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A Ultima Camelia – Sarah Jio

Camélias não são as flores preferidas das pessoas. Não são tão amadas quanto as rosas. As pessoas não ficam nostálgicas ao vê-las, como acontece com as tulipas e com os lírios. Elas não têmo perfume das gardênias ou a ostentação das dálias. Não ficam bonitas em um buquê, e, quando florescem, logo suas pétalas ficam marrons e caem no chão. Ainda assim, sempre achei as camélias deslumbrantes em sua sutileza e discrição. Não me lembro da primeira vez que vi uma camélia. Eu me lembro delas crescendo e florescendo no jardim da casa de minha avó, uma rosa, uma branca, ao lado da entrada daquele que era meu lar na infância. De certa forma, em minha vida, as camélias sempre estiveram lá, balançando-se graciosamente com a brisa. Elas são flores fora de moda (árvores, na verdade). Em Seattle, onde moro, muitas casas construídas na virada do século passado têm camélias antigas em seus jardins. Na verdade, quando meu marido e eu compramos nossa primeira casa em Seattle — uma construção vitoriana de 1902 —, ela veio com uma camélia. Ainda me lembro de seu enorme tronco e de como era alta, com galhos que chegavam até a janela do nosso quarto, no segundo andar da casa. Embora ainda seja possível encontrar essas árvores maravilhosas em jardins modernos de vez em quando, as camélias deram lugar a escolhas mais populares — fileiras de lavanda, gramíneas ornamentais, azaleias e bordos japoneses. A moda se transforma; os gostos nos jardins se transformam também. Ainda assim, continuo tendo uma queda pelas camélias. Quando eu me propus a escrever este romance, tinha em mente a imagem de uma única camélia, com suas flores grandes e brilhantes, e folhas cor de esmeralda. E então o restante da paisagem se formou: fileiras e mais fileiras de camélias. Um jardim. Comecei a imaginar se a camélia neste jardim imaginário poderia ser de uma espécie rara, talvez a última de sua espécie. E, como descobri, algumas camélias bastante raras existem na vida real — mantidas em jardins privados e conservatórios públicos ao redor do mundo, principalmente na Inglaterra. Hoje, quando fecho os olhos, meses depois de terminar este romance, ainda consigo ver os jardins da Mansão Livingston. Preciso admitir que fico um pouco triste por saber que este lugar não existe de verdade, porque eu adoraria visitá-lo. Eu me sentaria no jardim e ficaria olhando para alémdo anjo de pedra até a garagem das carruagens e admiraria as camélias. Espero que esta história traga você para mais perto de seu próprio e lindo jardim, esteja ele bem ali, do outro lado da sua porta, ou guardado dentro do seu coração.


Meu destino está em suas mãos. — Significado da camélia, de acordo com a linguagem vitoriana das flores. Prólogo Um chalé na zona rural inglesa 18 de abril de 1803 A mão da velha senhora tremia enquanto segurava sua xícara de chá. Sem fôlego, ela não parava de tentar tirar a sujeira de debaixo das unhas. Ficou parada perto do fogão, esperando a chaleira apitar, enquanto olhava para a ferida no dedo, ainda em carne viva. Ela havia cortado-o desastrosamente na ponta da tesoura do jardim, e agora ele latejava por baixo do curativo sujo de sangue. Ela cuidaria disso depois. Nesse momento, ela precisava recobrar os sentidos. Colocou água no pequeno pote de cerâmica rachado na ponta e esperou pela infusão das folhas. Seria mesmo possível? Ela tinha visto uma flor, tão clara quanto o dia. Branca, com pontas rosadas. A Middlebury Pink, ela tinha certeza. Seu marido, que descanse em paz, havia cuidado da camélia durante vinte anos — cantava para ela na primavera e até cobrira suas folhas verde-esmeralda escuras com um cobertor na época da geada. Especial, eles a chamavam. A mulher nunca entendera todo aquele cuidado com uma árvore raquítica, principalmente quando era necessário arar o campo e colher as batatas. Ah, se ele pudesse vê-la agora. Com suas flores. E se alguém da vila a descobrisse? Não, ela não deixaria isso acontecer. Ela era responsável por cuidar daquilo. Anos atrás, seu marido gastara seis centavos na árvore, que era, na época, apenas uma muda emum vaso de cerâmica. O vendedor dissera a ele que ela havia sido cultivada a partir de uma camélia Middlebury Pink, a camélia mais bonita de toda a Inglaterra, e talvez até de todo o mundo. A única muda conhecida, que se desabrochava nas maiores e mais deslumbrantes flores — branca com pontas rosadas —, estava no jardim da rainha, cercado pelos portões do palácio. É claro que a mulher não acreditara naquela lenda, não naquela época, e havia repreendido o marido pela tamanha estupidez em gastar tanto dinheiro no que poderia ser uma erva daninha; mas, no fundo, ela adorava vê-lo feliz. E, quando ele olhava para a planta, ele ficava feliz. “Acho que é melhor do que gastar dinheiro embebida”, dissera ela.

“Além disso, se ela florir, talvez possamos vender suas mudas no mercado.” No entanto, a árvore não floriu. Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro, nem no quarto ano. E, quando completou dez anos, a mulher perdeu a esperança de vez. Ela ficava irritada quando o marido sussurrava para a árvore durante as manhãs. Ele disse que lera algo a respeito da técnica em um livro sobre jardins, mas, quando ela o viu jogando na árvore uma mistura de água comseu melhor sabão vegetal, ela não quis saber se ele dizia que aquilo afastaria as pragas; simplesmente perdeu a paciência. Algumas vezes, ela desejou que um raio caísse na árvore e a dividisse em duas partes, para que o marido parasse de adular a planta da maneira como fazia. Mais de uma vez ela pensou em passar um machado pelo tronco estreito, deixando que a lâmina partisse a madeira verde. A sensação de descontar sua raiva na árvore seria boa. Mas ela se conteve. E, depois que o marido morreu, a árvore permaneceu no jardim. Anos se passaram, e a grama cresceu alta em volta de seu tronco. A hera cobriu seus ramos. A velha senhora não prestara atenção na camélia até aquela manhã, quando uma mancha rosada atraiu seu olhar. A flor do tamanho de um pires era muito mais magnífica do que ela poderia ter imaginado. Mais bonita do que qualquer rosa que ela já tivesse visto. Ela balançava na brisa da manhã com tamanha realeza que a velha senhora sentiu necessidade de fazer uma reverência em sua presença. Ela tomou mais um gole do chá. O tempo era fantástico. Apenas dias atrás, um decreto real havia sido emitido notificando que uma camélia rara do jardim da rainha havia sido dizimada por umvendaval. Bastante entristecida, a rainha soubera que um antigo jardineiro do palácio havia extraído uma muda e vendido a planta a um agricultor que morava no campo. Ela havia ordenado a seus criados que procurassem a árvore e prendessem a pessoa que havia ficado com ela durante todos aqueles anos. A mulher olhava adiante. Então mirou a janela ao escutar o barulho de cavalos a distância. Logo depois, ouviu uma batida na porta enviando ondulações através de seu chá.

Ela alisou as mechas de cabelo grisalho que haviam se soltado de seu coque, respirou fundo e abriu a porta. — Bom dia — disse um homem bem-vestido. Seu tom era educado, mas urgente. — Seguindo as ordens de Sua Majestade, estamos procurando pelo país uma espécie valiosa de camélia. A mulher olhou para a roupa do homem — simples, comum. Ele era um impostor, até ela sabia disso. Seu marido a havia alertado sobre os ladrões de flores. Claro que tudo se encaixava. Se eles apanhassem a camélia antes dos criados da rainha, eles conseguiriam fazer uma fortuna com ela. O homem segurava um papel enrolado na mão. Ele o abriu com muito cuidado e apontou a flor pintada na página, branca com pontas rosadas. O coração da mulher batia com tanta força que ela não conseguia ouvir mais nada. — A senhora sabe sobre o paradeiro dela? — perguntou o homem. Sem esperar por resposta, ele se virou para procurar no jardim. O homem caminhou pelo jardim, passou pelos vegetais e pelas ervas, andando por cima das cenouras que haviam acabado de surgir no solo descongelado. Ficou olhando adiante, para onde as tulipas surgiam em meio à terra preta. Ajoelhou-se para arrancar um broto verde, ainda prematuro, e examinou-o com cuidado. — Se a senhora vir a árvore — disse ele segurando a tulipa e depois jogando-a para trás —, avise-me, estarei na cidade. Meu nome é Harrington. A senhora acenou complacente. O homem fez um gesto em direção ao norte. Bem ali em cima da montanha ficava a Mansão Livingston. A dama da casa havia sido gentil com eles, permitindo que ficassem na velha cabana ao lado da cocheira desde que cuidassem do jardim. — É melhor não falar para ninguém da mansão sobre minha visita — disse o homem. — Sim, senhor — respondeu a mulher apressadamente.

Ela ficou parada, observando enquanto ele caminhava em direção ao cavalo. Só depois, quando não mais ouvia o barulho na estrada ela foi até o jardim, passando pelo pé de pera perto da cerca até chegar à camélia com sua única e gloriosa flor. Não, pensou ela consigo mesma, tocando a delicada flor. A rainha podia procurar em todos os jardins do território, e os ladrões de flores podiam examinar cada pétala, mas ela garantiria que ninguém encontrasse aquela ali. Capítulo 1 Addison Nova York 1º de junho de 2000 O telefone tocou na cozinha, insistente e alto. Podia muito bem ser uma banana de dinamite no balcão de granito. Se eu não atendesse depois de três toques, a secretária eletrônica atenderia. Não posso deixar a secretária eletrônica atender. — Você vai atender? — perguntou Rex, meu marido, do sofá, tirando os olhos de seu notebook. Ele tinha um grande fascínio por aparelhos antigos. Máquinas de escrever, vitrolas e uma secretária eletrônica de 1987. Mas, naquele instante, eu queria uma caixa postal. Ah, se eu tivesse uma caixa postal… — Vou atender! — respondi, pulando da mesa de café da manhã e batendo meu dedão no pé da cadeira. Estremeci. Um toque. Dois. Os pelos de meu braço se arrepiaram. E se fosse ele? Ele começara a ligar duas semanas antes, e cada vez que o telefone tocava eu sentia aquele terror. Calma. Respire fundo. Talvez seja um de seus clientes. Aquela terrível Sra. Atwell, a que tinha me obrigado a refazer seu jardim de rosas três vezes. Ou a Receita Federal. Que seja a Receita Federal.

Qualquer um seria mais do que bem-vindo do que a pessoa que eu temia que estivesse do outro lado da linha. Se eu desligasse o telefone, ele ligaria de novo. Como um tubarão sentindo a presença de sangue na água, ele ficaria rodeando até conseguir o que queria. Eu precisava atender. — Alô? — eu disse alegremente ao telefone. Rex olhou para cima, sorriu para mim e então voltou o olhar para o notebook. — Alô de novo, Addison. A voz dele me arrepiou. Eu não conseguia vê-lo, lógico, mas eu sabia como era seu rosto — a barba irregular que crescia em torno de seu queixo, e a expressão divertida em seus olhos. — Sabe, eu não me importo com seu nome. Amanda combina muito mais com você. Fiquei em silêncio, abrindo rapidamente as portas francesas e saindo para o pátio com vista para um pequeno jardim — raro naquela cidade, mas todo nosso. Um pássaro cantava alegremente sobre a pequena camélia que Rex e eu havíamos plantado no ano anterior para comemorar nosso primeiro aniversário de casamento. Eu odiava o fato de ele estar invadindo meu santuário particular. — Ouça — sussurrei. — Já falei para você parar de me ligar. Olhei para o prédio que ficava atrás de nossa casa imaginando se ele poderia me ver de uma das janelas acima. — Amanda, Amanda… — disse ele, divertindo-se. — Pare de me chamar assim. — Ah, eu me esqueci — continuou ele. — Você está muito chique agora. Li sobre seu casamento no jornal. Ele estalou a língua, zombando de mim. — Um conto de fadas para uma garota que… — Por favor… — interrompi. Eu não podia suportar o som de sua voz, a maneira como ele me fazia lembrar o passado.

— Por que você não me deixa em paz? — implorei. — Você quer dizer que não sente falta de mim? Pense em todos os bons momentos que passamos juntos. Você se lembra da maneira como costumávamos… — Pare — pedi, encolhendo-me. — Ah, estou entendendo… — disse ele. — Toda metida agora que se casou com o rei da Inglaterra. Você acha realmente que é alguém. Bem, deixe-me perguntar uma coisa. Seu marido sabe quem você realmente é? Ele sabe o que você fez? Eu me senti mal, atordoada. — Por favor, por favor, me deixe em paz… — implorei, sentindo a garganta se apertar enquanto eu engolia. Ele riu para si mesmo. — Mas eu não posso — declarou ele. — Não. Veja bem, passei dez anos da minha vida na prisão. É tempo demais para pensar nas coisas. E pensei muito em você, Amanda. Quase todos os dias. Estremeci. Quando ele estava atrás das grades, tive uma falsa sensação de segurança. Sua prisão por dois crimes de lavagem de dinheiro e por estupro me dava a sensação de ter um cobertor grosso e quente em volta de mim. E, agora que ele estava solto, o cobertor havia sido rasgado. Eu me sentia exposta, ameaçada. — Escute uma coisa, gata — continuou ele. — Tenho uma informação bastante valiosa. Tipo, você não pode me culpar por eu querer a mesma vida boa que você tem. — Eu vou desligar o telefone agora — avisei com o dedo no botão para desligar.

— Tudo isso pode acabar bem — disse ele. — Você sabe o que eu quero. — Eu já disse para você que não tenho todo esse dinheiro. — Você pode não ter — disse ele. — Mas a família do seu marido tem. — Não, não os coloque no meio disso. — Bem — disse ele —, então eu não tenho outra escolha. Ouvi o barulho de um caminhão de sorvetes do outro lado da linha. Eu me lembrei de quando eu corria atrás daqueles caminhões na época em que era criança, com os olhos arregalados, cheia de esperança. Não sei por quê; nunca tive um dólar para comprar um sorvete, mas ainda assim eu me sentia atraída. Tirei o telefone do ouvido e escutei o mesmo barulho, talvez a um quarteirão dali. A música me deixava aterrorizada. O caminhão estava perto. Perto demais. — Onde você está? — perguntei, sentindo um pânico repentino.

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