas você nunca conseguirá fazer isso. Abro a porta e saio da sala. + + + Volto para o refeitório e me sento à mesa da Abnegação, entre pessoas que mal me conhecem. Meu pai não permite que eu frequente a maioria dos eventos da comunidade. Segundo ele, eu causaria algum transtorno, faria alguma coisa para prejudicar a sua imagem. Eu não ligo. Fico mais feliz em meu quarto, na casa silenciosa, do que entre os membros deferentes e obsequiosos da Abnegação. Mas uma consequência da minha ausência constante é que os outros membros da Abnegação desconfiam de mim, convencidos de que há algo de errado comigo, de que sou um enfermo, um imoral, estranho. Mesmo quem está disposto a me cumprimentar com um aceno de cabeça não encara diretamente os meus olhos. Sento-me abraçando os joelhos e observo as outras mesas, enquanto os alunos terminam seus testes de aptidão. A mesa da Erudição está coberta de papéis, mas nem todos estão estudando.

Eles estão apenas se exibindo, trocando conversas, e não ideias, voltando os olhos de novo para as palavras sempre que desconfiam que alguém está olhando. Os membros da Franqueza falam alto, como sempre. Os membros da Amizade riem, gargalham, tiram comida dos bolsos e distribuem entre si. Os membros da Audácia são barulhentos, largam-se sobre as mesas e cadeiras, apoiando-se em seus amigos, cutucando e implicando uns com os outros. Eu preferiria qualquer outra facção. Qualquer outra facção que não fosse a minha, em que todos já decidiram que não sou digno de atenção. Finalmente, uma mulher da Erudição entra no refeitório e levanta a mão, pedindo silêncio. Os membros da Abnegação e da Erudição se calam na mesma hora, mas ela precisa gritar para chamar a atenção dos integrantes da Audácia, Amizade e Franqueza. – Os testes de aptidão estão concluídos – anuncia ela. – Lembrem-se de que vocês não têm permissão de discutir seus resultados com ninguém, nem mesmo seus amigos e familiares. A Cerimônia de Escolha será amanhã à noite no Eixo. Tentem chegar com pelo menos dez minutos de antecedência. Vocês estão liberados. Todos correm em direção às portas, menos as pessoas da nossa mesa, que esperam todos terem deixado o refeitório antes até de se levantarem. Conheço o caminho que meus companheiros da Abnegação seguirão para ir embora, passando pelo corredor e saindo pelas portas da frente, até o ponto de ônibus. Eles talvez passem mais de uma hora lá, permitindo que as outras pessoas embarquem na frente. Acho que não consigo mais suportar esse silêncio. Em vez de segui-los, escapo por uma porta lateral, saindo em um beco ao lado da escola. Já fiz esse caminho antes, mas costumo me esgueirar devagar por ele, tentando evitar ser visto ou ouvido. Hoje, quero apenas sair correndo. Corro até o final do beco e pego a rua vazia, saltando um buraco na calçada. Meu casaco largo da Abnegação balança com o vento, e eu o deixo escorregar por meus ombros até que ele fique sacudindo atrás de mim, como uma bandeira, e então o solto. Puxo as mangas da camisa até os cotovelos ao correr, desacelerando um pouco quando meu corpo já não aguenta manter a velocidade. Parece que a cidade inteira está passando por mim, formando um borrão que mistura todos os prédios. Ouço o ruído de meus passos como se fosse um som distante.

Afinal preciso parar, com os músculos ardendo. Estou no páramo dos sem-facção, entre o setor da Abnegação e as sedes da Erudição e da Franqueza, e das nossas áreas comuns. Em todas as reuniões de facção, nossos líderes, geralmente representados pelo meu pai, afirmam que não devemos temer os sem-facção, e que devemos tratá-los como seres humanos, não como criaturas violadas e perdidas. Mas nunca me ocorreu temê-los. Caminho até a calçada para poder olhar pelas janelas dos prédios. Em geral, vejo apenas móveis antigos em cada cômodo vazio, com lixo espalhado pelo chão. Quando a maioria dos habitantes da cidade foi embora (o que certamente aconteceu, já que a nossa população atual não ocupa todos os edifícios), ela não deve ter saído com pressa, porque os lugares onde moravam estão muito vazios. Não sobrou nada de interessante. No entanto, quando passo por um dos edifícios de esquina, vejo algo no interior. O cômodo do outro lado da janela está tão vazio quanto qualquer um dos outros pelos quais passei, mas, do outro lado de uma porta, lá dentro, vejo uma única brasa, um carvão aceso. Franzo a testa e paro diante da janela para tentar abri-la. A princípio, ela nem se move, mas depois que a sacudo ela se abre de repente. Passo o torso primeiro, depois as pernas, desabando sem jeito no chão do lado de dentro. Meus cotovelos ardem ao se arranharem no chão. O edifício cheira a comida, fumaça e suor. Caminho devagar em direção à brasa, atento a vozes que revelem a presença dos sem-facção, mas ouço apenas o silêncio. No cômodo seguinte, as janelas estão enegrecidas por tinta e sujeira, mas deixam atravessar um pouco da luz do dia, permitindo que eu veja catres enrolados espalhados por todo o chão do cômodo e latas velhas com restos de comida seca presos no interior. No centro do cômodo, há uma pequena grelha sobre carvões. A maioria dos pedaços de carvão está branca, já consumida, mas um deles ainda está aceso, sugerindo que quem quer que tenha estado ali não foi embora há muito tempo. E, a julgar pelo cheiro e pela quantidade de latas e cobertores, havia um bocado de gente ali. Sempre me ensinaram que os sem-facção vivem sem comunidade, isolados uns dos outros. Agora, vendo este lugar, pergunto-me como pude acreditar nisso. O que os impediria de formar grupos, assim como nós fizemos? É a nossa natureza. – O que você está fazendo aqui? – pergunta uma voz, que me atravessa como um choque elétrico. Eu me viro e vejo um homem sujo e de rosto amarelado no cômodo ao lado, limpando as mãos em uma toalha esfarrapada.

– Eu estava apenas… – Olho para a grelha. – Eu vi fogo. Só isso. – Ah. – O homem enfia a ponta da toalha no bolso traseiro. Ele veste calças pretas da Franqueza remendadas com tecido azul da Erudição e uma camisa cinza da Abnegação exatamente como a que estou vestindo. É bastante esguio, mas parece forte. Forte o bastante para me machucar, mas acho que ele não vai fazer isso. – Obrigado, eu acho – diz ele. – Mas não há incêndio algum aqui. – É, eu percebi – digo. – Que lugar é este? – É a minha casa – responde ele, com um sorriso frio. Ele não tem um dos dentes. – Não sabia que receberia visita, então não me preocupei em arrumá-la. Desvio o olhar para as latas espalhadas pelo chão. – Você deve se revirar muito, para precisar de tantos cobertores. – Nunca conheci um Careta que se intrometesse tanto na vida dos outros – diz ele. Ele se aproxima de mim e franze a testa. – Você me parece um pouco familiar. Sei que é impossível que eu o tenha visto antes. Não onde vivo, cercado por casas idênticas, no bairro mais monótono da cidade, rodeado de pessoas com roupas cinzentas idênticas e cabelos curtos idênticos. E então me ocorre: embora meu pai se esforce para me manter escondido, ele continua sendo o líder do conselho, um dos homens mais importantes da cidade, e continuo parecido com ele. – Perdão por tê-lo incomodado – digo, na minha melhor voz de membro da Abnegação. – Já vou indo. – Sim, eu conheço você – diz o homem.

– Você é filho de Evelyn Eaton, não é? Meu corpo enrijece quando ouço o nome dela. Há anos não o ouço, porque meu pai não o pronuncia e finge nem reconhecê-lo se alguém o menciona. Ser conectado a ela outra vez, mesmo que apenas através da semelhança física, parece estranho, como vestir uma antiga peça de roupa que não cabe mais. – Você a conhecia? – Ele devia conhecê-la bem se consegue reconhecê-la em meu rosto, que é mais pálido do que o dela, e com olhos azuis, não marrom-escuros. A maioria das pessoas não prestou atenção o suficiente para perceber todas as coisas que tínhamos em comum: nossos dedos longos, nossos narizes aquilinos, nossas sobrancelhas retas e franzidas. Ele hesita por um instante. – Às vezes ela se voluntariava com outros membros da Abnegação. Distribuindo comida, cobertores e roupas. Ela tinha um rosto marcante. Além disso, era casada com um líder de conselho. Todos não a conheciam? Às vezes, sei que as pessoas estão mentindo apenas pela maneira como sinto as palavras me pressionando, de forma desconfortável e forte, como uma pessoa da Erudição se sente ao ver um erro gramatical. Não sei como ele conhecia a minha mãe, mas certamente não era apenas porque ela lhe entregou uma lata de sopa alguma vez na vida. Mas estou tão ansioso para ouvir mais a respeito dela que não insisto no assunto. – Ela morreu, sabia? – digo. – Há anos. – Não, eu não sabia. – Um dos cantos da boca dele se curva um pouco para baixo. – Sinto muito. Sinto-me estranho neste lugar úmido, que cheira a corpos vivos e a fumaça, em meio a latas vazias que sugerem pobreza e o fracasso em se encaixar. Mas também há algo atraente aqui, certa liberdade ou uma recusa de pertencer às categorias arbitrárias que inventamos para nós mesmos. – Sua Escolha deve ser amanhã, já que você parece tão preocupado – observa o homem. – Que facção você tirou? – Não devo contar para as outras pessoas – respondo automaticamente. – Não sou outra pessoa – diz ele. – Sou ninguém. É isso que significa ser um sem-facção.

Mesmo assim, não digo nada. A proibição de revelar o resultado do meu teste de aptidão ou qualquer um dos meus outros segredos é construída rigidamente no molde que me faz e refaz todos os dias. É impossível mudar isso agora. – Ah, um seguidor de regras – diz ele, como se estivesse desapontado. – Sua mãe me disse certa vez que ela sentia que a inércia a havia levado para a Abnegação. Foi o caminho da resistência mínima. – Ele dá de ombros. – Confie em mim quando digo, garoto Eaton, que vale a pena resistir. Sinto uma onda de raiva. Ele não deveria estar falando sobre a minha mãe, como se ela pertencesse a ele e não a mim, e não deveria estar me fazendo questionar tudo o que lembro a respeito dela, só porque ela talvez tenha servido, ou não, comida para ele algum dia. Ele não deveria estar me contando nada. Ele não é ninguém, é um sem-facção, separado, não é nada. – É mesmo? Olha só para onde a resistência levou você. Para uma vida de latas vazias em edifícios decadentes. Não me parece tão bom assim. Começo a caminhar em direção à porta de onde o homem veio. Sei que encontrarei uma saída para o beco em algum lugar ao lado do edifício; não me importa onde, desde que eu consiga ir embora o mais rápido possível. Escolho um trajeto, tomando cuidado para não pisar em nenhum cobertor. Quando chego ao corredor, o homem diz: – Prefiro comer de uma lata a ser oprimido por uma facção. Não olho para trás. + + + Ao chegar em casa, sento-me no degrau de entrada e respiro fundo o ar frio da primavera por alguns minutos. Foi a minha mãe quem me ensinou a aproveitar momentos como este, momentos de liberdade, embora ela não soubesse disso. Eu a vi fazer isso, escapar pela porta da frente depois de escurecer enquanto meu pai dormia, depois voltar escondida para casa, quando a luz do sol começava a surgir atrás dos prédios. Ela também aproveitava esses momentos quando estava conosco, diante da pia, de olhos fechados, tão distante do presente que nem me ouvia falar com ela. Mas também aprendi outra coisa observando-a: os momentos livres sempre precisam acabar.

Levanto-me, limpo pedaços de cimento das minhas calças de cor cinza e abro a porta. Meu pai está sentado na poltrona da sala de estar, cercado por uma papelada. Ajeito a postura para não ser repreendido por andar curvado. Caminho em direção à escada. Talvez ele me deixe ir para o meu quarto, talvez não preste atenção em mim. – Conte-me sobre seu teste de aptidão – diz ele, apontando para o sofá. Atravesso a sala, saltando cuidadosamente uma pilha de papéis sobre o carpete, e me sento onde ele apontou, bem na ponta do sofá, para poder me levantar depressa. – E então? – Ele retira os óculos e olha para mim, esperando uma resposta. Ouço certa tensão em sua voz, típica de um dia difícil no trabalho. É melhor eu tomar cuidado. – Qual foi o resultado? A possibilidade de me recusar a responder nem passa pela minha cabeça. – Abnegação. – Nada mais? Franzo a testa. – Não, é claro que não. – Não olhe para mim assim – diz ele, e minha testa franzida volta ao normal. – Não aconteceu nada de estranho em seu teste? Durante o meu teste, eu sabia onde estava. Sabia que, apesar de parecer que eu me encontrava no refeitório da escola secundária, na verdade continuava prostrado sobre uma cadeira na sala do teste de aptidão, conectado a uma máquina por uma série de fios. Aquilo foi estranho. Mas não quero falar sobre isso agora, quando consigo ver o estresse crescendo dentro dele, como uma tempestade. – Não – respondo. – Não minta para mim – ordena ele, agarrando o meu braço e apertando os dedos como um torno. Não olho para ele. – Não estou mentindo – digo. – Meu resultado foi Abnegação, como esperado. A mulher quase nem olhou para mim quando deixei a sala.

Eu juro. Ele me solta. Meu braço lateja onde ele me agarrou. – Ótimo – diz ele. – Você certamente precisa pensar um pouco. É melhor ir para o seu quarto. – Sim, senhor. Levanto-me e atravesso a sala outra vez, aliviado. – Ah – diz ele. – Alguns dos meus colegas do conselho virão aqui hoje, então é melhor você jantar mais cedo. – Sim, senhor. + + + Antes do pôr do sol, pego comida dos armários e da geladeira: dois pães e cenouras cruas, ainda com as folhas, um pedaço de queijo, uma maçã e restos de frango sem tempero. Todas as comidas têm o mesmo gosto, de poeira e pasta. Mantenho os olhos na porta para não esbarrar em nenhum colega do meu pai. Ele não ia gostar se eu ainda estivesse no andar de baixo quando eles chegassem. Estou terminando um copo de água quando o primeiro membro do conselho alcança a porta da frente, então passo correndo pela sala de estar antes que meu pai alcance a porta. Ele me espera passar pelo balaústre, com a mão na maçaneta e as sobrancelhas erguidas na minha direção,. Ele aponta para o segundo andar, e eu subo os degraus apressadamente enquanto ele abre a porta. – Olá, Marcus. – Reconheço a voz de Andrew Prior. Ele é um dos amigos de trabalho mais próximos do meu pai, o que não significa nada, porque ninguém conhece meu pai de verdade. Nem eu. Do alto da escada, olho para Andrew. Ele limpa os sapatos no capacho. Às vezes, vejo-o com sua família, uma unidade perfeita da Abnegação, Natalie e Andrew, e o filho e a filha (que não são gêmeos, mas estão no mesmo ano da escola, dois antes do meu), todos caminhando serenamente pela calçada, cumprimentando as pessoas por quem passam com um aceno de cabeça.

Natalie organiza todas as ações voluntárias entre os membros da Abnegação. Minha mãe provavelmente a conhecia, embora raramente frequentasse eventos sociais da Abnegação, preferindo guardar seus segredos, como guardo os meus, dentro de casa. Os olhos de Andrew encontram os meus, e eu corro pelo corredor até o meu quarto, fechando a porta atrás de mim.

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