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A Última Batalha do Instituto de Nova York (As Crônicas de Bane) – Cassandra Clare

O homem estava próximo demais. Encontrava-se perto da caixa de correio a mais ou menos 2 metros de Magnus e comia um cachorro-quente coberto de chili. Quando acabou, amassou o papel manchado de gordura e o jogou no chão, na direção do feiticeiro, depois enfiou o dedo num buraco em sua jaqueta jeans e não desviou o olhar. Era como o olhar que alguns animais lançavam a suas presas. Magnus estava acostumado a receber alguma atenção. As roupas que vestia provocavam essas reações. Ele usava botas prateadas Dr. Martens, jeans artisticamente rasgado e tão largo que apenas um cinto prateado estreito impedia que caíssem, e uma camiseta cor-de-rosa tão solta que deixava à mostra a clavícula e boa parte do peito — o tipo de roupa que fazia com que as pessoas pensassemem nudez. Pequenos brincos cobriam uma orelha, culminando em um maior, pendurado no lóbulo; um brinco em formato de um grande gato prateado, com uma coroa e um sorriso. Um colar de prata de cruz ansata repousava sobre o coração do feiticeiro, e ele vestia uma jaqueta preta, feita sob medida, com contornos de contas negras, mais para complementar a roupa do que para proteger contra o ar noturno. O visual se completava com um moicano cor-de-rosa. E ele estava apoiado no muro da clínica do West Village no meio da noite. Isso bastava para despertar o pior em algumas pessoas. A clínica era para pacientes portadores de AIDS. A epidemia do momento. Em vez de demonstrarem compaixão, bom senso ou solidariedade, muitas pessoas encaravam a clínica com ódio e nojo. Todas as eras se achavam tão iluminadas, e todas elas tinham mais ou menos a mesma escuridão de ignorância e medo. — Aberração — disse o homem finalmente. Magnus ignorou e continuou lendo It’s Always Something de Gilda Ragner, sob a fraca luz fluorescente da entrada da clínica. Irritado pela ausência de resposta, o homem começou a resmungar alguma coisa. O feiticeiro não conseguiu ouvir o que ele dizia, mas tinha um bom palpite. Semdúvida, insultos sobre a sexualidade que atribuiu a Magnus. — Por que você não segue seu caminho? — sugeriu, virando calmamente uma página. — Conheço um salão 24 horas. Eles consertam sua monocelha rapidinho.


Não foi a coisa certa a se dizer, mas, às vezes, essas coisas acabam escapando. Existe um limite para a quantidade de ignorância cega e estúpida que se pode aturar sem se irritar. — O que você disse? Dois policiais passaram naquele momento. Voltaram os olhares na direção de Magnus e do estranho. Um olhar de alerta para o homem, e um olhar de desprezo mal disfarçado por Magnus. O olhar magoou um pouco, mas Magnus, infelizmente, já estava acostumado a esse tratamento. Ele jurara havia muito tempo que ninguém jamais o mudaria — nem os mundanos, que o odiavam por ummotivo, nem os Caçadores de Sombras, que atualmente o caçavam por outro. O homem se afastou, mas olhou para trás. Magnus enfiou o livro no bolso. Já eram quase oito horas, realmente estava escuro demais para ler, e ele acabara se distraindo. Olhou em volta. Havia apenas alguns anos aquela fora uma das esquinas mais vibrantes, festivas e criativas da cidade. Comida boa em cada canto, e casais passeando. Agora havia pouca gente nos cafés. As pessoas caminhavam apressadas. Tantos tinham morrido, tantas pessoas maravilhosas. De onde estava, Magnus via três apartamentos outrora ocupados por amigos e amantes. Se dobrasse a esquina e caminhasse por cinco minutos, passaria por mais uma dúzia de janelas escuras. Mundanos morriam com tanta facilidade. Independentemente de quantas vezes já tivesse visto acontecer, nunca ficava mais fácil. Ele estava vivo havia séculos, e continuava esperando que a morte se tornasse mais fácil. Magnus costumava evitar essa rua justamente por isso, mas naquele dia esperava Catarina terminar o turno na clínica. Ele trocava o peso de um pé para o outro, e puxou a jaqueta, apertando-a mais no peito, arrependido por um instante de ter feito a escolha baseado no senso de moda e não no calor ou no conforto. O verão tinha durado muito, e depois as folhas nas árvores secaram rapidamente. Naquele momento, elas caíam depressa e as ruas estavam vazias e sem abrigo.

O único ponto de destaque era o mural de Keith Haring na parede da clínica — cartuns alegres em cores primárias, dançando juntos, com um coração flutuando acima deles. Os pensamentos de Magnus foram interrompidos pelo súbito reaparecimento do sujeito, que claramente tinha acabado de dar uma volta no quarteirão e se irritara completamente por causa do comentário de Magnus. Dessa vez, o homem se dirigiu ao feiticeiro, colocando-se diante dele, quase encostando as pontas dos pés nos deles. — Sério? — falou Magnus. — Vá embora. Não estou com humor para isso. Em resposta, o sujeito puxou um canivete e o abriu. A proximidade significava que mais ninguém podia vê-los. — Você percebe — acrescentou Magnus, sem olhar para a ponta da faca logo abaixo de seu rosto — que na posição em que você se encontra todo mundo vai achar que estamos nos beijando? E para mim isso é extremamente embaraçoso. Tenho um gosto muito melhor para homens. — Acha que não acabaria com você, aberração? Você… A mão de Magnus subiu. Uma onda quente e azul se espalhou entre os dedos, e, no instante seguinte, o agressor estava voando para trás pela calçada, e, em seguida, caiu e bateu a cabeça numhidrante. Por um momento, o homem de bruços não se mexeu, e Magnus temeu que o tivesse matado acidentalmente, mas então viu que se movia. Ele olhou para Magnus com os olhos semicerrados, uma combinação de pavor e fúria no rosto. Era evidente que ele estava um pouco confuso sobre o que acabara de acontecer. Um fio de sangue corria por sua testa. Naquele instante, Catarina apareceu. Ela avaliou a situação rapidamente, foi direto até o homemcaído e passou a mão na cabeça dele, contendo o sangue. — Saia de cima de mim! — gritou ele. — Você veio dali de dentro! Saia de cima de mim! Você está com a coisa toda em você. — Seu idiota — xingou Catarina. — Não é assim que se contrai HIV. Sou enfermeira. Deixe-me… O estranho empurrou-a e se levantou cambaleando. Do outro lado da rua, alguns passantes observavam a conversa com ligeira curiosidade.

Mas, quando o homem saiu aos tropeços, perderamo interesse. — De nada — falou ela para o vulto que recuava. — Babaca. Ela se voltou para Magnus. — Você está bem? — Estou — respondeu. — Ele é que saiu sangrando. — Às vezes, eu gostaria de simplesmente poder deixar alguém assim sangrar — falou Catarina, pegando um lenço e limpando as mãos. — O que você está fazendo aqui? — Vim para acompanhá-la até sua casa. — Não precisa fazer isso — respondeu ela com um suspiro. — Estou bem. — Não é seguro. E você está exausta. Catarina estava se inclinando ligeiramente para um lado. Magnus a pegou pela mão. Ela estava tão cansada que ele viu seu feitiço de disfarce sumir por um instante, viu uma onda de azul na mão que estava segurando. — Estou bem — repetiu ela, mas sem muito entusiasmo. — Sim — falou Magnus. — Obviamente. Sabe, se não começar a cuidar de si, vai me obrigar a ir até sua casa e fazer minha sopa de atum magicamente nojenta até você se sentir melhor. Catarina riu. — Qualquer coisa, menos a sopa de atum. — Então vamos comer alguma coisa. Vamos. Vou levá-la ao Veselka. Você precisa de goulash e um pedação de bolo.

Caminharam em silêncio, sobre pilhas de folhas úmidas e esmagadas. O Veselka estava quieto, e eles conseguiram uma mesa perto da janela. As únicas pessoas em volta conversavam baixinho em russo, fumando e comendo rolinhos de repolho. Magnus pediu umcafé e biscoito rugelach. Catarina comeu uma tigela grande de borscht, um prato grande de pierogi fritos com cebola e purê de maçã, almôndegas ucranianas e alguns coquetéis de cereja e limão. Só quando acabou tudo isso e pediu um prato de sobremesa de panquecas de queijo foi que encontrou energia para falar. — Está muito ruim lá — disse ela. — É difícil. Havia pouco que Magnus pudesse dizer, então ele apenas ouviu. — Os pacientes precisam de mim — continuou ela, cutucando o gelo com o canudo no copo praticamente vazio. — Alguns dos médicos… as pessoas que deveriam saber mais… sequer encostamnos pacientes. E é tão horrível, essa doença. O jeito como se acabam. Ninguém deveria morrer assim. — Não — retrucou Magnus. Catarina cutucou o gelo por um instante mais longo, e, em seguida, se inclinou para trás no assento e suspirou profundamente. — Não consigo acreditar que os Nephilim estejam causando problemas justo agora — disse ela, esfregando o rosto com uma das mãos. — E logo crianças Nephilim. Como isso está acontecendo? Esse era o motivo pelo qual Magnus havia esperado perto da clínica para acompanhar Catarina até a casa dela. Não porque a vizinhança fosse ruim — não era. Ele esperou Catarina porque não era mais seguro para os integrantes do Submundo ficarem sozinhos. Ele mal podia acreditar que o Submundo estivesse em um estado de caos e medo por causa das ações de uma gangue de Caçadores de Sombras jovens e estúpidos. Na primeira vez que ouviu os rumores, há apenas alguns meses, Magnus revirou os olhos. Umbando de Caçadores de Sombras, que mal tinham 20 anos, mal tinham deixado a infância, estava se rebelando contra as leis dos pais. Grande coisa.

Aos olhos dele, a Clave, o Pacto e os grupos de anciãos sempre pareceram uma receita perfeita para a revolta juvenil. Esse grupo se autodenominava Círculo, segundo um relato do Submundo, e era liderado por um jovem carismático chamado Valentim. O grupo contava com alguns dos melhores e mais inteligentes da geração. E os integrantes do Círculo diziam que a Clave não sabia lidar com os membros do Submundo coma seriedade necessária. Era assim que o mundo andava, Magnus supunha, uma geração contra a seguinte — de Aloysius Starkweather, que queria as cabeças dos lobisomens nas paredes, a Will Herondale, que tentava, em vão, disfarçar seu coração aberto. A juventude dos dias atuais aparentemente achava que a política da Clave de tolerância fria era generosa demais. A juventude dos dias atuais queria combater monstros e convenientemente resolveu que pessoas como Magnus eram monstros, todas elas. O feiticeiro suspirou. Essa parecia uma temporada de ódio em todo o mundo. O Círculo de Valentim ainda não tinha feito muita coisa. Talvez nunca fizesse. Mas já fora suficiente. Vaguearam por Idris, atravessaram Portais e visitaram outras cidades em missões para ajudar os Institutos locais, e, em todos os lugares pelos quais passaram, integrantes do Submundo morreram. Sempre havia membros do Submundo que violavam os Acordos, e os Caçadores de Sombras os faziam pagar por isso. No entanto, Magnus não tinha nascido ontem, tampouco neste século. Não acreditava que fosse coincidência o fato de, por onde quer que Valentim e seus amigos passassem, haver mortes. Estavam encontrando qualquer desculpa para se livrar de indivíduos do Submundo. — O que esse menino Valentim quer? — perguntou Catarina. — Qual é o plano dele? — Ele quer morte e destruição para todo o Submundo — respondeu Magnus. — Possivelmente seu plano é ser um grande babaca. — E se eles de fato vierem pra cá? — insistiu Catarina. — O que os Whitelaw fariam? Magnus já morava em Nova York havia décadas, e durante todo esse tempo conheceu os Caçadores de Sombras do Instituto local. Ao longo dos últimos anos, o Instituto vinha sendo liderado pelos Whitelaw, que sempre foram corretos e distantes. Magnus jamais gostou de nenhum deles, e nenhum deles jamais gostou de Magnus. O feiticeiro não tinha qualquer prova de que trairiam uminocente do Submundo, mas os Caçadores de Sombras eram tão convencidos de si mesmos e do próprio sangue que ele não sabia o que os Whitelaw fariam.

Magnus tinha se encontrado com Marian Whitelaw, a diretora do Instituto, e contado sobre os relatos do Submundo de que Valentim e seus ajudantezinhos estavam matando membros que não tinham violado os Acordos, e que depois os membros do Círculo mentiam para a Clave. — Vá até a Clave — dissera Magnus a ela. — Mande que controlem seus pestinhas indisciplinados. — Controle sua língua indisciplinada — respondera Marian Whitelaw, com frieza — quando falar sobre seus superiores, feiticeiro. Valentim Morgenstern é considerado um dos Caçadores de Sombras mais promissores, assim como seus jovens amigos. Conheci a esposa dele, Jocelyn, quando ela era criança; é uma menina doce e adorável. Não vou duvidar da bondade dela. Certamente não semprovas e me baseando apenas nas fofocas maliciosas do Submundo. — Eles estão matando meu povo! — Estão matando criminosos do Submundo, seguindo plenamente os Acordos. Estão demonstrando zelo na perseguição ao mal. Nada de ruim pode acontecer em relação a isso. Eu não esperaria que você entendesse. Claro que os Caçadores de Sombras não acreditariam que um dos seus melhores e mais inteligentes soldados tinha se tornado um pouquinho sedento de sangue demais. Claro que aceitariamas desculpas oferecidas por Valentim e os outros, e claro que acreditariam que Magnus e qualquer integrante do Submundo que reclamasse só queria ver os criminosos escapando. Sabendo que não teriam como convencer os Caçadores de Sombras, os membros do Submundo resolveram montar a própria guarda. Um abrigo fora montado em Chinatown, graças a uma anistia entre os vampiros e os lobisomens, que viviam em guerra, e todos estavam em alerta. Os integrantes do Submundo estavam por conta própria. Mas, pensando bem, não fora sempre assim? Magnus suspirou e olhou para Catarina por cima dos pratos. — Coma — disse ele. — Não tem nada acontecendo agora. É possível que nada nunca aconteça. — Eles mataram um “vampiro rebelde” em Chicago na semana passada — falou, cortando uma panqueca com um garfo. — Sabe que vão querer vir para cá. Comeram em silêncio, Magnus, pensativo, e Catarina, exausta. A conta chegou, e Magnus pagou.

Catarina não pensava muito em coisas como dinheiro. Era enfermeira em uma clínica com poucos recursos, e ele tinha muita grana. — Tenho que voltar — falou ela. Esfregou a mão no rosto cansado, e Magnus viu traços cerúleos quando os dedos dela passaram, o feitiço de disfarce falhando mesmo enquanto ela falava. — Você vai para casa dormir — disse Magnus. — Sou seu amigo e a conheço. Você merece uma noite de folga. E deveria gastá-la em luxos como dormir. — E se acontecer alguma coisa? — perguntou. — E se eles vierem? — Posso pedir a Ragnor para me ajudar. — Ragnor está no Peru — falou Catarina. — Ele diz que acha uma tranquilidade sem sua presença maldita, e estou fazendo uma citação exata. Será que Tessa poderia vir? — Tessa está em Los Angeles. Os Blackthorn, descendentes da filha de Tessa, controlam o Instituto local. Tessa quer ficar de olho neles. Magnus também se preocupava com Tessa, escondida sozinha perto do Instituto de Los Angeles, naquela casa na colina, perto do mar. Ela era a feiticeira mais jovem de quem Magnus era próximo o suficiente para chamar de amiga, e tinha vivido com Caçadores de Sombras durante anos, quando não podia praticar magia na mesma extensão que Magnus, Ragnor ou Catarina. Tessa jamais permitiria que um dos seus se machucasse se ela pudesse se sacrificar por ele. No entanto, Magnus conhecia e gostava do Alto Feiticeiro de Los Angeles. Ele não permitiria que Tessa fosse ferida. E Ragnor era astuto o bastante para que Magnus não precisasse se preocupar muito. Ele jamais baixaria a guarda em qualquer lugar onde não se sentisse completamente seguro. — Então somos só nós dois — observou Catarina. Magnus sabia que o coração de Catarina estava com os mortais, e que ela se envolvia mais por amizade do que por qualquer vontade de combater os Caçadores de Sombras. Catarina tinha os próprios combates a enfrentar, o próprio território a defender.

Ela era mais heroína do que qualquer Caçador de Sombras que Magnus já havia conhecido. Os Caçadores de Sombras foram escolhidos por um anjo. Catarina escolheu lutar por conta própria. — Está parecendo uma noite calma — falou ele. — Vamos. Acabe de comer e deixe-me levá-la para casa. — Isso é cavalheirismo? — perguntou Catarina, com um sorriso. — Achei que fosse uma prática extinta. — Como nós, esta prática nunca morre. Voltaram pelo caminho que vieram. Escurecera bastante, e a noite ficara decididamente fria. Havia uma sugestão de chuva. Catarina morava em um apartamento simples, ligeiramente decadente no lado oeste da rua 21, não muito longe da clínica. O fogão nunca funcionava, e as lixeiras do lado de fora viviam transbordando, mas ela nunca parecia se importar. Tinha uma cama e um lugar para as roupas. Era tudo de que precisava. Vivia uma vida mais simples que a de Magnus. Ele voltou para casa, para o apartamento mais afastado do Village, na Christopher Street. Para chegar ao seu apartamento também era necessário subir escadas, e ele subiu dois degraus de cada vez. Ao contrário do de Catarina, o seu era extremamente habitável. As paredes eram coloridas e tinham tons alegres de cor-de-rosa e amarelo, e o local era mobiliado com itens que Magnus havia colecionado ao longo dos anos — uma mesa francesa maravilhosa, alguns sofás vitorianos e umincrível quarto em art déco todo de vidro espelhado. Normalmente, em uma noite fria de começo do outono como aquela, Magnus se serviria de uma taça de vinho, colocaria um CD no aparelho de som, aumentaria o volume e esperaria os negócios começarem. A noite normalmente era hora de trabalho; ele tinha muitos clientes que apareciam de surpresa, e sempre havia pesquisa a fazer, ou leitura a pôr em dia. Naquela noite preparou um bule de café forte, sentou-se perto da janela e olhou para a rua abaixo. Como em todas as outras noites desde o início dos rumores sobre jovens Caçadores de Sombras comsede de sangue, ele ficava sentado, observando e pensando.

Se o Círculo viesse, como aparentemente acabaria fazendo, o que iria acontecer? Valentim tinha um ódio especial dos licantropes, diziam, mas tinha matado um feiticeiro em Berlim por invocar demônios. Sabia-se que Magnus já tinha invocado um bando deles. Era muito provável que, se viessem a Nova York, fossem atrás de Magnus. A atitude sensata seria ir embora, desaparecer pelo país. Ele tinha comprado uma casinha na Flórida para escapar dos invernos brutais de Nova York. A casa ficava em uma das inóspitas e desabitadas ilhas, e ele também possuía um barco. Se alguma coisa acontecesse, poderia embarcar e fugir para o mar, para o Caribe ou para a América do Sul. Chegou a fazer a mala várias vezes e desfez logo em seguida. Não adiantaria nada fugir. Se o Círculo continuasse com a campanha de suposta justiça, o mundo inteiro se tornaria um lugar inseguro para os membros do Submundo. E Magnus jamais conseguiria viver em paz se fugisse e os amigos, como Catarina, ficassem para trás para se defenderem sozinhos. Ele não gostava da ideia de Raphael Santiago ou qualquer um de seus vampiros sendo assassinados, nem as fadas que conhecia e que trabalhavam na Broadway, ou as sereias que nadavam no East River. Magnus sempre se considerou desprendido, mas já morava em Nova York havia muito tempo. Surpreendeu-se querendo defender não só os amigos, mas também a cidade. Por isso ele ia ficar, esperar e tentar se preparar para o Círculo quando viessem. A espera era a pior parte. Talvez fosse o motivo de ter perdido tempo com o sujeito na clínica. Alguma coisa em Magnus queria que a luta viesse. Ele mexeu os dedos e os flexionou, uma luz azul apareceu entre eles. Abriu a janela e respirou o ar noturno, que tinha cheiro de uma mistura de chuva, folhas e pizza do restaurante da esquina. — Andem logo — disse, para ninguém em particular. O menino apareceu embaixo da janela, mais ou menos à uma da manhã, justo quando Magnus finalmente tinha conseguido se distrair traduzindo um antigo texto grego que estava em sua mesa havia semanas. O feiticeiro levantou os olhos e notou o garoto andando confuso de um lado para o outro lá fora. Tinha 9, talvez 10 anos de idade — um pequeno punk do East Village com uma camiseta do Sex Pistols, que provavelmente pertencia a um irmão mais velho, e uma calça larga de moletom cinza. O cabelo era mal-cortado, feito em casa.

Não estava de casaco. Todas essas coisas indicavam que se tratava de um menino com problemas, e a aparência de rua e a fluidez do andar sugeriam um lobisomem. Magnus abriu a janela. — Está procurando alguém? — perguntou. — Você é o Magnífico Bane? — Claro — respondeu Magnus. — Digamos que sim. Espere. Abra a porta quando apitar. Magnus deslizou do assento e foi para a campainha perto da porta. Ouviu os passos acelerados nos degraus. O menino estava com pressa. Magnus mal acabara de abrir a porta e o garoto já havia entrado. Uma vez lá dentro e sob a luz, a verdadeira extensão do estresse dele se tornou clara. As bochechas estavam muito rubras e manchadas com rastros secos de lágrimas. Ele suava, apesar do frio, e a voz estava trêmula e desesperada. — Você precisa vir — disse ao cambalear para dentro. — Pegaram minha família. Estão aqui. — Quem está aqui? — Os Caçadores de Sombras loucos de quem todos estão com medo. Chegaram. Pegaram minha família. Você precisa vir agora. — O Círculo? O menino balançou a cabeça, não para discordar, mas porque estava confuso. Magnus pôde ver que ele não sabia o que era o Círculo, mas a descrição encaixava. Só podia estar falando deles.

— Onde estão? — perguntou Magnus. — Em Chinatown. No abrigo. — O garoto quase tremeu com impaciência. — Minha mãe ficou sabendo que esses malucos estavam aqui. Já mataram um monte de vampiros no East Harlem mais cedo, e eles disseram que foi por matarem mundanos, mas ninguém ouviu nada sobre nenhummundano morto. Uma fada avisou que estavam indo para Chinatown nos pegar. Então minha mãe levou todo mundo para o abrigo, mas aí eles invadiram. Eu saí por uma janela. Minha mãe mandou procurar você. A história foi relatada de forma tão atropelada, com tanta pressa, que Magnus não teve tempo de desembaralhá-la. — Quantos vocês são? — Minha mãe, meu irmão e mais seis do bando. Portanto, nove licantropes em perigo. O teste tinha chegado, e tão depressa que Magnus não teve tempo de analisar seus sentimentos ou pensar em um plano. — Ouviu alguma coisa que o Círculo disse? — perguntou Magnus. — Do que acusaram sua família? — Disseram que nosso bando fez alguma coisa, mas eu não sei de nada. Não importa, importa? Eles matam de qualquer jeito, é isso que todo mundo diz! Você precisa vir. O menino pegou a mão de Magnus e começou a puxá-lo. O feiticeiro se soltou e alcançou uma caneta e um papel. — Você — falou, escrevendo o endereço de Catarina —, vá a este endereço. Não vá a nenhum outro lugar. Fique lá. Vai encontrar uma moça azul muito gentil. Eu vou até o abrigo. — Vou com você.

— Faça o que estou dizendo ou não vou. — Magnus se irritou. — Não há tempo para discutir. Você decide. O menino lutou contra as lágrimas. Limpou os olhos violentamente com as costas da mão. — Vai buscá-los? — perguntou. — Promete? — Prometo — falou Magnus. Como faria isso, não tinha ideia. Mas a luta tinha chegado. Finalmente a luta tinha chegado. A última coisa que Magnus fez antes de sair foi anotar os detalhes: onde ficava o abrigo — um armazém —, o que ele temia que o Círculo fosse fazer com os lobisomens lá dentro. Dobrou o papel em forma de pássaro e enviou, com um peteleco e uma explosão de faíscas azuis. O papelzinho frágil balançou no vento como uma folha seca, voando pela noite em direção às torres de Manhattan, que cortavam a escuridão como facas brilhantes. Não sabia por que tinha se dado ao trabalho de mandar uma mensagem aos Whitelaw. Duvidava que ajudassem. Magnus correu por Chinatown, sob as luzes de neon que piscavam e chiavam, pela bruma amarela da cidade que pairava como fantasmas pedindo esmolas a passantes. Passou por um grupo de pessoas se drogando em uma esquina, e finalmente chegou à rua onde ficava o armazém, o telhado de zinco batendo com o vento noturno. Um mundano o enxergaria menor do que de fato era, pobre e escuro, as janelas tapadas. Magnus via as luzes e a janela quebrada. Havia uma pequena voz na cabeça do feiticeiro orientando-o a ter cuidado, mas ele já tinha ouvido com grande riqueza de detalhes o que o Círculo de Valentim fazia com membros vulneráveis do Submundo ao encontrá-los. Correu em direção ao abrigo, quase tropeçando com as botas no pavimento rachado. Chegou às portas duplas, pichadas com auréolas, coroas e espinhos, e as abriu. Na sala principal do abrigo, com as costas para a parede, havia um grupo de lobisomens, a maioria ainda em forma humana, embora Magnus pudesse ver garras e dentes em alguns que estavamagachados, em posição defensiva. Cercando-os havia um grupo de jovens Caçadores de Sombras.

Todos se viraram e olharam para Magnus. Mesmo que os Caçadores de Sombras estivessem esperando alguma interrupção e os lobisomens torcessem por um salvador, aparentemente ninguém esperava tanto rosa-shocking. Os relatos sobre o Círculo eram verdadeiros. Tantos deles eram dolorosamente jovens, uma geração novinha de Caçadores de Sombras, guerreiros brilhantes que tinham acabado de chegar à vida adulta. Magnus não ficou surpreso, mas achou triste e absurdo o fato de desperdiçarem o brilhante princípio de vida naquele ódio sem sentido. Na frente da multidão de Caçadores de Sombras havia um pequeno grupo de pessoas que, apesar de jovens, tinham um ar de autoridade — o Círculo mais íntimo de Valentim. Magnus não reconheceu ninguém que correspondesse às descrições que ouvira sobre o líder. Ele não tinha certeza, mas achou que o atual líder do grupo fosse o menino lindo de cabelos dourados e olhos azuis profundos, ou o jovem a seu lado com cabelos escuros e um rosto fino e inteligente. Magnus já estava vivo havia muito tempo e sabia identificar quais membros de um grupo eram os líderes. Nenhum dos dois parecia imponente, mas a linguagem corporal dos outros destoava da deles. Os dois estavam ladeados por um homem e uma mulher, ambos de cabelos negros e expressões ferozes como as de um falcão, e, por trás do homem de cabelos negros, encontrava-se umrapaz bonito e de cabelos cacheados. Atrás deles havia mais ou menos outros seis. Na outra ponta do salão, tinha uma porta, só uma, diferentemente das portas duplas pelas quais Magnus entrara, uma porta interna que levava à outra câmara. Um jovem e robusto Caçador de Sombras estava diante delas. Havia muitos deles a combater, e eram todos tão jovens e recém-saídos da escola que Magnus jamais os teria encontrado antes. Ele não lecionava na academia de Caçadores de Sombras havia décadas, mas se lembrava das salas, das aulas sobre o Anjo e dos rostos jovens absorvendo cada palavra sobre seus deveres sagrados. E estes jovens adultos Nephilim saíram da escola para fazer isso. — O Círculo de Valentim, presumo? — falou, e viu todos se espantarem com as palavras, como se achassem que os integrantes do Submundo não tinham os próprios meios de transmissão de informações quando estavam sendo caçados. — Mas acho que não estou vendo Valentim Morgenstern. Soube que ele tem carisma suficiente para atrair pássaros de árvores e convencê-los a viver embaixo d’água, é alto, absurdamente bonito e tem cabelos platinados. Nenhum de vocês se encaixa na descrição. Magnus hesitou. — E você também não tem cabelos platinados. Todos pareceram chocados em serem tratados daquela forma. Eram de Idris e, sem dúvida, se é que conheciam algum feiticeiro, eram feiticeiros como Ragnor, que sempre fazia questão de ser profissional e civilizado em todas as suas relações com os Nephilim.

Marian Whitelaw pode até ter pedido para que Magnus controlasse a língua, mas não teria ficado chocada pela forma como ele falava. Essas crianças estúpidas se contentavam em odiar de longe, em lutar e nunca falar commembros do Submundo, em nunca se arriscar nem por um segundo a ver seus inimigos como pessoas. Achavam que sabiam de tudo, mas sabiam tão pouco. — Sou Lucian Graymark — disse o jovem de rosto magro e inteligente à frente do grupo. Magnus já tinha ouvido esse nome antes; o parabatai de Valentim, seu braço direito, mais querido que um irmão. Magnus antipatizou com ele assim que o garoto se pronunciou. — Quem é você para vir aqui e interferir em nossa busca pelo cumprimento dos deveres a que juramos? Graymark manteve a cabeça erguida e falou com uma voz clara e autoritária que escondia sua idade. Parecia um perfeito filho do Anjo, severo e impiedoso. Magnus olhou para trás, por cima do ombro, para os licantropes, agrupados no fundo da sala. Ele levantou a mão e pintou uma linha de magia, uma barreira bruxuleante em azul e dourado. Fez a luz arder com tanta força quanto qualquer espada de anjo faria e bloqueou a passagem dos Caçadores de Sombras. — Sou Magnus Bane. E vocês estão invadindo minha cidade. A afirmação foi recebida com uma risada. — Sua cidade? — questionou Lucian. — Precisam soltar essas pessoas. — Essas criaturas — corrigiu Lucian — são parte do bando de lobos que matou os pais do meu parabatai. Nós os rastreamos até aqui. Agora podemos aplicar a justiça dos Caçadores de Sombras, o que é nosso direito. — Não matamos nenhum Caçador de Sombras! — disse a única mulher entre os licantropes. — E meus filhos são inocentes. Matar meus filhos seria assassinato. Bane, precisa fazer com que deixemmeus filhos. Ele está com… — Não vou mais aturá-la ganindo como um cachorro vira-lata — disse o jovem com cara de falcão que estava ao lado da mulher de cabelos negros. Pareciam um conjunto combinado, e as expressões em seus rostos eram igualmente ferozes.

Valentim não era famoso por sua clemência, e Magnus não levava a menor fé de que o Círculo fosse poupar as crianças.

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