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A Ultima Feiticeira – Sandra Carvalho

Existe uma recordação que guardarei enquanto viver: o rosto de uma menina, refletido na superfície da água, com os longos cabelos negros e encaracolados caindo sobre as faces rosadas, os olhos brilhando mais do que estrelas e o sorriso denunciando uma felicidade que só a inocência pode conceber. Depois, a distorção; o caos originado pela forte ondulação que os meus irmãos provocavam, rasgando a água com braçadas vigorosas; a harmonia quebrada, perdida para sempre; o silêncio profanado pelo som alto das gargalhadas de euforia e exaltação… O doce som da liberdade. — Vem, Cat! — gritavam quase em uníssono. — Vem! Como resistir? Um piscar de olhos era quanto bastava para livrar-me do leve e colorido vestido de Verão e mergulhar destemidamente no regaço pouco profundo do ribeiro. De imediato, ficava rodeada por uma dúzia de braços, uma dúzia de pernas, seis rapazes lutando para agarrar no meu corpo esguio, erguê-lo no ar e envolvê-lo num nunca mais acabar de brincadeiras, que me faziam rir até às lágrimas. Podíamos ficar ali até o Sol desaparecer, mergulhando, nadando, brincando ou apenas deitados na margem, inventando histórias, contando piadas, falando sobre a casa, a família, a herdade, os trabalhadores, os animais… Muitas vezes, também nos quedávamos em silêncio, contemplando o céu azul por entre as copas das árvores altas, respirando o ar leve e perfumado, escutando os delicados sons selvagens, suplantados por toda a beleza e a magia que nos envolvia e protegia. Éramos filhos da floresta, filhos da terra, filhos do ribeiro e do lago, filhos do Sol e do Ar. Éramos felizes. Quando a luz murchava, Aled assumia a liderança e recordava-nos de que era tempo de regressar a casa. Não se ouvia um protesto. Ninguém contestava a autoridade do irmão mais velho. Então, Edwin erguia-me nos braços e sentava-me sobre os ombros, carregando-me às cavalitas com a mesma facilidade com que transportaria um cordeirinho. Eu prendia as pernas com força, por baixo dos seus braços, e abraçava-o pelo pescoço. Adorava quando o meu irmão corria e o vento me batia na cara, mal me permitindo respirar. Delirava com a sensação de liberdade plena e pura, que entrava em mim e me pejava de vida. Só diante da Casa Grande é que recordava que Tristan não era nosso irmão. Ficava triste quando o via acenar em despedida e correr para a cavalariça. Não compreendia por que não podia entrar conosco, partilhar a nossa casa e a nossa mesa, assim como partilhava as brincadeiras e morava nos nossos corações. Não podia compreender… Aos cinco anos, eu vivia perfeitamente escudada da maldade do mundo. A Floresta Sagrada era o nosso santuário, o nosso refúgio, o nosso lar. Crescemos dentro do seu abraço, partilhando segredos, risos e lágrimas. Conhecíamos cada árvore, cada pedra, cada toca e esconderijo dos animais que nela habitavam. O bosque de carvalhos frondosos acalentava-nos. Nós respeitávamos a sua grandeza e agradecíamos a proteção. Nenhuma árvore era cortada ao acaso, nenhum animal caçado desnecessariamente.


Havia, entre os nossos, um respeito profundo pela natureza. Crescíamos amando a terra como a uma mãe. Existiam vários povoados espalhados pela Grande Ilha, cada um governado por um valoroso lorde, mas nenhum tão poderoso e próspero como o de Lorde Garrick McGraw. Guerreiros vigorosos, bem armados e vigilantes, que se confundiam com a floresta como se eles próprios fossemárvores, transformavam os domínios do seu senhor num território inexpugnável. A Aldeia do Lago ficava implantada no coração da floresta, junto da margem do Lago Encantado. Era ali que os vários ribeiros de nascentes puras que alimentavam a Grande Ilha se fundiam e formavam um círculo de água tão cristalina que refletia o céu. Mais adiante, a corrente ganhava força, num único braço que rasgava a floresta e tombava pela escarpa rochosa, mergulhando no mar. Em toda a extensão do domínio dos McGraw, a terra era fértil como nenhuma outra e o peixe tão abundante, que quase podíamos apanhá-lo com as mãos. Um pouco afastada do rebuliço da aldeia, ficava a herdade dos McGraw. Ali vivia a família, os empregados da Casa Grande e da quinta. Não muito longe, à distância de um chamamento, ficavam as instalações dos soldados, que se multiplicavam por pontos estratégicos no interior da floresta. Apesar dos tempos difíceis em que vivíamos, não havia nenhum sinal de inquietação ou apreensão. O nosso povo sentia-se protegido pelo abrigo da floresta e pelos intricados, altivos e inacessíveis penhascos, no extremo sul, que terminavam abruptamente numa extensão infinita de mar bravio. E, se a geografia só por si representava uma fortaleza, Lorde Garrick assegurava alianças sólidas com os vizinhos. Essas alianças exigiam-lhe muito tempo e atenção, por isso raramente via o meu pai, e a imagem que guardava dele era a de um homem tão grande como severo. Amava-o tanto quanto o temia e, se por um lado ansiava pelo seu regresso, de cada vez que viajava, por outro abençoava as suas ausências, pois os meus irmãos ficavam mais disponíveis para as nossas brincadeiras. A minha mãe era a mulher mais bonita do mundo e eu inchava de orgulho sempre que afirmavam que estávamos cada dia mais parecidas. Para mim, a Senhora Edwina não era só uma mãe, uma companheira, uma amiga; era também uma deusa, a fonte aonde todos íamos buscar a força. A minha mãe não se limitava a ser a senhora da casa e a coordenar o trabalho da herdade na ausência do meu pai. Tinha poderes especiais e usava-os para ajudar aqueles que dela dependiam. Sempre que o permitia, eu ficava junto dela, observando-a enquanto plantava, colhia, secava e misturava ervas, raízes e cascas de árvore, fervia chás e infusões, preparava unguentos e bálsamos. Por vezes, improvisava na tentativa de melhorar o velho conhecimento. E era sempre bem sucedida. A admiração e o amor pela minha mãe eram partilhados por todos, inclusive pelos aldeões, que recorriam à sua ajuda sempre que sofriam de alguma maleita. Muitas vezes, eu acompanhava-a nas visitas aos doentes e depressa aprendi como sarar uma ferida, imobilizar um osso quebrado, curar um desarranjo das entranhas ou aliviar os malefícios da exposição ao calor.

Contudo, o que eu mais gostava, era de assistir aos partos. Não que a minha mãe me deixasse interferir! Para auxiliá-la tinha a sua ama de leite, a incansável Bretta, uma mulher tão grande como uma montanha e tão forte como um carvalho, mas com mãos de fada e palavras de mel nos momentos de aflição. Eu ficava de lado, observando, ansiosa por ajudar, sem me incomodar com o resmungar incessante de Bretta, sobre quão imprópria era a minha presença, opinando que eu deveria estar a aprender a bordar e a costurar; não a molhar toalhas em água quente e a assistir a um espetáculo de aflição, gritos, suor e sangue. Felizmente, a minha mãe era uma mulher prática e decidida. Respondia-lhe que, no futuro, eu seria uma curandeira muito mais habilidosa do que ela própria, e que era importante que começasse a habituar-me aos espinhos do ofício, assim como às doces recompensas. Nada havia de mais belo e comovente que o primeiro choro de um bebê e o sorriso da sua mãe ao aninhá-lo sobre o peito. Quando eu não estava com a minha mãe, estava com os meus irmãos. Era a mais nova dos seis e única rapariga. Ser tratada como uma igual pelos rapazes era motivo de orgulho e vaidade. A sua força era a minha força, e eu acreditava acerrimamente que éramos inseparáveis e indestrutíveis. Aled era onze anos mais velho do que eu. Aos dezesseis, era um homem perfeito, muito parecido com o nosso pai, alto e forte, com ombros largos, braços e pernas poderosos. Os seus cabelos castanho-claros eram tão rebeldes como os meus, mas ele mantinha-os presos com firmeza atrás da cabeça, o que lhe realçava a severidade da expressão e a determinação dos olhos verdes. Desde muito jovem que tinha plena consciência do peso da sua herança. Talvez por isso se dedicasse tanto aos assuntos da herdade e da guarda, em detrimento das nossas brincadeiras. Seguia-se Edwin, com dois anos de diferença de Aled. Fisicamente, eram muito idênticos, mas tinham personalidades completamente distintas. Se Aled representava o método e a harmonia, Edwin era a tempestade, o fogo, um caldeirão em permanente ebulição. Havia nele uma paixão pela vida, pela natureza e pelo mundo, que se estendia para além de nós. Intimamente, sabíamos que nunca poderíamos segurá-lo. Edwin era independente, aventureiro e demasiado impulsivo para administrar os assuntos da propriedade. Graças a ele, conhecíamos cada grão da terra que nos rodeava. Contudo, isso não lhe bastava. O seu espírito ansiava por novas descobertas, por aventuras intermináveis para além do mar. Sonhava de olhos abertos e só assim conseguia sobreviver à monotonia dos nossos dias.

Berchan nasceu um ano após Edwin. Os mais velhos diziam que a sua personalidade era tão sólida como a montanha que sustinha a floresta. Nunca abria a boca sem pensar muito bem no que ia dizer e, por isso, nunca se enganava. As suas palavras estavam carregadas de sabedoria e de contemplação. Por vezes, parecia exprimir-se por enigmas, e eu não alcançava a profundidade dos seus pensamentos. De todos os meus irmãos, era aquele que eu menos conhecia e também o que mais me fascinava. Curiosamente, era também o que mais se assemelhava comigo, pequeno e magro, comlongos cabelos negros, rebeldes e encaracolados, olhos vivos e expressivos, verdes e brilhantes. Berchan podia passar o dia na margem do ribeiro, sentado na grande pedra que nós chamávamos “Pedra dos Sábios”, de olhos fechados, respirando tão pausadamente como se adormecido. Todavia, nós sabíamos que a sua mente estava em acesa atividade. Se os irmãos mais velhos construíam o mundo com as próprias mãos, ele dissecava-o dentro da cabeça, obtendo explicações lógicas para fenômenos que todos julgávamos indecifráveis e, ao mesmo tempo, fazendo coisas que nenhum de nós conseguia explicar. Era um gênio. E esse fato não passou despercebido aos sábios que viviam na orla da floresta, perto do mar. Há muito que os Druidas o observavam atentamente. Quatro anos depois de Berchan, nasceram os gêmeos, Stefan e Quinn, iguais como gotas de água; os meus companheiros prediletos de brincadeira. Quando olhava estes irmãos, via uma balança equilibrada. O espírito de Quinn adivinhava-se parecido com o de Aled, e o de Stefan com o de Berchan. Sempre que podiam, era a companhia desses irmãos que procuravam. Quinn seguia Aled como um cão fiel, esbugalhando os olhos de admiração ao vê-lo treinar no manejo das armas, ansiando por tornar-se tão inteligente e forte como o primogênito. Por seu lado, Stefan corria ao encontro de Berchan e, invariavelmente, encontrava-o a meditar ou a estudar os livros que colecionava – diários e anotações, divagações e poemas, desenhos e mapas, presentes de viajantes, comerciantes e amigos que visitavam a propriedade. Por fim, depois de cinco rapazes, nasci eu, Catelyn McGraw, pequena e endiabrada, completamente alheada de quaisquer assuntos próprios para uma menina. Sob a orientação dos meus irmãos, aprendi a pescar, a caçar, a escalar, a nadar, a montar a cavalo e a manejar algumas armas, se bem que com pouca ou nenhuma destreza. Aled, Edwin e Quinn divertiam-se com a minha curiosidade e perseverança. Quando estava cansada, sentava-me junto de Berchan e de Stefan. Foi com eles que aprendi a ler, a escrever, a contar, os nomes das estrelas, a razão por que os dias se sucedem às noites, o ritmo das marés, a história da minha terra e as histórias de outros povos, entre eles, o povo estranho e perigoso, que se aproximava da nossa costa em grandes e velozes barcos de madeira, movidos a remos e com uma única vela quadrada. Mas o nosso grupo só ficava completo com Tristan.

Tristan era filho do mestre de armas do meu pai. A mãe morrera ao dar à luz, suplicando à Senhora Edwina que lhe cuidasse do filho. Nessa altura, Edwin era um bebê de colo e a minha mãe já estava grávida de Berchan. Quando nasci, aprendi a devotar a Tristan o mesmo amor que devotava aos outros. Ele era meu irmão, e eu não admitia que ninguém dissesse o contrário. Aliás, quando estávamos juntos, era impossível afirmar que não partilhávamos o mesmo sangue, tal a harmonia que reinava entre nós. Só quem olhasse com mais perspicácia é que perceberia que o colar de Tristan era diferente. A história do colar revelava-se simultaneamente estranha e fantástica. Os anciãos contavam que a minha mãe descendia do povo antigo, que vivera na floresta desde o princípio dos tempos e lhe dera o nome de Floresta Sagrada. Havia quem se atrevesse a sussurrar que os meus bisavós haviam sido feiticeiros poderosos e que a minha avó Aranwen herdara o seu poder. Também era sabido que os Seres Superiores não podiam relacionar-se intimamente com os humanos, sob pena de perderem a força mágica. Ora, a lenda continuava com a paixão da minha avó pelo meu avô Cianed, um bravo guerreiro da Grande Ilha. Por ele, Aranwen abdicara do seu poder e assumira uma frágil vida humana. Contudo, para que esse poder não se extinguisse, recolhera sete pedras de cores diferentes do leito do Lago Encantado e depositara nelas as suas habilidades. Com essas pedras fez um colar, lindo de tirar o fôlego e tão valioso que se tornara alvo da cobiça de muitos reinos. Como eu nunca ouvira falar de um rei que tencionasse invadir a ilha para roubar um colar de pedras, acreditava que era aí que terminava a fantasia e começava a realidade. A minha avó morreu muito jovem, logo após a morte do meu avô. Deixou de herança à sua única filha a imensa propriedade onde vivíamos e um colar muito bonito, mas sem nenhum valor. A Menina Edwina cresceu e apaixonou-se por um homem rude e prático, descrente da religião antiga. Lorde Garrick era um senhor da guerra, que só acreditava verdadeiramente no vigor da sua espada. Mal tomou conhecimento da crença popular que envolvia a família da esposa, proibiu qualquer menção ao assunto. Para evitar o descontentamento do marido, a Senhora Edwina dividiu as sete pedras do colar pelos filhos. Aled foi o primeiro a receber uma, a verde, suspensa num fio tecido pelas mãos da própria mãe. Edwin recebeu a vermelha, Berchan a branca, Stefan a amarela, Quinn a violeta e eu a azul. A sétima permanecia guardada e era cor de laranja.

Porque Tristan não podia ter um colar como o nosso, eu mergulhei no Lago Encantado até que encontrei a pedra mais perfeita, repleta de veios de muitas cores. A minha mãe concordou em tecer o fio e Tristan jurou que jamais o tiraria do pescoço. Afinal, o seu amuleto tinha todas as nossas cores; tinha um pouco de cada um de nós. Eu era muito pequena quando aquilo aconteceu. Não sei precisar o dia, mas lembro-me de que o Sol brilhava alto e que todos descansávamos na margem do ribeiro, depois de termos nadado até à exaustão. Berchan sentara-se na Pedra dos Sábios, em posição de meditação, com os olhos fechados erguidos ao céu. Aled, Edwin e Tristan conversavam sobre os cavalos que o meu pai trouxera da sua última viagem por mar, dois belos exemplares, ainda muito jovens e rebeldes. Edwin e Tristan tinham sido incumbidos de treiná-los e mal cabiam em si com tanto entusiasmo. Não muito longe, Stefan e eu jogávamos às pedrinhas. Quinn não quisera unir-se a nós e divertia-se a destruir o jogo. Sempre paciente, Stefan recomeçava. Mas eu não possuía a sua tolerância. Estava a ferver de raiva e sentia vontade de saltar sobre Quinn e dar-lhe umas palmadas. Porém, também sabia que ele era muito alto e mais forte. Se o confrontasse diretamente, seria afastada como um mosquito e alvo da zombaria dos presentes. De todos, Quinn era quem mais gostava de me arreliar e, quando eu perdia as estribeiras e o atacava, ele segurava-me na cabeça e mantinha-me afastada do seu corpo, deixando-me a praguejar e a esmurrar o ar, enquanto os outros assistiam divertidos. Quanto mais furiosa ficava, mais me descontrolava e mais eles se riam da minha impotência. Desta vez, seria diferente! Stefan lançou as pedras e, no mesmo instante, o gêmeo saltou por cima do jogo, arruinando tudo. Gritei enraivecida e, instintivamente, estendi o braço sobre as pedras e na direção de Quinn. Estas ergueram-se no ar, como que agarradas por um vento brusco e violento e precipitaram-se sobre o meu irritante irmão. Ele voltara-se para troçar de nós e assistiu ao meu arrebatamento. Ficou semreação, fulminado de espanto. As pedras chocaram contra o seu corpo e caíram no chão. Ofegante e estremecendo de raiva, eu encontrei o olhar esbugalhado de Stefan, cujo queixo quase tocava no chão. — Como foi que fizeste isso? De imediato, Berchan estava junto de nós, e eu pensei que aquela fora uma manifestação das suas inúmeras habilidades.

Ele conseguia mover objetos com a força da mente e acender a lareira semprecisar fazer fogo. Eu acreditava que esses eram dons com que a natureza brindara apenas o meu irmão. — Ela não tocou nas pedras! — continuou Stefan, despertando a curiosidade dos restantes. — Eu vi… — Chega, Stefan — cortou Berchan mansamente, mas com firmeza. — Estás a assustá-la! — Eu não queria magoar o Quinn — arquejei aflita, pensando que cometera uma falta grave. —Juro que não queria! Quinn abraçou-me apaziguadoramente. — Não me magoaste, irmãzinha. Juro! — Ela não tocou nas pedras? — perguntava Aled incrédulo. Estavam todos ao meu redor. Berchan ajoelhou-se diante de mim, murmurando: — Eu também vi. Levei anos para conseguir fazer o que a Cat fez sem pensar. — Prendeu-me os ombros frágeis e forçou-me a encará-lo. — Não te assustes, irmãzinha. O que aconteceu foi uma revelação da tua força. Não tens de temer ou de te envergonhar da tua habilidade. Apenas tens de aprender a controlá-la… Eu tratarei disso! Mais tarde, Berchan explicou-me que tudo o que nos rodeava era composto por pequenos grãos, aos quais chamou partículas. Se eu agarrasse na terra da margem e a moldasse nas mãos, obteria uma bola grande e sólida; mas, se a apertasse com força, ela voltaria a transformar-se em minúsculos grãos. Quando eu tocava numa árvore, sentia-a dura e indestrutível. Porém, se cravasse os dedos na casca, podia arrancar pedaços e, quando a cortava, obtinha um pó fino. A água era ainda mais divertida. À primeira vista parecia sólida e tínhamos a ilusão de que podíamos caminhar sobre ela. Porém, na realidade, não era assim. Fugia do nosso corpo, escapava-se por entre os dedos… O lago não passava de pequenas gotas, que continham outras pequenas gotas e por aí fora, até ser-me impossível conceber o tamanho e a forma. — E nisso que tens de te concentrar — dizia Berchan. — Quando olhas para um objeto, deves imaginar como se divide, pequenas partículas dentro de pequenas partículas, até sentires a sua energia.

Quando a encontrares, poderás controlá-la. Cresci a ouvir narrativas da guerra travada entre o meu povo e os povos das terras geladas do Norte. Os nossos descreviam os inimigos como gigantes brutais e ignorantes, rudes e feios, comcabelos amarelos ou vermelhos e barbas repletas de sujidade, sem alma e com a capacidade de se transformarem em bestas selvagens, tais como ursos ou lobos, durante as batalhas. O seu bafo pestilento era suficiente para aniquilar um homem desprevenido. Lutavam com a ferocidade de mil demônios e sem nenhum propósito a não ser matar, destruir e pilhar. Uma história antiga, transmitida de geração em geração, relatava a forma como haviam invadido um convento cristão, assassinado os religiosos, roubado ouro, prata e joias, entre outros objetos de valor, e destruído tudo o que não podiam saquear. Chegaram por mar, em fabulosos barcos de madeira que cortavam as águas como as flechas rasgam o ar e ancoravam na areia graças aos cascos rasos. Os monges, ocupados com os afazeres espirituais, nem se aperceberam dos gigantes bárbaros que avançavam sobre eles, empunhando espadas e machados. A chacina foi brutal e nenhuma vida poupada. Rápidos como o vento, os Vikings executaram a sua esmagadora invasão sem encontrarem resistência e desapareceram num abrir e fechar de olhos, como uma praga de insetos famintos que deixa para trás uma colheita devastada. Verão após Verão, os ataques a alvos religiosos repetiram-se, sempre rápidos e eficazes, sempre devastadores e sangrentos, causando repulsa e revolta entre o povo e os governantes. Mesmo durante a mais impiedosa das guerras, os templos, conventos, igrejas e os seus religiosos eram respeitados pelos guerreiros, quaisquer que fossem as suas crenças. Os Vikings ignoravam todas as leis do mundo civilizado, tornando-se malditos e proscritos. Era impossível prever onde atacariam de seguida, e eram tão céleres que escapavam sempre, vitoriosos, incólumes e impunes. Não tardaram a atacar os povoados, matando sem distinção, violando as mulheres, raptando as crianças e roubando os cavalos, o gado e os cereais, para depois partirem, deixando as habitações em chamas. Durante gerações, foram-se aproximando perigosamente das nossas costas. Antes de eu nascer, Lorde Cearnach McKie, o nosso vizinho mais próximo, que controlava grande parte da costa, juntamente com Lorde Garrick e outros poderosos aliados, construíram uma frota que repeliu comeficácia os avanços dos Nórdicos. Todavia, o momento de glória sucedeu quando eu dava os primeiros passos e ainda nada sabia sobre a crueldade da vida. Comandando a poderosa frota numa missão de caça aos selvagens, Lorde Garrick e Lorde Cearnach haviam surpreendido os barcos vikings avançando sobre o território dos Aliados. Sem hesitação, enfrentaram-nos, incendiaram e afundaram os fabulosos navios. Poucos bárbaros escaparam à justiça do nosso povo. Esse dia era celebrado com entusiasmo pelo meu pai e seus aliados e tropas, pois, a partir daí, não mais ouvíramos falar de Vikings nas nossas águas. Todos adorávamos escutar a forma corajosa e feroz como o nosso pai enfrentara a praga maldita. As únicas pessoas a quem essa narrativa parecia incomodar eram a Senhora Edwina e Berchan. Sempre que se aflorava o assunto, ambos se desculpavam e ausentavam.

No meu entender, essa atitude era explicável. Tanto a minha mãe como o meu irmão possuíam almas puras e amavam a paz. A simples menção da guerra e das suas consequências deixava-os angustiados. Quanto a mim, essa história enchia-me de orgulho. Era reconfortante saber que nada, nem ninguém, podia ameaçar o harmonioso equilíbrio do meu mundo. CAPÍTULO 2 Eu tinha onze anos quando Fiona nasceu. Foi um parto muito complicado e, apesar de todos tentarem disfarçar a apreensão, eu já assistira a nascimentos suficientes para saber que a vida da minha mãe estava por um fio. Quando Bretta me expulsou do quarto, foi Stefan quem me recolheu nos braços. Li-lhe nos olhos que a sua dor era tão forte como a minha. Sem saber por que, lembrei-me de algo que acontecera semanas antes. Eu estava na aldeia com a minha mãe, cuidando de um garoto que caíra de uma árvore e magoara uma perna. A Senhora Edwina improvisara uma tala para imobilizar o osso e ligara-o com cuidado. Tive de auxiliá-la, pois a sua barriga já estava muito grande e a minha mãe tinha dificuldade em movimentar-se. Aquele pequeno exercício deixou-a exausta. Felizmente, a carroça que nos trouxera esperava-nos à porta. O criado preparava-se para ajudar-nos a subir, quando uma velha apareceu do nada e se agarrou à minha mãe. — Que senhora tão formosa! — arranhara numa voz que me gelara por dentro. — E que lindo bebê que aí tem! Deixe-me tocá-lo! Antes que alguém conseguisse detê-la, já pusera as mãos encarquilhadas e ossudas sobre o ventre da Senhora Edwina. O nosso criado afastou-a com brusquidão e a minha mãe subiu para a carroça, ofegando com o esforço. Eu saltei atrás dela, receando que a sinistra criatura me tocasse. Enquanto a carroça se afastava, avistei-a pela última vez. Era alta, mas fora curvada pelo peso da idade. Estava tão magra que a roupa lhe caía sem forma pelo corpo e o rosto era só ossos e olhos. E que olhos! Eu nunca vira tal cor. Eram de um castanho-avermelhado e brilhante; uma cor que alguns fios do seu cabelo branco ainda conservavam.

Devia ter sido extremamente bela quando jovem. Ficou parada, observando a carroça a afastar-se, com um sorriso estranho bailando no rosto. Já não me parecia tão corcunda. Estremeci e desviei o olhar. Tive a certeza de que, se realmente existiam bruxas, eu estava diante de uma. A minha mãe recusou-se a comentar o acidente, como se este não tivesse importância. Porém, nessa noite, sentiu-se indisposta e teve de pedir auxílio. Fora o bebê que dera a volta, explicaramme. Mas eu não fiquei convencida. Depois disso, a Senhora Edwina não voltou a ficar bem, mas havia sempre uma explicação, e o tempo foi apagando o incidente da minha memória. Todavia, agora recordava-o e sentia-me gelar de horror. Forcei-me a acalmar e censurei-me por deixar a imaginação dominar-me. Aquela mulher tenebrosa não passava de uma velha senil e esfomeada, que ninguém vira até então e ninguém voltara a ver. Certamente vivia escondida na floresta, definhando, embrenhada na sua loucura. Pensar nela, neste momento crítico, só iria atrair o azar. Aled também estava branco como cera, forçando-se a simular uma serenidade que não sentia. Pensei que o meu irmão mais velho era o único pai que eu conhecia. Onde estava Lorde Garrick quando precisávamos dele? Aled enviara um mensageiro ao seu encontro, mas o nosso pai ainda não se dignara a aparecer. Tentei recordar quanto tempo, nos últimos anos, o senhor da casa passara com a família. Muito pouco. E eu detestara cada dia. Lorde Garrick tornara-se muito exigente com os filhos, começando a levar Aled nas suas viagens e, por fim, Edwin. E, se eu inicialmente pensara que Edwin se sentiria feliz com a mudança e a oportunidade de viajar, depressa me desenganei. Pai e filho tinham personalidades incompatíveis. Edwin dizia sempre o que pensava e, embora não faltasse ao respeito a Lorde Garrick, não se deixava dominar.

Não concordava com as alianças que o pai mantinha com certos vizinhos. Achava-as subversivas e perigosas e não tinha nenhum pejo em afirmá-lo abertamente. Não conseguiam trocar duas palavras sem discutir. Berchan também se tornara uma vítima do braço forte do nosso pai. Lorde Garrick não entendia a alma erudita do filho e abominava a sua fraqueza. Um homem tinha de saber manejar uma arma, dominar um cavalo, decepar a cabeça de outro homem num campo de batalha sem hesitação. De que lhe serviria o velho conhecimento quando os Vikings atacassem? E foi assim que Berchan se viu forçado a abandonar os livros e as artes espirituais para treinar as artes da guerra, desde que o Sol nascia até que se punha, para recuperar o tempo que perdera em relação aos irmãos. Mas um homem não pode negar a sua natureza, a vontade da sua alma, e fugir ao destino. Quando pousava a arma, Berchan corria para os amados livros e sacrificava noites de sono para prosseguir nos estudos. As consequências do seu esforço foram quase fatais. Pela primeira vez, vi a minha mãe insurgir-se contra a autoridade do meu pai. E, nesse dia, tive a agradável surpresa de descobrir que, apesar de imaginá-lo desligado da família e de todos os valores que o haviam tornado um homemadorado e respeitado pelo povo, que o seguia cegamente, Lorde Garrick ainda amava a esposa. A Senhora Edwina fê-lo perceber que nem todos os seus filhos tinham de ser grandes guerreiros. E Berchan recuperou a sua vida. Nem mesmo eu escapava ao olho crítico e severo do nosso pai. Sempre que me via aparecer comas faces afogueadas, os olhos brilhantes, os cabelos desgrenhados e o vestido ensopado e sujo, Lorde Garrick enrubescia de fúria. A experiência ensinou-me a regressar das brincadeiras pela porta da cozinha e só aparecer diante do senhor da casa depois de ter tomado banho e trocado de roupa. Nessa altura, o meu pai sentava-me sobre uma perna e perguntava-me sobre os progressos nos estudos. Demorei a perceber que a minha inteligência o divertia e enchia de orgulho. À sua maneira, o meu pai amava-me, por isso perdoava a minha incapacidade de agir como uma rapariga e permitia que continuasse a minha aventura clandestina, por um mundo intelectual e físico que pertencia exclusivamente aos homens. Todavia, eu sabia que essa tolerância estava condenada. Antes de partir para mais uma visita ao seu maior aliado, Cearnach McKie, ouvira-o dizer à minha mãe: — A Catelyn está a crescer e precisa aprender a comportar-se como deve ser, ou nenhum homem de posição desejará desposá-la. Agora que as fronteiras estão seguras, terei mais disponibilidade para ficar junto de vós e vigiar a educação dos nossos filhos. A Catelyn exige uma atenção especial. Não quero tornar a vê-la a correr pelos campos como um cabrito, ou misturada nas brincadeiras dos rapazes.

Pode continuar a estudar, mas terá de adquirir as maneiras de uma senhora. Nesse ponto eu fugira, sem coragem para continuar a escutar. As palavras do meu pai soavam-me a uma sentença de morte. Imaginava que a minha liberdade estava tão ameaçada como a de Berchan estivera. E se, no caso do meu irmão, o nosso pai reconsiderara, no meu, seria pouco provável que o fizesse. Afinal, eu era uma rapariga e, brevemente, seria uma mulher. Lorde Garrick não perderia a oportunidade de casar-me com o herdeiro de um dos seus aliados para fortalecer uma posição mais frágil. Agora, a minha mãe corria perigo de morte e Lorde Garrick tardava, provavelmente a discutir uma estratégia de combate com McKie, em redor de uma mesa repleta de iguarias e bom vinho, aquecido pelo calor de uma lareira. Nunca lhe perdoaria! Nunca! — Vem, Cat! — murmurou Stefan ao meu ouvido. Fui conduzida até ao quarto de Berchan como uma sonâmbula. Pasmei ao ver as dezenas de velas que ardiam, colocadas em locais precisos, formando um padrão mais antigo que o próprio tempo. No centro, Berchan desenhara um círculo de proteção. Não esperara por nós. Já se sentara no chão, comas pernas recolhidas, as palmas das mãos voltadas para cima e os olhos fechados em profunda concentração. À nossa volta, os quatro Elementos reinavam: a janela aberta deixava entrar o Ar, o Fogo ardia esperto na lareira e nas velas, o círculo fora desenhado com Terra e não tive de procurar muito pela vasilha cheia de Água. Questionei-me sobre o que Lorde Garrick pensaria desta manifestação da velha fé; da evocação da magia que os antigos controlavam e que se perdia rapidamente com o passar do tempo e as exigências da nova religião. O meu pai estava a converter-se ao Cristianismo e, apesar de não se atrever a impô-lo à esposa, ou a proibir os sábios de visitarem a nossa casa para conversarem comBerchan, não era do seu agrado que a nossa mãe nos transmitisse o conhecimento antigo, ou que o filho ultrapassasse os limiares do estudo e passasse à prática os ensinamentos dos druidas. Em silêncio, sentei-me diante de Berchan e dei a mão a Stefan. Em teoria, entendia o suficiente de magia para saber que o círculo só resultaria se a energia fluísse ordeiramente por entre nós, do mais velho ao mais novo. O meu coração batia de aflição ao pensar que Aled, influenciado pela fé do nosso pai, não concordaria com este procedimento. Quinn entrou de seguida e sentou-se ao lado de Stefan, sem dizer uma palavra. A sua mão fechouse sobre a do gêmeo e a de Berchan, que continuava imóvel, como se a nossa presença já não pudesse alcançá-lo. Edwin chegou, quase no mesmo instante, e ocupou o seu lugar. Concluí que sabia muito pouco acerca dos meus irmãos. O que estava a acontecer era totalmente adverso à educação que Lorde Garrick impingira aos rapazes e, no entanto, lá estava o rebelde Edwin, rendido a uma força superior à sua, sentado com as pernas encolhidas, uma mão apertando fortemente a de Berchan e a outra aguardando pelo que eu supunha ser um milagre.

— Não te aflijas Cat — murmurou Stefan, como se ouvisse os meus pensamentos. — Ele virá. De fato, mal acabara de proferir estas palavras e já a porta se abria, dando passagem a Aled. O primogênito dos McGraw avançou em silêncio e sentou-se ao meu lado. Quando a sua mão apertou a minha, senti as lágrimas escorrerem pelo rosto. Há muito que não chorava. Começara por fazer-me forte diante dos rapazes e acabara por aprender a inutilidade dessa manifestação de fraqueza. Porém, agora, não conseguia evita-la. Subitamente, a voz de Berchan flutuou no nosso espírito e percebi que ele estivera sempre consciente da nossa presença, de todos os movimentos, de cada batida de coração: “O amor deu-nos vida. Nascemos do Sol, do Ar, da Água e da Terra. Somos filhos da Natureza. Somos seis, mas somos um só…” Enquanto a voz serena, contudo poderosa, fluía em mim, senti que o meu espírito se separava do corpo e elevava, pairando como um pássaro ao sabor do vento. Podia ver-me, do topo desta estranha realidade descoberta, sentada entre os meus irmãos, partilhando de um momento único da existência. A cama de Berchan estava imaculadamente arrumada. A lareira ardia com um fulgor esplendoroso. Pequenas velas cintilavam em padrões de harmonia. As cortinas esvoaçavam. Para lá da janela escancarada, as estrelas chamavam-me e fui incapaz de resistir ao desafio. O vento acariciava-me o rosto, entrelaçando-se nos cabelos. No quarto grande, Bretta encorajava a minha mãe a manter-se consciente. A Senhora Edwina cedia ao cansaço… — Não morras, mamã! Precisamos de ti! Queria permanecer ali, mas o vento arrastou-me para longe, sobre a copa das árvores, até as luzes da casa desaparecerem e as estrelas se apagarem. A escuridão tornou-se demasiado cruel para conseguir suportá-la. Estava por todo o lado e trespassava-me o corpo, com unhas afiadas como espadas de gelo. Gritei. Gritei.

Gritei… Mas não me ouvi. Pela primeira vez conheci o medo. Lá muito em baixo, as ondas do mar rebentavam com ferocidade contra o penhasco e desfaziam-se em jactos de espuma. O vento empurrou-me para o interior de uma espiral de turbulência que testou a resistência dos meus ossos. Pensei que os membros iriam separar-se do corpo, com a violência da pressão. E havia uma voz no ar: “A laranja será corrompida, para sempre perdida…” Brotava do nada e enchia-me a cabeça. “A violeta tombará, decepada pela traição…” Furava-me os ouvidos e rasgava-me a alma. “A verde penderá sem glória, sob a lâmina gelada…” Tinha o timbre sonante da desgraça e a frieza seca da morte. “A vermelha sucumbirá, vítima da própria condição…” Tentei tapar os ouvidos. Tentei ignorá-la. Mas era impossível! “A branca vagueará sem rumo, na bruma do esquecimento…” Entranhava-se na pele e gelava o sangue. “A azul falhará, por fraqueza e inaptidão…” Esmagava qualquer força. Destroçava toda a esperança. “A amarela finará, devassada na essência…” Até eu desejar a morte para não ter de escutá-la. “E quando a luz se apagar…” Até eu ansiar pelo fim de tudo, que me traria a libertação. “É chegado o reino das trevas…” Até eu me entregar ao desespero. “O reino das trevas…” E a voz possuir-me e dominar-me. “Trevas…” Senti a mente explodir quando o vento me cuspiu para o vazio. Lá em baixo o mar esperava-me, negro e imenso. E eu caía e gritava. Caía e gritava… Caía… Já não conseguia gritar. A água rodeava-me e era o meu mundo; o princípio e o fim de tudo. Ergui os olhos ao céu e desafiei a tempestade. Não compreendia o “como” nem o “por que”. Só sabia que aquela tormenta tinha de ter fim se eu desejava subsistir.

E, no momento em que o relâmpago me atingiu, vi-me diante de um homem; um desconhecido alto como uma torre, com cabelos compridos da cor do Sol, olhos da cor do céu e um rosto belo, tão perfeito como o de uma criatura encantada. Falava uma língua que eu desconhecia, mas entendi cada palavra que os lábios trêmulos murmuravam: — Diz o meu nome… Fui devassada por uma emoção impossível de dominar; um tremor que nunca sentira. Tentei falar, mas a garganta apertou-se, estrangulada. Novo esforço e o vento colheu-me violentamente e arrastoume para longe. Estava outra vez sobre o mar, à deriva… Um mar tão grande que não tinha princípio nem fim. Lá em baixo, criaturas enormes rasgavam a água, mergulhando e desaparecendo, para depois voltarem a emergir, belas e majestosas, soltando esguichos de espuma que tocavam o céu. Já as vira antes, num dos livros de Berchan, esboçadas pelo punho de um velho marinheiro. Mergulharam e desapareceram. A floresta abriu-me os braços e as luzes de casa acolheram-me com entusiasmo. Pela janela do quarto da minha mãe, vi Bretta sorrir e ouvi-a exclamar por entre lágrimas de alegria: — É uma menina! E a minha mãe também sorria, enquanto as cores lhe retornavam timidamente às faces. Estava exausta, mas vencera a batalha contra a morte. No quarto de Berchan, eu continuava de olhos fechados e de mãos dadas com Aled e Stefan. Lentamente, regressei a mim, trêmula, com o coração prestes a rebentar. Reaprender a respirar foi um esforço. Surpreendi o olhar de Berchan preso no meu rosto, com uma intensidade que me arrepiou. Aos poucos, um a um, todos despertaram, e o instinto revelou-me que não fora a única a ter visões. No centro do círculo, os símbolos desenhados brilhavam como se possuíssem luz, e eu podia jurar que se haviam alterado. A porta abriu-se, não me dando tempo para refletir. Tristan entrou de rompante, ofegando de excitação enquanto exclamava: — A vossa mãe está bem! E o bebê já nasceu! — É uma menina! — gritei sem pensar. E desatei a correr para fora do quarto, sem esperar pela reação dos meus irmãos. Jamais esquecerei o que senti quando peguei em Fiona pela primeira vez. Devia regozijar-me. Devia amá-la apaixonadamente a partir desse instante. Mas não consegui. Dei por mim a sentir repulsa pela minha irmã e a odiar-me por isso.

Como era possível não gostar de um bebê? Já pegara em dezenas e adorara-os a todos. Devia adorar este ainda mais, porque era carne da minha carne, sangue do meu sangue! Mas a sensação de rejeição era mais forte do que a vontade. Entreguei a menina a Bretta e concentrei-me na minha mãe. O perigo já passara, e a Senhora Edwina estava muito feliz. — Desculpai-me se vos assustei, meus filhos adorados. Nunca poderei agradecer-vos o suficiente pelo que fizestes. Ela sabia! Mesmo travando uma luta sem tréguas, a nossa mãe apercebera-se do nosso esforço. Olhei para Berchan e inchei de orgulho por ser sua irmã; por ter participado de algo tão puro, maravilhoso e mágico. No exterior da casa, gerava-se um burburinho que terminou numa estridente agitação. Lorde Garrick acabara de chegar e não vinha só. A comitiva de convidados era liderada por Lorde Cearnach. Não era habitual termos visitas e a ideia desagradava-me profundamente. A minha mãe não se encontrava em condições de receber. Engoli a indignação, enquanto via o meu pai agarrar na nova filha, aninhá-la contra o peito e beijála longamente na testa. Afundei-me, mais uma vez, numa penosa repulsa. A hipótese de a minha rejeição ser causada pelo ciúme deixava-me agoniada. Eu não tinha por que invejar Fiona! Eu era amada e acarinhada por todos os que adorava. O ciúme não era a resposta para a minha agonia. Qual era, então, a resposta? Sabia que iria encontrá-lo ali, na margem do ribeiro, sentado sobre a sua pedra — a Pedra dos Sábios. Deslizei para o seu lado e imitei-lhe a posição de meditação. A mão suave fechou-se na minha. Um arrepio de conforto percorreu-me e fiquei em paz. Passado algum tempo, abrimos os olhos e sorrimos. Foi a primeira vez que consegui encarar Berchan sem me sentir nervosa. — Cresceste — murmurou apreciativamente.

— E eu nem percebi! É difícil admitir que estás prestes a transformar-te numa mulher. Para mim, serás sempre a menina que deu luz aos anos mais felizes da minha vida. Todos nós te recordaremos assim, Cat, mesmo quando os teus caracóis negros estiverem brancos de sabedoria. Todos viveremos suspensos no brilho dos teus olhos, na melodia do teu riso… Tu és a força que nos une e nos sustém. Sem ti, o Sol não nasceria e a vida finaria sem sabor. Tu és mágica, e a magia flui através de ti para os que te rodeiam. Nunca te esqueças disso… O que Berchan dizia podia ser lisonjeiro, mas não fazia sentido. Eu não passava de uma pirralha que só se distinguia deles porque usava um vestido! Certamente as emoções que enfrentara, há pouco, o haviam perturbado. Ele, sim, era força e magia! Por sua causa estávamos a respirar livremente; a rir, e não a chorar uma perda irreparável. — O que fizeste esta noite foi fantástico! — exclamei fascinada. — Tu tens poderes maravilhosos… — Eu não o fiz sozinho, Cat! — interrompeu mansamente, como se estivesse a ensinar-me a mais elementar das lições. — Sem a tua ajuda, teria sido impossível. És muito jovem e ainda não tens noção do poder que vive em ti e que cresce a cada instante. Mas o tempo ensinar-te-á e, um dia, não precisarás de nós para fazer magia. Fiquei muda. O luar iluminava o olhar de Berchan, que refletia a minha estupefação. Engoli emseco, tentando encontrar um sentido nas suas palavras. Não consegui. — Não estou a compreender — murmurei, enrouquecida pela secura da garganta. Ele desviou o rosto, fixando o olhar na bruma densa que nos rodeava. Por um instante, tudo o que se ouviu foi o cântico suave do ribeiro, o coaxar dos sapos, o assobio dos insetos… — Um dia compreenderás… Brevemente! Até lá, busca a sabedoria dentro de ti e a força nos Elementos. Quando pensares que atingiste o limite e sentires o desespero queimar-te por dentro, lembra-te de que és filha da Natureza e que nós somos teus irmãos. Na vida e na morte, somos seis, mas somos um só… O seu discurso assustava-me. Não era apenas o que dizia, mas a forma como o fazia. Cada palavra, cada pausa, era um prenúncio de desgraça.

Berchan nunca fora pessimista. Pelo contrário, mesmo quando só tinha motivos para desesperar, como quando o nosso pai quisera transformá-lo numa pessoa diferente, nunca perdera a luz que o guiava. Agora, porém, parecia abalado, coberto e sufocado por um manto de tristeza. Tentava transmitir-me algo que não podia declarar abertamente. E eu não estava a alcançá-lo. — Já não somos seis, Berchan — notei a medo, sentindo a pele arrepiar-se. — A Fiona nasceu… Seguiu-se outro longo silêncio. Subitamente, parecia que todas as criaturas tinham parado, à escuta. Só ouvia o lamento do ribeiro e o murmúrio das árvores. — Nós seremos sempre seis — recomeçou Berchan, num tom profundo que me fez estremecer. — A Fiona nunca será como nós. Sei que também compreendes isso. Este dia modificou as nossas vidas de forma irreparável. Eu vi o futuro, Cat. E o que me foi revelado deixou-me muito triste. Brevemente, tudo irá mudar. E as mudanças trarão ventos de discórdia, dor, sangue e muitas lágrimas. Terás de ser corajosa, querida irmã. Terás de ser forte para que nós possamos buscar força em ti. Tu és a luz que brilha dentro de cada um de nós. Se te apagares, estaremos perdidos. Agora eu estava aterrada! — O que foi que viste, Berchan? — Não posso dizer-te — respondeu prontamente, quase com brusquidão. — Acredito que o futuro é construído a cada passo, alterado em cada encruzilhada. Falar do que vi influenciará irremediavelmente as decisões de cada um. Isso não deve, não pode acontecer! Temos de ser livres para escolher ou a vida deixará de fazer sentido.

Todos tivemos visões. Cada um de nós terá de lidar com a sua, como um exercício doloroso de solidão. Encolhi os ombros, sentindo-me cada vez mais apavorada. — Como posso lidar com algo que não entendo? — argumentei aflita. — Até hoje só vi o mar uma vez, ao longe e, no entanto, flutuei sobre ele com uma voz dentro da cabeça. Uma voz que doía… Falava em cores… — Guarda a tua visão dentro da mente — cortou ele com severidade. — No momento certo saberás o seu significado, e não antes! Senti frio. O meu corpo era trespassado por milhares de pequenas agulhas geladas. Tinham sido muitas emoções para um único dia e, quanto mais pensava, mais confusa ficava. O desconforto aumentava a cada fôlego. Desejei voltar para casa e afundar-me na cama. Sabia que não conseguiria arrancar mais nada de Berchan, por muito que insistisse. — Partirei em breve — anunciou subitamente. — Os sábios desejam ajudar-me na aprendizagem. É uma grande honra que não posso recusar.

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