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A tristeza do samurai – Victor del Arbol

Existe um tipo de pessoa que foge do carinho e se refugia no abandono. María era uma delas. Talvez por essa razão se negava a ver quem quer que fosse, inclusive agora, naquele quarto de hospital, que era como a estação final do trajeto. Preferia ficar olhando para os buquês de lilases que Greta lhe enviava. Lilases eram suas flores preferidas. Tentavam sobreviver no vaso d’água com aquele gesto heroico de tudo o que é inútil. A cada dia, suas pétalas frágeis murchavam, mas faziam-no com elegância discreta, com sua cor cintilante. María gostava de acreditar que sua agonia também era assim: discreta, elegante, silenciosa. No entanto, ali estava seu pai sentado ao pé da cama como um fantasma de pedra, um dia depois do outro sem dizer nem fazer nada, salvo contemplá-la, para lhe recordar que nem tudo ia ser tão fácil quanto morrer. E bastava que se entreabrisse um pouco a porta para ver o policial fardado no vestíbulo, que vigiava o quarto, para compreender que tudo o que havia acontecido nos últimos meses não se apagaria, nem mesmo quando os médicos desligassem a máquina que ainda a mantinha com vida. De manhã cedo tinha vindo o inspetor que conduzia seu caso. Chamava-se Marchán. Era umhomem simpático, dadas as circunstâncias, mas intransigente. Se sentia pena pelo seu estado, não demonstrava. Para o inspetor, María era suspeita de vários assassinatos e de ter ajudado um preso a escapar. — Nosso amigo já entrou em contato com a senhora? — perguntou com respeitosa frieza. Marchán trazia os jornais do dia, que deixou na mesinha. María fechou os olhos. — Por que entraria? O policial encostou na parede com os braços cruzados sobre o peito, o paletó desabotoado. Estava pálido e dava para ver que cansado. — Porque é o mínimo que pode fazer pela senhora, levando em conta sua situação. — Minha situação não vai mudar, inspetor. E suponho que César sabe disso. Seria uma imbecilidade ele arriscar tudo para vir visitar uma moribunda. Marchán inclinou a cabeça, contemplando a figura hierática do senhor sentado junto à janela.


— Como está seu pai hoje? María deu de ombros. Era difícil reconhecer os sentimentos de uma pedra. — Ele não diz nada. Só fica ali, olhando pra mim. Às vezes penso que vai continuar assim até seus olhos secarem. O policial suspirou profundamente e contemplou aquela mulher que um dia devia ter sido atraente sem a cabeça raspada e sem todos aqueles cabos que a ligavam a um monitor cheio de luzes e gráficos. Diante dela, Marchán se sentia como um mineiro que acerta a pedra com a picareta usando todas as suas forças, mas a única coisa que consegue fazer é tirar umas míseras lasquinhas. — Bom, como queira… Mas e a confissão? Pensa em denunciar seu pai? María desviou a atenção para o pai. O homem agora olhava pela janela. A luz da rua iluminava parcialmente seu rosto envelhecido. Seu lábio caía e um fiozinho de baba manchava sua camisa. María sentiu um misto de raiva e compaixão. Por que insistia em permanecer a seu lado com suas críticas mudas? — Meu pai não pode ajudá-lo, inspetor. Mal reconhece alguém. — E o que me diz da senhora? Vai me contar o que sabe? — Claro, mas não é fácil. Preciso pôr as ideias em ordem — María Bengoechea tinha prometido ao inspetor ser concisa, ater-se aos fatos e descartar o palavrório supérfluo, os circunlóquios e todos os truques inúteis das histórias que saíam nos jornais. A princípio ela pensou que seria simples. Colocou a situação como se fosse um memorando. Era essa a sua especialidade: a brevidade, os indícios claros, os fatos provados; o resto não servia. Mas a coisa se mostrava mais complicada que o previsto. Ela estava falando da sua vida, da sua vida particular, portanto não podia evitar ser subjetiva e misturar acontecimentos com impressões, desejos com realidades; por fim, o que devia ser um texto simples e asséptico tinha se transformado num divã de psicanalista. — Leve o tempo que precisar — disse o policial, observando o caderno de notas junto da mesa de cabeceira, com alguns apontamentos no início da página. — Tenho de ir embora, mas voltarei a vêla. María retomou a caderneta ao ficar a sós, fez um esforço para ignorar a presença fantasmagórica do pai e começou a escrever com fingida serenidade: descobriu-se filosofando duas ou três vezes sobre o sentido da vida e sobre o mistério da morte. Ao se dar conta, riscou esses parágrafos, um tanto enrubescida.

O que a envergonhava não era que um policial fosse ler aquilo; àquela altura, isso já não tinha muita importância; mas enrubescia porque o que escrevia estava realmente dentro dela: — Eu sou assim? Eram assim meus sentimentos até umas semanas atrás? Depois abandonava o mundo das suposições e retornava ao concreto. Aos fatos. Devia manter essa disciplina se pretendia terminar a tempo o relato do ocorrido nos meses anteriores. Iam operá-la novamente do tumor, mas pela expressão dos médicos sabia que já a davam por perdida. Sua doença era, de certo modo, um caminho inverso, uma rebobinagem rápida da maturidade à infância. Acabaria seus dias incapaz não só de escrever, mas de pronunciar seu próprio nome; balbuciaria como um bebê para se fazer entender e dormiria com fralda para não sujar os lençóis. Contemplou o velho na cadeira de rodas e estremeceu. — Parece que no fim acabaremos nos entendendo, papai — murmurou com um cinismo que só machucava a si própria. Conjecturou se com esse esquecimento inevitável chegaria também, pelo menos, a inocência. Não imaginava nada mais terrível do que ficar como o pai: metida no corpo de uma menina, mas com a cabeça de uma mulher, que ainda era. Surpreendeu-se com a facilidade com que esquecia tudo aquilo que tanto lhe havia custado aprender até chegar a esse ponto da vida em que se é chamada de “mulher adulta” — sensata, serena, casada, responsável e com filhos. María não era nada disso, nunca tinha sido; nunca chegou a ser o tipo de mulher que esperavam que ela fosse. Sua doença não teve nada a ver com essa impossibilidade, era antes uma questão congênita. Tinha trinta e cinco anos, era uma advogada de prestígio, separada, sem filhos, e vivia com outra mulher, Greta, que também a havia abandonado, desesperada ante sua incapacidade de realmente amar alguém. Enfrentava um processo judicial pelo assassinato de várias pessoas, um julgamento que não chegaria a se dar, porque Deus, ou quem quer que fosse o responsável pelo destino, já havia pronunciado uma sentença de culpa sem apelação. Basicamente, eram esses os dados biográficos que podiam interessar a qualquer um. Poderia encher páginas inteiras com números da previdência social, carteira de motorista, identidade, telefone, nascimento, estudos, MBAs, pós-graduações, currículos e até gostos, cores favoritas, número da sorte, do sutiã, do sapato; poderia incluir uma foto três por quatro a partir da qual alguém decidiria se era bonita ou feia de acordo com seu gosto pessoal, loura tingida ou natural, magra, baixa etc. Os mais observadores, ou os mais românticos, diriam que ela tinha um ar melancólico, deduziriam sem argumentar que sua vida sentimental tinha sido um desastre… Mas no fim das contas continuariam sem saber nada a seu respeito. Com um andador, foi ao banheiro. Acendeu a luz. Era uma lâmpada fluorescente que acendia com piscadas longas e inseguras, vislumbrando um contorno por um instante que desaparecia em seguida no escuro. Esse brilho momentâneo permitiu-lhe ver a silhueta de um corpo nu e um rosto povoado de sombras inquietantes. Sentia medo da estranha que havia nela. Mal se reconhecia. Um corpo pálido, de músculos flácidos, extremidades quebradiças, com o peito sulcado de veias que convergiam nos seios caídos.

Quase não tinha pelo nas axilas e no púbis. O sexo, mortiço, imprestável. Seus dedos tocaram as coxas como se fossem águas-vivas roçando uma pedra. Não as sentia. E o rosto… meu Deus, o que havia acontecido com seu rosto? As maçãs do rosto sobressaíam como montículos pontiagudos que tencionavam as bochechas. A pele rachava como terra seca, cheia de crateras escuras, macilentas. O nariz se estirava, pontiagudo, como de águia, com os orifícios completamente secos. Não havia mais vestígio da sua formosa cabeleira. Só um crânio raspado com catorze pontos de sutura na altura do lobo direito. Mas o pior eram os olhos. — Onde estão? O que fixam? O que veem? Bolsas azuladas, pálpebras caídas, sem brilho. Com um cansaço infinito, uma ausência total. Os olhos de uma desenganada, de um moribundo, de um cadáver. Mas, apesar de tudo, sob a decrepitude e a doença, continuava sendo ela. Ainda podia se reconhecer. Forçou um sorriso. Um sorriso que era quase uma queixa, um gesto de impotência, de ingenuidade. Sim, ainda não estava morta e continuava sendo dona de seus restos. — Sou eu. Ainda. María. Tenho trinta e cinco anos — disse em voz alta, como se quisesse espantar a sombra de dúvida do fantasma que aparecia do outro lado. Poucos seres humanos aguentam seu próprio olhar, porque diante do espelho se produz um fenômeno curioso: você olha para o que vê, mas, se penetra além da superfície, assalta-o a incômoda sensação de que é o reflexo que olha para você com insolência. Ele lhe pergunta quem é você. Como se você fosse o estranho, e não ele.

Voltou para a cama arrastando os chinelos. Seu corpo pesava, apesar de ela flutuar dentro da camisola branca do hospital. Ligou a televisão. As notícias a aturdiam. Sucediam-se como se nada pudesse deter os acontecimentos. Como se esses mesmos acontecimentos estivessem acima dos atores que os protagonizam. A jornalista Pilar Urbano falava do mesmo Congresso que os golpistas haviam tomado de assalto em fevereiro. Lá estavam as fotos de Tejero, Milans del Bosch, Armada e os outros conjurados; todos arrogantes, cheios de si. Publio não estava entre eles, nem sua fotografia nem seu nome. Também não se fazia nenhuma menção à família Mola. Não a surpreendia, tinha consciência de como essas coisas funcionam. César Alcalá já a avisara para que não se iludisse em sentido contrário: “Esta nossa democracia é como uma menina esperta que já sabe onde esconder a merda quando ainda nem começou a andar”; no entanto, María não podia evitar certa amargura ao verificar que todo aquele sofrimento, todas as mortes ocorridas nos meses anteriores não haviam servido para nada. Deu-se conta de que seu pai também espiava as notícias. Não sabia se ele era capaz de entender alguma coisa, mas notou que seus olhos brilhavam e que suas mãos agarravam com força o manípulo da cadeira de rodas. — Não vale mais a pena se preocupar, não acha? — María lhe disse. Seu pai inclinou um pouco a cabeça e a encarou com os olhos avermelhados. Balbuciou algo que María não quis ouvir. Mudou de canal. Um atentado do ETA em Madri. Um carro pegando fogo na Castellana, fumaça. Gente gritando cheia de ódio e impotência. Intoxicados com óleo de canola mostram suas deformidades à porta de um tribunal; essas cenas lembravam as dos mendigos com pólio na porta das igrejas. Políticos apontando crucifixos contra a lei do divórcio, outros erguendo a bandeira republicana. O mundo girava depressa, as pessoas se protegiam com estandartes e palavras de ordem. Desligou a televisão e todo aquele ruído desapareceu.

Voltou o silêncio no quarto pintado de creme. A bolsa de soro, os passos das enfermeiras do outro lado da porta fechada. Imaginou que continuava lá o policial de guarda, cochilando entediado numa cadeira, perguntando-se que sentido tinha vigiar uma moribunda. Entraram duas enfermeiras para dar banho nela. María foi simpática e, embora soubesse que seria inútil, pediu-lhes um cigarro. — Faz mal à saúde — responderam. María sorriu e elas coraram ante a evidente idiotice do comentário. Deveria ser o contrário. Ela é que deveria corar ao sentir que a limpavam com uma esponja como se fosse uma criança. Mas não fez nada, deixou-se virar como um pedaço de carne por uma delas, enquanto a outra pegava a cadeira de seu pai e a empurrava para fora do quarto, ao que María agradeceu, aliviada. A enfermeira lavou-lhe as axilas, os pés, trocou a bolsa de soro e não parou de falar dos seus filhos, do seu marido e da sua vida. María a escutava de olhos fechados, desejando que aquilo acabasse logo. Trocaram os lençóis. Não tinham cheiro. Isso era inquietante. Não havia cheiro no quarto. Os médicos diziam que era por causa da operação. Essa parte do cérebro tinha sido afetada. Um mundo sem cheiro era um mundo irreal. Nem mesmo os lilases que Greta havia enviado aquela manhã cheiravam. María os via, ao lado da cabeceira. Ficava horas olhando para as flores. Pareciamfrescas, com gotas de umidade no talo e nas pétalas. Inclinavam-se para a luz que entrava pela janela. Gostariam de fugir, sair dali.

Como María. Como todos os que antes dela agonizaram na mesma cama. Daí as grades nas janelas. Para evitar tentações. Mas com ela eram desnecessárias. Para se suicidar é preciso ter coragem. Quando a vida já não é uma opção, não devemos deixar que o acaso nos tome o último ato digno que nos resta. María tinha aprendido isso com os Mola; mas ela nunca pularia. Às vezes o padre do hospital ia visitá-la. Era uma visita rotineira como as que faziam de manhã cedinho os médicos com sua prancheta, seguidos pelos jovens residentes. Aquele padre era como eles. María imaginava que ele levava debaixo do braço uma lista dos desenganados do dia, ou talvez marcasse com uma cruzinha os quartos dos que já estavam nas últimas. Devia pensar que no trânsito definitivo os pacientes estavam mais fracos, mais volúveis e sensíveis a seus argumentos sobre Deus e o destino. De resto, não era um homem desagradável. María até gostava de ouvi-lo, mas só porque se perguntava o que poderia ter levado um homem tão jovem a entregar toda a sua vida a uma quimera. Vestia batina e cabeção. Uma batina limpa, discreta, com botões acolchoados que o cobriam até os sapatos. Aquele jovem padre pré-conciliar não parecia se sentir culpado por nada, muito menos pela morte de María. Pelo contrário, quando ela confessou não crer em Deus, ele a contemplou com uma pena tão sincera, com tal compreensão do seu medo, que a deixou seca por dentro. — Não tem importância. Quer você creia, quer não, está a um passo da Graça, da imortalidade junto a Ele. María fitou-o perplexa. Sem hesitar, sem uma ponta de cinismo ou de hipocrisia, o padre pediu a ela que se arrependesse de seus pecados. — Dizem que matei um homem, padre. E que o fiz com minhas próprias mãos.

O senhor acredita? — Conheço a história, María, todo mundo conhece. Tudo pesará na balança, e Deus é misericordioso. — Por que o senhor fala assim? Acredita mesmo que existe um Juiz Supremo que nos julga do Alto? — Sim, creio sinceramente. Essa é a minha fé. — E por que seu juiz não arregaça as mangas e desce para dar uma ajudinha aqui, em vez de ficar dizendo o que está certo e o que está errado lá do trono? — Não somos crianças a quem se diz o que fazer. Somos seres livres e, como tais, enfrentamos as consequências do que fazemos. — Sinceramente, padre, quem foi que deu licença a esse seu Deus para que venha me exigir que lhe preste contas dos meus atos? — O que você crê ou o que eu creio não muda a certeza das coisas. Você logo estará na Vida Eterna, e tudo terá sentido — respondeu pausadamente o sacerdote. María perguntou a ele para que um homem ia querer a imortalidade. — Para que comer? Para que continuar respirando? Para que continuar bebendo neste copo de plástico? Por que continuo tomando estas cápsulas coloridas? Por que não me rendo? Gostaria de parar com tudo isso. Pôr um ponto final. Imortalidade, quem quer? Um ciclo de nascer e morrer contínuo, a repetição incessante da mesma agonia sem nenhum motivo. A morte é uma coisa que acontece com tudo o que está vivo. É o preço a pagar. E Deus não tem nada a ver com isso. Deviam deixar Deus em paz. A culpa é dos fluidos, da química que se rebela contra o próprio corpo, da genética, da fragilidade humana. Não existem deuses nem heróis. Só miasmas. Bastaria aceitar isso, e tudo seria muito mais fácil para mim. Mas não posso. — Você não pode se resignar porque em seu interior existe algo divino, uma parte de Deus. Pense na sua vida, examine sua consciência e verá que nem tudo foi tão ruim — disse-lhe o padre. Deu uma palmadinha nas mãos de María, como um até logo, e saiu, deixando atrás de si suas palavras e seu cheiro de igreja antiga. Com o correr dos dias, o estado de saúde de María piorou.

Passava a maior parte do tempo drogada para suportar as dores e, quando às vezes recuperava a lucidez, só desejava fechar os olhos e continuar dormindo, anestesiar as recordações que se amontoavam em sua mente sem ordemnenhuma. Foi num desses momentos entre o onírico e o real que María recebeu, ou acreditou receber, uma estranha visita. Sentiu uma mão com dedos magros e frios apertando a sua, fervendo de febre. Seu tato era rugoso e áspero, com grandes veias que pareciam querer sair da pele. Uma voz distante, calma e quente lhe pedia que acordasse. Essa voz entrou em seus sonhos e a obrigou a abrir os olhos. Não havia ninguém. Estava sozinha no quarto. Uma corrente de ar frio entrava pela janela entreaberta. Pensou que havia sido apenas um sonho, um delírio causado pela febre. Virou de lado, disposta a dormir, mas viu então, junto à mesa de cabeceira, um pequeno envelope fechado com seu nome. Abriu-o com os dedos trêmulos. Era uma breve nota: Lembre-se do preceito do samurai. Não existe honra ou desonra na espada, e sim na mão que a empunha. Vá em paz, María. Reconheceu no mesmo instante a letra miúda e apertada. Era a letra de um fantasma. Abriu a gaveta da mesinha e dela tirou uma velha fotografia em sépia. Era o retrato de uma mulher quase perfeita. Tanto que parecia irreal. Talvez fosse o efeito da fotografia, o momento que congelava. Parecia uma atriz dos anos quarenta. Fumaça saía da sua boca com fluidez, criando volutas acinzentadas e brancas que cobriam parcialmente seus olhos, formando um halo misterioso. Segurava o cigarro com delicada negligência, acima da mão direita apoiada na face, com o indicador e o médio, o filtro entre dois anéis. Fumava com prazer, mas sem volúpia, como se fazê-lo fosse uma arte.

Fumava consciente do seu gesto. O sorriso era estranho. Como se escapasse da boca contra a sua vontade. Não sabia, ao observá-lo, se era um sorriso de tristeza ou de alegria. Na realidade, tudo nela era evanescente, provável, mas inseguro, como aquela fumaça que a envolvia. María se perguntou, ao observar a fotografia, que ar respirava aquela mulher misteriosa, causadora de tudo o que aconteceu; a que recendia sua pele, com gotas de perfume detrás dos lóbulos. Imaginou que era um aroma suave, que devia ficar pairando no ambiente, como o rastro da sua presença, quando já havia saído. Um aroma indeterminado, evocador. Impunha a lei do seu próprio desejo, uma tirania branda, mas definitiva, e ao mesmo tempo era prisioneira da sua beleza, dos seus silêncios. Um chapéu de aba larga pretendia esconder o cacho rebelde na testa e as ombreiras do casaquinho bege reprimiam seu peito, bonito e turgente. Sem pressa, María rasgou em pedaços diminutos aquela foto de que não tinha se separado nos últimos meses. Foi até a janela aberta e atirou os pedaços, que se dispersaram no ar daquela manhã brumosa de 1981. 1 Mérida, 10 de dezembro de 1941 Fazia frio, e um manto de neve endurecida cobria a linha do trem. Uma neve suja, manchada de fuligem. Brandindo sua espada de madeira no ar, um menino contemplava hipnotizado o emaranhado de trilhos. A linha se dividia em duas. Um dos ramais levava para oeste, o outro se dirigia para leste. Uma locomotiva estava parada aguardando a mudança de agulhas. Parecia desorientada, incapaz de tomar um dos dois caminhos que lhe eram oferecidos. O maquinista mostrou a cabeça pela janela estreita. Seu olhar encontrou o do menino, como se perguntasse a ele que direção tomar. Assim pensou o pequeno, que deu de ombros e apontou o caminho para oeste. Não por nada. Só porque era uma das duas opções. Porque estava ali.

Quando o chefe da estação ergueu a bandeira verde, o maquinista atirou pela janela o cigarro que estava fumando e desapareceu dentro da locomotiva. Um apito estridente espantou os corvos que descansavam nos postes da catenária. A locomotiva pôs-se em movimento, cuspindo grumos da neve suja dos trilhos. Lentamente tomou o caminho do oeste. O menino sorriu, convencido de que sua mão é que havia decidido o destino daquela viagem. Ele sabia, com seus dez anos, ainda sem palavras para explicar, que podia conseguir qualquer coisa a que se propusesse. — Andrés, vamos. Era a voz da sua mãe. Uma voz suave, cheia de matizes que só podiam ser descobertos prestando atenção. Chamava-se Isabel. — Mamãe, quando vou ter uma espada de verdade? — Você não precisa de espada. — Um samurai precisa de uma catana de verdade, não de um pedaço de pau — protestou o menino, ofendido. — O que um samurai precisa é se proteger contra o frio para não pegar uma gripe — replicou a mãe, arrumando o cachecol. Encarapitada em sapatos de salto inverossímil, Isabel eludia os olhares e os corpos dos passageiros na plataforma da estação. Movimentava-se com a naturalidade de uma equilibrista na corda. Esquivou uma pequena poça em que boiavam duas guimbas e, com um requebro, evitou pisar num pombo agonizante que girava sobre si mesmo, cego. Um rapaz com corte de cabelo de seminarista abriu espaço para a mãe e o filho na marquise da estação. Isabel sentou cruzando as pernas com naturalidade, sem tirar as luvas de pelica, marcando cada gesto com a suficiência sutil que alguém se impõe quando se sente observado e está acostumado à admiração. Naquela mulher de pernas bonitas e compridas, que surgiam pela saia bem na altura do joelho, até o gesto mais corriqueiro adquiria a dimensão de uma dança perfeita e discreta. Inclinando o quadril para a direita, ergueu o pé justo o necessário para limpar uma gota de lama que manchava a ponta do sapato. A seu lado, apertando-se contra o corpo da mãe para reafirmar a quem ela pertencia, Andrés olhava desafiador para o resto dos passageiros que esperavam o trem, disposto a transpassar com a espada o primeiro que se aproximasse. — Tome cuidado com isso, você vai acabar se machucando ou machucando alguém — disse Isabel. Parecia-lhe uma loucura que Guillermo estimulasse aquela estranha fantasia do filho. Andrés não era como os outros meninos da sua idade, para ele não existia diferença entre a imaginação e o mundo real, mas seu marido tinha prazer em lhe comprar todo tipo de brinquedos perigosos… Tinha até prometido lhe dar de presente uma espada de verdade! Antes de sair de casa, ela havia tentado tomar seus cartões de guerreiros, mas Andrés havia desatado a gritar como um histérico, de modo que ante o temor de que acordasse todo mundo na casa e descobrissem sua fuga precipitada, deixou que os levasse. Agora, não tirava o olho deles.

Assim que pudesse se desfaria dos cartões, como pensava fazer com tudo o que tivesse a ver com o marido e sua vida anterior. Naquela manhã do pós-guerra civil, começava o inverno do lado de fora das janelas da estação ferroviária. Os homens caminhavam cabisbaixos, tensos, com o olhar no infinito para evitar que se cruzasse com o de desconhecidos. A guerra civil havia terminado, mas era difícil se adaptar ao novo silêncio e conjugá-lo com aquele céu sem aviões ou silvos de bombas caindo como serpentinas. Nos olhos das pessoas ainda se aninhava a dúvida, mirando de esguelha para as nuvens, temendo reviver o susto das explosões, a correria para se refugiar num porão enquanto soava a sirene, emitindo breves uivos que deixavam todos arrepiados. Uns e outros se amoldavam devagar à derrota ou à vitória, a não acelerar o passo, a dormir as noites sem muitos sobressaltos. Pouco a pouco a poeira assentava nas ruas, as ruínas e os escombros desapareciam, mas tinha se deflagrado outra guerra surda de sirenes de polícia, de novos medos, apesar de já não soar a corneta da Rádio Nacional como boletim bélico. Nessa guerra depois da batalha, Isabel havia perdido tudo. Entre os passageiros à beira dos trilhos, estendia-se com rapidez uma mancha oleosa com cheiro de piolho, chicória, cupons de racionamento, bocas desdentadas e sujeira debaixo das unhas, tingindo sua existência com cores cinzentas e mortiças. Uns poucos, somente uns poucos, se espalhavam pelos bancos da plataforma, apartados, recebendo com os olhos fechados e a expressão confiante a suave luz do sol que atravessava a neve. Andrés observava com desconfiança. Não se sentia parte do mundo infantil. Parecia que sempre pertencera ao círculo dos adultos. E, dentro dele, ao da sua mãe, de quem não se separava nemmesmo quando sonhava. Apertou com força a mão dela, sem compreender por que estavam naquela estação, mas intuindo que era por um motivo grave. Sua mãe estava nervosa. Ele notava seu medo sob a luva. Irrompeu na plataforma um grupo de jovens camisas-azuis. Eram imberbes e ostentavam comorgulho, partidários que eram de José Antonio, o jugo e as flechas no peito, intimidando os outros com seus cantos e olhares guerreiros, embora a maioria deles não tivesse nem idade nem cara de ter combatido em nenhum lado daquela guerra que ainda fumegava em muitas famílias. O rapaz que havia dado espaço para Isabel no banco mergulhou ainda mais na contemplação dos seus pés, apertando entre os joelhos a malinha amarrada com um cordão, evitando os olhares desafiadores dos falangistas. O pequeno Andrés, ao contrário, fascinado com os trajes azuis e as botas de cano alto, saltou do banco, saudando aqueles uniformes tão familiares. Não podia perceber a atmosfera angustiante que a presença daqueles rapazolas provocou, nem o tremor do ar entre as pessoas que se apinhavam cada vez mais perto dos trilhos. O menino vira desde sempre uniformes como aquele em sua casa. Seu pai usava um, seu irmão Fernando também. Eles eram os vencedores, dizia seu pai.

Não tinham nada a temer. Nada. No entanto, aquela gente na plataforma se comportava como um rebanho de ovelhas empurradas para o precipício pelos lobos que as rodeavam. Alguns falangistas obrigaram uns passageiros a saudar com o braço erguido e cantar “De cara para o sol”. Andrés ouvia o estribilho do hino de Juan Tellería, e seus lábios, tão adestrados ao mesmo discurso, o repetiam inconscientemente. O impulso tinha se tornado reflexo: Voltará a sorrir a primavera que no céu, terra e mar se espera. Avante, esquadras, vamos vencer que na Espanha começa a amanhecer… Sua mãe, porém, cantava o “De cara para o sol” sem o entusiasmo de antes. Sua ânsia de paz, como a de tantos outros, não passava de uma ilusão. Nesse momento ouviu-se um apito de locomotiva e todo mundo se agitou, movido por uma corrente invisível. O trem entrou na estação, reduzindo a velocidade com o chiado vaporoso dos freios e separando as duas plataformas da estação com seu corpo metálico. Assomavam cabeças de todas as formas, com quepes, chapéus, descobertas, e dezenas e dezenas de mãos apoiadas nas janelas. Quando o chefe da estação ergueu a bandeira vermelha e o fiscal abriu a porta, os passageiros se misturaramuns aos outros com suas tralhas e suas vozes, os pais dirigindo a acomodação nos vagões estreitos, as mães puxando os filhos para não se perderem no tumulto. Por um instante, o cotidiano, o esforço suplantou a calma intranquila de minutos antes, substituindo-a pelo suor do necessário. Em cinco minutos soaram dois apitos, luz verde, e o trem tossiu, moveu-se para a frente tomando embalo, pareceu que ia falhar no arranque, mas finalmente alcançou a inércia da marcha, deixando para trás as plataformas da estação vazias e silenciosas envoltas numa nuvem de fumaça. Isabel não pegou esse trem. Não era o que estava esperando. Mãe e filho ficaram de mãos dadas na plataforma deserta, com a respiração condensada saindo dos lábios arroxeados, sob a luz azulada do dia detrás das nuvens brancas e compactas. O olhar de Isabel ia atrás do último vagão daquele trem, que penetrava na brancura até desaparecer. — A senhora está bem? A voz masculina soou bem perto. Isabel se sobressaltou. Embora o homem tivesse afastado o rosto alguns centímetros, dava para perceber seu hálito contaminado por uma cárie ou uma gengiva malsã. Era o chefe de estação. — Estou esperando o trem das quatro — respondeu Isabel, com uma voz que parecia querer se esconder. O homem ergueu os olhos acima da viseira do quepe e consultou as horas no relógio ovalado da parede. — É o trem que vai para Portugal.

Falta mais de uma hora e meia — informou com certa estranheza. Ela começava a temer a curiosidade daquele sujeito, cujas mãos não via, mas imaginava comunhas sujas de graxa. — Eu sei. Mas prefiro esperar aqui. O chefe da estação olhou para Andrés sem expressão. Perguntou-se o que fazia ali uma mulher comum filho de dez anos esperando um trem que ainda demoraria a chegar. Concluiu que devia ser mais uma das loucas que a guerra desenterrava. Devia ter sua história, como todos, mas não tinha interesse em ouvi-la. Muito embora fosse sempre mais fácil consolar uma mulher de pernas bonitas. — Se quiser um café — disse, utilizando desta vez o ronronado de um gato grande para falar —, posso lhe oferecer um, ali na minha sala. Um bom café torrado, nada dessa porcaria que servem na lanchonete. Isabel declinou. O chefe da estação se afastou, mas ela teve a sensação de que se virava algumas vezes para examiná-la. Fingindo uma tranquilidade que estava longe de sentir, pegou sua bolsinha de viagem. — Vamos entrar. Se não, você pega um resfriado — disse ao filho. Na sala de espera, pelo menos os pulmões não doíam ao respirar. Procuraram um lugar para sentar. Ela deixou o chapéu no banco e acendeu um cigarro, ajustou-o na piteira e aspirou a fumaça adocicada. Seu filho ficava extasiado vendo-a fumar. Nunca mais voltaria a ver outra mulher fazê-lo com aquela elegância. Isabel abriu a mala de viagem e pegou um dos seus caderninhos de capa envernizada. De entre as páginas caiu o papel em que o professor Marcelo havia anotado as coordenadas da sua casa emLisboa. Não pensava em esconder-se lá por muito tempo, apenas o necessário até conseguir uma passagemem algum cargueiro que pudesse levá-los, a ela e Andrés, para a Inglaterra. Sentiu pena do professor.

Sabia que, se Guillermo ou Publio descobrissem que Marcelo a ajudara a fugir, ele passaria por maus bocados. Em certo sentido, sentia-se culpada: não tinha dito toda a verdade, só o que precisava para convencê-lo, coisa que não havia sido difícil, aliás. A mentira era um recurso necessário nesses momentos. Sempre soubera que Marcelo estava apaixonado por ela e não tinha sido difícil usar isso a seu favor, inclusive quando deixou claro ao professor que seus sentimentos não iam além da amizade. — É melhor ter sua amizade do que não ter nada — ele lhe dissera, com aquele ar de poeta pobre que os professores rurais têm

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