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A última imperatriz (Oficial) – Da Chen

Estou velho, decadente e azedo. Sou uma árvore morta com uma cavidade podre em que cresce o caule de uma flor — minha última imperatriz. Sentado na varanda, sinto meus ossos doerem e meu coração prestes a mergulhar no horizonte como o sol que irá se pôr em breve. Estou sozinho agora com In-In, o criado do palácio da época emque fui tutor do último imperador. Ele é tão presente quanto os pensamentos que tenho de minha Annabelle. A idade simplifica todo e qualquer impulso. Apenas a essência da vida permanece; o resto não tema menor importância. Diariamente me levanto para executar uma tarefa modesta: escrever o que se passou desde aquela fagulha inicial até a derradeira chama, costurando contas do meu passado para formar o alicerce do meu presente. “Por qual motivo?”, você deve se perguntar. A resposta é simples. Para que todos saibam que não levei uma vida infrutífera, e, sim, uma vida imortal. Revivo no papel os dias de outrora, saboreando sua glória exatamente como faz a sombra com o sol. Esta é uma história de amor e inevitabilidade. Eu não era nada até conhecer Annabelle num malfadado dia de verão. — Sua tinta está pronta, patrão — avisa In-In com voz macia, colocando o tinteiro à minha frente. A tinta cintila como a noite intrusa. Molho com cuidado a ponta do pincel no tinteiro e depois deixo que ele deslize sobre o papel poroso. Da minha mão trêmula sangra a paixão que eu julgava ter morrido tantos anos atrás. Ainda assim, para sempre hei de desejar, hei de querer. CAPÍTULO 1 Não houve indícios nem sinais prematuros da minha predileção pela juventude, pela inocência ou pelo fantasmagórico. Todos os ramos da minha árvore genealógica se erguiam eretos e jamais ficaram à sombra, mesmo sob o sol enviesado da tarde. Papai trabalhava no escritório de advocacia da família — o Pickens, Pickens & Davis — e passava os verões em seu iate branco ao longo do litoral de Connecticut, na companhia dos amigos abastados que cumulavam de atenção seu único herdeiro, eu, um menino de cílios louros metido num arremedo de uniforme da Marinha. Em minhas primeiras lembranças, eu me vejo no centro de um anel de fumaça de charuto exalado pelas bocas lisonjeiras dos amigos de meu pai, que também bafejavam uísque ao enrolar na língua o sotaque da Nova Inglaterra. Mamãe, uma matriarca amatronada, era fruto de uma árvore de maior porte ainda, descendendo diretamente de Elihu Yale, o fundador da famosa universidade que leva seu nome. Nunca se discutiu que rumo tomaria minha vida: um colégio tradicional, Yale e, então, o trabalho no escritório da família, de dia, e o ócio no clube, à noite.


Tomaria uísque, fumaria charutos e despiria com os olhos as criadinhas da casa enquanto minha noiva, uma loura magra e sem sal de uma família de prestígio similar, fingiria não estar olhando. Foi o que fez meu pai, seguindo os passos do pai dele. Quem era eu para me desviar desse caminho? Começou muito inocentemente, quando eu ainda cursava o último ano do colegial, e culminou no meu encontro virginal com uma donzela madura. A sra. D era a esposa estéril do bibliotecário almofadinha. Entregava-se ao ócio sob o sol da Nova Inglaterra, devorando romances proibidos enquanto seu poodle mestiço de focinho avantajado a lambia entre as coxas envoltas em meias. Parecia aturdida, desiludida, os olhos cor de avelã, cheios de angústia e de uma dor indefinível, que todos no campus eram unânimes em atribuir à ausência de filhos. O sr. D tinha a aparência de um homem infértil. Era pálido, magro, sem um bigode chamativo ou um peito cabeludo, o que era possível constatar quando eventualmente participava, com relutância e embaraço, dos jogos de críquete dos professores. Como era de se esperar, os boatos sugeriam ser ela a responsável, já que sua reação era dócil como a de um réu culpado. Ambos podiam colaborar naquele jogo infrutífero, cada qual tão infértil quanto o outro, ou talvez os dois fossem dotados do poder de procriar, mas a chama do desejo jamais se acendesse, ou apenas bruxuleasse, em seus frios quartos separados. Há muito essa era uma matéria extracurricular sobre a qual se debruçavam todos os alunos durante os derradeiros e nebulosos minutos antes que o sono nos reclamasse a alma após o apagar das luzes. Eu sentia um arrepio ao ouvir a palavra “estéril” e o nome da pobre sra. D mencionados na mesma frase. Do cabelo dela, nem sempre alinhado, quase sempre se desprendia uma mecha que lhe caía sobre o nariz e alcançava os lábios, estes com frequência entreabertos. Os quadris eram amplos, talhados para o sacrifício como os de qualquer mulher fértil. Como culpá-la de alguma coisa? Meu coração ainda bate forte quando me lembro do primeiro toque daquela mão trêmula. Era a primeira vez que eu passava o Dia de Ação de Graças no colégio, longe da neve de Connecticut. O silêncio no campus era ensurdecedor. O sr. D saíra para caçar veados nas montanhas, deixando a sra. D na casa vazia. Naquela tarde me deram a tarefa de tirar a poeira da pequena coleção de iates de brinquedo, velas de lona e mastros de bambu guardada na biblioteca da casa do sr. D.

Ao chegar, encontrei a sra. D recém-desperta da sesta, esparramada no sofá qual uma estrelado-mar, com um livro repousando em seu peito e as pernas abertas. O poodle não estava à vista, embora seu fedor pairasse de leve no ar. A sra. D me cumprimentou segurando meu rosto entre as mãos sedosas. Eu me derreti como um boneco de neve debaixo do sol e enterrei o rosto em seu peito. Os seios dela eram firmes; as nádegas, macias. O tatear estonteado dos meus dedos a embalou, e o aroma do seu hálito evocou a lembrança estival do iate branco de meu pai. Em meio a um borrão de cenas — passarinhos voando, vidros refletindo o sol, o poodle farejando em algum lugar da casa, meu mastro a postos para cumprir sua função —, ela sussurrou carinhos e senti o calor de sua mão faminta na minha espada. Meias sedosas se rasgaram, e cegamente me embrenhei pântano adentro. Ai, longínquo Dia de Ação de Graças, tormento da minha juventude. Copulamos mais algumas vezes sob o véu da suspeita do sr. D, até não podermos mais aguentar o suspense — enfrentei a expulsão, e ela, a previsível perda do emprego do sr. D, mas sua lembrança acabou por se tornar o alicerce da minha excitação juvenil. Lábios entreabertos, mechas de cabelo soltas lhe descendo pelo rosto, uma casa vazia e um céu frio carregado de expectativa da neve próxima faziam meu coração doer, como naquele dia lúgubre, e meu sexo arder com o calor daquela tarde. Frequentemente fazia planos de invadir mais uma vez a residência coberta de hera da sra. D para penetrar sua vulnerabilidade velada e desenterrar os gritos abafados que ela sufocava sob o hálito erudito. Chegamos bem perto apenas uma última vez, durante um pomposo evento acadêmico em que se exigiu que todas as esposas dos professores se sentassem à mesa angular dos benfeitores da escola, incluídos aí os venerandos Pickens. Sentei-me a três cabeças e uma cabeceira de mesa de distância da sra. D e a observei mastigar seu assado insosso. Lancei-lhe o sorriso em código do nosso amor, mas ela evitou meu olhar. Um baile se seguiu ao jantar. Velhos amigos docentes pediram emprestadas as esposas de outros para se aninharem em seus braços, e acabei por fazê-la girar pelo salão num arremedo de valsa. Ela se manteve calada e de cara fechada e me implorou que parasse em meio à dança. Encostando a cabeça em meu ombro, enquanto o mundo girava nas pontas dos pés, pronunciou duas palavras horripilantes: — Estou grávida! Quase a deixei cair.

Prendi a respiração durante os três longos e agonizantes segundos seguintes, até sentir a mão de alguém em meu ombro e ouvir o simpático sr. D sussurrar em meu ouvido: — Permita-me assumir agora. Terá sido alívio ou terror o que senti? Eu não saberia dizer — o som das palavras dela ainda ecoava em meus ouvidos. Apossei-me, num canto escuro do salão, de duas taças altas com uma bebida qualquer, entornei-as garganta abaixo e voltei correndo para o meu dormitório. Castigo de Deus, decerto, ser pai de um fruto do pecado. O que a sra. D faria com ele ou ela, a miniatura de mim? Depois de uma longa semana de temor, o campus de repente começou a fervilhar com a notícia da partida do sr. D. A gravidez da sra. D satisfizera uma cláusula do testamento do falecido tio do marido, um negociante de bebidas de Boston, legando-lhe, como único herdeiro vivo da família D, uma participação minoritária numa fábrica de cerveja, desde que ele produzisse um herdeiro do próprio sangue. O casal partiu à toda e sem qualquer cerimônia, e desde então passei a viver em uma ambiguidade nebulosa. Ao longo de semanas fui assombrado por pesadelos; e todas as vezes eu acordava suando e arfando. Herbert, o mestre de classe, ligou para papai duas vezes a fim de elogiar meu espírito esportivo, mas manifestou preocupação quanto ao meu bem-estar em geral. Eu tinha olheiras escuras e me mostrava desanimado em assembleias religiosas. Uma enfermeira da escola, depois de tomar meu pulso, colher o limo em minha língua e tamborilar em minhas costelas cheias de eco, declarou se tratar de um caso leve de depressão, solucionável com uma visita ao lar e um pouco de sol. Foi, contudo, a confissão não induzida de um outro viril colega de classe, um tal Samuel Polk III, filho de um financista de má reputação, que dissipou por completo minha culpa. Numa insípida tarde de domingo, após inflamar minha garganta com um bocado de cantoria sacra, Sam Polk caminhou comigo ao longo de um trecho de gramado próximo à capela, de onde se tinha uma vista parcial do jardim que já pertencera à sra. D. O dia lúgubre deu origem a uma conversa lúgubre, e logo o garoto de Nova York passou a me regalar com suas investidas a prostitutas estrangeiras do Lower East Side, descritas por ele não só como competentes em seu ofício, mas também com suas línguas. — Entendeu, Pickens? — disse ele, rindo da própria piada. — Mas quer saber de uma coisa, Pickens? Tive mais diversão e menos problemas bem ali, atrás daquelas sebes — acrescentou, apontando com o dedão do pé para o jardim da sra. D. — Você o quê? — balbuciei. — Consegui o que queria três vezes com a estéril sra. D.

Em apenas duas visitas à casa dela. A terceira aconteceu atrás do arbusto, antes que fosse podado e perdesse as folhas. Quase enforquei o garoto com minhas próprias mãos. Fui libertado da prisão da culpa e respirei o ar fresco de um jovem sem filhos, mas naquela liberdade ansiei pela sra. D — a sebe, o jardim, a casa branca, a possibilidade de que para sempre ela olhasse para o rosto do filho e pensasse em mim. CAPÍTULO 2 Após a partida do casal D, Andover se tornou tão vazia para mim quanto a Cidade Proibida, sob cujo telhado agora escrevo este diário improvável. As cores foram apagadas das árvores outonais, e certa efervescência desapareceu do olhar dos meninos que me cercavam, lamentando o mito que era a sra. D. O vibrante professor de educação física, o sr. Waldran, não mais se sentava no muro baixo em frente à ex-residência do casal nos intervalos entre as aulas — mais um suspeito. Bolas de críquete, de futebol ou quaisquer outras raramente achavam o caminho daquele jardim agora assombrado. O antigo santuário dos nossos corações logo virou abrigo de teias de aranha quando a neve branqueou as telhas, e o gelo, os beirais, mas a primavera não tardou, e toda a melancolia se evaporou com o som cadenciado de uma exótica flauta melosa. O som vazava da janela daquela casa branca, a ex-moradia do casal D, pairando acima do mesmo jardim. Aqui e agora devo fazer uma pausa. O farfalhar apressado do meu pincel deve ter despertado os demônios da noite que habitam a Cidade Proibida, onde no momento vivo: os passos dos vigias noturnos se aproximam. Vejam, estou sendo vigiado constantemente pelos olhos que me espreitam das paredes e para além delas. A flautista criadora da música que pairava no ar acima de Andover naquele dia não era outra senão a mulher que me une a este destino no interior da muralha vermelha da Cidade Proibida. Ela é o vaivém da minha maré, o fazer e desfazer de tudo. Ela foi concebida, segundo me disse no nosso tímido encontro inicial, numa noite calma durante uma travessia do Nilo. Nasceu de madrugada, ao apagar das luzes da dinastia Qing na cidade portuária manchu de Dalien, onde o pai e, antes dele o avô, serviu como missionário na igreja de Jesus Cristo, a divisão asiática da conferência mundial. Os Hawthorn eram um clã de missionários orgulhosos com convicções devotas e convencionalismo severo. O pai, Hawthorn IV, um filipino de sangue azul, perdera uma das pernas para um tigre listrado na montanha Changbai. Realocado pela Conferência Norte-Americana, para a qual trabalhava, foi novamente parar no campus da sua alma mater, e sua filha única, em meu colo frio. Por ter crescido no Oriente, a excêntrica loura de olhos azuis Annabelle gostava de se vestir como uma imperatriz chinesa, com um casaco ricamente bordado, presente de um déspota local. A travessia do Pacífico a deixou melancólica e cheia de saudade da única terra que conhecera na vida.

A flauta de bambu, presente de um monge da montanha Changbai — a qual ela soprava com seu hálito perfumado para extrair as melodias daquela terra suja e encardida —, era o único consolo de que dispunha em sua existência desarraigada. Isto é, até que eu aparecesse. No verso dos nossos hinários planejávamos fugir para casar — ela, aos 19 anos, uma noiva desenfreada, eu, aos 18, um noivo malfadado — no reino brumoso de sua Shangrilá. Annabelle tinha muito conhecimento sobre mitos e mitologia. Nosso templo flutuava nas nuvens, e a primavera tinha gosto doce; ela sonhava ser um fantasma alçado do inferno de um caso de amor, vivendo, etéreo, entre a parede e o revestimento de papel. Eu me gabava da glória futura como explorador destemido, guiado apenas pela luz do sol, com o luar como minha cama. De forma rápida e desajeitada, nos apaixonamos. A dor daquele amor incipiente e o sofrimento do nosso monstruoso desejo de possuir um ao outro quase nos destruíram ao longo da lua de mel do mês do nosso caso. Ela alternava entre o cume imaginário da euforia e o abismo de humores sombrios e soturnos, enquanto eu chafurdava num perpétuo estado de agonia suspensa, faminto por cada vislumbre dela: caminhando pela trilha arborizada, com um lírio branco nos cabelos; no alto de uma árvore, a saia meio erguida — uma borboleta loura sobre os galhos —; rindo no balanço, fazendo meu coração alçar voo. Comparada à sra. D, Annabelle era um girino num lago, uma aprendiz da feitiçaria feminina, uma donzela à espera — de que as mãos de seu destino desfolhassem suas pétalas. Nas noites insones, o fantasma da sra. D, a mártir casada, ainda se infiltrava em minhas telas, empurrando Annabelle com o cotovelo, de modo a montar o retrato de um trio. A vulgaridade repentina da sra. D me envergonhava — barriga roliça, coxas com celulite e seios copiosos. Esses sinais de idade arderam todos emchamas, e em lugar deles surgiu a fênix Annabelle. Ainda estremeço quando lembro do momento em que toquei pela primeira vez o peito em botão de Annabelle, debaixo de um bordo primaveril. Os arbustos proviam uma barreira para nós: do outro lado, a mãe dela tomava chá com as amigas de verão. As folhas das árvores brincavam de se esconder com as folhas de chá sobre a mesa coberta por uma toalha branca. Os seios juvenis da menina eram duros sob o vestido sem graça. Seu rosto se contorceu em agonia, ela apertou a palma de minha mão contra o peito, cobriu-a com a sua e depois a empurrou, lentamente, para enterrá-la entre as pernas. Ambos respiramos fundo, transformando o momento em eternidade. Meus dedos estavam prestes a alcançar sua presa, quando, de repente, o cãozinho da casa soltou um latido. A mãe chamou a filha errante em sua alcova sombreada. Quando surgimos, afinal, me serviram uma xícara de chá, que eu, sem vergonha alguma, aceitei.

Os anseios vindos daquela transgressão não consumada atrás dos arbustos deixaram nossos corações suspirando com um desejo ainda mais potente. Um roçar de ombros no corredor estreito da capela provocava tonteiras; dar as mãos secretamente gerava relâmpagos elétricos; traçar seu nome no solo arenoso me deixava de joelhos bambos e espada desembainhada. Assistíamos estupefatos enquanto a tempestade do amor destroçava nossos corpos jovens. Minha mão treme enquanto me preparo para descrever aquela malfadada noite em que novamente nos encontramos. Até meu criado no palácio, In-In, que me prepara a tinta, franze a testa, preocupado. Vamos lá, rapaz, torne-a densa, torne-a sedosa, faça com que dure mais que as inscrições sobre minha lápide. Desejo que o mundo saiba a verdade — sim, a verdade que não cobra explicações. Foi o amor. Foi a lua. Foi a fragrância do mês de junho. Tudo estava em silêncio naquela noite de verão na Nova Inglaterra, quando segui as instruções que Annabelle deixara num bilhete em código na minha Bíblia. Uma trilha de folhas amarelas me aguardava à sombra da minha janela. Um salto no escuro me levou a aterrissar fora do dormitório, e segui, pé ante pé, pela Rota da Seda, com o coração na boca. Nosso ninho de amor era uma ilha estreita entre dois grandes montes de feno cheirando a bolor outonal. Annabelle estava sentada no feno, o cabelo jogado sobre os ombros, fumando um cachimbo fino de bambu, arrematado por um fornilho borbulhante. O aroma estonteante permeava o ar. — Fume — disse ela, expirando a fumaça. — É ópio. Dei uma longa tragada, que engoli quase engasgando, e beijei seus lábios entreabertos. A dor lhe franzia a testa, e o prazer fez seu lábio inferior estremecer. Zonzo de desejo, levantei-lhe a barra da saia, enquanto ela dava mais uma tragada no cachimbo, soprando a fumaça em mim, antes de alimentarmos as bocas famintas um do outro. Com a mão sob aquela saia, velejei atrás do meu destino sombrio, seu perfumado Shangrilá, e ela relaxou as pernas com um débil gritinho. O paraíso estava próximo. Ai, doce primavera. Numa explosão de amor enternecido, libertei minha espada dolorida.

Ela me tomou em sua mão esbelta, fazendo estremecer meu sexo, e abriu os portões do seu castelo. Marchei em frente, enquanto as estrelas piscavam sobre meus ombros, e estava prestes a possuir minha amada Annabelle quando as fagulhas do maldito cachimbo de ópio ganharam vida. As chamas, tal qual uma ventania no mar revolto, engoliram os montes de feno. Minha mente decrépita não é capaz de recordar senão que ela me empurrou para longe quando umfardo de feno em chamas desabou com toda força sobre nós. Meu pé pegou fogo e um odor nauseabundo me acachapou. Lembro-me de puxar seu bracinho fino, seus pés descalços. Então, mais um fardo de feno me acertou o ombro e deixei escapar a mão dela. Fui encontrado inconsciente, levemente queimado e cheio de hematomas, a quatrocentos metros de distância de seus restos mortais carbonizados. Minha mão direita ainda estava estendida em sua direção. Daquele malfadado momento em diante, tenho vivido apenas para lamentar cada segundo de vida sem ela, sem minha Annabelle. Quando as autoridades me interrogaram a respeito do incêndio e da minha roupa queimada, fui instruído a não mencionar nosso rendez-vous. Várias pistas me vinculavam àquela noite infeliz, mas os tentáculos dos venerandos Pickens deram cabo de todas. A maneira como tudo foi abafado me causou repulsa, e escrevi uma confissão tocante de nosso caso de amor que levara ao clímax do incêndio. Ao ler o relatório, o pai de Annabelle e o diretor da escola não só o queimaram em minha presença como também ameaçaram me processar com uma possível denúncia de homicídio involuntário e uma também possível expulsão caso alguma palavra sobre o episódio viesse a público. No registro oficial de Andover, a morte de Annabelle foi omitida por completo. As chamas de 1891 garantiram apenas uma nota de rodapé dando conta de ter sido esse o primeiro incêndio no famoso campus.

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