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A Travessia do Albatroz – Marcia Camargos

Meu amigo de infância explodiu. Não deliberadamente como um homem-bomba que ata dinamites na cintura. Morreu estraçalhado ao pisar em minas terrestres. Junto com ele, um pelotão de quinze soldados voou pelos ares. Muitos eram meninos de pouco mais de 12 anos. Os pedaços dos corpos espalharam-se pelo campo, tornando quase impossível sua identificação. A notícia chegara de manhã cedo, logo após as primeiras preces do dia que, há algum tempo, tenho negligenciado. A rádio nos acordou chamando para as orações e falou dos novos mártires a caminho do Paraíso. “Sobre eles haverá trajes de fina seda, verdes e de brocado. E estarão enfeitados combraceletes de prata. E seu Senhor dar-lhes-á de beber puríssima bebida”. Não citou nomes, mas logo viriam me contar. – Kurosh… – meu pai chamou. – Acabaram de divulgar uma lista… Soube que Behruz… – e não precisou terminar a frase. Ele era assim. Nos momentos graves perdia o autocontrole e gaguejava feito criança, tremendo da cabeça aos pés. Atrás dele, que desde pequeno eu apelidara de Agho Jun, “senhor querido”, estava o rosto descoberto da minha mãe. A angústia era tamanha que nem se dera ao trabalho de colocar o chador. Procurava em mim traços de desespero, escondendo as lágrimas derramadas antes por medo do que pela perda de alguém que, por longos anos, fora quase um filho para ela. Nos seus cabelos precocemente embranquecidos vi o pavor de que eu fosse um dia convocado pelo exército para, dali a meses, quem sabe semanas, regressar dentro de um caixão. Até agora eu conseguira driblar a vigilância do serviço militar, evitando o recrutamento compulsório. Mas até quando? Todos os dias a televisão mostrava fotografias dos que não voltaram. Dos que morriam na guerra ou então executados pelos pelotões de fuzilamento, se considerados inimigos do regime. A morte tinha virado rotina. – Isso ia acabar acontecendo – eu disse com a voz estranhamente fria para a dimensão daquela tragédia.


Eu ainda não supunha como ela impactaria o meu futuro de forma tão radical. – Que o Profeta nos ajude! – exclamou minha mãe. – Khoda deveria colocar bom senso na cabeça dos dirigentes. – Agho Jun acrescentou, usando a palavra iraniana para designar Alá. – Por que não mandam rebanhos de ovelhas como bucha de canhão? – indagou, revoltado com os métodos suicidas do exército, cujos comandantes incitavam a infantaria a entrar de peito aberto e passos firmes nos campos minados. Fixei a vista em um objeto qualquer sem saber o que responder. Já estava tão acostumado àquilo que não sentia quase nada. Apreensão, raiva, nem a revolta de Agho Jun, visível no bigode que tremia ligeiramente sobre o lábio superior. Só um vazio que me embrulhava o estômago como se estivesse acordando de uma anestesia. Por isso recusei o pão doce com gergelim preparado para o café da manhã. – Você não pode ficar sem comer nada – minha mãe me puxou em direção à escada. Lá embaixo, na sala, estendera a toalha com o pote de chá e uma grande travessa de gez. Estranhei, o doce de água de rosas e pistache só dava o ar da graça no Ano Novo. Mas desde que soubera do acidente, passara a madrugada moendo nozes para fazer aquela especialidade deliciosa de Yazd, sua terra natal. Ela achava que desse jeito poderia amenizar a minha dor. Na sua cabeça tudo ficava mais fácil de suportar se estivéssemos de barriga cheia. Quanto mais sofisticado o prato, mais efeito surtia… Fora assim nos funerais da minha avó. Três dias e três noites de comida farta. Era tanto que, no final, quase íamos nos esquecendo de rezar. Agora o perfume de flor de laranjeira que subia do bule misturado ao aroma do gez trazia de volta imagens de um passado não muito distante, e desde hoje para sempre perdido. Comer era a última coisa que eu conseguiria fazer naquele momento. Afastei-me da maneira mais gentil possível nas circunstâncias e voltei para o quarto. – Kurosh, espera um pouco! – ela pediu quase suplicando, vindo atrás de mim. Fechei a porta e me estendi na cama. Do lado de fora ela e minhas irmãs que tinham sido acordadas pelo movimento inusitado, continuavam a conversar.

Eu ouvia frases soltas e entrecortadas de exclamações vindas lá de baixo. – Os pais dele estão pedindo ajuda aos amigos e parentes para poder enterrar o filho no pátio interno da Vakil. – Agho Jun contou. Ele se referia à mesquita próxima ao Bazar do Regente, onde mantinham seu negócio. Se isso não fosse possível, iriam tentar a de Nasir al-Molk ao sul da avenida Dastgheib. Na mais importante de Shiraz, toda decorada em pastilhas com motivos florais em tons de rosa, verde e azul, seria querer demais. Lá dentro ficava o mausoléu Xá Cheragh, o Rei da Luz, reconhecível de longe pela cúpula em forma de bulbo com o minarete coroado pelo pequeno teto dourado. Para mim aquele era umlugar mágico, por causa das miríades de espelhos minúsculos que recobriam seu teto como um céu estrelado. Agho Jun achava absurdo. Um privilégio daqueles ia custar uma fortuna. – Será que já não se dão por satisfeitos com as honrarias que o rapaz vai receber? Estraçalhado… Curioso pensar nesta palavra ligada ao nome de Behruz. Justo ele, o mais compenetrado de nós, que tomara a sério a sharia, a lei islâmica imposta pela Revolução e se apresentara como voluntário! A vida é mesmo injusta, pensei comigo, embora soubesse que meu amigo escolhera aquele desfecho. E, se a guerra em si já era tão cruel, o governo, com seu fanatismo, a tornava uma verdadeira insanidade. Tentei recordar a face do meu amigo, mas a figura dele se desfazia no ar como a fumaça na hora da explosão. Num minuto Behruz era um ser pensante, com sonhos, ideais e uma boa dose de valentia. No outro tinha virado uma massa disforme, músculos e ossos recolhidos em uma pequena caixa coberta de tecidos pintados com trechos do Alcorão, levada sobre os ombros dos homens da família pelas ruas da cidade. Se tivesse sobrevivido, teria ficado aleijado como um colega de classe que vi no hospital quando fui visitar um primo doente. Entrei na ala masculina procurando o leito dele, quando topei com algo que ficou gravado na minha memória. Fiquei desconcertado ao ver alguém conhecido no meio daquela profusão de macas, gemidos e ataduras ensangüentadas. Hossein demonstrou igual surpresa em me ver. Apesar de tudo, num piscar de olhos conversávamos como se jamais tivéssemos nos separado desde o primário. Falamos dos velhos professores, das meninas da escola vizinha, que esperávamos ao tocar do sino para acompanhá-las de longe, sem ser vistos por ninguém. – Lembra-se de Faty? – ele perguntou. – Ela ainda está solteira? Como eu não me recordaria da irmã de Behruz, pela qual nós dois tínhamos uma queda? Como esquecer dos cabelos encaracolados faiscantes sob o sol que um dia desapareceram dentro do chador, a capa que o corpo inteiro? Apostávamos para ver quem ia se casar com ela e retirar o lenço que passara a esconder os cachos castanhos escuro. Hossein era o maior craque no haft sang, mas nunca me superou no tabuleiro branco e preto.

Ele sempre derrubava de primeira, com a bola de tênis, a maioria das sete pedras empilhadas em forma de pirâmide, que a gente montava no meio da rua, mas não tinha raciocícnio rápido nem a concentração que o xadrez exigia. Por isso estávamos sempre empatados, e nunca chegamos a brigar de verdade. Mais tarde nos perdemos de vista. Nesse reencontro ao acaso combinamos de nos vermos assim que ele recebesse alta. Abraçamo-nos emocionados e senti o roçar das três medalhas que enfeitavam a blusa de seu pijama. Ao mencionar o orgulho de ter um amigo herói de guerra ele deu um sorriso forçado que mais parecia uma careta. Só então reparei o tormento que marcava suas feições irremediavelmente tristes. Recuei ao imaginar os horrores que deveria ter presenciado no campo de batalha, as torturas atrozes a que eram submetidos os capturados pelos inimigos, as feridas insuportáveis que latejam no fundo do coração e jamais cicatrizam por completo. Virei em direção à saída com um misto de alívio e vergonha por não ter me alistado como a maioria dos meus amigos. Antes de deixar a ala, lancei um último olhar ao meu ex-colega, que voltara o rosto para a parede. Percebi que lhe faltavam as duas pernas, amputadas bem na altura da virilha. Não era o único. Outros rapazes, igualmente jovens, vítimas da brutalidade da invasão iraquiana potencializada pelo nosso fanatismo religioso, tinhamcabeças enfaixadas, olhos remendados, mãos e braços de menos e sofrimento de sobra. Hossein e Behruz, frutos de uma geração desperdiçada. E quanto a mim, qual seria meu destino? Encontrar meu marjae taghlid, o guia religioso, fonte de inspiração e segui-lo até a morte? Ou esconder-me para sempre, numa terra sem perspectivas nem esperança? Cursar a universidade tornara-se pura ilusão. Elas tinham sido reabertas depois de dois anos, mas havia filas intermináveis aguardando vagas reservadas preferencialmente aos familiares dos mártires da revolução. O cerco se fechava e as alternativas diminuíam. Fui tomado de um desalento profundo como jamais experimentara, uma mistura de ódio, impotência e pena de mim mesmo. Levantei para colocar uma fita cassete no velho aparelho de som. Girei o botão no volume máximo e os acordes de uma música de Bob Dylan ecoaram pela casa – Cuidado com os vizinhos! – era a voz da minha mãe, que batia com força na porta trancada. – Que se danem – respondi baixinho. – Pouco me importa se me denunciarem às autoridades… – e me deixei levar pelo som que há anos não ousava escutar. Conseguia reconhecer as frases cantadas em inglês, aprendera a língua na escola na era de Reza Pahlevi. Naquela época os Estados Unidos não eram o pior dos nossos pesadelos. Não sei quanto tempo fiquei ali largado, no embalo das canções que me transportavam para mundos tão longínquos como as páginas dos livros proibidos.

Ainda guardava alguns volumes no fundo falso aberto no assoalho, debaixo do tapete de bordas azuis. Com a conivência das minhas irmãs, escolhi alguns títulos para salvar da fogueira, quando mandaram queimar tudo o que não fosse autorizado pelos censores religiosos. Elas gostavam de Proust e Tolstoi, mas eu preferia Charles Dickens e Dom Quixote, de Cervantes. Também havia Dostoievsky, que escrevia de um jeito triste demais para o meu gosto. Era curioso… apesar de falar sobre a Rússia de um tempo distante, ele parecia estar escrevendo sobre a nossa gente. Acho que por isso foi proibido com os demais. Música, só as de teor religioso. Revistas e jornais, apenas os permitidos. Televisão, nem pensar. As antenas foram para o lixo, captavam programas e filmes que ofendiam as rígidas normas do Alcorão. Khomeini não deixara dúvidas ao declarar que todo muçulmano era obrigado a obedecer cada linha do Livro Sagrado. As raras vozes dissonantes, que contestavam os aiatolás, altos dignitários na hierarquia religiosa e peritos em Leis islâmicas, não sobreviveriam para ver o fim da história. Eram executadas de forma sumária, sem quaisquer formalidades jurídicas, escapando à farsa de um julgamento de cartas marcadas. Consultei o relógio, presente de Behruz. Passava das onze horas. Não abrimos a loja por motivo de luto, ninguém de casa saiu para trabalhar. O sepultamento seria dali a uma semana. Antes, precisavam transportar os corpos, ou o que sobrara deles para devolver às famílias em diferentes cidades do país. Quem tinha recursos pagava do próprio bolso a viagem até as proximidades da fronteira para resgatar os restos mortais dos filhos, que traziam nos automóveis pela estrada munidos de salvo-conduto. Não saía barato. Com a gasolina racionada, só dava para comprar combustível no mercado negro a preços exorbitantes. Pela fresta da porta agora entrava um aroma estimulante que abriu meu apetite. Era o polo, o arroz com frutas secas acompanhado de brochete de carneiro, temperado com estragão e servido commolho de menta. Minha mãe prosseguia com suas artes culinárias de poder curativo, e desta vez não resisti à sedução. Desliguei o som, mas a música continuou ecoando dentro da minha cabeça.

Ao sair do quarto, vi uma fotografia amarelecida de Behruz, de quando tínhamos 15 ou 16 anos. Costumávamos assistir aos filmes de caubóis, eu achava esquisito porque ele torcia para os índios e não para os mocinhos como a maioria de nós. Sabia muita coisa sobre os apaches, sioux e outras tribos de peles-vermelhas cujos nomes não recordo. Economizávamos dinheiro para as entradas do cinema e para comprar os discos da nossa estrela Googoosh e do pop star Dariush. Eu gostava da música tradicional iraniana, aquela em que o cantor usa estrofes dos maiores poetas como Hafez, Saadi, Moulavi, Ferdussi ou Khayam, acompanhados pelos instrumentos típicos, mas não resistia aos LPs de rock. Tocava-os na vitrola até decorar as letras e cantarolar junto com as bandas. Hoje eu me perguntava se Behruz chegara, algum dia, a gostar dos Beatles como eu. Eu questionava quando e como esses conjuntos passaram a representar a decadência e o lixo que infectava a nossa cultura. Pressinto ter sido aí que meu trajeto e o de Behruz afastaram-se como na bifurcação de um rio, as águas cavando dois leitos a partir de uma pedra. O dele resultou na morte e sua conversão em herói da pátria. Com páginas em branco e pleno de incertezas, o meu ainda estava por ser escrito. Um tremor percorreu meu corpo feito uma descarga elétrica. Se tivesse uma fração da coragem de Behruz ou de Hossein, romperia com tudo isso para mudar de vida. Sim, eu sabia de pessoas que estavam deixando o país em segredo, apesar das fronteiras fechadas e patrulhadas. As rotas de fuga cortavam o Paquistão, Turquia, Kuwait ou Arábia Saudita, através do Golfo Pérsico. Ficava fora de cogitação tentar passar pela impenetrável União Soviética, a leste, e, obviamente, pelo Iraque, a oeste, com quem estávamos em plena guerra. Tornei a olhar para o retrato de Behruz, desci para a sala e devorei o almoço com uma fome premeditada. Iria precisar de toda a energia do universo para revelar aos meus pais minha decisão irrevogável. Não desconfiava que eles próprios haviam conversado a respeito de uma possível fuga, coma morte dramática do meu amigo de infância cuja imagem, agora, aparecia perfeita como se ele estivesse sentado diante de mim. O riso fácil, cabelos anelados emoldurando o rosto que chamava a atenção de todas as garotas e despertava em mim uma pontinha de inveja, surgiu límpido e semdistorções. – Precisamos derrubar este governo que prejudica nosso povo. – A voz dele soava num timbre difícil de esquecer. Ele ganhava nossa confiança na adesão à luta que tomou as ruas de cada cidade, de cada povoado do Irã até o estabelecimento da república islâmica em 1979. Seus olhos brilhavam como fachos de luz e nos guiavam naquela aventura épica, que conquistava mais e mais adeptos, inclusive os mais céticos e relutantes. Tínhamos apenas dezessete anos, mas nos engajamos com a garra e fé de quem acredita na possibilidade de alterar radicalmente o curso da história.

Eu seguia os passos de Behruz como se segue um profeta. Só enxergava a bravura do amigo, com quem compartilhara os momentos mais felizes da infância e da adolescência. Ainda era muito jovem para perceber que aquela faísca refulgindo nas suas pupilas era a marca dos fanáticos e dos loucos. Parte II O fim da inocência II A casa de Behruz e a minha ficavam no mesmo quarteirão, perto da escola para onde caminhávamos juntos todas as manhãs. Pouca gente tinha carro e não éramos exceção. Eu acordava com o som do rádio no quarto de Agho Jun chamando para as preces. Ele comprara o aparelho assim que nos mudamos para um local de onde não conseguíamos escutar o muezim no alto do minarete. Agora contávamos com a tecnologia para as orações matinais. Aquilo soava como uma música avisando o início de um novo dia. Ele seria como o de ontem e o de amanhã. Alegre e despreocupado, contanto que não me esquecesse dos preceitos básicos da religião – a fé, a oração (salat), a caridade (zakat), o jejum e a peregrinação quando eu fosse mais velho. Agho Jun não era um devoto extremado, mas fazia questão de obedecer aos cinco pilares sagrados do Islã, até mesmo quando estes pareciam fora de moda. Não me atrevia a transgredir os mandamentos de Alá para não pagar pelos seus pecados no Juízo Final. Ía rezar toda sexta-feira na mesquita para a qual doava uma porcentagem dos ganhos mensais. Jejuava durante o Ramadã. Jamais deixou que consumíssemos bebida alcoólica, apesar de ser vendida, quase à vontade, durante o governo do Xá. Nem permitia que minhas irmãs usassem saia curta. “Uma moça de respeito não pode mostrar mais do que os tornozelos”, ele avisava, torcendo o nariz para as amigas delas que chegavamvestindo as últimas novidades da moda estrangeira. Para ele, era uma questão de princípios. Recato dignificava a mulher, roupas decotadas significavam vulgaridade e ofensa ao corpo feminino. “Isso vai acabar mal”, Agho Jun costumava advertir diante da crescente invasão dos usos e costumes ocidentais. Também não gostou quando Reza Pahlevi proibiu o chador, que apesar disso continuava usado por muitas mulheres, principalmente nos vilarejos do interior do país. Achava que certos limites não deveriam ser ultrapassados sob o risco de perdermos nossa identidade e autoestima. “Somos um dos povos mais antigos do planeta” – gostava de frisar. “Não precisamos copiar os outros, pelo contrário.

Nós é que temos muito a ensinar”. Então Agho Jun contava pela milésima vez a história da formação do Irã, nome dado em tempos remotos à extensa região composta de montanhas rochosas, terras ressequidas e desertos salgados entre o Golfo Pérsico e o Mar Cáspio, ocupada pelos arianos, nômades de pele clara. Seus olhos miúdos faiscavam por detrás das lentes dos óculos de aro escuro. Uma das hastes estava remendada com um esparadrapo, porque desde que me conhecia por gente ele alegava falta de tempo para mandar consertar ou fazer um novo. E assim, mal contendo a emoção que transmitia apesar de estarmos ouvindo a mesma lengalenga que já sabíamos de cor, voltava a contar que na planície de Susiane, às bordas do Iraque, nasceram as primeiras cidades iranianas. Elas desenvolveram-se graças à sua proximidade com a Mesopotâmia e Uruk. Foi quando vagas sucessivas de tribos indoeuropéias chegaram, sendo que uma delas, conhecida como Persa, instalou-se na pequena faixa onde fica, nos dias de hoje, a província de Fars. Sentados em almofadas feitas de tapete persa, nós e minha mãe ouvíamos resignados. Ela desistira de fazer Agho Jun mudar de assunto quando o tema girava em torno da história do Irã. No seu canto preferido, com os pés metidos no chinelo de couro macio de cor marrom, ele prosseguia. Como não cursara faculdade, nem tinha diploma, Agho Jun gostava de exibir sua cultura, quase erudita. Teria sido professor, mas precisava sustentar a família. Que remédio? – Há pelo menos 2600 anos, os persas organizaram-se em Estado independente sob a chefia de Achéménès. Seus descendentes, de Ciro a Dario e Xerxes, os xahanxas, reis dos reis, alargariamas fronteiras da Pérsia – Agho Jun acrescentou – construindo a Estrada Real, de quase 3.200 quilômetros, que atravessava o coração do Império desde Susa, a capital administrativa, até o Mar Egeu, no extremo oposto. A rede viária faria da região um centro de negócios, através do qual fluía o comércio entre a Ásia ocidental e oriental. Mas, como em toda história da humanidade, sofreria a invasão de Alexandre, o Grande e de seus elefantes, usados como tanques de guerra. Sem mencionar os gregos bizantinos e as tropas mongóis de Gengis Khan, que destruíram aldeias inteiras e massacraram suas populações. Isso, depois de terem sido convertidos ao islamismo ao integrarem-se ao império árabe sob o califado. Fomos nós, os iranianos, que ensinamos aos árabes álgebra, arquitetura, química e astronomia, que depois eles disseminariam mundo afora -, contava entusiasmado, sem se importar em paracer repetitivo. – Pensam que os árabes são os maiores sábios da antiguidade, quando foram nossos ancestrais os grandes cientistas e matemáticos do passado! – Agho Jun vivia repetindo. Tinha o maior orgulho daquelas raízes, tanto que preferia usar “Khoda” quando se referia a Deus. Saltando séculos para encurtar uma longa história, nos contava que em 1935 a velha Pérsia tinha adotado o nome de Irã. “Somos o único país do continente que não fala árabe e sim persa, que chamamos farsi, por ter surgido justo na região de Fars, berço da nossa civilização. O alfabeto de 32 caracteres possui quatro letras a mais do que o árabe, que se mesclou à nossa língua original”.

Shiraz, minha cidade natal em que sempre morei, é tida como um oásis no meio da aridez desértica da província de Fars. Embora a maioria dos jardins que a tornaram célebre no passado tenha desaparecido, o perfume das flores e árvores frutíferas povoou minha infância. Fecho os olhos e posso adivinhar as cores das tulipas e dos amores-perfeitos e sentir o aroma da romã plantada no fundo do nosso quintal. A paisagem continua intacta nos arquivos da memória. Revejo, ao norte, os montes Zagros que se elevam a mais de 3 mil metros de altitude. Ao sul eles vão diminuindo progressivamente, formando bacias propícias ao cultivo de cereais e de algodão e que outrora serviram de pastagem de inverno aos nômades. Antes da proibição do consumo de álcool, a região era coberta pelas parreiras das quais se produzia o renomado vinho de Shiraz, uma cepa que ganhou o mundo. Recito de cor poemas de Hafiz e Saadi, cujos túmulos enfeitam os parques onde costumávamos passear com os parentes vindos de outras províncias. De uma família classe média, meu cotidiano era tranqüilo. Levantava, punha o uniforme deixado por minha mãe sobre a cadeira e seguia para a escola, onde as matérias eram ensinadas por professores laicos. Para penetrar nos mistérios do Alcorão, Agho Jun me fez ter aulas particulares com Seyyed. Barbudo, o mulá usava o ammame, turbante preto próprio dos descendentes de Maomé. O suor gotejava da sua testa estreita na cabeça gorducha que brotava direto do corpanzil sempescoço. Com voz gutural, dizia que um muçulmano não deve negligenciar as cinco namaz, as orações diárias. Agho Jun queria um futuro melhor para mim. Ao contrário de alguns dos meus colegas, mandava que ficasse em casa após as aulas. Ele preferia que eu lesse e decorasse versos do Shahname, o Livro dos Reis, em vez de ajudar no escritório da loja do Bazar que herdaria um dia, assim como ele a recebera do pai. Para Agho Jun, o épico escrito por Ferdussi há mais de mil anos sobre o passado histórico e mitológico do Irã desde sua criação até a conquista islâmica no século VII, despertaria em mim o senso de patriotismo que ele próprio cultivava com tanta intensidade. Como caçula e único filho homem, após duas garotas e um menino que morreu ao completar um ano de idade, eu sempre fora um tanto mimado. Ele sonhava que eu seguisse a tradição da família na loja, mas enquanto isso, satisfazia a maioria dos meus caprichos. Convencido da impunidade, esperava Agho Jun terminar o almoço e sumir na esquina para escapar do quarto e correr até a casa de Behruz. Naquele dia não foi diferente. A mãe dele me viu pela janela e veio abrir a porta. – Salam aleikum – ela cumprimentou. – Vocês vão jogar futebol? Nem precisei responder, pois notei a figura de Behruz com uma bola debaixo do braço.

Ele era o nosso craque e recentemente tornara-se o capitão do time da escola. – Você demorou, pensei que não viesse mais – meu amigo reclamou quando eu fiz menção de entrar. – Agho Jun ficou no telefone discutindo sobre um lote de tapetes. Imagine que queriam cobrar o dobro do preço combinado! – Bem, agora vamos recuperar o tempo perdido. Despedimo-nos da mãe dele e apertamos o passo em direção ao ponto do ônibus. – Para onde estamos indo? – eu perguntei. – Vamos bater bola no campo? – Você vai ver. Por enquanto, siga-me. Trouxe o dinheiro da passagem? Eu fiz que sim com a cabeça, tateando no bolso da calça os trocados que recebera de Agho Jun como pagamento pela ajuda que dera na loja no fim de semana anterior, quando o Bazar fervilhava de clientes. Não questionei meu amigo sobre nosso destino, pois nessas tardes roubadas ao estudo eu me sentia como um fugitivo, sem direito algum. Além disso, qualquer coisa era melhor do que ficar trancado em casa, sobretudo no calor. Na verdade, não importava para onde estávamos indo, o que viesse era puro lucro. Minha curiosidade foi logo satisfeita. Conhecia o itinerário e ele nos levava ao noroeste, rumo ao parque de Bâgh-e Eram. Como de praxe, o trânsito estava caótico, as buzinas não paravamde tocar e os motoristas, enfurecidos no meio da balbúrdia, gritavam com todos que cruzavam o caminho. Semáforo não fora feito para respeitar e as batidas eram costumeiras, atravancando as ruas entupidas de gente tentando ir para o outro lado da avenida sem a segurança das faixas de pedestres, então inexistentes. – Sabe que na Suécia os carros param no sinal vermelho? – Behruz perguntou. – E daí? – Lá os pedestres também têm preferência. Os automóveis freiam para deixá-los passar… – ele prosseguiu, acrescentando. – E assim mesmo eles têm o maior índice de suicídio do planeta! Vá entender a cabeça dessa gente… Behruz tinha desses rompantes inesperados. Sem mais nem menos vinha com dados e fatos de almanaque e me fazia sentir ignorante e desinformado. Fiquei tentando localizar a Suécia dos suicidas no mapa mundi e em alguns minutos nos livramos do tráfego carregado para rodar numa velocidade razoável margeando o rio Khoshk. Suas águas estavam turvas, há semanas não chovia. Sentado ao lado de Behruz, eu procurava adivinhar o que se passava na cabeça dele. De repente, do nada, perguntei: – Você vai trabalhar na loja do seu pai quando terminar a escola? Ele olhou para mim com um ar meio superior e disse sem pestanejar.

– De jeito nenhum. Quero ser soldado! Mordi os lábios de inveja. Não pela escolha, mas pela convicção que as palavras dele carregavam. Porque eu não fazia a mínima idéia do que estudar, o que aprender e qual tipo de vida levar. Para mim, o futuro era uma enorme incógnita e, por isso, admirava o amigo sempre decidido como um adulto em miniatura. Fiquei pensando em como Behruz era sortudo e, quando dei por mim, tínhamos chegado. Diante de nós os ciprestes riscavam o chão com suas sombras longilíneas. De longe já dava para sentir o perfume das rosas ainda em flor naquele final de verão. Passamos pela entrada do Jardim Botânico para contornar o pavilhão principal, um palácio do século XIX. Já o vira um sem números de vezes, mas de novo me surpreendi com a beleza dos mosaicos multicoloridos. Eles brilhavam sob o sol da tarde, lançando reflexos dançantes na superfície do espelho d’água ao longo da fachada. Nos fundos do jardim, onde começava o roseiral, distingui um grupo de meninos da escola agachados em torno de alguma coisa que examinavam comatenção. A princípio, achei que fosse outra bola de futebol e já me perguntava como iríamos jogar ali, fora do campo, mas quando nos aproximarmos, vi um tabuleiro de xadrez e um monte de notas empilhadas. Tomei um susto ao ver tantos tomans, mas meu amigo foi avisando que tinha feito uma aposta. – Pus todas as minhas economias em você, não vá me decepcionar! Soube então do torneio que começava hoje e ia até Noruz, o Ano Novo. Em lugar de futebol, toda quarta-feira nos reuniríamos para testar nossas habilidades. No final, o vencedor ficava comuma porcentagem do arrecadado após o pagamento das apostas. Encarei meus oponentes, três garotos mais velhos do que eu. Apesar do jeito de poucos amigos, não senti medo algum. Desde pequeno aprendera xadrez, inventado na Pérsia e trasmitido aos árabes como todo o restante da nossa cultura. Quando alguém fala “xeque mate” está, na verdade, dizendo “Xá mat” – o rei está morto. Agachei com tranqüilidade para arrumar as peças brancas, as minhas preferidas, que Behruz escolhera antes de disputarmos o torneio. Eu sabia da existência desses jogos clandestinos, que se repetiam todo ano, mas era a primeira vez que participava de um. O esporte não era ilegal, só as apostas em dinheiro. Por isso, a partir daquele dia nos encontraríamos cada vez em um local diferente.

– Se formos pegos pela Savak, estamos perdidos! – comentei, arrepiado só de pensar na terrível polícia política do Xá.

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