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A Ultima Dona – Lidia Jorge

“…A Casa do Leborão é um local da Terra e existe. Se não existisse aí não teria chegado o Engenheiro Geraldes ao cair de uma noite do fim de Inverno, acompanhado por uma rapariga a quemchamavam Anita Starlet, para desfrutar com serenidade de cinco dias de bom lazer. E bem merecidos, já que sempre tinha sido um cultor da ciência e da técnica, um estudioso, e ultimamente um administrador de reputação assinalável, sem que jamais a desordem o tivesse visitado com a sua vassoira de lenha. Mas alguma vez a fragrância da aventura haveria de lhe bater à porta e agora ali estava ela, imperiosa, levando-o para um local secreto…” Assim começa o mais polémico romance de Lídia Jorge, uma história perturbadora de clandestinidade, de duas pessoas que resolvem viver, em cinco dias, o seu derradeiro caso de amor. A Última Dona (1992) é a visita à interioridade de um homem tranquilo, que tendo sido tocado pelo rumor da paixão, experimenta em segredo uma aventura única onde a dramaticidade dos gestos se cruza com a perplexidade dos limites. Neste seu último romance e por certo o mais polémico de todos por si publicados – um livro que dividiu e agitou a crítica – Lídia Jorge, no dizer de Ana B. Pinho, constrói uma “parábola elegante sobre os males de amor”. Lídia Jorge nasceu em Boliqueime, Algarve a 18 de Junho de 1946. Completa o curso liceal em Faro e vem para Lisboa em 1965 frequentar a Faculdade de Letras. Licenciada em Filologia Românica, leccionou em Angola e em Muçambique, foi professora durante muitos anos no Liceu Rainha Dona Leonor e assistente na Faculdade de Letras e é, actualmente, membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Considerada uma das mais importantes revelações da ficção portuguesa depois de Agostina bessaLuís, Lídia Jorge publica em 1980 o seu primeiro romance, O Dia Dos Prodígios, que recebe o Prémio Revelação em Prosa da Associação Portuguesa de Escritores. Os seus romances O Cais Das Merendas (1982) e Notícia Da Cidade Silvestre (1984) foram galardoados com o Prémio Municipal de Lisboa. Em 1988 publica o romance A Costa Dos Murmúrios e em 1992 o conto A Instrumentalina. LÍDIA JORGE Não me despertes se durmo e, se estou acordado, não me adormeças. Calderón de La Barca I – OS CINCO DIAS Sou testemunha de que antes de se atingir as praias e o caos, a poente dos cruzamentos que conduzem a Duas-Pias, deixando para trás a velha linha do telégrafo que ainda delimita a zona do sossego, A Casa do Leborão é um local da Terra e existe. Se não existisse aí não teria chegado o Engenheiro Geraldes ao cair duma noite de fim de Inverno, acompanhado por uma rapariga a quemchamavam Anita Starlet, para desfrutar com serenidade de cinco dias de bom lazer. E bem merecidos, já que sempre tinha sido um cultor da ciência e da técnica, um estudioso, e ultimamente um administrador de reputação assinalável, sem que jamais a desordem o tivesse visitado com sua vassoira de lenha. Mas alguma vez a fragância da aventura haveria de lhe bater à porta e agora ali estava ela, imperiosa, levando-o para um local secreto, uma casa disfarçada, a que a sua recordação no futuro haveria de recorrer sempre que necessário, com seu passinho de aranha ou de serpente. “Meu Deus, como existia essa casa!” – Recordaria depois. Na altura, porém, o Engenheiro havia planeado o percurso com a minúcia que lhe ficara do estágio em hidrologia ocorrido à beira dos Alpes, imaginando no caso concreto as horas, os subterfúgios e os locais possíveis, bem como os pequenos eventos previstos e o espaço para os imprevistos, com a minuciosa ponderação própria não só dum engenheiro mas também dumlegislador. A sua percepção centrava-se na certeza rigorosa de que um bem lhe acontecia demasiado tarde, para que alguma coisa pudesse ficar na mão descuidada do acaso. Receava sobretudo que a surpresa, com a sua cauda peluda, pudesse atravessar-se no caminho que imaginava fazer ao lado de Anita Starlet, quando apenas dispunha de escassos cinco dias de lazer. “Pois o que eram cinco dias?” Mesmo assim, o Engenheiro achava que muito poucos poderiam vir a desfrutar dum tempo como aquele. Era um segredo, e a sua lembrança recomeçava sempre no meio duma estrada, dentro dumopulento Rover, em pleno campo e em pleno percurso. Recomeçava ao fim do dia.


O soberbo casaco branco e preto que a rapariga vestia nessa primeira corrida, todo ele de lã mohair como ao tempo não era hábito ver, continuava a brilhar entre os vidros do carro, e apesar de a penumbra já então se ter abatido sobre os campos por onde passavam, ele prosseguia a conduzir sem acender os faróis. Era como se o bem estar que sentia por levar consigo a Anita Starlet, e por ter a certeza de que em breve mergulhariam os dois na estrada da mata completamente sozinhos, lhe apurasse desusadamente a vista. A certa altura também a estrada por onde avançavam tinha começado a ondular, e depois de recuperarem a recta, a partir da qual ainda se via a lista lilás do sol-posto, a florestação de pinus pinea surgira e de repente a atmosfera enverdecera. Não se via quase nada. Mas ele tinha sentido que era bom conduzir assim, até porque se dava o acaso de não surgirem viaturas em sentido oposto. Também a rapariga não tinha medo, já que fora prevenida de que além daqueles ziguezagues, um caminho liso haveria de surgir ladeado de árvores copadas, até que depois dum portão que eles mesmos iam abrir e fechar, como se fosse a portada duma propriedade sua, A Casa do Leborão os esperava por cinco dias e cinco noites. “Meu Deus! Eu e a coquine!” – Tinha ele dito, parecendo-lhe irreal a aproximação da primeira noite do primeiro dia, como gostava de dizer. Curiosamente, o Engenheiro falava desse percurso como se fosse um homem enfático – Não era. Habituado à orografia e aos grandes percursos, ao estudo das linhas de água e de terra, a que nos últimos anos se tinha vindo juntar a visão dos conjuntos cada vez mais vistos por cima e de forma indirecta, ele havia esquecido a emoção que se poderia sentir ao avançar-se por uma estradinha entre árvores, no fim da qual pudesse existir um hotel, prometendo uma feliz pausa para pensar no amor. Mas durante aquele percurso havia recuperado um pedaço dessa feliz desordem. O texto em que trabalhava havia mais de dois meses para fazer parte do Simpósio sobre a Qualidade da Água, e que ele contava ler a uma mesa coberta de saia plissada diante de quinhentas cabeças ligadas a aparelhos, a ser traduzido em cinco línguas, parecia-lhe então uma preocupação longínqua, inebriado que se sentia pela proximidade da rapariga junto de quemconduzia tão facilmente. Ela, o rosto dela de perfil, com o cabelo caído na cara tal qual como a vira numa revista de roupas leves, cheirando um perfume, de olhos fechados e boca vermelha, tinham-no feito conduzir daquele modo, e só para não se sentir ridículo e se manter racional, ele não pronunciava palavras tontas como seria planar. Ou fluir, ou nadar. Pois não era desse modo que o seu carro, como prolongamento da vitória íntima, avançava naquele fim de dia? Mas ele não queria proferir um único som que pudesse denunciar a perturbação que o assaltava, enquanto o escuro alastrava, e ele mesmo conduzia o carro a caminho d’A Casa do Leborão. Aliás, de algum modo a estrada por onde corriam lhe era familiar. “Uma estrada estreita a caminho dum vago clube! E no entanto…” – Não se lembrava de por ali alguma vez ter passado, mas a carta topográfica que lhe haviam entregue pessoalmente, ainda que de forma indirecta, preparava bem qualquer pessoa, quanto mais um engenheiro habituado à decifração dos esquemas! Aliás, o mapa, de dimensões razoáveis, era deveras um objecto interessante, e Anita Starlet, como ficara conhecida – o seu verdadeiro nome era Ana Palma – prendendo o cabelo atrás da orelha, tinha-o desdobrado sobre os joelhos para confirmar que o era. “Veja aí, minha querida, se não parece um objecto de colecção!” – Tinha ele.dito, com a respiração larga das pessoas bem humoradas. Curiosamente, o esquema estava concebido numa escala de 1/2 000 o que permitia que as próprias bombas de gasolina aparecessem representadas com sua garganta e mangueira, bem como os velhos paus de telégrafo saindo duma produção vegetal parecida com uma seara, concretamente traçados a ponta-seca e concebidos com realismo assinalável. O autor de semelhante reprodução do local havia posto no desenho um cuidado tão minucioso que resultava cómico, e o Engenheiro Geraldes tinha começado a rir como não ria havia muitos anos, quando a rapariga lhe havia mostrado como uma mancha oblonga, dir-se-ia uma imperfeição do desenhador, representava um camaleão entre as árvores com sua pata e sua unha. Parecia um desenho de crianças! – Tinha ele dito, no momento em que ela ainda abria o mapa no colo e a luz já pouco iluminava. Mas não, não era um desenho ingénuo. Tratava-se por certo dum mapa destinado a veraneantes. Aquela era a época mais baixa do ano, e esses pequenos lagartos deveriam estar a dormir o seu sono profundo enroscados em buracos, e por certo seriam tão poucos que bem se poderia falar duma pequena espécie em vias de extermínio. Para os nórdicos em busca de outros climas, contudo, a invocação de um descendente do velho sáurio do sul deveria servir de atracção para os seus sonhos estivais.

Os negociantes do lazer tinham-se transformado em exploradores semelhantes a piratas. Aliás, as espécies cinegéticas da região, como a perdiz e a lebre, também se encontravamrepresentadas no mapa em estado de marcha e de voo, e desenhado sobre elas, o esboço duma caçadeira deitava fumo. Num outro canto, a forma dum caçador apontava a espingarda para o ar e umbico tombava a pique na direcção de onduladas letras. Como era interessante! Por antecipação, só faltava ele com a rapariga, sentados no automóvel, com as malas de viagem arrumadas atrás e a aparelhagem soltando música de câmara pelos campos fora. A Casa do Leborão, porém, essa naturalmente não constava da carta, nem tampouco o portão de ferro que dois quilómetros antes lhe tinha dado acesso. O Engenheiro havia parado com a sombra da terra a perder nitidez. Acaso estariam perdidos? E se estivessem o que fariam? – Tinha ele perguntado, simulando um risco que não havia. A rapariga dava pequenas gargalhadas, olhando pelo campo fora. “Às vezes tudo isto me parece doido!” – Dizia ela. Mas não estavam perdidos, não. Uma ousadia semelhante à dos corredores, face à contínua sebe de vegetação que ladeava o caminho, impelia-o a levar o carro daquele modo, ora atravessando clareiras onde a luz ainda entrava com algum vigor, ora ultrapassando por cálculo pequenas zonas emque o percurso já se fazia sob treva. E de novo penumbra e de novo treva, até que a Anita Palma se agarrou ao tablier, soltando um pequeno guincho com a sua voz especialíssima. “Ora bolas, quer matar-nos?” Ele, porém, tinha-a protegido com o braço. “Ah! Não tenha medo” – Havia dito rindo, cheio de coragem. “De há um tempo para cá só as coisas boas vêm ter comigo!” Mas não era apenas porque se sentia como se mergulhasse num lugar protegido, ao lado duma criatura muito especial, que ele mesmo havia feito vestir de lã mohair, que o Engenheiro teimava em não acender os faróis. Era sobretudo porque assim havia imaginado. Queria – estava habituado não só a disciplinar-se mas também imperativamente a querer – chegar À Casa do Leborão à hora do crepúsculo, para ver de longe as janelas surgirem entre os pés das árvores, em forma de quadrângulos foscos, como se dentro a iluminação se fizesse a petróleo ou a vela, invocando contos de fada. Era uma aposta que tinha feito consigo mesmo. A pessoa que o havia aconselhado a fugir dos aeroportos, das cidades e mesmo das praias para procurar o campo, e no vasto campo lhe havia sugerido aquela casa, entre hotel e albergaria, tinha-lhe dito que a iluminação exterior das janelas, como tudo o mais, era fruto da proficiência dos gestores da casa que assim sabiam atrair hóspedes muito especiais ao acolhimento de um refúgio absolutamente discreto. E ele tinha imaginado parar o carro, ficar a contemplar o exterior por um minuto, virar a cabeça, tirar os óculos, e na penumbra resguardada do automóvel, procurar a boca vermelha da rapariga. Em sua ideia assim merecia que acontecesse, pois inteligentemente o tinha previsto e preparado. Aliás, previra mais, previra tudo em relação ao percurso e à chegada. Também havia decidido que o encontro se daria perto das bombas da gasolina, à saída de Duas-Pias, exactamente às seis em ponto. Mas uma pessoa que uma vez se tornou imprescindível, dificilmente consegue chegar a horas à sua própria vida, ainda que à sua volta não se fale noutro assunto mais premente do que o calendário e o tempo. Essa era a peste bubónica da recente civilização.

E então o Engenheiro havia chegado atrasado. A passagem pela Barragem da Açucena tinha trazido surpresas. As novas fábricas eléctricas ameaçavam desdobrar-se em lucros dentro de poucos anos – a prova é que as vertentes se encontravam cobertas de garfos gigantes levantados no ar, levando a corrente consigo em sinal de abundância – e no entanto, ao aproximar-se o grupo do paredão, de entre a assistência, um pobre homem deitara fora o seu chapéu de campónio e havia-se atirado sob os olhos de todos para a espuma da cascata. A água havia-o engolido como uma pequena asa. No meio da agitação, o Engenheiro tinha feito um considerável esforço para não se deixar impressionar, apesar de saber que o aparato da administração por mais discreto que seja, desperta nos homens comuns o apelo a sentimentos extremos. Desde sempre os suicidas aguardam os dias de circunstância para sentirem os seus actos acompanhados de rumor. De qualquer modo, tinha sido obrigado a dizer palavras necessárias, tendo o grandioso espectáculo de engenharia atrás do ombro, e essa meia hora havia feito falta à perfeição do encontro marcado junto às bombas de gasolina, no cruzamento de Duas-Pias. De regresso à Praceta dos Ruivos, ele bem tinha insistido com o Mourato – “Mais depressa, mais depressa!” No gabinete tudo estava disposto para partir, sob o pretexto de que ele – também ele, como pessoa de carne e osso – ao fim de cinco anos precisava descansar. Mas na precipitação tinha esquecido os papéis onde havia começado a redigir a introdução ao relatório e fora obrigado a regressar. Não deixava de ser, contudo, mais uma contrariedade, e ao descer apressadamente as escadas do palacete, não pôde deixar de ler pela centésima vez o que um cínico havia deixado inscrito entre dois querubins que desenrolavam uma faixa – DEUS EMPRESTA-TA NÃO TA DÁ. Ainda que esse aviso espalhado ao alto da escadaria pelos anjos rubicundos não lhe dissesse respeito, já que tudo estava previsto e preparado. Depois, ele mesmo, como havia alguns anos não acontecia, tinha corrido pela estrada fora a velocidade pouco aconselhável. Seu carro cinzento escuro, de vidro fumado e persiana, corria e corria. Seu pequeno chapéu tombado tirava-lhe a feição, mas quando por fimavistara a coquine na berma com sua mala e seu casaco, já ele o havia guardado dentro do saco de viagem. Aí, sem querer, seu coração tinha-se enrugado ao avistá-la. Como era possível? – Pergunta inútil. Num país acabado de emergir da desordem e da pilhagem, como costumava dizer, tudo era de esperar. E em breve acabaria por saber o que se tinha passado. Ao contrário do que havia sido combinado, o chauffeur tinha largado Anita Starlet junto ao paredão, sem mais nem menos, tal como se fosse um pacote, invocando outros afazeres, como se um homem de táxi tivesse deveres mais importantes do que servir quem o sustentava. Era indesculpável. Fora-lhe recomendado por interposta pessoa a necessidade de aguardar, tinham-lhe pago o percurso integral com antecedência, e ainda havia sido sobejamente gratificado, mas a civilidade, infelizmente para todos, era um preceito que demorava séculos a transmitir. Ele bem imaginaria depois, deprimido, como àquela hora os camionistas teriam abrandado a marcha para verem a rapariga com a mala, embrulhada no majestoso casaco de lã, a andar de lá para cá, junto ao alpendre luminoso. Por certo que teriam deitado as cabeças mal lavadas de fora para dizerem obscenidades mais pesadas do que as bombas. E tudo isso por causa daquela incrível meia hora! Ainda por cima, julgava vir encontrá-la cansada de esperar, sim, mas no banco de trás dum carro, resguardada e protegida. Ora, pelo contrário.

Quando ele mesmo, conduzindo o seu automóvel, já sem chapéu, a avistara junto duma berma onde havia nódoas de gasolina do tamanho de lagunas, o Engenheiro tinha sentido um baque. Não havia perdoado o gesto do estúpido suicida. Estaria ela irremediavelmente agastada? Estaria só triste? Teria o pé gelado, a boca fria? Mas não. A rapariga que o esperava à beira da estrada, não era apenas uma figura ocasional que ele tivesse encontrado de passagem na casa de Fausto Maia. Muito pelo contrário, ela correspondia a alguma coisa efervescente que tinha dificuldade em definir, e quando definia, de si mesmo queria afastar ou esconder. Uma espécie de tentação para alguma coisa desconhecida e rumorosa que o chamava sem se desvendar e por isso o atraía de forma insuperável como se lhe queimasse os dedos. “Ah! Sim, sim!” – Tinha ele dito finalmente. O que podia fazer, senão cair na tentação de experimentá-la, conhecê-la, e depois de conhecida, guardá-la na totalidade ou em parte na casa vasta da sua memória? Contava passar com ela momentos bons, durante aqueles cinco dias. Enquanto tudo isso não tinha início, o melhor era deixar que Anita aparecesse idêntica a si mesma, vária e rumorosa como era. Tinha procurado outras qualificações mas havia regressado ao velho termo das cartilhas – deslumbrante. E a prova é que apesar do atraso, ali estava intacta, esperando por ele ao cair da tarde, sem qualquer tipo de ressentimento, como numa película. Quando tinha avistado o carro, a rapariga havia corrido para a porta e na precipitação, sua boca parecia imensamente viva. Lembrava-se como se tivesse acontecido no dia anterior – Já aí as cores da terra perdiam luz a cada instante, e no entanto, à medida que essa transformação se operava, mais o casaco da Starlet parecia branco e mais a boca ficava vermelha. A sua respiração alta lembrava uma pomba. Então o Engenheiro tinha descansado, pois nada de importante se havia perdido, e alguma coisa se havia ganho, o que não impedia que de qualquer modo faltasse meia hora, a meia hora roubada indevidamente pelo campónio da cascata. Era por causa do gesto aleatório desse homem doente que o grande carro do Engenheiro havia chegado a passo à porta d’A Casa do Leborão, de faróis apagados, correndo o risco de roçar numa parede, ao contrário do que havia imaginado. “Tratava-se, contudo, duma pequena dificuldade sem relevância” – Dizia o Engenheiro. Sim, tinha chegado atrasado, mas ali estava o clube com suas luzes foscas espalhadas entre os pés das árvores como olhos de lobos bons, esperando. Ali estava. Ao contrário do que havia chegado a suspeitar, de ínvia que fora a reserva, a estalagem absolutamente discreta sempre era um lugar identificado da terra. Deveria beijá-la como tinha imaginado? Não sabia. Com o carro parado na ligeira rampa que conduzia às imediações do clube, ele tinha desejado tirar os óculos e procurar, no escuro do automóvel, a boca que o atraía, pois por mais íntimo que fosse o ambiente onde iriam entrar, o regresso aos móveis e às paredes sempre lhe traria de volta a imagem da cidade que haviam deixado ao fundo dos quilómetros, com suas praças, seu trânsito caótico, sua via de aeroporto, seus ministérios fúnebres e sua grande intriga. Ao apertar a mão da rapariga a quem gostava de chamar coquine, o Engenheiro queria que todas essas figuras humanas e não humanas se confundissem numa praia indistinta, sem designações próprias nem epígrafes. Os nomes das pessoas familiares, todas unidas sob o mesmo apelido como debaixo duma sombrinha, passando sob a vista de relance, incomodavam-no como agulhas. Tinha suspirado – Ah! Quem pudesse usar um separador na cabeça de modo a alojar toda essa vasta vida num pequeno canto dela, ficando todo o resto disponível para aqueles cinco dias que estavam a começar! Que pena a memória não poder ser separada como uma régua que divide a folha e a corta! Para que queria a baleia da lembrança a navegar na alma, no momento em que apenas desejava comportar-se como uma pessoa decente, junto da rapariga a quem chamavam Starlet? E o Engenheiro havia feito avançar a mão, nada mais do que a mão como nos filmes da sua juventude, na direcção do perfil da rapariga que havia encontrado na casa do Fausto Maia.

Ela, porém, inclinada para a sombra do clube pouco iluminado donde provinha o sinal de bom acolhimento, não dava pela sua posição. Mas na imaginação prévia do Engenheiro Geraldes, ela dava. Ela facilitava inclinando a cabeça sobre o encosto, com um pequeno suspiro, e era aí, abandonada na pequena almofada de veludo, que ele procuraria, anelante – tinha aprendido a palavra havia muitos anos – a boca vermelha da rapariga. Porque não o fazia? Porque não se sentava sobre o seu lado direito e naturalmente não lhe procurava a boca? Porquê? – Perguntava ele. Porque ela não suspeitava. Com a mão inerte posta no colo, continuava inclinada para o exterior donde provinham as luzes foscas, e a sua cabeça movia-se como se estivesse ocupada numa observação completa. Falava. Ela falava. Ao contrário do que ele havia imaginado para esse momento, dizia palavras sobre o aspecto nocturno da pousada térrea onde iriam entrar. A coquine movia a boca e dizia palavras. O Engenheiro ainda tinha pensado fazer avançar a testa – nada mais do que a testa – na direcção do ombro dela, nem que fosse para encontrar o enchumaço do casacão, e naquele instante, pedir-lhe que se calasse, que deixasse o silêncio brutal da mata tomar conta deles. E a sua testa queria, todo ele queria. Apenas ao contrário do que havia imaginado, nem por um instante Anita inclinava a cabeça. Mas não tinha importância. Ficaria para depois. Afinal o clube existia e ainda agora os cinco dias começavam. “Vamos então entrar?” – Tinha ele dito, por fim, retomando o pequeno percurso que faltava percorrer. Mas o coração do Engenheiro Geraldes continuava a bater a grandes golfadas como se jogasse ténis. Já tinha ligado os faróis e já se via o muro branco que indiciava a aproximação das garagens, acontecendo exactamente o que lhe haviam prometido. Tanto ele quanto ela podiam descansar porque os princípios de salvaguarda funcionavam por si. Ali estava como tudo batia certo – Tinha pensado. A forma de manter os hóspedes incógnitos, no momento da chegada, assentava num sistema que parecia perfeito. Havia-lhe sido assegurado que os próprios clientes costumavam eles mesmos retirar as malas, arrumar o carro e guardar a chave da garagem com toda a liberalidade, que ninguém os incomodava nem os via. De resto, como Anita Palma podia constatar, nenhuma lâmpada especial iluminava a entrada e as árvores que subiam junto da casa raspavam as paredes com volumes negros de escuridão. O acesso exterior não podia ser mais discreto.

A segunda chave era precisamente a da portaria. Servia à medida, rodava. Como fora garantido, na recepção não havia ninguém para observar quemchegasse, e no entanto, o ambiente aquecido, apesar da sobriedade, apresentava um luxo forrado de madeiras e tecido que parecia habitado. As paredes confirmavam que deveria ter servido de local de acesso ao antigo pavilhão de caça, quando o javardo, cem anos antes, se afoitava até às ravinas mais próximas, de que haviam ficado gravuras dos irmãos Kunzli Éditeurs espalhadas pela parede. Também à direita da pequena mesa onde se tinha de preencher uma ficha, como num hotel vulgar mas com nome suposto, sobre uma espécie de montra coberta de verdura, duas lebres empalhadas, com as grandes orelhas esticadas sobre o lombo, pareciam pastar. “Que interessante!” – Tinha dito a coquine, distraída, a observar os animais imóveis. “Parecem mesmo vivas! Acha que os olhos são de vidro?” Por outro lado, também as paredes grossas dispostas em geometria regular facilitavam a entrada, e tendo preparado com antecipação o percurso, era-lhe fácil empurrar pelo ombro a rapariga, seguindo a seu lado, como se o espaço lhe fosse familiar. Curiosamente a sua mão tremia, mas só a mão. De resto, caminhava seguro, caminhava quase solene, ouvindo o fru-fru do casaco dela, e ao senti-la avançar ligeira pelo corredor, era como se avançasse para dentro de si mesmo. Também o Engenheiro caminhava leve como não acontecia há muito, nem sabia quanto – Por onde tinham andado o corpo e a alma do Engenheiro, durante todos aqueles anos? – “Por onde? Por onde andaste, perdulário?” – Dizia para si.

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