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A vez da minha Vida – Cecelia Ahern

Prezada Lucy Silchester, Você tem um compromisso na segunda-feira, 30 de maio. Não li o resto. Não precisava, sabia de quem era. Desde que cheguei em casa e vi aquilo no chão, entre a porta da frente e a cozinha, na parte queimada do carpete onde a árvore de Natal tinha caído (há dois anos, e as luzes chamuscaram os fios do carpete). O carpete era o que podemos chamar de algo velho e barato, escolhido pelo meu mesquinho senhorio, de um fio sintético cinza desbotado que parecia ter sido pisado por mais pés que os supostos testículos “da sorte” do touro do mosaico da Galeria Vittorio Emmanuele II, em Milão. Você poderia encontrar um tipo similar de carpete no meu escritório (um local mais apropriado, já que não seria pisado por alguém descalço), feito apenas para o tráfego constante de pés calçados por sapatos de couro brilhante se movendo do cubículo para a copiadora, da copiadora para a máquina de café, da máquina de café até a escada da saída de emergência para um cigarro sorrateiro, ironicamente o único local em que o alarme de incêndio falhava. Eu fazia parte da expedição para encontrar um lugar para fumar e, cada vez que o inimigo nos localizava, nós a recomeçávamos e íamos em busca de um novo abrigo seguro. O local atual era fácil de se achar: centenas de bitucas amontoadas no chão marcando o território; suas almas sugadas por seus usuários com ansiedade, suas vidas flutuando pelos pulmões, enquanto seus corpos eramjogados, pisoteados e abandonados no chão. Era o lugar mais adorado do prédio: mais do que a máquina de café, mais do que as portas de saída às 6 da tarde e, para a maioria, mais do que a cadeira por trás da mesa de Edna Larson (a chefe), que absorvia boas intenções como uma máquina de guloseimas quebrada, que engole suas moedas, mas falha em cuspir a barra de chocolate. A carta estava lá, naquele chão desbotado e chamuscado. Um envelope de tecido creme com uma estupenda fonte George Street estampando meu nome com uma tinta preta perfeitae; ao lado dele, umselo de ouro em relevo com três espirais unidas. A tripla espiral da vida. Eu sabia o que era porque já tinha recebido duas cartas semelhantes e fui procurar o símbolo no Google. Não consegui agendar nenhum dos pedidos de encontro. Também não consegui ligar para o número fornecido para reorganizar ou cancelar. Ignorei o convite, o varri para debaixo do carpete ou o teria varrido se as luzes da árvore de Natal não tivessem colocado fogo no monte de pelo que costumava estar lá; esqueci tudo aquilo. Mas na verdade eu não tinha me esquecido de nada. Você nunca se esquece das coisas que fez e que sabe que não deveria ter feito. Elas ficam vagueando por sua mente, como um ladrão avaliando o local para um trabalho futuro. Você as vê ali, nas proximidades, espreitando de preto e branco listrado, saltando para trás das caixas de correio logo que sua cabeça vira para encará-las. Ou então é um rosto familiar, em meio a uma multidão que você vislumbra, mas então perde de vista. Um irritante Onde está Wally? sempre escondido em cada pensamento, em sua consciência. O que você fez de ruim sempre está lá, para que você não se esqueça. Um mês após ignorar a segunda delas, chegou esta carta com outro compromisso remarcado e nenhuma menção às minhas faltas de resposta. Era como minha mãe, sua recusa educada emreconhecer meus defeitos fazia eu me sentir ainda pior.


Segurei aquele papel chique entre a ponta do polegar e do indicador, e me inclinei para lê-lo. O gato havia urinado nele de novo. Realmente irônico. Não o culpei. Minha posse ilegal de um animal de estimação em um apartamento no centro da cidade e um trabalho em tempo integral significavamque o gato não tinha oportunidade de ir para fora para se aliviar. Em uma tentativa de me livrar da culpa, eu havia disposto fotografias emolduradas do mundo exterior pelo apartamento: a grama, o mar, uma caixa postal, pedrinhas, o tráfego, um parque, uma coleção de outros gatos e Gene Kelly. A última, obviamente, para servir às minhas necessidades, mas eu esperava que as outras pudessemdissipar qualquer desejo que ele tivesse de ir lá fora. Ou de respirar ar fresco, fazer amigos, se apaixonar. Ou de cantar e dançar. Como estava fora cinco dias por semana desde as 8 horas da manhã, muitas vezes até as 8 horas da noite e, às vezes, sem voltar para casa, eu o havia treinado a “eliminar”, como o treinador de gatos dissera, no papel, para que ele pudesse se acostumar a usar sua caixinha de areia. E aquela carta, o único pedaço de papel deixado no chão, certamente o confundiu. Eu o vi passar, consciente do que tinha feito, pelo canto da sala. Ele sabia que tinha feito coisa errada. A culpa estava rondando em sua mente, o que ele fizera e sabia que não deveria ter feito. Odeio gatos, mas gostei daquele. Eu o chamei de Senhor Pan, como Peter, o garoto voador. Senhor Pan não é um garoto que nunca envelhece nem, por incrível que pareça, possui a habilidade de voar, mas há uma estranha semelhança e me pareceu um nome apropriado naquele momento. Certa noite, ao descer por uma travessa, o encontrei ronronando como se em profunda angústia. Ou talvez fosse eu. O que eu fazia lá permanecerá em segredo, mas estava chovendo muito, eu estava usando um casaco bege e, depois do luto pela perda de um namorado perfeito, sob o efeito de muitas tequilas, fazia o meu melhor para encarnar Audrey Hepburn ao perseguir o animal e chamá-lo “Gato!”, em um tom claro e único, ainda que aflito. Era um gatinho de poucos dias de vida, que havia nascido hermafrodita. Sua mãe, ou seu dono, ou os dois, o rejeitaram. Embora o veterinário tivesse me informado que o gatinho tinha uma anatomia mais masculina que feminina, nomeá-lo me fez sentir como se assumisse a responsabilidade de escolher o sexo dele. Pensei em meu coração partido e na perda de uma promoção, pois minha chefe tinha o pressentimento de que eu estava grávida (foi logo depois das festas de fim de ano e eu consumira um pequeno javali em um banquete estilo Tudor) e, além disso, eu passara por um mês particularmente horrível de dores de estômago; um mendigo havia me tocado tarde da noite no trem; e, quando tinha feito cumprir minha opinião no trabalho, fui chamada de vaca por meus colegas do sexo masculino. Portanto, decidi que a vida seria mais fácil para o gato se ele fosse um macho.

Mas acho que tomei a decisão errada. Ocasionalmente, eu o chamo de Samantha ou Mary, ou de algum nome feminino, e ele me olha como se me agradecesse, antes de se sentar em um dos meus sapatos e olhar melancolicamente para o salto e para o mundo de que fora privado. Mas só estou divagando. Voltando à carta… Eu teria que responder ao compromisso dessa vez. Não havia outra saída. Não podia ignorá-lo; não queria irritar ainda mais o remetente. Então, quem era o remetente? Segurei o papel pelo canto e novamente me inclinei para lê-lo. Prezada Lucy Silchester, Você tem um compromisso na segunda-feira, 30 de maio. Com os melhores cumprimentos, Vida A Vida. Ora, era óbvio. Minha vida precisava de mim. Ela estava passando por um momento difícil e eu não estava prestando atenção suficiente nela. Tinha tirado os olhos da bola, me ocupei com outras coisas: vida de amigos, questões de trabalho, meu carro se deteriorando e sempre quebrando, esse tipo de coisa. Havia completa e totalmente ignorado minha vida. E agora ela tinha escrito para mim, me convocando, e havia apenas uma coisa a fazer. Tinha que me encontrar com ela, cara a cara. Capítulo 2 Já tinha ouvido falar sobre esse tipo de coisa, por isso não fiz um grande drama. De qualquer maneira, geralmente eu não fico muito animada com as coisas, não sou assim. Não sou facilmente surpreendida também. Acho que é porque acredito que tudo pode acontecer. Isso me faz soar como uma religiosa, o que não sou. Deixa eu me expressar melhor: aceito as coisas que acontecem. Todas as coisas. Assim, minha vida escrevendo para mim, embora fosse incomum, não era surpreendente. Era mais uma inconveniência.

Eu sabia que isso demandaria muito da minha atenção em um futuro próximo e, se fosse algo simples para mim, provavelmente não teria recebido as cartas. Bati com uma faca no gelo do congelador e recuperei uma torta de queijo cottage com minha mão já azul. Enquanto esperava que o micro-ondas soasse, comi uma torrada. Em seguida, tomei umiogurte. Ela ainda não estava pronta, então lambi a tampa. Decidi que a chegada da carta me dera permissão para abrir uma garrafa de Pinot Grigio. Esfaqueei o restante do gelo do congelador, enquanto o Senhor Pan corria para se esconder em uma bota de borracha cor-de-rosa, decorada comcorações e ainda coberta da lama seca de um festival de música de verão que ocorrera há três anos. Tirei uma garrafa de vinho que havia me esquecido de retirar do congelador e que, agora, era um bloco sólido congelado de álcool, e a substituí por uma nova garrafa. Não queria me esquecer dessa. Não devia. Era a última garrafa deixada na adega de vinho do armário, sob a prateleira com o pote de biscoitos. O que me lembrou biscoitos. Também comi um biscoito de chocolate com recheio duplo enquanto esperava. Em seguida, o micro-ondas apitou. Despejei a torta em um prato: uma grande pilha bagunçada e nada apetitosa de mingau, ainda fria no meio, mas não tive paciência de colocá-la de volta e esperar trinta segundos a mais. Comi em pé diante do balcão e dei uma cutucada nas partes quentes ao redor das bordas. Eu costumava cozinhar. Costumava cozinhar quase todas as noites. Nas noites em que não o fazia, meu então namorado cozinhava. Nós gostávamos disso. Morávamos em um apartamento grande emuma fábrica de pão convertida, com janelas do teto ao chão, com grades de aço e a alvenaria original exposta na maioria das paredes. Nós tínhamos uma “cozinha-e-sala-de-jantar” em plano aberto e, quase todo fim de semana, recebíamos nossos amigos. Blake amava cozinhar, amava entreter, adorava a ideia de todos os nossos amigos, e até mesmo a família, se juntarem a nós. Ele adorava o som de dez a quinze pessoas rindo, conversando, comendo, debatendo. Amava os cheiros, o vapor, os “oohs” e “aahs” de prazer.

Ficava na cozinha e contava histórias com perfeita entonação enquanto cortava uma cebola, derramando o vinho tinto em um buf bourguignon ou flambando um baked alaska. Nunca media os ingredientes e sempre conseguia o equilíbrio perfeito. Ele conseguia o equilíbrio perfeito de tudo. Era um escritor de gastronomia e de viagens, e adorava ir a todos os lugares e degustar cada coisa. Era um aventureiro. Nos fins de semana, nós nunca ficávamos parados, subíamos essa e aquela montanha. Durante o verão, viajávamos para países dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Pulamos de paraquedas duas vezes e já havíamos pulado de bungee-jump três vezes. Ele era perfeito. E ele morreu. Não, estou só brincando, ele está perfeitamente bem. Vivo e bem. Piada cruel, eu sei, mas eu ri. Não, ele não está morto. Ele ainda está vivo. Ainda é perfeito. Mas eu o deixei. Ele tem um programa de televisão agora. Assinou o contrato quando ainda estávamos juntos. Passa em um canal de viagens a que nós dois costumávamos assistir o tempo todo e no qual, agora, eu sintonizo sempre e o vejo caminhando na Grande Muralha da China ou sentado em um barco na Tailândia comendo pad thai. E sempre, após seu resumo com linguajar perfeito, em sua roupa perfeita, mesmo após uma semana escalando montanhas, defecando no mato e sem tomar banho, ele olha para a câmera com seu rosto perfeito e diz: “Queria que você estivesse aqui”. Esse é o nome do programa. Ele me disse, nas semanas e meses que se seguiram à nossa separação traumática, enquanto chorava ao telefone, que o nomeou para mim; que a cada vez que ele dissesse aquilo, estaria falando comigo, somente comigo, jamais com outra pessoa. Ele me queria de volta. Ligou todos os dias.

Depois, a cada dois dias. Finalmente, uma vez por semana, e eu sabia que ele estivera lutando com o telefone por dias, tentando esperar por aquele momento para falar comigo. Finalmente, ele parou de ligar e passou a me mandar e-mails. Longos e-mails que detalhavam onde estava, como se sentia sem mim, tão deprimidos e solitários que não os li mais, nem os respondi. Então, seus emails ficaram mais curtos. Menos sentimentais, menos detalhados, mas sempre me pedindo para encontrá-lo, sempre me pedindo para que ficássemos juntos novamente. Fiquei tentada, não me interpretem mal, ele era um homem perfeito, e ter um homem belo e perfeito desejando você às vezes é suficiente para querer tê-lo de volta, mas só senti isso nos momentos de fraqueza da minha própria solidão. Eu não o queria. Não era porque conhecera outra pessoa, eu disse a ele várias vezes, mas acho que, talvez, tivesse sido mais fácil se eu fingisse ter outro namorado, pois, então, ele seguiria em frente. Eu não queria mais ninguém. Realmente não queria mais nenhum outro. Queria parar por um tempo. Queria parar de fazer as coisas e parar de me mover. Só queria ficar na minha. Larguei meu emprego e consegui um novo, em uma empresa de aparelhos domésticos, com a metade do salário. Nós vendemos o apartamento. Aluguei esse apartamento-estúdio, com um quarto do tamanho de qualquer outra casa que já tive. Encontrei um gato. Alguns diriam que eu o roubei, no entanto, ele(a) me pertence agora. Visito minha família quando estou sob a mira de um revólver, saio com os mesmos amigos nas noites em que ele não estará junto (meu ex-namorado, não o gato), o que ocorre na maioria das vezes, agora que ele está viajando muito. Quase não sinto a falta dele, mas, quando sinto, ligo a TV e tomo uma dose suficiente dele para me sentir contente novamente. Não sinto falta do meu trabalho. Sinto um pouco a falta do dinheiro quando vejo algo que eu quero nas lojas ou em uma revista, mas, então, saio da loja ou viro a página e consigo superar a vontade. Não perco o programa de viagens. Não perco os jantares.

E não sou infeliz. Eu não sou. OK, eu menti. Ele me deixou. Capítulo 3 Eu estava no meio da garrafa de vinho no momento em que consegui (não coragem, não precisava de coragem, não tinha medo) me importar com a carta. Tive que tomar meia garrafa de vinho para me importar e retornar uma chamada para minha vida; então, disquei o número indicado na carta. Dei uma mordida em uma barra de chocolate enquanto esperava que a telefonista completasse a ligação, que foi atendida ao primeiro toque. Isso não me deu tempo para mastigar, muito menos para engolir meu chocolate. — Ah, me desculpe — disse com a boca cheia. — Estou com chocolate na boca. — Tudo bem querida, tome seu tempo — uma mulher idosa, com uma voz otimista e um suave sotaque sulista de torta americana, disse alegremente. Mastiguei, engoli rapidamente e levei tudo para dentro com um gole de vinho. Terminei com uma ânsia de vômito. Limpei a garganta. — Terminei. — Qual era? — Galaxy. — Aerado ou normal? — Aerado. — Hummm, meu favorito. Como posso ajudá-la? — Recebi uma carta sobre um compromisso na segunda-feira. Meu nome é Lucy Silchester. — Sim, Srta. Silchester, tenho você no sistema. Que tal 9 horas da manhã? — Ah, bem, na verdade não é por isso que estou ligando. Veja, não posso ir a um compromisso, estarei trabalhando nesse dia. Esperei que ela dissesse: “Ah, que tolice a nossa pedir que você venha em um dia de trabalho! Vamos cancelar tudo!”, mas ela não o fez.

— Bem, acho que podemos trabalhar de acordo com você. A que horas você sai? — Seis. — E que tal às 7 horas da noite? — Eu não posso porque é aniversário do meu amigo e nós vamos sair para jantar. — E quanto a seu intervalo para o almoço? Um encontro no almoço lhe agradaria? — Tenho que levar meu carro para a oficina. — Então, resumindo: você não pode ir ao compromisso porque trabalha durante o dia, leva seu carro para a oficina no intervalo do almoço e tem um jantar com amigos à noite. — Sim — disse e fiz uma careta. — Você está escrevendo isso? — Ouvi alguém digitando ao fundo. Aquilo me incomodou, pois eles tinham me convocado e não o contrário. Eles teriam que encontrar uma hora adequada para mim. — Sabe, querida — ela disse com seu sotaque sulista arrastado e eu quase podia ver a torta de maçã deslizando de seus lábios e caindo em seu teclado, o qual pegaria fogo e minha convocação seria apagada para sempre de toda memória —, obviamente, você não está familiarizada com este sistema. — Respirou fundo e eu a cortei antes que as maçãs gotejassem novamente. — As pessoas costumam estar? Eu a tirei de sua linha de pensamento. — Desculpe? — Ao entrar em contato com as pessoas, quando “a vida as convoca para se encontrar com ela” — enfatizei —, as pessoas geralmente estão familiarizadas com o procedimento? — Bem — pronunciou de maneira cantada, “be-eem” —, alguns estão e outros não, eu suponho, mas é por isso que estou aqui. E que tal tornar mais fácil para você: agendaremos para ele ir até você? Ele poderia fazer isso, se eu pedisse. Eu pensei sobre aquilo e soltei: — Ele? Ela riu. — É, isso pega as pessoas também. — Sempre são eles? — Não, nem sempre, às vezes são elas. — Em que circunstâncias são homens? — Ah, é uma questão de acerto ou erro, querida, não há lógica. Exatamente como você e eu nascendo como somos. Isso será um problema para você? Fiquei pensando. Não consegui ver problemas naquilo. — Não. — Então, em que momento você gostaria que ele a visitasse? — perguntou e digitou um pouco mais. — Que ele me visitasse? Não! — gritei ao telefone. Senhor Pan pulou para longe, abriu os olhos, olhou ao redor e os fechou novamente.

— Me desculpe por gritar — disse e me recompus. — Ele não pode vir aqui. — Mas pensei ter ouvido que não seria um problema para você. — Eu quis dizer que não é um problema que ele seja homem. Pensei que você estava perguntando se isso seria um problema. Ela riu. — Mas por que eu lhe perguntaria isso? — Não sei. Às vezes os spas perguntam isso também, sabe, no caso de você não querer ummassagista masculino… Ela riu. — Bem, posso garantir que ele não vai massagear qualquer parte de sua anatomia. Ela fez a palavra “anatomia” soar suja. Estremeci. — Bem, diga a ele que sinto muito, mas ele não pode vir aqui. — Olhei para meu estúdio sombrio, onde sempre me senti bastante confortável. Era um lugar para mim, meu barraco pessoal; não era para entreter convidados, amantes, vizinhos, membros da família ou até mesmo serviços de emergência, como quando o carpete pegou fogo. Ele era só para mim. E para o Senhor Pan. Estava encolhida no braço do sofá e, alguns passos atrás, estava a extremidade da minha cama de casal. À minha direita ficava a bancada da cozinha; à minha esquerda, as janelas; ao lado da cama, o banheiro. Esta era a dimensão do estúdio. Não que o tamanho me incomodasse ou me envergonhasse. O pior era o estado dele. Meu chão tinha se tornado o guarda-roupa. Gostava de pensar em meus pertences espalhados como minha estrada de tijolos amarelos, esse tipo de coisa… O conteúdo do meu guarda-roupa anterior era maior que o próprio estúdio e, por isso, muitos de meus pares de sapatos tinham encontrado seu lar ao longo do parapeito da janela. Meus casacos e vestidos longos estavam pendurados em cabides nas extremidades direita e esquerda do varão da cortina e eu os mantinha abertos ou fechados conforme o Sol e a Lua solicitavam, como cortinas comuns. Você já sabe como era o carpete, o sofá monopolizava a pequena sala de estar e se estendia do parapeito da janela ao balcão da cozinha, o que significava que não dava para andar em torno dele e, sim, que era preciso passar por cima do encosto para se sentar nele.

Minha vida não podia me visitar nessa confusão. Eu estava ciente da ironia. — Meu carpete precisa ser limpo — disse e então suspirei como se isso fosse um incômodo sobre o qual eu não suportava nem pensar. Não era mentira. Meu carpete precisava muito ser limpo. — Bem, posso recomendar os Magic Carpet Cleaners — disse ela, como se, de repente, saltasse para o horário comercial. — Meu marido é um horror, engraxa suas botas na sala de estar, e os Magic Carpet Cleaners conseguem tirar toda aquela graxa preta, você nem acredita! Ele ronca também. Se eu não dormir antes dele, não prego o olho o resto da noite. Por isso, fico assistindo àqueles informes comerciais e, certa noite, vi um homem engraxando seus sapatos sobre um carpete branco, como meu marido faz, e isso me chamou a atenção. Era como se a empresa tivesse sido feita só para mim. Eles retiraram a mancha completamente! Então, tive que ir atrás deles. Magic Carpet Cleaners, anote esse nome! Ela era tão intensa que eu me peguei desejando investir em graxa preta para sapatos só para testar as limpezas mágicas dessa empresa que anunciou em informes comerciais. E fui atrás de uma caneta, que, de acordo com o Ato Legislativo da Caneta Desde o Princípio dos Tempos, não estava em nenhum lugar à vista. Com o marcador na mão, olhei em volta procurando algo em que escrever. Não encontrei papel algum e escrevi sobre o carpete, o que me pareceu apropriado. — Por que você não me diz quando pode vir vê-lo e assim ajuda a nós duas? Minha mãe tinha marcado uma reunião especial de família no sábado. — Veja, eu sei que isso é muito importante; ser convocada por minha vida e tudo mais… Apesar de ter uma reunião de família importante no sábado, adoraria me reunir com ele nesse dia. — Oh — ouuuu —, querida, farei uma nota especial dizendo que está disposta a perder um dia especial com seus entes queridos para se encontrar com ele, mas acho que deve ir se encontrar comsua família. Só Deus sabe por quanto tempo você os terá e nós podemos vê-la no dia seguinte. Domingo. O que acha? Gemi. Mas não em voz alta, foi por dentro, um longo e agonizante som vindo de um doloroso lugar agonizante lá no fundo. E, assim, a data foi definida. Domingo nos encontraríamos, nossos caminhos se colidiriam e tudo o que eu havia considerado seguro e ancorado poderia, de repente, escorregar, deslizar e mudar mais do que poderia imaginar. Era o que eu havia lido em uma entrevista com uma mulher que se encontrara com sua vida.

Eles forneceram fotos dela de antes e de depois, para o benefício do leitor ignorante que não podia formar as imagens em sua mente. Curiosamente, antes que ela conhecesse sua vida, seu cabelo não era secado com um secador, mas depois sim; ela não usava maquiagem ou spray de bronzeamento, depois, usou ambos; antes, usava leggings e uma camiseta do Mickey Mouse, e fora fotografada com iluminação grosseira; mas, depois, usava um vestido assimétrico, suavemente drapeado, em uma cozinha de estúdio perfeitamente iluminada, onde umvaso alto de limas e limões artisticamente colocados mostrava como a vida, aparentemente, a deixara mais atraída por sabores cítricos. Ela usava óculos antes da reunião com a vida e lentes de contato depois. Fiquei imaginando o que a mudara mais: a revista ou sua vida. Em pouco menos de uma semana, eu me encontraria com minha vida. E minha vida era um homem. Mas por que eu? Achava que minha vida estava indo muito bem. Eu me sentia bem. Tudo na minha vida era, absolutamente, excelente. Então, me deitei no sofá para decidir o que vestir. Capítulo 4 No sábado fatídico, que eu temera desde sempre, entrei pelos portões elétricos da casa dos meus pais no meu Fusca 1984 sob os sons de tiro do escapamento, que me acompanharam por todo o caminho até o condomínio, atraindo alguns olhares tortos das pessoas ricas e sensíveis. Eu não tinha crescido naquela casa e, por isso, não senti como um retorno ao lar. Nem sequer senti como se estivesse no lar dos meus pais. Era uma casa onde eles ficavam quando não estavam na casa de férias ou na casa doméstica. O fato de estar esperando do lado de fora, aguardando que a permissão fosse concedida, me isolava disso tudo ainda mais. Eu tinha amigos que dirigiam direto para a entrada da garagem, sabiam as senhas e os códigos de alarme ou usavam as próprias chaves para visitar os pais. Eu nem sequer sabia onde as canecas de café eram guardadas. Os grandes portões alcançavam o efeito desejado: eram projetados para impedir a entrada de vagabundos, desajustados e filhas, embora o impedimento para mim viesse lá de dentro. Um assaltante escalaria os portões para entrar na casa, eu os escalaria para sair. Como se percebesse meu humor, meu carro (que eu nomeei Sebastian em homenagem ao meu avô, que nunca ficava sem um charuto na mão e que, como resultado, desenvolvera uma tosse seca que, finalmente, o levara para o túmulo) pareceu perder toda a força tão logo percebeu para onde estávamos indo. O caminho para a casa dos meus pais, emGlendalough, era um sistema complicado de estradas estreitas, com muito vento, que mergulhavam e subiam, se retorciam e viravam em torno de uma mansão gigante após a outra. Sebastian parou e lançou uma série de sons incoerentes. Baixei minha janela e apertei o interfone. — Olá, você chegou ao lar dos Silchester para indivíduos sexualmente desajustados. Como podemos satisfazer suas necessidades? — veio uma voz masculina sussurrada pela linha.

— Nossa, para com isso! Uma explosão de riso atravessou o alto-falante, fazendo com que duas louras botocadas, praticantes de marcha atlética, parassem com seu bate-papo de segredinhos e chicoteassem o ar comseus rabos de cavalo altos para observar. Sorri para elas, mas, assim que me viram dentro de uma sucata de metal marrom insignificante, desviaram o olhar e se puseram em movimento novamante, levando seus traseiros empinados, apertados, levemente cobertos de lycra e sem marcas de calcinha para longe de mim. Os portões fizeram um som ensurdecedor, se descolando um do outro, e se abriram completamente. — OK, Sebastian, vamos. O carro saltou para frente, sabendo qual era seu destino naquele dia: uma espera de duas horas ao lado de um monte de automóveis pretensiosos com quem não tinha nada em comum. Como nossas vidas eram similares! A longa entrada de cascalho deu lugar a um estacionamento, com uma fonte com um leão de boca aberta expelindo água turva. Estacionei longe do Jaguar XJ verde-garrafa do meu pai e de seu Morgan 1960, que ele chamava de seu “carro fim de semana”, e que dirigia vestindo seu traje de fim de semana, com luvas de couro vintage e óculos, como se fosse Dick Van Dyke em O calhambeque mágico. Ele também usava roupas além desses acessórios, caso a imagem tenha ficado mais perturbadora do que o pretendido. Ao lado dos carros de meu pai, estava a SUV preta de minha mãe. Ela pediu, especificamente, um carro que exigisse um esforço mínimo de direção por parte dela, e a SUV tinha sensores de estacionamento cobrindo tantos ângulos que, se um carro passasse a três faixas de distância em uma autoestrada, eles soariam para sinalizar sua proximidade. Do outro lado da área de cascalho, estava o Aston Martin de meu irmão mais velho, Riley, e o Range Rover familiar de meu irmão Philip (o filho do meio), que tinha todos os tipos de acessórios, incluindo televisão na parte de trás dos encostos de cabeça, para as crianças assistirem em seus dez minutos de carro do balé até a aula de basquete. — Recupere as forças do motor, sairemos em duas horas, no máximo — eu disse e dei um tapinha na “cabeça” do Sebastian. Olhei para a casa. Não sei de que época ela era, mas não era “Georgewardiana” como eu havia brincado na festa de Natal dos Schubert, para a diversão de meus irmãos, desgosto de meu pai e orgulho de minha mãe. A casa era impressionante. Fora, originalmente, construída como uma mansão por lorde Alguém, que depois jogou fora sua fortuna, e foi vendida para outra pessoa que escreveu um livro famoso. E, por isso, por lei, foi obrigatório colocar uma placa de bronze com o nome do escritor fora dos portões, para os nerds literários, mas, principalmente, para que as praticantes de marcha atlética, de passagem com traseiros empinados, pudessem olhar e franzir as sobrancelhas, pois não tinham uma placa de bronze do lado de fora de suas casas. O famoso escritor teve umrelacionamento ilícito com um poeta deprimido, que construiu uma ala leste, para escapar quando quisesse. A casa tinha uma impressionante biblioteca, contendo comunicações de lorde Alguém para lady Qualquer, e comunicações mais doces de lorde Alguém para lady Segredo, enquanto ele estava casado com lady Qualquer, e os escritos originais do famoso escritor, que foram emoldurados e pendurados nas paredes. As obras do poeta deprimido ficavam desprotegidas na prateleira, ao lado de um atlas do mundo e da biografia de Coco Chanel. Ele não vendeu muitos livros, nem mesmo depois que morreu. Depois de um caso tumultuado e bem documentado, o famoso escritor bebeu todo seu dinheiro e a casa foi vendida para uma próspera família alemã, que fabricava cerveja na Baviera e que a utilizava como casa de férias. Enquanto estiveram ali, os alemães adicionaram uma ala oeste muito impressionante e uma quadra de tênis, que, pela evidência de suas fotografias desbotadas empreto e branco, seu filho, marinheiro padrão com excesso de peso e, aparentemente, infeliz, Bernhard, não gostava de aproveitar. Também foi encontrada uma garrafa original da cerveja da família em um armário de imbuia, que estava, agora, no bar Silchester. As memórias e os vestígios dessas outras vidas eram palpáveis na casa e eu sempre quis saber o que, exatamente, mamãe e pai deixariam para trás, além dos interiores Ralph Lauren mais recentes.

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