| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Ultima Grande Licao (O Sentido da Vida) – Mitch Albom

As últimas aulas da vida do meu velho professor foram dadas uma vez por semana em casa dele, ao pé de uma janela do estúdio de onde ele podia olhar um hibisco pequenino lançar suas folhas róseas. As aulas eram às terças-feiras, depois do café da manhã. O assunto era O Sentido da Vida. A lição era tirada da experiência. Não havia notas, mas havia exames orais toda semana. O professor fazia perguntas, e o aluno também podia perguntar. O aluno devia também praticar atividades físicas de vez em quando, tais como colocar a cabeça do professor em posição confortável no travesseiro ou ajeitar os óculos dele no cavalete do nariz. Beijar o professor antes de sair contava ponto. Não havia compêndios, mas muitos tópicos eram debatidos – amor, trabalho, comunidade, família, envelhecimento, perdão e, finalmente, morte. A última palestra foi breve, só algumas palavras. Em vez de colação de grau, um enterro. Mesmo não havendo exame final, o aluno devia apresentar um trabalho extenso sobre o que ele aprendera. Esse trabalho é apresentado aqui. O derradeiro curso da vida do meu velho professor só teve um aluno. Que sou eu. Uma tarde quente e úmida de sábado, no fim da primavera de 1979. Centenas de alunos sentados lado a lado em cadeiras de dobrar, no gramado maior do campus. Usamos becas de náilon azul. Escutamos impacientes os discursos compridos. Acabada a cerimônia, jogamos nossos chapéus para o alto e somos oficialmente declarados graduados, os alunos do último ano de faculdade da Universidade Brandeis, sediada em Ifaltham, Massachusetts. Para muitos de nós, baixava-se a cortina da infância. A seguir encontro Morrie Schwartz, meu professor predileto, e o apresento a meus pais. Morrie é baixinho e caminha a passos curtos, como se um vento forte pudesse levá-lo para as nuvens a qualquer momento. com a beca para o dia de formatura, ele parece uma mistura de profeta bíblico e elfo natalino. Tem olhos azuis verdes brilhantes, cabelo prateado ralo caído na testa, orelhas grandes, nariz triangular e espessas sobrancelhas acinzentadas.


Apesar dos dentes superiores tortos e dos inferiores inclinados para dentro – como se ele tivesse levado um soco na boca -, o sorriso é sempre o de quem acabou de ouvir a primeira piada contada no mundo. Diz a meus pais que eu fiz todos os cursos ministrados por ele e que sou “um garoto especial”. Encabulado, baixo os olhos para os pés. Antes de nos separarmos, entrego a meu professor um presente, uma pasta castanha com as iniciais dele, que eu havia comprado no dia anterior. Eu não queria esquecê-lo. Ou talvez não quisesse que ele me esquecesse. – Mitch, você é dos bons – disse ele admirando a pasta. Depois me abraça. Sinto os braços magros me envolvendo. Sou mais alto do que ele e, quando me abraça, sinto-me canhestro, mais velho, como se eu fosse o pai e ele o filho. Pergunta se vou manter contato. Sem hesitar, respondo que sim. Quando ele me solta, vejo que está chorando. O Programa A sentença de morte dele foi dada no verão de 1994. Mas agora tudo indica que Morrie já sabia bem antes que alguma coisa ruim estava para acontecer. Ficou sabendo no dia em que parou de dançar. Meu velho professor sempre fora dançarino. Não importava a música. Rock and rol, jazz, blues. Apreciava de tudo. Fechava os olhos e. com um sorriso beatífico, começava a se mexer no seu próprio ritmo. Nem sempre era bonito dese ver. Mas também ele não se preocupava com o par. Morrie dançava sozinho.

Ia a uma igreja de Harvard Square toda noite de quarta-feira, porque lá havia o que chamavamde “”Dança Grátis”. Entre luzes piscantes e som alto. Morrie se movimenta entre a multidão quase toda de estudantes, usando uma camiseta branca, calça preta de malha e uma toalha no pescoço. Qualquer música que tocassem era a música que ele dançava. Dançava o lindy no compasso de Jimi Hendrix. Contorcia-se e rodava, agitava os braços como regente sob efeito de anfetaminas. até o suor escorrer pelo meio das costas. Ninguém ali sabia que ele era um famoso doutor em Sociologia, com longa experiência e muitos livros importantes publicados. Pensavam que fosse um velhote excêntrico. Uma vez ele levou uma fita de tango e pediu que a tocassem no sistema de som. Depois, tomou o comando da pista, correndo para lá e para cá como um ardente amante latino. Quando acabou, todos aplaudiram. Ele podia ter permanecido para sempre vivendo aquele momento. De repente, a dança terminou. Depois dos sessenta anos, ele começou a ter asma. A respiração ficou difícil. Um dia, passeando pela margem do rio Charles, um sopro de vento frio deixou-o com falta de ar. Levado às pressas para o hospital, deram-lhe adrenalina injetável. Anos depois, Morrie começou a ter dificuldade de andar. Numa festa de aniversário de um amigo, ele – cambaleou inexplicavelmente. Outra noite, caiu ao descer os degraus de um teatro, assustando um grupo grande de pessoas. – Afastem-se, ele precisa de ar – alguém gritou. Nessa altura, ele tinha mais de setenta anos, por isso atribuíram o acidente à velhice e o ajudaram a levantar-se. Mas Morrie, que sempre estava em contato com o seu organismo mais do que estamos com o nosso, sabia que alguma coisa se desarrumara nele. Não era só problema de idade.

Sentia-se sempre cansado. Não dormia bem. Sonhava que estava morrendo. Passou a consultar médicos. Muitos médicos. Examinaram-lhe o sangue. Aurina. Enfiaram-lhe uma sonda pelo ânus e examinaram os intestinos. Finalmente, nada descobrindo, um médico pediu uma biópsia de músculo. Para isso extraíramum pedacinho da barriga da perna dele. O laudo do laboratório indicava a possibilidade de algumproblema neurológico, e Morrie foi internado para mais uma série de exames. Num desses exames, sentaram-no numa cadeira especial e o submeteram a uma corrente elétrica – espécie de cadeira elétrica – e estudaram as reações neurológicas. – Precisamos ir mais fundo nisso – disseram os médicos diante dos resultados. – Por quê? – perguntou Morrie. – Do que se trata? – Não sabemos ao certo. Os seus ritmos estão lentos. Ritmos lentos? O que significava isso? Finalmente, num dia quente e úmido de agosto de 1994, Morrie e a esposa Charlotte foram ao consultório do neurologista, que os convidou a sentarem antes de ouvirem o diagnóstico: Morrie sofria de esclerose lateral amiotrófica(ELA), a doença de Lou Gehrig1, enfermidade implacável do sistema nervoso. Doença ainda incurável. – Como a contraí? – perguntou Morrie. Ninguém sabia. – É terminal ? Era. – Quer dizer que vou morrer? O médico confirmou, e disse que lamentava muito. Passou quase duas horas com Morrie e Charlotte, respondendo pacientemente às perguntas que eles faziam. Deu-lhes informações e folhetos sobre a doença como se eles estivessem querendo abrir uma conta em banco. Na rua o sol brilhava, gente andava apressada de um lado para outro.

Uma senhora corria para introduzir dinheiro no parquímetro. Outra carregava compras. Pela cabeça de Charlotte passavam milhões de pensamentos Quanto tempo nos resta? Como o administraremos? Como pagaremos as contas? T. Henry LOUI Gehng(1903-1941), atleta do beisebol americano, em quem A doença foi primeiro identificada. Entretanto, o meu velho professor estava admirado da normalidade do dia em torno dele. O mundo não deveria parar? Ignoram eles o que me aconteceu? O mundo não parou, não tomou nenhum conhecimento e, quando Morriequis abrir a porta do carro, sentiu-se como caindo num buraco. E essa agora?, pensou. Enquanto ele buscava respostas, a doença avançava dia a dia, semana a semana Uma manhã, ao dar marcha à ré no carro para sair da garagem, não teve força para acionar a embreagem. Terminava aí a sua vida de motorista. Para não cair, comprou uma bengala. Assim terminou o seu tempo de andar livremente. Nadava regularmente na ACM, mas descobriu que não conseguia mais se despir Assim, contratou o seu primeiro ajudante pessoal, um estudante de Teologia chamado Tony, que o ajudava a entrar e sair da piscina, a vestir e tirar o calção No vestiário, os outros nadadores fingiam não olhar, mas olhavam. Aí terminava a sua privacidade. No outono de 1994, ele foi ao campus da Brandeis dar o seu derradeiro curso Não precisava fazer isso, a universidade teria compreendido. Por que sofrer diante de tanta gente? Ficasse em casa. Pusesse a vida em ordem. Mas a ideia de desistir não ocorreu a Morrie. Assim, ele entrou claudicante na sala de aula, onde vivera durante mais de trinta anos. Apoiado na bengala, levou tempo para chegar à cadeira. Finalmente sentou-se, deixou cair os óculos e olhou para os rostos jovens, que o fitavam silenciosamente – Meus amigos, imagino que estejam aqui para a aula de Psicologia Social. Venho ministrando esse curso há vinte anos, e esta é a primeira vez que posso falar do risco que existe em segui-lo, porque estou sofrendo de uma doença fatal. Posso morrer antes de terminado o semestre. Se acharem que isso é um problema, podemdesistir do curso; eu compreenderei. Morrie sorriu. E assim terminava o seu segredo.

ELA é como vela acesa: derrete os nervos e deixa o corpo como uma estalagmite de cera. Geralmente começa nas pernas e vai subindo. A pessoa perde o comando dos músculos das coxas e não aguenta ficar de pé Perde o comando dos músculos do tronco e não consegue sentar-se ereta. No fim, se continua viva, respira por um tubo introduzido num orifício aberto via garganta; e a alma, perfeitamente alerta, fica aprisionada numa casca inerte, podendo talvez piscar, estalar a língua, como coisa de filme de ficção científica -a pessoa congelada no próprio corpo. Isso não dura mais de cinco anos, contados do dia em que se contraiu a doença. Os médicos deram a Morrie mais dois anos. Ele sabia que seria menos. Mas o meu velho professor havia tomado uma decisão importante, na qual começara a pensar no dia em que saiu do consultório do médico com uma espada sobre a cabeça. Vou me entregar e sumir, ou aproveitar da melhor maneira o tem poque me resta? – indagou a si mesmo. Não ia se entregar. Não ia se envergonhar de sua morte decretada. Decidiu que faria da morte o seu derradeiro projeto, o ponto central de seus dias. Já que todos vão morrer um dia, ele poderia ser de grande valia. Podia ser um campo de pesquisa. Um compêndio humano. Estudem-me em meu lento e paciente processo de extinção. Observem o que acontece comigo. Aprendam comigo. Morrie ia atravessar a ponte entre a vida e a morte e narrar a travessia. O semestre do outono passou rápido. A quantidade de comprimidos aumentou O tratamento tornou-se rotina. Morrie recebia enfermeiras em casa para lhe exercitarem as pernas flácidas, manterem os músculos em atividade, dobrarem as pernas para trás repetidamente, como se bombeassem água de cisterna Massagistas o visitavam uma vez por semana para aliviar o constante entorpecimento que ele sentia. Recebia professores de meditação, fechava os olhos e estreitava o campo de pensamento até reduzir o mundo ao simples inalar e exalar, inspirar e expirar. Um dia, apoiado na bengala, ele tropeçou no meio-fio e caiu na rua. Abengala foi substituída por um andador.

Logo a ida ao banheiro ficou muito cansativa, e ele passou a urinar num caneco grande. Para fazer isso precisava ficarem pé» o que significava que alguém tinha de segurar o caneco para ele. A maioria das pessoas ficaria encabulada com isso, principalmente na idade de Morrie. Mas ele não era como a maioria. Quando um de seus colegas mais íntimos o visitava, ele dizia: “Olhe. preciso urinar. Você não se importa de me ajudar?”. Para sua própria surpresa, eles não se importavam. Ele recebia uma procissão cada vez maior de visitas. Formou grupos de debate sobre a morte, o que significa, o medo de morrer que as sociedades sempre tiveram, apesar de não compreenderembem a morte. Disse aos amigos que se quisessem mesmo ajudá-lo, não o tratassem com pena. mas com visitas, telefonemas, dividissem com ele os seus problemas, como sempre tinham feito, porque Morrie sempre fora um bom ouvinte. Apesar de tudo por que passava, a voz de Morrie era forte e estimulante, e sua mente trepidava com um milhão de pensamentos. Estava empenhado em mostrar que a palavra “morrente” não é sinônimo de “inútil”. O Ano Novo veio e se foi. Mesmo sabendo que aquele seria o último ano de sua vida, Morrie não disse isso a ninguém. Já precisava de uma cadeira de rodas, e lutava contra o tempo para conseguir dizer às pessoas que amava tudo oque tinha para lhes dizer. Quando um colega da Brandeis morreu subitamente de infarto, Morrie voltou deprimido do enterro. – Que pena Irv não ter ouvido aquelas homenagens todas disse. Pensando nisso, teve uma ideia. Deu uns telefonemas, escolheu uma data. E numa tarde fria de domingo reuniu a família e um grupo pequeno – a mulher, os dois filhos e alguns de seus amigos mais íntimos – em sua casa para um”funeral ao vivo. Um a um, todos homenagearam o meu velho professor. Uns choraram Outros riram. Uma senhora leu um poema: Meu querido, meu amado primo… Seu coração intemporal enquanto você segue tempo afora, uma camada sobre outra, delicada sequoia… Morrie chorou e riu com eles.

Tudo aquilo que sentimos bem no íntimo e nunca dizemos às pessoas que amamos foi dito por Morrie naquele dia. O funeral ao vivo” foi um sucesso. Só que Morrie ainda não tinha morrido. Aliás, a parte mais extraordinária de sua vida estava por vir. O Aluno Neste ponto preciso explicar o que me aconteceu desde aquele dia deverão, quando abracei pela última vez o meu querido e sábio professor e prometi manter contato com ele. Não cumpri a promessa. Aliás, perdi contato com a maioria das pessoas que conheci na faculdade»inclusive meus amigos de cervejadas e a primeira mulher a cujo lado acordei de manhã Os anos após a formatura me endureceram e fizeram de mim uma pessoa bem diferente do formando gaguejante que deixou o campus aquele dia e embarcou para a cidade de Nova York, pronto para oferecer o seu talento ao mundo O mundo, descobri, não estava tão interessado assim. Durante os meus primeiros anos da casa dos 20 vivi pagando aluguel, lendo classificados e indagando por que os sinais não ficavam verdes para mim. O meu sonho era ser músico famoso (eu tocava piano), mas depois de anos em boates escuras e vazias, de promessas não cumpridas, bandas que se desfaziam e produtores que se entusiasmavampor todo mundo menos por mim, o sonho deteriorou Pela primeira vez na vida eu fracassava. Ao mesmo tempo, tive o meu primeiro encontro sério com a morte. Meu tio preferido, irmão de minha mãe, o tio que me ensinou música, me ensinou a dirigir carro, que me provocava a respeito de namoradas, jogava bola comigo – o único adulto que elegi quando criança e disse a mim mesmo que quando crescesse queria ser como ele -, morreu de câncer no pâncreas aos 44 anos. Era de baixa estatura, bonito, de bigode espesso. Passei com ele o último ano de sua vida, morando numapartamento vizinho. Assisti ao definhamento de seu corpo robusto, ao inchaço, ao sofrimento dele noite após noite debruçado à mesa de jantar, comprimindo o estômago, os olhos fechados, a boca contorcida pela dor. “Ah, Deus!”, gemia ele, “ah, Jesus. Nós outros – minha tia, os dois filhos dele e eu – ali calados, retirando os pratos, evitando olhar uns para os outros. Nunca me senti tão desorientado na vida. Uma noite, em maio, eu e meu tio ficamos sentados na varanda do seu apartamento Soprava uma brisa e fazia calor. Ele olhou o horizonte e disse entredentes que não veria a passagem de ano dos filhos na escola. Perguntou se eu poderia tomar conta deles. Pedi-lhe que não falasse assim. Ele me lançou um longo olhar triste. Semanas depois morria. Depois do enterro, minha vida mudou. De repente, o tempo ficou precioso para mim, água escorrendo de uma torneira aberta e eu não podendo me mexer com a rapidez necessária.

Chega de tocar música em boates quase vazias Chega de compor música que ninguém quer ouvir. Voltei a estudar. Formei-me em Jornalismo e peguei o primeiro emprego que me foi oferecido -redator de esportes. Agora, em vez de correr atrás de minha fama, eu escrevia sobre atletas famosos que corriam atrás da deles. Trabalhei para jornais e de free-lancer para revistas. Trabalhava num pique que desconhecia horários e limites. Acordava de manhã, escovava os dentes, sentava-me à máquina com a roupa de dormir Meu tio tinha trabalhado para uma empresa e detestado a mesma coisa todos os dias, e decidi que não ia acabar como ele. Fiquei pulando de Nova York para a Flórida, e acabei num emprego em Detroit, colunista da agência Detroit Free Press. O apetite da cidade por esportes era insaciável – tinham equipes profissionais de futebol americano, basquete, beisebol e hóquei -, o que convinha a meus planos. Empoucos anos, eu não apenas escrevia colunas mas também livros sobre esportes. fazia programas de rádio, aparecia regularmente na televisão, opinava sobre ricos jogadores do nosso futebol e sobre a hipocrisia dos programas de esporte universitário. Passei a fazer parte da tempestade de jornalismo esportivo que agora encharca o país. Eu era muito solicitado. Deixei de ser inquilino e comecei a ser proprietário. Comprei uma casa numa colina. Comprei carros. Investi em ações, formei uma carteira. Engrenei-me em quinta marcha, e tudo que fazia era de olho no relógio. Praticava exercícios físicos como louco. Dirigia a alta velocidade. Ganhava dinheiro numa quantidade que nunca imaginara. Conheci uma moça de cabelos negros chamada Janine, que conseguiu me amar apesar do meu pique de trabalho e de minhas frequentes ausências. Casamos depois de sete anos de namoro, e uma semana depois voltei ao trabalho. Disse a ela – e a mim mesmo – que um dia começaríamos a formar uma família, o que ela queria demais. Porém esse dia nunca chegou.

Em vez de família, eu enchia os dias com o trabalho, porque achava que assim podia comandar as coisas, podia sempre acrescentar mais uma dose de felicidade antes de adoecer e morrer, como meu tio. destino esse que eu considerava natural para mim. E Morrie? Bem, de vez em quando eu pensava nele, no que ele me ensinara quanto a “ser humano” e me “relacionar com os outros”, mas era sempre uma lembrança distante, de outra vida. Durante anos joguei fora toda correspondência que me vinha da Universidade Brandeis, imaginando que fossem pedidos de dinheiro. Assim, não fiquei sabendo da doença de Morrie. As pessoas que podiam ter me avisado estavam esquecidas há muito tempo, os telefones delas perdidos em alguma caixa recolhida ao sótão. Poderia ter continuado assim, não fosse a casualidade de estar eu no fim de uma noite pulando os canais de televisão um a um e ouvir alguma coisa que prendeu minha atenção… O Audiovisual Em março de 1995, uma limusine em que ia Ted Koppel, o apresentador do programa “Nightline”, da ABC-TV, parou no meio-fio coberto de neve em frente à casa de Morrie em West Newton, Massachusetts. Morrie já vivia na cadeira de rodas o tempo todo e estava se habituando a ser tirado dela para a cama e levado da cama para ela. como se fosse um saco deba tatas Ele agora tossia quando comia, e mastigar era um sacrifício. As pernas já estavam mortas, ele nunca mais poderia caminhar. Mas se recusava a cair em depressão, e fez de si uma usina de ideias. Anotava seus pensamentos em um bloco de papel amarelo, em envelopes, cartolina, pedaços de papel. Escrevia curtas frases filosóficas sobre o que significa viver à sombra da morte. coisas assim: “Aceitar o que se é capaz de fazer e também o que não se é capaz “; “Aceitar o passado como passado, sem negá-lo nem descartá-lo”; “Aprender a perdoar a si mesmo e aos outros’; “Nunca pense que é tarde para se envolver”. Depois de algum tempo, ele já tinha mais de cinquenta desses “aforismos”, que passava aos amigos. Um desses, um professor da Brandeis chamado Maurie Stein, ficou tão impressionado com esses pensamentos que os mandou para um repórter do Boston Globe que visitou Morriee escreveu longa matéria sobre ele. O título dizia assim: O CURSO FINAL DE UM PROFESSOR: A SUA MORTE. O artigo chamou a atenção de um produtor do programa “Nightline”, que o levou a Koppel, emWashington. – Dê uma olhada nisto – disse. Não demorou e uma equipe de filmagem estava na sala de Morrie. e a limusine de Koppel, na frente da casa. Muitos amigos e parentes de Morrie estavam lá para conhecer Koppel e, quando o famoso homem da televisão chegou, o grupo vibrou de curiosidade -menos Morrie, que se aproximou na cadeira de rodas, ergueu as sobrancelhas e disse, em sua voz alta e cantante: – Ted, preciso dar uma conferida em você antes de concordar com a entrevista Depois de um momento de silêncio embaraçoso, os dois foram conduzidos ao estúdio de Morrie. A porta foi fechada. – Tomara que Ted não perca a paciência com Morrie – disse um dos amigos – Tomara que Morrie não perca a paciência com Ted – disse outro. Lá no estúdio, Morrie fez sinal a Koppel para sentar-se.

Depois, cruzou as mãos no colo e sorriu. – Fale-me de alguma coisa que lhe toque o coração – pediu Morrie. – Meu coração? Koppel fitou o velho à sua frente. – Muito bem – disse, cautelosamente, e falou de seus filhos. Todos lhe tocavam o coração. – Ótimo – disse Morrie. – Agora me fale de sua crença. Koppel sentiu-se embaraçado. – Não costumo falar dessas coisas com pessoas que apenas acabo de conhecer. – Ted, estou morrendo. Meu tempo aqui é muito curto disse Morrie. Koppel riu. – Está bem. Crença – e citou uma passagem de Marco Aurélio que muito o tocara. Morrie concordou inclinando a cabeça. – Agora permita que lhe pergunte uma coisa – disse Koppel- Já viu o meu programa alguma vez? – Umas duas vezes – disse Morrie, dando de ombros. – Duas vezes? Só? – Não se ofenda. Só vi “Oprat” uma vez. – Muito bem. Nas duas vezes que viu o meu programa, o que achou? Morris pensou. – Posso ser franco? – Claro. – Achei você um narcisista. Koppel soltou uma gargalhada. – Ora, sou muito feio pra ser narcisista. Logo as câmeras estavam prontas na frente da lareira da sala de estar, Koppel de terno azul bem passado e Morrie de suéter cinzento felpudo.

Ele se recusara a usar roupa elegante e não quis que o maquiassem para a entrevista. Sua filosofia era que a morte não deve ser cerimoniosa. Ele não ia empoar o nariz dela Por estar Morrie na cadeira de rodas, as câmeras nunca mostraram as pernas murchas dele. E, como ele ainda podia movimentar as mãos – sempre falava gesticulando -, falou com muita emoção ao explicar como se enfrenta o fim da vida. – Quando isso tudo começou, Ted – disse ele -, perguntei-me se ia me retirar do mundo, como faz a maioria das pessoas, ou continuar vivendo. Decidi que continuaria vivendo – ou pelo menos tentaria -, do jeito que quero, com dignidade, coragem, bom humor, compostura. Em certas manhãs, choro, choro, e lamento por mim. Em certas manhãs. Em outras, sinto-me muito irritado e revoltado Mas isso não dura. Depois me levanto e digo que quero viver… – Até agora tenho conseguido. Conseguirei continuar? Isso não sei. Mas estou apostando que vou conseguir. Koppel parecia extremamente impressionado com Morrie. Perguntou sobre a humildade que vem quando se enfrenta a morte. – Bem. Fred – disse Morrie, e imediatamente corrigiu: Perdão, Ted… Koppel riu com gosto. – Isso é o que eu chamo de induzir a humildade. Os dois falaram do depois da morte. Falaram da crescente dependência de Morrie. Ele já precisava que o ajudassem a comer, sentar-se e ir de um lugar a outro Koppel perguntou o que Morrie mais temia quanto à sua decadência lenta e implacável. Morrie refletiu. Perguntou se podia dizer uma certa coisa na televisão. Koppel disse que sim. Morrie olhou bem nos olhos do mais famoso entrevistador dos Estados Unidos – Olhe, Ted, muito breve alguém vai terj que limpar minha bunda. O programa foi ao ar numa noite de sexta-feira.

Abria com Ted Koppel sentado à sua mesa em Washington, falando com sua voz clara e convincente. – Quem é Morrie Schwartz e por que, quando a noite acabar, muitos de vocês vão se interessar por ele? A mil e quinhentos quilômetros de distância, em minha casa na colina, eu mudava de canais casualmente. Ouvi as palavras “Quem é Morrie Schwartz?” e fiquei paralisado. É a nossa primeira aula juntos, primavera de 1976. Entro na ampla sala de Morrie e noto a aparentemente incontável quantidade de livros que cobrem a parede, estantes e estantes de livros de sociologia, filosofia, religião, psicologia. No piso de madeira, um grande tapete, e uma janela que dá para a estradinha do campus. Só uns dez ou doze estudantes estão lá, consultando cadernos e programas. A maioria usa jeans, botinas e camisa de flanela com pregas Penso comigo que não vai ser fácil matar aula numa turma tão pequena. Talvez não devesse ter me inscrito. – Mitchell? – diz Morrie lendo a lista de presença. Levanto a mão. – Prefere Mitch? Ou acha melhor Mitchell? Nenhum professor me perguntara isso. Dou uma olhada rápida no cara, suéter gola rulê, calça de cotelê verde, o cabelo prateado caindo na testa. Ele sorri. – Mitch. É assim que meus amigos me tratam – respondo. – Pois então será Mitch – diz Morrie, como fechando um negócio. – E… Mitch, Senhor? – Espero que um dia você pense em mim como amigo.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |