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A ultima danca de Chaplin – Fabio Stassi

Caro Christopher James, Esta noite, celebrarei meu octogésimo oitavo Natal com a família, como os últimos, e a história que estou prestes a escrever é o presente que decidi lhe dar. Com você, tenho uma dívida que não pode ser saldada. Você é meu último filho, tem apenas quinze anos e eu o concebi quando já tinha mais de setenta. Você crescerá sem mim. Por isso, preciso me apressar antes que a minha morte cause alvoroço em todo o planeta. Segundo o que me disse uma cartomante de São Francisco em1910, eu já deveria ter morrido de broncopneumonia há seis Natais, após ter tido muita sorte durante toda a vida. Há seis anos, a cada Natal, a Morte vem me procurar. Senta-se à minha frente e me espera. Nessas ocasiões, visto o meu figurino de vagabundo e interpreto um dos meus velhos esquetes. Se ela ri, concede-me outro ano de vida. É o nosso pacto. Não morrerei enquanto continuar a diverti-la. Mas devo reconhecer que, nos últimos tempos, tenho ficado mais enferrujado. Não teria arrancado dela nem sequer um sorriso se não fosse justamente pela minha velhice, que é a idade mais cômica que se pode ter. Esses seis anos já foram uma bênção imensa. Eu gostaria de vê-lo crescer, ficar forte, aprender música. Mas, esta noite, a Velha permanecerá séria e fria, aboletada na minha poltrona, mesmo diante de uma gag perfeita. Porque a perfeição não faz rir, Christopher. Esta é a última vez que uso o figurino de Carlitos. Estou sentindo nos meus ossos, e os meus ossos nunca mentiram para mim: estou prestes a sair de cena. Mas, no fundo, não me desagrada que a Velha me leve embora em um dia como este, no qual se comemora universalmente o nascimento de uma criança. Quero passar estas últimas horas com você. Há muitas coisas que devo lhe dizer. Vesti-me com apuro, como antigamente, maquiei os olhos com sombra preta e abri outra vez a caixa do bigode falso: se eu não o colocar da maneira certa, será o fim. Agora, escrevo a esta pequena mesa de madeira, em um canto do meu quarto.


Estou convencido de que, nas mesas pequenas, pouco volumosas, as ideias permanecem agrupadas e não devemos persegui-las pela parede, como lagartas ou lagartixas; basta esticar o braço e pegá-las pelo rabo. Da minha vida, sabe-se tudo, ou quase. Há alguns anos, publiquei uma autobiografia que foi vendida por toda parte e milhares de páginas foram escritas a meu respeito. O meu nome, só de ser pronunciado, provoca admiração em todos os cantos do planeta, desde a Birmânia até a Terra do Fogo. Talvez fosse melhor dizer o nome do personagem que criei, em uma tarde chuvosa em 1914, durante a gravação de um curta-metragem, escolhendo roupas do tamanho errado em um vestiário masculino. Mas já contei essas anedotas de todas as maneiras, embora me surpreenda sempre lembrar a misteriosa simplicidade com a qual Carlitos ou The Tramp, o Vagabundo, como os americanos o chamam, surgiu. Nunca confessei a ninguém, contudo, como a minha carreira realmente começou e todas as histórias que estou prestes a escrever agora, pois nem mesmo a sua mãe, a minha Oona, teria acreditado. Eu não queria estragar o segredo mais precioso da minha existência, uma espécie de promessa infantil à qual eu gostaria de poder dizer que permaneci fiel e que redime todos os meus erros, as minhas contradições e o caos das minhas lembranças. Mas, agora, já estou suficientemente velho para não dar a mínima para a minha reputação e para outros temores desse tipo. Na minha idade, é fácil se confundir. Afinal, como é possível acreditar que apertei a mão de Debussy ou de Stravinski, Rubinstein, Brecht, Gandhi, que joguei tênis, de short, com Eisenstein e Buñuel, que fui recebido por reis, príncipes e presidentes, que os meus filmes fizeram Albert Einstein cair em prantos como uma criança? A minha memória é um guarda-roupa tão inverossímil que não sei mais se realmente vivi ou se sonhei o que ele contém. Para mim, não pode existir uma fronteira clara entre todas as coisas que aconteceram comigo e aquelas que não parei de inventar apenas na minha cabeça. Mesmo que um pouco de ridículo se abata sobre a minha velhice, isso só pode me fazer bem, pois, ao contrário do que se pensa, fui um homem terrivelmente sério e obcecado pela perfeição. Os macarthistas que sobreviveram à vergonha do Vietnã ou alguns colegas invejosos poderão finalmente tachar os meus discursos delirantes sobre uma sociedade mais justa, mais livre e mais humana como a prova de minha doença mental. Afinal, os nazistas também me odiaram, embora eu não tenha tido a sorte de ser judeu. Proibiram Em Busca do Ouro, retrataram-me com o nariz adunco e me rotularamde pequeno acrobata judeu, tão asqueroso quanto enfadonho. Não era a primeira perseguição que eu sofria, e também não foi a última. Na Pensilvânia ou na Carolina do Sul, a Ku Klux Klan e as Associações de Ministros Evangélicos, dezenas de bons cristãos americanos que não cobriam de petróleo apenas os rolos de celuloide, censuraram e proibiram os meus filmes desde o início. Mas nem mesmo os homens com as suásticas puderam impedir que o meu vagabundo, que, até então, coma sua voz áspera, havia entoado apenas uma canção sem sentido, subisse até a tribuna mais importante da Europa nas vestes de um barbeiro; ninguém mais havia conseguido roubar o microfone de Hitler… Após descer daquele palco, eu não soube mais encontrá-lo. Afastou-se como uma nuvem de poeira nos campos de Auschwitz ou de Buchenwald: tudo o que ele tinha a dizer foi dito de uma só vez. Mas, esta noite, sou eu que estou contando tudo de uma só vez, e não gostaria de ser interrompido na melhor parte. Peço apenas um pequeno esforço de imaginação porque a minha história fala de coisas muito distantes dos resplandecentes gramados suíços que circundam a nossa casa. Não havia a serenidade de nenhum lago ou montanha naquela época, quando eu realmente era um vagabundo e não precisava interpretar. Está na hora de dizer a você onde nasci: não em Londres, como está escrito por toda parte —embora ninguém jamais tenha encontrado um documento oficial —, mas em uma floresta negra perto de Smethwick, no centro da Inglaterra, e em cima de uma carroça de artistas de rua que se chamava Rainha Cigana. No ano seguinte ao do primeiro curta-metragem da história do cinema, filmado por Louis Aimé Augustin Le Prince, uma cena que durava a eternidade de dois segundos.

Desde o início, o circo, a minha vida e a do cinema se misturaram muito mais do que as pessoas possam imaginar. Assim que vim ao mundo, os meus pais se separaram. Comigo, foi assim. Como você sabe, sua avó Hannah era uma vedete do teatro de variedades. Tinha o apelido de Lillie e possuía um talento para os rostos. Apoiava as mãos no vidro de uma janela como se estivesse contando os batimentos cardíacos de outra pessoa. Estudava as pessoas. Depois, as imitava: a maneira como alguém caminhava ou cumprimentava levantando o chapéu, as expressões que fazia. Mas, um dia, algo começou a rachar dentro dela; Hannah perdeu a voz, o sono e a pensão (dez xelins por semana), a luz da sua beleza se ofuscou e ela começou a desmoronar rapidamente. Seu avô também era um artista. Cantor profissional, ator do teatro de variedades e declamador. Segundo a sua avó, ele era parecido com Napoleão Bonaparte, mas, como muitos artistas de teatro, não fazia outra coisa senão beber. Eu não o via quase nunca e, quando o via, tinha sempre uma impressão desagradável. O álcool havia eliminado todo o seu fascínio e destruído a sua carreira e o seu sangue. A última vez que cruzei com ele foi em um pub de Kennington Road. Foi também a primeira vez na vida que ele me abraçou. Eu encontrava com mais frequência o meu avô, que trocava solas de sapatos em Londres, na sua pequena casa em East Lane, e acalentei muitas vezes o sonho de me tornar sapateiro como ele. Era um ofício que me fascinava. Eu gostava do cheiro do couro e da cola, de todo aquele trabalho manual e da paciência necessária. Ele havia construído uma bancada em um canto e ficava ali o tempo inteiro, até mesmo à noite. A mulher não morava mais com ele: depois de ter costurado gáspeas durante anos, ela começou a se distrair com homens mais jovens. A ovelha negra da família. Infelizmente, eu a vi pouco, mas devo àquela andarilha que vendia paletós usados nas ruas a consciência de não ter uma gota sequer de sangue azul nas veias. Felizmente, sempre tive ao meu lado Syd, meu irmão mais velho, sem a ajuda de quem eu nunca teria feito nada. Syd sabia transmitir segurança: quando as coisas davam errado, ele pegava o trompete e soprava, dilatando as bochechas de uma maneira tão cômica que acabava com toda a minha melancolia.

Também sabia se divertir com as palavras e inventava o tempo todo novos travalínguas, cantilenas e jogos de memória para os dias vazios. Devido às nossas dificuldades econômicas, Syd e eu passamos dois invernos em uma instituição de caridade para órfãos à margem do Tâmisa, mas, com cinco anos, eu já havia estreado no teatro, cantando a música de Jack Jones no lugar da minha mãe. Ela havia parado na metade e não sabia como continuar. Foi o primeiro sinal da sua doença. Lançaram-lhe de tudo: vaias, almofadas, moedinhas. Eu sabia de cor aquela canção e me saí muito bem, apesar de, agora, ser muito fácil dizer que eu era um predestinado. A verdade é que me entreguei às luzes da ribalta somente para salvar minha mãe da humilhação e da loucura, e tudo o que fiz em seguida continuou a ser marcado pela promessa raivosa de uma criança envergonhada de se tornar o maior ator do mundo. Depois, nos mudamos para Manchester, aprendi a dançar em cima de tamancos e entrei, com outros sete meninos, para uma trupe que se chamava Eight Lancashire Lads. As pessoas iam nos ver dançar e se divertiam. Contrataram-nos no Hippodrome de Londres para uma pantomima sobre Cinderela. Durante o Natal, como agora. Passaram-se oitenta anos, Christopher, já imaginou? Oitenta longos anos. No entanto, me lembro com mais facilidade de tudo aquilo do que do jantar de ontem. Ali, aprendi a dar cambalhotas e saltos mortais e a andar com as mãos. O Hippodrome tinha um picadeiro que, quando necessário, era alagado para tornar as cenografias e os balés ainda mais espetaculares. Puseram-me um figurino com uma cauda e disseram-me para girar em torno das pernas de Cinderela como se fosse um gato. Foi ali, atrás daquele picadeiro, enquanto eu ensaiava para o meu papel, que uma noite ouvi uma conversa entre o grande palhaço branco Marceline e o malabarista Zarmo. Eu mal sabia ler ou escrever, mas, acredite, sabia ouvir muito bem. Não esqueci uma palavra daquele diálogo. * * * “Estão chamando de a invenção do século, viu?” Zarmo o escutava enquanto jogava para cima três bolinhas coloridas. “É o cinematógrafo, meu caro Marceline.” “Isso mesmo, o cinematógrafo vai colocar todos nós no olho da rua, você vai ver. Quem vai querer ir a um circo ou a um teatro para saber como se mexe um mímico ou um palhaço?” “Veja as coisas por outro ângulo: não é garantido que o cinematógrafo será um sucesso, mas não podemos negar o seu fascínio.” “Se fosse por mim, eu estrangularia com as minhas próprias mãos esses dois franceses de quemtodos os jornais estão falando. Eles não se dão conta da engenhoca que inventaram.

” “Vamos, pare com isso. O cinema se tornará uma arte e você terá que mudar de ideia.” “É uma coisa falsa, Zarmo, mentirosa.” “Você também finge ser algo que não é quando entra em cena. Mostra coisas que não existem. Por acaso, não é esse o seu trabalho?” “Sou um mímico, Zarmo, assumo o risco. Todos nos arriscamos nos nossos números. Os trapezistas, os acrobatas, os domadores arriscam a própria vida. Nós corremos o risco de fracassar, de não fazer rir ou de não surpreender nem divertir o nosso público. Podemos sofrer um enfarte no palco por causa do medo, podemos esquecer o que temos de fazer. Mas a nossa emoção é a mesma de quem assiste ao espetáculo. Respiramos todos a mesma vida, no mesmo momento.” “O cinematógrafo também terá os seus riscos.” “Não é a vida real no momento em que acontece, Zarmo. É uma ação gravada em uma chapa, pode ser refeita quantas vezes quisermos, até que fique boa. É um truque.” “Você é um sujeito estranho, não o entendo. De qualquer maneira, não são esses franceses que você deve estrangular…” “Como assim?” “Não foram eles que inventaram o cinema como dizem por aí.” “E quem teria sido?” “Você não sabe? Todo mundo aqui sabe…” “Eu não.” “Bem, dá para perceber que você é distraído.” “Fale logo. Quem foi?” “Arléquin.” “Arléquin?” “Exatamente.” “Aquele sujeito mais negro do que a noite que limpa a areia dos elefantes e tira as banquetas do picadeiro?” “Isso mesmo.” “Mas ele é um pobre idiota.

” “Você se lembra de Eszter, a amazona húngara que teve certa notoriedade há alguns anos e depois desapareceu dos palcos?” “Já passou muito tempo, mas quem não se lembra dela? Era a mulher mais bonita já vista na GrãBretanha, todos nós ficamos apaixonados.” “Arléquin também se apaixonou por ela.” “Arléquin já se apaixonou algum dia?” “Você está achando o quê, que ele é cego e não tem coração?” “Ninguém jamais o viu com uma mulher…” “Ele nunca teve uma namorada ou esposa, e daí? Você acha que quem não teve uma mulher nunca se apaixonou?” “E o que isso tem a ver com a invenção do cinema?” “Tem a ver porque Eszter foi contratada para uma turnê nos Estados Unidos e ele ficou com medo de enlouquecer.” “Como você sabe?” “Frida, a Louca, que trabalhava na época conosco como mulher-bala, o ouvia chorar todo final de tarde. Certa noite, ela e Jo Jo Cara de Cão perguntaram o motivo do pranto. ‘Não poderei mais vêla’, Arléquin disse. No início, Frida pensou que ele estivesse falando da elefanta ou da tigresa branca de Bengala. Os animais também estavam indo embora para os Estados Unidos. ‘Você a verá nas lembranças, Arléquin’, disse Jo Jo. ‘As minhas lembranças são negras como eu’, respondeu Arléquin. ‘Desenhe-a, então.’ ‘Os desenhos não se movimentam’, lamentou Arléquin. ‘Peça uma fotografia a Mister Brethcley.’ ‘As fotografias também não se mexem.’ ‘Então faça uma que se mexa.’ ‘Não existem fotografias em movimento.’ ‘Trate de inventá-las’, disse Jo Jo e piscou um dos seus olhos peludos para Frida. Jo Jo é assim, nunca dá para entender se ela está brincando ou não, vive fazendo piada de tudo e, naquela noite, estava zombando de Arléquin. Frida já havia se arrependido de estar ali. A maneira como Arléquin tinha falado, com a voz encharcada de tristeza, a comovera. Ela queria ter acariciado seu braço, consolá-lo, mas não o fez. Foi embora com um nó na garganta, sem entender por quê. Mas, desde então, Arléquin parou de chorar.” “Aonde você quer chegar, Zarmo?” “O resto da história é simples: Arléquin aprendeu a desenhar.” “Estou entendendo cada vez menos…” “Aprendeu a fazer desenhos que se mexiam, quero dizer.

” “Você deve estar louco.” “Não estou louco, Marceline. Arléquin se trancou dentro de uma jaula com os seus animais, primeiro, com um lápis, um toco de carvão e folhas de papel, depois, com chapas de cobre e vidro, sais de prata, gelatinas, celuloide e sabe-se lá que outras diabruras; montava e desmontava estranhos dispositivos mecânicos. Como se fosse vítima de uma febre. Não sei como ele fez, mas dizem que, antes de encontrar o circo, ele viajava pela França acompanhando um fotógrafo ambulante. Vendiam, por alguns centavos, retratos, molduras, astrolábios e lanternas mágicas nas feiras. Quando necessário, recoloriam os vitrais das igrejas. Boatos, mas eu os ouvi de várias fontes. ‘Vê-se que ele nasceu em um quarto escuro’, foi o comentário de Jo Jo quando soube dessa história. ‘Deve ter sido exposto a muita luz, hi, hi, hi…’ Mas ninguém riu daquela bobagem. A verdade é que só os tigres e os elefantes sabiam para que serviam aquelas experiências. Para Hans, o anão, Arléquin disse estar treinando para não esquecer. Na noite antes da partida de Eszter, ele estava pronto. Escondeu-se entre os pés do público, na curva do picadeiro, com uma caixa de madeira entre as pernas, e esperou o momento em que ela entrou em cena…” “E…” “Com a sua caixa de manivela, tirou uma foto, meu caro Marceline, mas uma foto que não era uma foto. A foto que ele tirou dela era uma coisa viva.” “Você quer que eu acredite que aquele tonto do Arléquin…” “Sim, Marceline, capturou tudo, até o sangue que circulava sob a sua pele.” “Não é possível.” “Se você tivesse posto os olhos ali, a terra teria se aberto também sob seus pés, acredite, e você teria ficado enjoado, pois, ali dentro, tudo estava de cabeça para baixo e se mexia, os cavalos, o picadeiro, as luzes, e, naquele maremoto, só Eszter ficava em equilíbrio… Mister Bretchley, o nosso empresário, nunca ficou sabendo, senão teria transformado aquilo na atração principal do circo. ‘Entrem, senhores, venham ver O LADRÃO DO TEMPO, o único homem que pode roubar a sua alma e fazer com que vocês a vejam.’” “E por que ninguém contou para ele?” “Quem teria acreditado na extraordinária invenção do servente de um circo, de alguém que limpa a areia dos animais? Uma foto que se mexe! Nem você, que é dos nossos, acredita! Arléquin não sabia ler nem escrever.” “Mas podia ter mostrado para alguém a sua caixa mágica.” “Mostrou para nós, que éramos a sua família, mas não se interessava em torná-la pública nem emencher o Tâmisa de libras esterlinas; havia feito aquilo exclusivamente por Eszter, para continuar a vê-la dançar depois que tivesse ido embora.” “Eu também gostaria de vê-la, se fosse possível. Ela voltou algum dia a Londres?” “Não, depois do acidente, não voltou mais. Sua carreira acabou ali.

” “Sim, foi triste.” “Talvez fosse o destino: a melhor bailarina da Europa cai de um cavalo assim que chega aos Estados Unidos.” “Nunca mais houve outra como ela.” “Então, acredita em mim?” “Existe uma prova?” “Ouvi dizer que, quando parte da companhia partiu para uma nova turnê, Arléquin entregou a sua invenção a Hans. ‘Foi o presente que não lhe dei no dia das despedidas’, disse. ‘Vá para os Estados Unidos e entregue-o, é dela.’ Mas ninguém soube mais nada. Nem de Hans, nem da caixa, nem de Eszter.” “É uma história curiosa.” “É mesmo.” “Uma última coisa, Zarmo, por que todos o chamam de Arléquin?” “Foi um apelido dado de brincadeira por um italiano que, muitos anos atrás, trabalhava no nosso circo. ‘Ei, Arléquin, venha cá’, disse uma vez. Todos acharam engraçado. Porque Arléquin é a máscara do arco-íris, e não existe um arco-íris negro.” * * * Pronto, caro Christopher, foi isso que ouvi naquele dia. Palavra por palavra. Zarmo deixaria você boquiaberto com as suas brincadeiras: era capaz de manter em equilíbrio um taco de bilhar no queixo e jogar duas bolas em cima. Tinha tanto talento que dava a impressão de que o taco estava para cair. “Demorei anos”, dizia, “para aprender a errar.” Marceline, por outro lado, era um esplêndido mímico que o cinematógrafo realmente aniquilou muito tempo mais tarde. Ensinou-me tudo o que se pode fazer com uma bengala de bambu e também como um rosto pode ser expressivo sem mexer a cabeça nem fazer caretas. Em Cinderela, eu devia derrubá-lo de uma cadeira e, durante os ensaios, usei tanta energia que quase quebrei a sua perna. Ele se levantou do chão, tirou lentamente a poeira dos joelhos, mas, em vez de me dar uma bronca, começou a rir. Ainda rindo, pegou a sua vara de pesca e voltou a ficar em pé em cima da banqueta. Lembro-me dele assim, no centro do picadeiro, enquanto, com uma isca de diamantes, tentava resgatar as garotas do coro desaparecidas na areia alagada.

Usava um capote com uma longa cauda, gravata-borboleta sobre o colete branco como as suas bochechas e um chapéu que alisava com muito cuidado. Em cena, não dizia uma palavra, embora tivesse a voz mais bonita e gentil que já ouvi. Certa noite, sentou-se perto de mim e me contou que o seu nome verdadeiro era Isidro Marcelino Orbes Casanova. Perguntei como havia se tornado palhaço. “Com sete anos, adormeci na jaula de um leão”, disse, apertando os olhos, “e, quando acordei, estava longe demais de Saragoça e da minha família para voltar atrás: para que me contratassem, dei sete cambalhotas na frente do diretor do Circo Barcelonés.” Eu sei, Christopher, que, para você, essas são histórias distantes e sem valor, mas, naquele Natal, Marceline era o ídolo de Londres, e seria também o de Nova York. Uma estrela que, por algum tempo, brilhou tanto quanto a de Harry Houdini, o ilusionista. Mas, mesmo sabendo saltar até oito homens em fila e simular qualquer sentimento na imobilidade total, Marceline sempre foi umacrobata tímido e desorientado pela vida. A última vez que o vi, no fim da carreira, aceitara ser um dos muitos palhaços que corriam pelos três picadeiros do circo dos Ringling Brothers, depois que um acidente, a afirmação do cinema e dois restaurantes falidos o reduziram à fome. Entrei no camarim. Estava tirando a maquiagem devagar. Parecia um velho animal que não conseguia mais levantar nem uma pata sequer, imerso em uma melancólica letargia. Não esperou que a Morte fosse procurá-lo: suicidou-se com um tiro em um miserável hotelzinho para artistas em Nova York, o Hotel Mansfield, na rua Cinquenta. Mas, na época, eu não tinha nenhuma ideia do que aqueles dois estavam dizendo. E embora eu fosse apenas um menino de oito anos, a história de Arléquin me abalou muito. Era a hora secreta dos ensaios. Os trapézios oscilavam, os bastões e as argolas dos malabaristas eram lançados para o alto e as caretas dos palhaços enchiam o picadeiro em cima de bicicletas disformes e niqueladas. Diante do meu nariz, passou uma girafa de cinco metros de altura, com o pescoço ressecado, a língua azul e dois pequenos chifres na cabeça. Eu tinha visto Arléquin algumas vezes, mas ele era uma daquelas pessoas que nunca fazem muito barulho, tão negro que, à noite, quando terminava de limpar a arena, se atravessasse nu o campo, ninguém perceberia. Veio na minha direção uma mulher com figurino listrado, mais larga do que uma tina de zinco. Dava vontade de empurrá-la para um lado e para outro para ver se um mamífero com aquelas dimensões podia tombar. Tratava-se de Frida, a mulher-bala. Interpretava uma meia-irmã de Cinderela, e sabe-se lá quanto devia ser grande a boca de canhão que a atirava pelos ares. “O que você está procurando, Gatinho?”, disse ela, agitando uma das mãos diante dos meus olhos. Seu indicador era mais largo do que um pardal e, sobre uma unha, havia um grumo de goma roxa.

Mas foi a voz que me surpreendeu. Tão fina que, se eu fosse cego, teria pensado em uma daquelas moças delgadas e sem apetite que passeiam por aí sozinhas, têm cabelos longos, olhos grandes e fundos e uma sombra de melancolia nas pernas secas. “Nada”, miei, “estava dando uma voltinha.” Frida começou a rir. Encaminhei-me para a área dos animais. Tropecei duas vezes no mesmo tirante de ferro, não respondi a um ventríloquo e me deparei com um urso bailarino de mãos dadas com o dono. “Com licença, senhor, sabe onde posso encontrar o negro Arléquin?”, perguntei a um homem de terno listrado, colete, luvas e bengala, pronto para o baile. “Pirralho, a sua voz é mais fina do que as minhas costelas. Você tem algum problema?” Observei o seu cavanhaque, grisalho e afilado, e os cabelos lanosos nas laterais; sob as calças, parecia que havia apenas duas ripas de madeira. Mesmo vestido, era o homem mais magro que eu já tinha visto. Estendeu calorosamente a mão na minha direção e eu a apertei, mas senti todos os ossos dos seus dedos estalarem de maneira alarmante. O homem pôs-se a rir. “Não tenha medo, é uma brincadeira que faço com todos. Aqui dentro, sou o esqueleto humano. Meu nome é Jack. Todos os esqueletos da Inglaterra se chamam Jack. E você? Bem, não se pode dizer que você seja uma alteza.” A sua risada ressoou desafinada e inoportuna. “Se está procurando Arléquin, ele está lá embaixo. Foi um prazer conhecê-lo.” Mas, antes que eu me afastasse, de uma das carroças pulou um espectro vestindo um comprido roupão vermelho e uma faixa bem apertada acima da cintura. Uma proliferação ameaçadora de pelos começava a descer desde a altura de seus olhos e em torno do nariz, cobrindo as bochechas, orelhas e narinas, e invadindo os maxilares e a testa. De humano, restavam apenas as pupilas e os lábios. E as mãos, glabras e brancas. “O que você está olhando, anãozinho?” Misteriosamente, aquele homem com feições de animal falava a minha língua.

“Você deveria vê-lo de gravata”, me disse o esqueleto humano, afastando-se com um passo ziguezagueante e incerto. “Jo Jo é o príncipe encantado mais lindo que já existiu.” Observei-os desaparecer embaixo da arquibancada. O estalo de um chicote anunciou que eu finalmente havia chegado às jaulas dos animais. Semmotivo, meu coração foi parar na boca, agitado como um pássaro que balança as penas. Mister Bretchley, o empresário de CINDERELLA AT THE CIRCUS — assim estava escrito nos cartazes por toda Londres —, me esquadrinhou da cabeça aos pés. “Humm, nada bom”, disse, mastigando lentamente cada sílaba para reter ainda o sabor do tabaco. “À primeira vista, eu diria que você é um meio-termo. Não posso colocá-lo no número dos pigmeus barbudos porque é alto demais, nem no do mago Ruben. Sinto muito, rapazinho, mas você terá de se contentar em interpretar o gato ainda por um bom tempo.” Mister Bretchley não era do tipo que se delongava muito. Disse aquilo e voltou a fumar. Arléquin estava esvaziando um balde. Mal se virou. Uma luz estranha brilhava e, sobre o seu rosto, passou a sombra de um trapézio que o vento havia deslocado acima dele. As suas mãos estavam sujas de terra. O trapézio descreveu o percurso de volta e, na boca de Arléquin, um sorriso se abriu ao me ver. Ele sentou-se na beira do picadeiro, diante de uma fila de cadeiras vazias. É assim que me lembro dele, limpando a terra úmida que ficara agarrada em seus dedos. Não sei como explicar, mas tive a certeza, como só um garoto de oito anos pode ter, de que, muito tempo antes, as suas mãos também haviam jogado malabares e enganado os olhos do público com aros, bastões e tochas, mas que naquele momento já mendigavam, sem remédio, a melancolia de umhomem. Limpando as jaulas dos animais, Christopher, aprende-se muitas coisas. Por exemplo: para retirar o esterco de elefante são necessários sacos de cânhamo com pelo menos um metro de largura, e é possível construir casas com esterco de camelo. As mãos de Arléquin — aquelas que foram as primeiras a inventar o cinematógrafo — sabiam que, no terriço, não se pode separar nada: a turfa do estrume, a poeira das cinzas, o seco do molhado. Tudo é a mesma semeadura, o mesmo punhado de areia. Assim como o silêncio, que é repleto de palavras, e o tempo, feito de recordações como uma raiz.

Mas você deve estar achando a minha conversa inútil e enfadonha como uma velha pianola desafinada, e, se eu continuar desse jeito, a Morte certamente me levará esta noite. Todavia, para mim, as recordações sempre tiveram uma relação com as mãos, mais do que com qualquer outra coisa. Escute esta história. Certa vez, Mister Bretchley contou que havia contratado, em nome dos irmãos Bastiani, um anão sem braços. Acidente de guerra. Ou febre terçã. Ou talvez ele tivesse nascido assim. Chamavam-no Golias. E parecia uma brincadeira, mas Golias tinha uma força sobre-humana nos dentes. Se lhe amarrassem um morso como os que são atrelados aos cavalos, ele podia arrastar por dez metros uma carroça com as girafas, mais os palhaços e macacos em cima. O número sempre surtia certo efeito. O problema foi que, um dia, Golias se perdeu. O circo estava pelas bandas de São Petersburgo, no delta de um rio. Golias disse que queria ver como era um país cheio de neve, saiu e não voltou mais. Bretchley culpou os caçadores. Os lobos da tundra. Os terroristas anarquistas. A verdade era muito mais simples. Golias não foi capaz de reencontrar novamente o acampamento porque se esquecia facilmente de tudo. Nem se lembrava da causa da sua mutilação. E não era devido aos esforços dos maxilares, que faziam com que suas têmporas sangrassem, mas porque não havia lhe restado nenhuma das mãos para segurar o passado e não afundar na neve. * * * Três anos depois, deram ao meu pai a sepultura dos pobres no cemitério de Tooting, minha mãe foi internada definitivamente em um sanatório para doentes mentais e eu passei a correr. Assim começou o novo século para mim. Quilômetros e quilômetros de corrida. Meu irmão Syd havia se alistado na Marinha e eu queria me tornar o maior corredor inglês: Charlie, o maratonista.

Treinei durante meses, levei a minha resistência física até o limite do suportável, ganhei um prêmio de vinte e cinco libras esterlinas em Nottingham em uma prova de trinta quilômetros e, alguns anos mais tarde, apenas uma tosse forte me impediu de participar das Olimpíadas de Londres. Naquela época, eu vendia pequenos buquês de violetas nos arredores dos pubs de Kennington Road e fui ajudante de um barbeiro andaluz que tinha um pequeno salão em Chester Street. Ele dizia que havia feito a barba de Robert Louis Stevenson uma vez. Quando não entrava ninguém, pegava umviolão no almoxarifado e punha-se a tocar flamenco. Era a sua paixão. Explicava-me que aquela música era feita de um canto grande, um canto profundo e um canto mínimo, como todas as coisas, e que lhe causava o duende, uma espécie de mal-estar que incendiava o seu sangue. Não era muito claro o que queria dizer, mas eu achava que o entendia, como se um músico espanhol também tivesse estado presente na carroça de ciganos na qual eu nascera. A minha tarefa era ensaboar o rosto das pessoas. É inacreditável como os rostos são diferentes uns dos outros: ásperos, angulosos, gordurosos… Era natural para mim imitá-los no espelho enquanto massageava as bochechas, era mais forte do que eu. Quem estava esperando a vez me espiava por trás e, logo, toda a barbearia caía na risada. Em poucos dias, os clientes mais melindrosos exigiram que eu fosse mandado embora. Perdi outro trabalho como mordomo porque construí, no meu tempo livre, uma longa trompa comuma calha. Defendi-me dizendo que gostava de música, mas fui despedido mesmo assim. Comecei, então, a fabricar brinquedos e caça-níqueis para dois escoceses, que os vendiam em feiras, até que a agência teatral Blackmore me designou para o papel de um jornaleiro ambulante, o qual interpretei com muito realismo em uma comédia com um título profético: Dos trapos às estrelas. Logo depois, me deram o papel do mensageiro Billy em Sherlock Holmes.

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