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A Tribo – Joe Hill

RUMO AO OESTE PELO DESERTO CHEIO de cores, deixaram o massacre para trás e só pararam depois de percorrer mais de 150 quilômetros. Por fim, no início da tarde, saíram da estrada ao chegarem a um restaurante modesto com fachada de estuque branco e bombas de gasolina na frente. Quando passaram diante do lugar, o estrondo de seus motores fez as vidraças chacoalharem. Reuniram-se à esquerda do prédio, em meio aos caminhões estacionados, e ali baixaram os descansos e desligaram as motos. Race Adamson os havia guiado por todo o caminho. Em determinados momentos, sua Harley chegara a ficar quase 500 metros à frente dos outros. Desde que voltara a andar com eles, depois de dois anos sem aparecer, Race tinha adquirido o hábito de permanecer na dianteira. Ele se distanciava tanto que muitas vezes parecia estar desafiando-os a tentar acompanhá-lo – ou talvez quisesse apenas deixá-los para trás. Não queria parar ali, mas Vince o havia forçado. Ao ver o restaurante surgir ao longe, Vince acelerara até junto dele, ultrapassando-o a toda, e então esticara a mão para a esquerda em um gesto que a Tribo conhecia bem: Sigam-me para fora da estrada. Como sempre, a Tribo obedecera. Decerto mais um motivo para Race antipatizar com ele. O garoto tinha muitos motivos. Race foi um dos primeiros a estacionar, mas o último a descer da moto. Continuou montado enquanto tirava as luvas de couro devagar, encarando os outros com raiva por trás dos óculos espelhados. – Você deveria bater um papo com seu filho – disse Lemmy Chapman a Vince, indicando Race com a cabeça. – Aqui, não – replicou Vince. A conversa podia esperar até a volta para Vegas. Ele queria sair da estrada. Queria passar um tempo deitado no escuro, queria um tempo para que o embrulho no estômago passasse. Mais do que tudo, talvez, queria uma chuveirada. Apesar de não estar sujo de sangue, sentia-se contaminado, e só se sentiria bem depois de lavar o fedor daquela manhã. Deu um passo na direção do restaurante, mas Lemmy segurou seu braço antes que ele pudesse avançar. – Aqui, sim. Vince olhou para a mão agarrando seu braço – Lemmy não o soltou; de todos os homens, era o único que não o temia – e em seguida para o rapaz, que já não era mais um garoto havia muito tempo.


Race estava abrindo o baú sobre o pneu traseiro e revirando seus pertences em busca de algo. – Vou falar sobre o quê? Clarke já era. O dinheiro também. Não há mais nada a fazer. Pelo menos não hoje. – Você precisa saber se Race também acha isso, e não tomar como certo que vocês dois sempre pensam a mesma coisa. Ele tem passado oitenta por cento do tempo puto com você. E digo mais, chefia: foi Race quem trouxe alguns desses caras e ficou colocando pilha, dizendo como iriam ficar ricos depois desse negócio com Clarke. Talvez ele não seja o único que precisa saber o que vai acontecer agora. Lemmy olhou de relance para os outros com um ar sugestivo. Vince reparou que eles não se encaminhavam para o restaurante. Estavam fazendo hora ao redor das motos, lançando olhares para eles. Esperando algo acontecer. Vince não queria conversar. Só de pensar já ficava exausto. Ultimamente, conversar com Race era como falar com as paredes e ele não estava com disposição para isso agora, não quando eles fugiamdo que estavam fugindo. Mesmo assim, foi até lá, pois Lemmy quase sempre tinha razão quando o assunto era a preservação da Tribo. Lemmy vinha protegendo a retaguarda de Vince desde que os dois se conheceram no delta do Mekong, naquela loucura do Vietnã. Na época, procuravam fios detonadores e bombas enterradas. Nos quase quarenta anos que se passaram, pouca coisa mudara. Vince se afastou da moto e foi até Race, que estava em pé entre sua Harley e um caminhão-tanque e tinha achado o que procurava dentro do baú traseiro da moto: uma garrafa cheia de um líquido que parecia chá, mas não era. Vinha bebendo cada vez mais cedo, outra coisa de que Vince não gostava. Tomou um gole, limpou a boca e estendeu a garrafa para Vince, que recusou. – Fala. – Se a gente pegar a Rodovia 6 – disse Race –, dá para chegar em Show Low daqui a três horas.

Quer dizer, isso se a sua charanga japa aguentar o tranco. – O que tem em Show Low? – A irmã do Clarke. – E por que você quer falar com ela? – Por causa da grana. Não sei se você reparou, mas a gente ficou de mãos abanando, sem os 60 mil. – E você acha que a irmã dele vai estar com a grana? – Já é um começo. – Em Vegas a gente fala sobre isso e pensa nas alternativas. – Que tal pensar nas alternativas agora? Você viu Clarke pendurado no telefone quando a gente chegou? Eu escutei um pedaço da conversa por trás da porta. Acho que ele não conseguiu falar com a irmã e deixou um recado com algum conhecido dela. Por que você acha que ele sentiu essa necessidade tão urgente de entrar em contato com aquela vadia assim que viu a gente se aproximar da casa? Para se despedir, era a teoria de Vince, mas ele não disse isso a Race. – Mas ela não tem nada a ver com essa história, certo? O que ela faz da vida? Fabrica cristal também? – Não. Ela é puta. – Que família, hein? – Olha quem fala. – Como assim? – questionou Vince. O que o incomodou nem foi tanto a frase com a ofensa velada, mas seu próprio reflexo nos óculos espelhados de Race: queimado de sol, com a barba inteiramente grisalha e um aspecto chupado, enrugado e velho. Race tornou a olhar para a estrada que cintilava no calor e não respondeu a pergunta: – Sessenta contos viraram fumaça, não tem como ignorar isso. – Eu não estou ignorando nada. Foi isso mesmo o que aconteceu. A grana virou fumaça. Race e Dean Clarke se conheceram em Fallujah – ou quem sabe em Tikrit. Clarke era oficial médico especializado em gerenciamento da dor e seu tratamento preferido era administrar drogas de alta qualidade acompanhadas por generosas doses de raps de Wyclef Jean. As especialidades de Race eram dirigir jipes e não levar tiro. Quando voltaram à vida civil, os dois continuaram amigos, e um ano antes Clarke procurara Race com a ideia de montar um laboratório de metanfetamina emSmith Lake. Calculou que 60 mil eram suficientes para começar a operação e que em pouquíssimo tempo estariam faturando essa quantia por mês. – Cristal de verdade – dissera Clarke para convencê-lo. – Nada daquela merda verde.

Só cristal de verdade. – Ele erguera a mão acima da cabeça para indicar uma imensa pilha de dinheiro. – O céu é o limite, sacou? Sacou. Vince agora achava que deveria ter pulado fora no minuto em que Clarke dissera aquilo. No mesmo segundo. Mas não fizera isso. Apesar das dúvidas, chegara a ajudar Race com 20 mil do próprio bolso. Clarke tinha pinta de vagabundo e era levemente parecido com Kurt Cobain: cabelos louros compridos, várias camisas, uma por cima da outra. Dizia sacou, chamava todo mundo de cara e explicava como as drogas venciam o poder opressivo da metamente – o que quer que isso fosse. Surpreendia e fascinava Race com seus dons intelectuais: peças de Sartre, fitas cassete comdeclamação de poemas e dubs de reggae. Vince não censurava Clarke por ser um intelectualoide cheio de ideias sobre a revolução espiritual, articuladas em uma linguagem imbecil meio inventada, parte viadagem, parte esperanto. O que o desconcertava era que, quando havia conhecido Clarke, ele já estava com a boca toda detonada pelo cristal: dentes caindo, gengivas manchadas. Vince não via problema em ganhar dinheiro com a droga, mas nutria uma desconfiança automática por qualquer desclassificado que a usasse. Mesmo assim, fez o adiantamento, pois queria que algo desse certo para Race, sobretudo depois da maneira como ele fora expulso do Exército. E, durante algum tempo, enquanto Race e Clarke combinavam os detalhes da operação, Vince quase se convencera de que poderia dar certo. Por um curto período, Race pareceu adquirir uma atitude segura, quase arrogante, e chegou até a comprar umcarro para a namorada, um Mustang de segunda mão, prevendo o enorme retorno que seu investimento iria gerar. Só que o laboratório de cristal pegou fogo. E tudo virou pó em apenas dez minutos no primeiro dia da operação. Os funcionários clandestinos fugiram pelas janelas e ainda zanzavam por perto, queimados e sujos de fuligem, quando os carros de bombeiros chegaram. A maioria agora estava detida na cadeia do condado. Race tomara conhecimento do incêndio não por Clarke, mas por Bobby Stone, outro amigo seu do Iraque, que tinha ido a Smith Lake comprar 10 mil dólares do lendário e verdadeiro cristal, mas dera meia-volta ao ver a fumaça e as luzes piscando. Tentara localizar Clarke pelo telefone, mas não conseguira encontrá-lo nem naquela tarde nem à noite. Às onze, a Tribo já estava atrás dele rumo ao leste. Tinham encontrado Dean Clarke em sua cabana nas montanhas, fazendo as malas para fugir. Ele disse que estava de saída para ir procurar Race e contar o que acontecera, para poderem bolar outro plano.

Garantiu que iria reembolsar o que devia a todos eles. Disse que o dinheiro por enquanto estava perdido, mas que havia oportunidades, planos de contingência. E que, porra, estava arrependido pra caralho. Apenas parte daquilo era verdade – sobretudo o fato de ele estar arrependido pra caralho –, mas nada foi surpresa para Vince, nem mesmo o choro de Clarke. O que o surpreendeu – o que surpreendeu todos eles – foi a namorada de Clarke escondida no banheiro, usando uma calcinha estampada com margaridas e um suéter de moletom com os dizeres GRÊMIO ESPORTIVO COLÉGIO CORMAN. Dezessete anos no máximo, doidaça de cristal. Ela empunhava um pequeno revólver calibre 22. Estava escutando quando Roy Klowes perguntou a Clarke se ela estava na área: – Se a piranha de Clarke pagar um boquete para cada um – bradou ele –, a gente reduz a dívida em200 pratas aqui mesmo. Roy tinha entrado no banheiro botando o pau para fora para dar uma mijada, mas a garota pensou que ele estivesse fazendo isso por outros motivos e atirou. A primeira bala passou longe e a segunda acertou o teto, porque a essa altura Roy já a apunhalava com o seu facão. – Tenho certeza de que ele perdeu parte do dinheiro – falou Race, de volta ao presente. – Pode até ter perdido metade do que a gente deu para ele. Mas se você acha que Dean Clarke investiu todos os 60 mil naquele trailer, não posso fazer nada para ajudar. – Talvez ele tenha mesmo guardado parte da grana. Não estou dizendo que você está errado. Só não entendo por que o dinheiro estaria com a irmã dele. Poderia muito bem estar dentro de um vidro de conserva enterrado em algum lugar no quintal. Não vou atormentar uma pobre de uma prostituta só por diversão. Agora, se a gente descobrir que ela ganhou um dinheiro de uma hora para outra, aí já é outra história. – Eu levei seis meses para montar essa operação. E não sou o único que tem muito em jogo. – Tá bom. Lá em Vegas a gente conversa sobre como resolver essa história. – Conversar não vai resolver nada. A gente tem que pegar a estrada.

Hoje a irmã dele está em Show Low, mas quando ela descobrir que aquela cabana lá nas montanhas ficou pintada de cima a baixo com o sangue do irmão e da namoradinha dele… – Fala baixo – censurou Vince. Lemmy os observava com os braços cruzados alguns metros à esquerda de Vince, mas pronto para intervir caso precisasse. Os outros estavam reunidos em grupos de dois ou três, desgrenhados e sujos da estrada, usando jaquetas de couro ou jeans decorados com o emblema do bando: uma caveira comum cocar indígena acima dos dizeres A Tribo – Viver na estrada, morrer na estrada . Eles sempre tinham sido a Tribo, embora nenhum deles fosse índio – com exceção de Peaches, que alegava ser meio cheroqui, isso quando não estava a fim de dizer que era meio espanhol ou meio inca. Segundo Doc, ele podia ser até meio esquimó e meio viking, mas continuaria sendo um total retardado. – O dinheiro já era – afirmou Vince. – Os seis meses também. Aceite isso. O filho continuou parado sem dizer nada, com os músculos do maxilar retesados. A mão direita que segurava a garrafa tinha os nós dos dedos brancos. Ao olhar para ele agora, a mente de Vince foi tomada de súbito por uma imagem de Race aos 6 anos, com o rosto tão encardido de poeira quanto agora, brincando no caminho de cascalho em frente à casa, montado em seu grande triciclo verde e imitando o barulho de um acelerador. Vince e Mary não conseguiam parar de rir, sobretudo da expressão intensa e contraída no rosto do menino, um guerreiro de jardim de infância sobre rodas. Não conseguia ver graça na situação agora, não duas horas depois de Race ter partido ao meio a cabeça de outro homem com uma pá. O garoto sempre fora rápido e tinha sido o primeiro a pegar Clarke quando ele tentara fugir em meio à confusão depois que a menina começou a atirar. Talvez não tivesse tido a intenção de matar. Race só o acertara uma vez. Vince abriu a boca para falar algo, mas não havia mais nada a dizer. Virou as costas e começou a andar em direção ao restaurante. Não tinha subido nem três degraus, porém, quando ouviu alguma coisa espatifar-se atrás de si. Voltou-se e viu que Race arremessara a garrafa contra a lateral do caminhão-tanque, no lugar exato em que Vince estivera apenas cinco segundos antes. Talvez tivesse atingido a sombra de Vince.

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