| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Ultima Aposta – Trish Morey

BAHIR AL-QADIR detestava perder. Para um homem que quebrava a banca de mais da metade dos cassinos do mundo sistematicamente, perder não era uma experiência frequente ou fácil. Agora, enquanto observava outra pilha de fichas sendo varrida da mesa de roleta, o gosto da perda amargou sua boca, e uma nuvem negra de desespero pairou sobre sua cabeça. Pois fazia três noites que vinha experimentando essa onda de azar, a qual ainda parecia não ter acabado. E nem mesmo o conhecimento de que roleta era um jogo designado a dar lucro à casa foi alguma compensação. Não quando ele estava acostumado a ganhar. Que irônico que a sorte o abandonara agora, justamente quando tinha contado com a diversão do cassino para melhorar seu humor. Ele poderia ter rido da ironia, exceto que não estava no humor para risadas. Entretanto, conseguiu pôr um sorriso no rosto enquanto posicionava a última pilha de fichas numquadrado preto, e olhou na direção do crupiê para informá-lo de que estava pronto. E daí se já gastara uma pequena fortuna? Era um profissional consumado. Sua nuca podia estar úmida de transpiração, e seu estômago se revolvendo, mas não permitiria que nenhum dos exploradores ao redor da mesa visse seu desolamento em sua expressão facial ou linguagem corporal. O crupiê perguntou se haveria mais apostas, mesmo sabendo que não. Um por um, os outros jogadores desistiram, contentes em observar o impensável, em assistir Bahir… o famoso sheik de Spin… perder, até que só restassem ele e a roleta numerada. Com um movimento ensaiado de um dos pulsos, o crupiê fez a roleta girar; um tapinha do outro pulso enviou a bola na direção oposta. Um fio de esperança fraca foi renovado. Certamente dessa vez? Um nó se formou no estômago de Bahir enquanto a bola girava. Suor começou a escorrer por suas costas sob a camisa. E, apesar disso, ele forçou um sorriso, relaxou a postura. – Rien ne va plus! – anunciou o crupiê desnecessariamente, pois ninguém parecia prestes a fazer outra aposta. Todos observavam o movimento da bola. Bahir também observava, expectativa fazendo seu coração bater mais forte. Certamente dessa vez, em sua última aposta da noite, sua sorte mudaria? Certamente dessa vez, ele recuperaria um pouco do sucesso para levar consigo, para lhe mostrar que seu dom não o abandonara completamente? Então a roda diminuiu, e ele viu onde a bola parou: no vermelho, a cor que traduzia o número irrelevante. Ele tinha perdido. Novamente. Bahir agradeceu ao crupiê, como se não tivesse gastado mais do que o preço de uma xícara de café, ignorando os murmúrios chocados dos expectadores, pretendendo sair de lá com a cabeça erguida, mesmo que quisesse abaixá-la nas mãos.


Que diabo estava errado com ele? Bahir não perdia. Não assim. A última vez que sofrera uma perda como esta… Reprimiu os pensamentos. Não tomaria esse caminho. A última coisa de que precisava pensar hoje era sobre ela. Ela era a razão pela qual ele estava lá, afinal de contas. – Monsieur, s’il vous plait – soou uma voz sedosa, e ele se virou para ver Marcel, o anfitrião que o cassino lhe designara esta noite. O anfitrião perfeito até agora, mantendo distância, assim como mantendo a expressão livre da alegria que, sem dúvida, estava sentindo. – Sheik Al-Qadir, a noite não precisa acabar aqui. Se desejar, o cassino ficará mais do que feliz de estender seu crédito para prolongar seu entretenimento. Bahir lhe estudou o rosto. A expressão neutra do homem podia não dizer nada, mas havia uma ansiedade nos olhos acinzentados que fez sua pele se arrepiar. Então eles achavam que Bahir continuaria perdendo? O desafio ferveu em seu sangue por um momento, mas foi esmagado pelo conhecimento de que tudo que vinha fazendo desde que entrara naquele estabelecimento, três dias atrás, era perder. Então, talvez eles estivessem certos, o que lhe dava ainda mais razão para ir embora agora. Além disso, não precisava do dinheiro deles, pois ganhou muito ao longo dos anos para não precisar se preocupar em perder alguns milhões. O problema não era o dinheiro. Era perder que o enfurecia. A palavra parecia martelar em sua cabeça: perdedor. Bahir sorriu, apesar disso. – Obrigado, mas não. Ele estava na metade do caminho para a saída, antes que Marcel o alcançasse. – Certamente, a noite é uma criança? Bahir olhou ao redor. Uma pessoa podia facilmente pensar aquilo, lá. Trancado sob os candelabros de cristal, cercado de móveis de luxo e de mulheres de aparência ainda mais luxuosa, sem uma janela para indicar a hora do dia, era possível perder toda a noção de tempo. Ele consultou seu relógio, percebendo que, mesmo indo embora agora, a luz do dia não estava longe de chegar.

Mas seu anfitrião ainda persistiu. Sem dúvida, ele seria muito bem recompensado se convencesse Bahir a perder mais um pouco. – Nós o veremos esta noite, então, sheik Al-Qadir? – Talvez. – Talvez não. – Eu mandarei uma limusine buscá-lo em seu hotel. Talvez você tenha tempo para um jantar e um show antes? Por conta da casa, é claro. Vamos dizer, às 20h? Bahir parou então, apertando a ponte do nariz, tentando produzir dor ali para amenizar o latejar emsua cabeça. Não pela primeira vez, ficou grato por não ter aceitado a oferta de acomodação do cassino. Havia vantagens em rejeitar alguns dos benefícios que o cassino oferecia aos apostadores perdulários. A habilidade de ir e vir quando você quisesse, por exemplo. Estava prestes a dizer a Marcel que não tinha o menor interesse na limusine ou no show, quando viu… um flash de cor, do outro lado do salão, sobre pele cor de mel e cabelos cor de ébano presos por uma fivela de diamante… e, por um momento, foi lembrado de outra época, de outro cassino. E de outra mulher; a mulher que o fizera ir lá expressamente para esquecê-la. Ele balançou a cabeça, querendo se livrar das memórias, sentindo a onda de calor de um coração subitamente disparado. – Sheik Al-Qadir? – Vá embora, Marcel – ordenou ele, dessa vez o explorador aceitou a dispensa e, com um rápido boa-noite, misturou-se à multidão do cassino. Não era ela, Bahir percebeu ao olhar melhor. Essa mulher tinha o queixo quadrado e a testa larga, os lábios como dois blocos vermelhos emoldurando a boca, a pele cor de mel mais como couro. E, é claro, como poderia ter sido ela? Ele a deixara com a irmã em Al-Jirad, e certamente, nem mesmo alguém tão irresponsável como ela abandonaria a família tão logo após o problema que todos tinhamenfrentado para resgatá-la de Mustafa? Então novamente, conhecendo Marina… Bahir praguejou baixinho enquanto se dirigia à saída. O que estava errado com ele esta noite? A última coisa que precisava era pensar sobre ela. Não, isso estava errado. A última coisa que precisava pensar era em pele cor de mel e em como ela ainda o atraía como um ímã, apesar da passagem do tempo e do abismo de raiva que existia entre eles. Todavia, quando Marina saíra daquela tenda no deserto, ele ainda sentira a atração em cada célula de seu corpo. Quanto tempo fazia agora… três anos? Mais? Entretanto, ela ainda conseguia excitá-lo com um único olhar daqueles olhos de sereia, um olhar que se tornara gelado no instante emque Marina percebera quem era um de seus salvadores. Mas ela ainda se movera com sensualidade, montando o cavalo como se tivesse nascido para aquilo, os membros tão delgados quanto ele se recordava, o corpo ainda esbelto e flexível, apesar do tempo e dos dois filhos que Marina agora tinha. E, com certeza, a pele dela ainda era tão sedosa quanto ele se lembrava. Bahir podia quase sentir novamente aquela pele sob suas mãos, as pernas longas o rodeando… Não pensaria sobre ela ou sobre seus membros longos e pele sedosa! Passado ou presente, Marina era problema.

Ela era o pior tipo de jogo, a aposta perdida antes mesmo que a roleta girasse. Um porteiro lhe desejou boa-noite quando ele passou, embora o céu do lado de fora já começasse a clarear. Bahir inalou o ar frio da manhã, tentando esfriar sua pele e acalmar seus nervos, procurando pela promessa de um novo dia. Em vez disso, sentiu apenas frustração. Movimentou os ombros, protestando contra a tensão não familiar em suas costas e pescoço. Quando sentira seus músculos tão rígidos antes? Quando sentira seu espírito tão sombrio? Mas já sabia a resposta para essas perguntas. E não queria pensar naquilo, também. Bahir entrou na limusine que o esperava, afrouxou a gravata e se recostou contra o banco, subitamente cansado do mundo, impaciente com sua vida. Tinha pensado que o cassino reavivaria seus ânimos. Em vez disso, sua sorte o abandonara e o afundara ainda mais na lama. Olhou pela janela, para o calçadão alinhado por palmeiras, para o mar com ondas brancas. Mônaco era lindo, sem sombra de dúvida, e um ímã para os ricos e famosos, e para aqueles que almejavam ser. Mas naquele momento, Mônaco e todo o sul da França pareciam banais e vazios. Ele precisava fugir, mas para onde? Las Vegas? Não, isso não teria propósito. Cassinos nos Estados Unidos ofereciam vantagens ainda melhores para a casa. E Bahir ainda não era bem-vindo em Macau, depois que ganhara muito dinheiro lá. Uma imagem espontânea se formou em sua mente, uma lembrança recente de dunas no deserto, sol dourado e emoldurado entre palmeiras, enquanto baixava de maneira inexorável no horizonte cintilante. O deserto? Bahir se sentou ereto, seu interesse aumentando, mesmo que se questionasse se estava louco no momento seguinte. Sua visita recente a Al-Jirad o reunira com seus três velhos amigos: Zoltan, Kadar e Rashid. Mas nenhum deles havia apreciado mais que um gostinho do deserto, quando tinhamresgatado, primeiro, a princesa Aisha e depois a irmã dela, Marina, das garras do canalha do Mustafa. A primeira viagem fora estimulante, cavalgando com seus três amigos numa corrida contra o tempo ao longo das dunas. A segunda, menos estimulante, embora os cavalos e as companhias fossem os mesmos, assim como a vista da natureza magnífica. Era ver Marina novamente, depois de todos aqueles anos, que estragara a viagem para ele. De todas as mulheres do mundo, que falta de sorte que Zoltan se casara com a irmã dela, a mulher que Bahir jurara nunca mais ver em sua vida. Até mesmo mais desafortunado era o fato de que ela ainda o abalava com um único olhar.

Talvez uma visita de volta ao deserto pudesse curá-lo. Talvez o sol do deserto a queimasse de seu cérebro, fazendo-o esquecê-la de uma vez por todas. E talvez não apenas qualquer deserto. Talvez fosse hora de voltar para casa. Casa. Há quanto tempo não pensava no deserto como sua casa? Há quanto tempo não chamava lugar algum de lar? Mas por que não deveria ir agora? Não precisava estar em lugar algum. Não precisava agradar ninguém, exceto a si mesmo. E dessa vez levaria tempo para absorver as cores e a textura do deserto, para absorver o poder da imensidão e inalar o ar puro sob o calor do sol. Porém, mais do que isso, no deserto não haveria flashes de cores do outro lado de um salão lotado; nada que o lembrasse de outra época e de outra mulher que queria esquecer. Bahir respirou fundo, contente pela primeira vez em dias, fazendo uma anotação mental para checar voos e cuidar dos preparativos depois que dormisse. Felizmente, essa noite acabara. Comcerteza, o período de azar também devia ter acabado? Porque, agora, não podia ficar muito pior. Seu celular vibrou no bolso. Ele pegou o telefone, curioso para saber quem estaria ligando tão cedo no dia, menos surpreso quando verificou o identificador de chamadas. Pressionou o telefone na orelha. – Zoltan, o que eu posso fazer por você? Ele ouviu, enquanto o amanhecer pintava o céu de cor-de-rosa, e seu período de má sorte se tornava ainda pior. CAPÍTULO DOIS – NÃO. – Bahir – insistiu seu amigo –, apenas ouça. – Seja lá o que for, eu não preciso ouvir. A resposta ainda é não. – Mas ela não pode viajar sozinha para casa. Eu não permitirei isso. – Eu pensei que Mustafa estivesse na prisão. – Ele está, mas eu cometi o erro de subestimá-lo uma vez, antes. Não farei o mesmo de novo.

Enquanto houver a possibilidade de alguém aqui fora ainda ser leal a ele, eu não arriscarei a segurança da irmã de Aisha. Bahir passou uma das mãos pelos cabelos. – Então peça para Kadar fazer isso. – Kadar tem negócios urgentes em Istambul. Ele gemeu. – Que conveniente. Rashid, então. – Você conhece Rashid. Ele desapareceu. Ninguém sabe onde ou quando aparecerá novamente. Ele só podia estar sonhando, pensou Bahir apertando o nariz para tentar acordar. Mas o pesadelo era real. – Ouça, Zoltan, não precisa ser um de nós! Por que não escolher um dos guardas do palácio para cuidar dela? – Eles estão ocupados. – Uma pausa. – Ademais, Aisha especificamente pediu que você fizesse isso. Bahir hesitou. Gostara do que vira na nova esposa de Zoltan. Não podia imaginar uma mulher melhor para seu amigo. Em quaisquer outras circunstâncias, não hesitaria em fazer o que ela lhe pedisse. Mas Aisha não tinha ideia do que estava lhe pedindo. – Aisha está errada. – Mas você conhece Marina. – Esse é exatamente o motivo pelo qual estou dizendo não. – Bahir… – Não. O fato de eu ter concordado em ir com você resgatá-la não é o bastante? Não me pressione, Zoltan.

Por que não faz isso pessoalmente, se quer tanto que Marina seja escoltada para casa? – Bahir – veio a voz hesitante de seu amigo do outro lado da linha. – Há algo errado? – Nada está errado! – Tudo está errado. – Ouça, Zoltan, nós terminamos o relacionamento por uma razão. Marina me odeia, e, no que diz respeito a mim, o sentimento não é muito diferente. Ela pode ser sua cunhada, mas você não a conhece como eu. Ela é irresponsável, uma garota festeira que nunca fez nada por outra pessoa. É mimada e teimosa, e se não lhe dão exatamente o que quer, Marina vai à luta e se apossa, independentemente das consequências. E, como se isso não bastasse, ela não tem um pingo de moral. Eu não vou voltar lá, Zoltan. – Meu Deus, Bahir, eu não estou lhe pedindo que se case com Marina. Tudo que precisa fazer é levá-la para casa em segurança. – E eu estou lhe dizendo para encontrar outra pessoa. Houve silêncio do outro lado da linha. Um silêncio tenso que não fez nada para encorajar Bahir a pensar que tinha convencido seu amigo. – Sabe, Bahir, se eu não o conhecesse melhor… Bahir sentiu vontade de gritar. – O quê? – Qualquer um que não o conhecesse bem pensaria que você está… preocupado… sobre passar tempo com Marina. – Está sugerindo que eu estou com medo? – Você está? – Você não entende, Zoltan. Mesmo que eu concordasse com seu pedido, Marina nunca concordaria em ir comigo para lugar algum. Não me ouviu dizer que ela me odeia? Se tivesse se incomodado em lhe perguntar, já saberia disso. Houve uma pausa significativa, e Bahir sentiu um fio de esperança ao ver uma saída para aquela loucura. – Nesse caso, você poderia tentar perguntar a ela. Marina lhe dará a mesma resposta que eu. Não. Se está tão convencido que ela precisa de alguém para cuidar de sua segurança, então encontre outra pessoa para fazer isso. – E se ela concordar? Ele riu.

– Ela nunca irá concordar. Nem em um milhão de anos. – Se ela concordar, você fará o que eu lhe pedi? – Isso não vai acontecer. – Certo… então, se Marina disser não, eu encontrarei outra pessoa e, se ela concordar, você irá escoltá-la? – Zoltan… não há possibilidade… – Isso é uma aposta? – Ela não dirá sim. – Se havia algo que Bahir pudesse ter certeza absoluta era de que Marina não queria estar em sua companhia. Especialmente depois do jeito que eles tinham se separado. – Eu sei disso. – Nesse caso, você não tem nada com o que se preocupar. – DE JEITO nenhum! – Marina! – Aisha chamou quando sua irmã se levantou da cadeira do jardim, onde elas estavam sentadas, juntas. – Apenas ouça. – Para que ouvir, se o que você diz não faz sentido? – retrucou ela, andando para mais longe. Aisha a seguiu. – Zoltan e eu não queremos que você vá para casa sozinha. Não consegue entender isso? Você precisa de uma escolta. É o mínimo que podemos fazer. – Eu ficarei bem. Não é tão longe assim. – Como você também pensou que ficaria bem no caminho para cá, lembra? Marina meneou a cabeça. – Mustafa está preso. E dessa vez eu não viajarei por terra. Ponha-me num avião particular. Nada pode dar errado. – Você irá num avião particular, sem dúvida, mas não sozinha. Não dessa vez. – Tudo bem! Então, designem-me um guarda-costas, se vocês acham tão necessário.

Mas eu não irei com aquele homem! Foi ruim o bastante encontrá-lo me esperando do lado de fora da tenda de Mustafa. Se eu não soubesse que todos estavam temendo por mim, teria entrado na tenda de novo. – E aquilo não tivera nada a ver com os arrepios que sentira ao encontrá-lo entre seus salvadores; nada a ver com o ardor do desejo que testemunhara nos olhos de Bahir, antes que esses se tornassem frios como gelo. Aisha estudou sua irmã. – Não parecia tão aborrecida assim quando chegou ao palácio. “Um golpe do passado”, você o chamou. Eu tive a impressão de que os acontecimentos do passado não eram tão sérios. Não sérios. Marina abriu os braços, seus dedos roçando as flores de uma trepadeira de jasmim no processo e enviando um perfume delicioso no ar. Ela balançou a cabeça e cruzou os braços sobre o peito. – Vocês todos estavam tão felizes com minha segurança… como eu poderia criar uma confusão? Além disso, achei que aquilo tinha acabado, que eu nunca mais fosse vê-lo. E, claramente, Bahir também ficou aliviado porque o reencontro acabara. E, ao ver a pergunta nos olhos de sua irmã, acrescentou: – Ele não foi para Monte Carlo naquele mesmo dia? Sem dúvida, para não correr o risco de me encontrar novamente enquanto eu estava no palácio. – Oh, Marina, eu não tinha ideia. – Aisha deslizou uma mão por baixo e um dos braços cruzados de sua irmã e a persuadiu a caminhar pelo jardim fragrante. – O que aconteceu entre vocês dois? O que não tinha acontecido? Marina abaixou a cabeça, o peso das lembranças a entristecendo. – Tudo e nada. Tudo deu em nada. – Na verdade, não em nada. Ela ainda tinha Chakir. – Eu era tola. Ingênua. Voei para muito perto do sol, e não é de se admirar que eu tenha caído. – Certo. Então você teve um caso que acabou mal? E agora foi a vez de Marina virar-se e apertar o braço de sua irmã.

– Sinto muito, Aisha. Sei que não estou fazendo sentido. Eu conheci Bahir uma noite numa festa… nossos olhares se cruzaram num cassino lotado, todo o clichê tedioso, suponho. Ela olhou para sua irmã, tentando fazê-la entender. – Mas a atração foi tão intensa, tão imediata que eu soube, naquele instante, que nós passaríamos a noite juntos. E uma noite se transformou em uma semana, e depois em um mês e mais, e foi uma experiência impulsiva e apaixonada que não parecia que ia acabar. E eu realmente pensei que o amasse, sabe? Cheguei a pensar, por um momento louco… talvez mais do que um… que Bahir fosse o homem de minha vida. – Ela suspirou, olhando a distância. – Mas eu não podia estar mais errada. – Oh, Marina, lamento. Eu não tinha ideia. – Como poderia ter, se eu nunca vim para casa e lhe contei? E nós parecíamos ter tão pouco em comum naquela época. Você estava contente em continuar no seio da família, enquanto eu me rebelava contra tudo. Nossos irmãos providenciaram os herdeiros necessários, e nosso pai foi bemsincero quanto a isso. Eu entendi que era desnecessária aos requerimentos; então decidi me divertir. – Uma princesa supérflua. – Aisha falou baixinho para si mesma, lembrando-se de outra época, outra conversa. – O que você disse? Ela sorriu e meneou a cabeça quando elas recomeçaram a andar. – Nada. É engraçado como somos diferentes. Mas houve vezes em que eu a invejei por sua liberdade e pelo fato de que você escolhia seus próprios amantes. Houve dias em que desejei ser mais como você, teimosa e rebelde, em vez de dócil e obediente. Mas suponho que ambos os comportamentos têm suas desvantagens. – Amém. – Marina suspirou e ergueu o rosto para o céu.

– E agora você está casada com um dos melhores amigos de Bahir. – Mundo pequeno, não é, quando alguém que lhe mandou desaparecer de sua vida para sempre de súbito aparece à sua soleira? Oh, Aisha, eu não posso ir com ele! – Lágrimas inundaram seus olhos pela dor do passado. Lágrimas escorreram por suas faces pelas complexidades do presente e por seu medo do futuro. – Que confusão! – Ele deve ter magoado tanto você. – Ele me odeia. – Tem certeza? Bahir estava lá quando eles a resgataram. – Duvido que ele quisesse estar. Fez aquilo porque era o que os outros esperavam. Aisha assentiu. – É verdade que eles são próximos. Zoltan me disse que eles eram os irmãos que ele nunca teve. Mas odiá-la? Pessoas falam coisas no calor do momento… coisas estúpidas… mas não pensam assim, realmente. Marina pressionou os lábios, até que encontrasse as palavras, o fardo de seu segredo subitamente pesado demais para suportar. – Oh, ele me odeia. Mesmo se Bahir tiver esquecido o quanto, irá me odiar quando descobrir a verdade. Aisha parou de andar e se virou para ela, medo nos olhos. – Descobrir que verdade? Marina a fitou com expressão triste. – A verdade sobre o filho dele. Sua irmã ficou boquiaberta. – Oh, não, Marina. Chakir é filho de Bahir? Ela assentiu. – Mas você me disse que não sabia quem era o pai. – Eu sei. Foi mais fácil assim. E ninguém teve problema em acreditar nisso.

– Eu sinto muito! – Não sinta. Eu tinha reputação de garota festeira, e isso foi útil, facilitando esconder a verdade. Foi mais fácil fingir que não importava. – Você escondeu mesmo de Bahir? – Ele não tem ideia. Aisha parou no caminho, e, quando encarou sua irmã, Marina temeu o que viu nos olhos dela. – Eu acho que você precisa subir naquele avião. Com Bahir. Marina se afastou. – Eu não vou com ele. Não posso encará-lo. – Mas você tem de contar a ele. – Tenho? – É claro que tem! Precisa contar-lhe que ele é pai; que tem um filho. Ela meneou a cabeça. – Bahir não quer saber. – Ele tem o direito de saber. Você deve lhe contar. Não tem escolha. – Ele não irá querer ouvir. Nunca quis um filho. – Então, talvez ele devesse ter pensado sobre isso. – Aisha apertou os ombros de sua irmã. – Eu direi a Zoltan que está tudo acertado. – Não! Eu só lhe contei para que você entendesse por que não posso vê-lo novamente. Do contrário, nunca teria lhe contado. Sua irmã deu um sorriso triste.

– Acho que você me contou porque já sabe o que tem de fazer. Apenas precisava ouvir isso de outra pessoa. SABER QUE Aisha estava certa não tornava mais fácil embarcar no avião particular emAl-Jirad. Nada fácil, quando ela vira o avião aterrissar e sabia quem já a esperava do lado de dentro. Como Zoltan conseguira convencer Bahir a fazer aquilo, ela não tinha ideia. Mas sabia que ele não estaria feliz com a situação. – Você pode fazer isso. – Aisha deu um último abraço em sua irmã. – Eu sei que pode. Marina sorriu fracamente em retorno, desejando que acreditasse em Aisha, e acenou antes de desaparecer dentro da escada coberta que levava ao avião. Suas pernas tremiam tanto de nervoso que ela pensou que poderia cair da escada. Um destino preferível, sem dúvida, a estar confinada à cabine de um avião com Bahir. Mas isso tinha de ser feito. Por mais de três anos, ela vinha lutando com a dúvida se contava a Bahir sobre a existência de Chakir ou não. No começo, havia sido fácil não falar nada, a dor do rompimento deles ainda crua, a declaração de Bahir de que nunca teria filhos ainda predominante emsua cabeça. Por que Bahir deveria ser informado da existência do filho quando lhe dissera que nunca mais queria vê-la? Ele não a agradeceria por descobrir que, independentemente do que cada umdeles quisesse, estavam unidos pela vida de uma criança que haviam criado juntos. Então, quando Hana viera ao mundo, houvera muitas coisas nas quais pensar, e foi fácil ignorar a questão do direito de Bahir saber. Subitamente mãe de duas crianças sem pai, por que complicar as coisas com o pai de apenas uma dessas crianças? E Bahir deixara claro que não era um homem de família. Não queria Marina ou a criança, e elas certamente não precisavam dele. Mas, ultimamente, ela tivera motivos para racionalizar, enquanto observava seu filho crescer, e se perguntava o que Chakir queria. Engoliu o nó de apreensão em sua garganta. Então, apesar de Bahir ter lhe dito que nunca queria um filho e embora Marina estivesse mais do que feliz em aceitar isso como a palavra final dele, talvez, pelo bem de seu filho, aquilo valeria a pena. Por favor, Deus, faça com que valha a pena. Marina forçou um sorriso para a comissária de bordo que lhe deu as boas-vindas ao avião. Então entrou, e ele estava lá, de costas para ela, diante de uma prateleira com revistas, parecendo distraído de sua presença.

Ela gostaria de estar distraída da presença de Bahir também, mas não conseguia. Somente a visão dele foi o bastante para fazer seu coração disparar, e uma onda de calor se instalar entre suas coxas. Amaldiçoou a reação de seu corpo. Algum dia seria capaz de olhar para Bahir e não pensar em sexo? Depois de todas as coisas que ele lhe dissera, depois do jeito que eles tinham se separado, ele ainda invocava imagens de lençóis emaranhados e noites ardentes preenchidas com pecado. Mas, então, como era possível não pensar em sexo quando era um tipo de deus que preenchia sua visão? Havia alguma fórmula para perfeição masculina? Algum número mágico que a natureza determinara na concepção que marcava um homem por supremacia física? Se assim fosse, esse homem seria Bahir, e aquela era apenas a visão das costas dele. Ele se virou então, quando a comissária de bordo a incentivou a tomar o assento do corredor, e o ressentimento nos olhos de Bahir fez Marina esquecer tudo sobre números mágicos. – Bahir – murmurou ela em reconhecimento. – Princesa – disse ele, assentindo com a cabeça, antes de voltar sua atenção à prateleira de revistas. A comissária de bordo conversava alegremente enquanto acomodava Marina na larga poltrona de couro, mas Marina não ouvia uma palavra, muito consumida pela reação de Bahir, muito perplexa para pensar qualquer outra coisa. Então era isso que receberia… o tratamento de silêncio. Claramente, Bahir se ressentia por estar em sua companhia tanto quanto ela se ressentia por estar na dele. Também era óbvio que ele não estava no humor para conversas superficiais. O que era ótimo para Marina, contanto que, em algum momento, ela encontrasse uma maneira de lhe contar que ele era pai. BAHIR TENTOU se concentrar na revista de negócios que selecionara da prateleira, mas, percebendo que isso era impossível, a deixou de lado. A revista não era diferente do jornal on-line que estivera lendo desde que embarcara no avião em Nice, sua atenção fixa não nas palavras que estava tentando ler, mas num ressentimento que aumentara quanto mais o avião se aproximava de Al-Jirad. Por que diabos concordara em fazer aquilo novamente? Ainda não tinha certeza se concordara. Mas Zoltan havia ligado e dito que Marina concordara em ir com ele, e Bahir sabia que pareceria fraco se recusasse mais uma vez. Era muito melhor fingir que aquilo não importava. Exceto que importava. Porque agora, enquanto a comissária guardava a bagagem de mão de Marina e a acomodava, e enquanto ele tentava fingir que ela não estava lá, seus olhos ainda estavam presos pelas imagens capturadas em suas retinas… Aqueles olhos incríveis, as pupilas grandes, a expressão sedutora. Com um suspiro, Bahir pegou seu notebook, determinado a não ceder, tentando encontrar foco em vez de distração. Porque, se não bastasse que sua mente estivesse repleta de imagens dela, agora podia sentir o cheiro de Marina também. Lembrava-se daquele aroma, uma mistura de jasmim, frangipani e mulher ousada. Recordava–se de pressionar o rosto na curva do pescoço dela e inalar aquela fragrância única. Bahir se movimentou no assento e fechou o computador quando o avião começou a correr na pista.

Quanto tempo levava o voo para Pisa… três horas? Quatro? Ele gemeu. Tempo demais, certamente. COMO VOCÊ achava as palavras para dizer a alguém que ele era pai? Não com facilidade, especialmente quando esse homem estava sentado do outro lado do corredor, parecendo gemer e resmungar sozinho. O que ela deveria dizer? Com licença, Bahir, mas eu já lhe contei sobre nosso filho? Ou, Parabéns, Bahir, você é pai de um menino de três anos. De alguma maneira, eu devo ter me esquecido de lhe contar… O avião parou no começo na pista de decolagem, e ela olhou para o outro lado do corredor, vendo a postura fechada de Bahir, a expressão mal-humorada. Apesar de Marina olhá-lo longamente, e de ter certeza de que ele estava cônscio disso, ele ainda se recusou a olhar na sua direção. E ela se perguntou como, mesmo se conseguisse achar as palavras, iria lhe contar sobre o filho quando ele nem sequer a olhava? Bahir a odiava tanto assim? Quanto mais a odiaria quando soubesse a verdade? Marina fechou os olhos quando o avião acelerou na pista, forçando-se a relaxar durante a decolagem. Não que houvesse tanta pressa. Eles tinham quatro horas de voo, e depois duas horas de carro até sua casa, ao norte da Toscana. Por que contar a ele agora e estragar a trégua frágil que parecia existir entre eles? Pois Bahir não permaneceria silencioso quando soubesse. Ele se tornaria intolerável. Talvez com um pouco de razão. Entretanto, por que tornar as horas deles mais difíceis do que já eram? Não, havia muito tempo para lhe contar. Mais tarde. ELES ESTAVAM voando há uma hora quando receberam a notícia. Uma hora de silêncio interminável, preenchido com a estática de todas as coisas que não tinham sido ditas, até que o ar na cabine parecia crepitar com tensão, um silêncio pontuado apenas pela comissária de bordo, que às vezes aparecia, oferecendo drinques ou refrescos. Mas, dessa vez, ela estava acompanhada do copiloto, e nenhum deles sorria. – Então sobrevoe ao redor – disse Bahir, depois de ouvir o triste anúncio, impaciente demais para que a viagem acabasse para tolerar atrasos, qualquer que fosse o motivo. – Isso não é possível – explicou o copiloto. – A massa de ar está vindo bem na nossa direção. E corremos o perigo de sermos cobertos pelo gelo se tentarmos passar. As autoridades da aviação estão ordenando que todos saiam da área. – Então, o que isso significa? – perguntou Marina. – Nós não podemos chegar a Pisa? – Não por enquanto. Iremos aterrissar no aeroporto mais próximo.

Começaremos a descida embreve. Apertem os cintos de segurança, pois poderemos ter turbulência. Bahir geralmente não tinha problema em ficar sentado. Podia permanecer sentado por horas quando sua sorte estava ao seu lado. Porém, nesse momento, não aguentava ficar sentado nem mais um minuto. Estava fora de seu assento e de pé no momento em que o copiloto e a comissária desapareceram. Deus, se não era ruim o bastante ter de passar seis horas na companhia de Marina, agora eles seriamforçados a passar ainda mais tempo juntos. – O copiloto sugeriu manter o cinto de segurança apertado. Ele a ignorou o máximo que possível. Esse era o problema com aviões, percebeu. Não havia espaço suficiente para você se distanciar de algo que o estava incomodando, e, no momento, Bahir precisava muito se distanciar da mulher que o perturbava. Além disso, qualquer possível turbulência do lado de fora não seria nada em comparação com sua turbulência interna. Ele se virou e andou para o outro lado, cobrindo a extensão da cabine em poucos passos, mas não sentindo nenhum alívio. – O copiloto disse… – Eu sei o que ele disse! – interrompeu Bahir, com irritação. – Oh, ótimo. Porque pensei que talvez você tivesse desenvolvido um problema de audição. Eu devia ter percebido que o problema era com sua capacidade de compreensão. – Oh, eu tenho um problema, e ele começa e termina com você. Ela piscou, fingindo inocência. – Eu fiz alguma coisa errada? De repente, a turbulência dentre de Bahir explodiu. Ele se aproximou e pôs as mãos nos braços da poltrona dela, uma de cada lado, o rosto bem perto do de Marina. Ele quase gemeu de satisfação ao vê-la se encolher. Gostava de saber que a pegara de surpresa. E, estranhamente, também gostava de saber que ela ainda se sentia afetada por sua presença. – Que jogo você acha que está fazendo? A centímetros dos seus, aqueles ricos olhos cor de caramelo se arregalaram.

Bahir se perdera neles uma vez, nas promessas dos mesmos. Mas isso tinha sido antes, e, apesar do poder sedutor de tais olhos, ele não permitiria se perder novamente. – Eu não sei do que você está falando. Ele balançou a cabeça com incredulidade. – Então talvez eu deva lhe dizer. Estou falando sobre estar preso aqui… com você. Eu expressamente falei para Zoltan que não faria isso. E que, em hipótese alguma, você concordaria. Todavia, aqui estamos nós, juntos. Como acha que isso aconteceu? A menos que você tenha concordado. E preciso me perguntar: que possível razão você teria para fazer isso? Marina tentou esconder seu nervosismo, mas ele a viu engolindo em seco. Bahir havia se treinado para detectar as mínimas mudanças em expressões faciais e linguagem corporal de seus oponentes, uma habilidade que o ajudava muito no jogo de pôquer. Sabia que ela estava escondendo alguma coisa. Marina imaginava que haveria outra chance para eles? Achava que, pelo fato de ter acompanhado Zoltan e os outros ao acampamento de Mustafa, ele a queria de volta? Ela o olhou, a expressão inocente. – Acha que eu quero estar aqui, presa a milhares de metros acima da terra, com você e seu humor sombrio? Aquela não era exatamente uma resposta, e Bahir teria lhe dito isso, exceto que foi distraído por uma mecha de cabelos no rosto dela. – Alguém deve ter concordado. – Ele ergueu uma mão. – E, com toda certeza, não fui eu. Ela se encolheu novamente quando os dedos dele se aproximaram, prendendo a respiração enquanto ele afastava os cabelos do seu rosto. Bahir ficou surpreso ao sentir um leve tremor sobre a pele sedosa e ainda mais perturbado quando sentiu sua própria pele formigar. Abruptamente, endireitou o corpo e se posicionou de costas para ela, esfregando as mãos para se livrar da sensação indesejada. – Acha que eu não tenho coisas melhores para fazer do que perder meu tempo, cuidando de uma princesa mimada? – Eu concordo totalmente – replicou ela. – Tenho certeza de que há um cassino esperando perder dinheiro para o famoso sheik de Spin. Não imagino como você conseguiu sair de um. As mãos de Bahir pararam.

Ele não precisava de lembretes do por que ainda não estava a uma mesa de roleta. Virou-se devagar. – Cuidado, princesa. Marina ergueu o queixo.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |