| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A velocidade da luz – Javier Cercas

Agora levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, clandestina e invisível embora mais verdadeira do que se fosse real, mas eu era ainda eu quando conheci Rodney Falk. Foi há muito tempo e foi em Urbana, uma cidade do Middle West americano onde passei dois anos nos finais da década de oitenta. A verdade é que cada vez que me interrogo por que terei ido parar precisamente lá, respondo a mim próprio que fui parar precisamente lá como poderia ter ido parar a qualquer outro lugar. Contarei por que razão, em vez de ir parar a qualquer outro lugar, fui parar precisamente lá. Foi por acaso. Naquele tempo — faz agora dezessete anos — eu era muito jovem, tinha acabado os estudos e partilhava com um amigo um apartamento escuro e pestilento na calle Pujol, emBarcelona, muito perto da plaza Bonanova. O meu amigo chamava-se Marcos Luna, era de Gerona como eu e, na realidade, era mais e menos que um amigo. Tínhamos crescido juntos, tínhamos brincado juntos, tínhamos frequentado a escola juntos, tínhamos os mesmos amigos. Desde sempre, Marcos queria ser pintor; eu não, eu queria ser escritor. Mas tínhamos tirado duas licenciaturas inúteis, não tínhamos trabalho e éramos pobres como rafeiros, de modo que nem Marcos pintava nemeu escrevia, ou só o fazíamos nos poucos tempos livres que nos deixava a tarefa quase exclusiva de sobreviver. Conseguíamos a muito custo. Ele leccionava numa escola tão nojenta como o apartamento onde vivíamos, e eu era tarefeiro numa editora de negreiros (preparando originais, revendo traduções, corrigindo provas), mas como os nossos salários de miséria nem sequer chegavam para pagar o aluguer do apartamento e garantir o nosso sustento, aceitávamos aqui e ali todos os trabalhos suplementares a que conseguíamos deitar mão, por mais estranhos que fossem, desde propor nomes a uma agência de publicidade para que esta escolhesse de entre eles o de uma nova companhia aérea, até ordenar os arquivos do Hospital de La Vale d’Hebron, passando por escrever letras de canções, que nunca nos foram pagas, para um músico que agonizava seminspiração. Além disso, quando não estávamos trabalhando nem escrevendo ou pintando nos dedicávamos a percorrer a cidade, a fumar marijuana, a beber cerveja e a falar das obras-primas com que um dia nos vingaríamos de um mundo que, apesar de ainda não termos exposto um único quadro ou publicado um único conto, considerávamos estar a ignorar-nos de uma forma flagrante. Não conhecíamos pintores ou escritores, não frequentávamos cocktails ou apresentações de livros, mas é provável que gostássemos de nos imaginar dois boêmios numa época em que já não existiamboêmios ou dois temíveis kamikazes dispostos a embater alegremente contra a realidade; a verdade é que não passávamos de dois provincianos arrogantes perdidos na capital, sozinhos, furiosos e decididos a por nada deste mundo regressar a Gerona, porque isso equivalia a renunciar aos sonhos de triunfo que tínhamos acalentado desde sempre. Éramos brutalmente ambiciosos. Aspirávamos a fracassar. Mas não a fracassar sem mais nem menos e de qualquer maneira: aspirávamos a fracassar de uma forma total, radical e absoluta. Era a nossa forma de aspirarmos ao sucesso. Numa noite na Primavera de 1987, aconteceu uma coisa que não tardaria a alterar tudo. Marcos e eu acabávamos de sair de casa quando, precisamente no cruzamento da Muntaner com a Arimon, demos de caras com Marcelo Cuartero. Cuartero era um catedrático de Literatura na Universidade Autónoma a cujas aulas magníficas eu assistira com fervor, apesar de ter sido um aluno medíocre. Era um cinquentão corpulento, baixo, ruivo e descuidado na forma de vestir, com uma cara enorme de tartaruga triste dominada por umas sobrancelhas de mau da fita e uns olhos sarcásticos umpouco assustadores; era também um dos principais especialistas europeus no romance do século XIX, tinha encabeçado a agitação universitária contra o franquismo nos anos sessenta e setenta e continuava a ser, segundo se dizia (embora fosse difícil deduzi-lo pela orientação das suas aulas e pela leitura dos seus livros, escrupulosamente isentos de qualquer conteúdo político), um comunista de alma e coração, resignado e irredento. Cuartero e eu tínhamos trocado apenas um ou outro comentário de corredor durante os meus anos de estudante mas naquela noite ele parou para falar comigo e com Marcos, contou-nos que vinha de uma tertúlia literária que se reunia todas as terças e sextas-feiras no Oxford, um bar próximo, e, como se a tertúlia não tivesse colmatado a sua vontade de conversar, perguntou-me o que estava lendo e começamos a falar de literatura; depois convidounos a beber uma cerveja no El Yate, um bar com grandes vidraças e madeiras polidas onde Marcos e eu não costumávamos entrar por nos parecer luxuoso de mais para o nosso exíguo orçamento. Apoiados no balcão, estivemos a falar de livros durante um bocado, após o qual Cuartero me perguntou de repente em que trabalhava; como Marcos estava presente decidi não mentir mas fiz todo o possível para dourar a verdade. Ele, no entanto, deve tê-la adivinhado, porque foi nessa altura que me falou de Urbana.


Cuartero disse que tinha lá um bom amigo, na Universidade de Illinois, e que esse amigo lhe dissera que, no ano seguinte, o Departamento de Espanhol oferecia várias bolsas de estudo de professores auxiliares a licenciados espanhóis. — Não faço ideia de como será a cidade — reconheceu Marcelo. — O pouco que sei é graças a Quanto Mais Quente Melhor. — Quanto Mais Quente Melhor! — perguntamos, Marco e eu, em uníssono. — O filme — respondeu Marcelo. — No início, Jack Lemmon e Tony Curtis têm que dar um concerto numa cidade gelada do Middle West, perto de Chicago, mas, devido a uma confusão com uns gângsteres, acabam por fugir a sete pés para a Florida, disfarçados de coristas, onde fazem uma pândega sensacional. Pois então, Urbana é a cidade gelada a que nunca chegam, pelo que se deduz que Urbana não deve ser uma maravilha ou que deve ser, pelo menos, o contrário da Florida, supondo que a Florida é uma maravilha. Enfim, isso é tudo o que sei. Mas a universidade é boa e julgo que o trabalho também. Pagam um salário pelas aulas de línguas, o suficiente para viver, e exigem a inscrição no programa de doutoramento. Nada de muito exigente. Além disso, tu querias ser escritor, não? Senti as faces incendiarem-se. Sem me atrever a olhar para Marcos, balbuciei alguma coisa mas Cuartero interrompeu-me: — Pois um escritor tem de viajar. Vais ver coisas diferentes, conhecer outras pessoas, ler outros livros. Isso é proveitoso. Enfim — concluiu —, se te interessar, telefona-me. Cuartero foi-se embora pouco depois mas Marcos e eu ficamos no El Yate, pedimos outra cerveja e estivemos um bocado a beber e a fumar em silêncio; ambos sabíamos o que o outro estava a pensar, e ambos sabíamos que o outro o sabia. Pensávamos que Cuartero tinha acabado de formular em meia dúzia de palavras o que há muito tempo pensávamos sem o formular: pensávamos que, alémde ler todos os livros, um escritor devia viajar, ver mundo, viver com intensidade e acumular experiências, e que os Estados Unidos — qualquer lugar dos Estados Unidos — eram o local ideal para fazer todas essas coisas e escrever; pensávamos que um emprego estável e remunerado que deixasse tempo livre para escrever era muito mais do que naquele momento eu podia sonhar conseguir em Barcelona; demasiado jovens ou demasiado iludidos para saber o que significa uma vida a esvair-se pelo bueiro, pensávamos que a nossa vida em Barcelona estava a esvair-se pelo bueiro. — Bom… — acabou Marcos por dizer e, sabendo que a decisão já estava tomada, acabou o copo de um gole — . outra cerveja? Foi assim que, seis meses depois desse encontro fortuito comMarcelo Cuartero, após uma viagem interminável de avião com ‘escalas em Londres e Nova Iorque, fui parar a Urbana como podia ter ido parar a qualquer outro lugar. Lembro-me de que a primeira coisa que pensei ao chegar, enquanto a camioneta da Greyhound que me trazia de Chicago entrava numa sucessão de avenidas desertas ladeadas por casinhas com alpendre, prédios de tijolo avermelhado e canteiros meticulosos que resplandeciam sob o céu candente de Agosto, foi na sorte incrível que tiveram Tony Curtis e Jack Lemmon em Quanto Mais Quente Melhor, e de que escreveria a Marcos para lhe dizer que tinha feito dez mil quilômetros em vão porque Urbana —apenas um ilhéu de cento e cinquenta mil almas flutuando no meio de um mar de campos de milho que se estendia sem interrupção até os subúrbios de Chicago — não era muito maior nem parecia menos provinciana que Gerona. Evidentemente, não lhe disse nada disso. Para não o desiludir com a minha desilusão, ou para tentar modificar um pouco a verdade, o que lhe disse foi que Marcelo Cuartero estava enganado e que Urbana era como a Florida, ou melhor, como uma mistura em miniatura de Florida e Nova Iorque, uma cidade efervescente, solarenga e cosmopolita onde os romances praticamente se escreveriam por si sós. Mas, como por muito que nos empenhemos as mentiras não alteram a verdade, não demorei muito tempo a verificar que a minha primeira e compungida impressão da cidade estava correta e, por isso, durante os primeiros dias que passei em Urbana deixei-me dominar pela tristeza, incapaz como estava de me emancipar da nostalgia do que deixara para trás e da certeza de que, em vez de uma cidade, aquele tormento sem fim perdido no meio de nenhures era um cemitério onde rapidamente acabaria transformado num fantasma ou num zombie. Foi o amigo de Marcelo Cuartero quem me ajudou a superar essa depressão inicial.

Chamava-se John Borgheson e acabou por ser um inglês americanizado ou um americano que não tinha sabido deixar de ser inglês (ou o contrário); quero dizer que, embora a sua cultura e a sua educação fossem americanas e a maior parte da sua vida e da sua carreira acadêmica tenhamdecorrido nos Estados Unidos, ainda conservava quase intato o seu sotaque de Birmingham e não se deixara contagiar pela maneira de ser direta dos americanos, de forma que, à sua maneira, continuava a ser um britânico da velha escola, ou gostava de pensar que o era: um homem tímido, educado e reticente, que lutava em vão para esconder o humorista de vocação que trazia dentro de si. Borgheson, que rondava os quarenta anos e falava aquele castelhano um tanto arcaico e pedregoso que, com frequência, falam aqueles que o leram muito e falaram pouco, era a única pessoa que eu conhecia na cidade e, à minha chegada, teve a deferência inusitada de me acolher em sua casa; mais tarde, ajudou-me a alugar um apartamento próximo do campus e a instalar-me, mostrou-me a universidade e conduziu-me pelo labirinto da sua burocracia. Durante esses primeiros dias não pude evitar a ideia de que a amabilidade excessiva de Borgheson se devia, por causa de algum malentendido, ao fato de ele me considerar um aluno dileto de Marcelo Cuartero, o que não deixava de me parecer irônico, sobretudo porque nessa altura eu já começava a ter suspeitas fundadas de que se Cuartero não me tinha enviado para um lugar mais remoto e inóspito que Urbana era por não conhecer um lugar mais inóspito e mais remoto que Urbana. Borgheson também se apressou a apresentar-me a alguns dos meus futuros colegas, seus alunos e professores auxiliares como eu no Departamento de Espanhol e, numa noite de sábado, poucos dias depois da minha chegada, organizou um jantar com três deles no Courier Café, um pequeno restaurante situado em Race, muito perto de Lincoln Square. Lembro-me muito bem do jantar, entre outras razões porque receio que algumas das coisas que aconteceram possam dar a imagem exata do que devem ter sido as minhas primeiras semanas emUrbana. Os três colegas que compareceram, dois homens e uma mulher, tinham mais ou menos a minha idade. Os dois homens dirigiam uma revista semestral chamada Línea Plural: um deles era umvenezuelano chamado Felipe Vieri, um tipo muito culto, irônico, um pouco altivo, que se vestia com um esmero de alguma forma amaneirado; o outro chamava-se Frank Solaún e era americano de origem cubana, robusto e entusiasta, com um sorriso radioso e o cabelo alisado com gel. Quanto à mulher, seu nome era Laura Burns e, conforme soube mais tarde pelo próprio Borgheson, pertencia a uma família opulenta e aristocrática de San Juan de Puerto Rico (o pai era proprietário do jornal mais importante do país), mas o que nela mais me chamou a atenção naquela noite, além do seu físico inequívoco de gringa — alta, sólida, loura, com a pele muito branca —, foi a sua propensão intimidadora para o sarcasmo, refreada a muito custo devido ao respeito que a presença de Borgheson lhe inspirava. Este, aliás, impôs a sua hierarquia com suavidade ao longo do jantar, encaminhando a conversa, sem esforço, para temas que pudessem ser do meu interesse ou dos quais, conforme ele imaginava ou desejava, eu não pudesse sentir-me excluído. De modo que falamos da minha viagem, de Urbana, da universidade, do departamento; falamos também de escritores e cineastas espanhóis e depressa percebi de que Borgheson e seus discípulos estavam mais a par do que eu do que acontecia na Espanha, porque eu não lera os livros nem vira os filmes de muitos dos escritores e cineastas que eles mencionavam. Duvido que esse fato me humilhasse porque naquela época o meu ressentimento de escritor inédito, menosprezado e praticamente ágrafo me autorizava a considerar pura porcaria tudo o que se fazia na Espanha — e pura arte tudo o que não se fazia lá —, mas não excluo que esse fato explique em parte o que aconteceu na hora do café. Nesse momento, Vieri e Solaún estavam já há algum tempo falando com devoção incondicional do cinema de Pedro Almodóvar; sempre solícito, Borgheson aproveitou uma pausa daquele dueto entusiasta para me perguntar que opinião me mereciam os filmes do realizador manchego *(1). Como todo mundo, acho que nessa época também gostava dos filmes de Almodóvar, mas naquele momento devo ter sentido uma necessidade inadiável de me tornar interessante ou de deixar bem clara a minha vocação cosmopolita marcando distâncias relativamente às histórias de freiras narcodependentes, travestis castiços e assassinas de toureiros, de modo que respondi: — Francamente, acho uma viadagem. *(1) Manchego: natural de La Mancha. (N. da T.) Uma gargalhada selvagem de Laura Burns aclamou a minha sentença e a satisfação que me provocou esse acolhimento escandaloso impediu-me de notar o silêncio glacial dos demais comensais, que Borgheson se apressou a quebrar com um comentário de urgência. O jantar terminou pouco depois sem outros incidentes e, ao sairmos do Courier Café, Vieri e Solaún propuseram que fôssemos beber um copo. Borgheson e Laura Burns declinaram da proposta; eu aceitei. Os meus novos amigos me levaram a uma discoteca chamada Chester Street, localizada apropriadamente em Chester Street, junto da estação de trem. Era um lugar enorme e oblongo, de paredes nuas, com um balcão à direita e, diante dele, uma pista de dança crivada de luzes estroboscópicas que, àquela hora, já estava repleta de gente. Assim que entramos, Solaún não hesitou em perder-se entre a multidão convulsa que inundava a pista; pela nossa parte, Vieri e eu abrimos caminho até o balcão para pedir cubas-libres e, enquanto esperávamos que nos servissem, comecei a fazer a Vieri um comentário trocista e perplexo pelo fato de na discoteca só se verem homens mas, antes de conseguir terminá-lo, um rapaz abordou-me e disse-me alguma coisa que não percebi ou achei difícil perceber. Inclinando-me para ele, pedi lhe que o repetisse; repetiu-o: perguntou-me se me apetecia dançar com ele. Estive quase a pedir-lhe que o repetisse de novo mas, em vez de o fazer, olhei para ele: era bastante jovem, bastante louro, parecia muito alegre, sorria; agradeci-lhe e disse-lhe que não queria dançar. O rapaz encolheu os ombros e, sem mais comentários, foi-se embora.

Ia contar a Vieri o que acabara de acontecer quando fui abordado por um tipo alto e forte, com bigode e botas à campino, que me fez a mesma pergunta, ou semelhante, que o rapaz me fizera; incrédulo, dei-lhe a mesma resposta, ou semelhante, e, sem voltar sequer a olhar para mim, o tipo riu-se silenciosamente e também se foi embora. Precisamente nesse momento, Vieri estendeu-me a minha cuba-libre, mas não lhe disse nada e já nem me foi preciso ler a ronha ressabiada e um pouco vingativa que havia nos seus olhos para me sentir como Jack Lemmon e Tony Curtis chegando à Florida vestidos de constas e para entender o silêncio estupefato que se seguiu ao meu veredicto sobre os filmes de Almodóvar. Muito tempo depois, Vieri contou-me que, quando na manhã seguinte àquela noite triunfal, Frank Solaún disse a Laura Burns que me tinham levado a uma festa gay em Chester Street, o grito de Laura soou como um anátema pelos corredores do departamento: “É que é tão espanhol que deve ter o cérebro em forma de bilha com gargalo e tudo!” Gostaria de acreditar que durante os meus primeiros dias em Urbana este tipo de argoladas não terá sido tão frequente como receio, mas tal não posso garantir; o que posso garantir é que me habituei à minha nova vida com muito mais rapidez do que vaticinavam. E a verdade é que era uma vida cômoda. A minha casa — um apartamento de duas assoalhadas com cozinha e casa de banho — ficava a cinco minutos a pé do Foreign Languages Building, o edifício que albergava o Departamento de Espanhol, no número 703 de West Oregon, entre Busey e Coler, numa zona de ruelas, estreitas e arborizadas. como Marcelo Cuartero me prometera, ganhava o suficiente para viver sem apertos e as minhas obrigações como professor de Espanhol e estudante de doutoramento deixavam-me quase todas as tardes e todas as noites livres, além de uns fins-de-semana longuíssimos que incluíam as sextas-feiras, de modo que dispunha de muito tempo para ler e escrever, e de uma biblioteca imensa onde me abastecer de livros. Rapidamente, a curiosidade pelo que tinha à frente substituiu a nostalgia pelo que deixara para trás. Escrevia assiduamente para a família e amigos — sobretudo para Marcos —, mas já não me sentia só; de fato, depressa descobri que, querendo, nada era mais fácil do que fazer amigos em Urbana. como todas as cidades universitárias, aquele era um lugar asséptico e falaz, um microclima humano órfão de pobres e de velhos onde todos os anos aterrava e de onde todos os anos descolava emdireção ao mundo real uma população composta por jovens de passagem procedentes de todo o planeta; somado à evidência um tanto angustiante de que nem na cidade nem em várias centenas de quilômetros em redor havia outra distração além do trabalho, esta circunstância facilitava sobremaneira a vida social, e é um fato que, em contraste com a quietude estudiosa do resto da semana, de sexta à tarde a domingo à noite, Urbana transformava-se num fervedouro buliçoso de festas privadas que ninguém parecia querer perder e para as quais toda a gente parecia estar convidada. Não conheci Rodney Falk em nenhuma dessas festas particulares e concorridas mas no gabinete que partilhamos durante um semestre no quarto andar do Foreign Languages Building. Nunca chegarei a saber se me destinaram aquele gabinete por acaso ou por ninguém o querer partilhar comRodney (inclino-me mais para a segunda que para a primeira hipótese), mas o que sei é que, se não mo tivessem destinado, o mais provável é que Rodney e eu nunca tivéssemos feito amizade e tudo tivesse sido diferente. A minha vida não seria como é e a lembrança de Rodney ter-se-ia apagado da minha memória como, com a passagem dos anos, se apagou a de quase toda a gente que conheci emUrbana. Ou talvez nem tanto, talvez esteja a exagerar. Ao fim e ao cabo é verdade que, sem que minimamente se propusesse a isso, Rodney não passava despercebido no meio da uniformidade rigorosa que imperava no departamento e que toda a gente acatava sem refilar, como se se tratasse de uma norma tácita mas palpável de profilaxia intelectual paradoxalmente destinada a instigar a competição entre os membros daquela comunidade orgulhosa da sua estrita observância meritocrática. Rodney transgredia essa norma porque era bastante mais velho do que os restantes professores auxiliares de Espanhol, quase nenhum de nós ultrapassava os trinta anos, mas tambémporque nunca assistia às reuniões, cocktails e encontros convocados pelo departamento, coisa que toda a gente atribuía, conforme comprovei imediatamente, ao seu temperamento reservado e excêntrico, para não dizer arredio, contribuindo para o envolver numa lenda difamatória que incluía o privilégio de ter conseguido o emprego de professor de Espanhol graças à sua condição de veterano da Guerra do Vietnã. Lembro-me de que numa recepção oferecida pelo departamento aos novos professores auxiliares, na véspera do início das aulas, alguém comentou a sua ausência crônica, o que provocou de imediato, entre o conciliábulo de colegas que me rodeava, uma catarata de conjecturas selvagens acerca daquilo que Rodney devia ensinar aos seus alunos, porque nunca o tinham ouvido falar espanhol. — Porra! — concluiu nessa altura Laura Burns, que acabava de se juntar ao grupo. — A mim o que me preocupa não é que Rodney não saiba nada de espanhol, mas que qualquer dia destes apareça por aqui com uma Kalashnikov e nos limpe o sebo a todos. Ainda não tinha esquecido este comentário, que foi recebido com uma gargalhada geral, quando no dia seguinte conheci finalmente Rodney. Naquela manhã, a primeira do ano lectivo, cheguei muito cedo ao departamento e, ao abrir a porta do gabinete, a primeira coisa que vi foi Rodney sentado na sua mesa, lendo; a segunda coisa foi que levantava os olhos do livro, me olhava e, sem qualquer palavra de permeio, se levantava. Tive um instante irracional de pânico provocado pela lembrança do desabafo de Laura Burns (que, de repente, deixou de me parecer um desabafo e também de me parecer divertido) e pelo tamanho daquele homenzarrão com fama de desequilibrado que avançava na minha direção; mas não desatei a correr. Com apreensão, apertei-lhe a mão que me estendia e tentei sorrir. — Meu nome é Rodney Falk — disse, olhando-me nos olhos com uma intensidade desconcertante e fazendo um ruído que soou como um bater de calcanhares marcial — E tu? Disse meu nome. Rodney perguntou se era espanhol. Disse-lhe que sim.

— Nunca estive na Espanha — declarou. — Mas um dia gostaria de conhecer. Leste Hemingway? Eu mal tinha lido Hemingway, ou lera sem muita atenção, e a minha opinião sobre o escritor americano cabia numa fotografia instantânea de um velho acabado, fanfarrão e alcoólatra, amigo de bailarinas e toureiros, que divulgava nas suas obras fora de moda uma imagem de postal turístico amassado com os estereótipos mais rançosos e insuportáveis da Espanha. — Sim — respondi, aliviado por aquele vislumbre de conversa literária e, como devo ter visto outra oportunidade magnífica para deixar bem clara entre meus colegas de faculdade a minha vocação cosmopolita incorruptível, que julgava já ter apregoado com o meu comentário homofóbico sobre o cinema de Almodóvar, acrescentei: — Francamente, acho-o uma merda. A reação do meu flamante companheiro de gabinete foi mais expedita que a de Vieri e Solaún há algumas noites: sem um gesto de desaprovação ou aquiescência, como se, de repente, eu tivesse desaparecido da sua vista, Rodney deu meia-volta e deixou-me a falar sozinho; depois tornou a sentar-se, a agarrar no livro e a mergulhar nele. Naquela manhã nada mais se passou e, se descontarmos a surpresa ou o pânico inicial e Ernest Hemingway, o ritual dos dias que se seguiram acabou por ser mais ou menos idêntico. Apesar de eu chegar sempre ao gabinete assim que o Foreign Languages Building abria, Rodney adiantava-se sempre e, após um cumprimento de compromisso que no caso do meu colega era mais um mugido, a manhã passava-se entre o ir e vir das aulas e os momentos que passávamos sentados, cada qual à sua secretária, a ler ou a preparar as aulas (Rodney sobretudo a ler e eu sobretudo a preparar as aulas), mas sempre fechados a sete chaves num mutismo que só timidamente tentei quebrar nalgumas ocasiões, até ter compreendido que Rodney não tinha o mais pequeno interesse em falar comigo. Foi nesses dias que, espiando-o às escondidas da minha secretária ou pelos corredores do departamento, comecei a familiarizar-me com a sua presença. A primeira vista, Rodney tinha o aspecto cândido, baldas e anacrônico daqueles hippies dos anos sessenta que não tinham querido ou conseguido adaptar-se ao alegre cinismo dos anos oitenta, como se por gosto ou à força tivessem sido encurralados numa valeta para não perturbarem o movimento triunfante da História. No entanto, a sua indumentária não destoava do igualitarismo informal que reinava na universidade: calçava sempre sapatilhas, jeans desbotadas e grandes camisas aos quadrados, embora no Inverno — no Inverno polar de Urbana — substituísse as sapatilhas por umas botas militares e se cobrisse com grossas camisolas de lã, um blusão de cabedal e um gorro de pele. Era alto, corpulento, ligeiramente desajeitado; andava com os olhos sempre fixos no chão e aos tropeções, inclinado para a direita, com um ombro mais subido que o outro, coisa que dotava o seu andar de uma instabilidade bamboleante de paquiderme prestes a desmoronar-se. Tinha o cabelo comprido, espesso e arruivado, e uma cara grande e larga, com a pele ligeiramente avermelhada e feições que pareciam esculpidas no crânio: queixo duro, maçãs do rosto proeminentes, nariz escarpado e boca trocista e depreciativa que, ao abrir-se, revelava uma dupla fileira de dentes desiguais, quase ocres, bastante deteriorados. Sofria de fotofobia num dos olhos, o que o obrigava a protegê-lo do contato com o sol tapando-o comuma venda de pano preto presa à cabeça por uma fita, um emplastro que lhe infundia um ar de antigo combatente não desmentido pelo seu andar trôpego nem pelo seu aspecto descuidado. Sem dúvida por causa dessa lesão, à vista desarmada os seus olhos não pareciam ser da mesma cor, embora, prestando atenção, se verificasse que simplesmente um deles era de um castanho mais claro, quase mel, e o outro de um castanho mais escuro, quase preto. Além do mais, também verifiquei imediatamente que Rodney não tinha amigos no departamento e que, excepto com Dan Gleylock —um velho professor de Linguística em cujo gabinete o vi algumas vezes a conversar de café na mão —, mantinha com os restantes membros da faculdade uma relação que nem sequer atingia aquele grau de cordialidade superficial que a educação impõe. Nada faria prever que o meu caso ia ser diferente. De fato, é quase certo que a minha relação com Rodney nunca teria superado o estádio de autismo a que mutuamente nos confinamos durante os primeiros dias do curso sem a colaboração involuntária de John Borgheson. Na primeira sexta-feira após o início das aulas, Borgheson convidou-me para almoçar com ele e com um professor italiano, jovem e com um ar lânguido de dândi, chamado Giuseppe Rota, que era, durante aquele semestre, professor convidado na faculdade. O almoço teve duas partes. Durante a primeira, Rota falou semcessar, enquanto Borgheson permaneceu num silêncio meditativo ou embaraçado; durante a segunda parte trocaram de papéis — Borgheson falou e Rota permaneceu em silêncio como se o que ali se ventilava não lhe dissesse respeito —, e só nessa altura compreendi o objectivo do convite. Borgheson explicou que Rota tinha sido contratado pela universidade para leccionar um curso de iniciação à Literatura Catalã; até o momento, no entanto, só se tinham matriculado três pessoas, o que representava um grave contratempo uma vez que as normas da universidade obrigavam o departamento a cancelar os cursos que não tivessem um mínimo de quatro inscrições. Chegado a este ponto, o tom do discurso de Borgheson deixou de ser expositivo para se tornar veemente, como se tentasse mascarar com a ênfase que nele punha a vergonha que sentia ao pronunciá-lo. Porque, o que Borgheson me rogou com a anuência silenciosa de Rota — e depois de se precaver contra qualquer possível objecção, tratando de afagar de passagem a minha vaidade com o argumento de que, dado o meu conhecimento da matéria e o nível elementar obrigatório do curso, este não podia ser muito proveitoso para mim — foi que me matriculasse nele, subentendendo-se que consideraria um favor pessoal este meu pequeno sacrifício e também que o curso não implicaria para mim qualquer esforço além do de assistir às aulas. Evidentemente, acedi de imediato ao pedido de Borgheson, encantado por retribuir parte dos favores que ele me fizera. Mas o que de modo nenhum podia prever — nemBorgheson podia antecipar-me — era o que iria significar aquela decisão trivial.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |