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A viagem de Iris – Gill Lewis

Eu a vi primeiro, uma menina magra e pálida deitada numa pedra plana abaixo das corredeiras. Estava inclinada para fora da borda, estendendo a mão para uma poça funda de água parada. Espirais de espuma do rio se agarravam à beira das mangas arregaçadas e às pontas flutuantes do cabelo ruivo e comprido. Ela observava alguma coisa nas sombras escuras do rio. Rob e Euan pararam ao meu lado na abertura entre as árvores, os pneus das bicicletas derrapando na trilha enlameada. — O que você está olhando, Callum? — perguntou Rob. — Tem alguém lá — respondi. — Uma garota. Euan afastou um galho de pinheiro para ver melhor o rio lá embaixo. — Quem é? — Não sei — disse. — Mas é maluca. Deve estar gelado lá. — Olhei de um lado a outro do rio para ver se estava com alguém, mas não havia ninguém. Ela estava sozinha. O rio era rápido e estava cheio com a chuva forte. Descia do lago que havia no vale alto acima de nós. A neve de fins de março ainda se agarrava às ravinas da montanha. O lago e o rio eram frios como gelo. — Ela está no nosso rio — comentou Rob com cara feia. A menina enfiou o braço mais fundo. A água cobriu a manga da blusa e subiu até o ombro. — O que ela está fazendo? — perguntei. Euan baixou a bicicleta no chão. — Pescando, é isso. A menina se jogou à frente num borrão de borrifos.


Quando voltou a se sentar, segurava uma enorme truta marrom, que se debatia nas suas mãos. Ela jogou o cabelo por sobre a cabeça, e, pela primeira vez, conseguimos ver claramente o seu rosto. — Eu a conheço — afirmou Rob. Virei-me para olhá-lo. O rosto dele estava franzido e irritado. — Quem é? — perguntei. Mas Rob já tinha saído da bicicleta e descia marchando a margem do rio, na direção dela. — Rob — chamei. A menina ergueu os olhos, nos viu e tentou esconder o peixe nos braços. Euan e eu corremos até a beira d’água atrás de Rob. Um canal estreito de água rápida corria entre nós e a garota. Rob gritou para ela. — Iona McNair? A menina se levantou. Rob pulou para a rocha plana e agarrou o braço dela. — Você é uma ladra, Iona McNair, igual à sua mãe. A menina lutou para segurar o peixe escorregadio. — Não estou roubando — gritou. Rob puxou dela o peixe e pulou de volta para a margem do rio. — Então isto aqui é o quê? — Ele ergueu o peixe. — Este rio é de Callum, e você está roubando. Então todos me olharam. — E então, Callum? — perguntou Rob. — Qual a punição por pescar na sua fazenda sempermissão? Abri a boca, mas não saiu nenhuma palavra. — Não preciso de permissão — cuspiu Iona. — Não usei vara.

— Você é ladra — berrou Rob. — E não queremos você aqui. Olhei Iona, e ela franziu os olhos para mim. Rob largou no chão o peixe que se debatia e pegou uma sacola plástica perto do casaco de Iona, na beira do rio. — O que mais tem aqui? — Solte, isto é meu — berrou Iona. Rob virou a sacola e derrubou um par de tênis velhos e um caderno gasto. Catou o caderno do chão e sacudiu a lama. Iona pulou para a margem do rio e tentou tirá-lo dele. — Devolva! É segredo. — Ela mordeu o lábio, como se tivesse falado demais. As mãos tremiam, e os braços e pés estavam azulados de frio. — Devolva, Rob — pedi. — É — reforçou Euan. — Vamos, Rob, largue. — Esperem um instante. — Ele começou a folhear as páginas. — Vejamos o segredo que ela quer esconder. Iona tentou agarrar o caderno, mas Rob o segurou fora de seu alcance, rindo. — Qual é o seu segredo, Iona McNair? — provocou ele. As páginas esvoaçavam na brisa. Avistei desenhos a lápis de animais e pássaros e muitas anotações à mão. Uma página se abriu numa pintura do lago em tons de cinza e roxo profundos. Iona pulou e arrancou o caderno das mãos dele. Saltou de volta para a pedra plana e segurou o caderno sobre a água. — Nunca vou te contar — gritou ela —, nunca! Rob deu um passo na direção dela.

— Vamos. Quero ver. — O rosto de Iona estava feroz e decidido. — Deixe para lá, Rob — berrei. Euan tentou puxá-lo, mas Rob se soltou dele. — Qual é o grande segredo, Iona? — gritou Rob. E se jogou na direção dela. Iona pulou pelas pedras para a outra margem do rio. Era um salto impossível. Escorregou numa pedra molhada e caiu numa poça profunda do outro lado. O caderno voou das suas mãos e girou no ar antes de cair nas águas revoltas e sumir. Iona conseguiu sair do rio e sumiu pela margem íngreme acima, na densa floresta de pinheiros. O rio se lançou pelo vale entre nós, levando consigo o caderno e o segredo de Iona. CAPÍTULO 2 Euan se virou para Rob. — Por que você fez aquilo? Eram três contra um. Ela estava sozinha. Rob chutou a urze e fitou a outra margem do rio. — Meu pai faliu por causa da mãe dela. — Ele se virou de cara feia para Euan. — Ela roubou cada centavo do dinheiro dele e fugiu. Ela não ousaria pôr os pés de volta na Escócia. — Isso foi há vários anos — disse eu. — O que Iona está fazendo de volta agora? — Roubando para a mãe, provavelmente — respondeu Rob, irritado. — Eles não prestam, os McNair. Meu pai nunca vai perdoar aquela família pelo que ela fez.

Euan cuspiu no chão e fitou Rob. — O que você vai fazer com o peixe? Rob pegou a truta. Estava morta. O corpo perdera o lustro brilhante, e os olhos estavam opacos e vidrados. Ele se virou para mim e a enfiou no bolso fundo do meu casaco. — O rio é seu, logo o peixe é seu. — Não quero — respondi. Mas Rob só me lançou um olhar carrancudo e subiu marchando até as bicicletas. — Ela esqueceu o casaco e o tênis — disse eu a Euan. — É melhor deixar aí — respondeu ele, seguindo Rob. — Ela vai achar quando voltar. Euan saiu de bicicleta atrás de Rob, e observei-os derrapar e sacolejar pela trilha enlameada. Puxei meu capuz, prendi o capacete de ciclista e calcei as luvas. Olhei as margens de um lado a outro, tentando avistar a menina. E a vi no alto do vale, uma figurinha a distância, seguindo para o lago. O vento frio soprava entre as árvores. Ia chover, dava para sentir. Fui em frente e segui Rob e Euan pela trilha íngreme ao lado do rio, mas o tempo todo não conseguia parar de pensar que a gente deveria esperar por ela. Euan e Rob me aguardavam junto à velha pedreira. Euan segurava o portão aberto da trilha de minério que ia até a aldeia no vale lá embaixo. — Vem conosco? — perguntou. Fiz que não. — Volto para casa daqui, pelo campo. É mais rápido. Observei os dois desaparecerem pela trilha de minério rumo ao brilho fosco e alaranjado das lâmpadas das ruas a distância.

A luz do dia sumia depressa. Logo estaria escuro. A chuva começou a cair, aguda e fria como agulhas de gelo. Olhei para trás na esperança de ver Iona, mas não consegui enxergá-la em lugar nenhum. Ela estava sem sapato e sem casaco, e as roupas estavam encharcadas. Congelaria se ficasse lá em cima. Todo ano morria gente na montanha, despreparada ao ser pega pelo mau tempo. Virei a bicicleta e voltei por onde tinha passado para procurá-la. Torrentes de água corriam pelos sulcos profundos. No caminho, peguei o casaco e o tênis de Iona e parei no alto da trilha para recuperar o fôlego. A margem íngreme e arborizada do lago encontrava-se oculta pela chuva. Iona podia estar em qualquer lugar. Segui o caminho até o outro lado do lago, gritando seu nome. As nuvens estavam baixas e pesadas. Ondas escuras batiam contra as pedras. — Iona! — gritei, mas minha voz foi levada pelo vento. Talvez tivesse passado por ela. Talvez ela já estivesse a caminho da aldeia. Eu não podia ficar ali a noite toda. Dei meia-volta na bicicleta para ir para casa, mas o pneu derrapou numa pedra. Olhei para baixo e vi a pegada de um pé nu na lama ao lado. A chuva já fizera poças no calcanhar e na ponta. Iona tinha passado por ali. Pulei da bicicleta e segui as pegadas. Um pouco mais abaixo na trilha elas sumiram.

Achei que Iona saíra da trilha e entrara no bosque. Musgo e agulhas de pinheiro cobriam o chão. — Iona — gritei. — Estou com o seu casaco. Entrei mais na floresta. Estava escuro sob a cobertura das árvores, quase escuro demais para enxergar. Sabia que minha mãe e meu pai ficariam preocupados, sem saber onde eu estava. — Iona — chamei de novo. Mas não houve resposta. Virei para retornar à bicicleta e levei um susto. Iona estava em pé bem na minha frente. Usava um suéter grande demais, calça de corrida e um gorro de lã que cobria suas orelhas. Mas ainda estava descalça e tremia de frio. — Trouxe o seu casaco e o tênis — disse eu. Enfiei-os nas mãos dela. — Vista tudo e vá para casa. Logo vai escurecer. — Olhei em volta, mas não consegui ver de onde ela tirara as roupas secas. Iona vestiu o casaco, sentou-se numa pedra e enfiou os pés nos tênis. As mãos tremiam, e os dedos estavam azulados. Remexia inutilmente os cadarços. Ajoelhei-me e os amarrei. Ela me fitou quando me levantei. — Não pode me impedir de vir aqui. — Você escutou Rob — retruquei.

— Ninguém quer você aqui. Agora sabemos de você. Vamos encontrá-la. — Tenho de voltar — disse ela. As palavras escorregaram, mal formaram um sussurro. Fiz que não. — Eu não estava roubando — disse ela, batendo os dentes. — Eu não usei vara. Enfiei a mão no bolso do casaco. — Pegue a truta e vá embora — disse eu. Joguei-a no chão perto dela. Ela rolou na terra e parou junto a seus pés. Iona me olhou e fez espirais com os dedos nas agulhas de pinheiro do chão. Círculos, rodando, rodando, rodando. — Se me deixar voltar, eu te conto o segredo — disse. Fitei-a. Ela se levantou e me encarou. — Está aqui, na sua fazenda. — Conheço tudo nesta fazenda — afirmei. Iona fez que não. — Não conhece. Você não sabe nada sobre isso. Ninguém sabe. — O que te dá tanta certeza? — perguntei. Ela me olhou.

— Só sei. Como podia saber algo sobre a minha fazenda que eu não sabia? Talvez o avô dela soubesse alguma coisa. O Sr. McNair era tão velho quanto as montanhas. Ele cultivava a terra ao lado da nossa antes de se mudar para a aldeia. Mas isso foi há anos, antes mesmo de eu nascer. — Então o que é? — perguntei. — Se eu te contar — sussurrou ela —, você não pode contar nada a ninguém, nem aos seus amigos, a ninguém. Ficamos ali parados, nos fitando à meia-luz. O vento corria pelos galhos de pinheiro lá em cima. A água da chuva pingava das árvores e tamborilava no chão da floresta. — Tudo bem — concordei. — E me deixa voltar à sua fazenda? — Iona cuspiu na palma da mão e a ergueu. Descalcei a luva, cuspi na minha mão e apertei a dela. — Combinado. Ela afastou dos olhos o cabelo emplastrado. — Então amanhã de manhã — disse ela. — Venha me encontrar aqui, no lago. Ela pegou o peixe, desapareceu entre as árvores escuras e se foi. CAPÍTULO 3 Estava escuro quando pedalei pelos campos rumo à casa da fazenda. A chuva diminuíra, mas eu estava encharcado. Era difícil avançar, os pneus afundavam e escorregavam na lama pegajosa. A luz estava acesa na cozinha e dava para ver minha mãe ao telefone. Empurrei a bicicleta pelo barracão dos cordeiros e abri o portão do quintal com um pontapé. A porta do barracão dos cordeiros se abriu, e a silhueta do meu pai se delineou na abertura.

— Callum, é você? — Sou, pai. — Onde você estava? — perguntou ele. — Já devia ter voltado há horas. — A corrente da bicicleta soltou — menti. — Sinto muito. — Vá avisar à sua mãe — disse papai. — Ela já ligou para metade da aldeia tentando descobrir onde você estava. Mandou Graham ir te procurar. Ele ficou danado. Ia sair para assistir a um show hoje à noite. É melhor eu mandar uma mensagem para ele. Encostei a bicicleta na parede, tirei as botas com um chute e me enfiei na cozinha. Meus pés deixaram grandes pegadas molhadas no piso de pedra. — Olhe só o seu estado — disse minha mãe. — Eu estava preocupadíssima. Você devia voltar antes de escurecer. Rob e Euan falaram que vocês foram até o rio. Graham está lá agora, procurando você. — O pai mandou uma mensagem para ele — avisei. — Vá vestir uma roupa seca e venha tomar chá — disse mamãe. — Se eu fosse você, evitaria Graham. Subi a escada até meu quarto e tirei a roupa molhada. Meus dedos estavam dormentes de frio. Vesti um suéter e a jaqueta, as calças forradas e dois pares de meia, mas ainda me sentia gelado. Pensei em Iona.

Onde quer que estivesse morando, torci para que já tivesse chegado em casa. E se não tivesse? Sabia que o avô dela morava nos limites da aldeia, mas ele era o Maluco McNair. Eu não iria até lá. Desci para a cozinha e me sentei à mesa. Meu pai também estava lá, devorando a torta de carne e as batatas fritas. A porta bateu, e Graham passou direto. Nem olhou para mim. Minha mãe me entregou um prato de comida. Eu estava morrendo de fome. Soaram botas pesadas no caminho lá fora, e houve uma batida forte na porta. — Entre, Flint — gritou minha mãe. Flint, primo mais velho de Rob, passou pela porta com a roupa de motoqueiro, o capacete na mão. Noite de sexta. Ele e Graham iam assistir a um show na cidade vizinha. — Graham não demora — comentou minha mãe. — Aceita um pouco de torta, Flint? Flint sorriu. — Nunca recuso uma fatia da sua torta, Sra. McGregor. A senhora me conhece. Ele se sentou à mesa, inclinou-se na minha direção e cochichou: — Disseram que você está lascado, garoto. Enfiei o garfo em outra batata frita. — Se serve de consolo — continuou Flint, para que meus pais ouvissem —, a tia Sal deu um bompuxão de orelhas no Rob quando ele chegou em casa. Estava encharcado, parecia um rato afogado. Foi para a cama sem jantar. Terminei minha torta.

Será que Rob tinha falado de Iona à mãe? Achei que não. Tentei mudar de assunto. — Nossa família trabalha esta terra há mais de cem anos, não é? — perguntei. Meu pai ergueu os olhos. — Por aí — respondeu. — Por quê? — Há algum segredo aqui? — Segredo? — perguntou ele, espantado. — Que tipo de segredo? Nesse momento, Graham entrou na cozinha. Tomara um banho e vestira a roupa de motoqueiro. Cheirava a xampu e loção pós-barba. — Só sei de um segredo — disse, olhando diretamente para mim. — É a cova rasa onde jogarei você se me atrasar de novo. — Graham! — enfatizou minha mãe. Mas Graham já saía pela porta. — Obrigado, Sra. McGregor — disse Flint, seguindo Graham até o quintal. As motocicletas rugiram ao serem ligadas, e observei os faróis ziguezaguearem pela trilha da fazenda. — Não sei de nenhum segredo — observou meu pai. — Por quê? Dei de ombros. — Nada não — respondi. Mas, lá no fundo, não pude deixar de sentir que havia algo de que nenhum de nós sabia, um segredo escondido em algum lugar nos morros e vales da fazenda. Amanhã eu descobriria.

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