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A um Deus desconhecido – John Steinbeck

Depois de armazenadas as colheitas na fazenda dos Waynes, perto de Pittsford, em Vermont, depois de cortada a lenha para o Inverno e de terem caído as primeiras neves, Joseph Wayne, ao cair duma tarde, foi ter com o pai, que estava sentado no seu cadeirão ao pé do fogo, e parou, de pé, diante dele. Os dois homens eram semelhantes. Ambos tinham nariz grande, malares altos e duros; as caras dir-se-iam feitas de qualquer material mais rijo e durável do que a carne, de qualquer substância pétrea que não se alterasse facilmente. A barba de Joseph era negra e sedosa, ainda fina, a deixar ver o contorno sombrio do queixo. O velho tinha uma barba comprida e branca. Cofiava-a aqui e ali com dedos cautelosos e aconchegava-lhe as pontas cuidadosamente para as proteger. Só depois de um momento o velho notou que o filho estava ao seu lado. Ergueu os olhos, olhos velhos sábios e plácidos e muito azuis. Os olhos de Joseph eram tão azuis como os dele, mas ferozes e curiosos de juventude. Agora, que enfrentava o pai, Joseph hesitava na sua nova heresia. “A terra vai deixar de bastar, senhor pai”, disse ele humildemente. O velho apertou mais a sua manta de pastor à volta dos ombros magros e direitos. Tinha uma voz calma, feita para ordenar a justiça simples. “De que te queres queixar tu, Joseph?” “Já sabe que o Benjy namora, pai? Benjy vai casar-se quando vier a Primavera; e no outono haverá uma criança, e no Verão seguinte outra. A terra não é elástica, Senhor. Não chegará para todos.” O velho baixou lentamente os olhos para os dedos que se entrelaçavam preguiçosamente no regaço. “Benjamin não me contou ainda. Nunca podemos contar muito com ele. Tens a certeza de que ele namora a sério?” “Os Ramseys assim o dizem em Pittsford, pai. Jennie Ramsey tem um vestido novo e anda mais ereta do que o costume. Vi-a hoje. Não olhou para mim.” “Ah, então talvez tenhas razão. Benjamin tinha obrigação de me dizer”.


“Já vê, pai, que a terra vai deixar de bastar para todos”. John Wayne voltou a levantar os olhos. “A terra chega, Joseph”, disse placidamente. “Burton e Thomas trouxeram as mulheres para casa e a terra chegou. És a seguir a eles em idade. Devias arranjar uma companheira, Joseph”. “Tudo tem limite, senhor. A terra só pode sustentar um tanto de gente”. Então os olhos do pai tornaram-se mais agudos. “Tens alguma zanga com teus irmãos, Joseph? Há alguma questão de que eu não saiba?” “Não, senhor”, protestou Joseph. “A fazenda é “pequena”. Inclinou o corpo espigado para o pai. “Estou faminto de terra minha, pai. Tenho lido notícias a respeito do Oeste e da terra boa e barata que tem lá”. John Wayne suspirou, cofiou a barba e aconchegou-lhe as pontas. Um silêncio pairou sobre os dois homens, enquanto Joseph, de pé diante do chefe de família, esperava a decisão. “Se esperasses um ano…”, disse o velho por fim. “Um ano ou dois nada é quando se tem trinta e cinco anos. Se tu pudesses esperar um ano, decerto menos do que dois eu não me importaria. Tu não és o mais velho, Joseph mas sempre pensei que serias tu aquele a quem eu daria a minha bênção. O Thomasy e o Burton são homens de bem, bons filhos, mas sempre tencionei dar-te a bênção, para que tomasses o meu lugar. Há em ti qualquer coisa mais forte do que em teus irmãos, Joseph; qualquer coisa de mais seguro e verdadeiro”. “Mas a terra do Oeste está a ser distribuída, Senhor. Basta viver lá um ano, construir uma casa e lavrar um pouco, que a terra é nossa. Ninguém pode tornar a tirá-la”.

“Bem sei, já ouvi falar nisso; mas suponhamos que te ias embora agora. Só terei cartas a contar-me mesmo o que estás a fazer. Se esperares um ou dois, irei contigo. Já estou velho, Joseph. Irei contigo, sobre a tua cabeça, no ar. Verei a terra que escolhes e a casa que construas, interessar-me-ia por isso, bem sabes. Talvez até arranjasses uma vaca e te ajudar de vez em quando. Se a perdesses, por exemplo, é natural que eu te ajudasse a encontrá-la no ar, lá em cima, veria as coisas até muito longe. Se esperares um pouco mais, posso fazer isso, Joseph.” “Estão a dar a terra, disse Joseph. “Já lá vão três anos desde a volta do século. Se me ponho à espera, Levam-me toda a terra boa. Estou faminto de terra, Senhor”; e os olhos brilhavam-lhe, febris, com a fome da terra. John Wayne acenava com a cabeça para baixo e para cima e aconchegava melhor a manta aos ombros. “Já vejo”, murmurou pensativo. “Não é só uma inquietação passageira. Talvez vá ter contigo mais tarde.” E depois, com decisão: “Vem cá, Joseph. Põe aqui a mão. não, aqui. Era assim que meu pai fazia. Um costume tão antigo não pode errar. Agora deixa ficar a mão”. e curvou a cabeça branca: “Que a mão de Deus e a minha mão cubram esta criança. Que o meu filho viva à luz da sua Face.

Que ame a sua vida”. Fez uma pausa durante um momento. “Agora, Joseph, podes ir para o Oeste. Já nada te prende a mim.” Depressa veio o Inverno, com a neve alta; e o ar enregelou-se em agulhas. Durante um mês Joseph vagueou pela casa, custando-lhe a abandonar a sua juventude e todas as fortes recordações materiais da juventude, mas a bênção paterna desligava-o de tudo. Era um estranho naquela casa e sentia que os irmãos ficariam contentes quando ele se fosse embora. Partiu antes da chegada da Primavera, e as colinas da Califórnia estavam cobertas de verde quando ele lá chegou. 2 Depois de vaguear por algum tempo, Joseph chegou ao comprido vale a que chamavam de Nuestra Senhora e ali registou a sua pretensão à terra. Nuestra Senhora, o extenso vale de Our Lady, na Califórnia Central, estava verde e dourado, amarelo e azul, quando Joseph lá chegou. A planície cobria-se de aveia branca e flores de mostarda cor de canário. O rio San Francisquito corria ruidosamente no seu leito pedregoso, através de um sulco aberto pela sua estreita e pequenina floresta. Daí, os flancos da serra do litoral agarravam o vale de Our Lady, protegendo-o do mar por um lado e pelo outro do vento cortante do grande vale das Salinas. No longínquo extremo sul abria-se uma garganta nas montanhas para deixar passar o rio, e perto dessa garganta ficavam a igreja e a pequena cidade de Our Lady. As cabanas dos índios aglomeravam-se em torno das paredes de adobe da igreja; e embora esta estivesse agora muitas vezes vazia, com os santos estragados e parte do telhado num monte de destroços no chão, embora os sinos estivessem quebrados, os índios mexicanos ainda viviam perto, realizavam as suas festas, dançavam La Jota no terreno batido e dormiam ao sol. Depois de registar a sua pretensão à terra, Joseph pôs-se a caminho do seu novo lar. Os olhos brilhavam-lhe de excitação debaixo do chapéu de abas largas e aspirava avidamente o ar do vale. Levava fustões novos com uma fiada de botões de latão em volta da cintura, uma camisa azul e umcolete, por causa dos bolsos. As botas, de tacão alto, eram novas e as esporas brilhavam como prata. Um velho mexicano subia a ladeira a patinar penosamente em direção a Our Lady. A cara iluminouse-lhe de prazer quando Joseph se aproximou. “Há festa nalgum sítio?” perguntou, delicadamente. Joseph riu-se, prazenteiro. “Tenho cento e sessenta acres de terreno mais acima, no vale. Vou viver e sustentar-me deles.

” Os olhos do velho vagabundo pousaram na espingarda que, no seu coldre, Joseph levava entalada debaixo da perna. “Se vir um veado, senhor, e se o matar, lembre-se do velho Juan”. Joseph seguiu para diante: mas ainda gritou por cima do ombro: “Quando a casa estiver construída, darei uma festa. vou lembrar-me de ti, velho Juan.” “O meu genro toca guitarra,.senhor.” “Então que venha também, velho Juan.” O cavalo caminhava rapidamente, raspando com os cascos no meio das folhas de carvalho quebradiças: as ferraduras retiniam sobre as pedras salientes. A vereda atravessava a longa floresta que marginava o rio. Enquanto cavalgava, Joseph tornou-se tímido e ao mesmo tempo ansioso, como um jovem que se escapa para ter um encontro com uma mulher bonita e séria. Sentia-se meio entontecido e esmagado pela floresta de Our Lady. Havia uma estranha qualidade de fêmea naqueles ramos e rebentos entrelaçados, na comprida caverna verde aberta pelo rio através das árvores e do mato viçoso. Os átrios, naves e alcovas verdes e sem fim pareciam ter significações obscuras e prometedoras, como os símbolos duma antiga religião. Joseph teve um calafrio e fechou os olhos. “Talvez eu esteja doente”, disse. “Quando abrir os olhos, talvez descubra que tudo isto é delírio e febre”. Enquanto ia andando para diante, apoderou-se dele o receio de que aquela terra pudesse ser uma forma de sonho que se transformasse numa manhã seca e poeirenta. Um ramo de manzanita arrancou-lhe o chapéu da cabeça e atirou-o no chão; quando desmontou, Joseph estendeu os braços e inclinou-se sobre a terra, para a acariciar. Havia nele a necessidade de sacudir a má disposição que o tomara. Ergueu os olhos para as copas das árvores, onde o sol brilhava nas folhas trémulas, onde o vento cantava roucamente. Quando tornou a montar, sabia que poderia perder o sentimento pela terra. O ranger do couro do selim, o tinir das correntes das esporas, o raspar da língua do cavalo no freio, cantavam notas agudas sobre o acompanhamento ritmado do pulsar da terra. Joseph sentiu que tinha estado como paralisado e de repente recuperava a sensibilidade: estivera adormecido e agora acordara. Bem no fundo do seu espírito, tinha o sentimento de cometer uma traição. O passado, o seu lar e todos os acontecimentos da sua infância estavam a perder-se; e sabia que tinha para com eles o dever de recordá-los.

Esta terra poderia apossar-se completamente dele, se não se acautelasse. Para lutar um pouco contra a terra, pensou no pai, na serenidade e paz, na força e eterna retidão de seu pai; e no seu pensamento a diferença acabou e ele sentiu que não havia contenda alguma, porque o pai e a nova terra formavam um todo. Joseph assustou-se, então. “Ele morreu”, murmurou. “Meu pai deve ter morrido.” O cavalo deixara agora a floresta do rio para seguir um caminho suave e abaulado que podia ter sido feito pelo corpo duma jiboia. Era um antigo trilho de caça, feito pelos cascos e patas de animais sozinhos e medrosos que tinhamseguido a vereda como se quisessem qualquer companhia. até a de fantasmas. Era uma senda de inúmeros significados. Aqui alargara-se para evitar um enorme carvalho com uma grossa ramada onde havia muito tempo um leão se agachara e saltara sobre a presa, deixando o cheiro a desviar a senda; ali mais adiante rodeava cuidadosamente umpenedo liso onde uma cobra cascavel costumava aquecer ao sol o seu sangue gelado. O cavalo continuava pelo centro da vereda, atento a todos os avisos. Agora o caminho abria-se abruptamente num largo prado viçoso, a meio do qual um grupo de carvalhos se isolava como uma ilha verde num lago verde mais claro. Enquanto Joseph se dirigia às árvores, ouviu um guincho agonizante; e, torneando o bosque, deu com um enorme javali, de presas curvas, olhos amarelados e juba vermelha. O animal, sentado nas patas traseiras, dilacerava os quadris dum leitão que, ainda vivo, grunhia fracamente. Ao longe uma porca e cinco outros porquinhos fugiam, gritando de terror. O javali parou de comer e abaixou-se quando lhe chegou o cheiro do cavalo de Joseph. Grunhiu e depois voltou ao porquinho, que ainda soltava gritos dilacerantes. Joseph empinou o cavalo. Seu rosto se contraía de raiva e os olhos estavam quase brancos, de tão claros. “Maldito sejas”, gritou. “Come outras criaturas. Não comas os da tua espécie”. Pegou na espingarda e apontou entre os olhos amarelos do javali. Depois baixou o cano e com mão firme pôs a arma no descanso. Riu consigo mesmo.

“Estou tomando poder demais nas minhas mãos”, disse ele. “Pois quê! Ele é pai de cinquenta porcos, e pode vir a sê-lo de outros cinquenta.” O javali deu uma volta, resfolegando, enquanto Joseph continuava o seu caminho. Agora o atalho circundava uma extensa falda da montanha coberta de amoras silvestres, manzanita e carvalhos enfezados, tão densamente emaranhados que mesmo os coelhos tinham de abrir pequenos túneis através deles. O atalho abria caminho pela estreita cordilheira acima e vinha dar a uma cintura de árvores — carvalhos de variadas espécies. Por entre os ramos aparecia um tênue farrapo branco de neblina que flutuava sobre as copas das árvores. Num momento, um outro fiapo diáfano se lhe juntava, e depois outro, e outro. Deslizavam como fantasmas meio materializados, crescendo mais e mais, até que de repente davam com uma coluna de ar quente e se erguiam no céu para se transformarem em pequenas nuvens. Por sobre todo o vale aquelas nuvenzinhas tênues formavam-se e ascendiam como os espíritos dos mortos evolando-se de uma cidade adormecida. Pareciamdesaparecer contra o céu, mas o sol perdia o calor por causa delas. O cavalo de Joseph levantou a cabeça e resfolegou. No topo da cordilheira havia um grupo de gigantescas madronas; e Joseph, admirado, notou que elas pareciam feitas de carne e músculos. Estendiam os membros musculosos, vermelhos como carne esfolada e contorcidos como corpos supliciados. Joseph pousou a mão sobre um dos ramos quando passou a cavalo e sentiu-o frio, liso e duro. Mas as folhas nos extremos daqueles membros horríveis eram verdes, vivas e brilhantes. Cruéis e terríveis árvores, as madronas. Gritam de dor quando as queimam. Joseph alcançou o cume da cordilheira e olhou para baixo, para as terras verdejantes do seu novo lar, onde a aveia brava se movia em ondas prateadas ao vento brando; onde as manchas do tremoçoazul se estendiam como sombras duma noite clara e luminosa; e as papoulas nas encostas dos montes eram largos raios de sol. Parou para olhar os prados extensos em que maciços de carvalhos se erguiam como Senhores a dominar a terra. O rio, com a sua cortina de árvores, abria um caminho tortuoso que descia o vale. A umas duas milhas de distância via-se, ao lado dum gigantesco carvalho solitário, a mancha branca da tenda que ele deixara para ir registar a sua pretensão à terra. Muito tempo ali esteve sentado. Enquanto olhava o vale, Joseph sentiu o corpo inundar-se-lhe dum fluido quente de amor. “Isto é meu”, disse, simplesmente, e as lágrimas brilhavam-lhe nos olhos; o cérebro encheu-se-lhe da admiração de tudo aquilo ser dele. Sentiu piedade pela erva e pelas flores; pareceu-lhe que as árvores e a terra eram seus filhos.

Por um momento julgou pairar no espaço, a olhar para baixo. “É minha”, voltou a dizer, “e tenho de cuidar dela.” As pequenas nuvens acumulavam-se no céu; uma legião delas apressava-se em direção ao nascente, para se reunir ao exército já formado ao nível da montanha. Por cima das serras a ocidente, as tênues nuvens marinhas vinham correndo ao desafio. O vento levantou-se e suspirou entre os ramos das árvores. O cavalo descia ligeiramente a azinhaga emdireção ao rio, levantando muitas vezes a cabeça; aspirava o aroma fresco e agradável da chuva que ia cair. A cavalaria das nuvens tinha passado; e uma enorme falange negra vinha a marchar vagarosamente do mar, com um ribombar de trovão. Joseph tremia com o prazer da violência iminente. O rio parecia apressar-se no curso para tagarelar, excitado sobre as pedras pelo caminho. E então começou a chuva, gotas grossas e preguiçosas a pingar sobre as folhas. O trovão ressoava como caixotões que rolassem no céu. As gotas tornaram-se mais miúdas e juntas, varriam o ar e assobiavam nas árvores. A roupa de Joseph encharcou-se num minuto; o cavalo brilhava de molhado. No rio, as trutas atiravam-se aos insetos que tombavam; e os troncos das árvores, negros, luziam. O trilho deixava o rio outra vez, e à medida que Joseph se ia aproximando da sua tenda as nuvens rolavam para trás, do ocidente para o oriente como uma cortina de lã cinzenta; e o sol tardio brilhou sobre a terra lavada, reluziu nas folhas da erva e fez faiscar as gotas nos corações das flores silvestres. Em frente da tenda, Joseph desmontou, tirou os arreios ao cavalo e esfregou-lhe o dorso e os membros molhados com um pano antes de o pôr a pastar em liberdade. Ficou de pé sobre a erva úmida, em frente da tenda. O sol, que se punha, brincava-lhe com os cabelos castanhos e o vento da tarde agitava-lhe a barba. A expressão faminta dos seus olhos tornou-se voraz ao fitar o extenso vale verde. O desejo de posse tornou-se-lhe uma paixão. “É minha”, disse surdamente. “Até às profundezas é minha, até o centro do mundo.” Batia com os pés na terra mole. Depois o entusiasmo tornou-se numa dor aguda de desejo que lhe percorria o corpo como um rio quente. Atirou-se sobre a erva e apoiou com força a face contra as hastes úmidas.

Apertou com dedos convulsos a erva molhada e arrancou-a, e voltou a apertar. Batia com força as coxas na terra. A fúria abandonou-o e ele sentiu-se frio, espantado, assustado de si próprio. Sentou-se e limpou a lama dos lábios e da barba. “Que foi?”, perguntou. “Que foi que me deu? Terei eu uma necessidade tão grande como esta?” Tentou recordar-se exatamente do que acontecera. Durante um momento a terra fora sua mulher. “Preciso de arranjar uma mulher”, pensou ele. “Vou sentir-me sozinho de mais aqui, sem mulher.” Estava cansado. Doía-lhe o corpo como se tivesse levantado uma enorme pedra. e aquele momento de paixão assustara-o. Cozinhou a frugal ceia sobre uma fogueirinha em frente da tenda; quando a noite desceu, sentou-se no chão, a olhar para as estrelas, frias e brancas; e sentiu a terra a pulsar. O fogo morreu e Joseph ouviu os coiotes a uivarem nos montes, os mochos pequenos passarem a gritar e à sua volta os ratos do campo a fugirem por entre as ervas. Depois a Lua, cor de mel, nasceu por trás da crista da cordilheira oriental. Antes de se libertar dos montes, aquela face dourada espreitou por entre as barras dos troncos do pinhal. E durante um momento um pinheiro negro e aguçado furou a Lua e só se soltou quando ela se ergueu. 3 Muito antes de se avistarem os carros com a madeira, já Joseph Lhes ouvia o tilintar doce e desgarrado dos guizos, aqueles chocalhos estridentes que se encarrapitavam por cima dos tirantes para avisarem as outras parelhas que se desviassem da estrada. Joseph ia lavado de fresco; tinha a barba e o cabelo penteados e os olhos ardiam-lhe de impaciência, pois havia duas semanas que não punha a vista em vivalma. Finalmente apareceram por entre as árvores as parelhas do guia. Os cavalos vinham a passo curto e esforçado para arrastarem o enorme peso das pranchas de madeira pela estrada nova e alcantilada. O carreiro-guia acenou com o chapéu e o sol faiscou na fivela da fita. Joseph veio ao encontro da caravana e empoleirou-se no assento ao lado do carreiro do primeiro carro, um homem de meia-idade, de cabelo rente e branco e de tez queimada e encarquilhada como uma folha de tabaco. O condutor mudou as rédeas para a mão esquerda e estendeu-lhe a direita. “Sempre pensei que viessem mais cedo”, disse Joseph.

“Houve alguma novidade no caminho?” “Não, Sr. Wayne, nada que se possa chamar novidade. Juanito atrasou-se e o meu filho enfiou uma roda num buraco de lama. Ia a dormir, acho eu. Nem se pode chamar estrada a estas duas últimas milhas.” “Mas ainda serão um dia”, disse Joseph; “quando passarem por ela muitas caravanas como estas, vão dar uma boa estrada.” Apontou com um dedo. “Vamos descarregar a madeira lá, ao pé do carvalho grande.” Pelo rosto do carreiro passou um vislumbre de quase-presságio. “Vai construir debaixo duma árvore? Não é boa coisa. Pode quebrar-se de noite um desses ramos e desfazer-lhe o telhado e esmagá-lo enquanto vossemecê dorme.” “É uma árvore forte”, assegurou-lhe Joseph. “não gostava de fazer a casa longe duma árvore. A sua não tem nenhuma árvore ao pé?” “Tem, mas por isso é que o estou a avisar. Aquela maldita casinhota fica mesmo por baixo duma. Ainda não percebi como é que a fui construir num sítio daqueles. Muitas noites tenho ficado acordado na cama a ouvir o vento e à espera de que um ramo aí da grossura dum tonel me venha pelo telhado abaixo.” Parou as bestas e amarrou as rédeas ao travão. “Parem mesmo aqui”, berrou para os outros carreiros. Quando a madeira estava já no chão e os cavalos, atrelados ao contrário nos carros, comiam a cevada dos sacos amarrados ao pescoço, os carreiros desenrolaram os cobertores nas camas das carroças. Joseph já tinha acendido a fogueira e começava a fazer a ceia. Tirava a frigideira das chamas e voltava o toucinho constantemente. Romas, o velho carreiro, achegou-se e sentou-se ao fogo. “Vamos começar amanhã de manhã cedo”, disse ele. “Vamos fazer uma boa corrida com as carroças vazias.

” Joseph tirou a frigideira do fogo. “Porque não deixa os cavalos pastarem um bocado de erva?” “Em horas de trabalho? Não. A erva não dá coragem. É preciso coisa mais forte para poderem arrancar numa estrada como esta sua. Pouse a frigideira nas brasas e deixe-a ficar lá um bocadinho se quer ter o toucinho torrado.” Joseph franziu o sobrolho. “Vocês não sabem fritar toucinho. Fogo brando e bem mexido é o que ele precisa, para ficar torrado sem se desfazer em gordura.” “Ora, tudo é comida”, disse Romas. “Tudo comida.” Juanito e Willie vieram juntos. Juanito tinha pele escura de índio e olhos azuis. A cara de Willie estava contraída e pálida, com qualquer maleita desconhecida por debaixo daquela casca de poeira; e nos seus olhos havia medo e inquietação, pois ninguém acreditava nas dores que lhe agitavam o corpo de noite nem nos sonhos danados que o torturavam enquanto dormia. Joseph levantou a cabeça e sorriu para ambos. “Está a ver-me os olhos”, disse Juanito, com ousadia. “Não sou índio. Sou castelhano. Tenho os olhos azuis. Repare na minha pele: é escura, mas isso é por causa do sol, que os Castelhanos têm olhos azuis.” “Diz o mesmo a toda a gente”, interrompeu-o Romas. “Pela-se por encontrar um desconhecido para lhe dizer isto. Toda a gente de Nuestra Senhora sabe que a mãe era uma índia, e quanto ao pai só Deus sabe quem ele é.” Juanito fitou-o e os seus dedos apalparam a faca comprida que trazia à cinta, mas Romas soltou uma gargalhada e dirigiu-se a Joseph. “Juanito passa a vida a dizer a ele mesmo: “- Ainda vou matar alguém com esta faca.” E é assim que consegue manter-se orgulhoso.

Mas sabe que não o faz, e por isso nunca chega a ser orgulhoso em demasia. Aguça um pau para comeres o toucinho, Juanito”, disse-lhe desdenhosamente. “E para a outra vez que te ponhas a dizer que és castelhano repara primeiro se alguém te conhece.” Joseph pousou a frigideira e olhou interrogativamente para Romas. “Porque é que vossemecê o contradiz sempre?”, perguntou-lhe. “Que é que ganha com isso? Ele não faz mal a ninguém lá por ser castelhano.” “É uma aldrabice, Sr. Wayne. As mentiras são todas iguais, sejam elas quais forem. Se o Senhor engolir essa aldrabice, ele passa a contar-lhe logo outra. Dentro duma semana torna-se no primo da rainha de Espanha. Juanito neste momento não passa dum carreiro, e bom como raio. Não posso consentir que ele se transforme em príncipe.” Mas Joseph meneou a cabeça e levantou novamente a frigideira. Sem erguer os olhos, disse: “Acho que ele é castelhano. Tem os olhos azuis, e além disso tem mais qualquer coisa. Não sei bem porquê, mas acho que é castelhano.” Os olhos de Juanito endureceram de orgulho. “Obrigado, Senhor”, disse. “Tem razão, é isso mesmo.” Empertigou-se numa atitude dramática. “Entendemo-nos um ao outro, senhor. Somos caballeros.” Joseph repartiu o toucinho pelos pratos de folha e distribuiu o café. Sorria levemente.

“O meu pai considera-se quase um deus. E é, não há dúvida.” “O Senhor não sabe o que lhe está a meter na cabeça, protestou Romas. “Depois disto não sei como vou ter mão nesse caballero. Nem trabalhará. Vai passar a vida a admirar-se a ele mesmo.” Joseph soprou o café. “Se ele se tornar demasiado orgulhoso, eu preciso aqui dum castelhano”, disse. “Mas, com mil diabos, ele é um trabalhador de primeira.” “Bem sei”, disse Joseph calmamente. “Dum modo geral, os cavalheiros são bons trabalhadores. Não precisam de ser obrigados para fazerem bom trabalho.” Juanito levantou-se, apressado, e sumiu-se na escuridão, que cada vez se ia adensando mais, mas Willie explicou em nome dele: “Foi um cavalo que embaraçou as patas nas rédeas.” A oeste as cordilheiras estavam ainda orladas pela prata do crepúsculo, mas o vale de Our Lady cobria-se até quase aos píncaros dos montes dum mar de trevas. As estrelas, incrustadas no manto cinzento de aço do céu, pareciam lutar, a tremeluzir, contra a noite. Os quatro homens estavam sentados em volta das achas da fogueira, com as caras endurecidas cobertas de sombras. Joseph cofiava a barba e ficou-se de olhar perdido, absorto. Romas passou os braços à volta dos joelhos. O cigarro piscava-lhe, muito vivo, mas o brilho dele aparecia imediatamente atrás da cinza do morrão. Juanito tinha a cabeça muito direita, de pescoço duro, mas o olhar, por entre as pestanas semicerradas, não largava Joseph. O rosto esmaecido de Willie era como se estivesse suspenso nu ar. desligado do tronco: a boca se contraía de tempos em tempos num sorriso nervoso. Tinha um nariz ressequido e ossudo e a boca apertava-se numa curva semelhante à do bico dum papagaio. Quando a fogueira se apagou e apenas se podiam ver os rostos dos homens, Willie estendeu a mão esguia e Juanito apertou-lhe fortemente os dedos, porque bem sabia como Willie se apavorava com a escuridão. Joseph atirou um galho para o lume, que espertou.

“Romas”, disse. “a erva aqui é boa e a terra é rica e livre. Só está à espera de que a mexam com o arado. Porque é que a abandonaram, Romas? Porque é que ninguém lhe pegou antes de mim?” Romas cuspiu a ponta do cigarro para a fogueira. “Não sei. As pessoas vêm a pouco e pouco para estes terrenos. Ficam afastados das estradas grandes. Acho que já alguém deve ter estado por cá, mas somente até os anos de seca. Já deixaram estes sítios há muito.” “Anos de seca? Quando foi isso?” “Oh! Aí entre 1880 e 1890. Quando toda a terra secou, os poços estancaram e os animais morreram.” Gargalhou baixo. “Digo-lhe que o calor não faltou então. Metade da gente que aqui havia pôs-se a andar para longe. Os que puderam levaram o gado para o vale de Sán Joaquín, onde havia pasto comfartura à beira do rio. As vacas ficavam-se no caminho. Nessa época não passava de um menino, mas lembro de vê-las mortas, de barrigas inchadas. Nós as derrubávamos a tiro; caíam como balões picados, e só o fedor delas chegava para jogar por terra um homem.” “Mas as chuvas voltaram”, disse Joseph imediatamente. “A terra agora está cheia de água.” “Ah, bom, a chuva voltou daí a dez anos. Chuva a cântaros. As ervas começaram a crescer outra vez e as árvores encheram-se de folhas. Andava tudo doido de alegria, ainda hoje me lembro.,A gente de Nuestra Senhora fez uma fiesta debaixo de chuva, só com uma varandinha para os tocadores de guitarra, para as cordas dos instrumentos não se molharem.

Tudo bêbado a dançar no meio da lama. Embebedaram-se à chuva. E não eram só os mexicanos. O abade Angelo apareceu e pôs cobro naquilo.” “Por quê?”, perguntou Joseph. “Bem, o Senhor não sabe o que o povo fazia já no meio da lama. O abade estava banzado. Dizia que o Diabo andava por ali à solta. Afastou o Diabo com rezas e obrigou todos a lavarem-se. Deu penitências a toda a gente. O abade zangou-se a valer. Ficou lá até parar de chover.” “Estava tudo bêbado, não foi o que disse?” “Tudo bêbado durante uma semana, e fizeram maldades… puseram-se em pelota.” Juanito interrompeu-o: “Sentiam-se felizes. Os poços tinham estado secos, senhor. Os montes, brancos como cinza. A chuva veio alegrá-los. Não conseguiam com certeza aguentar tanta felicidade, e por isso fizeram maldades. A gente faz sempre maldades quando é muito feliz.” “Oxalá que isso não torne a acontecer”, disse Joseph. “Bem, o padre Angelo disse que tudo fora castigo. mas os índios dizem que os velhos se lembram de que já se tinha dado aquilo duas vezes antes.” Joseph levantou-se nervosamente. “Não quero pensar nisso. Tenho a certeza de que nunca mais vai se repetir uma coisa assim.

Vejam como a erva já está crescida.” Romas espreguiçava-se. “Talvez não. Mas não se fie muito. São horas de ir à deita. Amanhã temos de nos pôr ao trabalho ao romper do Sol.” A noite estava já repassada do frio da madrugada quando Joseph acordou. Parecera-lhe ter ouvido um grito estridente enquanto dormia. “Deve ter sido uma coruja”, pensou ele. “às vezes os sons aumentam e alteram-se com o sono.” Mas ficou de atalaia, muito tempo. e ouviu chegar até a barraca o soluço de alguém. Enfiou as calças e as botas e espreitou lá para fora, por entre os panos da barraca. Dum dos carros rompia um choro abafado. Juanito estava debruçado sobre a carroça em que Willie dormia. “Que é isso?”, perguntou Joseph. à luz indecisa reparou que Juanito pegava no braço de Willie. “Está a sonhar”, cochichou Juanito. “Há alturas em que não consegue acordar sem eu lhe dar uma ajuda. Outras vezes, quando acorda, julga que o que vê é tudo sonho e que o que esteve a sonhar é que é verdadeiro. Vá, Willie”, continuou ele. “Vês, já estás acordado. Sonha coisas do Diabo, senhor, e então tenho de o sacudir. Vê, está com medo.” Lá do seu carro, Romas gritou: “Willie come de mais.

O que ele tem é pesadelos. Está sempre com pesadelos. Vá deitar-se, Sr. Wayne.” Mas Joseph aproximou-se mais e viu o terror estampado no rosto de Willie. “Não tenhas medo da noite.

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