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A Ultima Musica – Nicholas Sparks

Seis meses atrás. Ronnie se sentou preguiçosamente no banco da frente do carro, se perguntando por que seus pais a odiavam tanto. Essa era a única coisa que explicaria o motivo dela estar indo visitar seu pai, nesse lugar esquecido por Deus, em vez de passar o tempo com suas amigas em Manhattan. Não, risca isso. Ela não estava apenas visitando o seu pai. Visitar implica uma ou duas semanas, eventualmente uma semana. Ela supôs que poderia viver com uma visita. Mas ficar até o fim de Agosto? Basicamente o verão todo? Isso era castigo, e durante as nove horas de estrada que levavampara chegar lá, ela se sentiu como uma prisioneira sendo transferida para uma penitenciária rural. Ela não conseguia acreditar que sua mãe estava realmente a fazendo passar por isso. Ronnie estava tão envolvida com sua miséria, que levou alguns segundos para reconhecer a Sonata no. 16 de Mozart em Dó Maior. Era uma das obras que ela apresentou no Carnegie Hall há quatro anos, e ela sabia que sua mãe tinha posto para tocar enquanto Ronnie dormia. Que pena. Ronnie estendeu a mão para desligar o leitor de CD. “Por que você fez isso?” sua mãe disse, franzindo a testa. “Eu gosto de ouvir você tocando.” “Eu não.” “E se eu abaixar o volume?” “Apenas pare, Mãe. Okay? Não estou com humor pra isso.” Ronnie encarou a janela, sabendo muito bem que os lábios de sua mãe tinham acabado de virar uma linha apertada. Ela fazia muito isso ultimamente. Era como se seus lábios estivessem magnetizados. “Eu acho que vi um pelicano quando cruzamos a ponte para Wrightsville Beach,” sua mãe comentou com uma alegria forçada. “Uau, isso é incrível. Talvez você deva chamar o Caçador de Crocodilos 1 .


” “Ele morreu,” Jonah disse, sua voz flutuando do banco traseiro, o som se unificava com os do seu Game Boy. Seu chato irmão de dez era viciado naquela coisa. “Não se lembra?” ele continuou. “Foi muito triste.” “Claro que eu me lembro.” “Você não parecia se lembrar.” “Bem, eu me lembrava.” “Então você não deveria ter dito o que disse.” Ela não perdeu seu tempo respondendo pela terceira vez. Seu irmão sempre tinha a última palavra. Isso a deixava louca. “Você foi capaz de dormir um pouco?” sua mãe perguntou. “Até você passar por aquele buraco. Obrigada, por sinal. Minha cabeça praticamente atravessou o vidro.” O olhar de sua mãe continuou na estrada. “Estou feliz em saber que seu humor fica melhor depois de um cochilo.” Ronnie estourou uma bola feita com seu chiclete. Sua mãe odiava quando ela fazia isso, o que era o principal motivo dela ter feito praticamente sem parar enquanto eles dirigiam pela I-95. A interestadual, em sua humilde opinião, era o pedaço mais chato de toda a estrada. A não ser que alguém gostasse de fast foods gordurosos, banheiros de estrada nojentos e zilhões de pinheiros, sua monotonia hipnótica poderia ninar uma pessoa. Ela disse essas exatas palavras para sua mãe emDelaware, Marylan e Virginia, mas sua mãe tinha ignorado os comentários todas as vezes. Além de tentar fazer a viagem ser legal, desde que essa seria a última vez que iriam se ver por um bom tempo, sua mãe não era do tipo que conversava no carro. Ela não estava nem um pouco confortável dirigindo, o que não era surpreendente levando em consideração que eles ou andavam de metrô ou pegavam táxis quando precisavam ir a algum lugar. No apartamento, no entanto… era outra história.

Sua mãe não pensava duas vezes na hora de se meter nas coisas, e o síndico fora duas vezes nos últimos meses pedir para que falassem mais baixo. Sua mãe provavelmente acreditava que quanto mais alto ela gritasse sobre as notas de Ronnie, ou os amigos de Ronnie, ou o fato que Ronnie continuava a ignorar o toque de recolher, ou o Incidente — especialmente o Incidente — faria com que Ronnie passasse a se importar. Okay, ela não era a pior das mães. Ela realmente não era. E quando se sentia generosa, Ronnie talvez até admitisse que ela fosse bem razoável em relação às outras mães. O problema é que parecia que sua mãe estava presa em alguma esquisita máquina do tempo na qual seus filhos nunca cresciam, e Ronnie desejava pela centésima vez que ela tivesse nascido e Maio em vez de Agosto. Ela já teria dezoito anos e sua mãe não poderia forçá-la a fazer nada. Legalmente, ela seria velha o suficiente para tomar suas próprias decisões, e vamos dizer que essa viagem não estava nos seus planos. Mas agora, Ronnie não tinha nenhuma voz na hora das decisões. Porque ela ainda tinha dezessete anos. Porque tinha sido enganada pelo calendário. Porque sua mãe a concebeu três meses antes de que deveria. O que era aquilo? Não importava o quanto Ronnie havia ferozmente implorado e reclamado ou gritado ou choramingado sobre os planos pro verão, nada faria a menor diferença. Ronnie e Jonah iriam passar o verão com seu pai e ponto final. Sem se, e ou mas sobre isso, foi como sua mãe se expressou. Ronnie tinha aprendido a desprezar aquela expressão. Mesmo à saída da ponte, o tráfico estava lento como uma tartaruga. Do lado, entre as casas, Ronnie capturou vislumbres do oceano. Yippee. Como se ela se importasse. “De novo, por que você está nos obrigando a fazer isso?” Ronnie gemeu. “Já tivemos essa conversa,” sua mãe respondeu. “Vocês precisam passar mais tempo com o seu pai. Ele sente falta de vocês.” “Mas por todo o verão? Não poderiam ter sido só umas semanas?” “Vocês precisam mais que duas semanas juntos.

Você não o vê há três anos.” “Não é culpa minha. Foi ele que foi embora.” “Sim, mas você não atende suas ligações. E sempre que ele vem para Nova Iorque para ver você e Jonah, você o ignora e sai com suas amigas.” Ronnie estouro a bola do seu chiclete de novo. Pelo canto do olho, ela viu sua mãe se retrair. “Eu não quero ver ou falar com ele,” Ronnie disse. “Tente fazer o seu melhor, okay? Seu pai é um bom homem e te ama.” “É por isso que ele nos deixou?” Em vez de responder, sua mãe olhou pelo retrovisor. “Você tem estado ansioso por isso, não tem, Jonah?” “Você está brincando? Vai ser ótimo!” “Estou feliz de ver sua atitude positiva. Talvez você devesse ensinar a sua irmã.” Ele bufou. “É, está certo.” “Eu só não entendo por que eu não posso passar o verão com meus amigos,” Ronnie reclamou, voltando ao assunto. Ela não tinha acabado ainda. Embora ela soubesse que suas chances eram praticamente nulas, ela ainda alimentava a fantasia de que iria convencer sua a mãe a dar meia volta com o carro. “Você não quer dizer que prefere passar a noite toda nos clubes? Não sou ingênua, Ronnie. Eu sei o que a garotada faz nesses lugares.” “Não faço nada de errado, Mãe.” “E suas notas? E o toque de recolher? E—“ “Podemos falar de outra coisa?” Ronnie cortou. “Como o porquê de ser tão imperativo que eu vá passar um tempo com meu pai?” Sua mãe a ignorou. E de novo, Ronnie sabia que ela tinha todos os motivos para fazê-lo. Ela já tinha respondido milhões de vezes essa pergunta, mesmo que Ronnie não aceitasse a resposta. O trânsito eventualmente começou a andar de novo e o carro se moveu por meio quarteirão antes de parar mais uma vez.

Sua mãe abaixou a janela e tentou espiar os carros à sua frente. “Me pergunto o que está acontecendo,” ela resmungou. “Está realmente engarrafado aqui.” “É a praia,” Jonah sugeriu. “É sempre tumultuado na praia.” “São três horas da tarde num Domingo. Não deveria ser tumultuado.” Ronnie pôs as pernas pra cima, odiando sua vida. Odiando tudo isso “Hey, Mãe?” Jonah perguntou. “Papai sabe que Ronnie foi presa?” “Sim. Ele sabe,” ela respondeu. “O que ele vai fazer?” Dessa vez, Ronnie que respondeu. “Ele não vai fazer nada. A única coisa que ele sempre se importou foi o piano.” Ronnie odiava o piano e jurou que nunca tocaria de novo, uma decisão que mesmo algum dos seus amigos achava estranha, desde que o piano esteve presente durante uma grande parte da sua vida. Seu pai, uma vez professor da Juilliard, fora seu professor também, e por um longo tempo ela foi consumida pelo desejo não só de tocar, mas de compor músicas com ele. Ela era boa. Muito boa, na verdade, e por causa da conexão de seu pai com a Juilliard, a administração e os professores estavam cientes de sua habilidade. O boato lentamente começou a se espalhar no obscuro mundo “música clássica é tudo que importa” que consistia a vida de seu pai. Alguns artigos em revistas de música clássica se seguiram, e a moderadamente longa reportagem no The New York Times, que focavam na conexão entre pai e filha, vieram a seguir. Tudo eventualmente resultou em uma cobiçada apresentação na série Jovens Artistas no Carnegie Hall há quatro anos. Esse, ela supôs, foi o ponto máximo de sua carreira. E fora de fato; ela não era ingênua sobre seu grande feito. Ela sabia que eram raras as oportunidades como essa, mas ultimamente ela se perguntou se os sacrifícios tinhamvalido a pena. Provavelmente ninguém além de seus pais se lembrava de sua apresentação.

Ou ao menos ligava. Ronnie aprendeu que ao menos que você tenha um vídeo popular no YouTube ou se fizesse shows para milhares de pessoas, habilidade musical não significava nada. De vez em quanto ela desejava que seu pai tivesse investido em guitarra elétrica. Ou pelo menos aulas de canto. O que ela deveria fazer com a habilidade de tocar piano? Ensinar música em alguma escola local? Ou tocar no lobby de algum hotel enquanto os hóspedes se registravam? Ou perseguir a dura vida que seu pai perseguiu? Olhe aonde o piano o levou. Ele acabou se demitindo de Juilliard para poder pegar a estrada fazendo concertos como pianista e se viu tocando em lugares insignificantes para uma audiência que mal enchia as duas primeiras fileiras. Ele viajava durante quarenta semanas por ano, tempo o suficiente para criar tensão num casamento. Próxima coisa que ela se lembra é de sua mãe gritando com seu pai enquanto ele se escondia em sua concha como costumava fazer, até que um dia ele simplesmente não voltou de uma turnê estendida pelo sul. Até onde ela sabia, ele não estava trabalhando ultimamente. Ele não estava nem dando aulas particulares. Como isso funcionou para você, Pai? Ela sacudiu a cabeça. Ela realmente não queria estar aqui. Só Deus sabe o quanto ela queria não ter nada a ver com tudo isso. “Hey, Mãe!” Jonah chamou. Ele se inclinou para frente. “O que é aquilo ali? Uma Roda Gigante?” Sua mãe esticou o pescoço, tentando ver em torno da minivan a pista ao lado dela. “Eu acho que sim, querido,” ela respondeu. “Deve haver algum parque na cidade.” “Nós podemos ir? Depois de todo mundo jantar junto?” “Você terá que pedir para o seu pai.” “É, e talvez mais tarde, nós todos nos sentamos em volta de uma fogueira e assamos marshmallows,” Ronnie se intrometeu. “Como uma grande família feliz.” Dessa vez os dois a ignoraram. “Você acha que eles têm outros brinquedos?” Jonah perguntou. “Tenho certeza que sim. E se seu pai não quiser ir neles, tenho certeza que sua irmã irá com você.

” “Maneiro!” Ronnie afundou no seu banco. Ela imaginou que sua mãe iria sugerir algo do tipo. A coisa toda era muito deprimente para ser verdade. Capítulo 2 –Steve Steve Miller tocava seu piano com uma intensa ansiedade, antecipando a chegada de seus filhos a qualquer minuto. O piano estava localizado em um pequeno canto de sua pequena sala de estar no bangalô de frente pra praia que ele agora chamava de lar. Atrás dele havia itens que representavam sua história pessoal. Não era muita coisa. Tirando o piano, Kim tinha sido capaz de colocar seus pertences em uma única caixa e tinha levado menos de meia hora para pôr tudo em seu lugar. Havia uma foto de seus pais quando ele era mais novo e outra dele tocando piano com dez anos. Elas estavam entre os diplomas que havia recebido, um de Chapel Hill e outro da Boston University, e logo abaixo estava o certificado de apreciação de Julliard após ele ter educado por quinze anos. Próximo a janela estavamtrês horários emoldurados com as datas de sua turnê. Porém o mais importante era a meia dúzia de fotos de Jonah e Ronnie, algumas presas na parede ou emolduradas em cima do piano, e sempre que ele olhava para elas, ele se lembrava do fato que apesar de suas melhores intenções, nada havia terminado como esperava. O sol da tarde estava se inclinando através das janelas, deixando o interior da casa abafado, e Steve podia sentir gotas de suor se formando. Felizmente, a dor em seu estômago havia diminuído desde a manhã, mas ele havia estado nervoso por dias e sabia que a dor iria voltar. Ele sempre tivera um estômago fraco; com seus vinte anos, teve uma úlcera e foi hospitalizado por diverticulite; comseus trinta anos, teve seu apêndice removido quando ele estourou enquanto Kim estava grávida de Jonah. Ele tomava Rolaids 2 como se fosse doce, ele usou Nexium3 durante anos e, apesar dele saber que provavelmente poderia ter comido melhor e se exercitado mais, ele duvidava que um dos dois teria ajudado. Problemas estomacais eram genéticos em sua família. A morte de seu pai há seis anos o havia mudado, e desde o funeral, ele sentiu como se estivesse em uma espécie de contagem regressiva. De certa forma, ele supôs que estava. Há cinco anos, deixou sua posição em Julliard, e um ano depois, decidiu tentar a sorte como um pianista de concertos. Há três anos, ele e Kim decidiram se divorciar; menos de doze meses depois, as datas da turnê começaram a diminuir até finalmente acabarem por completo. No último ano, ele se mudou de volta para cá, para a cidade onde cresceu, um lugar que pensou que nunca veria de novo. Agora ele estava prestes a passar o verão com seus filhos, e apesar de tentar imaginar o que o outono traria uma vez que Ronnie e Jonah estariam de volta a Nova Iorque, ele sabia que apenas as folhas iriam ficar amarelas depois de se tornarem vermelhas e nas manhãs sua respiração sairia em pequenas fumaças. Ele há muito tempo parou de tentar prever o futuro. Isso não o incomodava.

Ele sabia que previsões eram inúteis e, além disso, ele mal poderia entender o passado. Ultimamente, tudo que podia dizer com certeza era que ele era uma pessoa comum vivendo em um mundo que adora o incomum, e perceber isso o deixou com um vago sentimento de decepção com a vida que levou. Mas o que poderia fazer? Ao contrário de Kim, que era extrovertida e sociável, ele sempre fora mais contido e misturado na multidão. Embora tivesse certos talentos como músico e compositor, lhe faltavam carisma ou a habilidade de se apresentar ou o que quer que faça um performer se destacar. Às vezes, ele admitia que houvesse sido mais como um observador do mundo do que um participante dele, e em momentos de dolorosa honestidade, ele acreditava que era um fracasso em tudo o que era importante. Tinha quarenta e oito anos. Seu casamento havia terminado, sua filha o evitava e seu filho estava crescendo sem ele. Olhando para trás, ele sabia que não tinha ninguém para culpar além dele mesmo, e mais que tudo, era isso que ele queria saber: Ainda era possível para alguém como ele sentir a presença de Deus? Dez anos atrás, ele nunca poderia ter se imaginado duvidando sobre uma coisa dessas. Até mesmo há dois anos. Mas a meia idade, ele às vezes pensava, o fizera tão reflexivo como um espelho. Embora tivesse uma vez acreditado que a resposta estava de alguma forma nas músicas que criara, ele agora suspeitava que houvesse se enganado. Quanto mais pensava nisso, mais ele viria a perceber que para ele, a música sempre fora uma válvula de escape da realidade, em vez de um modo de vivêla mais intensamente. Ele poderia ter experimentado a paixão e a catarse das obras de Tchaikovsky 4 ou sentido uma sensação de realização quando escreveu suas próprias sonatas, mas ele sabia que se enterrar na música tinha menos a ver com Deus do que um desejo egoísta de escapar. Ele agora acreditava que a verdadeira resposta estava em algum lugar vinculado ao amor que sentia por seus filhos, na dor que experienciava quando acordava na quieta casa e percebia que eles não estavam aqui. Mas mesmo assim, ele sabia que havia algo mais. E de alguma forma, ele esperava que seus filhos o ajudassem a encontrar. Alguns minutos depois, Steve notou o sol refletindo no para-brisa de um empoeirado Station Wagon estacionado do lado de fora. Ele e Kim o haviam comprado há anos para idas ao Costco 5 nos fins de semana e viagens em família. Se perguntou por um momento se ela havia lembrado de trocar o óleo antes de vir, ou até mesmo desde que ele partiu. Provavelmente não, ele concluiu. Kim nunca fora boa nessas coisas, que era o motivo dele sempre tomar conta disso. Mas essa parte de sua vida estava encerrada agora. Steve se levantou de seu assento, e na hora que pisou na varanda, Jonah já estava do lado de fora do carro e correndo em sua direção. Seu cabelo não havia sido penteado, seus óculos estavam tortos e seus braços e pernas eram tão finos quanto um lápis. Steve sentiu sua garganta apertar, se lembrando de novo do quanto havia perdido nos últimos três anos.

“Pai!” “Jonah!” Steve gritou de volta enquanto cruzava a areia rochosa que constituía seu quintal. Quando Jonah pulou em seus braços, fez tudo que podia para permanecer em pé. “Você cresceu tanto,” ele disse. “E você diminuiu!” Jonah disse. “Está mais magro agora.” Steve deu um abraço bem apertado em seu filho antes de colocá-lo no chão. “Estou feliz que você esteja aqui.” “Eu também estou. Mamãe e Ronnie brigaram o tempo todo.” “Isso não é legal.” “Está tudo bem. Eu ignorei. Exceto quando eu as atiçava.” “Ah,” Steve respondeu. Jonah ajeitou seus óculos na ponte de seu nariz. “Por que mamãe não nos deixou vir de avião?” “Você perguntou pra ela?” “Não.” “Talvez devesse.” “Não é importante. Só estava curioso.” Steve sorriu. Ele tinha esquecido quão falador seu filho poderia ser. “Hey, essa é a sua casa?” “Isso mesmo.” “Esse lugar é maneiro!” Steve se perguntou se Jonah estava falando sério. A casa era tudo menos maneira. O bangalô era facilmente a propriedade mais antiga de Wrightsville Beach e estava entre duas casas enormes que foram construídas nos últimos dez anos, fazendo o bangalô parece ainda menor.

A pintura estava descascando, o telhado tinha inúmeras telhas faltando e a varanda estava apodrecendo; não iria o surpreender se na próxima tempestade decente tudo desmoronasse, o que sem dúvida iria agradar os vizinhos. Desde que ele se mudou, nenhuma família havia vindo falar com ele. “Você acha?” ele disse. “Alô? É bem do lado da praia. O que mais você poderia querer?” Ele gesticulou em direção ao oceano. “Posso ir lá ver?” “Claro. Mas tenha cuidado. E fique atrás da casa. Não se perca.” “Feito.” Steve observou ele correr antes de se virar para ver Kim se aproximando. Ronnie também havia saído do carro, mas permanecia parada perto dele. “Oi, Kim,” ele disse. “Steve.” Ela se inclinou para lhe dar um breve abraço. “Você está bem?” Ela perguntou. “Parece magro.” “Estou bem.” Atrás dela, Steve notou Ronnie lentamente indo em direção a eles. Ele estava impressionado com o quanto ela tinha mudado desde a última foto que Kim o mandou por e-mail. A típica garota americana que se lembrava havia ido embora e em seu lugar estava uma jovem mulher com uma mecha roxa em seu longo cabelo castanho, unhas pintadas de preto e roupas escuras. Tirando os óbvios sinais de uma rebelião adolescente, ele pensou novamente o quanto ela lembrava sua mãe. O que também era uma coisa boa. Ela era, ele pensou, tão linda como sempre. Ele limpou a garganta.

“Oi, querida. É bom ver você.” Quando Ronnie não respondeu, Kim a olhou com cara feia. “Não seja rude. Seu pai está falando com você. Diga alguma coisa.” Ronnie cruzou seus braços. “Tudo bem. Que tal isso? Eu não vou tocar piano para você.” “Ronnie!” Steve podia ouvir a exasperação de Kim. “O que?” Ronnie sacudiu a cabeça. “Eu pensei em esclarecer isso logo.” Antes que Kim pudesse responder, Steve acenou. A última coisa que ele queria era uma discussão. “Está tudo bem, Kim.” “É, Mãe. Está tudo bem,” Ronnie disse agressiva. “Eu preciso esticar as pernas. Vou dar uma volta.” Enquanto ela ia embora, Steve observou Kim lutar contra o impulso de chamá-la de volta. No final, porém, ela não disse nada. “Viagem longa?” ele perguntou, tentando amenizar seu humor. “Você nem imagina.” Ele sorriu, pensando só por um instante, o quão fácil era imaginar que ainda estavam casados, os dois jogando no mesmo time, os dois ainda apaixonados. Exceto, é claro, que eles não estavam.

Depois de descarregar as malas, Steve foi para a cozinha, onde ele bateu cubos de gelo da antiquada bandeja e os jogou dentro dos descombinados copos que vieram com a casa. Atrás dele, ele ouviu Kim entrar na cozinha. Ele alcançou uma jarra com chá gelado, despejando em dois copos e entregando um para ela. Do lado de fora, Jonah estava alternadamente perseguindo e sendo perseguindo por ondas de gaivotas que voavam acima de sua cabeça. “Parece que Jonah está se divertindo,” ele disse. Kim se aproximou da janela. “Ele esteve animado com a viagem por semanas.” Ela hesitou. “Ele sentiu sua falta.” “Eu senti falta dele.” “Eu sei,” ela disse. Ela bebeu seu chá antes de olhar pela cozinha. “Então esse é o lugar, huh? Ele tem… personalidade.” “Pela personalidade, eu suponho que você notou as goteiras e a falta de ar-condicionado.” Kim deu um breve sorriso, pega no flagra. “Eu sei que não é muito. Mas é tranquilo e posso assistir o nascer do sol.” “E a igreja está deixando você ficar aqui de graça?” Steve acenou. “O bangalô pertencia a Carson Johnson. Ele era um artista local, e quando faleceu, deixou a casa para a igreja. O Pastor Harris está me deixando ficar até eles estiverem prontos para vendê-la.” “Então como é voltar para casa? Digo, seus pais moravam a o que? Três quadras daqui?” Sete, na verdade. Perto. “É ok.” Ele deu de ombros.

“Está tão tumultuado agora. O lugar realmente mudou desde a última vez que estive aqui.” “Tudo muda,” ele disse. Ele se apoiou contra a bancada, cruzando uma perna sobre a outra. “Então, quando é o grande dia?” ele perguntou, mudando o assunto. “Para você e Brian?” “Steve… sobre isso.” “Está tudo bem,” ele disse, erguendo uma mão. “Estou feliz que tenha encontrado alguém.” Kim o encarou, claramente se perguntando se aceitava suas palavras sem maiores análises ou se mergulhava em território sensível. “Em Janeiro,” ela finalmente disse. “E eu quero que você saiba que com as crianças… Brian não finge ser alguém que ele não é. Você iria gostar dele.” “Tenho certeza que iria,” ele disse, tomando um gole de seu chá. Ele pôs o copo de volta na bancada. “Como as crianças se sente em relação a ele?” “Jonah parece gostar dele, mas Jonah gosta de todo mundo.” “E Ronnie?” “Ela se entende com ele tão bem quanto se entende com você.” Ele riu antes de notar a expressão preocupada dela. “Como ela realmente está indo?” “Eu não sei.” Ela suspirou. “E não acho que tampouco ela saiba. Ela está nessa fase sombria e mal humorada. Ela ignora o toque de recolher e na maioria das vezes eu não consigo mais do que um‘Que seja’ quando tento conversar com ela. Eu tento encarar isso como algo típico da adolescência, porque eu me lembro como isso era… mas…” Ela balançou a cabeça. “Você viu o modo que ela estava vestida, certo? E o cabelo e aquela maquiagem horrível?” “Mmm.” “E?” “Poderia ser pior.

” Kim abriu a boca para dizer alguma coisa, mas quando nada saiu, Steve soube que estava certo. Qual fosse a fase que ela estava passando, qual fossem os medos de Kim, Ronnie ainda era Ronnie. “Eu acho,” ela cedeu, antes de sacudir a cabeça. “Não, eu sei que você está certo. É só que temsido tão difícil lidar com ela ultimamente. Tem vezes que ela é mais doce que nunca. Como quando está com Jonah. Mesmo que eles briguem como cães e gatos, ela ainda o leva para o parque todo o fim de semana. E quando ele estava tendo problemas em matemática, ela estudou com ele todas as noites. O que é estranho, porque ela mal está passando em algumas de suas matérias. E eu não te contei isso, mas eu a fiz prestar vestibular em Fevereiro. Ela errou todas as questões. Você sabe o quão esperto você precisa ser para errar todas as questões?” Quando Steve riu, Kim franziu as sobrancelhas. “Isso não é engraçado.” “De certa forma é.” “Você não teve que lidar com ela nesses últimos três anos.” Ele fez uma pausa, repreendido. “Você está certa. Me desculpe.” Ele segurou seu copo de novo. “O que o juiz disse sobre o furto na loja?” “O que eu te disse por telefone,” ela disse com uma expressão resignada. “Se ela não se meter emmais problemas, será riscado de sua ficha. Se ela fizer isso de novo, porém…” Ela estava esgotada. “Você está preocupada com isso,” ele começou. Kim se afastou.

“Não foi a primeira vez, esse é o problema,” ela confessou. “Ela admitiu roubar a pulseira ano passado, mas dessa vez, ela disse que estava comprando um monte de coisas na farmácia e não conseguia segurar tudo, então ela enfiou o batom no bolso. Ela pagou por todo o resto, e quando você assiste ao vídeo, parece que foi um erro honesto, mas…” “Você não tem certeza.” Quando Kim não respondeu, Steve balançou a cabeça. “Ela não está no caminho de entrar pro grupo dos Mais Procurados dos EUA. Ela cometeu um erro. E ela sempre teve um bom coração.” “Isso não quer dizer que ela esteja dizendo a verdade agora.” “E tampouco quer dizer que ela esteja mentindo.” “Então você acredita nela?” Sua expressão era uma mistura de esperança e ceticismo. Ele se aprofundou em seus sentimentos sobre o incidente, como tinha feito uma dúzia de vezes desde que Kim o contou pela primeira vez. “Sim,” ele disse. “Eu acredito nela.” “Por que?” “Porque ela é uma boa garota.” “Como você sabe?” ela exigiu. Pela primeira vez, ela pareceu zangada. “A última vez que você passou um tempo com ela, ela estava terminando o ensino fundamental.” Ela se afastou dele depois, cruzando os braços enquanto olhava pela janela. Sua voz era amarga quando continuou. “Você poderia ter voltado, você sabe. Você poderia ter dado aulas em Nova Iorque de novo. Você não precisava viajar pelo país, você não precisava se mudar para cá… você poderia ter permanecido parte da vida deles.” Suas palavras o machucaram, e ele sabia que ela estava certa. Mas não foi assim tão simples, por razões que ambos compreendiam, embora nenhum deles reconhecesse. O carregado silêncio passou quando Steve finalmente limpou a garganta.

“Eu só estava tentando dizer que Ronnie sabe diferenciar o certo do errado. Por mais que ela declare sua independência, eu ainda acredito que ela é a mesma pessoa que sempre foi. No que realmente importa, ela não mudou.” Antes que Kim pudesse pensar em como responder seu comentário, Jonah explodiu através da porta da frente, suas bochechas coradas. “Pai! Eu encontrei uma oficina muito legal! Vamos! Eu quero te mostrar!” Kim levantou uma sobrancelha. “É lá atrás,” Steve disse. “Quer ir ver?” “É muito maneira, Mãe!” Kim se virou de Steve para Jonah e de volta para Steve. “Não, está tudo bem,” ela disse. “Isso soa mais como coisa de pai e filho. Além disso, eu realmente deveria ir.” “Já?” Jonah perguntou. Steve sabia o quão difícil isso seria para Kim, e ele respondeu por ela. “Sua mãe tem uma longa viagem de volta. E além disso, eu quero te levar pro parque hoje à noite. Podemos fazer isso?” Steve observou parte dos ombros de Jonah afundarem. “Eu acho que tudo bem,” ele disse. Depois de Jonah se despedir de sua mãe — com Ronnie ainda em nenhum lugar à vista e, de acordo com Kim, com poucas chances de voltar tão cedo — Steve e Jonah caminharam até a oficina, uma inclinada dependência com telhado de estanho que veio junto com a propriedade. Durante os últimos três meses, Steve passou a maior parte das tardes aqui, cercado por ferro-velho e pequenos pedaços de vidro colorido que Jonah agora explorava. No centro da oficina estava uma larga mesa de trabalho com o começo de um vitral, mas Jonah parecia muito mais interessado nas estranhas peças de taxidermia 6 empoleiradas nas estantes, a especialidade do antigo dono. Era difícil não se ver hipnotizado pela criatura meio-esquilo/meio-lobo-do-mar ou com a cabeça de um gambá unida ao corpo de uma galinha. “O que são essas coisas?” Jonah perguntou. “É supostamente arte.” “Eu pensei que arte fosse tipo pinturas e essas coisas.” “E é. Mas algumas vezes arte são outras coisas, também.

” Jonah enrugou seu nariz, olhando para o meio-coelho/meio-cobra. “Isso não parece arte.” Quando Steve sorriu, Jonah gesticulou para o vitral na mesa de trabalho. “Isso também era dele?” ele perguntou. “Na verdade, esse é meu. Estou fazendo para a igreja no final da rua. Ela foi queimada no ano passado, e a janela original fora destruída pelo fogo.” “Eu não sabia que você fazia janelas.” “Acredite ou não, o artista que morava aqui costumava me ensinar.” “O cara que mexia com os animais?” “Esse mesmo.” “E você o conhecia?” Steve se juntou ao seu filho na mesa. “Quando eu era criança, eu escapava para cá quando supostamente deveria estar na aula sobre a Bíblia. Ele fez vitrais para mais igrejas por aqui. Vê essa foto na parede?” Steve apontou para uma pequena fotografia da Risen Christ presa a uma das prateleiras, fácil de se perder no caos. “Espero que o vitral se pareça como esse quando terminado.” “Maneiro,” Jonah disse e Steve sorriu. Era óbvio que essa era a nova palavra favorita de Jonah, e ele se perguntou quantas vezes a escutaria nesse verão. “Você quer ajudar?” “Posso?” “Eu estava contando com isso.” Steve lhe deu uma gentil cotovelada. “Eu preciso de um bomassistente.” “É difícil?” “Eu tinha sua idade quando comecei, então tenho certeza que você será capaz de lidar com isso.” Jonah pegou cuidadosamente um pedaço de vidro e o examinou, o segurando na luz, com uma expressão séria. “Tenho certeza que posso lidar com isso também.” Steve sorriu. “Você ainda vai à igreja?” ele perguntou.

“Sim. Mas não é a mesma que nós íamos. É uma que o Brian gosta de ir. E Ronnie não vai sempre conosco. Ela se tranca no quarto e se recusa a sair, mas assim que nós partimos, ela vai para a Starbucks ficar com seus amigos. Isso deixa mamãe furiosa.” “Isso acontece quando as crianças se tornam adolescentes. Elas testam seus pais.” Jonah colocou o vidro de volta à mesa. “Eu não,” ele disse. “Eu sempre serei bom. Mas eu não gosto muito da nova igreja. É chata. Então eu talvez não vá nessa.” “É justo.” Ele pausou. “Eu ouvi que você não irá jogar futebol nesse outono.” “Eu não sou muito bom nisso.” “E daí? É divertido, certo?” “Não quando os outros garotos fazem piadas sobre você.” “Eles fazem piadas sobre você?” “Está tudo bem. Isso não me incomoda.” “Ah,” Steve disse. Jonah arrastos seus pés, alguma coisa obviamente estava em sua mente. “Ronnie não leu nenhuma das cartas que você a enviou, Pai. E ela não toca mais piano, também.

” “Eu sei,” Steve respondeu. “Mamãe disse que é porque ela tem TPM” Steve quase perdeu o ar, mas se controlou rapidamente. “Você ao menos sabe o que isso significa?” Jonah empurrou seus óculos para cima. “Eu não sou mais uma criancinha. Isso significa tendênciapara-matar” Steve riu, despenteando o cabelo de Jonah. “Que tal nós irmos procurar sua irmã? Eu acho que a vi indo em direção ao festival.” “Podemos ir na Roda Gigante?” “O que você quiser.” “Maneiro!” Capítulo 3- Ronnie A feira estava tumultuada. Ou melhor, Ronnie se corrigiu, O Festival de Frutos do Mar de Wrightsville Beach estava tumultuado. Enquanto ela pagava por um refrigerante em um dos estandes, ela pôde ver carros estacionados um ao lado do outro ao longo das duas ruas que davam para o píer e até notou alguns ousados adolescentes alugando as calçadas perto da ação. Porém, até agora, a “ação” estava bem entediante. Ela esperava que a Roda Gigante fosse permanente e que o píer possuísse lojas como as do calçadão de Atlantic City. Em outras palavras, ela esperava que aqui fosse o tipo de lugar que ela poderia se ver passeando no verão. Sem muita sorte. O festival estava temporariamente localizado no estacionamento perto do píer, e parecia, na maior parte o tempo, com um pequeno parque. Os instáveis brinquedos eram parte de um parque viajante, e o estacionamento estava alinhado com barraquinhas de jogos com preços absurdos e estandes de comida engordurada. O lugar todo era meio… nojento. Não que alguém parecesse compartilhar dessa opinião. O lugar era apertado. Velhos e jovens, famílias, grupos de estudantes provocando uns aos outros. Não importava para onde ia, ela sempre parecia lutar contra a maré de corpos. Suados corpos. Grandes, suados corpos, dos quais fora esmagada quando a multidão de repente parou. Sem dúvida ambos haviam comido cachorro-quente e barras de chocolate que ela viu em um estande. Ela enrugou seu nariz.

Tão nojento.

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