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A última entrevista do casal John Lennon e Yoko Ono – David Sheff

“Hoje faz vinte anos…” Embora não exatamente nesse dia, foi de fato há vinte anos que entrei pela primeira vez no apartamento de John Lennon e Yoko Ono, em Nova York, no edifício Dakota. Assim que cheguei, logo reconheci o prédio em estilo gótico, erguido na década de 1880, que servira de cenário macabro para o filme O bebê de Rosemary. Os Lennon ocupavam um dos cantos de um dos últimos andares —que se podia alcançar por meio de um elevador lento, que rangia, todo decorado com gárgulas malencaradas. O apartamento enorme era surpreendentemente bonito. Obras de Warhol tomavam toda a parede do hall de entrada. Um sarcófago colocado dentro de uma caixa de vidro estava exposto numa sala de estar. No Salão Branco, com vista para o Central Park West, tudo era, de fato, branco: o sofá, o carpete, o abajur, a escultura e o famoso piano em que Lennon compusera “Imagine”. Um imenso trampolim ocupava o espaço que a maioria das pessoas teria usado como sala de jantar. Nas entradas, havia exemplares das obras de arte de Yoko, inclusive “Play It By Trust”, um tabuleiro de xadrez branco cujas peças eram todas brancas. (Alguns anos depois, Ono mandaria peças também de “Play It By Trust” para o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e para o secretário-geral soviético, Mikhail Gorbachev.) Como a maioria das pessoas, os Lennon normalmente entravam no prédio pela passagemprotegida e fechada da rua West 22 e pegavam o elevador principal para subir. Numa noite, porém, John e eu cortamos caminho por um corredor escuro e subimos pelo elevador de serviço, que nos levou até a porta da cozinha. Depois desse dia, eu passei a usar este elevador para chegar à cozinha, pois era ali que John e Yoko pareciam passar a maior parte do tempo. Certa vez, como contei depois, bati à porta, e John atendeu cantando a melodia de “Eleanor Rigby” com o seguinte refrão: “Eis aqui David Sheff, que veio fazer perguntas cujas respostas ninguém vai ouvir.”1 Naquela noite, na penumbra da cozinha, o rádio estava ligado, e nós ouvíamos as notícias sobre uma manifestação realizada contra as armas nucleares. Aquilo nos levou a uma conversa sobre política nuclear e dali a uma discussão acerca das raízes da violência. Foi um dos muitos momentos de minhas interlocuções com os Lennon que conservei para sempre — que repassei na memória milhares de vezes. “Mahatma Gandhi e Martin Luther King são grandes exemplos de fantásticas personalidades não violentas que morreram de forma violenta. Não consigo entender isso. Somos pacifistas, mas não sei o que significa ser tão pacifista a ponto de levar um tiro. Jamais conseguirei entender uma coisa dessas.” Alguns meses depois, Lennon foi baleado. Jamais consegui entender aquilo. E ainda não entendo. Naquela ocasião, eu estava em Los Angeles, assistindo ao programa do jornalista esportivo Howard Cosell, na televisão, como milhares de outros norte-americanos.


Tentei ligar para Yoko, no Dakota, mas as linhas estavam muito congestionadas, então, segui para o aeroporto e peguei um avião — qualquer avião. Voei para Nova York via Dallas e Miami, única rota disponível àquela hora da noite. Quando cheguei a Manhattan, o Central Park estava tomado por centenas de milhares de fãs de John. As pessoas choravam. As pessoas cantavam. Recentemente, lembrei-me desse momento comYoko. De vez em quando, os olhos dela ainda se enchem de lágrimas ao falar de John, embora após vinte anos já tenha conseguido, é claro, seguir emfrente; tem uma vida cheia e muito produtiva. (Em 2000 lançou um novo CD e um livro com a retrospectiva de seu trabalho artístico.) Quando falamos de 1980, ela abriu um largo sorriso. “Fazer Double Fantasy e Milk and Honey foi muito prazeroso para nós”, ela afirmou. “Depois de uma longa vida a dois cheia de reviravoltas, por fim, estávamos seguindo adiante como conspiradores de vida. Sussurrávamos e ríamos das coisas entre as gravações. Era bom. John dizia: ‘Fica melhor após dez anos. Precisamos contar isso às crianças.’ As crianças eram os fãs; John sempre se sentiu responsável por eles.” Naquele verão, os Lennon tinham ressurgido depois de cinco anos tranquilos passados entre o apartamento de Manhattan e a casa de Cold Spring Harbor, em Long Island. Viviam serenamente: John como o “dono de casa” — ele próprio cunhara o termo — e Yoko administrando a imensa propriedade da família. O filho deles, Sean, nascera em 1975, e John era louco por ele. (O trampolimda sala de jantar era do menino.) John e Yoko estavam mais próximos do que nunca; Lennon — numa canção que compôs nessa época — descreveu aquilo como se fosse “exatamente como começar de novo”. A imprensa e os fãs não ficaram muito otimistas com o desaparecimento dos Lennon da vida pública. Surgiram alguns artigos maldosos que especularam sobre as razões da não haver nenhumdisco, nenhuma apresentação pública, nenhuma entrevista. Não deixa de ser uma ironia o fato de que Lennon descreveria aquele período como o mais satisfatório de toda a sua vida. Quando decidiram “colocar o nariz para fora” outra vez, como eles mesmos disseram, voltaramao estúdio para gravar os discos e dar algumas entrevistas breves para a revista Newsweek, para a rede BBC e para mais alguns outros jornais e estações de rádio, assim como a entrevista para a Playboy.

Aquela seria a última grande entrevista com John. Passei três semanas com eles — na cozinha do Dakota, no estúdio de gravação, no banco traseiro das limusines e nos cafés. O gravador estava sempre ligado. (John ria de mim por causa disso, citando a canção de Yoko: “All you beautiful boys with all your little toys” [Vocês meninos lindos com seus brinquedinhos]). As conversas que entabulávamos me agradavam e inspiravam; até hoje reflito sobre elas. Embora eu tivesse apenas 24 anos quando conduzi a entrevista, as lições da experiência com John e Yoko jamais se perderam em mim. Uma era óbvia: o astro do rock finalmente alcançara alguma satisfação — satisfação esta que lhe havia escapado mesmo quando se apresentara no Ed Sullivan show ou no Shea Stadium, quando recebera o título honorífico da rainha da Inglaterra e quando criara uma sequência de primeiros lugares nas paradas musicais jamais igualada por outra pessoa — e de forma surpreendente: ao tomar conta do filho e conversar com tranquilidade com a mulher. Olhando em retrospectiva, vejo que John e Yoko, inadvertidamente, pavimentaram o caminho para um novo tipo de núcleo familiar. John era o sr. Mamãe, e Yoko era a CEO feminista, muito antes de essas alternativas serem bem acolhidas; na verdade, eles moldaram um exemplo que mudou as vidas de muitos homens e mulheres. Eu me lembro da paixão de John, e também do seu humor. Recordo o esclarecimento da canção “Strawberry Fields Forever” — a qual me assombrou na adolescência —, o modo como captura o isolamento dele quando criança ao cantar “No one I think is in my tree” [Acho que não tem ninguémna minha árvore]. Relembro a descrição inspirada da colaboração com Paul McCartney — quemescreveu o quê na canção “We Can Work It Out”. Paul, o contador de histórias, Lennon, o filósofo, nos fazendo recordar que “Life is very short and there’s no time/ For fussing and fighting my friend” [A vida é curta e não há tempo para reboliços e brigas, meu amigo]. Quando perguntei a ele sobre a canção “Yesterday”, de McCartney, não perdeu tempo. “Eu não acredito em ontem[yesterday]”, respondeu. E quando levantei o tema das críticas contra Yoko, John deu um pulo na cozinha e literalmente subiu na geladeira. “Todos que alegam ter algum interesse em mim enquanto artista individual ou mesmo como parte integrante dos Beatles entenderam completamente errado tudo o que eu sempre disse se não conseguiram ver por que razão estou com Yoko”, afirmou. “E, se eles não conseguem ver isso, não enxergam mais nada. Estão apenas se masturbando — podia ser com qualquer um: Mick Jagger ou algum outro…” Para concluir, ele disse: “Se é isso que estão querendo, corram atrás de Paul ou de Mick… Vão brincar com os Rolling Wings.” É fácil se tornar pessimista quando um herói como Lennon é assassinado. Mas, em 1980, John e Yoko diziam, e Yoko continuava dizendo em 2000, que existe uma outra forma de ver a vida. Em nossa conversa recente, Yoko tornou a me lembrar: “Nesse novo milênio, chefes de Estado dos países que têm sido hostis uns aos outros, ao longo de décadas, estão expressando o desejo de dar uma chance à paz e de se unir. Homens e mulheres inteligentes de nossas sociedades estão ‘começando de novo’2 com novas atitudes de cuidado em relação aos parceiros e às famílias. A Europa não só está imaginando que ‘não existem países’3, mas se encontra em pleno processo de eliminação das fronteiras por completo.

É claro que existem inúmeros retrocessos, mas o relevante é que todos nós nos importamos. Nossos sonhos estão se tornando realidade. Nossas orações estão prestes a serem atendidas. O que posso dizer? John afirmou: ‘Não há problema. Apenas solução.’ Ele disse: ‘Podemos fazer isso juntos. E é assim que as coisas são.’” Leia as palavras deles, de novo ou pela primeira vez. Sei o quanto a experiência de John e Yoko influenciou a minha vida, então, sei também como pode influenciar a vida dos outros. A mensagem deles é ao mesmo tempo complexa e simples: conheça a si mesmo e aprenda a pensar por conta própria. O amor é a resposta. Faça pelos outros sempre o que puder. Embora seja fácil viver de olhos fechados, devemos lutar contra esse impulso. Se não gostamos do que vemos, precisamos mudar. Pelo menos tentar. Celebrar a vida. Imaginar um mundo melhor. Isso é tudo o que eles dizem. David Sheff, San Francisco, 2000 1 Lennon fez um trocadilho com um dos versos da canção “Eleanor Rigby ”: Father McKenzie writing the words of a sermon that no one will hear (Padre McKenzie escreve um sermão que ninguém vai ouvir), [N. da T.]. 2 e 3 São dois versos de duas canções de John Lennon (“Just Like (Starting Over)” e “Imagine” respectivamente). 3 (idem nota 2) Introdução Introdução No começo do verão de 1980, quando me pediram para descobrir se John Lennon e Yoko Ono concordariam em dar uma entrevista para a revista Playboy, pensei naquilo como um desafio, semme dar conta da porta que iria abrir. Comecei a ligar para alguns amigos que poderiam saber de alguma coisa. Programei encontros com pessoas próximas dos Lennon — gente da música, como Harry Nilsson, Phil Spector e Nicky Hopkins, qualquer um que pudesse me levar até o casal recluso.

Jakob Magnussen, um extraordinário músico de jazz, sobre quem eu havia escrito certa vez, me ligou para contar a novidade surpreendente e ainda secreta: John estava entrando em contato com músicos — Earl Slick, Hugh McCracken, Andy Newmark e outros — e tinha contratado um produtor, Jack Douglas, para gravar um disco. Começava a odisseia. Deixei inúmeras mensagens para Douglas, pedindo que me retornasse. Quando ele enfim retornou, eu estava fora. Nesse meio-tempo, consegui o número do telefone de umassessor de imprensa que supostamente trabalhava com Yoko Ono. Foi ele que revelou a notícia da venda de gado feita por ela, da ordem de 250 mil dólares. Outro número de telefone me levou até o contador de John Lennon, um homem gentil que pareceu demonstrar o desejo de que eu tivesse ao menos uma chance com os patrões. Ele me prometeu que uma carta escrita por mim receberia a atenção pessoal de Yoko, e eu, então, redigi um telegrama com cuidado. Continuei buscando outros contatos: outros músicos, Douglas, todo tipo de indicação estranha. Fui para Nova York e me encontrei com qualquer um que tivesse a mínima chance de me ajudar. Estive com umas três ou quatro criaturas que me garantiram ser a única porta de entrada para os Lennon. De volta à Califórnia, fiquei sabendo que o assessor de imprensa de Boston havia ligado. Yoko tinha recebido meu telegrama. Uma reunião foi marcada. Eu deveria encontrá-la no Dakota. Um dos assistentes de Yoko me telefonou para perguntar a hora e o local do meu nascimento. Aparentemente, a entrevista dependia da interpretação de Yoko do meu horóscopo, assim como, pelo que se dizia, diversas decisões empresariais dos Lennon costumavam ser guiadas pelos astros. Eu me imaginava explicando para meu editor da Playboy: “Desculpe, mas, como minha lua está emEscorpião, a entrevista foi cancelada.” Sem dúvida aquilo estava fora do meu alcance. Dei a informação pedida: dia 23 de dezembro, três horas da tarde, Boston. Eu não sabia o que me esperava quando entrei no Dakota e passei pelo portão agourento e pelas inúmeras barreiras de segurança, no dia 8 de setembro. No escritório externo, ouvi duas vozes que tinham se tornado familiares ao telefone: Richard DePalma, o contador, e o assistente do casal. Eles foram bastante agradáveis e atenciosos. Um deles me pediu para tirar os sapatos antes de entrar no escritório particular de Yoko. Quando entrei, ela estava ao telefone, mas acenou com a cabeça e me indicou o sofá, próximo a ela, para sentar.

Sentei ereto e a observei. Como imaginara, ela me pareceu severa. Conversamos — sobre Nova York, o clima, o voo. Ela logo mudou para o tópico seguinte. Além do meu mapa astrológico, ela tinha olhado também a minha numerologia. Baseada em ambos, concluíra: “Este é um momento muito importante para você. Essa entrevista vai significar muito mais do que você pode compreender agora.” Aquilo queria dizer que estávamos combinados? Jamais recebi uma resposta direta. Ela estava me testando. Respondi perguntas sobre a minha concepção da entrevista, algumas das próprias visões preconcebidas que desejei esclarecer. Ela não ficou impressionada com a importância que eu, certamente, atribuía àquela entrevista; estava implícito. Sugeri que ela desse uma olhada nas entrevistas anteriores da Playboy e prometi levar algumas amostras. Yoko disse para lhe telefonar na manhã seguinte. Naquela tarde, enviei cópias das entrevistas com Jimmy Carter, Martin Luther King, Bob Dylan, Albert Schweitzer, entre outros. Artilharia pesada. Na manhã seguinte, telefonei para o Dakota e pedi para falar com Yoko. “Por que você não vem aqui ao meio-dia?”, ela perguntou. No Dakota, havia uma mensagem para que eu encontrasse Yoko numa cafeteria próxima. Em seguida, me vi sentado a duas xícaras de cappuccino de distância de John Lennon. Ele parecia ter acabado de acordar, com os olhos turvos e a barba por fazer, bebia café enquanto aguardava Yoko, que falava ao telefone. “É muito cedo para tudo isso”, ele disse sorrindo. “Não sei como ela consegue.” Após um breve bate-papo e alguns cafés, Yoko nos conduziu até a limusine. Começamos a nos conhecer dentro do carro, a caminho do lado oeste da cidade, atravessando ruas cheias de gente. John, que se equilibrava no assento abaixo do de Yoko, cujos pés se apoiavam no colo dele, explicou como seria aquele dia.

A última canção do disco seria a de Yoko, “Hard Times Are Over (For a While)”. Um fundo gospel deveria ser gravado. Yoko, que lia o New York Times aleatoriamente, através dos permanentes óculos escuros, olhou para John, cuja cabeça estava colada à janela do carro. A jaqueta verde-oliva dele estava desabotoada, com o colarinho virado sobre o pescoço. Por baixo, uma camiseta branca simples. Ele se apoiava no braço do assento e no banco do motorista à frente, para não se desequilibrar. Yoko, cujos cabelos negros, penteados e presos para trás, combinavam com a jaqueta de couro preta, dobrou o Times e o colocou sobre o banco ao lado. Os pensamentos de John, aparentemente, se fixavam nas entrevistas pendentes, pois suas palavras seguintes foram dirigidas a mim. “Estou ansioso por tudo isso”, ele disse. “Tem muito tempo que não fazemos uma coisa dessas.” Ele falou com excitação. “Em primeiro lugar, você precisa ouvir a música. Espere até ouvir a música! Vamos tocar a fita para você mais tarde.” Quando chegamos ao estúdio — um velho armazém escolhido para a sessão daquele dia, acima de tudo por causa do espaço cavernoso —, toda a equipe, incluindo o produtor Jack Douglas, o engenheiro Lee DeCarlo e um punhado de assistentes, já estava na sala de controle. John saudou o grupo rapidamente e, com o mesmo fôlego, apresentou-me. Douglas sorriu quando reconheceu meu nome e piscou. “Parabéns”, ele disse, com o adendo implícito, mas não dito: “Jamais pensei que o conheceria, mas seja bem-vindo.” Douglas se sentou naquele que parecia ser seu lugar costumeiro, diante do painel de controle, que continha três cadeiras: duas de um dos lados aguardavam John e Yoko e a outra, à frente, se destinava a DeCarlo. Sentados na mesma configuração que adotavam naquele estúdio ou no outro convencional, o Hit Factory, os quatro pareciam engenheiros de um comando da Nasa, preparados para o lançamento de um foguete. Yoko me disse para ficar confortável e pediu a um de seus assistentes, um garoto japonês chamado Toshi Hamaya, que lhes trouxesse xícaras de chá inglês com leite e café para mim. Do outro lado da divisória de vidro, os Benny Cummings Singers e o Kings Temple Choir estavam se aquecendo com o arranjador do projeto, Tony Davilio. Depois que Tony tocou ao piano o coro de “Hard Times Are Over”, Cummings introduziu o grupo nas sessões vocais, que logo se harmonizaram com o coral gospel, composto de “hmmms” e “oohhs”, que seria inserido na canção de Yoko. Ao ouvir a primeira versão gravada da canção, a faixa principal, John pareceu bastante satisfeito com a estranha mistura produzida pelo coral negro comovente, que ecoava lamentos sobre os vocais excêntricos, agudos, com o sotaque oriental de Yoko. Lennon disse: “Este deve ser o primeiro gospel japonês do mundo.” Douglas e os demais rebobinaram a fita, desligaram os interruptores e giraram as carrapetas, e John ligou o microfone da sala de controle para que o coral, atrás do vidro, pudesse ouvi-lo.

Ele falou com aquela voz inconfundível, dando as boas-vindas ao grupo e agradecendo-lhe por ter vindo. Pelo vidro foi possível ler nos lábios deles os “obrigados”. Jack e John acenaram com a cabeça umpara o outro, a fim de assinalar que estavam prontos, e John gargalhou no microfone: “Bem, vamos tocar um pouco de música.” Por cima dos monitores da sala de controle, ligados para que o coro pudesse ser ouvido, seguiuse um rugido de “Obrigado, obrigado, Senhor” e “Amém, amém, amém”. Quando John percebeu que o grupo estava, com beleza e espontaneidade, rezando, sussurrou para DeCarlo: “Grave isso em dois canais de áudio, rápido!” A oração foi gravada. É a abertura de “Hard Times Are Over (For a While)”. John ouviu as primeiras tomadas com atenção, enquanto bebia a segunda xícara de chá que Toshi lhe servira com delicadeza. Embora a pausa entre dois compassos da canção fosse imperceptível (para mim), John calma e firmemente interrompeu a sessão de gravação para tentar outra vez. “Uma enunciação mais clara do ‘over’ final”, ele solicitou. “Tentem não deixar a última sílaba cair. Procurem sustentar o ‘o-ver’, em vez de o deixarem decair”, ele pediu, cantando as duas versões com a própria voz. Em alguns momentos, parecia se perder dentro da música, mas jamais deixava escapar qualquer detalhe, por menor que fosse. Conforme a canção era tocada nos altofalantes dos monitores, John se balançava ao som da voz gravada de Yoko, murmurando a letra enquanto ouvia. Então, ele olhou em minha direção e viu que eu o estava observando. Ele piscou e perguntou: “Bem, o que você acha?” Quando o coro apaixonado envolveu por completo o canto agudo de Yoko, semelhante ao som do flautim, ficou parecendo muito mais uma oração do que uma canção popular. John pediu que o resultado fosse tocado outra vez, para que todos pudessem ouvir. Era maravilhoso, e soava como tal. A canção se tornara completa e inteira, como Yoko a havia concebido. John olhou para ela e viu que os olhos da mulher se encheram de lágrimas. Ele girou a cadeira para que pudesse alcançar o ombro dela. “Muito bom, Mãe”, ele disse. Yoko balançou a cabeça, secando com a manga da camisa as lágrimas que caíam livres. Horas mais tarde, quando a faixa fora finalizada, e John e Yoko haviam gravado o coral, entoando, segundo as instruções dela, as quatro palavras “ONE WORLD, ONE PEOPLE” diversas vezes seguidas, como um possível encerramento para o disco, Cummings perguntou se o grupo poderia agradecer aos Lennon com uma canção. Após isso, John expressou o próprio reconhecimento e fez questão de que um assistente verificasse que os créditos haviam sido escritos corretamente no disco. Quando o grupo deixou o estúdio, Lennon recebeu beijos e apertos de mão.

É claro que houve a questão inevitável. Um dos cantores perguntou: “Como vai Paul?” John sorriu, simpático: “Que Paul?” O ar dentro da limusine estava fresco e vivaz. “Está indo tudo bem, querida, não está?” John perguntou, feliz e inspirado. “Que presente recebemos! Bem, a próxima parada, senhor, é Hit Factory.” Um prato cheio de sushi e sashimi bem-preparados, frango teriyaki e vegetais aguardava no quinto andar do estúdio situado no West Side, uma empresa muito mais moderna, onde o último andar era reservado para os projetos especiais. Um homem negro imenso responsabilizava-se pela segurança naquele andar. Enquanto John e os outros mastigavam peixe e falavam sobre a gravação da manhã, Yoko abriu a pasta e com cuidado retirou algumas páginas soltas com palavras rascunhadas — os primeiros esboços de letras para as canções que formariam o álbum Double Fantasy. Ela disse que eu deveria ler. “Agora”, ela falou. “Vou lhe mostrar o lugar.” Yoko me levou até um saguão onde havia chá e café, além de barras de chocolate, e depois até a sala de controle. Tinha um sofá em frente ao painel de controle, onde pude descansar enquanto eles trabalhavam. Uma cadeira fora colocada atrás da deles, de modo que eu podia observar toda a movimentação. Além do saguão, tinha também uma sala especial — a sala de Yoko —, silenciosa, acarpetada e decorada com gravuras japonesas, flores frescas exóticas — orquídeas e frésias simples (as frésias híbridas duplas eram impossíveis de se conseguir naquela época do ano) — e umsofá luxuoso. Explicou que eu poderia fugir do barulho ali, que ela e John usavam o espaço para se isolar e descansar durante as sessões. Voltamos ao estúdio principal, onde John e os outros estavam ocupados trabalhando na gravação do dia. Fiquei observando durante horas, até que Yoko sugeriu que fôssemos embora. No carro, John perguntou se eu estava pronto para começar a entrevista, quando voltássemos ao apartamento. “Iremos até onde você ficar satisfeito — até onde todos nós ficarmos satisfeitos”, ele falou. David Sheff, 1981 Parte Um Parte Um 1 1 No Dakota, o vigia idoso, que mais parecia um objeto do que um auxiliar, diante do edifício cinza, fantasmagórico, abriu as portas do carro para nós. John saudou o homem pelo nome e, de modo apressado mas gentil, sorriu para umas fotos com um fã que esperava desde cedo, apenas para ter a chance de conhecê-lo. Após dois rápidos flashes da câmera, John se encaminhou para a entrada às cegas. Piscando a fim de recuperar a visão, ele parou de repente. “Ops, querida, espero que você esteja com as chaves de casa. Esqueci as minhas.

” Yoko não respondeu, mas usou as suas chaves para chamar o elevador. John me olhou encabulado. “Eu nem precisava perguntar”, disse com um riso forçado. Dentro do apartamento, John me guiou por um corredor coberto por fotografias até a cozinha, onde me disse para esperar enquanto se arrumava. Yoko tinha se dirigido para outra parte do apartamento. Enquanto eu olhava à volta da imensa cozinha recém-pintada, abastecida com potes de chá e café, especiarias e grãos, ouvi vozes de um quarto distante: uma criança dava risadas e um pai fingia que lhe dava uma bronca. “Então, seu malandro, por que ainda não foi dormir? Arrá! Muito bem, eu teria lhe dado um beijo de boa-noite mesmo que você já estivesse dormindo, seu bobo.” John voltou para a cozinha completamente revitalizado e, enquanto colocava uma chaleira de água para ferver, explicou que o filho, Sean, não estava acostumado ao novo horário dos pais, que trabalhavam até tarde no disco. Antes do projeto, John permanecia em casa quase o tempo todo. Yoko entrou na cozinha vestindo um robe parecido com um quimono, e John preparou três xícaras de chá. “Bem, devemos começar?”, ele perguntou enquanto se sentava. Olhei para ambos, esperando atentamente e comecei. “A novidade é esta: John Lennon e Yoko Ono estão de volta…” De imediato, John interrompeu e, dando gargalhadas, cutucou Yoko. “É mesmo?”, ele brincou. “De onde?” Sorri e continuei: “… ao estúdio, gravando novamente, pela primeira vez desde 1975, quando sumiram da vista do público. O que vocês fizeram durante todo esse tempo?” John virou-se para Yoko, gracejando: “Você quer começar, ou devo eu?”, ele perguntou. “Você começa”, ela respondeu com firmeza. “Eu mesmo? De verdade? Ok…” John se reclinou na cadeira, segurando firme a xícara de chá. Enquanto observava o vapor que subia, começou: LENNON: Eu andei fazendo pão. PLAYBOY: Pão? LENNON: E cuidando do bebê. PLAYBOY: E quais os projetos secretos que guardava no porão? LENNON: Você está de brincadeira? Não havia nenhum projeto secreto no porão. Pois pão e bebês, como qualquer dona de casa sabe, são um trabalho em tempo integral. Não deixam espaço para outros projetos. Depois que eu fazia os pães, me sentia como se tivesse conquistado algo. Mas, quando via o pão sendo comido, pensava: “Meu Deus! Será que não vou ganhar uma medalha de ouro, ou uma condecoração, ou qualquer outra coisa?” E trata-se de uma tremenda responsabilidade observar se o bebê está recebendo a quantidade adequada de comida e não se empanturra, e se está dormindo o suficiente.

Se eu, no papel de mãe, não o colocasse para dormir e garantisse que ele tomasse banho às sete e meia, ninguém mais o faria. É uma tremenda responsabilidade. Hoje, entendo as frustrações daquelas mulheres, por causa de todo o trabalho. E, no final do dia, não há um relógio de ouro à espera… PLAYBOY: E quanto às pequenas recompensas… o prazer de ver alguém comer o pão ou de ver o bebê dormir? LENNON: Há uma enorme satisfação. Tirei uma fotografia do meu primeiro pão. [Yoko ri.] Eu estava exultante! Estava muito animado com aquilo. Não conseguia acreditar! Era como um novo álbum que acabava de sair do forno. O momento exato em que aquilo ocorreu foi fantástico. Fiquei tão envolvido, tão empolgado, que acabei cozinhando para toda a equipe! Todos os dias eu preparava o almoço para motoristas, of ice boys, qualquer um que estivesse trabalhando conosco. “Venham!” Eu adorava aquilo. Com o tempo, comecei a ficar esgotado, sabe. Eu pensava: “O que é isso? Parece brincadeira. Faço dois pães na sexta-feira e na tarde de sábado já não tem mais nada.” A empolgação estava chegando ao fim, dando lugar à rotina. Mas a alegria ainda é a mesma quando olho para Sean. Ele não saiu do meu ventre, no entanto, por Deus, eu fiz a minha parte, porque prestei atenção a cada refeição, ao modo como ele dorme e ao fato de que nada como um peixe. Foi porque eu o levei à Associação Cristã de Moços. Levei-o à praia. Fico muito orgulhoso. Ele é o meu maior orgulho, pode acreditar. PLAYBOY: Por que você se tornou um dono de casa? LENNON: Era uma questão de me curar mesmo. ONO: Havia uma pergunta: “O que há de mais importante em nossa vida?” LENNON: Era mais importante olhar para nós mesmos e encarar a realidade do que continuar uma vida de rock ‘n’ roll ligada ao show business, subindo e descendo ao sabor dos ventos, tanto do próprio desempenho quanto da opinião do público sobre nós. E havia ainda mais uma coisa. Vamos usar Picasso como exemplo.

Ele apenas se repetiu até a morte. Não é uma questão de negar o imenso talento, mas os últimos quarenta anos do pintor foram de repetições. Que não levaram a nada. Que nome se dá a isso? Viver dos próprios louros. Você entende, em meus trinta e poucos anos, eu me vi numa posição em que, por um motivo qualquer, sempre me considerei um artista, ou músico, ou poeta, ou o que quer que queiram chamálo, e a tal dor do artista sempre foi paga com a liberdade do artista. E a ideia de ser um músico de rock ‘n’ roll de certa forma se adequava a meus talentos e mentalidade, e a liberdade era maravilhosa. Então, percebi que não era livre. Eu estava encaixotado. Não era somente por conta do meu contrato, embora fosse uma manifestação física do estado prisional. Considerando isso, eu poderia muito bem ter optado por um emprego de nove às cinco que estaria seguindo o mesmo caminho. O rock ‘n’ roll tinha perdido a graça. Então, havia as opções padronizadas em meu ramo de atividade: ir para Las Vegas e cantar meus maiores sucessos — caso tenha alguma sorte — ou ir para o inferno, o destino de Elvis. ONO: Você pode se tornar um estereótipo de si mesmo. Talvez estivéssemos nesse caminho. Isso era uma coisa que não desejávamos fazer. É o que mais desprezo no mundo artístico. Você pega uma pequena ideia como “tudo bem, sou um artista que desenha círculos”. Então se agarra a ela e a transforma em rótulo. Você consegue uma galeria, patrocinadores e tudo o mais. E essa passa a ser a sua vida. No ano seguinte, talvez, você faça triângulos ou qualquer outra coisa. É uma enorme pobreza de ideias. Assim, se você seguir em frente e fizer isso por cerca de dez anos ou mais, as pessoas se dão conta de que você é alguém que durou dez anos e merece um prêmio. [Risinhos.] Essa rotina é simplesmente ridícula.

LENNON: Você recebe o grande prêmio quando desenvolve câncer, e passou vinte anos desenhando círculos ou triângulos. ONO: E, então, você morre. LENNON: Certo. O maior prêmio de todos é quando você morre — um prêmio grande mesmo por morrer em público. Ok. Essas são as coisas que não estamos interessados em fazer. [John pegou uma colher enquanto falava e ficou batendo com ela sobre a mesa de leve, fazendo uma cadência que parecia acompanhar suas palavras.] Foi por isso que acabamos fazendo coisas como protestos na cama, e Yoko acabou fazendo coisas como música pop. Com as nossas primeiras tentativas de ficar juntos e produzir coisas juntos, quer fossem protestos na cama, pôsteres ou filmes, ultrapassamos os limites de cada um da mesma forma que as pessoas fazem quando passam da música country para o pop. Passamos da esquerda avant-garde para a esquerda do rock ‘n’ roll. Tentamos encontrar um espaço que fosse interessante para ambos. E nós dois ficamos empolgados e estimulados pelas experiências um do outro. Todas as coisas que fizemos juntos foram variações de um mesmo tema, na verdade. Desejávamos saber o que podíamos fazer, porque queríamos ficar juntos. Queremos trabalhar juntos. Não pretendemos estar juntos apenas nos fins de semana. Queremos ficar juntos, viver juntos e trabalhar juntos. Assim sendo, as primeiras tentativas foram os protestos na cama. Experimentamos fazer música juntos, mas foi há muito tempo. As pessoas ainda tinham noção de que os Beatles eram algo que não deveria sair do próprio círculo, e isso tornou difícil, para nós, trabalhar juntos naquela época. Acreditamos que ou as pessoas esqueceram isso, ou apenas cresceram. Agora, vamos fazer a nossa incursão no lugar onde ela e eu estamos juntos, e já não há mais o fascínio do príncipe místico do mundo do rock se aventurando com uma estranha mulher oriental, uma imagem projetada pela imprensa anteriormente. PLAYBOY: Depois de tudo isso, por que agora? LENNON: Bem, o espírito me moveu. O espírito de Yoko jamais a abandonou. Mas o meu me levou a escrever, subitamente, coisa que eu não fazia há muito, muito tempo.

Da mesma forma, andei concentrado nas tarefas de dono de casa e, quase inconsciente, desejei passar os primeiros cinco anos da vida de Sean dando a ele todo o meu tempo possível. ONO [para John]: Acho que não foi uma questão de o espírito mover você. [Para mim] Acho que, enquanto ele esteve voltado para Sean e para a família, e tudo isso, ou por causa dessas coisas, o espírito dele rejuvenesceu. Ele fez isso, em vez de simplesmente lançar discos como costumava fazer. LENNON: Isso mesmo, você está certa. Era o que eu estava tentando dizer. Talvez não tenha falado com clareza. Eu podia ter continuado a ser um artesão, mas não estou interessado em ser umartesão, embora respeite os artesãos e todo o resto. Não estava mais interessado em provar que podia seguir lançando coisas a cada seis meses, como… PLAYBOY: Como Paul [McCartney]? LENNON: Não apenas Paul. Como todo mundo. Então, a experiência de ser pai em tempo integral me devolveu o espírito. Não percebi que isso estava acontecendo. Mas, de repente, por ummomento, dei um passo atrás e disse: “O que se passou? Aqui estamos nós: vou fazer quarenta anos, Sean vai fazer cinco. Não é fantástico?! Sobrevivemos!” Vou fazer quarenta anos, e a vida começa aos quarenta, como dizem. Ah, também acredito nisso. Porque me sinto bem. Estou empolgado. É como os 21… Sabe, chegar aos 21. É assim: “Uau! O que vai acontecer depois?”

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