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A Trilogia de Nova York – Paul Auster

Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali. Bem mais tarde, quando ele já se sentia capaz de refletir sobre as coisas que lhe aconteceram, chegaria à conclusão de que nada era real a não ser o acaso. Mas isso foi muito depois. No início, havia apenas o fato e suas consequências. Se aquilo poderia ter um desfecho diferente ou se tudo já estava predeterminado desde a primeira palavra que saiu da boca do desconhecido não é o que está em questão. A questão é a história em si, e não cabe à história dizer se ela significa ou não alguma coisa. Quanto a Quinn, há pouca coisa para comentar. Quem era, de onde veio e o que fazia não têm muita importância. Sabemos, por exemplo, que tinha trinta e cinco anos de idade. Sabemos que já fora casado, havia sido pai e que sua esposa e seu filho haviam morrido. Sabemos também que era autor de livros. Para ser preciso, sabemos que escrevia romances de mistério. Três obras foram escritas com o nome de William Wilson e ele as concluía à razão de uma por ano, o que lhe rendia dinheiro bastante para viver modestamente em um pequeno apartamento de Nova York. Como não gastava mais do que cinco ou seis meses para escrever um romance, ficava livre o resto do ano para fazer o que bem entendesse. Lia muitos livros, ia a exposições de pintura, ia ao cinema. No verão, assistia aos jogos de beisebol na tevê; no inverno, ia à ópera. Mais do que tudo, porém, gostava de caminhar. Quase todo dia, com sol ou chuva, frio ou calor, saía do seu apartamento para andar pela cidade — nunca para ir a algum lugar determinado, mas simplesmente deixando-se levar por suas pernas. Nova York era um espaço inesgotável, um labirinto de caminhos intermináveis, e por mais longe que ele andasse, por melhor que conhecesse seus bairros e ruas, a cidade sempre o deixava com a sensação de estar perdido. Perdido não apenas na cidade, mas também dentro de si mesmo. Toda vez que saía para dar uma volta, tinha a sensação de que estava deixando a si mesmo para trás e, ao se entregar ao movimento das ruas, ao reduzir-se a um olhar observador, ele se descobria apto a fugir da obrigação de pensar, e isso, mais do que qualquer outra coisa, lhe trazia uma certa paz, um saudável vazio interior. O mundo estava fora dele, em volta, à frente, e a velocidade com que o mundo se modificava sem parar tornava impossível para Quinn deter-se em qualquer coisa por muito tempo. O movimento era a chave da questão, o ato de colocar um pé adiante do outro e se abandonar ao fluxo do próprio corpo. Ao caminhar sem rumo, todos os lugares se tornavam iguais e já não importava mais onde estava. Em suas melhores caminhadas, chegava a sentir que não estava em parte alguma.


E isso, afinal, era tudo o que sempre pedia das coisas: não estar em lugar nenhum. Nova York era o lugar nenhum que ele havia construído em torno de si mesmo, e Quinn se deu conta de que não tinha a menor intenção de um dia deixá-la outra vez. No passado, Quinn fora mais ambicioso. Quando jovem, publicara vários livros de poesia, escrevera peças teatrais, ensaios de crítica e trabalhara em algumas traduções extensas. Porém, de maneira um tanto repentina, desistira de tudo isso. Uma parte dele havia morrido, explicava aos amigos, e não queria que ela voltasse para assombrar sua vida. Foi nessa altura que adotou o nome de William Wilson. Quinn já não era mais aquela parte dele capaz de escrever livros e, embora de várias maneiras Quinn continuasse a existir, já não existia mais para ninguém senão para si mesmo. Continuou a escrever porque era a única coisa que se sentia capaz de fazer. Os romances de mistério pareciam uma solução razoável. Tinha pouco trabalho para inventar as histórias complicadas que o gênero exigia, e escrevia bem, muitas vezes a despeito da própria vontade, como se não tivesse de fazer nenhum esforço. Visto que não se considerava o autor daquilo que escrevia, ele mesmo não se sentia responsável pelos livros e portanto não era compelido a defendê-los em seu íntimo. William Wilson, afinal de contas, era uma invenção e, muito embora houvesse nascido dentro do próprio Quinn, tinha agora uma vida independente. Quinn o tratava com respeito, às vezes comadmiração, mas nunca chegava ao ponto de acreditar que ele e William Wilson fossem o mesmo homem. Era por essa razão que Quinn não se mostrava por trás da máscara do seu pseudônimo. Quinn tinha um agente literário, mas nunca se haviam encontrado. Seus contatos restringiam-se à correspondência e por isso Quinn havia alugado uma caixa postal na agência do correio. O mesmo era verdade para o seu editor, que pagava todos os adiantamentos, honorários e direitos autorais de Quinn por intermédio do agente. Nenhum livro de William Wilson continha uma foto ou uma biografia do autor. William Wilson não constava de nenhum catálogo de escritores, não dava entrevistas e todas as cartas que recebia eram respondidas pela secretária do seu agente. Até onde Quinn sabia, ninguém tinha conhecimento do seu segredo. No começo, quando os amigos souberamque ele havia desistido de escrever, perguntaram como pretendia ganhar a vida. Ele respondia sempre a mesma coisa: que havia herdado uma pensão da esposa. Mas a verdade é que sua mulher nunca tivera dinheiro. E a verdade era que ele já não tinha mais amigos.

Agora já haviam passado mais de cinco anos. Já não pensava muito no filho e só pouco tempo antes retirara a fotografia da mulher da parede. De tempos em tempos, sentia de repente como tinha sido segurar nos braços o menino de três anos — mas isso não era exatamente pensar, nem sequer era lembrar. Tratava-se de uma sensação física, uma marca impressa do passado que havia permanecido no seu corpo, e Quinn não tinha controle sobre ela. Esses momentos ocorriam com menos frequência, agora, e em geral parecia que as coisas haviam começado a mudar para ele. Não desejava mais estar morto. Ao mesmo tempo, não se pode dizer que estivesse contente por estar vivo. Mas pelo menos não se magoava com isso. Estava vivo, e a obstinação desse fato passara pouco a pouco a fasciná-lo — como se Quinn tivesse conseguido sobreviver a si mesmo, como se de algum modo estivesse vivendo uma vida póstuma. Já não dormia mais com a luz acesa e agora já fazia muitos meses que não se lembrava dos seus sonhos. Era noite. Quinn estava deitado na cama fumando um cigarro, ouvindo a chuva bater na janela. Imaginava quando é que ia parar de chover e se estava com vontade de fazer uma caminhada longa ou uma caminhada curta na manhã seguinte. Um exemplar das Viagens de Marco Polo repousava aberto, virado para baixo, no travesseiro ao seu lado. Desde quando terminara o último romance de William Wilson duas semanas atrás, vinha se sentindo abatido. Seu detetive particular e narrador, Max Work, tinha esclarecido uma complicada cadeia de crimes, havia levado muitas surras e várias vezes escapara por um fio, e Quinn sentia-se um tanto exaurido por suas façanhas. Ao longo dos anos, Work se tornara muito próximo de Quinn. Enquanto William Wilson permanecia uma figura abstrata para ele, Work cada vez mais adquiria vida. Na tríade de egos em que Quinn se transformara, Wilson servia como uma espécie de ventríloquo, o próprio Quinn era o boneco e Work era a voz animada que conferia um propósito àquela empresa. Se Wilson era de fato uma ilusão, justificava no entanto a vida dos outros dois. Se Wilson de fato não existia, era no entanto a ponte que permitia a Quinn passar de si mesmo para Work. E pouco a pouco Work se tornara uma presença na vida de Quinn, seu irmão interior, seu companheiro de solidão. Quinn pegou o livro de Marco Polo e começou a ler de novo a primeira página. “Vamos assinalar as coisas vistas como vistas, as ouvidas como ouvidas, de tal sorte que nosso livro possa representar um registro preciso, isento de qualquer tipo de invenção. E todos os que lerem este livro ou ouvirem sua leitura poderão fazê-lo com total confiança, porquanto ele nada contém senão a verdade.

” No instante em que Quinn começava a ponderar o sentido dessas frases, revirar na mente suas afirmações incisivas, o telefone tocou. Bem mais tarde, quando se sentiu capaz de reconstituir os acontecimentos daquela noite, Quinn se lembraria de ter olhado para o relógio, visto que passava da meia-noite e imaginado por que alguém telefonaria àquela hora. Com toda a certeza, pensou, era alguma notícia ruim. Saiu da cama, andou nu até o aparelho e pegou o fone no segundo toque. — Sim? Seguiu-se um longo silêncio no outro lado e, por um momento, Quinn achou que a pessoa havia desligado. Então, como se estivesse muito distante, veio o som de uma voz diferente de qualquer outra que ele já tinha ouvido. Era, a um só tempo, mecânica e repleta de sentimento, pouco mais do que um sussurro e contudo perfeitamente audível, de uma entonação tão monocórdia que ele se viu incapaz de dizer se pertencia a uma mulher ou a um homem. — Alô? — disse a voz. — Quem fala? — perguntou Quinn. — Alô? — repetiu a voz. — Estou ouvindo — disse Quinn. — Quem é? — É o Paul Auster? — perguntou a voz. — Eu queria falar com o senhor Paul Auster. — Não tem ninguém aqui com esse nome. — Paul Auster. Da Agência de Detetives Auster. — Lamento — disse Quinn. — É engano. — É um assunto de máxima urgência — insistiu a voz. — Não posso fazer nada por você — respondeu Quinn. — Não tem nenhum Paul Auster aqui. — O senhor não está entendendo — disse a voz. — O tempo está se esgotando. — Nesse caso, sugiro que telefone outra vez. Aqui não é uma agência de detetives.

Quinn desligou o telefone. Ficou ali de pé no chão frio, olhando para os pés, os joelhos, o pênis flácido. Por um instante, lamentou ter se mostrado tão seco com a pessoa no telefone. Podia ser interessante brincar um pouco, pensou. Talvez pudesse ter descoberto alguma coisa acerca do caso — talvez pudesse até ter ajudado de algum modo. “Preciso aprender a raciocinar mais depressa”, disse para si mesmo. A exemplo da maioria das pessoas, Quinn não sabia quase nada sobre crimes. Nunca havia assassinado ninguém, nunca roubara nada e não conhecia ninguém que tivesse feito isso. Nunca estivera em uma delegacia de polícia, nunca conhecera um detetive particular, nunca conversara com um criminoso. Tudo o que sabia a respeito dessas coisas aprendera em livros, filmes e jornais. Entretanto não considerava que isso representasse uma desvantagem. Para Quinn, o que interessava nas histórias que escrevia não era a sua relação com o mundo, mas a sua relação com as outras histórias. Ainda antes de se transformar em William Wilson, Quinn fora um fanático leitor de romances de mistério. Sabia que, na sua maior parte, eram livros mal escritos, que a maioria não resistiria sequer ao exame mais superficial, mesmo assim era a sua forma que o seduzia e ele só se recusava a ler no caso raro de um livro de mistério indescritivelmente ruim. Enquanto seu gosto para outros livros era rigoroso, exigente ao ponto de se mostrar estreito, em relação aos romances de mistério Quinn não demonstrava quase nenhum discernimento. Quando se achava no estado de ânimo apropriado, não tinha problema para ler dez ou doze deles seguidos. Era uma espécie de fome que se apoderava de Quinn, uma voracidade por um tipo especial de alimento, e ele não parava até que estivesse entupido. O que gostava nesses livros era o seu sentido de plenitude e economia. No bom livro de mistério, nada é desperdiçado, nenhuma frase, nenhuma palavra que não seja significativa. E ainda que não seja significativa, ela tem o potencial para isso — o que no final dá no mesmo. O mundo do romance se torna vivo, ferve de possibilidades, com segredos e contradições. Uma vez que tudo o que é visto ou falado, mesmo a coisa mais ligeira e trivial, pode guardar alguma relação com o desfecho da história, nada deve ser negligenciado. Tudo se torna essência; o centro do livro se desloca a cada acontecimento que impele a história para a frente. O centro, portanto, está em toda parte e nenhuma circunferência pode ser traçada antes que o livro chegue ao fim. O detetive é quem olha, quem ouve, quem se movimenta nesse atoleiro de objetos e fatos, embusca do pensamento, da ideia que fará todas essas coisas se encaixarem e ganharem sentido.

Comefeito, o leitor e o detetive são permutáveis. O leitor vê o mundo através dos olhos do detetive, experimentando a proliferação dos detalhes desse mundo como se o visse pela primeira vez. O leitor desperta para as coisas à sua volta como se elas pudessem falar com ele, como se, em virtude da atenção que agora lhes dedica, elas passassem a ter algum outro significado além do simples fato de existir. Detetive particular, private eye. A expressão em inglês tinha um significado triplo para Quinn. Não era apenas a pronúncia que corresponde à letra “i”, em eye, indicando a palavra “investigador”, era também o “I” maiúsculo, “Eu”, a pequenina vida em botão enterrada no corpo de um eu vivo. Ao mesmo tempo, era o olho físico do escritor, o olho do homem que volta sua atenção para o mundo e quer que o mundo se revele diante dele. Havia cinco anos, agora, Quinn vivia sob o jugo desse trocadilho. Tinha, é claro, muito tempo atrás, parado de pensar em si mesmo como uma pessoa real. Se ele agora, por pouco que fosse, vivia no mundo, o fazia somente à distância, por intermédio da figura imaginária de Max Work. Seu detetive tinha necessariamente de ser real. A natureza dos livros exigia isso. Enquanto Quinn se havia permitido apagar-se, retirar-se para os confins de uma vida estranha e hermética, Work por sua vez continuava a viver no mundo dos outros, e quanto mais Quinn parecia se apagar, mais persistente se tornava a presença de Work neste mundo. Enquanto Quinn tendia a sentirse deslocado dentro da própria pele, Work se mostrava agressivo, eloquente, muito à vontade em qualquer lugar onde fosse parar. As mesmas coisas que causavam problemas para Quinn não traziam a menor dificuldade para Work, e ele atravessava a pancadaria das suas aventuras com uma naturalidade e uma indiferença que nunca deixavam de impressionar o seu criador. Não era exatamente que Quinn desejasse ser Work, nem mesmo ser igual a ele, mas o reconfortava fingir que era Work enquanto escrevia seus livros, saber que trazia dentro de si a possibilidade de ser Work, se um dia assim escolhesse, ainda que fosse apenas na sua mente. Naquela noite, quando afinal se dispôs a dormir, Quinn tentou imaginar o que Work teria dito para o desconhecido ao telefone. No sonho, que mais tarde esqueceu, Quinn se viu sozinho em umquarto, disparando uma pistola na direção de uma parede branca e nua. Na noite seguinte, Quinn foi apanhado desprevenido. Pensou que o incidente estivesse encerrado e não esperava que o desconhecido ligasse de novo. Aconteceu que estava sentado na privada, em pleno ato de cagar, quando o telefone tocou. Foi um pouco mais tarde do que na noite anterior, talvez dez ou doze minutos para a uma hora. Quinn havia acabado de chegar ao capítulo que relata a viagem de Marco Polo de Pequim para Amoy, e o livro estava aberto no seu colo enquanto ele executava sua função no minúsculo banheiro. O toque da campainha do telefone era uma tremenda chatice. Atender depressa significaria levantar sem se limpar, e Quinn se opunha a sair andando pelo apartamento nessas condições.

Por outro lado, se terminasse o que estava fazendo em seu ritmo normal, não conseguiria atender o telefone a tempo. Apesar disso, Quinn relutou em se mexer. O telefone não era o seu objeto favorito e mais de uma vez já tinha pensado em se livrar dele. O que mais aborrecia Quinn com relação ao telefone era a sua tirania. Não só tinha o poder de o interromper contra a sua vontade como também, de forma inevitável, Quinn acabava se submetendo à autoridade do aparelho. Dessa vez, decidiu resistir. No terceiro toque, seus intestinos estavam vazios. No quarto toque, ele conseguira se limpar. No quinto toque, já tinha levantado as calças, saído do banheiro e caminhava tranquilamente para o outro lado do apartamento. Atendeu o telefone no sexto toque, mas não havia ninguém do outro lado da linha. A pessoa tinha desligado. Na noite seguinte, ele estava pronto. Deitado à vontade na cama, esquadrinhando as páginas de The Sporting News, esperava que o desconhecido telefonasse pela terceira vez. A intervalos, quando os nervos tomavam conta dele, Quinn ficava de pé e andava para lá e para cá pelo apartamento. Punha um disco para tocar — a ópera de Haydn Il Mondo della Luna — e ouvia do início ao fim. Esperando o tempo todo. Às duas e meia, enfim, desistiu e foi dormir. Esperou na noite seguinte, e na outra também. Quando estava prestes a desistir do seu plano, admitindo que todas as suas suposições estavam erradas, o telefone tocou de novo. Era o dia 19 de maio. Ele se lembrava da data porque era aniversário de casamento dos pais — ou seria, caso os pais estivessem vivos — e sua mãe uma vez lhe disse que ele fora concebido na noite do casamento. Esse fato sempre o fascinara — ser capaz de determinar exatamente o primeiro momento da sua existência —, e ao longo dos anos Quinn, em segredo, havia comemorado seu aniversário nesse dia. Dessa vez foi um pouco mais cedo do que nas duas noites precedentes — ainda não eram onze horas — e, quando levou a mão ao telefone, Quinn pensou que era outra pessoa. — Alô? — disse ele. De novo, houve um silêncio do outro lado.

Quinn soube no mesmo instante que era o desconhecido. — Alô? — repetiu. — O que posso fazer por você? — Sim — respondeu a voz, afinal. O mesmo sussurro mecânico, o mesmo tom desesperado. —Sim. É necessário agora. Sem demora. — O que é necessário? — Falar. Neste instante. Falar neste instante. Sim. — E com quem deseja falar? — Sempre o mesmo homem. Auster. Aquele que chama a si mesmo Paul Auster. Dessa vez Quinn não hesitou. Sabia o que ia fazer e, agora que a hora havia chegado, ele fez. — Pois não — disse Quinn. — É Auster quem está falando. — Enfim. Enfim encontrei você. — Dava para ouvir o alívio na voz, a serenidade tangível que de repente pareceu dominá-la. — É verdade — disse Quinn. — Enfim. — Fez uma pausa para deixar que as palavras penetrassem mais fundo, tanto em si mesmo como no outro. — O que posso fazer para ajudá-lo? — Preciso de ajuda — respondeu a voz.

— Há um grande perigo. Dizem que você é o melhor para cuidar dessas coisas. — Depende de que coisas está falando. — Estou falando de morte. Estou falando de morte e assassinato. — Não é exatamente o meu ramo — disse Quinn. — Não saio por aí matando pessoas. — Não — retrucou a voz com impaciência. — É o contrário. — Alguém vai matar você? — Sim, me matar. Isso mesmo. Vou ser assassinado. — E quer que eu o proteja? — Proteger-me, sim. E encontrar o homem que quer me matar. — Não sabe quem é ele? — Sei, sim. É claro que sei. Mas não sei onde está. — Pode falar mais a respeito disso? — Não agora. Não pelo telefone. Há um grande perigo. Você precisa vir aqui. — Que tal amanhã? — Certo. Amanhã. Amanhã cedo. De manhã.

— Dez horas? — Certo. Dez horas. — A voz deu um endereço na rua 69 Leste. — Não esqueça, senhor Auster. O senhor precisa vir. — Não se preocupe — respondeu Quinn. — Estarei lá. 2. Na manhã seguinte, Quinn acordou mais cedo do que vinha fazendo havia muitas semanas. Enquanto tomava café, passava manteiga no pão e dava uma olhada no placar das partidas de beisebol no jornal (o Mets tinha perdido de novo, dois a um, por um erro no nono turno), não lhe ocorreu que ia comparecer ao seu encontro marcado. Até mesmo essa expressão, seu encontro marcado, lhe parecia estranha. Não era seu o encontro, era de Paul Auster. E não tinha a menor ideia de quem fosse essa pessoa. No entanto, à medida que o tempo corria, Quinn se viu fazendo uma boa imitação de um homemque se prepara para sair de casa. Tirou da mesa a louça do café da manhã, jogou o jornal no sofá, entrou no banheiro, tomou banho, fez a barba, foi para o quarto enrolado em duas toalhas, abriu o armário e escolheu as roupas que ia vestir naquele dia. Sentiu vontade de usar paletó e gravata. Quinn não usava gravata desde o enterro da esposa e do filho, e não conseguia nem lembrar se ainda tinha uma. Mas lá estava ela, pendurada no meio dos destroços do seu guarda-roupa. Desistiu, no entanto, de uma camisa branca por parecer formal demais e, em lugar disso, escolheu uma de tecido xadrez, vermelho e cinzento, para combinar com a gravata cinzenta. Vestiu-se em uma espécie de transe. Só quando já estava com a mão na maçaneta da porta, Quinn começou a suspeitar do que estava fazendo. “Parece que estou saindo de casa”, falou para si mesmo. “Mas se estou saindo, para onde exatamente estou indo?” Uma hora depois, quando saltava do ônibus número 4 na esquina da rua 70 com a Quinta Avenida, Quinn ainda não havia respondido a essa pergunta. De um lado estava o parque, verdejante ao sol da manhã, com sombras aguçadas e fugidias; do outro lado estava o Frick, branco e severo, como se tivesse sido abandonado para os mortos. Quinn pensou um momento no quadro de Vermeer Soldado e menina sorrindo, tentou recordar a expressão do rosto da menina, a posição exata das suas mãos em torno da xícara, as costas vermelhas do homem sem rosto.

Em sua mente, Quinn teve um vislumbre do mapa azul na parede e da luz do sol se derramando através da janela, muito semelhante à luz do sol que o envolvia naquele momento. Ele estava caminhando. Atravessando a rua e seguindo para o leste. Na avenida Madison, virou para a direita e seguiu para o sul ao longo de um quarteirão, depois dobrou à esquerda e viu onde estava. “Parece que cheguei”, disse para si mesmo. Ficou de pé diante do edifício e aguardou um instante. De repente, já não parecia mais importar. Sentiu uma serenidade extraordinária, como se tudo já tivesse acontecido com ele. Quando abriu a porta que o levaria para o saguão, Quinn dirigiu a si mesmo um último conselho. “Se isto está de fato acontecendo”, disse ele, “então é melhor ficar de olhos bem abertos.” Foi uma mulher que abriu a porta do apartamento. Por alguma razão, Quinn não estava esperando por isso e ficou desconcertado. As coisas já estavam acontecendo depressa demais. Antes que tivesse uma chance de assimilar a presença da mulher, uma chance de descrevê-la para si mesmo e dar forma a suas impressões, ela já estava falando com Quinn, obrigando-o a responder. Portanto, já nesses primeiros momentos, ele havia perdido terreno, começava a ser deixado para trás. Mais tarde, quando teve tempo para refletir sobre esses acontecimentos, Quinn conseguiria reconstituir seu encontro com a mulher. Mas isso era o trabalho da memória, e coisas lembradas, ele sabia, tinham a tendência de subverter as coisas lembradas. Em consequência, ele nunca conseguiu ter certeza de nada disso. A mulher tinha uns trinta e poucos anos, talvez trinta e cinco; altura média, no máximo; quadris um pouquinho largos, ou voluptuosos, dependendo do ponto de vista; cabelo escuro, olhos escuros e, nos olhos, uma expressão ao mesmo tempo reservada e vagamente sedutora. Usava um vestido preto e um batom muito vermelho. — Senhor Auster? — Um sorriso hesitante; um indagador meneio da cabeça. — Perfeitamente — respondeu Quinn. — Paul Auster. — Sou Virginia Stillman — começou a mulher. — Esposa de Peter.

Ele está à espera do senhor desde as oito horas. — O encontro foi marcado para as dez — disse Quinn, dando uma rápida olhada no relógio de pulso. Eram exatamente dez horas. — Ele anda muito agitado — explicou a mulher. — Nunca o vi assim antes. Mal consegue esperar. A mulher abriu a porta para Quinn. Quando atravessou a soleira e entrou no apartamento, pôde sentir-se ficando vazio, como se de repente o seu cérebro tivesse desligado. Quinn pretendia guardar os detalhes do que estava vendo, mas essa tarefa de algum modo se revelou acima de suas possibilidades no momento. O apartamento assomou à sua volta como uma espécie de borrão. Percebeu que era amplo, talvez uns cinco ou seis quartos, e que estava suntuosamente mobiliado, comnumerosas obras de arte, cinzeiros de prata e quadros com molduras requintadas nas paredes. Mas isso foi tudo. Nada mais do que uma impressão geral — muito embora Quinn estivesse ali, olhando todas essas coisas com os próprios olhos. Viu-se sentado em um sofá, sozinho na sala. Lembrou-se agora de que a senhora Stillman lhe dissera para esperar ali enquanto ela ia chamar o marido. Quinn não seria capaz de dizer quanto tempo passara. Sem dúvida, não mais do que um ou dois minutos. Mas a julgar pelo modo como a luz entrava pelas janelas, já parecia ser quase meio-dia. Entretanto não lhe ocorreu olhar seu relógio. O aroma do perfume de Virginia Stillman pairava em torno dele e Quinn pôs-se a imaginar como ela seria sem roupa nenhuma. Em seguida, pensou no que Max Work estaria pensando caso estivesse ali. Resolveu acender um cigarro. Soprou a fumaça no ar da sala. Agradou-o ver a fumaça sair da boca em lufadas, dispersar-se e assumir novos contornos conforme a luz a atingia. Ouviu o barulho de alguém entrando na sala atrás dele.

Quinn se pôs de pé e virou-se, esperando ver a senhora Stillman. Em vez disso, era um jovem, todo vestido de branco, com o cabelo louro e claro como o de uma criança. De forma insólita, Quinn, num primeiro momento, pensou emseu próprio filho morto. Depois, da mesma forma repentina com que tinha surgido, o pensamento se apagou. Peter Stillman avançou pela sala e sentou-se em uma poltrona de veludo vermelho diante de Quinn. Não disse uma palavra no trajeto até a poltrona, tampouco deu sinal de notar a presença de Quinn. O ato de se deslocar de um ponto para o outro parecia requerer toda a sua atenção, como se não pensar naquilo que estava fazendo fosse reduzi-lo à imobilidade. Quinn nunca tinha visto ninguém andar desse jeito e no mesmo instante se deu conta de que era a mesma pessoa que havia falado pelo telefone. O corpo agia quase exatamente igual à voz: mecânico, espasmódico, alternando movimentos lentos e rápidos, severo mas expressivo, como se o funcionamento estivesse fora de controle, sem corresponder muito bem à vontade que se encontrava atrás dele. Parecia que o corpo de Stillman não havia sido usado por muito tempo e todas as suas funções tiveram de ser reaprendidas, desse modo mover-se se tornara um processo consciente, cada movimento era desmembrado em seus submovimentos constituintes, resultando daí que todo fluxo e espontaneidade acabavam se perdendo. Era como olhar uma marionete tentando andar sem os cordões. Tudo em Peter Stillman era branco. Camisa branca, aberta no pescoço; calça branca, sapato branco, meia branca. Contra a palidez da sua pele, a finura de linho do seu cabelo, o efeito era quase de transparência, como se fosse possível ver as veias azuis através da pele do seu rosto. Esse azul era quase o mesmo dos olhos: um azul leitoso que parecia dissolver-se em uma mistura de céu e nuvens. Quinn não conseguia imaginar-se dirigindo a palavra a essa pessoa. Era como se a presença de Stillman representasse uma ordem para ficar calado. Stillman se acomodou lentamente na poltrona e por fim voltou a atenção para Quinn. Quando seus olhos se encontraram, Quinn teve de repente a sensação de que Stillman tinha ficado invisível. Podia vê-lo sentado na poltrona a sua frente mas ao mesmo tempo tinha a impressão de que não estava ali. Passou pela sua cabeça que talvez Stillman fosse cego. Mas não, isso não parecia possível. O homem estava olhando para ele, na verdade o examinava com atenção e, se não se via a menor centelha de um reconhecimento no seu rosto, ainda assim havia algo mais do que um olhar apagado. Quinn não sabia o que fazer. Ficou ali parado, mudo, no sofá, olhando de volta para Stillman.

Passou um longo tempo. — Sem perguntas, por favor — disse o jovem, afinal. — Sim. Não. Obrigado. — Fez uma pausa. — Sou Peter Stillman. Estou falando por minha livre e espontânea vontade. Sim. Este não é o meu nome verdadeiro. Não. É claro, minha mente não é tão boa como deveria ser. Mas nada se pode fazer a respeito. Não. A respeito disso. Não, não. Nunca mais. “Você fica aí sentado e pensa assim: quem é esse sujeito que está falando comigo? O que são essas palavras saindo da sua boca? Vou lhe explicar. Ou então não vou explicar. Sim e não. Minha mente não é tão boa como deveria ser. Estou falando por minha livre e espontânea vontade. Mas vou tentar. Sim e não. Vou tentar explicar a você, mesmo que minha mente torne tudo difícil.

Obrigado. “Meu nome é Peter Stillman. Talvez tenha ouvido falar de mim, mas provavelmente não ouviu. Não importa. Este não é o meu nome verdadeiro. Não consigo lembrar o meu nome verdadeiro. Me desculpe. Não que isso tenha importância. Quer dizer, agora já não tem mais. “Isso é o que se chama falar. Creio que o termo é este. Quando as palavras saem, voam no ar, vivem por um instante, e morrem. Esquisito, não é? Eu mesmo não tenho nenhuma opinião. Não e não de novo. Mas mesmo assim existem palavras das quais a gente vai precisar. Existem muitas delas. Muitos milhões, eu acho. Talvez apenas três ou quatro. Me desculpe. Mas hoje estou me sentindo bem. Muito melhor do que de hábito. Se eu conseguir lhe dar as palavras de que você precisa, será uma grande vitória. Obrigado. Um milhão de vezes, obrigado. “Muito tempo atrás, havia mãe e pai.

Não me lembro de nenhum deles. Dizem: a mãe morreu. Quem são, não sei dizer. Me desculpe. Mas é isso que dizem. “Sem mãe, portanto. Ha, ha. Esta é a minha risada agora, este sacudir de mentirinha a barriga. Ha, ha, ha. O grande pai disse: não faz diferença. Para mim. Quer dizer, para ele. O grande pai, dos músculos grandes, e o estouro, bum, bum, bum. Sem perguntas agora, por favor. “Digo o que disseram, porque não sei nada. Sou apenas o pobre coitado do Peter Stillman, o garoto que não consegue lembrar. Buu, buu. Sem pé nem cabeça. O bobalhão. Me desculpe. Eles dizem, dizem. Mas o que o coitado do Peter diz? Nada, nada. Nunca mais. “Havia isso. Escuro.

Muito escuro. Escuro, mas muito escuro mesmo. Dizem: esse era o quarto. Como se eu pudesse falar a respeito. O escuro, quer dizer. Obrigado. “Escuro, escuro. Dizem há nove anos. Nem uma janela. Pobre Peter Stillman. E bum, bum, bum. Os montes de cocô. Os lagos de xixi. Os desmaios. Me desculpe. Tonto e nu. Me desculpe. Obrigado. “Havia, então, o escuro. Estou contando a você. Tinha comida no escuro, sim, mingau no quarto escuro e silencioso. Ele comia com as mãos. Me desculpe. Quer dizer, Peter comia. E se sou Peter, tanto melhor.

Quer dizer, tanto pior. Me desculpe. Sou Peter Stillman. Este não é o meu nome verdadeiro. Obrigado. “Pobre Peter Stillman. Era um garotinho. Mal conhecia algumas poucas palavras. E depois sempalavras, e depois nenhuma palavra, e depois não, não, não. Nunca mais. “Me desculpe, senhor Auster. Vejo que estou deixando o senhor triste. Sem perguntas, por favor. Meu nome é Peter Stillman. Este não é o meu nome verdadeiro. Meu nome verdadeiro é senhor Triste. Qual é o seu nome, senhor Auster? Talvez o senhor seja o verdadeiro senhor Triste e eu não seja ninguém. “Buu, buu. Me desculpe. Este é o meu choro e o meu soluço. Buu, buu, snif, snif. O que fez Peter naquele quarto? Ninguém sabe dizer. Alguns não dizem nada. Quanto a mim, acho que Peter não podia pensar. Ele comeu? Ele bebeu? Ele fedeu? Ha, ha, ha.

Me desculpe. Às vezes sou muito gozado.

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