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A Triologia – Roberto Axe

Desceu a Alameda do Arvoredo como fazia sempre naqueles dias. Naquele horário, cedo da manhã, apenas o compasso de sua corrida matinal podia ser ouvido por onde passava. A batida ruidosa de seus tênis sobre o solo às vezes irregular, às vezes empoeirado das estradinhas singelas e dorminhocas da pequena cidadezinha era entrecortada pelo canto longínquo dos galos. Renato adorava correr naquele horário, sentia o cheiro orvalhado das árvores e do aroma manso exalado por aquele mato indolente e serenamente alheio. Impressionava-se com o sossego desta cidade. Rio Cercado. A impressão que tinha era de que tudo dormia, aguardando o estalar das batidas ritmadas de seus pés, como se estas anunciassem que o Sol já espreitava por detrás dos imensos montes que mais pareciam muralhas a cercar o pequeno burgo. A manhã fria lá fora já começava a contrastar com a realidade ‘intramuros’ de seu training. Todos os dias, quando chegava perto da pequena igreja, já estava transpirando o suficiente para sentir um entusiasmo tímido no tocante ao que julgava ser umincômodo excesso de peso. Além do mais, já passara dos quarenta, e a decisão de mudar-se para aquela pacata cidade havia sido, julgava ele, a decisão mais acertada para botar sua saúde e situação financeira em ordem. Longe de tudo e todos, poderia dedicar-se finalmente a sua grande paixão: a Literatura. Queria escrever, sentia-se um escritor pronto, maduro. Um escritor, pensava, precisa amadurecer, precisa debruçar-se sobre sua própria vida e a dos outros, num exercício contínuo de observação, ruminação, preparação, enfim, um agente invisível das coisas visíveis. Sempre disfarçado de si mesmo e ao mesmo tempo, disfarçando o ‘si mesmo’ que nem ele conseguia compreender. Naqueles dias, Renato achava tudo um pouco complicado; afastado para melhor observar a vida, esta ‘matéria’ com que o artista molda sua obra, não conseguia ver nada. Talvez mesmo, tivesse errado seus cálculos; quem sabe deveria ficar mais tempo envolto em seus próprios problemas, que já não eram poucos, e retirar dali sua matéria-prima? A verdade é que estava enojado de tanto se perder e se achar(?) como um cachorro que rodopia querendo morder o próprio rabo. Este era o motivo de estar ali, na pequena Rio Cercado. Sua mente precisava respirar, conspirar, e a partir daí, criar. Alugara a famigerada ‘casa da colina’ por uma ninharia, pois todos na cidade a julgavam mal-assombrada, porém ele não acreditava em fantasmas e não perdeu o negócio de ocasião. Só havia aquela casa na colina, assim ficava livre de vizinhos indesejáveis e xeretas, sempre tão zelosos em enfiar o nariz na vida dos outros. Ainda mais que não era uma pessoa de hábitos muito ortodoxos, possivelmente, se houvesse vizinhos por perto, já estariam escandalizados com as noites de intermináveis orgias que promovia com algumas prostitutas do bordel local, o Bordel da Rosa. Não foram poucas as vezes que encheu a cara de uísque e correu pelo campo, no meio da noite, totalmente nu, juntamente com as putinhas da Rosa. Corria livre pela escuridão tal qual um Apolo noturno atrás de sua Dafne fujona; gostava de brincar assim. Sentia-se livre quando não estava sob os olhares curiosos e indiscretos da população de Rio Cercado. Aliás, farejava com facilidade a surda indignação daquela pacata gente; desde que alugara a casa da colina, o sentiamcomo um cisco no olho.


Era um homem misterioso aos olhos mornos dos habitantes da cidade, habituados à vida corriqueira, e sempre zelosos de que nada nem ninguém abalasse o dia a dia insosso se suas vidas. Renato alugara a casa assombrada, logo, não tinha medo, e isso não era bom. Como assim? – fofocavam – não ter medo de fantasmas? Que estranho homem é esse? Não pode ser coisa boa! Renato remoia estas coisas sempre com um sorriso nos lábios, realmente era muito divertido sentir no ar a preocupação incômoda que ele causava, mesmo sem dar absolutamente nenhum motivo para tal. Raciocinava sobre essas coisas quando entrou em uma pequena rua para ganhar a avenida principal da cidade, ali, havia uma característica que já havia lhe marcado a memória; logo ao ‘dobrar’ a esquina, passava pela loja de seu Haroldo, um velhote gordo e bonachão que consertava eletrodomésticos e que não se furtava a lhe enviar um breve aceno acompanhado de um sorriso que julgava ser sincero. Seu Haroldo costumava deixar um imenso rádio voltado para a rua, de onde Renato ao passar, podia escutar o programa matinal de notícias, como se estas pudessem existir naquela singela urbe. Escutava coisas como: ‘a noite de ontem foi tranqüila em Rio Cercado, afora o sr.Fulano de tal que reclamou de um cão que latiu insistentemente…’ Não foram poucas as vezes em que caiu na risada ao ouvir as banalidades da noite anterior à sua passagem pelo pequeno negócio do Sr. Haroldo. Obviamente, sempre disfarçava sua hilaridade, pois não queria parecer acintoso aos habitantes da pacata localidade. Já na avenida principal e com o Sol esparramado alegremente sobre Rio Cercado, costumava passar por vários locais, padaria, armazém, bar, loja… Enfim, todos abrindo suas portas para mais um dia tranqüilo, com nada fora do lugar, a não ser a poeira e os pequenos dejetos que eram agora varridos da frente dos discretos comércios. Ao final da avenida principal e já sentindo o abraço morno do Sol, Renato começava a ofegar e sentir os primeiros sinais de cansaço, porém, era difícil não ostentar a esta altura um sorriso nos lábios ressequidos. Era na avenida que podia perceber o cochicho matutino dos habitantes, bemcomo, os olhares curiosos, temerosos e até agressivos daqueles que o viam passar em sua corrida compassada. Julgava mesmo, que algumas pessoas se pudessem lhe atirariam pedras. Para aguçar mais corações e mentes, usava sempre o capuz do abrigo para encobrir o rosto. O ‘monstro’ da colina. Sim, já ouvira algum boato de que pesava sobre ele a sombria alcunha de ‘monstro’. Não foi uma nem duas vezes que se pôs a pensar o que levaria alguém a considerar um monstro um sujeito apenas por ser um solitário. É bem verdade que Renato não freqüentava a pequena igreja que lotava nas manhãs de domingo, e isto em uma cidade como Rio Cercado era quase considerado um crime. Assim, era visto como uma espécie de criminoso, pois desde que começara a viver naquela pequena comunidade, não movera uma palha no sentido de se ‘enturmar’ na sociedade local, nem mesmo dava muita conversa aos moradores, afinal estava lá para escrever. Tinha de ser sincero consigo mesmo se quisesse ser autêntico em seu trabalho, mentir para si seria um crime a ser impetrado na atividade a que se propunha e era para isso que estava ali. Um escritor não mente para si mesmo, se o fizer, estará mentindo, por osmose, a seus leitores; a ficção é apenas a mentira em que vem embalada a verdade do autor. Se for autêntico, deverá ter ouvidos e olhos atentos a tudo e a todos, porém, deverá traduzir o que ouve e vê através da própria experiência. Renato não julgava que Rio Cercado lhe pudesse proporcionar qualquer tipo de alimento intelectual capaz de gerar Literatura; era apenas a cidadezinha sem graça que poderia acolher sua solidão, sem problemas, comunidade mansa e inócua, com capacidade de se manter assim, oferecendo as condições necessárias para sua produção criativa. Porém, esta ainda não havia se manifestado e isso começava a gerar uma certa aflição no autor neófito. Quando do aluguel da casa na colina, Renato constatou a desconfiança dos locadores ao escutarem a palavra ‘escritor’; como se não bastasse a estranheza por aquele ser misterioso vindo de fora interessado em alugar a casa ‘mal assombrada’.

Renato tinha a pretensão de conhecer umpouco o gênero humano, por isso tinha certeza de que fecharia aquele negócio com alguma facilidade; ora, era uma casa velha, de madeira e condenada às teias de aranhas graças à sombra ‘sinistra’ – ele preferia o termo ‘folclórica’ – com que a população lhe ‘abençoara’. Era totalmente impensável que alguém na cidade fosse um dia morar lá, logo, o pensamento dos locadores fora estritamente pecuniário, ainda mais quando o locatário anunciou que daria um belo adiantamento. Estava tudo bom, apesar do receio dos habitantes com o ‘monstro’ da colina; o monstro não freqüentava a missa, mas era assíduo no bordel, não era então de estranhar os olhares e cochichos. Agora, o Sol estava quente e o corredor retornava à sua casa, transpirando e arfando, no retorno de mais uma divertida jornada atlética por Rio Cercado. Renato mantinha uma rotina frugal. Tão logo voltava de sua corrida matinal, tomava seu banho e comia qualquer fruta que encontrasse. Sentava-se então à frente de sua máquina de escrever mecânica; sim, não queria nada muito tecnológico e nem ligações diretas com o mundo lá fora; nessas horas tranformava-se num misantropo e desligava inclusive seu celular, único canal com sua vida pregressa. Não queria que vozes do passado, nem que assuntos repisados e comezinhos atrapalhassem suas idéias em gestação. Mas aí começava seu único problema: não lhe ocorria nada. O pior é que não podia voltar atrás, vendera seus poucos pertences para dedicar-se àquilo que julgava sua vocação, isso sem levar a sério alguns comentários de amigos, tão suspeitos quanto a alguns elogios. Porém, o que importava era de que ele, Renato, estava disposto a tudo pela arte da escrita. Tinha de seguir adiante, já não havia caminho de volta, e olhando atentamente aqueles móveis velhos que lhe circundavam e ofereciam a metáfora perfeita para seu passado, julgou ser o ambiente ideal para fazer o ninho da Fênix. A casa era franciscana. Uma velha casa de madeira constituída de uma sala relativamente grande, dois quartos acanhados, cozinha e banheiro idem. Não levara nada além de roupas, livros e pequenos pertences que incluíam um revólver calibre 38, cromado, cano curto. A varanda da residência era relativamente grande e era seu local preferido para leitura, sempre sentado em uma velha cadeira de balanço na qual embalava-se tranqüilamente levantado os olhos acima do livro de quando em quando, para ver se nenhum intruso incômodo se aproximava. A paisagem dali era privilegiada, podia ver toda a pequena Rio Cercado a seus pés. Era o topo da colina e lá embaixo uma paisagem bucólica e ingênua se entregava, mansa, aos olhos do morador solitário. A pequena localidade não tinha prédios altos, deixando que a torre da igreja reinasse soberana em seu seio feito um dedo apontado para o céu, que quase sempre se apresentava ensolarado e azul. Mas o que mais impressionava o homem da colina eram aquelas montanhas verdes ao redor da cidade, unidas numa ciranda extática como que a proteger a singela cidadela, talvez dos perigos selvagens daquele verde infinito de que era refém. Em seu pedaço, embora o pátio fosse pequeno, Renato havia criado uma pequena horta ao lado da casa, tudo isso circundado por uma acanhada cerca de madeira já apodrecida que ele julgou não valer a pena trocar. Quando a noite caía, tudo se afundava em intensa escuridão, apenas quebrada pelo brilho tímido das luzes da cidadezinha lá embaixo, e obviamente, pela luz amarelada gerada pela ‘casa assombrada’. Às vezes divertia-lhe a idéia de que o único fantasma naquela colina era ele mesmo, tão perdido se sentia em sua falta de inspiração; sentia de tanto em tanto, o leve roçar do desespero. O dinheiro logo iria acabar, o que faria então? Pediria emprego na loja de seu Haroldo? Mas então seria a bancarrota total, o escritor estaria morto, tudo não teria passado de uma idéia delirante e teria de habituar-se à vida na cidade, ruminando e acalentando o autor defunto em seu ventre pelo o resto de seus dias. Não, não podia cogitar destas coisas, a inspiração viria, sim, viria, era uma questão de tempo.

Se ao menos Rio Cercado fosse mais interessante, tivesse habitantes humanamente mais vivos, tipos mais atraentes, que estivesse fundada em cima de um vulcão, qualquer coisa! Precisava se apaixonar por algo, algumacontecimento, algum tipo estranho; Renato então riu. Ora, se havia um tipo estranho naquela localidade este era ele, Renato. Mas aí algo lhe ocorreu. Quase como de um estalo, deu-se conta de que não deveria perscrutar a acanhada comunidade à procura de qualquer tipo de inspiração para seu trabalho. Chegara a esta conclusão com um incômodo sentimento de vergonha. Vergonha por não encontrar em si mesmo o manancial para sua estória. Vergonha, talvez, por não possuir vitalidade suficiente para remexer suas entranhas e trazê-las para fora, atirá-las na mesa e tal qual um médico legista, acostumado a revolver tripas, pinçar equimoses negras, tumores malignos ou benignos, encontrar cicatrizes intestinas ou restos de qualquer má digestão, qualquer coisa enfim, mas será que os possuía? Teria condições de remexer suas vísceras com uma caneta? Sim, pensou, era um homem constituído por imensos abismos. Perigosos labirintos, becos escuros e tenebrosos, muitas vezes teve medo de si mesmo; e também muitas vezes nessas ocasiões se perguntou se o verdadeiro Renato era o medroso ou o que amedrontava! Não era fácil descobrir-se quando dividido. Chegou a conclusão de que era realmente ambos, porém um vivia ao Sol e outro à sombra, mas então não teria chegado a hora de promover o abraço micro-cósmico destes dois ‘Renatos’? E que aquele da luz enfiasse seus dentes de vampiro solar na jugular negra do outro? Um vampiro ao contrário! O solar precisa sugar o sangue de sua sombra! Tudo está na sombra! Agora ali, tão distante de tudo e todos, tão para além da Moral! Ora, foda-se Rio Cercado! Tinha era de olhar para seu próprio umbigo, talvez até enfiar-lhe uma faca, o que não podia era depender daquela linear comunidade se quisesse realizar seus planos. Não havia nada ali que pudesse interessá-lo… ou quem sabe ele não estivesse olhando para Rio Cercado com a devida atenção. A página seguia em branco e então Renato decidiu bebericar uísque. Botou dois dedos da bebida, sem gelo, em um pequeno copo e puxou a garrafa para a vizinhança de sua máquina de escrever. Sentado a olhar o papel, não lhe ocorria nada a não ser pensamentos desencontrados; pensamentos que invadiam sua mente como se esta fosse uma espécie de bordel barato, onde bastasse remover as pesadas pedras colocadas de dia para que seres noturnos e perigosos viessem dançar sob o sol vermelho de sua inspiração tão menina e já tão despedaçada. Bebeu de novo e de novo… Após algum tempo levantou-se e perambulou pela casa, de repente parou diante de um velho espelho de parede e olhou-se nos olhos, já eram outros olhos, eram os olhos que se acostumara a ver por esses espelhos da vida, quase com força para quebrá-los. Era o Renato recalcado que agora, via álcool, apoderavase de seu semblante… pois então que viesse! bebeu mais. Renato conhecia bem esse outro Renato. Não foram poucas as vezes em que esse homem poderoso vindo das sombras e que assumia o corpo do pacato homem solar, quase lhe botou em perigosas encrencas. Lembrava-se de Márcia, morena voluptuosa de belos cabelos negros, rosto brejeiro e sorriso malicioso que durante uma das tantas fantasias de Renato, quase perdeu a vida sendo asfixiada durante o ato sexual. Não fosse o homemsolar aflorar no último instante e pronto, haveria um assassinato! Mas também era preciso reconhecer de que o homem sombrio era o responsável pelos prazeres mais inebriantes, pelas fantasias mais intensas e extasiadas. Era por isso que amava tanto o bordel da Rosa, lá encontrava as meninas que quisesse a bom preço e dava vazão a seus melhores instintos e fantasias! Agora se olhava no espelho com seu olhar e sorriso demoníacos, sim, ah… Meus melhores instintos! – disse em voz alta – Isso ainda não é nada! Nada! Esta cidadezinha de merda vai conhecer o escritor! Ah, vai! Agora posso ver tudo! O Renato ‘bonzinho’ não pode escrever, não tem condições, é estéril. Pouco se diferencia dos habitantes desta porra de cidade! Mas eu não! O escritor sou eu, não ele! – Sentou-se à máquina quebrando uma velha regra sua: não beber durante o dia e não escrever embriagado, – Ora, fodam-se as regras! – Uma intensa gargalhada envolveu a velha casa, então deu mais um gole e começou a dedilhar fervorosamente a velha máquina. Renato acordou abrindo olhos pesados. Estava tudo envolvido em uma incompleta escuridão, entrecortada pela claridade que subia de Rio Cercado e invadia, tímida, através das janelas do casebre. Ergueu a cabeça dolorida e percebeu que havia adormecido com seu rosto sobre a máquina. Era noite.

Levantou-se e cambaleou até o disjuntor na velha parede de madeira, tropeçou em uma cadeira, acendeu a tíbia luz e quando olhou para a mesa, arregalou os olhos inchados. Havia escrito um considerável número de páginas; apagou novamente a luz num gesto inconsciente, como se quisesse que o conteúdo assustador contido naqueles papéis permanecesse nas sombras. Cambaleando na penumbra, foi para seu quarto e desabou na velha cama que estalou seu esqueleto de madeira, num protesto de velha senhora, pelo desleixo dos movimentos do corpo que era obrigada a acolher em seu seio cansado. O gosto azedo do uísque dormido em sua boca não foi suficiente para que se dignasse a lavar-se e escovar os dentes. Queria apenas descansar o esqueleto dolorido e a mente dilacerada pelo aço afiado do bisturi perscrutador de si mesmo. Renato sentia uma espécie de crise de identidade, algo para o qual não encontrava as explicações adequadas. Novamente o turbilhão começava a invadir lentamente sua cabeça cansada, não queria mais pensar, queria dormir, porém algo lhe tirava o sono: o que estaria escrito naqueles papéis na sala? Um sentimento de raiva começou a apossar-se de seu combalido ânimo, era só o que faltava! Ter medo de si mesmo! Ou quem sabe lutava inconscientemente para que o escritor não se apossasse de sua existência já tão mal resolvida, botando tudo a perder. Porém, pensou melhor e chegou rápido a uma conclusão: o que tinha a perder? Não queria ser um autor afinal? Não teria acaso que se auto-infligir talhos, talhos profundos? E se por estes cortes vazasse o ‘outro’, o Renato das sombras, o Renato a quem o Sol impõe o sono forçado, para que o ente social possa arrastar suas misérias a céu aberto? Tendo assim as condições necessárias para ser alguém em que se possa passar a mão na cabeça, tal qual umcachorrinho obediente? Bem encaixado no ramerrão dos dias mornos dos que são função, nada mais? Sabia que o artista não estava aí, sabia que nesse limbo que serve de fachada para apertos de mãos e outras coisas do dia a dia necessário, não há nada que se preste a terreno fértil em que possa brotar a flor criativa. Mas se não é aí, teria obrigatoriamente que evocar sua outra metade, aquela que precisa estar morta para que o Renato social viva. O artista está em seu túmulo, é preciso arrastar a lápide pesada da miséria existencial e suportar os primeiros odores sem voltar atrás para tampá-lo novamente, sob pena de amanhã não haver mais nada a ressuscitar. Renato virou-se na cama e abraçou seus joelhos numa posição fetal. Do que tinha tanto medo afinal? Dele mesmo? Mas então não teria chegado a hora deste abraço cósmico? Ou ele teria medo deste abraço por causa de todas as imundices que um ser saído de um pântano carrega consigo, seu outro lhe deixaria sujo de lodo negro trazido de lugares impensados, profundezas inimagináveis? Mas então, se negasse esse abraço lodoso, estaria negando a si mesmo! Um frio lhe correu na espinha… Não estaria carregada de águas caudalosas aquelas páginas ali na sala? E se estivesse, não teria sido sua mão a vertê-las? Do que tinha medo então? Respirou fundo. Era chegada a hora de incorporar a si mesmo, assumindo todos os riscos do empreendimento, seu lado mais negro era ‘ele mesmo’, afinal, como poderia passar o resto de sua vida sufocando sua vertente mais pura? Vertente negra! Vertente instintiva! Vertente criativa e assustadora! A fenda pela qual vertia a si próprio! Chega! Coragem! O livro havia iniciado com aquelas páginas misteriosas ali na sala, as coisas mais puras estão no escuro! Renato aos poucos foi relaxando sua tensão e adormeceu com um involuntário sorriso nos lábios; lábios através dos quais exalava o odor do uísque azedo, reminiscência de um beijo íntimo com gosto de horror. Desceu a Alameda do Arvoredo, o velho e bom som se suas pegadas fortes ia acordando a Natureza. Os galos, arautos do novo dia, realizavam sua sinfonia desencontrada, numa competição de gargantas estridentes como que para descobrir quem mais alto anunciava a chagada do Sol. Renato seguia seu trajeto rotineiro, saíra naquela manhã sem ler seus escritos, resolvera deixar o mistério para a volta. O capuz enfiado na cabeça, o training preto, o homem soturno, o monstro da colina! Passada à passada, ritmo, suor, Sr. Haroldo, trivialidades no rádio, Av. principal, tudo no seu lugar. Olhos que miravam qualquer coisa por onde passava, espiando através do capuz negro. Lá vai o corredor solitário levando consigo todo o mistério da colina; cruzava por olhos curiosos e indecisos, cumprimentos tímidos, pragas surdas, impropérios engolidos, mãos ansiosas por pedras, cuspes ruminados; lá vai o homem que não tem medo de fantasmas! Como pode! Tem parte com o Demo! Mal sabiam eles que seus fantasmas não eram os mesmos de Renato. Os de Renato corriam ali, comele, não estavam na casa, mas onde o corredor estivesse e ao contrário da população, o escritor queria a amizade desses seres invisíveis. Mais que isto, precisava formar uma família com eles. Também, eram fantasmas diferentes, não se tratava de almas penadas, estas que apavoram os simples. Não.

Eram demônios internos e que formavam sua própria anatomia, precisava era estar de bem com eles para dar mais vigor a esta dança incessante da existência. Renato lembrava de tanto emtanto, das folhas de papel em sua mesa, redigida por demônios, seus demônios, e tudo de que precisava agora era incorporá-los de vez. Pois bem, cada um com seus fantasmas; porém, ele não acreditava em fantasmas, a população sim. Portanto, lá vai o Monstro da Colina. Só que desta vez o ‘monstro’ teve uma idéia, resolveu aproximar sorrateiramente seus ouvidos das bocas maledicentes da cidade, então interrompeu sua corrida para comprar um jornal na lanchonete de Dona Santa. Entrou no local e parou à porta; umas dez pessoas faziam o desjejum na acanhada lanchonete, todos pararam. Desta vez sem disfarce, todos olharam ao mesmo tempo para o estranho; tanto no balcão como nas poucas mesas havia pessoas com pedaços de torradas suspensas entre a mão e a boca, como na velha brincadeira de ‘mandrake’. Renato então puxou o capuz, oferecendo à platéia o espetáculo pelo qual tanto ansiava, deu-lhes a sua cabeça! Mas para espanto geral, o monstro não era um monstro! Ao contrário, era até bem apessoado, o cabelo preto e fino já recebia as primeiras neves da idade, bem como as entradas um pouco aprofundadas que revelavam não se tratar de um garoto. Os olhos grandes e negros estavam indecisos entre amedrontarem-se ou amedrontar. A barba espessa e mal feita contribuía para que o rosto de mandíbulas fortes e nariz pequeno, um pouco adunco, ostentasse um desleixo ‘de artista’. O visitante inesperado caminhou tranqüilo até os jornais, que ficavam em uma pequena mesa apartada em um canto. Dona Santa era uma velhota gorda de cabelos grisalhos presos que faziam ressaltar mais ainda as bochechas coradas na cara redonda, quase semnariz. Ela observava o intruso com seus pequenos olhinhos. – Parece um porquinho – pensou Renato enquanto observava os jornais. – É tudo de ontem! – gritou a velhota. Os comensais retornaram a seus sanduíches e cafés, como se a exclamação de Dona Santa fosse uma ordem para que seguissem normalmente suas vidas, porém, a curiosidade de olhares rápidos e soslaios era impossível de conter. – O senhor sabe… Cidade pequena… Os jornais chegam tarde, lá pelas dez horas. – as palavras da velha fizeram Renato corar, era óbvio que àquela hora não poderia ter os jornais do dia. Como não pensou nisso? A vontade de Renato era de enfiar o capuz e sair correndo daquele constrangimento, até porque, pôde observar e escutar alguns risinhos e até um ‘otário’ pronunciado por uma voz revestida de alguma valentia. Porém, repentinamente cravou os olhos em Dona Santa e todos cravaram os olhos nele. – O cheirinho está bom, vou querer um café! – proferiu, ensaiando um sorriso. Ato contínuo caminhou ao balcão e enquanto aguardava fez uma visão panorâmica do local. Todos que estavam ali eram pessoas mais velhas, possivelmente trabalhadores da avenida e seus olhares estavam entre curiosos e hostis. A palavra ‘otário’ agora não lhe saía da cabeça; proferida entre os muitos, anunciava uma atitude covarde típica dos que se escondem no número para poderem dizer o que querem. Um gosto azedo de desprezo apossou-se de seus pensamentos – Açúcar ou adoçante? – a voz da velha pareceu uma lixa em sua mente – Açúcar, sim, obrigado.

– estava com vontade de atirar a polidez no lixo, apontar o dedo para aquelas caras patéticas e realizar um pequeno discurso, tinha vontade de dizer: – Seus fodidos, mortos-vivos! O que eu fiz para vocês para me odiarem tanto? Detestam-me por que eu não arrastei minha vida para debaixo dessa sombra morta na qual vocês existem mesmo não existindo? Por que eu tenho algo a dizer, e isso não é do agrado geral? Fodam-se! Sou ‘otário’ então. Certo. – Parou de delirar, virou-se para o balcão e começou a bebericar o café. Dona Santa então puxou assunto, como quem tateava um saco com algo desconhecido dentro, talvez uma bomba. – O senhor alugou a casa da colina não é? – o silêncio que se fez após a pergunta deixava claro que a resposta seria acompanhada por um batalhão de ouvidos. – Sim. – respondeu lacônico, enquanto observava no espelho atrás de velhota, o semblante de seu rosto ir mudando. Aquele velho e demoníaco brilho apossou-se de seus olhos e um sorriso sarcástico brotou nos lábios secos. Achou que a resposta era esta e mais nada havia a ser dito, porém, repentinamente resolveu divertir-se um pouco. – A senhora quer saber se existem fantasmas na casa não é? – traídos pela súbita pergunta, todos se inclinaram em direção à resposta, instintivamente e em respeitoso silêncio. – Bem… – a velha estava visivelmente sem jeito – é que… o senhor sabe, dizem… – Eu sei o que dizem, minha senhora. A resposta é sim, existem. – um pequeno alvoroço formou-se às costas de Renato. Cochichos acompanhados por olhos arregalados e até algumas pequenas gargalhadas ruidosas surgiram dando vazão a uma curiosidade há muito tempo represada. – O senhor viu algum? – esta pergunta era fruto da intromissão de um senhor meio balofo, muito vermelho e de cabelos loiros que Renato sabia ser um tal de Higino, dono da funerária BomDescanso, a única de Rio Cercado. Parecia então, que os peixes começavam a mordiscar a isca jogada pelo escritor. – Bem, para dizer a verdade, não os vejo, mas os ouço! E eles me dizem coisas, muitas coisas a respeito desta cidade, até segredos impensáveis me foram assoprados ao ouvido, imaginem só, que há muitos anos atrás… bem melhor não contar agora, pois acredito que todos aqui saibam de que sou escritor e tenho a intenção de contar estas histórias em meu próximo livro. – Balela! – alguém interrompeu ameaçadoramente. Era um sujeito que não caíra na conversa de Renato e acompanhava tudo à distância. Um homem magro de meia-idade, terno e gravata impecáveis o cabelo pintado de preto para combinar com o bigode e o aro dos óculos da mesma cor, tinha um rosto saído de algum filme dos anos trinta. Todos silenciaram no instante da interrupção, Renato atribuiu aquele respeito instantâneo à submissão a algum tipo de autoridade. Não errou. Tratava-se de Dr. Dorival, o renomado advogado da cidade. Dr.

Dorival gostava de um bate-boca e julgou ter ali um prato cheio. – O que o senhor quer afinal nesta cidade? senhor… senhor… – Renato, meu nome é Renato. Bem, o que quero nesta cidade é sossego para poder desenvolver meu trabalho, sou escritor. – Não é não! – protestou Dr. Dorival adotando uma postura solene, como se fosse o defensor dos interesses daquela comunidade. A lanchonete estava agora lotada de curiosos que se acotovelavam como se uma luta de boxe milionária fosse iniciar naquele momento. – Caralho! Que hora eu fui escolher para comprar jornais de ontem! – pensou Renato, porém partiu dele a idéia de dar ‘trela’ às pessoas na lanchonete. Resolveu então, entrar de bem na dança – Não é não! – insistiu Dr. Dorival – fiz uma pequena investigação para saber se o senhor já havia publicado alguma ‘coisa’ e… Nada, nada vezes nada! O senhor não publicou nada! E permita que me apresente, sou Dr. Dorival, defendo os interesses desta comunidade!

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