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A travessia de Caleb – Geraldine Brooks

Ele vai chegar no Dia do Senhor. Embora meu pai não tenha achado recomendável me dar a notícia, já sei de tudo. Papai e Makepeace pensaram que eu estivesse dormindo, e talvez estivesse, como toda noite, enquanto sussurravam do outro lado da manta que divide a nossa câmara. Quase toda noite, o murmúrio grave de suas vozes me reconforta. Mas na noite passada, a voz de Makepeace se ergueu exaltada e angustiada até que meu pai o silenciasse. Acho que foi isso o que me trouxe de volta do sono. Meu irmão tende a reprovar demonstrações excessivas de temperamento. Virei-me no meu catre de palha e ponderei, sonolenta, o que o levava a falar assim. Não ouvi a resposta de papai, mas então a voz de meu irmão se ergueu outra vez. — Como o senhor pode expor Bethia dessa maneira? É claro que quando ouvi meu próprio nome, já não havia mais jeito — fiquei plenamente desperta. Ergui a cabeça e me esforcei para ouvir melhor. Não foi difícil, pois Makepeace não conseguia conter a própria língua, e embora eu não conseguisse distinguir uma palavra sequer dita por meu pai, alguns fragmentos das respostas de meu irmão estavam bem claros. — Que importa se ele reza? O rapaz foi há quanto… nem um ano, removido do paganismo? E aquele homem que por tanto tempo foi responsável por ele é o próprio servo do Demônio, o mais teimoso e perigoso de todos eles, como o senhor mesmo já disse tantas vezes… Meu pai o interrompeu, mas Makepeace não se calava. — É claro que não, meu pai. Nem questiono a capacidade do rapaz. Mas o fato de ter facilidade com o latim não significa que ele conheça as decências necessárias para viver num lar cristão. O risco é… Nesse momento Solace chorou, por isso me estiquei para pegá-la. Os dois perceberam que eu estava acordada e não disseram mais nada. Mas foi o suficiente. Envolvi Solace e a trouxe para perto de mim no catre. Ela se acomodou junto ao meu corpo feito um pássaro no ninho e caiu facilmente no sono outra vez. Eu fiquei acordada, fitando a escuridão, correndo a mão pela borda áspera da viga que cortava o teto inclinado logo acima da minha cabeça. Daqui a cinco dias, estaremos vivendo sob o mesmo teto. Caleb vem morar nesta casa. DE MANHÃ, NÃO FALEI NADA sobre o que tinha ouvido.


Sou de escutar, não de falar. Fiquei exímia nisso. Minha mãe me ensinou o uso do silêncio. Enquanto estava viva, acho que não mais de doze pessoas nesta comunidade chegaram a ouvir o som de sua voz. Era uma voz delicada, grave e branda, com o cantarolar da aldeia de Wiltshire, na Inglaterra, onde ela passou seus tempos de menina. Mamãe ria e fazia rimas cheias de palavras estranhas sobre aquele lugar, e nos contava histórias de coisas que nunca havíamos visto: catedrais e carruagens, grandes rios tão largos quanto o nosso porto e ruas com lojas nas quais quem tivesse algum cobre poderia comprar mercadorias de todo tipo. Mas isso dentro de casa, quando estávamos em família. Quando saía pelo mundo, fazia-o com os olhos baixos e os lábios lacrados. Era como uma borboleta, cheia de cor e vitalidade quando decidia abrir as asas, mas quase invisível quando as fechava. Sua modéstia era como uma veste com que se cobria, e assim adornada, com docilidade e discrição, parecia passar quase oculta das pessoas, de modo que às vezes falavam diante de mamãe como se ela não estivesse presente. Mais tarde, à mesa, se o assunto fosse adequado aos ouvidos infantis, contava uma ou outra notícia importante ou divertida que recolhera sobre os nossos vizinhos. Com frequência, o que mamãe ficava sabendo tinha grande utilidade a papai, em sua pregação, ou ao meu avô, em sua magistratura. Eu a imitava nisso, e foi assim que fiquei sabendo que iria perdê-la. Nossa vizinha, Goody Branch, que é a parteira daqui, tinha me mandado buscar mais cerveja vermelha, na esperança de que refrescasse a febre puerperal de mamãe. Apesar de estar muito ansiosa para logo lhe trazer a cerveja, fiquei parada à porta por alguns minutos quando ouvi minha mãe falar. E o que ela falou dizia respeito à sua morte. Esperei que Goody Branch a contradissesse, afirmasse que tudo ficaria bem, mas tais palavras não vieram. Em vez disso, Goody Branch respondeu que cuidaria de certas questões que a estavam preocupando, que ficasse tranquila com relação a tudo aquilo. Nós a enterramos três dias depois. Embora fosse primavera segundo o calendário, o solo ainda não havia degelado. Por isso, acendemos uma fogueira no local que meu pai tinha escolhido, entre as sepulturas de Zuriel, meu irmão gêmeo, que morrera aos nove anos, e meu outro irmão bebê que não se demorara por aqui o suficiente para lhe darmos um nome. Cuidamos do fogo a noite inteira. Mesmo assim, ao amanhecer, quando meu pai e Makepeace começaram a cavar, a pá bateu com um estalido naquela terra dura como ferro. Ainda guardo aquele som comigo. O trabalho foi tão árduo que meu pai não parava de tremer depois, os membros frouxos pelo esforço de pôr a minha mãe para descansar.

Assim são as coisas nesta ilha aqui fora, onde vivemos de frente para o mar e de costas para a mata. Tal qual a família de Adão depois da queda, temos todo tipo de tarefa a cumprir. Somos funileiro, padeiro, boticário, coveiro. Qualquer que seja o trabalho, temos de fazê-lo, ou viver semele. Já se passou quase um ano da morte de minha mãe, e desde então fiquei responsável por Solace e por cuidar da casa. Sinto falta dela, assim como meu pai, e Makepeace também, à sua maneira, ainda que seus afetos pareçam menos calorosos que os nossos. A fé dele igualmente parece mais forte, no modo como consegue aceitar o que nos sobrevém como obra do desejo divino. Todos nós passamos vários dias e noites sofridos examinando nossas almas e nossa conduta para aprender a lição que o Senhor nos reservou ao levá-la tão cedo; as fraquezas e pecados pelos quais decidiu nos punir. E ainda que eu me sente em devota reflexão com meu pai, pensando na questão do nosso estado espiritual, ainda não lhe contei o que sei ser a verdade. Eu matei a minha mãe. Sei que alguns diriam que eu era uma criança com quem o Demônio, traiçoeiro, resolveu brincar. Mas para a alma, não existe a juventude nem a idade. O pecado nos macula ao nascermos e enturva cada uma de nossas horas. Como dizem as Escrituras: “Pois está próximo o dia em que seu pé irá resvalar.” Basta errarmos o passo, como eu fiz, e a idade deixa de ter importância. Perdemos qualquer aspiração à inocência infantil. E meus pecados não foram meras travessuras infantis, foram questões gravadas em pedra, nas tábuas das falhas mortais. Rompi os Mandamentos, dia após dia. E o fiz de plena consciência. Filha de pastor: como poderia negá-lo? Como Eva, tive sede pelo conhecimento proibido e comi da fruta proibida. Para ela, a maçã; para mim, o heléboro-branco — plantas diferentes, ofertadas pela mesma mão. E assim como a serpente deve ter sido encantadora — posso vê-la, com suas escamas lustrosas e brilhantes, vertendo líquido nos ombros de Eva, seus olhos como joias luminosas fitando os dela —, o Demônio também veio até mim numa forma de irresistível beleza. Rompa as leis de Deus e sofra sua ira. Bem, é o que faço. O Senhor deita sua mão ferida sobre mim, e eu me curvo sob o labor que tenho agora — o da minha mãe e o meu, ambos.

As tarefas se estendem do abismo cinzento antes do amanhecer à última gota de luz da noite. Aos quinze anos, assumi os encargos de uma mulher, e passei a sentir-me como uma. E me alegro com isso. Pois já não tenho tempo para cair nos pecados que cometi quando menina, quando as horas que eu tinha para gastar se estendiam à minha frente como uma dádiva. Aquelas tardes quentes e salgadas em que a costa se encurvava em seu longo arco reluzente em direção aos penhascos distantes. As manhãs argilosas, pontilhadas de folhas nos recantos frescos onde eu colhia frutas da cor do céu e sentia cada uma delas estourar, doce e suculenta, na minha boca. Apropriei-me desta ilha, pedaço por pedaço, do barro mole e fluido das escarpas iridescentes à friagem áspera dos rochedos de granito que se erguem ab-ruptos nos campos, estorvando o arado, sombreando as ovelhas. Amo as brumas que nos cobrem a todos com véus leitosos e os ventos que gemem, lastimosos, na chaminé à noite. Mesmo quando a linha da maré alta está crostosa com o gelo salgado e quando as trilhas do bosque estalamsob os meus tamancos, bebo do ar frio no azul profundo que reluz na neve. Cada enseada e afloramento deste lugar, amo-os. Aqui, somos ensinados desde cedo a ver a Natureza como um inimigo a ser subjugado. Mas eu passei, aos poucos, a venerá-la. Poderíamos dizer que, para mim, esta ilha e seus tesouros se tornaram o primeiro dos meus falsos deuses, o pecado original que gerou tanta idolatria. Agora, aqui, nos poucos dias que me restam antes que Caleb venha até nós, decidi escrever o meu diário espiritual e narrar aqueles meses em que meu coração esteve tão desprendido de Deus. Reuni os retalhos de papel que consegui recolher no estoque do meu irmão e pretendo usar todos os momentos que encontrar antes que a fadiga de cada dia venha me reclamar. A minha letra não é graciosa, pois meu pai não me ensinou a escrever, mas como este relato é para meus próprios olhos, não tem importância. Como não sei, ainda, se terei coragem para, um dia, confessar toda a verdade sobre mim mesma durante o culto, isto terá de bastar. Em minha aflição, procurei o Senhor, mas não recebi nenhum sinal de que estou salva. Quando olho para minhas mãos e punhos, arruinados pelas marcas das pequenas queimaduras das panelas e faíscas, cada cicatriz vermelha ou ruga branca me traz à mente aquele fogo eterno e as massas padecentes dos danados, dentre os quais eu certamente passarei a eternidade. Somente Deus determina quem é condenado e quem é salvo, e nada do que eu deitar nestas páginas poderá mudar esse fato. Mas como Caleb está por vir, trazendo consigo a fumaça daquelas fogueiras pagãs e o aroma daquelas horas selvagens e repletas de visões, preciso ter a mente limpa e o coração sincero sobre o lugar onde me encontro em relação a essas questões, para conseguir realmente afastálas de mim. Tenho de fazê-lo por ele, bem como por mim mesma. Sei que meu pai tem grandes esperanças em relação a Caleb. Ele o vê, mais que a qualquer outro aqui, como uma grande promessa para liderar seu povo. E Caleb parece desejar o mesmo; ninguém se debruça sobre os livros comtanta diligência; ninguém reuniu uma colheita tão rica de conhecimento nos raros momentos que tempara estudar essas coisas.

Mas isto também é verdade: a alma de Caleb está esticada como a corda num cabo de guerra, entre meu pai e seu tio indígena, o pawaaw. Meu pai tem suas esperanças, e aquele feiticeiro também tem as suas. Caleb irá liderar seu povo, tenho certeza disso. Mas em que direção? Disso, não tenho certeza nenhuma. II Uma vez, numa noite tempestuosa dois invernos atrás, depois de trabalharmos debaixo de chuva e vento para puxar os botes e amarrá-los em segurança, voltamos para casa com as vestes cobertas de água e mechas congeladas de cabelo batendo umas nas outras enquanto caminhávamos. Tínhamos as mãos dormentes ao emplastramos as rachaduras e fissuras da casa e nos esforçarmos para consertar o papel encerado que estava rasgado nas janelas (não tínhamos vidro, na época). Mais tarde, sentada diante do fogo, o gelo se derretendo de mim, a água formando uma poça aos meus pés, Makepeace fez ao nosso pai a pergunta que vinha se formando também na minha mente: por que razão meu avô quis obter o título das terras desta ilha? Por que colocar dez quilômetros de correntezas traiçoeiras entre ele e os demais ingleses, numa época em que havia terra para dar e vender no continente para qualquer pessoa que quisesse estabelecer um novo povoado? Papai respondeu que meu avô, quando jovem, servira a terceiros, usando suas habilidades para trabalhar como agente de um nobre endinheirado que o recompensou acusando-o de delitos semfundamento. Embora meu avô tivesse conseguido se inocentar, a experiência o tornou amargo, e ele resolveu não mais servir aos outros. E isso incluía John Winthrop, o governador da colônia da Baía de Massachusetts, um homem de talentos estimáveis, porém cada vez mais disposto a punir cruelmente aqueles que tivessem ideias em desacordo com as suas. Mais de um homem tivera as orelhas cortadas ou o nariz rasgado; uma mulher dissidente, grávida e com uma dúzia de filhos para cuidar, fora expulsa para o mato. E esses eram seus irmãos e irmãs cristãos. O que ele fizera com o povo pequot, segundo meu pai, era inapropriado para os nossos ouvidos. — O seu avô sentia que conseguiria se sair melhor. Assim, comprou estas terras, que estavam fora da jurisdição de Winthrop, e reuniu vários homens que pensavam como ele e estavam dispostos a aceitar a mão leve de sua liderança. Ele me enviou em 1642 para fazer a primeira travessia. É motivo de orgulho para mim, meu filho, que seu avô, depois de ter pagado às autoridades inglesas pelo título da terra, tenha insistido em pagar também ao sonquem local. Todas as cabanas e casas que construímos aqui estão sobre terras vendidas voluntariamente a nós por meio de negociações que eu conduzi com honradez. Você talvez ouça dizer que nem todos os seguidores do sonquem concordaram com seu chefe nessa questão, e alguns dizem agora que ele próprio não compreendeu que pretendíamos mantê-los afastados desta terra para sempre. Seja como for, o que já foi feito não volta atrás, e foi feito de acordo com a lei. Eu pensei, mas não disse, que meu avô dificilmente poderia esperar que as sutilezas do direito de propriedade inglês tivessem valor para boa parte daquelas três mil pessoas que, antes da nossa chegada, tinham a reputação de ser violentos selvagens. Se havia algum motivo de orgulho naquilo tudo, só poderia ser o orgulho pela astúcia do plano de meu avô, e pela coragem e tato de nosso pai em executá-lo. Papai tinha apenas dezenove anos quando veio para cá. Talvez sua juventude e temperamento amável tenham convencido o sonquem de que os “homens cobertos”, como nos chamavam, eram inofensivos. E que mal poderia haver para eles em que aquele punhado de famílias se acomodasse lado a lado numa pequena faixa diante do porto, enquanto suas tribos, às centenas, percorriam a ilha por onde quisessem? Papai apanhou o fio da meada de seu pensamento, como se fosse um novelo emaranhado que lhe causasse preocupação. — Sim, temos sido bons vizinhos; acredito que sim — disse.

— E por que não seríamos? Não há razão para que fosse de outra forma, independentemente das difamações criadas pela família Alden e sua facção. “Você pode perturbar e irritar o diabo, mas não vai sair nenhum cristão dali”, foi o que me disse Giles Alden na primeira vez em que fui pregar nos wetu. E o tempo mostrou que ele estava errado! Durante vários anos, engoli a poeira daquelas cabanas, ajudando-os com qualquer questão prática sempre que possível, satisfeito em ganhar a atenção de apenas um ou dois deles com umas poucas palavras sobre Cristo. E agora, finalmente, começo a destilar nas mentes deles o licor puro do Evangelho. Deparar-me com um povo que estava avançando depressa pela estrada do inferno, e conseguir fazer com que se voltem na direção de Deus… é o que temos de nos esforçar por fazer. Eles são um povo admirável de muitas maneiras, para quem se dá ao trabalho de conhecê-los. Como eu teria surpreendido meu pai, e meu irmão também, mesmo àquela altura, se tivesse aberto a boca e me aventurado a dizer, em wampanaontoaonk, que eu tinha me dado ao trabalho de conhecêlos; que eu os conhecia, em alguns aspectos, melhor que meu pai, que era seu missionário e pastor. Porém, como já mencionei aqui, eu aprendera desde cedo o valor do silêncio, e não me revelava à toa. Assim, levantei-me do fogo e tratei de me ocupar, molhando fermento e farinha para usá-los no pão do dia seguinte. Nossos vizinhos. QUANDO CRIANÇA, não pensava neles dessa forma. Acredito que, como todos os outros, eu os chamasse de selvagens, pagãos, bárbaros, os gentios. Quando pequena, na verdade, mal pensava neles. Naqueles tempos, eu vivia com meu irmão gêmeo, sob as asas de minha mãe, e os afazeres deles não tocavam os nossos. Ouvi dizer que passou mais de um ano sem que uma única alma viva daquele povo se aproximasse da nossa plantação, nem para perturbar, nem para ajudar. Se meu pai tivesse algum negócio a tratar em suas aldeias em nome de meu avô, seguia sozinho para algum otan e eu não ficava sabendo de nada a respeito. Foi um pouco mais tarde — não tenho certeza da data —, depois que o povoado de Great Harbor construiu seu templo quaker, que um pobre índio desprezado passou a perambular por aí aos domingos. De ascendência perversa e semblante nada promissor, ele era um pária entre seu próprio povo, considerado inapto para se tornar um guerreiro, e não tinha sequer o direito comum de caçar com seu sonquem ou de participar das reuniões nas quais o sonquem entregava generosamente alimentos e produtos a seu povo. Eu sabia que meu pai pregava para esse homem, e não dava muito importância ao fato. Parecia apenas um ato normal de caridade cristã, como fomos instruídos: “Todas as vezes que fizeste isso a um dos menores dos meus irmãos…” Mas foi com esse metal nada promissor que meu pai começou a forjar sua Cruz. Minha mãe ficou bastante chocada, num domingo, quando papai apresentou esse homem, que se chamava Iacoomis, como convidado à nossa mesa. E calhou de o corpo pouco atraente daquele homem abrigar uma mente ágil. Ele aprendeu a ler avidamente e, em troca, começou a ensinar a meu pai a língua wampanaontoaonk, para auxiliá-lo em sua missão. Enquanto meu pai se esforçava para aprender a nova língua, eu também a aprendi, como uma menina faria, confinada ao círculo familiar e ao quintal enquanto os negócios dos adultos me circundavam. Acho que aprendi aquela língua simultaneamente ao inglês; na época, eu tinha a mente maleável e pronta para receber novas palavras.

Frequentemente, enquanto papai e Iacoomis ficavam sentados, repetindo uma frase muitas e muitas vezes, ela já estava na minha boca muito antes que meu pai conseguisse dominá-la. Conforme aprendia, papai, por sua vez, empenhava-se em ensinar algumas palavras úteis ao funcionário do meu avô, Peter Folger, que era sábio o bastante para perceber a importância daquilo para os negócios e transações. Durante uma época, quando ainda éramos muito pequenos, Zuriel e eu brincávamos, escondidos, de aprender aquela língua, e falávamos entre nós como uma linguagemsecreta em wampanaontoaonk. Mas quando Zuriel cresceu, começou a passar menos tempo em casa, perambulando daqui para lá como os meninos têm permissão de fazer. Assim, ele foi esquecendo as palavras, eu continuei a aprendê-las, e a brincadeira acabou definhando. Eu muitas vezes me perguntei se o que aconteceu depois teve suas raízes neste fato: de que a língua indígena estava tão entrelaçada, no meu coração, àquelas primeiras memórias de meu irmão, que depois, ao encontrar umoutro da mesma idade que também a falava, aqueles afetos tenros e dormentes despertaram em meu interior. Quando conheci Caleb, eu já carregava comigo um grande conjunto de palavras e frases corriqueiras. Desde então, passei a falar essa língua nos meus sonhos. Lembro uma vez em que, quando pequena, falei “os selvagens” diante de papai, e ele me reprovou: — Não os chame de selvagens. Use o nome que eles mesmos usam, wampanoags. Significa “povo do leste”. Pobre papai. Ele tinha tanto orgulho de seu esforço com aquelas palavras difíceis; palavras tão compridas que deviam ter criado raízes e crescido desde a queda da torre de Babel. Mas ainda assim, papai jamais dominou a pronúncia, que é a maior das maravilhas dessa língua. Também não compreendeu a maneira pela qual as palavras eram construídas, som por som, criando significados particulares. “Povo do leste”, de fato. Como se eles falassem do leste ou do oeste como nós. Nada é tão simples e ordinário nessa língua. Wop, palavra ligada ao termo que eles usam para o branco, traz um sentido da primeira luz leitosa que aviva o horizonte antes de o sol nascer. O som final está ligado aos seres vivos. Assim, o nome que eles usam para se referir a si mesmos, traduzido corretamente à nossa língua, significa “povo da primeira luz”. Como eu nasci aqui, também passei a me sentir como uma pessoa da primeira luz, empoleirada na margem mais extrema do novo mundo, primeira testemunha de cada madrugada nos giros do globo. Para mim, não é estranho que possamos, num único dia, observar um sol nascer no mar e depois se pôr de volta nele, ainda que os recém-chegados logo comentem o quanto isso é incomum. No pôr do sol, se eu estiver perto da água — e é difícil escaparmos dela por aqui —, paro para ver aquele disco esplêndido incinerar a salmoura e então mergulhar em seu próprio banho de chamas. Quando o lusco-fusco se aprofunda, penso naqueles que ficaram para trás na Inglaterra.

Dizem que o amanhecer se aproxima lá enquanto a nossa escuridão ainda está crescendo. Penso neles, despertando para mais uma alvorada de opressão sob o jugo do rei réprobo. Durante o culto, papai nos leu um poema de umde nossos irmãos reformados de lá: Caminhamos calados, ano após ano, Esperando passar ao solo americano. Eu costumava lhes oferecer uma prece, para que Deus apressasse sua partida para cá e para que suas manhãs não lhes trouxessem medo, e sim uma paz como a que conhecemos aqui, sob a mão leve do governo de meu avô e o ministério amável de meu pai. Agora que penso no assunto, faz tempo que não rezo por isso. Já não me sinto em paz aqui. III O relato da minha queda deve começar três anos atrás, naquele verão magro dos meus doze anos. Como fazem os recém-chegados numa terra estrangeira, nós nos aferramos por tempo demais aos velhos hábitos e modos de vida. A nossa cevada não parecia crescer bem aqui, mas as famílias continuavam a plantá-la, só porque sempre o haviam feito. Com grande dificuldade, tínhamos trazido cordeiros do continente um ano antes, sobretudo para criá-los e usar sua lã, pois estava claro que teríamos de fazer as nossas próprias roupas, e o linho não dava conta dos invernos rigorosos deste lugar. Mas o desejo de comermos um cordeiro durante a páscoa foi forte, por isso juntamos os machos e as fêmeas cedo demais. E então nos vimos presos num inverno obstinado que não cedia passagem aos dias mais cálidos, não importando o que o calendário dissesse a respeito. Embora todos tentássemos aquecer os cordeiros recém-nascidos junto à lareira, os ventos amargos que uivavam pelos pastos salgados e as geadas ríspidas que devoravam os rebentos nas plantações levaram mais do que podíamos perder. Toda a terra era coletiva na época, e não tínhamos construído celeiros nem currais que prestassem. Com poucas reservas de carne salgada depois de um inverno tão longo, e sem nenhuma promessa de conseguirmos carne fresca, a pesca e a coleta diária se tornaram nosso sustento. Depois do banquete, a carestia. E então, catar mariscos noite e dia. Assim dizia a poesia burlesca daquele ano. Como todos detestávamos coletar mariscos, Makepeace conseguiu fazer comque eu ficasse responsável pela tarefa. Meu irmão era sempre muito rápido em afirmar seus direitos, ele que era ao mesmo tempo o primogênito e, desde a morte de Zuriel, o único fiho homem. Quando isso não bastava para assegurar sua liberdade de qualquer função da qual preferisse se esquivar, Makepeace apelava para as fortes exigências de seus estudos, com os quais, em suas palavras, “minha irmã não se vê sobrecarregada”. Essa última parte me embrulhava o estômago, pois eu cobiçava a instrução que Makepeace considerava tão incômoda, e ele sabia bem disso. Papai me permitia levar a égua, pois as melhores áreas para coletar mariscos ficavam mais longe, a oeste. Era para eu procurar minha tia Hannah e seguir em sua companhia. A regra era que ninguém deveria caminhar ou cavalgar a sós por mais de um quilômetro desde as margens do povoado.

Mas minha tia estava preocupada e confusa, cheia de coisas por fazer, e ficou muito satisfeita, num dia ameno, quando um ar mais leve roçou meu rosto e eu me ofereci para recolher mariscos por ela. Essa foi a primeira vez que rompi o mandamento da obediência, pois não me preocupei em encontrar outra companhia, como ela me ordenou, e cavalguei por um novo caminho, sozinha. Não é fácil estarmos sempre sendo observados e julgados, como fazem comigo por ser a filha do pastor. Quando já tinha perdido a aldeia de vista, recolhi a minha saia e galopei, o mais rápido que Pintada consentiu em me carregar, só para me ver livre, distante, fora dali. Aprendi a amar os prados claros e amplos, os bosques emaranhados e as largas superfícies de água cercada de dunas onde eu tinha a liberdade de estar em minha própria companhia. Eu procurava escapar para lugares assim todos os dias, exceto no domingo (que observávamos rigidamente, absortos em oração; meu pai aderia à letra do mandamento — um dia a ser guardado, não apenas uma ou duas horas durante o culto para então tocar a vida). Sempre que podia, escondia na minha cesta um dos livros de latim de Makepeace, às vezes o de morfologia, que ele já deveria saber de cor havia muito, às vezes o nomenclador, ou então o Sententiae Pueriles. Se eu não conseguisse pegar nenhum desses sem ser notada, levava um dos textos de papai, na esperança de que meu entendimento fosse suficiente para acompanhá-lo. A não ser pela Bíblia e pelo Livro dos Mártires, de John Foxe, papai dizia ser indesejável que uma moça passasse muito tempo lendo livros. Quando meu irmão Zuriel estava vivo, papai nos ensinara a ler. Aquelas horas eram um deleite para mim, mas tiveram um fim ab-rupto, no mesmo dia do acidente de Zuriel. Tínhamos passado algumas horas lendo os livros, e papai, satisfeito com nosso progresso, ofereceu nos levar para dar uma volta na carroça que usávamos para carregar o feno. Era uma noite límpida, e Zuriel estava de bom humor, apanhando feno dos fardos e enfiando-o pela minha gola para me pinicar. Eu me contorcia e ria contente. Virando-me para trás para tentar tirar um graveto pontiagudo das minhas costas, não vi Zuriel, que estava de pé no fardo, perder o equilíbrio, e por isso não pude gritar a papai, que estava de costas para nós, conduzindo a carroça. Antes de nos darmos conta, Zuriel tinha caído, e a roda de trás, feita de ferro, passou-lhe por cima da perna, ferindo-a até o osso. Papai fez tudo o que pôde para estancar o sangramento, o tempo todo gritando preces a Deus. Segurei a cabeça de Zuriel em minhas mãos, olhei para seu rosto amado e pedi que ficasse comigo, mas em vão. Vi a luz escoar de seus olhos junto de seu sangue vital. Isso foi na época da colheita. Ao longo do outono e do inverno, não fizemos mais que lamentar a perda de Zuriel. Cumpríamos as tarefas necessárias e então nos sentávamos para rezar, ainda que, por muitas vezes, minha mente estivesse tão enturvada pelo sofrimento e pela memória que eu mal conseguia orar. Foi só no final da primavera que consegui voltar meus pensamentos mais uma vez às minhas lições, e finalmente perguntei a papai quando voltaríamos a elas. Ele respondeu que não tinha a intenção de me dar mais instrução, pois eu já havia absorvido o meu catecismo de cor. Mas ele não tinha como impedir que eu ouvisse as lições que dava a Makepeace.

Assim, escutei e aprendi. Com o tempo, enquanto meu pai pensava que eu estava alimentando o fogo na cozinha ou trabalhando no tear, fui construindo as pequenas bases do meu conhecimento: um pouco de latim aqui, um pouco de hebraico ali, um pouco de lógica e um pouco de retórica. Não era difícil aprender essas matérias, pois embora Makepeace fosse dois anos mais velho que eu, era um aluno mediano. Naquela época, já com mais de catorze anos, ele poderia muito bem ter começado a frequentar a faculdade em Cambridge, mas papai estava determinado a mantê-lo por perto, na esperança de prepará-lo melhor. Acho que a morte de Zuriel aumentou ainda mais essa determinação em papai, e penso que meu irmão mais velho carregava um grande peso, sabendo que todas as esperanças de papai por um filho que o seguisse em sua devoção e em seu aprendizado estavam agora depositadas apenas nele. Houve vezes em que fiquei preocupada com meu irmão. Em Harvard, o tutor certamente não seria tão paciente e atencioso quanto papai. Mas devo admitir que, na maior parte das vezes, a minha inveja vencia a preocupação. Imagino que foi o orgulho que me conduziu ao erro: comecei a me intrometer, dizendo as respostas que meu irmão não soubesse dar. Na primeira vez, quando soltei uma declinação em latim, papai achou engraçado, e riu. Mas minha mãe, trabalhando no tear enquanto eu fiava, teve um sobressalto e levou a mão à boca. Não fez nenhum comentário naquela vez, mas eu entendi mais tarde. Ela havia percebido o que eu, no meu orgulho, não percebera: que a satisfação de papai era efêmera, como a reação que teríamos se víssemos um gato caminhar sobre as patas traseiras. Poderíamos rir daquela coisa estranha, mas seria uma cena canhestra e não muito bonita de se ver. A brincadeira logo se torna monótona, e depois preocupante, pois um gato que anda sobre as patas de trás não está cumprindo sua função de pegar ratos. Com o tempo, quando o gato parece disposto a executar seu truque, nós o xingamos e o chutamos. Quanto mais eu demonstrava que havia aprendido o que meu irmão mais velho não conseguia captar, mais irritado meu pai ficava. Assim foi durante vários meses, mas não percebi a lição que ele queria me dar. Depois, papai passou a me dar tarefas a cumprir fora de casa sempre que pretendia instruir Makepeace. Na segunda ou terceira vez, quando percebi que assim seriam as coisas dali por diante, olhei-o de um jeito que deve ter revelado mais do que eu pretendia. Mamãe viu a cena e balançou a cabeça, censurando-me. Ainda assim, bati a porta com força ao sair. Isso fez meu pai me seguir até o jardim. Chamou-me para junto dele, e eu fui, já esperando ser castigada. Meu chapéu estava um pouco desalinhado.

Ele estendeu uma das mãos e o endireitou, e então correu os dedos pela minha face, carinhoso. — Bethia, por que você faz

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