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A Travessia do Rio – Caryl Phillips

Uma tolice desesperada. A colheita fracassou. Vendi meus filhos. Me lembro bem. Levei-os (dois meninos e uma menina) por longos caminhos, até chegarmos ao ponto em que os lodaçais são repletos de gaivotas e caranguejos. Contornei o banco de areia com o escaler e rezei um pouco na capela da feitoria. Fiquei olhando enquanto eles se abraçavam e olhavam para o forte, onde tremulava no alto uma bandeira estrangeira. Permaneci junto às paredes caiadas da feitoria, esperando que o escaler retornasse e me levasse para além do banco de areia. A distância estava o navio ao qual eu logo iria condená-los. O homem e seu ajudante esperavam para contornar o banco de areia novamente. Ficamos olhando por um tempo. E então nos aproximamos. Um sujeito calado se aproximou. Apenas três crianças. Eu as despachei nesse ponto, onde o afluente se divide e parte em todas as direções a caminho do mar. Comprei 2 meninos-homens fortes e uma garota orgulhosa. Manchei minhas mãos com mercadorias frias, em troca de seus corpos quentes. Um negócio vergonhoso. Podia sentir os olhos deles sobre mim, me perguntando Por quê?. Eu me virei e fiz a viagem de volta pelos mesmos longos caminhos. Acredito que com isso se encerrem os negócios a que se propõe esta viagem. E, logo depois, o coro de uma memória comum começou a me assombrar. Há 250 anos ouço esse coral de muitas vozes. E, ocasionalmente, entre aquele monte de vozes incansáveis, escuto as dos meus filhos. Meu Nash.


Minha Martha. Meu Travis. Suas vidas partidas. Deitando raízes de esperança num solo difícil. Há 250 anos tento falar com eles: Crianças, eu sou o pai de vocês. Amo vocês. Mas entendam. Não existem caminhos definidos a se trilhar na água. Não existem sinalizações. Não há retorno. Para um país pisoteado pelas botas imundas dos outros. Para um povo incentivado a entrar em guerra contra si mesmo. Para um pai consumido pelo remorso. Vocês estão além disso. Partidos, como os galhos de uma árvore; mas não perdidos, pois seus corpos carregam as sementes de novas árvores. Deitando raízes de esperança num solo difícil. E eu, que rejeitei vocês, só posso me culpar por meu desespero. Há 250 anos, espero pacientemente que o vento se levante na margem mais distante do rio. Para ouvir o rufo dos tambores do outro lado das águas. Para o som do coral crescer em volume. Só então, se eu ouvir com atenção, é que posso reencontrar meus filhos perdidos. Um momento rápido e de dolorosa comunhão. Uma tolice desesperada. A colheita fracassou. Vendi meus filhos.

I A Costa Pagã A notícia chegou após o jantar. Um criado muito bem trajado entrou na sala, curvou-se e exibiu uma bandeja de prata sobre a qual havia um envelope. Edward pegou a carta e dispensou o criado comum elegante gesto de mão. Endireitou-se na cadeira e começou a ler. Era verdade. Nash Williams, enviado à Libéria sob os auspícios da Sociedade de Colonização Americana, depois de passar por um rigoroso programa de formação cristã, e munido da mais absoluta firmeza de caráter, desaparecera deste mundo que conhecemos. Após sete difíceis anos na Libéria, durante os quais trabalhara com uma dedicação incansável para si e para seu Deus, durante os quais ganhara o respeito não só dos africanos locais como dos negros livres dos Estados Unidos e dos poucos brancos que havia naquele lugar inóspito, após sete longos anos esse ex-escravo, verdadeira inspiração para padres e educadores, não podia ser encontrado em lugar algum. Temia-se pelo pior. Nash Williams era um professor dotado de inúmeros talentos. Era um homem que, num país em que menos de duzentos pagãos haviam sido convertidos em quase vinte anos, poderia ser considerado responsável por pelo menos cinquenta dos casos de êxito cujos relatos eram mandados para os Estados Unidos. A reputação de sua escola missionária era lendária, fato ainda mais memorável considerando-se a localização isolada que ocupava, perto da nascente conhecida do rio Saint Paul. As poucas cartas que ele enviou a seu senhor, apesar de repletas dos tão comuns e infantis pedidos de sementes, ferramentas, dinheiro e outros itens necessários para a vida, ecoavampositivamente o espírito da fé, da coragem e da força de vontade. Então, pouco menos de um ano antes, na mesma época em que um enlutado Edward chorava a perda da esposa, Nash Williams mandara, por um intermediário, uma inesperada mensagem deixando claro que ele não tinha o menor desejo de voltar a ouvir falar de seu antigo senhor e informando que não se comunicaria mais comele. Um Edward muito preocupado, que achou melhor, naquele momento, não se comunicar diretamente com Nash, deu ordens e dinheiro, enviados por um paquete saído de Nova York, para que Madison Williams, um ex-escravo mais velho e um tanto mais arrogante, partisse imediatamente de sua base em Monróvia e investigasse o paradeiro de Nash e, se possível, seu estado geral de saúde. Em outros tempos, Madison costumava nutrir inimizade para com Nash, por pensar — até certo ponto com razão — que a afeição do senhor por ele havia sido usurpada por aquele jovemintruso. Mas Edward acreditou que os efeitos do tempo, e uma mudança de clima, teriam curado essas velhas feridas e que Madison não ficaria ressentido com a tarefa que ora lhe era confiada. No entanto, a carta que Edward tinha diante de si trazia notícias da expedição de Madison, e ele não só não havia conseguido localizar Nash como havia sido muitas vezes impedido pela intransigência dos nativos, sua vulgaridade crua às vezes resvalando para a agressão. Pelos detalhes narrados na lamentável carta de Madison, ele se considerava um felizardo por ter conseguido escapar semprejuízo à própria vida. Não que a Sociedade de Colonização Americana ignorasse os perigos que acompanhavam sua política de tentar repatriar antigos escravos para a costa oeste africana. Afinal, esse era um continente que pertencia aos africanos de origem, e a mais ninguém. Mas eles esperavam que os nativos enxergassem de maneira racional e que a perspectiva de receber de volta os filhos perdidos ajudasse a superar qualquer infeliz estranhamento cultural que os pagãos africanos pudessemexperimentar. A Sociedade de Colonização Americana tinha certeza de que os dois lados seriam beneficiados. Os Estados Unidos estariam se livrando de causas de tensões sociais cada vez maiores e a África seria civilizada pela volta de seus descendentes, que a essa altura haviam sido agraciados com mentes cristãs racionais. Assim, no dia 31 de janeiro de 1820 o navio Elizabeth partiu de Nova York rumo à costa oeste da África, naquela que seria a primeira viagem da Sociedade. Semanas depois, 86 ex-escravos, metade dos quais mulheres e crianças, desembarcaram de maneira pouco auspiciosa no território britânico de Serra Leoa.

Lamentavelmente, uma doença misteriosa — que mais tarde se descobriria tratar-se de malária — logo ceifou a vida de toda essa leva de pioneiros, com exceção de alguns poucos sortudos. Dois anos depois, em 1822, uma segunda e mais bemsucedida expedição levou colonos até a Costa dos Grãos, na parte ocidental do continente africano que logo passaria a ser chamada de Libéria. Ser convocado para colonizar a África era considerado, pela maioria dos escravos e de seus senhores, uma recompensa por bons serviços prestados. Um trabalhador talentoso que houvesse se convertido ao cristianismo e tivesse padrões morais elevados era considerado um excelente candidato. Mas os relatórios dos primeiros colonos contavam histórias de enormes sofrimentos. O trabalho inicial de abrir clareiras e construir abrigos e fortificações contra os ataques nativos cobrava um preço alto em vidas humanas. O clima úmido e tenebroso, que entre abril e novembro podia chegar a mais de 5 mil milímetros de chuva, levava muitos colonos à morte prematura. De dezembro a março, os pobres e infelizes recém-chegados, se tivessem conseguido sobreviver às enchentes, tinham de trabalhar sob temperaturas insuportavelmente elevadas e encarar uma umidade completamente sufocante. Mas era a febre africana, ou malária, o que mais afetava a vida dos colonos. Os tremores intensos, que provocavam uma sensação de frio tão avassaladora quanto qualquer inverno norte-americano, e as miragens que apinhavam a imaginação se combinavam para ensejar um profundo desespero. Aquelas infelizes criaturas não estavam mais sendo recebidas no seio de sua antiga pátria, com um céu azul como abóboda e um solo fértil sob seus pés empoeirados; estavam sendo jogadas no mar revolto da febre. E, quando a tormenta amainava, muitos descobriamque haviam sido varridos do mundo dos mortais. Na segunda década de migração, pouquíssima coisa havia mudado. Os pioneiros continuavamchegando, seus rostos inocentes marcados pelo desejo apaixonado de fazer o trabalho de Deus, mas, lamentavelmente, eles logo se viam incapazes de resistir ao período de aclimatação de 12 meses, e amigos e parentes eram chamados para serem os mensageiros de tristes notícias para os que eles haviam deixado nos Estados Unidos. Um dos que chegaram nessa época, e um dos mais determinados a sobreviver e a se dedicar ao ofício para o qual havia se preparado, era Nash Williams. Nem o clima, nem os confrontos com os nativos, nem a doença ou qualquer tipo de sofrimento o desviaria de seu objetivo. Chegou a seu antigo senhor a notícia de que muitas vezes era preciso dar a Nash ordens expressas e rigorosas de parar de trabalhar na chuva, pelo bem de sua própria saúde. Ao saber disso, Edward Williams teve vontade de pegar a caneta e escrever a primeira de duas cartas ao ex-escravo. Uma parte da primeira missiva continha as seguintes palavras de sabedoria: Antes de você sair dos Estados Unidos, eu lhe lembrei dos sacrifícios que Nosso Senhor Jesus Cristo fez por todos nós e pedi que pensasse na situação do cristianismo nesse novo país em que você se estabeleceu. Você foi gentil o bastante não só para pôr minhas palavras em prática, mas também para mandar, em forma de uma carta, informações sobre o estado pagão e iletrado das massas. E por isso eu e minha boa esposa Amelia lhe somos muito gratos. Esse tipo de informação sem dúvida será vital para os escravos que estamos preparando agora, para que um dia eles talvez se juntem a vocês aí na costa pagã. No entanto, estou atemorizado em saber (de uma fonte que você certamente adivinhará qual é) sobre sua insistência contínua em, sem recorrer ao auxílio de outros colegas, tentar executar tarefas que exigiriam o esforço físico e mental de cinco pessoas, fossem nativas ou cristãs. Foram muitos os sacrifícios de Cristo, mas certamente o conhecimento que você tem do Bom Livro lhe terá revelado que foram esforços calculados. Nem Ele poderia fazer tudo num dia.

Você tem sorte em haver sido agraciado com uma mente justa e um corpo forte e (embora seja eu quem o diga) duplamente afortunado pelo fato de seu antigo senhor ter inclinações progressistas. Não me decepcione, nem a si mesmo, ficando abaixo dos elevados padrões que você já se impôs. Ontem mesmo os meninos se juntaram em volta de Amelia e perguntaram como você estava e rezaram por você. Toda a nossa experiência depende muito do seu sucesso. Sua força de vontade pode ser grande, mas todos nós somos carne e osso. Espero que você entenda que estou falando isso para ajudá-lo em seu progresso. Permita-me sugerir que você estude o Bom Livro para mais orientações. Infelizmente, essa carta foi descoberta pela mulher de Edward, Amelia, e não foi enviada. Porém, Edward nunca mais receberia informações de que seu ex-escravo Nash tivesse desobedecido a suas instruções, corrido algum risco de vida desnecessário ou feito qualquer coisa que pudesse, mais uma vez, levar Edward a pensar em pegar a caneta e redigir linhas de desaprovação. Em 1841, após receber a carta de seu ex-escravo Madison e após digerir todo aquele frustrante conteúdo, Edward Williams se ergueu da cadeira na sala e imediatamente se pôs a fazer planos para ir até a Libéria, a fim de saber pessoalmente o que havia acontecido ao virtuoso Nash. O plano era viajar sozinho no primeiro navio que estivesse partindo para a costa, e ele não viu razão para demora. Agora que era viúvo, não teria mais de aturar as palavras duras de reprovação da esposa Amelia, que sem dúvida teria ficado extremamente desconfiada dos motivos por trás da expedição. No começo, e muito para a surpresa de Edward, a ideia do plano não tivera o apoio dos delegados da Sociedade de Colonização Americana. Embora demonstrassem a maior admiração pelo entusiasmo de Edward Williams e simpatizassem com o fervor que ele continuava a demonstrar pela causa dos negros, eles tiveram o maior cuidado em indicar-lhe os muitos perigos aos quais estaria se expondo desnecessariamente. Edward persistiu em suas conversas com eles e, com o tempo, mas apenas depois de muitas altercações, eles decidiram arrefecer sua oposição e lhe oferecer um apoio cauteloso. No começo, haviam insistido em dizer que o misterioso desaparecimento de um único colono era algo que até mesmo esperavam que acontecesse com certa regularidade. Era o perigo inerente de se enviarem homens bons às costas pagãs, nos limites da civilização, e de incentivá-los a transformar o continente africano em seu lar. Mas Edward argumentara que abandonar homens bons como Nash à própria sorte poderia repercutir mal na Sociedade. Lembrou à Sociedade que, por iniciativa própria, ele havia incorrido na enorme despesa de mandar aquele homem cursar faculdade na Virgínia, para que ele estivesse totalmente formado e preparado para a vida de missionário. E, além do mais, ele havia incitado todos os seus ex-escravos, Nash entre eles, a evitar Monróvia e, como sementes levadas pelo vento, aventurar-se pelo interior, na expectativa de que a palavra do Senhor se espalhasse. Somente Nash havia seguido suas palavras. Ele se estabelecera mais ao norte do rio, em terras nativas, levando consigo uma boa esposa cristã da Geórgia, chamada Sally Travis, já falecida. Edward lembrara à Sociedade que Nash e a esposa haviam dirigido uma das escolas missionárias para nativos de maior sucesso. Aliás, Edward fizera questão de lembrar-lhes disso sempre que possível, pois, segundo sua defesa muito bem fundamentada, esse não era apenas o sacrifício de um único missionário, vítima de uma febre não tratada ou de uma expedição mal calculada pelo interior. Edward estava convencido de que o desaparecimento de Nash poderia sinalizar uma derrota humilhante para os ideais da Sociedade como um todo e estava determinado a chegar à Libéria e investigar a questão com os próprios olhos.

Finalmente, a Sociedade de Colonização Americana, depois de ouvir tudo isso com a maior paciência, chegou à conclusão de que seria, de fato, mais virtuoso auxiliar Edward Williams em vez de tentar impedi-lo. Nessa época, era costume os navios partirem da Virgínia ou de Nova York, mas Edward estava determinado a tomar a primeira embarcação disponível, independentemente do porto de partida. Ele abriu à sua frente um mapa de todo o mundo conhecido e observou a deselegante forma da África, que se erguia como uma sombra escura e imóvel entre os seus queridos Estados Unidos e o exótico espetáculo que era a Índia e os países e ilhas do Oriente. Ele não sabia quanto tempo passaria viajando, embora fosse levado a acreditar que 28 dias não era incomum para uma distância dessas. Felizmente, ele já estava munido de algumas informações sobre os rigores que poderia esperar, tanto na jornada como após a chegada, por indicações que encontrava nas cartas de seus ex-escravos que Amelia lhe permitia ver. Eles mencionavam problemas e dificuldades que certamente seriam um fardo para a saúde de um homem com a constituição frágil de Edward, mas ele seria guiado pelo comedimento e pelo bom-senso. Nascido em 1780, filho de um rico plantador de tabaco, Edward tinha herdado a fazenda do pai aos 29 anos e, com ela, um total de trezentos escravos. Homem abastado, de riqueza incomparável, poderia ter simplesmente se dado por satisfeito e se aposentado precocemente com a maior tranquilidade, mas ele também herdara do pai uma aversão ao mesmo sistema que permitira que sua fortuna se multiplicasse. Edward logo tomou a iniciativa incomum de incentivar que seus escravos se dedicassem às artes, geralmente proibidas, de ler e escrever. Quando, alguns anos depois de ter herdado todos aqueles escravos, ele soube da formação da Sociedade de Colonização Americana, esta pareceu a oportunidade ideal para se livrar do fardo — ou pelo menos de parte do fardo — de ser um proprietário de escravos, título que ia contra sua crença cristã. Sua esposa, que inicialmente não compartilhava de todo aquele estranho fervor filantrópico, acabou passando a tolerar o comportamento e os estranhos desejos do marido. Mas, infelizmente, ela não estava mais entre nós. E agora o principal jogador do time, o mais bem-sucedido dos negros cristãos, estava perdido emalgum lugar da tenebrosa costa africana. Edward passava os dias e as noites pensando em Nash. Será que aquele rosto escuro, carregado de fé e bons princípios, havia de alguma forma se modificado naquele clima úmido e bárbaro? Ele não podia acreditar que a África tivesse distorcido a fé de Nash e feito com que ele virasse as costas para Deus. E por que é que agora, depois de tantos anos de paciência, ele havia repentinamente decidido cortar relações com o antigo senhor? Esse estranho enigma, que toda noite mantinha Edward acordado, virando-se de um lado para o outro na cama, ameaçava rasgar sua alma. Ele sabia que tinha poucas opções além de ir à Libéria, não só para descobrir a verdade que cercava o desaparecimento de Nash mas também para ter certeza de que a obra da vida daquele homem e, mais importante, de sua própria vida tinha sido de algum valor. Na noite de 3 de novembro de 1841, o Mercury partiu do porto de Nova York. No convés, Edward Williams se ajoelhou e rezou pela alma de sua querida e falecida Amelia e pelo sucesso da viagem em que ele estava embarcando. Enquanto saía da quietude do rio e entrava no mar, ele se debruçou no corrimão e viu seus queridos Estados Unidos desaparecerem de vista e, após certo tempo, também da linha do horizonte. Infelizmente, um dia após a partida, nuvens negras se formaramnos céus e o navio começou a enfrentar uma terrível tempestade, uma chuva inclemente que desabava de um céu permanentemente escuro. Edward continuou lá embaixo, ouvindo através das tábuas e emmeio aos gemidos dos outros passageiros, um grupo de negros da Louisiana que seguia para a costa africana, deitados nas camas em vários estágios de morte. Tinham saído de Nova York havia uma semana e a tempestade ainda não amainara quando o mastro se partiu e desabou. Os marinheiros eram experientes, mas por algum tempo parecia que o navio teria de ser abandonado às ondas e ao vento, pois a tempestade parecia não ter fim. Todos os que estavam em condições foram chamados ao convés para ajudar a consertar o navio à deriva, mas a essa altura Edward já havia contraído a febre e estava totalmente impossibilitado de se mexer.

Ele ficou lá embaixo, ouvindo os dolorosos estalos e rangidos da madeira, enquanto as rajadas ficavam cada vez mais violentas. Felizmente, na segunda semana a tempestade enfim passou, mas, em contrapartida, logo a força real e insuportável do calor do sol caiu sobre eles. Tardes longas e ensolaradas tomavam o navio de assalto, o céu sempre claro e sem a menor sombra de uma só nuvem, o ar parado e sem qualquer brisa que pudesse inflar uma vela ou fazer tremer o espelho que era o mar. Agora o perigo era a viagem se prolongar mais do que poderiam durar os suprimentos de comida e, o que era ainda mais crucial, de água. Infelizmente, apesar de todos os esforços do médico de bordo, o terrível estado de Edward não mostrava sinais de melhora. O capitão, conhecido pela sua sagacidade, conformou-se com a perda inevitável de seu mais ilustre passageiro. Finalmente, contudo, na noite de 14 de dezembro de 1841, quando o Mercury chegava lentamente ao porto do povoado inglês de Freetown, em Serra Leoa, o capitão já tinha tomado a precaução de adquirir mantimentos frescos e auxílio médico imediato para aqueles que, como Edward, se viamentre a vida e a morte. Nativos subiram a bordo e carregaram Edward, cujo suor escorria-lhe pela testa e cujo corpo estava tomado pelos tremores e pela febre, até um barco a remo toscamente construído. Em meio ao torpor da enfermidade, Edward pôde ouvir — na verdade, quase pôde saborear — a água do mar, que o envolvia totalmente, quieta e melancólica. Forçando seus olhos semicerrados, pôde divisar o litoral, onde tochas queimavam naquele entardecer sem lua. A viagem era curta, mas pareceu interminável e piorou ainda mais com a descida de uma neblina espessa, que logo se transformou numa chuva leve. Ao chegar a Freetown, Edward foi posto desastradamente numa carroça rudimentar, puxada por uma única mula. O condutor negro gritou para o animal infeliz, e Edward sentiu o impulso tomado, enquanto as rodas giravam em falso na lama e toda aquela geringonça permanecia dolorosamente no mesmo lugar. Depois de muita gritaria e outras inconveniências que Edward teve de suportar, ele acabou sendo transportado, de maneira completamente primária, até um hospital de missionários cuja única virtude aparente era o número de rostos brancos que habitavam aquele lugar insalubre não fosse por eles. Edward permaneceu ali por alguns dias, de mãos dadas com Deus, até que o vento mudou e a maré o trouxe de volta às praias da consciência.

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