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A Verdade Sobre O Caso Harry Quebert – Joel Dicker

— O primeiro capítulo, Marcus, é essencial. Se os leitores não gostarem dele, não vão ler o resto do livro. Como pretende começar o seu? — Não sei, Harry. Acha que um dia vou conseguir fazer isso? — Isso o quê? — Escrever um livro. — Tenho certeza que sim. No início de 2008, ou seja, um ano e meio após eu me tornar, graças a meu primeiro romance, a nova estrela da literatura americana, fui acometido pela terrível crise da página em branco, síndrome, ao que parece, não rara entre escritores que tiveram um sucesso meteórico e inesperado. A doença não viera de supetão: instalara-se em mim lentamente. Era como se meu cérebro tivesse congelado aos poucos. Quando os primeiros sintomas apareceram, não liguei para eles: pensei que a inspiração voltaria no dia seguinte, ou no outro, ou talvez três dias depois. No entanto, dias, semanas e meses haviam se passado, e nem sinal dela. Minha descida ao inferno podia ser decomposta em três fases. A primeira, indispensável a toda queda vertiginosa digna desse nome, havia sido uma ascensão fulgurante: meu primeiro romance tinha vendido dois milhões de exemplares, propelindo-me, aos vinte e oito anos, ao patamar de escritor de sucesso. Era outono de 2006 e, em poucas semanas, me tornei uma celebridade: eu era visto em tudo que é lugar, na televisão, nos jornais, nas capas das revistas. Meu rosto estava presente em imensos cartazes publicitários nas estações de metrô. Os críticos mais severos dos grandes jornais da Costa Leste eram unânimes: o jovem Marcus Goldman estava destinado a ser um grande escritor. Um livro, somente um, e agora eu via serem abertas as portas de uma nova vida. Me mudei da casa dos meus pais em Newark para um apartamento chique do Village, troquei meu Ford de terceira mão por um Range Rover novinho em folha com vidros fumê, passei a frequentar restaurantes caros e contratei os serviços de um agente literário, que administrava meu tempo e ia à minha casa nova assistir a jogos de beisebol numa tela gigante. Aluguei um escritório a dois passos do Central Park, no qual uma secretária ligeiramente apaixonada por mim, Denise, separava minha correspondência, preparava o café e arquivava documentos importantes. Durante os seis primeiros meses que sucederam o lançamento do livro, me contentei em aproveitar as delícias de minha nova existência. Pela manhã, ia ao escritório dar uma olhada nas matérias que haviam saído a meu respeito e ler as dezenas de cartas de fãs que chegavam diariamente, as quais eram, em seguida, organizadas por Denise em grandes arquivos. Então, satisfeito comigo mesmo e julgando ter trabalhado o suficiente, perambulava pelas ruas de Manhattan, causando um burburinho entre os transeuntes ao passar. Dedicava o restante do dia a usufruir dos novos direitos que ser uma celebridade me outorgava: o direito de comprar tudo que me desse na telha, o direito de acesso aos camarotes VIP do Madison Square Garden para acompanhar os jogos dos Rangers, o direito de caminhar pelos tapetes vermelhos ao lado de astros da música, de quem, quando eu era mais jovem, comprara todos os discos, o direito de sair com Lydia Gloor, atriz principal da série de televisão do momento e disputada por meio mundo. Eu era um escritor famoso; tinha a impressão de exercer a profissão mais bonita que existe. E, certo de que meu sucesso duraria para sempre, não me preocupei com as primeiras advertências do meu agente e do meu editor, que me intimavam a voltar ao trabalho e começar a escrever meu segundo romance. Foi ao longo dos seis meses seguintes que compreendi que o vento estava mudando: as cartas de admiradores começaram a rarear e eu era abordado na rua com menos frequência.


Os leitores que ainda me reconheciam logo passaram a perguntar: “Sobre o que é seu próximo livro, Sr. Goldman? E quando vai ser lançado?” Entendi que devia me concentrar e foi o que fiz: anotei algumas ideias emfolhas avulsas e esbocei sinopses no computador. Nada, porém, que prestasse. Tive então outras ideias e rascunhei mais algumas sinopses. Igualmente sem sucesso. Por fim, acabei comprando umlaptop novo, na esperança de que já viesse com boas ideias e excelentes sinopses. Mas foi em vão. Tentei então mudar de método: fiz Denise ficar até tarde da noite anotando o que eu ditava e julgava serem frases impactantes, palavras precisas e inícios excepcionais de um romance. Contudo, no dia seguinte, as palavras me pareciam insípidas, as frases banais e meus começos, derrotas. Eu estava entrando na segunda fase da minha doença. No outono de 2007, fazia um ano que meu primeiro livro fora lançado e eu ainda não havia escrito uma única linha do seguinte. Quando não tinha mais cartas para arquivar e deixei de ser reconhecido em locais públicos, quando os cartazes com fotos minhas desapareceram das grandes livrarias da Broadway, compreendi que a glória era efêmera. Era uma górgona faminta, e aqueles que não a alimentavam acabavam sendo rapidamente substituídos: os políticos do momento, a subcelebridade do último reality show que passou na televisão e a banda de rock que acabava de estourar haviamroubado para si a atenção antes direcionada a mim. Não haviam passado, entretanto, mais do que doze reles meses desde meu livro: um lapso de tempo ridiculamente curto, a meu ver, mas que, na escala humana, correspondia a uma eternidade. Durante esse mesmo ano, só nos Estados Unidos, ummilhão de crianças havia nascido, um milhão de pessoas, morrido, uns dez mil levaram um tiro, meio milhão se envolvera com drogas, um milhão se tornara milionário, dezessete milhões haviam trocado de celular, cinquenta mil haviam morrido num acidente de carro e, nas mesmas circunstâncias, dois milhões se feriram com maior ou menor gravidade. Quanto a mim, havia escrito um único livro. A Schmid & Hanson, poderosa editora nova-iorquina que me oferecera uma bela quantia para publicar meu primeiro romance e depositara grandes esperanças em mim, assediava meu agente, Douglas Claren, que, por sua vez, me pressionava. Ele dizia que o tempo estava se esgotando, que eu precisava apresentar um novo original de qualquer maneira, e eu me esforçava para tranquilizálo — querendo, na verdade, tranquilizar a mim mesmo —, assegurando-lhe que meu segundo romance estava indo de vento em popa e que ele não tinha motivo para se preocupar. Contudo, a despeito das horas que eu passava trancado no escritório, minhas páginas continuavam em branco: a inspiração fugira sem fazer alarde e eu não conseguia mais encontrá-la. E, à noite, na cama, incapaz de pegar no sono, eu pensava que em breve, e antes de completar trinta anos, o grande Marcus Goldman já não existiria mais. Esse pensamento me assustou de tal forma que decidi tirar umas férias para espairecer. Me dei de presente um mês num hotel de luxo em Miami, em teoria para recarregar as baterias, intimamente persuadido de que relaxar à sombra de palmeiras me permitiria recobrar o pleno uso de meu gênio criativo. Porém, era evidente que a Flórida não passava de uma tentativa de fuga e, dois mil anos antes de mim, o filósofo Sêneca já deparara com o mesmo impasse — não importa para onde você fuja, seus problemas esgueiram-se para dentro de suas malas e o seguemaonde quer que você vá. Era como se, mal eu tivesse chegado a Miami, um gentil carregador cubano tivesse corrido atrás de mim na saída do aeroporto e me interpelado: — O senhor é o Sr. Goldman? — Sou.

— Então isso é do senhor. Ele teria me estendido um envelope contendo um maço de folhas de papel. — São minhas páginas em branco? — Sim, Sr. Goldman. O senhor não achou que ia sair de Nova York sem elas, não é? Assim, passei aquele mês na Flórida sozinho, trancado numa suíte com meus demônios, me sentindo miserável e despeitado. No laptop, ligado dia e noite, o documento que eu intitulara novoromance.doc permanecia desesperadamente virgem. Na noite em que ofereci uma margarita ao pianista do bar do hotel, percebi que havia contraído uma doença muito comum no meio artístico. No balcão, ele me contou que, durante toda sua vida, escreveu uma única canção, mas que essa canção havia sido um hit tremendo. O sucesso foi tão grande que ele nunca mais conseguiu escrever nada e, agora, arruinado e infeliz, sobrevivia tocando as músicas dos outros para os hóspedes dos hotéis. — Na época, fiz turnês nos maiores salões do país — ele me contou, agarrando o colarinho da minha camisa. — Dez mil pessoas berrando meu nome, gatinhas se derretendo enquanto outras jogavam calcinhas para mim. Não era pouca coisa. — E, após ter lambido feito um cachorrinho o sal em torno do copo, acrescentou: — Juro que é verdade. O pior, justamente, é que eu sabia que era mesmo. A terceira fase do meu infortúnio começou assim que retornei a Nova York. No avião em que voltei de Miami, li uma matéria sobre um jovem autor que acabava de lançar um romance incensado pela crítica e, quando cheguei ao aeroporto de LaGuardia, deparei com seu rosto em grandes cartazes no saguão das esteiras de bagagens. A vida me afrontava: não apenas tinham me esquecido, como, pior ainda, estavam me substituindo. Douglas, que foi me buscar no aeroporto, estava nervosíssimo: a Schmid & Hanson, já sem a menor paciência, queria uma prova de que eu estava avançando e de que logo estaria em condições de apresentar um novo original finalizado. — A situação está preta. — Essa foi sua primeira frase dentro do carro que nos levava de volta para Manhattan. — Diga que a Flórida o revigorou e que conseguiu adiantar bastante o livro! Surgiu esse cara agora de quem todo mundo está falando… O livro dele será o grande best-seller do Natal. E você, Marcus? O que tem para o Natal? — Vou botar a mão na massa! — prometi, em pânico. — Vou conseguir! Faremos uma grande campanha de marketing e vai dar tudo certo! As pessoas gostaram do meu primeiro livro, vão gostar do próximo! — Você não está entendendo, Marc. Poderíamos ter feito isso alguns meses atrás.

Era essa a estratégia: surfar na onda do seu sucesso, alimentar o público, dar o que ele pedia. O público queria Marcus Goldman, só que, como Marcus Goldman foi relaxar na Flórida, os leitores compraram o livro de um outro sujeito qualquer. Você estudou um pouco de economia, Marc? Os livros viraram um produto supérfluo. As pessoas querem um livro que as agrade, relaxe e divirta. E se não for você a lhes dar um livro assim, alguém dará, e você acaba indo parar na lata de lixo. Apavorado com as profecias de Douglas, pus-me a trabalhar feito um louco: começava a escrever às seis da manhã, nunca parava antes das nove ou dez da noite. Passava dias inteiros confinado no escritório, escrevendo sem trégua, sendo arrastado pelo frenesi do desespero, esboçando palavras, alinhavando frases e multiplicando as ideias para o romance. Porém, para minha grande lástima, não produzia nada de aproveitável. Denise, por sua vez, passava os dias se descabelando com a minha situação. Como não tinha mais o que fazer — ditados a anotar, correspondência a arquivar, café a preparar —, ela andava de uma ponta a outra do corredor. E, quando não se aguentava mais, ia bater à porta. — Estou implorando, Marcus, abra para mim! — gemia ela. — Saia desse escritório, vá dar umpasseio no parque. Você não comeu nada hoje! Eu respondia gritando: — Não estou com fome! Não estou com fome! Sem livro não como! Ela quase soluçava. — Não diga barbaridades, Marcus. Vou à delicatessen da esquina buscar um sanduíche de rosbife, seu preferido. Já volto! Já volto! Eu a ouvia pegar a bolsa e correr para a porta de entrada antes de se lançar pelas escadas, como se aquela pressa fosse mudar alguma coisa na minha situação. Mas eu finalmente tinha entendido o alcance do mal que me acometia: escrever um livro partindo do zero me parecera muito fácil. Agora, porém, que eu estava no auge, agora que precisava assumir meu talento e repetir a marcha exaustiva rumo ao sucesso, o qual consiste em escrever um bom romance, eu me sentia impotente. Estava acometido pela doença dos escritores e não havia ninguém que pudesse me ajudar. Aqueles com quem eu falava replicavam que não era nada, que seguramente era muito comum e que, se eu não escrevesse meu livro hoje, o faria amanhã. Tentei, durante dois dias, trabalhar no meu antigo quarto, na casa dos meus pais, em Newark, no mesmo lugar em que encontrara inspiração para meu primeiro livro. Mas essa tentativa resultou num fracasso lamentável, ao qual minha mãe talvez não fosse alheia, em especial por ter passado esses dois dias sentada a meu lado, esquadrinhando a tela do meu laptop e repetindo para mim: “Está ótimo, Markie.” — Não escrevi uma linha, mãe — falei, por fim. — Mas sinto que vai ficar ótimo.

— Mãe, se você me deixasse sozinho… — Por que sozinho? Está com dor de barriga? Quer peidar? Pode peidar comigo aqui, querido. Sou sua mãe. — Não, não quero peidar, mãe. — Está com fome, então? Quer um crepe? Waffles? Alguma coisa salgada? Ovos, talvez? — Não, estou sem fome. — Então por que eu preciso sair? Está querendo dizer que a presença da mulher que lhe deu a vida o incomoda? — Não, não incomoda, mas… — Mas o quê? — Nada, mãe. — Você precisa de uma namorada, Markie. Acha que não sei que terminou com aquela atriz da televisão? Como era mesmo o nome dela? — Lydia Gloor. De toda forma, não tínhamos um relacionamento sério, mãe. Quer dizer: nós só ficamos. — Só ficamos, só ficamos! É isso que os jovens fazem agora: ficam e, aos cinquenta anos, estão carecas e sem família! — Que relação isso tem com ficar careca, mãe? — Nenhuma. Mas você acha normal que eu fique sabendo por uma revista que você está com essa garota? Que filho faz isso com a mãe, hein? Imagine que um pouco antes de você viajar para a Flórida eu chego no Scheingetz, o cabeleireiro, não o açougueiro, e todo mundo me olha com uma cara estranha. Pergunto o que aconteceu, e eis que a Sra. Berg, debaixo daquele capacete de permanente, aponta para a revista que está lendo e então vejo uma foto sua e dessa Lydia Gloor, na rua, juntos, e a manchete da reportagem dizendo que vocês se separaram. Todo o salão sabia que vocês tinham terminado, sendo que eu não sabia nem que você estava saindo com ela! É claro que eu não queria passar por idiota e disse que ela era uma garota encantadora e que vocês jantaramdiversas vezes aqui em casa. — Mãe, eu não contei para você porque não era sério. Não era a garota certa, sabe. — Mas nunca é a garota certa! Você não conhece uma única garota certa, Markie! Esse é o problema. Acha que atrizes de televisão podem administrar um lar? Sabia que encontrei a Sra. Emerson ontem no supermercado e que a filha dela também está solteira? Seria perfeita para você. Além disso, ela tem dentes lindos. Quer que eu peça a ela para dar uma passada aqui? — Não, mãe. Estou tentando trabalhar. Nesse instante, a campainha tocou. — Acho que são elas — disse minha mãe. — Como assim, são elas? — A Sra.

Emerson e a filha dela. Convidei-as para tomar um chá às quatro. São quatro em ponto. Pontualidade é algo importante numa mulher. Já não adora ela? — Você as convidou para tomar chá? Suma com elas daqui, mãe! Não quero vê-las! Tenho um livro para escrever, caramba! Não estou aqui para brincar de casinha, tenho que escrever um romance! — Ah, Markie, você precisa mesmo é de uma namoradinha. Uma namorada para noivar e casar. Você pensa demais nos livros e pouco em casamento… Ninguém percebia o cerne da questão: eu precisava desesperadamente de um livro novo, nem que fosse só para cumprir com as cláusulas do contrato que eu assinara com a editora. Em meados de janeiro de 2008, Roy Barnaski, o poderoso diretor da Schmid & Hanson, convocou-me a seu escritório, no quinquagésimo primeiro andar de um arranha-céu na Lafayette Street, para uma séria admoestação: — E então, Goldman, quando terei o seu novo original? — ladrou ele. — Nosso contrato contempla cinco livros: precisa pôr mãos à obra, e rápido! Queremos resultado, queremos números! Você não está cumprindo os prazos! Está atrasado em tudo! Viu esse cara que lançou um livro qualquer antes do Natal? Ele tomou o seu lugar com o público! O agente dele disse que o próximo romance já está praticamente pronto. E você? Está nos fazendo perder dinheiro! Então mexa-se e tome as rédeas da situação. Surpreenda-nos, escreva um bom livro e salve sua pele. Vou lhe dar seis meses: espero até junho. Eu tinha seis meses para escrever um livro quando estava travado fazia quase um ano e meio. Era impossível. Pior ainda foi que Barnaski, ao me impor aquele prazo, não me informara das consequências às quais eu me expunha caso não obedecesse. Foi Douglas quem se encarregou disso, duas semanas mais tarde, durante nossa enésima conversa em meu apartamento. Ele me disse: — Você vai ter que escrever, meu velho, não pode mais enrolar. Você assinou para cinco livros! Cinco livros! Barnaski está furioso, perdeu a paciência… Ele comentou comigo que esticou o prazo até junho. E sabe o que vai acontecer se você furar? Eles vão romper o contrato, entrar com um processo e sugá-lo até a medula! Vão pegar toda a sua grana e você vai ter que abandonar sua vida mansa, seu belo apartamento, seus sapatos italianos, seu carrão esportivo. Vai ficar sem nada. Vão lhe tirar tudo. Se um ano antes eu era a nova estrela da literatura americana, agora eu me tornara o grande desespero, o grande transtorno do mundo editorial. Lição número dois: além de ser efêmera, a glória não vem sem consequências. Na noite seguinte à advertência de Douglas, peguei o telefone e digitei o número da única pessoa que eu julgava capaz de me tirar daquela dificuldade: Harry Quebert, que foi meu professor na faculdade e, acima de tudo, é um dos autores mais lidos e respeitados dos Estados Unidos, com quem eu tinha uma forte ligação havia dez anos, desde que fora seu aluno na Universidade de Burrows, em Massachusetts. Fazia mais de um ano que eu não o via e quase o mesmo tempo que não lhe telefonava.

Liguei para sua casa, em Aurora, no estado de New Hampshire. Ao ouvir minha voz, ele gracejou: — Ah, Marcus! É você mesmo quem está ligando? Inacreditável. Desde que virou celebridade não me dá notícias. Tentei telefonar mês passado, mas uma secretária atendeu e falou que você não estava para ninguém. Respondi bruscamente: — As coisas vão mal, Harry. Acho que não sou mais escritor. Ele ficou sério: — Do que está falando, Marcus? — Não sei o que escrever, estou acabado. Totalmente travado. Faz meses. Talvez um ano. Ele desatou numa risada tranquilizadora e calorosa. — É só uma estafa mental, Marcus, só isso! Bloqueios criativos são algo tão irracional quanto broxar: é o pânico do gênio, o mesmo que deixa seu pauzinho mole quando você está se preparando para transar com uma de suas fãs e só pensa em lhe proporcionar um orgasmo que pode ser medido pela escala Richter. Não se preocupe com o talento, limite-se a alinhar um conjunto de palavras. O talento vem naturalmente. — Você acha? — Tenho certeza. Mas você devia deixar um pouco de lado as noitadas e os drinques. Escrever é coisa séria. Achei que tinha conseguido enfiar isso na sua cabeça. — Mas estou trabalhando duro! É a única coisa que faço! E, mesmo assim, não sai nada. — Então é porque está lhe faltando o cenário apropriado. Nova York é uma cidade bem bonita, mas acima de tudo é muito barulhenta. Por que não vem para cá, para minha casa, como fazia quando era meu aluno? Sair de Nova York, mudar de ares. Nunca um convite ao exílio me pareceu tão sensato. Ir encontrar a inspiração de um novo livro numa pequena cidade litorânea em companhia do meu mentor: era exatamente disso que eu precisava. Foi assim que, uma semana depois, em meados de fevereiro de 2008, fui me instalar em Aurora, New Hampshire.

Isso foi alguns meses antes dos acontecimentos dramáticos que me preparo para contar aqui. * * * Antes do episódio que agitou os Estados Unidos no verão de 2008, ninguém nunca tinha ouvido falar em Aurora, que é uma cidadezinha à beira-mar, a cerca de uma hora de carro da fronteira com o estado de Massachusetts. Há um cinema na rua principal — cuja programação está constantemente atrasada em relação ao restante dos Estados Unidos —, algumas lojas, uma agência dos correios, um posto policial e meia dúzia de restaurantes, entre eles o Clark’s, o diner histórico da cidade. O entorno é formado por bairros pacatos, com casas de madeira coloridas e varandas encimadas por telhados de ardósia e rodeadas por jardins com gramados impecáveis. Uma espécie de arquétipo dos Estados Unidos. Um desses lugares que só existe na Nova Inglaterra, onde os moradores não trancama porta de casa, tão sossegado que o consideramos ao abrigo de tudo. Eu conhecia bem Aurora por já ter ido lá diversas vezes visitar Harry quando era seu aluno. Ele morava numa esplêndida casa de pedra e pinho maciço, que ficava fora da cidade, na estrada emdireção a Vermont, e com vista para um braço de mar consignado nos mapas com o nome de Goose Cove. Era uma casa de escritor debruçada sobre o oceano, com uma varanda para os dias bonitos da qual uma escada dava acesso direto à praia. Os arredores eram apenas uma quietude selvagem: a mata costeira, os aglomerados de seixos e pedras gigantes, os bosques úmidos com touceiras e musgos, algumas trilhas de caminhada margeando a praia. Daria para acreditar que estávamos no fimdo mundo se não soubéssemos que ficava a apenas poucos quilômetros da civilização. E não era difícil imaginar o velho autor produzindo suas obras-primas na varanda, inspirado pelas marés e pelos poentes. Em 10 de fevereiro de 2008, nas profundezas de meu bloqueio criativo, deixei Nova York. Os Estados Unidos, por sua vez, já fervilhavam com as primárias das eleições presidenciais: alguns dias antes, a Super Tuesday (que caíra excepcionalmente em fevereiro e não em março, prova de que aquele seria um ano fora do comum) oficializara a candidatura republicana do senador McCain, enquanto entre os democratas a batalha entre Hilary Clinton e Barack Obama ainda se desenrolava. Percorri o trajeto de carro até Aurora num estirão só. Havia nevado muito no inverno e as paisagens à minha volta estavam saturadas de branco. Eu gostava de New Hampshire: da tranquilidade, das imensas florestas, dos lagos cobertos de ninfeias nos quais era possível nadar no verão e patinar no inverno, gostava de pensar que lá não se pagavam taxas nem imposto de renda. Achava que aquele era um estado libertário, e sua divisa VIVER LIVRE OU MORRER, cunhada nas placas dos carros que me ultrapassavam na autoestrada, resumia perfeitamente a poderosa sensação de liberdade que me impregnava todas as vezes que ia a Aurora. A propósito, eu me lembro de que, quando cheguei à casa de Harry naquele dia, no meio de uma tarde tão fria e enevoada, tive imediatamente uma sensação de paz interior. Ele me esperava no portão, agasalhado num casacão de inverno. Saí do carro, ele veio a meu encontro, colocou as mãos em meus ombros e me ofereceu um sorriso reconfortante. — O que há com você, Marcus? — Não sei, Harry… — Vamos, vamos. Você sempre foi um rapaz muito sensível. Antes mesmo que eu desfizesse a mala, fomos para a sala conversar um pouco. Ele serviu café.

Na lareira, o fogo crepitava; o interior estava aconchegante, enquanto, pela ampla sacada envidraçada, eu via o oceano atormentado pelos ventos gelados e a neve úmida caindo nos rochedos. — Tinha esquecido como aqui é bonito — murmurei. Ele aquiesceu. — Você vai ver, meu querido Marcus, vou cuidar de você. Você vai escrever um romance maravilhoso. Não fique cabisbaixo, todos os bons escritores passam por um momento difícil como esse. Ele estava com aquele ar sereno e confiante de sempre. Era um homem que eu nunca vira vacilar: carismático, seguro, cuja presença emanava uma autoridade natural. Estava com sessenta e sete anos e tinha uma bela aparência, com sua grande cabeleira grisalha sempre penteada, ombros largos e umcorpo robusto que comprovava a longa prática do boxe. Era um pugilista, e havia sido justamente por intermédio desse esporte, que eu mesmo praticava com certa frequência, que havíamos nos aproximado na Universidade de Burrows. Os laços que me uniam a Harry, e aos quais voltarei mais adiante nesta história, eram fortes. Ele entrara em minha vida no ano de 1998, quando ingressei na Universidade de Burrows, emMassachusetts. Na época, eu tinha vinte anos e ele, cinquenta e sete. Fazia aproximadamente quinze anos que ele dirigia com sucesso o departamento de Literatura da modesta universidade rural, de atmosfera serena e frequentada por estudantes simpáticos e educados. Antes disso, como todo mundo, eu conhecia O Grande Escritor Harry Quebert de nome. Em Burrows, conheci simplesmente Harry, aquele que, a despeito de nossa diferença de idade, acabaria se tornando um de meus amigos mais próximos e me ensinaria a ser um escritor. Ele conhecera a consagração em meados dos anos 1970, quando seu segundo livro, As origens do mal, que vendera quinze milhões de exemplares, recebera o Booker Prize e o National Book Award, os dois prêmios literários mais prestigiosos do país. Desde então, publicava com certa regularidade e escrevia uma crônica mensal bastante popular no Boston Globe. Era uma das grandes figuras da intelligentsia norte-americana: dava inúmeras conferências, era frequentemente solicitado para eventos culturais importantes; sua opinião sobre as questões políticas tinha peso. Era um homem muito respeitado, um dos orgulhos do país, o que os Estados Unidos podiam produzir de melhor. Quando fui passar algumas semanas em sua casa, eu esperava voltar a ser um escritor e aprender como transpor o abismo da página em branco. Fui, contudo, obrigado a constatar que, embora decerto Harry julgasse minha situação difícil, nem por isso a considerava anormal. — Os escritores às vezes têm brancos e isso faz parte dos riscos da profissão — ele me explicou. — Comece a trabalhar e verá: vai desbloquear por si só. Harry me instalou em seu escritório do térreo, onde ele mesmo escrevera todos os seus livros, inclusive As origens do mal.

Ali passei longas horas tentando escrever, embora ficasse acima de tudo absorto pelo mar e pela neve que caía do outro lado da janela. Quando Harry me trazia um café ou alguma coisa para comer, observava minha expressão de desespero e tentava levantar meu moral. Certa manhã, acabou me dizendo: — Não faça essa cara, Marcus, parece até que vai morrer. — É quase isso… — Vamos, preocupe-se com a situação do mundo, com a guerra no Iraque, não com míseros alfarrábios… É cedo demais para isso. Você me dá pena, fique sabendo: arma um escarcéu porque peleja para voltar a escrever três linhas. Melhor encarar as coisas de frente: você escreveu um livro formidável, ficou rico e famoso e o seu segundo livro está enfrentando dificuldade para sair da sua cabeça. Não há nada de estranho ou de preocupante nisso. — E você? Nunca teve esse problema? Ele deu uma risada barulhenta. — Bloqueio criativo? Está brincando? Bem mais do que pode imaginar, meu amigo! — Meu editor falou que, se eu não entregar um livro novo agora, será o meu fim.

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