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A Trilogia Bartimaeus 2 – O Olho do Golem – Jonathan Stroud

Ao entardecer, as fogueiras dos acampamentos dos inimigos foram surgindo, uma a uma, em profusão superior à de qualquer outras noites. As luzes cintilavam como joias de fogo na tonalidade cinzenta das planícies, em tão grande número que mais parecia ter brotado da terra uma cidade encantada. Em contraste, dentro das nossas muralhas, as casas tinham as persianas fechadas, as luzes apagadas. Tivera lugar uma estranha inversão — a própria Praga estava escura e morta, enquanto os campos à sua volta brilhavam de vida. Pouco depois, o vento começou a amainar. Soprara do oeste com intensidade durante horas, avisando dos movimentos do invasor — o ruído das máquinas de cerco, os gritos das tropas e dos animais, os suspiros dos espíritos cativos, os cheiros das fórmulas encantatórias. Agora, desaparecia com incrível rapidez, mergulhando o ar no silêncio. Eu pairava alto por cima do mosteiro de Strahov, do lado de dentro das muralhas da magnífica cidade que construíra trezentos anos antes. As minhas asas duras deslocavam-se em movimentos fortes e lentos; os meus olhos perscrutavam os sete planos até o horizonte {1} . Não propiciava visões felizes. O grosso do exército britânico estava escondido por trás de Ocultações, mas as suas ondas de poder já atingiam a base da Colina do Castelo. As auras de um imenso contingente de espíritos mal se viam no escuro; a cada minuto, mais tremores fugazes nos planos assinalavam a chegada de novos batalhões. Grupos de soldados humanos moviam-se premeditadamente pelo solo escuro. No meio deles encontrava-se um aglomerado de enormes tendas brancas arredondadas fazendo lembrar ovos de rocas {*} , à volta das quais Escudos e outras fórmulas se estendiam com a densidade de teias de aranha {2} . Os seres humanos são extraordinariamente básicos. Os magos usam lentes de contato para ver os planos dois a três, mas a maior parte das pessoas vê o primeiro plano, e isso as tornam ignorantes em relação a todos os tipos de atividades mágicas. Por exemplo, neste preciso MOMENTO, é provável que algo invisível com montes de tentáculos esteja pairando atrás de suas costas. Ergui o olhar para o céu enegrecido. Era um aglomerado de nuvens negras em fúria, apresentando manchas amarelas ao poente. A uma altitude elevada e quase invisível na luz escassa, fiquei atento a seis pontos tênues que circulavam fora do alcance de uma Detonação. Avançavam sistematicamente para trás, inspecionando as muralhas uma última vez, verificando a força das nossas defesas. A propósito… tinha de fazer o mesmo. Na Porta de Strahov, o posto avançado mais remoto e vulnerável das muralhas, a torre fora levantada e fortalecida. As portas antigas tinham sido vedadas com feitiços triplos e uma imensidão de mecanismos de ativação, e as ameaçadoras ameias no alto da torre pululavam de sentinelas atentas. Pelo menos era essa a ideia.


Voei para a torre, cabeça de falcão, asas hirtas, escondido atrás da minha camada de tufos. Aterrei descalço, sem fazer qualquer ruído, num cume proeminente de pedra. Esperei pelo desafio rápido e brusco, a exibição vigorosa de prontidão imediata. Não aconteceu nada. Abandonei a minha Ocultação e esperei por alguma prova tardia e moderada de vigilância. Tossi sonoramente. O mesmo marasmo. Um Escudo brilhante protegia parte das ameias, e por trás dele escondiam-se cinco sentinelas {3} . O Escudo era bem acanhado, concebido para um soldado humano, ou três djinn, no máximo. Assim sendo, havia uma grande agitação. — Quer parar de empurrar? — Au! Cuidado com as garras, seu idiota! — Chega para lá. Olha, tenho o traseiro descoberto neste momento. Podem detectá-lo. — Pelo menos assim a batalha já estava no papo. — Controle essa asa! Quase me tirou um olho. — Nesse caso, muda para algo menor. Sugiro uma lombriga. — Se me der mais uma cotovelada… — A culpa não é minha. Foi aquele Bartimaeus que nos colocou aqui. Ele é um arro… Em suma, uma deplorável exibição de relaxo e incompetência, que me abstenho de reproduzir na íntegra. O guerreiro com cabeça de falcão encolheu as asas, avançou e despertou a atenção das sentinelas batendo rapidamente com as suas cabeças umas nas outras {4} . — E que tipo de serviço de sentinela chamam a isto? — proferi bruscamente. Não estava compaciência para bobagens; seis meses de serviço contínuo tinham desgastado a minha essência. —Agachados atrás de um Escudo, fazendo essa algazarra… Ordenei-lhes que ficassem de vigia. No meio dos patéticos balbucios, da agitação e do embaraço que se seguiram, o sapo levantou a mão.

— Por favor, Mr. Bartimaeus — disse ele —, de que serve vigiar? Os Ingleses estão por todo lado… céu e terra. E constou-nos que lá embaixo têm uma legião inteira de afrits. É verdade? Apontei o bico para o horizonte, de olhos semicerrados. — Provavelmente. O sapo soltou um gemido. — Mas nós não temos um único, não é? Desde que Phoebus o comprou. E constou-nos que têmmarids lá embaixo, mais do que um. E o chefe trouxe o seu Bordão… verdadeiramente poderoso. Destruiu Paris e Colônia. Isso é verdade? As penas da minha crista agitaram-se suavemente com a brisa. — Provavelmente. O sapo soltou um lamento. — Oh, mas isso é simplesmente medonho, não é? Agora é que é, não temos qualquer esperança. Toda a tarde os chamados foram abundantes e rápidos, e isso só pode querer dizer uma coisa. Eles vão atacar esta noite. De manhã estaremos todos mortos. Bem, ele não estava fazendo nenhum bem ao nosso moral, com aquele tipo de conversa {5} . Apoiei uma mão no seu ombro verrugoso. — Escute, filho… como se chama? — Nubbin, senhor. — Nubbin. Bem, não acredite em tudo o que ouve, Nubbin. O exército britânico é forte, claro. Na verdade, raramente vi mais fortes. Mas digamos que é.

Digamos que tem marids, legiões inteiras de afrits, e borlas às pencas. Digamos que todos eles vão cair em cima de nós esta noite, mesmo aqui, na Porta de Strahov. Bem, eles que venham. Nós temos truques para nos livrarmos deles. — Como por exemplo, senhor? — Truques que enviarão aqueles afrits e marids pelos ares. Truques que aprendemos todos no calor de uma dúzia de batalhas. Truques que significam uma doce palavra: sobrevivência. O sapo piscou-me os seus olhos bolbosos. — É a minha primeira batalha, senhor. Esbocei um gesto de impaciência. — Se isso falhar, segundo os djinn do Imperador, os magos dele estão trabalhando em algo. Uma última linha de defesa. Algum esquema mirabolante, sem dúvida. — Bati-lhe no ombro de uma forma varonil. — Sente-se melhor agora, filho? — Não, senhor. Sinto-me pior. Não admira. Nunca tive muito jeito para dar ânimo. — Pronto — resmunguei. — O meu conselho é abaixarem-se rapidamente e se possível fugirem. Com sorte, os vossos amos morrerão antes de vocês. Cá entre nós, é com o que estou contando. Espero que este discurso encorajador lhes servisse de alguma coisa, pois foi naquele momento que se deu o ataque. Ao longe, houve uma repercussão em todos os sete planos. Todos a sentimos: não foi mais do que uma afirmação de autoridade.

Virei-me para olhar para o escuro e, uma por uma, as cabeças das cinco sentinelas surgiram por cima das ameias. Nas planícies, o enorme exército pusera-se em movimento. À frente, pairando nas correntes ascendentes de um súbito vento feroz, vinham os djinn, trajados de vermelho e branco, transportando lanças esguias com pontas de prata. Suas asas zuniam, os seus gritos faziam estremecer a torre. Lá embaixo, a pé, uma multidão de espíritos: os borlas com os seus tridentes talhados em osso, saltando sobre as cabanas e casas do lado de fora das muralhas em busca de presa {6} . Ao lado deles, sombras vagas passavam rapidamente — ghuls e espectros, fantasmas de frio e infortúnio, insubstanciais em todos os planos. E a seguir, com um enorme ranger e agitar das mandíbulas, mil diabretes e foliots saindo da terra como uma tempestade de poeira ou um monstruoso enxame de abelhas. Todos estes e muitos outros dirigiam-se apressados para a Porta de Strahov. O sapo bateu-me no braço. — Ainda bem que nos deu uma palavrinha, senhor — disse. — Estou tremendamente confiante agora, graças ao senhor. Mal o ouvi. Olhava para longe, para lá da terrível hoste, para uma pequena elevação próximo das tendas brancas abobadadas. Encontrava-se nela um homem de pé, segurando um pau ou bordão. Estava muito distante para captar muitos pormenores, mas sentia sem dúvida o seu poder. A sua aura iluminava a colina à volta dele. Enquanto observava, vários raios caíram das nuvens agitadas, empalando-se na ponta do bordão estendido. A colina, as tendas, os soldados que aguardavam iluminaram-se por breves instantes, como se fosse dia. A luz apagou-se, a energia absorvida pelo bordão. Os trovões ribombaram sobre a cidade sitiada. — Com que então é ele, não é? — murmurei. — O famoso Gladstone. O s djinn aproximavam-se agora das muralhas, transpondo os baldios e os destroços dos edifícios recentemente desmantelados. Quando o fizeram, foi acionado um feitiço enterrado; jatos de fogo verde-azulado irromperam no ar, incinerando os que vinham na dianteira. Mas o fogo extinguiuse, e os restantes passaram.

Este era o sinal para os defensores agirem: cem diabretes e foliots saíram das muralhas, soltando minúsculos gritos e enviando Detonações em direção à horda voadora. Os invasores pagaram na mesma moeda. Infernos e Fluxos encontraram-se e misturaram-se na semi-obscuridade, sombras a saltarem e rodopiarem nos clarões de luz. Ao longe, as fronteiras de Praga estavam em chamas; os primeiros borlas aglomeravam-se por baixo de nós, tentando destruir as fortes fórmulas Aprisionadoras que eu usara para firmar os alicerces das muralhas. Estendi as minhas asas, pronto para entrar na refrega; ao meu lado, o sapo inchou a garganta e soltou um coaxo de desafio. No instante seguinte, partiu um raio de energia do bordão do mago lá ao longe na colina, descreveu um arco no céu e foi bater na torre da Porta de Strahov, bem por baixo das ameias. O nosso Escudo rompeu-se como um lenço de papel. Saltaram argamassa e pedra, o telhado da torre cedeu. Fui arremessado aos giros pelo ar… …e quase caí por terra, colidindo pesadamente com uma carroça de fardos de feno que fora puxada para o lado de dentro antes de começar o cerco. Por cima de mim, a estrutura de madeira da torre ardia. Não consegui ver nenhuma das sentinelas. Diabretes e djinn andavam confusamente às voltas lá em cima no céu, trocando acessos de magia. Caíam corpos do céu, incendiando os telhados. De casas próximas, saíam mulheres e crianças a correr e a gritar. A Porta de Strahov era sacudida pelas pancadas dos tridentes dos borlas. Não aguentaria muito tempo. Os defensores necessitavam da minha ajuda. Libertei-me do feno com a minha pressa habitual. — Depois de tirar o último pedaço de palha da tua tanga, Bartimaeus — disse uma voz —, a tua presença é solicitada no castelo. O guerreiro com cabeça de falcão ergueu o olhar. — Oh… olá, Queezle. Sentada no meio da rua, uma elegante leopardo-fêmea olhava para mim com olhos verde-lima. Enquanto eu observava, ela levantou-se negligentemente, deu alguns passos para o lado e voltou a sentar-se. Uma gota de piche em chamas bateu nas pedras onde momentos antes ela se encontrara, deixando uma cratera fumegante. — Quanta confusão! — comentou.

— Sim. Estamos acabados por aqui. — Saltei da carroça. — Parece que as fórmulas Aprisionadoras nas muralhas estão falhando — disse a leopardo, olhando para a porta que estremecia. — Vê-se mesmo que foi obra mal acabada. Gostaria de saber qual o djinni que a construiu. — Não faço ideia — respondi. — Bom, assim sendo… O nosso amo chama? A leopardo anuiu. — É melhor nos apressar, senão ele nos pontilha. Vamos a pé. O céu está muito apinhado. — Vá na frente. Metamorfoseei-me, tornei-me uma pantera, negra como a noite. Corremos pelas ruas estreitas em direção à Praça Hradcany. As ruas que tomamos encontravam-se vazias; evitamos os lugares onde as pessoas em pânico se agitavam como gado. Havia cada vez mais edifícios agora em chamas, madeiramentos a oscilar, paredes laterais a desabar. Pequenos diabretes dançavam em volta dos telhados, agitando brasas nas mãos. No castelo, havia criados imperiais na praça com lanternas tremulantes, reunindo móveis extraviados em carroças; ao lado deles, viam-se moços de estrebaria que se esforçavam para prender os cavalos aos postes. O céu por cima da cidade era salpicado por erupções de luz colorida; lá mais atrás, da direção de Strahov e do mosteiro, chegava o estampido monótono de explosões. Esgueiramo-nos pela entrada principal sem encontrar oposição. — O Imperador vai sair, é? — perguntei, arquejante. Passavam por nós diabretes frenéticos, equilibrando trouxas de pano na cabeça. — Ele está mais preocupado com as suas queridas aves — respondeu Queezle. — Quer que os nossos afrits as ponham a salvo. — Os olhos verdes brilharam na minha direção com pesarosa animação.

— Mas todos os afrits morreram. — Precisamente. Bem, quase todos. Tínhamos chegado à ala setentrional do castelo, onde os magos possuíam os seus aposentos. Eram bem visíveis os sinais de magia nas pedras. A leopardo e a pantera desceram apressados um longo lance de escadas, seguiram por uma varanda que dava para o Fosso do Veado, e atravessaram o arco que conduzia à Sala de Trabalho Inferior. Esta era uma amplo cômodo circular que ocupava quase todo o térreo da Torre Branca. Eu fora com frequência chamado aqui ao longo dos séculos, mas, agora, a habitual parafernália mágica — os livros, os potes de incenso, os candelabros — tinha sido afastada para criar espaço para uma fila de dez cadeiras e mesas. Havia uma bola de cristal emcada mesa, brilhando com luz; em cada cadeira, um mago curvado espreitava a respectiva bola. Reinava o silêncio absoluto na sala. O nosso amo estava de pé a uma janela, olhando por um telescópio para o céu escuro {7} . Percebeu nossa presença, esboçou um gesto a impor silêncio, depois chamou-nos a uma sala lateral. O seu cabelo grisalho ficara branco do esforço das últimas semanas; o seu nariz adunco pendia magro e macilento, e os seus olhos estavam vermelhos como os de um diabrete {8} . Coçou a parte de trás do pescoço. — Não precisam de me dizer — disse ele. — Eu sei. Quanto tempo nos resta? A pantera agitou a cauda. — Eu diria que temos uma hora, não mais. Queezle olhou na direção da sala principal, onde os magos silenciosos labutavam. — Estou vendo que vai libertar os golems — disse ela. O mago anuiu com secura. — Eles causarão grandes estragos ao inimigo. — Não será suficiente — aleguei. — Mesmo com dez. Viu o tamanho do exército lá fora? — Como sempre, Bartimaeus, a tua opinião é precipitada e inesperada.

Trata-se apenas de uma diversão. Tencionamos levar Sua Alteza pelas escadas do leste. Há um barco à espera no rio. Os golems cercarão o castelo e cobrirão a nossa retirada. Queezle continuava a olhar para os magos; estavam curvados sobre as suas bolas de cristal, proferindo contínuas instruções silenciosas às suas criaturas. Imagens tênues em movimento nas bolas mostravam a cada um o que o seu golem via. — Os Britânicos não se preocuparão com os monstros — afirmou Queezle. — Encontrarão estes operadores e os matarão. O meu amo mostrou os dentes. — Nessa altura, o Imperador terá partido. E isso, por sinal, é a minha nova ordem para vocês dois: proteger Sua Alteza durante a fuga. Entenderam? Ergui uma pata. O mago soltou um suspiro sentido. — Sim, Bartimaeus? — Bem, senhor — disse eu —, se me fosse permitida uma sugestão. Praga está cercada. Se tentarmos fugir da cidade com o Imperador, morreremos todos de forma horrível. Por que não esquecemos então, o totó, e nos mandamos daqui antes? Há uma pequena adega de cerveja na Rua Karlova com um poço seco. Não é fundo. A entrada é um pouco acanhada, mas… Ele carregou o cenho. — Espera que eu me esconda ali? — Bem, seria apertado, mas calculo que conseguimos enfiá-lo lá dentro. A sua pança poderia nos dar problemas, mas não é nada que um empurrão não resolva… Au! — O meu pelo crepitou; fiquei abruptamente no meio da frase. Como sempre, os Pontilhados Rubros faziam-me perder a corrente do pensamento. — Ao contrário de ti — replicou o mago —, conheço o significado de lealdade! Não preciso ser obrigado a agir de forma honrosa para com o meu amo. Repito: Ambos irão proteger a vida dele com as suas. Entenderam? Anuímos com relutância; enquanto tal, o solo estremeceu com uma explosão próxima.

— Então sigam-me — ordenou-nos ele. — Não há muito tempo. Voltamos a subir as escadas e atravessamos os corredores ecoantes do castelo. Clarões brilhantes iluminavam as janelas; gritos medonhos ecoavam a toda volta. O meu amo corria com suas pernas finas, arfando a cada passo; Queezle e eu galopávamos a seu lado. Acabamos por chegar ao terraço onde durante anos o Imperador mantivera o seu aviário. Era uma estrutura grande, delicadamente feita de bronze trabalhado, com cúpulas, minaretes, comedouros, e portas para o Imperador andar lá dentro. O interior estava cheio de árvores e arbustos envasados e uma extraordinária variedade de papagaios, cujos antepassados tinham sido trazidos para Praga de terras longínquas. O Imperador tinha se agarrado a estas aves; mais recentemente, à medida que o poder de Londres crescia e o Império lhe escapava das mãos, adquirira o hábito de se sentar durante longos períodos dentro do aviário, em comunhão com os seus amigos. Agora, com o céu noturno rasgado pelos confrontos mágicos, as aves estavam em pânico, esvoaçando em volta da gaiola numa agitação de penas, gritando a ponto de arrebentarem. O Imperador, um cavalheiro pequeno e balofo com calças de cetim e uma camisa branca amarrotada, encontrava-se em pouco melhor estado, protestando com os tratadores e ignorando os conselheiros que se aglomeravam à sua volta. O Ministro-Adjunto, Meyrink, pálido e de olhos tristes, puxava-o pela manga. — Alteza, por favor. Os Ingleses estão a avançar pela Colina do Castelo. Temos de vos pôr em segurança… — Não posso deixar o meu aviário! Onde estão os meus magos? Chamem-nos aqui! — Alteza, eles estão envolvidos na batalha… — Os meus afrits, nesse caso? O meu fiel Phoebus… — Alteza, conforme vos informei por diversas vezes… O meu amo abriu caminho com os ombros. — Alteza, apresento-vos Queezle e Bartimaeus, que nos ajudarão na nossa partida, depois salvarão também as vossas maravilhosas aves. — Dois felinos, homem? Dois felinos? — A boca do Imperador ficou toda branca e franzida {9} . Queezle e eu reviramos os olhos. Ela transformou-se numa garota de rara beleza; eu assumi a forma de Ptolomeu. — Agora, Alteza — disse o meu amo —, as escadas do leste… Grandes abalos na cidade; metade dos subúrbios estava agora a arder. Um pequeno diabrete entrou a rolar pelo parapeito ao fundo do terraço, a cauda em chamas. Imobilizou-se junto a nós. — Permissão para informar, senhor. Uma série de afrits selvagens está se dirigindo ao castelo. O ataque é encabeçado por Honorius e Patterknife, servos pessoais de Gladstone.

São muito terríveis, senhor. As nossas tropas desmembraram-se diante deles. — Fez uma pausa, olhou para a sua cauda fumegante. — Permissão para procurar água, senhor? — E os golems? — indagou Meyrink. O diabrete estremeceu. — S-s-sim, senhor. Eles acabaram de atacar o inimigo. Mantive-me bem longe da nuvem, claro, mas penso que os afrits ingleses terão recuado um pouco, em desordem. Agora, em relação à água… O Imperador soltou um grito chilreante. — Ótimo, ótimo! A vitória é nossa! — A vantagem é apenas temporária — advertiu Meyrink. — Venha, Alteza, temos que partir. Não obstante os seus protestos, o Imperador foi levado às pressas da gaiola em direção a uma porta de vime. Meyrink e o meu amo vinham à cabeça do grupo, o Imperador atrás, a sua estatura pequena escondida entre os cortesãos. Queezle e eu seguíamos na retaguarda. Um clarão de luz. Entraram duas figuras negras galgando o parapeito atrás de nós. Agitavam-se capas esfarrapadas em volta delas, olhos amarelos ardendo nas profundezas dos seus capuzes. Deslocaram-se pelo terraço em grandes saltos flutuantes, muito raramente tocando no solo. No aviário, as aves mergulharam num silêncio súbito. Olhei para Queezle. — Teus ou meus? A bela garota sorriu-me, mostrando dentes afiados. — Meus. — Ficou para trás afim de receber os ghuls que avançavam. Corri atrás da comitiva do Imperador. Para lá do portão, havia um caminho estreito que seguia pelo fosso do Norte, sob a muralha do castelo.

Lá embaixo, a Cidade Velha estava em chamas; conseguia ver as tropas britânicas a correr pelas ruas, e a população de Praga a tombar diante delas. Parecia tudo distante; o único som que chegava até nós era um suspiro ao longe. Bandos de diabretes vogavam para aqui e para ali como aves. O Imperador cessou os seus sonoros queixumes. O grupo atravessou silenciosamente a noite. Estávamos agora na Torre Negra, no alto das escadas do leste, e lá à frente o caminho encontrava-se livre. Um bater de asas; Queezle pousou ao meu lado, muito pálida. Estava ferida no flanco. — Problemas? — indaguei. — Não com os ghuls. Um afrit. Mas apareceu um golem… destruiu-o. Estou ótima. Continuamos a descer as escadas na vertente da colina. O clarão do castelo em chamas refletiase nas águas do Vltava lá embaixo, conferindo-lhe uma beleza melancólica. Não encontramos ninguém, ninguém veio atrás de nós, e não tardou que o pior do conflito ficasse para trás. Quando o rio ficou mais próximo, Queezle e eu trocamos olhares esperançosos. A cidade estava perdida, tal como o Império, mas a fuga iria permitir-nos uma pequena restituição do orgulho pessoal. Apesar de abominarmos a servidão, abominávamos igualmente ser derrotados. Parecia que íamos conseguir escapar. A emboscada deu-se quando estávamos quase no sopé da colina. Com uma corrida e uma investida, seis djinn e um bando de diabretes saltaram para os degraus de baixo. O Imperador e os seus cortesãos gritaram e caíram para trás na maior confusão. Queezle e eu ficamos tensos, prontos para saltar. Uma tosse ligeira atrás de nós.

Como um só, viramo-nos. Um homem jovem encontrava-se cinco degraus acima. Tinha caracóis louros cerrados, enormes olhos azuis e envergava sandálias e uma toga ao estilo dos finais do Império Romano. Revelava uma expressão bastante apatetada e tímida no rosto, como se não fizesse mal a uma mosca. No entanto, como pormenor extra que não pude deixar passar despercebido, trazia também uma monstruosa foice com uma lâmina de prata. Inspecionei-o nos outros planos, na tênue esperança de que pudesse realmente ser um humano excêntrico a caminho de um baile de máscaras. Não tive essa sorte. Era um afrit algo poderoso. Engoli em seco. Isto não era nada bom{10} . — Com os cumprimentos de Mr. Gladstone para o Imperador — disse o jovem. — Ele solicita o prazer da sua companhia. O resto de vocês, ralé, pode desaparecer. Parecia razoável. Olhei para o meu amo com ar suplicante, mas ele, furioso, fez-me sinal para que seguisse em frente. Suspirei e dei um passo relutante na direção do afrit. O jovem manifestou sonoramente o seu desdém. — Suma daqui, seu insignificante. Não tem chance. O escárnio dele aguçou a minha fúria. Empertiguei-me. — Cuidado — disse com frieza. — Subestima-me por tua conta e risco. O afrit piscou os olhos com manifesta falta de preocupação.

— Sério? Tem um nome? — Um nome? — insurgi-me. — Tenho muitos nomes! Sou Bartimaeus! Sou Sakhr al-Jinni! Sou N’gorso, o Poderoso e a Serpente de Plumas de Prata! Fiz uma pausa teatral. O jovem não se mostrou impressionado. — Ná. Nunca ouvi falar de você. Agora, se fizer o favor… — Falei com Salomão… — Oh, tenha dó! — O afrit esboçou um gesto de enfado. — Todos nós já não falamos? Sejamos sinceros, ele andou por todo o lado. — Reconstruí as muralhas de Uruk, Karnak e Praga… O jovem deu um sorriso afetado. — O quê? Estas aqui? Aquelas que Gladstone derrubou em cinco minutos? Tem certeza de que não trabalhou também em Jericó? — Sim, trabalhou — interveio Queezle. — Foi um dos seus primeiros trabalhos. Ele não gosta de fazer alarde, mas… — Olha, Queezle… O afrit empunhou a foice. — Última oportunidade, djinni — disse. — Chispa daqui. Desta vez não vai conseguir vencer. Encolhi os ombros com uma certa resignação. — Veremos. E assim, lamento dizer, fizemos. Muito rapidamente, também. As minhas primeiras quatro Detonações foram desviadas pela foice a rodopiar. A quinta, em que caprichara realmente, ricocheteou direto para mim, atirando-me com ímpeto para o caminho e colina abaixo numa dispersão de essência. Tentei levantar-me, mas deixei-me cair, em sofrimento. O meu ferimento era muito grande; não ia conseguir me recuperar a tempo. No caminho, os diabretes atacavam os cortesãos. Vi Queezle e um djinni corpulento passarem a rodopiar, as mãos nas gargantas um do outro. Com insultuosa descontração, o afrit desceu a vertente até mim.

Piscou o olho e ergueu a foice de prata. E naquele momento, o meu amo agiu. Diga-se de passagem que ele não tinha sido particularmente bom — gostava muito dos Pontilhados, para começar — mas do meu ponto de vista o seu último ato foi a melhor coisa que jamais fez. Os diabretes rodeavam-no por completo, saltando por cima da cabeça dele, passando entre as suas pernas, tentando chegar ao Imperador. Ele soltou um grito de fúria e retirou de um bolso do casaco um pau de Detonação, um dos novos, feito pelos alquimistas da Rua do Ouro em resposta à ameaça britânica. Eram artigos de má qualidade, produzidos em massa, com tendência a explodiremmuito depressa ou, na maioria das vezes, não explodirem de todo. Seja como for, era preferível, ao usá-los, atirá-los rapidamente na direção genérica do inimigo. Mas o meu amo era um mago típico. Não estava acostumado ao combate pessoal. Sim, proferiu a Palavra de Comando, mas depois começou a hesitar, segurando o pau acima da cabeça e fazendo fintas aos diabretes, como se não soubesse qual escolher. Hesitou uma fração de segundo a mais. A explosão destruiu metade das escadas. Diabretes, Imperador e cortesãos foram arremessados pelo ar como sementes de dentes-de-leão. O meu próprio amo desapareceu completamente, como se nunca tivesse existido. E com a sua morte, os elos que me prendiam desfizeram-se por completo. O afrit fez descer a lâmina da foice, exatamente onde estivera a minha cabeça. Aquela cravouse inutilmente no solo. Assim, após várias centenas de anos, e uma dúzia de amos, nada mais me prendia a Praga. Mas enquanto a minha essência grata se espalhava em todas as direções, e eu olhava para a cidade emchamas e as tropas em marcha, as crianças lamurientas e os diabretes aos gritos, as convulsões da morte de um império e o batismo sangrento do seguinte, devo dizer que não me sentia particularmente vitorioso. Tinha a sensação de que tudo iria se complicar bem mais. PRIMEIRA PARTE 1 Nathaniel Londres: uma capital grande e próspera com dois mil anos que, nas mãos dos magos, aspirava a ser o centro do mundo. Pelo menos conseguira-o no tamanho. Tornara-se imensa e desgraciosa, mercê dos opulentos festins do império. A cidade estendia-se por vários quilômetros de cada lado do Tamisa, uma crosta de habitações envoltas em fumaça, salpicada de palácios, torres, igrejas e bazares. Em todos os tempos e em todos os lugares, fervilhava de atividade.

As ruas estavam bloqueadas, cheias de turistas, operários e tráfego humano, enquanto o ar zumbia de forma invisível à passagem de diabretes encarregados dos recados dos seus amos. Nos cais apinhados que se estendiam até às águas cinzentas do Tamisa, batalhões de soldados e burocratas esperavam para partir em viagens pelo globo. Nas sombras dos seus couraçados, navios coloridos de todos os tamanhos e feitios venciam a afluência do rio. Carracas {*} atarefadas da Europa; dhows {**} árabes de velas pontiagudas, carregados de especiarias; pequenos juncos da China; elegantes veleiros de mastros finos da América — todos estavam cercados e bloqueados pelos minúsculos barcos fluviais dos marinheiros do Tamisa, que competiam sonoramente pelo costume de conduzi-los à doca. Dois corações alimentavam a metrópole. A leste ficava o distrito da City, onde comerciantes de terras distantes se reuniam para trocar os seus produtos; a oeste, acompanhando uma curva pronunciada do rio, ficava a área política de Westminster, onde os magos trabalhavam incessantemente para alargar e proteger os seus territórios no estrangeiro. O rapaz fora ao centro de Londres tratar de negócios; regressava agora a Westminster a pé. Caminhava a um ritmo descontraído, pois, apesar de ser ainda de manhãzinha, já estava quente, e sentia as gotas de suor por baixo do colarinho. Uma brisa ligeira agitava as extremidades do seu casaco preto comprido e sacudia-as atrás de si ao prosseguir. Estava consciente do efeito, que lhe agradava. Sombriamente impressionante, sem dúvida; sentia as cabeças virarem-se ao passar. Nos dias realmente ventosos, com o casaco a esvoaçar na horizontal, tinha a sensação de que não parecia tão elegante. Virou em Regent Street e seguiu por entre os edifícios da Regência {***} caiados de branco até Haymarket, onde os varredores de rua andavam ocupados com as vassouras e as escovas no exterior das fachadas dos teatros e jovens vendedores de fruta começavam já a exibir as suas mercadorias. Uma mulher amparava um tabuleiro empilhado até em cima com magníficas laranjas coloniais maduras, que escasseavam em Londres desde que tinham começado as guerras no Sul da Europa. O rapaz acercou-se; quando passou, arremessou habilidosamente uma moeda para a pequena taça que pendia do pescoço dela e, com um prolongamento do mesmo movimento, tirou uma laranja do alto do tabuleiro. Ignorando os agradecimentos dela, seguiu o seu caminho. Não abrandou o passo. O seu casaco seguia impressionantemente atrás dele. Em Trafalgar Square, fora recentemente erguida uma série de postes altos, cada um apresentando riscas de uma dúzia de cores em espiral; grupos de trabalhadores estavam naquele momento a içar cordas entre eles. Cada corda estava bastante carregada de alegres bandeiras vermelhas, brancas e azuis. O rapaz parou para descascar a laranja e apreciar o trabalho. Passou um operário, suando sob o peso de uma quantidade de panos de bandeira. O rapaz interpelou-o. — Você aí! Qual é a finalidade de tudo isto? O homem olhou de lado, reparou no casaco preto comprido do rapaz e esboçou de imediato uma continência desajeitada. Metade dos panos escorregou-lhe das mãos para a calçada.

— É para amanhã, senhor — disse ele. — O Dia do Fundador. Feriado nacional, senhor. — Ah, sim. Claro. O aniversário de Gladstone. Tinha me esquecido. — O rapaz atirou uma espiral de casca de laranja para a sarjeta e afastou-se, deixando o operário a apanhar os panos e a praguejar entre dentes. E seguiu então até Whitehall, uma zona de edifícios cinzentos imponentes, impregnados do odor do poder há muito instituído. Aqui, só a arquitetura era suficiente para levar à submissão qualquer observador fortuito: grandes colunas de mármore; portas de bronze imensas; centenas de janelas comluzes acesas a todas as horas; estátuas de granito de Gladstone e outros notáveis, os seus rostos carrancudos e sulcados prometendo os rigores da justiça a todos os inimigos do Estado. Mas o rapaz seguiu com passos ligeiros o seu caminho, descascando a laranja com a despreocupação de alguémnascido para aquilo. Baixou a cabeça a um policial, mostrou o seu passe-livre a um guarda e transpôs um portão lateral para o pátio do Ministério da Administração Interna, passou por baixo da sombra de uma extensa avelaneira. Só então parou, engoliu o resto da sua laranja, limpou as mãos no lenço e compôs o colarinho, os punhos e a gravata. Alisou o cabelo uma última vez. Ótimo. Agora estava pronto. Era hora de ir trabalhar. Tinham decorrido mais de dois anos desde a altura da rebelião de Simon Lovelace e a súbita entrada de Nathaniel para a elite. Estava agora com catorze anos, tinha uma cabeça de altura a mais do que quando devolvera o Amuleto de Samarcanda aos cuidados protetores de um Governo grato; mais encorpado também, mas ainda de estrutura franzina, com o cabelo escuro a pender longo e desgrenhado em volta do rosto, segundo a moda da época. O seu rosto era magro e pálido devido a longas horas de estudo, mas os seus olhos brilhavam intensos e vivos; todos os seus movimentos se caracterizavam por uma energia mal contida. Sendo um profundo observador, Nathaniel não tardara a aperceber-se de que entre os funcionários magos, o aspecto era um fator importante na manutenção do estatuto. O ar desleixado não era visto com bons olhos; na verdade, era uma marca indiscutível de talento medíocre. Não queria dar esta impressão. Com o estipêndio que recebia do seu serviço, comprara um terno preto de calças justas e um casaco italiano comprido, considerando ambos perigosamente na moda. Calçava sapatos elegantes, ligeiramente pontiagudos, e tinha uma série de lenços vistosos que lhe proporcionavam uma explosão de cor no peito.

Com esta roupa cuidadosamente vestida, percorria os claustros de Whitehall em passo célere e decidido, reminiscência de alguma ave pernalta, carregando molhos de papéis nos braços. Mantinha o seu nome próprio bem escondido. Era conhecido entre os seus colegas e sócios pelo seu nome de adulto, John Mandrake. Dois outros magos haviam usad

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