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A Travessia – William P. Young

Há anos em que o inverno em Portland, no estado do Oregon, é muito rigoroso. Em sua violenta batalha contra a chegada da primavera, ele ataca com tempestades de granizo e neve, reivindicando algum direito de continuar sendo o rei das estações – no fim das contas, uma tentativa inútil. Este ano, no entanto, não foi assim. O inverno simplesmente se retirou como uma mulher derrotada, partindo de cabeça baixa com suas roupas brancas e marrons sujas e esfarrapadas, sem uma única palavra de protesto nem promessa de retorno. Mal dava para notar a diferença entre sua presença e sua ausência. Para Anthony Spencer, não importava. O inverno era uma chateação e a primavera não ficava atrás. Se pudesse, removeria as duas estações do calendário, juntamente com a parte úmida e chuvosa do outono. Um ano de cinco meses seria o ideal, sem dúvida melhor do que aqueles longos períodos de incerteza. Todo final de primavera, Tony se questionava por que permanecia no Noroeste do país, mas a cada ano que passava ele se via fazendo a mesma pergunta. Talvez a monotonia decepcionante tivesse lá seus confortos. A ideia de uma verdadeira mudança era desanimadora. Quanto mais arraigado em seus hábitos seguros, menos inclinado ele ficava a crer que qualquer outra coisa valesse o esforço, ainda que possível. Por mais angustiante que a velha rotina fosse às vezes, ao menos ela era previsível. Ele se recostou na cadeira e ergueu os olhos da mesa entulhada de papéis para a tela do computador. Bastava pressionar uma tecla para ter acesso ao sistema de monitoramento de suas propriedades: o apartamento no prédio bem ao lado de onde estava; seu escritório principal situado estrategicamente no centro de Portland, no meio de um arranha-céu comercial de médio porte; sua casa de praia e seu casarão em West Hills. Ficou observando a tela enquanto tamborilava incansavelmente em seu joelho com o indicador. O silêncio era total, como se o mundo estivesse prendendo a respiração. São muitas as maneiras de se estar sozinho. Embora as pessoas que se relacionavam com Tony em ambientes sociais ou profissionais pudessem pensar o contrário, ele não era um homem alegre. Era, sem dúvida, determinado, e estava sempre em busca da próxima oportunidade. Isso muitas vezes exigia uma atitude extrovertida e sociável, sorriso largo, contato visual e aperto de mão firme, não por causa de uma admiração genuína, mas porque todos potencialmente tinham informações que poderiam ser valiosas para o sucesso de seus empreendimentos. Suas perguntas constantes faziam pressupor um interesse sincero, o que dava a seus interlocutores a impressão de que eram importantes, embora também transmitissemuma sensação de vazio. Famoso por suas iniciativas filantrópicas, Tony entendia a compaixão como um meio de alcançar objetivos mais palpáveis. O altruísmo tornava as pessoas muito mais fáceis de manipular.


Depois de algumas tentativas hesitantes, ele havia concluído que amizades eram mau investimento, pois traziam lucros baixíssimos. O verdadeiro altruísmo era um luxo para o qual ele não tinha tempo nem energia. Em vez disso, baseou seu sucesso na administração e na construção de imóveis, empreendimentos comerciais diversificados e numa carteira de investimentos em expansão, meios em que era respeitado e temido como um empresário agressivo e um mestre das negociações. Para Tony, a felicidade era um sentimento tolo e efêmero, uma brisa passageira se comparada ao perfume de umnegócio em potencial e ao gosto viciante da vitória. Como um velho sovina, ele adorava sugar os últimos resquícios de dignidade daqueles ao seu redor, especialmente dos funcionários que suavam a camisa mais por medo do que por respeito. Como um homem desses poderia merecer amor ou compaixão? Quando sorria, Tony quase podia passar por um homem bonito. A genética o abençoara com mais de 1,80m de altura e um cabelo que, mesmo aos 40 e tantos anos, não dava sinais de rarear, embora já estivesse ficando grisalho nas têmporas. Obviamente anglo-saxão, ainda assim algo de mestiço e delicado suavizava seus traços, sobretudo naqueles raros momentos em que abandonava sua habitual postura séria, de homem de negócios, e se deixava levar por um riso incontido. Para os padrões usuais, ele era rico, bem-sucedido e muito bom partido. Um tanto mulherengo, exercitava-se o suficiente para manter a forma, ostentando apenas uma barriga pouco proeminente que podia ser encolhida quando necessário. E as mulheres iam e vinham, as mais espertas pulando fora antes que as outras, e todas elas se sentindo péssimas depois da experiência. Ele havia se casado duas vezes com a mesma mulher. A primeira união, quando ambos tinham apenas 20 e poucos anos, tinha gerado um casal de filhos. A filha, uma jovem revoltada, vivia do outro lado do país, perto da mãe. O garoto era outra história. O casamento terminara em divórcio por incompatibilidade de gênios, um exemplo clássico de indiferença e falta de atenção. Em poucos anos, Tony tinha conseguido deixar em frangalhos a autoestima de Loree. O problema foi que, da primeira vez, ela saíra de casa com a cabeça erguida, o que não poderia significar uma vitória de verdade. Então, depois de passar os dois anos seguintes tentando reconquistála, Tony organizou uma magnífica cerimônia de segundo casamento, para duas semanas depois voltar a lhe apresentar os papéis de divórcio. Há quem diga que os papéis tinham sido preparados antes mesmo de os dois selarem de novo os votos em cartório. Mas, dessa vez, quando ela o atacou com toda a fúria de uma mulher desprezada, ele a esmagou financeira, legal e psicologicamente. Isso, sim, poderia ter sido considerado uma vitória. Tudo não passou de um jogo cruel, mas apenas para ele. O preço que Tony pagou foi perder a filha no processo, algo que voltava a atormentá-lo sempre que ele bebia além da conta. Mas era apenas um pequeno fantasma que ele rapidamente enterrava ocupando-se em trabalhar e vencer.

Só o filho deles já seria motivo suficiente para afogar as mágoas no uísque, um remédio sem prescrição que cegava as lâminas cortantes da memória e do arrependimento e amenizava as terríveis enxaquecas que, vez por outra, teimavam em lhe fazer companhia. Se a liberdade é um processo gradativo, o mesmo vale para o mal. Com o tempo, pequenas deturpações da verdade e justificativas aparentemente sem importância erguem um edifício inesperado. Isso se aplica a um Hitler, a um Stalin ou a pessoas comuns. A casa da alma é magnífica, porém frágil. Qualquer traição ou mentira que se agarre a suas paredes ou seus alicerces pode fazê-la crescer em direções inimagináveis. O mistério de cada alma humana, até mesmo da de Anthony Spencer, é profundo. Seu nascimento desencadeou uma explosão de vida, um universo interno em expansão, formando seu próprio sistema solar e galáxias, com uma simetria e uma elegância inconcebíveis. Em algum momento do caminho, no entanto, a dor e a frustração chegaram com força esmagadora, abalando a delicada ordem desse arranjo complexo, que começou a desmoronar sob seu próprio peso. Essa deterioração veio à tona na forma de um medo autoprotetor, de uma ambição egoísta e do endurecimento de qualquer tipo de ternura. O que antes era um órgão vivo, um coração de carne, se transformou em pedra; uma pequena rocha que vivia no casulo oco daquele corpo. Antes, a aparência externa era um reflexo do encanto e do esplendor internos. Agora, não passava de uma fachada em busca de um coração que devia encontrar seu caminho sem auxílio algum, um astro moribundo, faminto dentro de seu próprio vazio. A dor, a frustração e, por fim, o abandono são feitores cruéis, mas juntos eles se tornam uma desolação quase insuportável. Esses sentimentos tornaram-se um arsenal na existência de Tony, fazendo-o esconder facas dentro das palavras, erguer muros para proteger-se de qualquer aproximação, e aprisionando-o numa ilusão de segurança, quando na verdade estava isolado e solitário. Restava pouca música verdadeira na vida de Tony; apenas resquícios de criatividade quase inaudíveis. A trilha sonora de sua sobrevivência não passava de música de elevador, melodias insossas que acompanhavam o ritmo da subida. As pessoas que o reconheciam na rua meneavam a cabeça para cumprimentá-lo, os mais sensíveis cuspindo com desdém na calçada, depois que ele passava. Mas muitos se sentiam atraídos por ele; puxasacos e bajuladores que aguardavam suas próximas ordens, loucos para conquistar uma migalha de aprovação ou do que imaginavam ser afeto. Sempre existem aqueles que aproveitam a onda de umsuposto sucesso por necessidade de garantir sua própria importância, identidade e intenções. A percepção faz a realidade, mesmo que essa percepção seja uma mentira. Tony possuía uma mansão em West Hills e, a não ser que tivesse organizado algum evento em benefício próprio, mantinha apenas uma pequena parte dela aquecida. Embora raramente ficasse lá, gostava de pensar na propriedade como um monumento à derrota de sua esposa. Loree tinha ficado com a casa como parte do primeiro acordo de divórcio dos dois, mas precisou vendê-la para pagar as exorbitantes despesas legais referentes ao segundo. Com a ajuda de alguns comparsas, ele a comprou de volta por uma mixaria, chegando a chamar a polícia para retirar sua perplexa esposa da propriedade no dia em que foi sacramentada a venda.

Ele tornou a se inclinar para a frente, desligou o computador e, apanhando seu uísque, girou a cadeira para encarar uma lista de nomes que tinha escrito num quadro branco. Levantou-se, apagou quatro nomes e acrescentou um. Então deixou-se cair na cadeira, seus dedos tamborilando no tampo da mesa. Hoje, seu humor estava pior do que o normal. Compromissos profissionais haviam exigido que ele participasse em Boston de uma conferência que não lhe despertava o menor interesse. Emseguida, uma pequena crise no setor de recursos humanos fez com que precisasse voltar um dia antes do esperado. Por mais aborrecido que fosse ter que lidar com uma situação que poderia muito bemser resolvida por seus subordinados, ele ficou grato por ter uma desculpa para abandonar os seminários quase insuportáveis e voltar à ligeiramente tolerável rotina que controlava melhor. Mas algo havia mudado. O que antes era uma leve inquietação acabou se transformando em uma voz consciente. Fazia algumas semanas que Tony tinha a sensação incômoda de estar sendo seguido. A princípio, achou que fosse apenas efeito do estresse, delírios de uma mente sobrecarregada de trabalho. Mas, uma vez plantada, a ideia encontrara solo fértil – e o que começou como uma semente facilmente descartada por uma reflexão mais atenta criou raízes que logo se expressaram na forma de uma hipervigilância nervosa, que sugava ainda mais energia de uma mente em constante estado de alerta. Ele começou a notar detalhes em acontecimentos sem importância, que isoladamente não o fariamsequer pensar duas vezes. Mas, juntos, foram se tornando um coro de alerta em sua consciência. A caminhonete que às vezes parecia segui-lo no percurso para o escritório, o frentista que por alguns minutos esquecia de lhe devolver seu cartão de crédito, a empresa de alarmes que o notificou das três quedas de energia que pareciam ter afetado apenas sua casa, ao passo que as de seus vizinhos continuavam incólumes, cada apagão durando exatamente 22 minutos, durante três dias consecutivos. Tony começou a prestar mais atenção em discrepâncias triviais e até na maneira como as outras pessoas olhavam para ele – o barman do Stumptown Coffee, o segurança da entrada principal, até os funcionários que ocupavam as mesas no trabalho. Tony notava como essas pessoas desviavam o olhar quando ele se virava na direção delas, mudando rapidamente sua linguagem corporal para fingir que estavam ocupadas ou cuidando de outro assunto. Havia uma semelhança inquietante nas reações dessas diferentes pessoas, como se fosse umcomplô. Como se partilhassem um segredo ao qual ele não podia ter acesso. Quanto mais observava, mais clara se tornava essa impressão, o que o fazia ficar ainda mais vigilante. Sempre tinha sido umpouco paranoico, mas agora considerava constantemente a hipótese de uma conspiração, o que o deixava agitado e nervoso. Tony mantinha um escritório particular completo, com quarto, cozinha e banheiro, numa localidade que até mesmo seu advogado pessoal desconhecia. Era seu refúgio às margens do rio, nos arredores da Macadam Avenue, para as ocasiões em que queria simplesmente desaparecer por algumas horas ou passar a noite incomunicável. A casa maior que continha esse pequeno esconderijo também era sua, mas havia anos que o título de propriedade tinha sido transferido para uma empresa-fantasma. Nessa mesma época, ele reformara parte do porão, equipando-o com a mais avançada tecnologia de segurança e vigilância.

Além dos empreiteiros originais, que tinham sido contratados pessoalmente, ninguém jamais vira aquela parte da casa. Sua existência não constava nem mesmo da planta da propriedade, graças a subornos aos construtores e generosas doações aos mandachuvas do governo municipal. Quando a senha correta era digitada no que parecia o teclado de uma caixa telefônica enferrujada nos fundos de um quarto de zelador sem uso, uma parede deslizava para o lado, revelando uma porta corta-fogo de aço e um moderno sistema de controle de entrada, com câmera e teclado. O lugar era alimentado por uma rede de energia e internet separada do restante do complexo. Além disso, se seu software de monitoramento de segurança detectasse qualquer tentativa de rastrear o local, desligaria e bloquearia o sistema até que ele fosse reiniciado por meio de uma nova senha gerada automaticamente. Isso só poderia ser feito de dois locais: de sua mesa no escritório do centro da cidade, ou de dentro da própria câmara secreta. Tony tinha o hábito de, antes de entrar, desligar seu celular e remover a bateria. Uma linha fixa não cadastrada na lista telefônica podia ser ativada se houvesse necessidade. O ambiente era despojado. A mobília e a decoração eram simples, quase espartanas. Ninguém jamais veria aquele lugar, de modo que tudo naqueles cômodos significava algo para ele. Livros que cobriam as paredes, muitos dos quais ele nunca havia chegado a abrir, tinham pertencido ao seu pai. Outros, em especial os clássicos, sua mãe costumava ler para ele e seu irmão. As obras de C. S. Lewis e George MacDonald estavam entre as mais importantes, suas favoritas quando criança. Uma das primeiras edições de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, encontrava-se em local de destaque, acessível apenas a seus olhos. Em uma das extremidades da estante, havia diversos livros de negócios, lidos com atenção e marcados do começo ao fim, um verdadeiro arsenal de mentores. Havia também gravuras de Escher e Doolittle penduradas aleatoriamente nas paredes, e uma vitrola em um dos cantos. Ele mantinha uma coleção de discos de vinil cujos arranhões eram como lembranças reconfortantes de tempos passados. Ali também ele guardava seus objetos e documentos mais importantes: escrituras, títulos e, acima de tudo, seu testamento oficial. Tony o revisava e modificava com frequência, acrescentado ou eliminando pessoas à medida que elas passavam por sua vida e o irritavam ou agradavam com suas atitudes. Imaginava o impacto que teria nos interessados em sua riqueza receber ou não alguma herança quando ele partisse desta para melhor. Seu advogado pessoal, ao contrário de seu consultor jurídico geral, possuía a chave de um cofre na agência principal do banco Wells Fargo, no centro da cidade. Esse cofre só poderia ser aberto de posse do seu atestado de óbito.

Dentro, havia informações que revelavam a localização do apartamento e escritório particulares, de como ter acesso aos mesmos e onde encontrar as senhas para abrir o cofre oculto, enterrado na fundação da casa. Caso alguém tentasse chegar ao cofre semum atestado de óbito, o banco deveria notificar Tony imediatamente, e, como já alertara seu advogado, se isso um dia acontecesse, o vínculo profissional entre eles seria interrompido na mesma hora, assim como os generosos honorários pagos, sem falta, todo primeiro dia útil de cada mês. Tony mantinha uma cópia mais antiga de seu testamento no cofre do escritório. Certos sócios e colegas tinham acesso a esse documento por motivos profissionais, e ele esperava secretamente que a curiosidade vencesse alguns deles, imaginando o prazer que sentiriam ao conhecer seu conteúdo, seguido da tremenda decepção ao ler seu testamento de verdade. Todos sabiam que Tony era dono e administrador da propriedade contígua ao prédio onde estava seu esconderijo. Tratava-se de uma construção semelhante, com vitrines de lojas no térreo e apartamentos residenciais nos andares de cima. Os dois prédios compartilhavam um estacionamento subterrâneo, com câmeras posicionadas aparentemente para cobrir toda a área, mas que na verdade não alcançavam um corredor que se podia atravessar despercebido. Assim, Tony era capaz de chegar ao seu refúgio secreto sem ser notado. Para justificar sua presença constante naquelas bandas da cidade, ele comprou um apartamento de dois quartos no primeiro piso do prédio ao lado do seu escritório secreto. Era todo equipado e bemdividido, uma fachada perfeita, e ele passava mais noites ali do que em sua mansão em West Hills ou em sua casa de praia perto de Depoe Bay. Tony havia cronometrado o tempo que levava para andar de um apartamento ao outro através da garagem, e sabia que poderia estar isolado em seu santuário especial em menos de três minutos, observando a área útil de seu apartamento através de uma videotransmissão gravável. A extensiva aparelhagem eletrônica era mais para fins de proteção do que de vigilância. Não havia colocado propositalmente câmeras nos quartos nem nos banheiros, sabendo que outras pessoas ocupariam o imóvel quando ele não o estivesse usando. Tony tinha várias características desagradáveis, mas o voyeurismo não era uma delas. Qualquer um que reconhecesse seu carro na garagem apenas suporia (geralmente de forma correta) que ele tinha vindo passar a noite em seu apartamento. Tony se tornara uma figura rotineira ali, e sua presença ou ausência não chamava atenção, tal como ele queria. Mesmo assim, em seu estado de alta ansiedade, ele vinha sendo mais cauteloso do que o normal. Mudava ligeiramente seus hábitos para descobrir se alguém o estava seguindo, mas não a ponto de levantar suspeitas. Tony não podia imaginar o motivo pelo qual alguém iria segui-lo. Ele cortara quase todos os vínculos bruscamente, e talvez fosse essa a raiz do problema. Só pode ser por dinheiro, ele supunha. Não era sempre assim? Talvez sua ex-mulher? Talvez seus sócios ou um concorrente estivessem preparando um golpe para tomar sua parte na empresa? Tony passava horas, dias, analisando dados financeiros de cada transação passada e presente, de cada fusão e aquisição, buscando algo fora do comum, sem encontrar nada. Então mergulhou fundo nos processos operacionais das diversas participações da empresa, novamente buscando… o quê? Algo estranho, alguma pista que pudesse explicar o que estava acontecendo. Chegou a descobrir algumas irregularidades, mas, quando as apresentou sutilmente como problemas para seus sócios, elas foram corrigidas de imediato, ou explicadas de modo consistente com os procedimentos operacionais que ele mesmo havia desenvolvido. Apesar da crise econômica, os negócios iam bem.

O próprio Tony era quem havia convencido seus sócios a manterem uma base sólida de ativos realizáveis a curto prazo, e agora eles estavamcomprando cautelosamente propriedades e diversificando seus empreendimentos a preços acima dos valores de liquidação. Atualmente, ele era o herói da empresa, mas isso não lhe trazia paz de espírito. Qualquer trégua estava fadada a durar pouco, e cada sucesso apenas aumentava as expectativas quanto ao seu desempenho. Era uma maneira extenuante de viver, mas ele resistia às alternativas por considerá-las irresponsáveis. Passava cada vez menos tempo no escritório principal. De todo modo, as pessoas procuravamevitá-lo porque sua paranoia crescente o tornava muito irritadiço, e as menores falhas o tiravam do sério. Até seus sócios preferiam afastar-se, e quando as luzes do seu escritório estavam apagadas todos suspiravam aliviados e trabalhavam com mais afinco e de forma mais criativa e concentrada. Mas era no seu espaço privado, em sua folga momentânea, que seus medos vinham à tona, aumentando a sensação de ser um alvo, objeto da atenção de algo ou de alguém indesejável e importuno. Para piorar, suas dores de cabeça tinham voltado com toda a intensidade. As enxaquecas eram geralmente precedidas por perda temporária da visão, seguida de fala arrastada e dificuldade para completar as frases. Hipersensível à luz e ao som, ele avisava sua assistente antes de se esgueirar para a escuridão do apartamento. Armado de analgésicos, dormia até a sua cabeça doer apenas quando ria ou a balançava. Convenceu-se de que o uísque ajudava na recuperação, mas qualquer pretexto era motivo para servir-se de outro drinque. Mas por que agora? Após meses sem nenhuma dor, as crises voltaram a atormentá-lo quase que a cada semana. Começou a prestar atenção no que consumia, preocupado com a possibilidade de alguém estar tentando envenenar sua comida ou bebida. Sentia-se cada vez mais cansado, e apesar de dormir com a ajuda de remédios controlados, continuava exausto. Por fim, marcou uma consulta comseu médico, mas teve que desmarcá-la por causa de uma reunião convocada para sanar problemas relacionados a uma aquisição importante que não estava indo conforme o planejado. Remarcou a consulta para duas semanas depois. Quando a incerteza se sobrepõe à rotina, você começa a pensar no que realmente importa e por quê. De modo geral, Tony não estava insatisfeito com sua vida. Era mais bem-sucedido que a maioria, o que não era nada mal para uma criança adotiva que o sistema havia deixado na mão e que, a partir de um certo momento, decidira parar de lamentar-se. Tinha cometido erros e magoado pessoas, mas quem nunca fez isso? Estava sozinho, mas a maior parte do tempo preferia que fosse assim. Tinha uma mansão em West Hills, uma casa de praia em Depoe Bay, um apartamento às margens do Willamette River, investimentos sólidos e a liberdade de fazer quase tudo o que quisesse. Era um solitário, mas a maior parte do tempo preferia ser assim. Alcançara quase todos os objetivos a que se propusera, e agora, na casa dos 40, convivia com uma sensação sinistra de vazio e com arrependimentos que o fustigavam insistentemente.

Ele se apressava a enterrálos bem fundo, naquela câmara invisível que os seres humanos criam para se protegerem de si mesmos. Claro que estava sozinho, mas a maior parte do tempo… Assim que aterrissou em Portland vindo de Boston, Tony seguiu direto para o escritório principal e começou uma discussão particularmente acalorada com dois de seus sócios. Foi naquele momento que teve a ideia de criar uma lista das pessoas em quem confiava. Não das pessoas nas quais dizia confiar, mas daquelas em quem confiava de fato. Aquelas às quais poderia contar segredos, expor suas fragilidades e dividir seus sonhos. Enclausurou-se em seu escritório secreto, apanhou uma garrafa de uísque e começou a anotar e apagar nomes em um quadro branco. A lista não era longa e incluía sócios, alguns de seus funcionários, duas ou três pessoas de fora do trabalho e mais umas poucas que havia conhecido em suas viagens. Mas, depois de uma hora de reflexão, esse número havia sido reduzido a seis. Ele se recostou e balançou a cabeça. Aquilo se tornara um exercício vão. As únicas pessoas em quem de fato confiava estavam todas mortas. Seu pai e sua mãe estavam no topo da lista. Racionalmente, ele sabia que boa parte das lembranças que tinha deles era idealizada pelo tempo e pelo trauma. As características negativas dos pais haviam sido apagadas pela saudade que sentia dos dois. Guardava como um tesouro aquela fotografia desbotada, a última tirada antes de um adolescente irresponsável perder o controle do carro e transformar glória em escombros. Tony abriu o cofre e a pegou lá de dentro, agora protegida por uma folha de papel laminado. Tentou alisar os vincos, como se seus pais pudessem de alguma forma sentir a carícia. Seu pai pedira a um estranho que batesse a foto da família em frente à já extinta sorveteria Farrell’s Ice Cream. Ele, um rapaz desengonçado de 11 anos, atrás de seu irmão caçula, Jacob, então com 7. Os quatro estavam rindo de algo, o rosto de sua mãe voltado para cima, com a alegria estampada nos belos traços, seu pai com um sorriso sarcástico, que era o melhor que ele podia fazer. Tony se lembrava com clareza do sorriso do pai. As poucas emoções que aquele engenheiro externava tornavam-se muito significativas quando se estampavam em seu rosto. Tony tentava se lembrar do que os fizera rir, olhando longamente a foto como se ela pudesse revelar o segredo. Porém, por mais que se esforçasse, a resposta estava fora do seu alcance, provocativa e enlouquecedora. O próximo nome da lista era Madre Teresa, seguido imediatamente por Mahatma Gandhi e Martin Luther King.

Todos excepcionais, todos idealizados, todos muito humanos, vulneráveis, maravilhosos e, agora, mortos. Ele pegou um bloquinho e anotou os nomes, depois arrancou a folha solitária e ficou brincando com ela entre o polegar e o indicador da mão direita. Por que havia escrito aqueles nomes? A lista final tinha sido feita quase sem pensar, talvez como um reflexo de uma essência muito profunda e, quem sabe, até real, talvez mesmo como um anseio. Ele ao mesmo tempo detestava essa palavra e gostava dela. Parecia frágil à primeira vista, mas tinha um poder de permanência, durando mais tempo que a maioria das outras coisas que tinham ido e vindo em sua vida. Esses três personagens representavam, juntamente com o último nome da lista, algo maior do que ele próprio, o vestígio de uma canção que nunca fora cantada, mas que continuava a chamá-lo, a possibilidade de alguém que ele poderia ter sido, um convite, um desejo. O último nome era o mais difícil e, ao mesmo tempo, o mais fácil: Jesus. Jesus, o presente de Belém para o mundo, o carpinteiro que supostamente era Deus unindo-se à nossa humanidade, que talvez não estivesse morto, segundo as crenças religiosas. Tony sabia por que colocara Jesus na lista. O nome estava relacionado às lembranças mais fortes que tinha de sua mãe. Ela adorava esse carpinteiro e tudo o que estivesse ligado a ele. Seu pai também amava Jesus, é claro, mas não como sua mãe. O último presente que ela havia lhe dado estava dentro do cofre, na fundação do prédio que abrigava seu esconderijo, e era a coisa mais preciosa que ele possuía. Menos de dois dias antes de ser arrancada de forma brutal de sua vida, ela fora inexplicavelmente ao seu quarto. A lembrança estava gravada bem fundo na alma de Tony. Ele tinha 11 anos, estava fazendo o dever de casa, quando ela surgiu, recostada à porta, uma mulher franzina com um avental florido. Uma de suas bochechas estava suja de farinha, e ela afastara a mecha de cabelo que se soltara do nó que o prendia em cima. Foi por causa da farinha que Tony soube que ela tinha chorado, as lágrimas deixando um rastro irregular ao longo do seu rosto. – Tudo bem, mãe? O que foi? – perguntou ele, erguendo os olhos de seus livros. – Ah – ela exclamou, limpando o rosto com as costas das mãos cerradas –, não foi nada. Você me conhece, às vezes começo a pensar nas coisas pelas quais me sinto tão grata, como você e seu irmão, e fico toda emotiva. – Ela se deteve. – Não sei por quê, meu amor, mas estava pensando em como você está crescendo… daqui a pouco será um adolescente e logo entrará para a faculdade, depois se casará… Enquanto pensava nisso tudo, sabe o que senti? – Ela se interrompeu novamente. – Senti alegria, como se meu coração estivesse prestes a explodir no peito. Tony, eu agradeço tanto a Deus por você.

Então decidi fazer sua sobremesa preferida, o bolo de amoras-silvestres e rolinhos de caramelo. Mas enquanto estava parada ali na cozinha, olhando pela janela e para tudo o que nos foi dado, todos os presentes que recebemos, e especialmente você e Jake, de repente quis lhe dar algo mais, algo que fosse muito valioso para mim. Foi então que Tony notou sua mão cerrada. Aquela mulher que, mesmo àquela altura da vida, era mais baixa do que ele, estava segurando algo que cabia dentro de seu pequeno punho. A mãe estendeu a mão e a abriu devagar, deixando ver uma corrente suja de farinha com uma cruz dourada na ponta, frágil e feminina. – Tome – disse, estendendo-a. – Quero que fique com isto. Sua avó me deu, como a mãe dela lhe dera antes. Achei que um dia fosse entregá-la a uma filha, mas não acho que vai ser possível. Não sei por quê, mas, enquanto pensava em você e rezava por nossa família, senti que hoje era o dia certo para lhe dar esta corrente. Sem saber bem o que fazer, Tony abriu a mão para que a mãe depositasse nela a corrente delicadamente entrelaçada, enfeitada com a pequena cruz de ouro. – Um dia, quero que você dê esta corrente para a mulher que amar, e quero que lhe diga de onde veio – explicou ela enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. – Mas, mãe, você mesma pode dar a ela. – Não, Anthony, estou convicta disso. Não entendo bem por quê, mas é você quem deve dá-la, não eu. Não me entenda mal, eu pretendo estar presente, mas, como minha mãe me deu esta corrente, eu agora a dou a você, para que você a passe adiante. – Mas como vou saber… – Você saberá – ela interrompeu. –Acredite, saberá sim! – Ela o envolveu em seus braços e o abraçou longamente, sem se preocupar se iria sujá-lo de farinha. Ele também não se importava. Semcompreender direito o sentido daquilo, Tony sabia que era importante. – Abrace Jesus, Anthony. Nada de mal poderá lhe acontecer se você se abraçar a Jesus. E pode ter certeza de uma coisa… – disse ela, recuando para olhar dentro de seus olhos. – Ele nunca deixará de abraçar você. Dois dias depois, ela partiu, destruída pela escolha egoísta de um garoto pouco mais velho do que ele.

A corrente continuava no cofre. Ele nunca a passara adiante. Será que ela pressentia o que estava prestes a acontecer? Muitas vezes ele se perguntava se teria sido uma premonição, algum alerta ou uma inspiração divina para que ele tivesse uma lembrança dela. A perda da mãe havia destruído sua vida, conduzindo-a numa direção que o tornara quem ele era hoje: um homem forte, duro, capaz de suportar coisas que outros não conseguiam. Mas havia momentos, passageiros e intangíveis, em que aquele anseio cheio de ternura se infiltrava por entre as rochas da sua fachada e cantava para ele, ou pelo menos começava a cantar, já que ele rapidamente bloqueava a melodia, afastando-a para longe. Será que Jesus continuava a abraçá-lo? Tony não sabia, mas achava que não. Ele não era muito parecido com a mãe, mas, por causa dela, havia lido a Bíblia, assim como alguns de seus livros favoritos, tentando encontrar nas páginas de Lewis, MacDonald, Williams e Tolkien algum resquício de sua presença. Chegou até a fazer parte, por um curto período, do grupo de jovens cristãos da escola secundária, onde tentou aprender mais sobre Jesus, porém o sistema de adoção em que ele e seu irmão foram parar os obrigava a trocar de lar e de escola a todo momento. Quando dizer adeus às pessoas que você acabou de conhecer é só uma questão de tempo, entrar para clubes e sociedades se torna doloroso. Ele sentia que Jesus tinha simplesmente lhe dado adeus, como todos os outros. Então, o fato de ter mantido Jesus na lista era um tanto surpreendente. Quase não pensava mais nele. Na faculdade, havia retomado brevemente sua busca por Jesus, mas, depois de um semestre de debates e estudos, o havia relegado à lista de grandes professores mortos. Mesmo assim, entendia por que sua mãe tinha tamanha paixão por ele. Como não gostar de Jesus? Um homem másculo, mas doce com as crianças; bondoso com aqueles que a religião e a cultura julgavam inaceitáveis; cheio de uma compaixão contagiante; capaz de desafiar o sistema vigente e, ainda assim, amar os próprios inimigos. Ele era tudo o que Tony às vezes desejava ser, mas sabia que não era. Talvez Jesus fosse um exemplo daquele tipo de vida dedicada a algo maior do que você mesmo, mas era tarde demais para mudar. Quanto mais Tony envelhecia, mais a ideia de uma transformação lhe parecia distante.

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