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A ultima princesa – Galaxy Grace

O DIA COMECOU COMO UM SONHO VÍVIDO E BELO. ERA UM DAQUELES raros dias em que o sol tinha saído e sua luz estava suave e morna, com um tom de amarelo vivo. Estávamos no jardim, apenas minha mãe e eu. Mary tinha saído com papai, mas, como minha mãe estava grávida de oito meses e sentindo-se muito cansada, fiquei para lhe fazer companhia. — Oh! — minha mãe colocou as mãos na barriga. Tínhamos preparado um piquenique com tapetinhos de bambu, uma toalha de mesa xadrez verdelimão, e alguns travesseiros para nos recostar. — Acho que seu irmão está querendo se juntar a nós. Eu estava estendendo a mão para tocar na enorme barriga dela e sentir meu irmão se mexer quando escutamos a voz de Rupert, nosso mordomo, nos chamando. Era uma entrega. Em pé à porta estava um lindo rapaz de cabelo cacheado e dourado. Ele trazia nas mãos uma cesta de frutas frescas e maduras. Frutas que eu nunca tinha visto: pêssegos e ameixas, damascos e maçãs, morangos vermelho-escuros. Eu não comia frutas desde os Dezessete Dias. — Quem mandou isso? — perguntou minha mãe, sem conseguir tirar os olhos do presente. O rapaz sorriu ao entregar-lhe a cesta, mostrando dentes perfeitamente brancos. Eu me lembro de tê-los achado parecidos com plástico. — Vida longa à rainha — o rapaz disse, e minha mãe sorriu quando ele se afastou. Ela sempre ficava envergonhada com essa frase. Colocamos a cesta sobre a toalha lá fora e nos sentamos na grama verde-esmeralda. Minha mãe colocou a mão dentro da cesta e pegou um pêssego perfeito. Levou-o até o nariz e fechou os olhos ao inspirar o perfume da fruta. — Olha, tem um cartão aqui dentro — eu disse, pegando um pequeno bilhete em meio à pilha de morangos e lendo-o em voz alta. Para a Família Real e o novo bebê. Deliciem-se. C.


H. — Quem é C.H.? — minha mãe perguntou. Ignorei a pergunta, distraída com as frutas, me perguntando o que experimentar primeiro: uma ameixa? Um morango? Minha mãe abriu a boca e mordeu o pêssego. Uma gota de sumo rolou pelo queixo dela. — Oh, é delicioso. É a coisa mais deliciosa que já experimentei — ela deu outra mordida, e o sorriso sereno dela se transformou em um esgar de preocupação. Minha mãe tirou uma coisa da língua e colocou-a na palma da mão. — Mas pêssegos não têm semente — ela disse. Eu me inclinei para a frente e olhei para a mão dela: lá estava uma minúscula estrela de metal. O rosto da minha mãe perdeu a cor e ela caiu para trás, em cima do cobertor, as mãos agarrando a grama e as unhas cravando a terra. Em meio à brisa, ouvi um som rascante. Foi o último suspiro dela. 1 CUIDADOSAMENTE, SOLTEI A CORRENTE DOURADA DO PESCOÇO, deixando o peso do relicário de ouro galês cair na palma da minha mão. Era fim de agosto, mas estava frio dentro das grossas paredes de pedra do castelo. Mesmo no verão, uma brisa atravessava os quartos como umfantasma solitário. Eu abri o relicário e olhei para o retrato em miniatura da minha mãe, depois para meu reflexo no vidro da janela, então de novo para o relicário, até meus olhos ficarem embaçados. Nós duas tínhamos o mesmo cabelo escuro e os mesmos olhos azuis-claros. Será que eu ficaria parecida comela quando crescesse? Fechei os olhos, tentando sentir os braços dela em volta de mim, ouvir o somda voz dela nos meus ouvidos, e sentir o cheiro do óleo de rosas que ela passava nos pulsos todas as manhãs. Mas hoje as lembranças não estavam surgindo com muita clareza. Fechei o relicário e enxuguei as lágrimas. Cornelius Hollister, o homem que matou minha mãe, nunca foi preso. Ele assombrava meus sonhos. Seu cabelo louro, seus olhos azuis intensos e seus dentes brancos e brilhantes me seguiampor ruas escuras quando eu dormia.

Às vezes eu sonhava que o matava com várias facadas no coração e acordava ensopada de suor, os punhos cerrados com força. Depois me encolhia toda e chorava por tudo que tinha perdido, e pelo que tinha descoberto haver dentro de mim nesses sonhos. Do lado de fora do Castelo de Balmoral, um véu cinzento de chuva caía sobre a paisagem árida. A cor da chuva tinha mudado depois dos Dezessete Dias. Não era mais límpida e suave como lágrimas. Era cinza, às vezes tão escura quanto fuligem. E extremamente fria. Fiquei observando os soldados se movimentando no pátio, e gotas pingavam dos casacos pretos, pesados de chuva, que estavam usando. Do pescoço deles pendiam cintos de munição quase vazios, cuidadosamente protegidos da chuva. Nem um cartucho podia ser desperdiçado, uma vez que as munições estavam em falta. Assim como os sacos de farinha, os potes de aveia, as cobras e os pombos salgados na nossa despensa — nada podia ser desperdiçado. Tudo era escasso. Uma poeira grossa rodopiava no ar, marcando o céu como uma ferida. Há seis anos, tudo havia mudado. Por dezessete dias seguidos, o mundo foi castigado por terremotos que partiram a terra, e por furacões, tornados e tsunamis violentos. Vulcões entraram em erupção, enchendo o céu com uma fumaça inflamável que bloqueou o sol e cobriu os campos com estranhas cinzas arroxeadas que sufocaram as plantações. Os cientistas disseram que isso foi uma coincidência catastrófica. Os fanáticos, que foi ato de umDeus vingativo, nos punindo por termos poluído o universo Dele. Mas eu apenas me lembrava daquilo como uma das últimas vezes que minha mãe esteve comigo. Passamos aqueles dezessete dias no abrigo antibombas que havia embaixo do Palácio de Buckingham, junto com assessores do governo e funcionários do palácio, nos abraçando bem apertado enquanto o mundo se despedaçava à nossa volta. Só minha mãe se mantinha calma. Ela passou o tempo todo em movimento, distribuindo cobertores e sopa enlatada, e dizendo para todos, com sua voz suave, que tudo ia ficar bem. Quando finalmente voltamos à superfície, tudo tinha mudado. O que eu mais sentia falta era da luz. O sol fraquinho do começo da manhã, o esplendor de uma tarde de verão, o brilho das luzinhas de Natal — até mesmo o brilho suave de uma lâmpada.

Tínhamos emergido da escuridão, em meio a fumaça e cinzas, para um mundo em chamas. Senti uma coisa molhada na mão e, ao olhar para baixo, vi Bella, minha cadela, me encarando comseus olhos grandes e escuros. Eu a tinha encontrado junto com Polly, filha da nossa empregada e minha melhor amiga, tremendo embaixo da cobertura do jardim quando era apenas um filhote. Juntas, lhe demos leite em uma mamadeira de boneca e cuidamos dela até que estivesse saudável. — Deixe-me adivinhar: você quer sair para passear. Mesmo com essa chuva toda? — minha voz ressoou baixinho debaixo do teto alto do quarto. Bella abanou o rabo, alegre, e olhou para cima, esperançosa. — Está bem, só um minuto. Primeiro preciso arrumar o quarto, senão Mary vai me encher a paciência. Bella latiu, como se tivesse entendido. Minha mala estava aberta em cima da cama de dossel, sob a sombra do tecido de laise branco. Era nosso último dia na Escócia. Iríamos pegar o trem para Londres naquela tarde para chegar em casa a tempo de ir ao Baile das Rosas no dia seguinte. O Baile Anual das Rosas marcava a tradicional abertura dos Escritórios do Governo e do Parlamento depois do recesso de verão, e meu pai sempre fazia um discurso nesse evento. Apesar de detestar ter de ir embora da Escócia, eu estava pronta para vê-lo de novo. Este foi o primeiro verão em que meu pai não passou pelo menos uma parte das férias conosco. Ele nos mandava bilhetes pelos funcionários dizendo que estava ocupado com os projetos de reconstrução e que viria nos visitar assim que pudesse, mas nunca veio. Depois do assassinato da minha mãe, meu pai se retirou do mundo. Um dia, logo depois do ocorrido, eu o encontrei sozinho no escritório no meio da noite. Sem ao menos se virar para me olhar ele disse: “Eu queria ter comido aquele pêssego. Deveria ter sido eu. Aquele veneno era para mim”. Peguei a escova de cabelo na cômoda, a escova de dentes, o pijama e o livro que estava lendo, e rapidamente os joguei na mala. Não estava exatamente arrumada, mas estava bom o suficiente. Bella latiu impacientemente perto da porta.

“Estou indo.” Peguei a capa de chuva que estava pendurada no cabide da parede, enfiei os pés em umas galochas amarelo vivo e corri para o corredor. Bati fraquinho na porta de Jamie, mas a abri sem esperar resposta. Lá dentro, as cortinas estavamfechadas, e apenas uma linha nebulosa de luz se esgueirava por entre elas, iluminando o quarto escuro. O cheiro adstringente do remédio de Jamie pairava no ar abafado. Um pequeno copo comxarope — que com sua cor vermelho-cereja fingia ser alegre — estava intocado na mesa de cabeceira, perto de uma tigela de mingau de aveia e de uma xícara de chá de camomila frio. Já era meio-dia e ele ainda não tinha tomado o remédio? Jamie quase não tinha conseguido vir ao mundo. Depois que nossa mãe foi envenenada, os médicos precisaram forçar o nascimento dele com uma cesariana. Ele sobreviveu, mas teve o sangue contaminado pelo veneno misterioso. E esse veneno ainda estava dentro dele, levando-o lentamente à morte. Nossa irmã, Mary, tinha feito Jamie ficar no quarto a maior parte do verão, todo agasalhado contra a umidade e a garoa, para que não corresse o risco de pegar um resfriado. Ela tinha a melhor das intenções, mas eu sabia quanto ele ficava deprimido preso lá dentro. Hoje era a última chance que Jamie tinha de sair no ar fresco antes de voltar para as ruas poluídas de Londres. Aproximei-me da cama onde ele estava dormindo embaixo do cobertor. Eu detestava acordá-lo, especialmente do que parecia ser um sono tranquilo. O remédio o mantinha vivo, mas também lhe roubava energia e enevoava-lhe os pensamentos. E o pior de tudo é que causava a Jamie pesadelos terríveis. Gentilmente, puxei o edredom azul-claro com estampa de planetas. — Jamie? — sussurrei. Mas a cama estava vazia. Eu já estava pronta para sair correndo quando avistei um pedaço do bloco de anotações do meu irmão, com capa preta e branca marmorizada, escondido embaixo do travesseiro. O livro em que Jamie desenhava desenhos complexos de como ele imaginava ter sido o mundo antes dos Dezessete Dias. Os animais eram grandes demais, os carros pareciam naves espaciais, e as cores estavam todas erradas, mas eu e Mary nunca tivemos coragem de lhe contar isso. E daí que ele imaginava o mundo de antes como sendo um lugar maravilhoso e impossível? Não era como se algum dia ele fosse conseguir vê-lo. Virei a página do bloco de anotações para uma página em que ele tinha escrito mais recentemente, e meu coração começou a bater mais rápido.

31 de agosto Ontem à noite vi dois empregados conversando na cozinha. Como eles mencionaram meu nome, parei para ouvir. Sei que não devia fazer isso. Eles falavam sobre como meu pai e minha irmã estão preocupados comigo. Como é difícil e caro conseguir encontrar meu remédio agora. Que era possível fazer muito pelo povo usando o petróleo e a munição que estão usando para trocar pelo meu remédio. Eles disseram também que sou um fardo para minha família. Eu sou doente e inútil. Os médicos dizem que não vou viver mais muito tempo mesmo. Não quero ficar aqui. Não quero mais ser um fardo. 2 CORRI PELOS LONGOS CORREDORES ATÉ A ESCADA DOS fundos, com Bella me seguindo de perto. Desci a escada de pedra aos pulos, três ou quatro degraus de cada vez, segurando no corrimão com uma das mãos para conseguir algum equilíbrio. As galochas afundavam na lama enquanto eu corria pelo caminho tortuoso que levava ao estábulo. Apenas três cavalos estavam lá fora no pasto, e a égua de Jamie, Luna, não estava lá. Rapidamente, abri o portão de madeira que dava para o campo. — Jasper! Rápido, rápido. Não havia tempo para me importar com selas ou rédeas, mas eu cavalgava em Jasper sem sela desde que aprendi a andar. Subi no lombo dele e virei-o para o bosque. Estávamos quase fora do portão quando vi um cardigã verde-claro pendurado em uma estaca. Era de Jamie. Ele devia ter deixado para trás quando a chuva parou. Imediatamente senti uma onda de alívio. Ele não tinha saído há muito tempo, e, na velha e lenta Luna, não poderia estar muito longe. Se Jamie estava no bosque, eu iria precisar de uma arma.

Os Andarilhos podiam estar lá. Então peguei a única coisa que consegui encontrar: uma faca velha com um cabo quebrado revestido de couro. Eu poderia arremessá-la, ou, se viesse a precisar, usá-la para lutar. Depois dos Dezessete Dias, sem telefones, computadores ou televisões, Mary e eu nos divertíamos brincando de luta comas espadas reais. O Mestre de Armas Real nos dava aulas, ensinando-nos a cortar, estocar e esquivar. Mary e eu lutávamos esgrima uma contra a outra, apostando pequenos luxos que ainda tínhamos do mundo anterior aos Dezessete Dias: um pedaço de chocolate ou de chiclete de menta. Mais tarde, quando as porções de comida do Governo acabaram, levávamos lanças e facas para os bosques em volta de Balmoral e caçávamos cobras, pombos e algumas outras criaturas que haviamsobrado. Fiquei surpresa ao descobrir que tinha uma pontaria boa, ao contrário de Mary, que nunca conseguiu pegar o jeito de arremessar uma faca. — Bella, vem! — segurei o suéter para ela farejar. Bella conseguia distinguir quase qualquer cheiro que lhe fosse mostrado. Polly e eu a treinamos durante um verão, escondendo coisas na floresta — um brinquedo, uma camiseta, um sapato velho — e recompensando-a com biscoitos quando ela as encontrava. Bella farejou o suéter de cima a baixo. — Vá buscar — eu disse comfirmeza. Ela abaixou o focinho, quase encostando-o na terra e, depois de alguns segundos, partiu correndo na direção dos campos. A terra marrom ficava remexida sob nós enquanto Jasper galopava atrás de Bella. Debrucei-me sobre ele e coloquei os braços em volta do seu pescoço, fechando os olhos. Os Dezessete Dias tinham transformado a floresta encharcada de sol da minha infância em um lugar escuro e confuso. A maior parte dos animais silvestres morreu com a destruição, ou foram depois caçados pelos Andarilhos até a extinção. Apenas as minhocas, as sanguessugas e as cobras sobraram. O chão estava coberto de árvores apodrecidas e nodosas que se espalhavam em todas as direções como mãos gigantes. Puxei Jasper para que ele parasse no topo da montanha, vasculhando o bosque atrás de sinais dos Andarilhos — fumaça, fogueiras, marcas de túmulos. Ou pior: os corações das presas, humanas e animais, enfiados em estacas de madeira cravadas no chão. Os Andarilhos tinham se unido depois dos Dezessete Dias, quando as cercas elétricas pararam de funcionar nas prisões e os presos conseguiram escapar. Eles se instalaram na floresta, comendo tudo que conseguiam matar. Como a maior parte dos animais selvagens estava morta, eles caçavam humanos.

É possível detectar umacampamento de Andarilhos pelo cheiro doce e enjoativo de carne humana sendo assada. Senti algo me roçando a testa e olhei para cima. Era uma corda puída, pendurada em um galho alto. A base estava amarrada à árvore e um pedaço de rede estava pendurado em um galho. Uma armadilha. Passei o dedo na borda da corda, procurando pegadas. Lá estavam elas, delineadas claramente na lama. — Vá! — gritei para Jasper, tentando não pensar em Jamie preso em uma armadilha como aquela. Bella corria pela trilha dos lenhadores, ao longo da encosta da montanha. Finalmente, avistei a pequena silhueta do meu irmão debruçado sobre Luna, cavalgando cada vez mais para dentro do bosque. — Jamie — gritei, mesmo sabendo que os Andarilhos poderiam nos escutar. — Jamie, pare! — ele parou, mas não se virou. A pequena mochila que trazia nos ombros estava tão cheia que estava quase arrebentando, e eu me perguntei o que Jamie tinha empacotado para levar para o mundo lá fora. Um travesseiro? Uma lanterna? Aticei Jasper e rapidamente alcançamos meu irmão e Luna. Apeei do cavalo e arrisquei me aproximar. — Jamie — eu disse calmamente. — Por favor, volte para casa. Ele se virou para me olhar. Olheiras escuras, como se tivessem sido causadas por socos, se espalhavam embaixo dos seus fundos olhos azuis. A pele de Jamie estava branca como papel, e na luz fraca da floresta, ele parecia quase translúcido. — Eu não quero mais ser um fardo — ele disse simplesmente, a voz tão fraca que quase não dava para ouvir. Então dei um passo e me aproximei. — Você não pode nos deixar — minhas palavras pareciam esquisitas e vazias, mesmo para mim. — Você não pode desistir e pronto. — Você não sabe como é — ele disse.

— Você nunca vai entender. — Você está certo, eu não posso mesmo entender — engoli o choro. Eu não fazia ideia do quanto ele sofria a cada dia. — Mas pense em toda dor que você vai causar em todo mundo se nos deixar. Pense em papai, em Mary. Por favor, fique… por mim — e estendi a mão. Jamie desceu do cavalo e deu um passo na minha direção. Com o canto dos olhos, vi uma nuvemde fumaça ao longe, subindo acima das árvores. Fiquei tensa e pressionei um dedo contra os lábios, mostrando-lhe que deveria ficar quieto. Então ouvi um intenso murmúrio de vozes masculinas. Um zumbido estranho. O som de um motor sendo ligado. Jamie olhou para mim com os olhos arregalados. — O que é isso? — ele sussurrou. Balancei a cabeça e segurei na mão dele. Ele não sabia sobre os Andarilhos; Mary e eu tínhamos tentado protegê-lo dos piores horrores do mundo. Corremos para a pedra de granito na borda da clareira e engatinhamos lá para baixo, nos escondendo atrás dela. Eu segurava Bella no colo, prendendo o focinho dela com as duas mãos para impedi-la de latir. Bastava um som e seríamos pegos. As orelhas de Jasper se levantaram como se estivesse sentindo o perigo. Ele e Luna trotaram para o bosque e desapareceram da nossa vista bem a tempo. Um bando de homens entrou na clareira a apenas alguns metros de nós. Eles estavam vestidos comuniformes de prisão, de cor cinza e gastos, e tinham as palavras “SegMáx” tatuadas grosseiramente com letras negras na testa. Alguns tinham armas. A maioria carregava armas improvisadas: ganchos, correntes, tesouras de jardineiro, cassetetes, canos cortados e com pontas afiadas, e o que parecia ser um aparador de cerca viva, cuja lâmina girava ameaçadoramente.

Dois homens carregavam um galho grosso. Um saco vermelho, encharcado de sangue, pendia dele. Tentei cobrir os olhos de Jamie com as mãos, mas sabia que ele tinha visto. Ele tinha visto o pior da humanidade. Não olhem para cá, não olhem para cá, eu pensava desesperada. Se os Andarilhos dessem uma segunda olhada para a pedra, iriam perceber sombras e viriam até nós. E então poderíamos nos considerar mortos. Tentei segurar Bella perto de mim, mas ela fez força e conseguiu se desvencilhar, então correu na direção dos homens, latindo agressivamente. Eu queria chamá-la de volta, mas mordi tanto os lábios que senti gosto de sangue. Os dois homens segurando a trouxa ensanguentada pararam e colocaram o galho no chão. Um deles deu um passo à frente, apontando a pistola para a escuridão da floresta circundante. — Quem está aí? — ele gritou. Eu me espremi ainda mais contra a pedra, prendendo a respiração. — Para de se assustar com nada — o segundo homem disse. — É só um cachorro selvagem. Umvira-latas velho e sujo. O homem com a arma se virou para Bella. Ele não tinha um olho, e uma placa de metal cobria a órbita vazia. — Vamos, os outros já estão lá na frente — o segundo homem reclamou. — Não desperdiça bala com um cachorro magrelo e pegajoso. Tem outras coisas pra gente comer — o primeiro homem abaixou a arma com um suspiro. Eles levantaram o galho, colocaram a carga ensanguentada sobre os ombros e começaram a se afastar. Jamie e eu, abraçados e tremendo, esperamos embaixo da pedra. Quando finalmente senti o cheiro doce e enjoativo de algo queimando, eu sabia que já podíamos sair dali. 3 O SOL ESTAVA FINALMENTE COMEÇANDO A SURGIR ATRÁS de uma pesada camada de nuvens quando voltamos para o Castelo de Balmoral.

— Eliza! Jamie! — a voz inconfundível de Mary ressoou no ar parado. — Você não pode contar para ela — eu voltei a pedir a meu irmão. — Você prometeu. — Eu sei — ele respondeu com a voz trêmula. — Jamie, preciso que você saiba de uma coisa — eu disse isso puxando as rédeas de Luna para mim, para ficarmos lado a lado. — Você tem que entender que antes as pessoas não se comiam. Antes dos Dezessete Dias, não existia isso de Andarilhos. Você precisa acreditar que as coisas vão melhorar — eu pensei nele sozinho naquele bosque. — Você sabe que existem pessoas boas no mundo. Este é o nosso lado. Se desistirmos, se fugirmos, as pessoas más ganharão. Jamie concordou com a cabeça, os olhos arregalados. Mary galopou na nossa direção, puxando as rédeas firmemente para fazer o cavalo parar de repente. Seu cabelo longo e louro caía no rosto, e sua pele cor de marfim estava corada por causa do vento e do exercício. — Onde vocês estavam? — ela gritou, olhando para mim e para Jamie. — Estive procurando vocês por toda parte. O último trem partirá em uma hora. Vocês esqueceram que vamos voltar hoje? — Mary, eu… — Jamie! Você sabe que não pode sair do quarto — ela disse, ignorando meus protestos. — Você precisa se cuidar! Mary olhou novamente para mim, os olhos apertados. — Como você pôde deixar isso acontecer? — Eu sei, é culpa minha — eu disse, lutando contra a vontade de desmoronar e contar para ela tudo o que tinha acontecido. — A gente queria ter um último dia legal… — Não, a culpa é minha — Jamie interrompeu. — Eu implorei para Eliza me deixar cavalgar. — Enquanto eu limpava e arrumava tudo, como sempre — Mary retrucou. — Espero que não tenham ido para perto do bosque. — Claro que não! Só até o campo — eu detestava quando mentia para Mary, mas às vezes não tinha escolha.

Mary me olhou e suavemente começou a relaxar a expressão do rosto. — Você sabe como é difícil para mim ter sempre que cuidar de vocês? — Você não é nossa mãe! — eu disse com raiva, e imediatamente me arrependi. — Alguém tem que ser a mãe aqui — Mary respondeu baixinho. Eu queria pedir desculpas, mas ela já estava se afastando com o cavalo. Ao voltar para o castelo, avistei George, nosso zelador. Ele tinha destrancado as portas de aço da cabana de jardinagem e retirado a corrente grossa de metal que as mantinha fechadas. Os tanques de combustível ficavam ali, guardados por cães pastores, tão protegidos quanto era possível semeletricidade. O jipe preto que sempre nos levava à estação estava estacionado ao lado da cabana. Vi George virar o resto do cano de gasolina dentro do tanque, com um olhar sombrio no rosto. Mesmo de onde eu estava, dava para ouvir o lento pinga-pinga da gasolina. — Está acabando? George virou-se para mim, e eu percebi pela primeira vez como ele tinha envelhecido durante o verão. Havia um buraco nas bochechas dele e ele tinha um olhar preocupado, que não costumava estar ali. — Eles devem terminar de consertar as plataformas em breve — George disse, o que nós dois sabíamos que era mentira. — A gente pode ir a cavalo. Eles não precisam de combustível. Eu estava tentando fazer uma piada, mas George não riu. — Temos o suficiente para esta viagem. As estradas estão perigosas demais para irmos em uma carruagem aberta, arriscando que nos roubem os cavalos. Olhei para o jipe. Ele era feito de aço e vidros a prova de balas, mas George tinha acrescentado uma camada extra de aço às janelas. Armaduras de metal agora protegiam os pneus, e pontas afiadas tinham sido soldadas no teto e nas laterais do automóvel. Ele também havia lixado o W de Windsor. Sem aquilo, percebi que ninguém nos reconheceria. Desde a morte da minha mãe, meu pai não nos deixava aparecer em público nem que circulassem retratos da realeza. Só nossos nomes eramreconhecíveis.

— Isso é por causa dos Andarilhos? — Os Andarilhos não andam pelas estradas. — Então para que tudo isso? — Apenas proteção extra. Não deixe sua linda cabecinha se preocupar com isso — George respondeu, virando-se de costas para mim para derramar o resto do combustível no tanque do jipe. Ignorei o comentário, pois sabia que ele não queria me ofender, e continuei: — Quem estava na cozinha ontem à noite? Já bem tarde? George olhou para mim, curioso. — Por quê? — Algum funcionário disse que Jamie era um fardo. E ele ouviu a pessoa falando isso. Descubra quem foi. Por favor — eu acrescentei, no tom mais educado e de princesa que podia. — Ouvir isso acabou com ele. A porta do meu quarto rangeu quando eu a abri. A garota sentada na minha escrivaninha se virou e os olhos azuis dela se arregalaram de surpresa. — Eliza! — Polly deu um pulo da cadeira, segurando um pedaço de papel atrás das costas. —Achei que você estava andando a cavalo — a voz dela falhava por tentar segurar as lágrimas. — Qual é o problema? — perguntei, andando na direção dela. A mão de Polly estremeceu e ela continuou escondendo o papel de mim. — Nada — ela forçou um sorriso. — Eu só estava escrevendo um bilhete de despedida para você. Ainda não terminei. — Vou sentir tanta saudade de você, Polly — segurei minha melhor amiga em um abraço apertado, piscando rápido para também tentar segurar as lágrimas. Ouvimos passos se aproximando da porta e Clara entrou. — Eliza, querida, está na hora — ela trazia uma cesta cheia de comida e um cobertor. — Fiz sanduíches para você comer no trem. Eu me aproximei para dar um grande abraço na mãe de Polly. Ela era como uma segunda mãe para mim desde que a minha tinha morrido. Envolta nos braços de Clara, com a lã áspera do suéter dela me arranhando a bochecha, eu me sentia segura.

— Eliza! Vem logo! — ouvi a voz de Mary lá do pátio. Polly e eu reviramos os olhos; então pegamos minha bagagem e corremos escada abaixo, começando a rir. No pátio, Mary estava em pé, parada ao lado de uma das portas do jipe, batendo o pé impacientemente. Fiquei surpresa ao ver que Eoghan, nosso cavalariço, estava no banco da frente, ao lado de George. — Por que ele está indo conosco? Não estamos levando cavalos — sussurrei para Mary enquanto escorregava pelo banco de trás para me sentar ao lado de Jamie. — Eu pedi que Eoghan nos acompanhasse — Mary murmurou de volta, e fiquei ainda mais surpresa ao ver que ela estava corando. — Precisamos de ajuda para carregar a bagagem. Abstive-me de mencionar que sempre nos viramos bem apenas com George. Recostei-me no banco, fechando os olhos diante da barulheira e dos engasgos do motor, que estava protestando contra o combustível aguado. George tinha misturado óleo de milho na gasolina para fazê-la durar mais. Bella pulou do meu lado e eu lhe alisei o pelo escuro e macio. — Espere! — ouvi batidas na porta, abri os olhos e vi Polly correndo ao lado do carro, acenando para mim. Rapidamente abaixei o vidro e ela jogou um envelope branco no meu colo. — Eu quase esqueci — ela falou, arfante — de lhe entregar isto. Segurei o envelope junto ao peito. — Vou ler no trem! Tchau, Polly! — Eu virei e acenei para minha amiga pelo vidro traseiro do jipe, enquanto ela ficava cada vez menor até desaparecer na neblina.

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