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A vaca e o hipogrifo – Mario Quintana

Era um velho que estava na família há noventa e nove anos, há mais tempo que os velhos móveis, há mais tempo até que o velho relógio de pêndulo. Por isso estava ele farto dela, e não o contrário, como poderiam supor. A família o apresentava aos forasteiros, com insopitado orgulho: “Olhem! vocês estão vendo como ‘nós’ duramos?!” Caduco? Qual nada! Tinha lá as suas ideias. Tanto que, numa dessas grandes comemorações domésticas, o pobre velho envenenou o barril de chope. No entanto, como era obviamente impraticável — a não ser em novelas policiais — deitar veneno nas bebidas engarrafadas, apenas sobreviveram os inveterados bebedores de coca-cola. — Mas como é possível — lamentava-se agora tardiamente o pobre velho —, como é possível passar o resto da vida com esses? Com gente assim? Porque a coca-cola não é verdadeiramente uma bebida — concluiu ele —, a coca-cola é um estado de espírito… E, assim pensando, o sábio ancião se envenenou também. A verdade da ficção São Jorge, o cavalo, o dragão… eu sempre fui, já não digo um devoto, mas um fã dos três. São Jorge, eu soube, foi cassado. E verdade que andava metido em tudo o que era religião… Mas que culpa tinha ele de ser bonito e ecumênico? Porém, ao passo que São Jorge era dessantificado, ressuscitava-se o Diabo, retirando-o do domínio do folclore a que o relegara o povo. Mas e o dragão? O dragão não representava o mal, isto é, o Diabo? Alega-se que São Jorge nunca existiu. Ora, naquela imagem que, de tanto a vermos desde a infância, fazia parte da nossa sensibilidade, o dragão era também uma figura simbólica. Porém existe… Naquela bela imagem, pois, resta-nos agora o cavalo e o dragão. Luta desigual. Foi-se o cavaleiro andante do Bem. E como que nos ficou faltando um estímulo, um exemplo, uma esperança. O que nos faz lembrar aquele Outro cavaleiro andante, Dom Quixote — outro símbolo. Que nunca existiu, é claro. Mas como vive! Poder de síntese Um dia, Madame de Sevigné sentenciou: “O café passará, como Racine.” Ah, que poder de síntese, minha cara Madame! Como foi que a senhora conseguiu dizer duas barbaridades numa única frase? Poder de síntese, esse o tinha, de fato, Racine, quando, para darmos apenas um exemplo, conseguiu expressar a paixão, a crueldade, a complexidade do caráter de Nero num só verso de doze sílabas: “J’aimais jusqu’à ses pleurs, que je faisais couler!” (Eu amava até as suas lágrimas, que eu fazia correrem!) Sim, porque o verdadeiro sádico ama verdadeiramente a quem faz sofrer. Que o digam esses pretensos casais desunidos, que jamais conseguem separar-se. Só os sádicos? — pergunto eu. Recordemos aquelas palavras de Oscar Wilde, na Balada do cárcere: “A gente sempre mata aquilo que ama; os fortes com um punhal, os covardes com um sorriso.” Aliás, o Nero do alexandrino raciniano já tinha decretado a morte da sua amada, cujas lágrimas agora tanto o enterneciam. Haverá os santos do inferno? Nero deverá ter sido um deles… Porque na verdade é idêntico o nosso pasmo, quase incrédulo, tanto ante a vida de Nero como ante a vida de São Francisco de Assis. Porque os extremos sempre se tocaram.


Porque os Santos — no seu prodigioso arrebatamento — são uma espécie de celerados do Bem. História urbana Dona Glorinha lê o convite de enterro de João, cujo sobrenome não declaro aqui, para evitar essas divertidas e constrangedoras explicações e declarações de nome igual, mera coincidência etc. Dona Glorinha conhecera João “no seu tempo” de ambos e depois nunca mais o tinha visto — pois constitui um dos mistérios labirínticos das cidades grandes isso de conhecidos e namorados se perderem definitivamente de vista. Dona Glorinha, pensando isto mesmo com outras palavras, vai ao velório de João, encaminha-se direto a ele, ergue-lhe o lenço da face, exclama: “Mas como ele está bem conservado!” Apresentações etc. Das novelas que tenho lido, geralmente achei que deviam ter começado vinte páginas depois e terminar vinte páginas antes. O resto não passa de apresentações e despedidas. A vida não é de tais cerimônias: seus enredos começam no meio do baile. Kafka, por exemplo, logo à primeira frase da Metamorfose, dá um susto ao leitor. E, das minhas remotas leituras de colégio, me lembro, ainda agora, de Cecília e Peri sumindo no horizonte… Por isso na sua maioria os contos de Maupassant, e principalmente os do festejado O. Henry, em vez de terem um desenlace, o que eles tinham era uma laçadinha, cuidadosamente feita, como nesses presentes de aniversário. Noturno XVII Nem tudo está mudado: durante o sono o passado em cada esquina põe um daqueles antigos lampiões. E os autos, minha filha, esses ainda nem foram inventados… Só essa velha carruagem rodando, rodando sobre as pedras irregulares do calçamento. Essa velha carruagem que passa, noite alta, pelas ruas… E ao fundo do teu sono há uma lamparina acesa — das que outrora havia ao pé de alguma imagem. Ela arde sem saber como a parede é nua. Mas há um cigarro que se esfez em cinza à tua cabeceira — sem simbolismo algum — um toco de cigarro apenas… Homo insapiens Vocês se lembram de quando a gente se perdia no campo e soltava a rédea ao cavalo e ele voltava direitinho para casa? Pois até hoje, quando não me lembro de onde guardei uma coisa, desisto de quebrar a cabeça, afrouxo o espírito e eis que ele conduz meu passo e minha mão sonâmbula ao lugar exato. Quanto a saber qual dos dois, espírito e corpo, é o cavaleiro e o cavalo, é questão acadêmica. Só sei que isso não me acontece agora na vastidão do campo, mas dentro de uma casa, de uma sala, de um móvel… No meio da rua, não — Mas por que você não deita as suas ideias por escrito? — digo-lhe. Ele entrepara, não sabe se ofendido ou lisonjeado. Explico-lhe: — É que, por escrito, a gente pode ler em casa com todo o tempo… Lazer Um bom lazer, mesmo, é não assistir a esses cursos sobre lazer. Andanças e erranças O que os santos têm de mais sagrado são os pés. Por isso os antigos fiéis lhos beijavam. Pois os santos estáticos, esses que jamais andaram errando pelo mundo, os próprios anjos desconfiavamdeles… Hamlet e Yorick Uma das anedotas mais divertidas que ouvi foi num velório; tive até de sair da sala para poder desabafar. Não a conto a vocês agora porque perdeu a graça ou não tinha nenhuma. A causa deveria ser a solenidade proibitiva da ocasião. E não me falem no tal de riso nervoso — coisa que só se vê nos maus filmes.

Quanto às solenidades persuasivas, fins de ano, carnavais etc., sou atacado de cara de pau, uma seriedade de matar de inveja o Buster Keaton, se ele já não estivesse compenetradamente morto. O fato é que, se acaso eu fosse ator e me visse enredado, ao representar Hamlet, naqueles seus dramas tremendos, não me apresentaria de preto, como o obrigam os diretores de cena, mas sim comas vestes coloridas e os guizos do seu amado bufão Yorick. Ah! tudo isso porque tudo comporta o seu contrário; e a nossa alma, por mais que esteja envolvida nas coisas deste mundo nunca deixa de estar do outro lado das coisas… Haikai Em meio da ossaria Uma caveira piscava-me… Havia um vaga-lume dentro dela. Branca Ela era quase incolor: branca, branca, de um branco que não se usa mais… Mas tinha a alma furta-cor! História quase mágica O Idiota da Aldeia gostava de coisas brilhantes. Mas nos respondia: éramos apenas gentes… Mas uma noite o surpreendi falando longamente a um trinco de porta redondo, luzente de luar. Só vos digo, ao que me parece, que o brilho do metal ora abrandava, ora fulgia mais como se por instantes ouvisse e depois respondesse. Só vos digo que, nestes ocultos assuntos, nada se pode dizer… Intenções Os que andam com segundas intenções não conseguem enganar ninguém. Está na cara… O perigo mesmo — porque é invisível — está nos que têm terceiras intenções.

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