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A Viagem de Morgan – Colleen McCullough

— ESTAMOS EM GUERRA! — EXCLAMOU O SR. JAMES Thistlethwaite. Todas as cabeças, exceto a de Richard Morgan, se ergueram em direção à porta, onde se encontrava uma volumosa figura brandindo uma folha muito fina de jornal. Por momentos poder-se-ia ouvir cair um alfinete, e em seguida uma confusa algazarra de exclamações surgiu em cada mesa da taberna, exceto na de Richard Morgan. Este pouca atenção dera à arrebatadora declaração: que importava a guerra com as treze colónias americanas, em comparação com o destino da criança que segurava ao colo? Havia quatro dias que o primo James – Farmacêutico tinha inoculado o rapazinho contra a varíola e agora Richard Morgan esperava, numa agonia, para ver se a inoculação pegara. — Entra, Jem, lê-nos lá isso — disse, de trás do balcão, Dick Morgan, estalajadeiro e pai de Richard. Embora lá fora brilhasse o sol do meio-dia e a luz se espalhasse através do vidro das janelas de penáceos da Cooper’s Arms, a enorme sala estava na penumbra. Assim, o Sr. James Thistlethwaite dirigiu-se ao balcão e à luz de um candeeiro de petróleo, com a coronha das pistolas a sair-lhe dos bolsos do casacão. Com os óculos encravados na ponta do nariz, começou a ler em voz alta, erguendo e baixando o tom em cadências mais dramáticas. Com efeito, parte do que disse penetrou o nevoeiro da preocupação de Richard Morgan —fragmentos, frases apenas: “… numa rebelião aberta e confessada… as maiores tentativas para se suprimir tal revolta e entregar os traidores à justiça…” Sentindo o desprezo no olhar do pai, Richard tentou efetivamente concentrar-se. Mas estaria já a febre a subir? Estaria? Se assim fosse, era sinal de que a inoculação pegara. E se tivesse pegado, seria William Henry um daqueles que, de qualquer modo, contrairia a doença? E se afinal merece? Meu Deus, por favor, não! O Sr. James Thistlethwaite chegava à parte final do seu discurso: — Os dados estão lançados! As colónias ou se submetem ou triunfam! – vociferou. — Que modo tão estranho para o rei o afirmar — disse o estalajadeiro. — Estranho? — Parece que o rei considera a possibilidade de um triunfo colonial. — Oh, duvido muito, Dick. O homem que lhe escreveu o discurso, calculo que um vil subsecretário do seu querido amiguinho Lorde Bute, deve sentir-se fascinado com os equilíbrios da retórica, não? — Esta última palavra foi acompanhada pelo gesto do dedo indicador apontando para a boca. O estalajadeiro sorriu, despejou uma medida de rum para uma pequena peça de estanho e depois voltou-se para fazer um risco a giz na ardósia que tinha pendurada na parede. — Dick, Dick! As notícias que eu trouxe merecem um por conta da casa! — Não merecem, não. Mais cedo ou mais tarde haveríamos de as ouvir — o estalajadeiro apoiou os cotovelos no balcão, no sítio onde havia já duas leves depressões, e fitou o Sr. Thistlethwaite, armado e de casacão, louco varrido! O dia de Verão estava sufocante. — Francamente, Jem, não exatamente uma surpresa, mas mesmo assim são notícias preocupantes. Mais nenhuma outra voz tentou participar na conversa; Dick Morgan estava de boas relações com os seus clientes e JAMES Thistlethwaite gozava havia muito da reputação de ser um dos intelectuais mais excêntricos de Bristol. Os outros clientes contentavam-se em escutá-los enquanto emborcavam bebida da sua preferência — rum, genebra, cerveja, “leite de Bristol”.


As duas senhoras Morgan andavam por ali, levantando os copos vazios e levando-os a Dick para que os voltasse a encher — e fizesse mais riscos na ardósia. Eram quase horas de jantar; o cheiro a pão quente, que Peg Morgan acabara de trazer do padeiro Jenkins, penetrava através dos outros odores próprios de uma taberna adjacente aos cais de Bristol na maré baixa. A maior parte dos homens, mulheres e crianças presentes se manteriam ali, para se servirem desse mesmo pão, de um rolinho de manteiga, de um bocado de queijo do Somerset, de um prato fumegante de carne de vaca com batatas, nadando num molho espesso. O pai olhou-o. Tristemente consciente de que Dick o desprezava por ser um fraco, Richard procurou qualquer coisa para dizer. — Creio que estávamos à espera — disse com uma expressão vaga — que nenhuma das outras colónias apoiasse Massachusetts, tendo esta sido avisada que estava a ir longe de mais. Será que acreditavam mesmo que o rei se desse ao trabalho de ler a carta deles? Ou, mesmo que o tivesse feito, que cedesse às suas exigências? São ingleses! O rei também é deles. — Que absurdo, Richard — disse vivamente o Sr. Thistlethwaite. — Essa preocupação obsessiva que tens pelo teu filho está a deteriorar-te rapidamente o aparelho pensador! O rei e os seus ministros sicofantas inclinam-se para mergulhar na desgraça a nossa ilha coroada! Em menos de um ano, oito mil toneladas de navios de Bristol regressaram por descarregar das treze colónias! A fábrica de sarja de Redcliff faliu e as quatrocentas pessoas que lá trabalhavam foram deixadas a pedir esmola! Já para não falar naquele sítio perto de Port Wall que fabrica tapetes de lona pintada para a Carolina e para a Geórgia! Os fabricantes de cachimbos, de sabão, de garrafas, de açúcar e rum… por amor de Deus, homem! A maior parte do nosso comércio é feito com o outro lado do oceano e principalmente com as treze colónias! Entrar em guerra com elas é um suicídio comercial! — Compreendo — respondeu o estalajadeiro, pegando na folha de jornal, para a examinar semicerrando os olhos. — Lorde North emitiu uma… uma “Proclamação para Suprimir a Rebelião Armada”. — É uma guerra que não poderemos vencer — afirmou o Sr. Thistlethwaite, estendendo e abanando a caneca vazia na direção de Mag Morgan. Richard tentou mais uma vez. — Então, Jem! Vencemos a França depois de sete anos de guerra. Somos o país mais importante e mais valente do mundo! O rei de Inglaterra não perde as suas guerras. — Porque combate muito próximo de Inglaterra, ou contra pagãos, ou selvagens ignorantes, vendidos pelos seus próprios governantes. Mas os homens das treze colónias são, como bemdisseste, ingleses. São civilizados e conhecedores dos nossos modos de agir. São sangue do nosso sangue — o Sr. Thistlethwaite encostou-se, suspirou e franziu os florescentes contornos alcoólicos do seu bolboso nariz. — Julgam não estarem a ser levados a sério, Richard, acham-se enganados, desprezados, desconsiderados. São ingleses sim, mas não de bom nome. E estão lá muito longe, o que é uma urtiga que o rei e os seus ministros agarraram, na mais completa ignorância. Podes dizer que a nossa marinha vence as guerras.

Há quanto tempo não enfrentamos ou fomos derrotados por umexército de terra fora das nossas ilhas? Porém, como poderemos derrotar numa guerra naval uminimigo que não tem barcos? Temos de combater em terra, em treze diferentes bocados de terra, que mal se ligam entre si. E contra um inimigo não organizado, que não sabe conduzir-se com perfeição militar. — Acabaste de deitar por terra o teu próprio argumento, Jem — disse o estalajadeiro sorrindo, mas sem pegar no giz, enquanto entregava a Mag uma nova caneca de rum. — Os nossos exércitos são de primeira ordem. Os colonos não conseguirão fazer-lhes frente. — Concordo! Concordo! — exclamou Jem, erguendo o seu rum granito numa saúde ao estalajadeiro que, raras vezes, era generoso. — Provavelmente os colonos nunca vencerão a batalha. Mas não precisam, Dick. Só precisam de resistir. Porque combateremos nas terras deles e não em Inglaterra. Levou a mão ao bolso esquerdo do casacão; dela tirou uma enorme pistola que pôs na mesa comum estrondo, enquanto os outros ocupantes da taberna se encolheram e gritaram de terror. Richard, com o filho ao colo, empurrou-lhe o cano para o lado tão depressa que ninguém o viu tocar-lhe. A pistola, conforme era do conhecimento de todos, estava carregada. Inconsciente da consternação que causara, o Sr. Thistlethwaite enfiou a mão nas profundezas do bolso e tirou de lá alguns bocados dobrados de papel fino. Examinou-os um por um, com os óculos a aumentarem-lhe os pálidos olhos azuis raiados de sangue, com o cabelo escuro e encaracolado, escapando-se da fita com que o prendera descuidadamente na nuca — nada de cabeleiras ou rabichos para o Sr. James Thistlethwaite. — Ah! — exclamou finalmente, exibindo um jornal de Londres. — Há sete meses e meio, senhoras e senhores da Cooper’s Arms, houve um grande debate na Câmara dos Lordes, durante o qual, William Pitt, conde de Chatham, esse grande homem já tão idoso, pronunciou aquilo que foi considerado o seu grande discurso. Em defesa dos colonos. Mas não foram essas palavras que me emocionaram — continuou o Sr. Thistlethwaite. — foram sim as do duque de Richmond e passo a citar: “Podeis espalhar fogo e desolação, mas isso não será governo!” É verdade, é a pura verdade! Depois foi a parte que considerei ser uma das grandes verdades filosóficas, embora os lordes ressonassem já, enquanto a pronunciou: “Ninguém pode ser obrigado a submeter-se a uma forma de governo que diga não tolerar.” Olhou em redor acenando com a cabeça. — É por isso que eu digo que as batalhas que vencermos de nada servirão e pouco efeito irão de ter no resultado da guerra.

Se os colonos resistirem, devem vencer — tinha os olhos brilhantes, quando dobrou o jornal, meteu os papéis dentro do bolso e enfiou nele a pistola. — Sabes de mais acerca de armas, Richard, é esse o teu problema. A criança nunca esteve em perigo, nem nenhuma pessoa daqui — um rumor ergueu-se na garganta e vibrou por entre os seus lábios apertados. — Vivi toda a minha vida nesta latrina fedorenta chamada Bristol e aliviei a sua monotonia tornando objeto dos meus libelos as feridas purulentas do Partido Tory que se encontram no governo, sejam quais forem as suas funções — acenou para a assistência com o seu velho tricórnio e fechou os olhos. —Se os colonos resistirem, devem vencer — repetiu. — Qualquer pessoa que viva em Bristol conhece um milhar de colonos. Andam por aqui como morcegos ao fim do dia. A morte do império, Dick! É a primeira irritação nas nossas gargantas inglesas. Acabei por conhecer os colonos e digo-te que irão de vencer. Um ruído estranho e agourento começou a chegar-lhes do exterior, era o som de muitas vozes zangadas; as formas distorcidas dos transeuntes que passavam vagarosamente pelas janelas transformaram-se de repente em manchas apressadas. — Um motim! — Richard erguia-se, ao mesmo tempo que entregava o filho à mulher. — Peg, já lá para cima com William Henry! Mãe, vá com eles — olhou para o Sr. Thistlethwaite. — Jem, tencionas disparar com uma pistola em cada mão ou emprestas-me a outra? — Deixa estar! Deixa estar! — Dick saiu de trás do balcão para se revelar uma cópia fiel de Richard, mais alto do que a maioria, de constituição musculosa. — A esta ponta da Broad Street nunca chegam os motins, nem mesmo quando os marinheiros dos barcos de carvão vieram de Kingswood e arrebataram o velho Brickdale. Nem sequer quando os marinheiros andam por aí a fazer barulho. Seja o que for que esteja a acontecer, não se trata de um motim — dirigiu-se à porta. — Porém, tenho vontade de saber o que se passa — disse e desapareceu por entre a multidão que corria. Os ocupantes da Cooper’s Arms seguiram-no, incluindo Richard e Jem Thistlethwaite, ainda com as pistolas a espreitar do bolso do casacão. Na rua, surgia gente de todos os lados, e mais pessoas se debruçavam do cimo dos terraços esticando os pescoços; não se via uma única laje, nem uma só pedra do novo passeio para peões de ambos os lados de Broad Street. Os trés homens entraram na turba e seguiram com ela até ao cruzamento da Wine com a Com Street — não, não era um motim. Tratava-se de cavalheiros abastados, extremamente irritados, que não traziam consigo mulheres ou crianças. No outro lado da Broad Street e um pouco mais perto da zona comercial, junto à Câmara e à Bolsa ficava a White Lion Inn, quartel-general da Steadfast Society. Era o clube dos tories, fonte de grande apoio a Sua Majestade Britânica, o rei Jorge III, de quem eram partidários até à morte.O centro da perturbação era a American Coffee House, mesmo ao lado, tendo na sua tabuleta a bandeira vermelha e branca com muitas riscas, usada como pendão pela maior parte dos colonos americanos, quando as Bandeiras do Connecticut, da Virgínia ou de qualquer outra colónia não eram apropriadas.

— Creio — afirmou Dick Morgan, erguendo-se, em vão, em bicos dos pés — que faríamos melhor em voltar para a Cooper’s Arms e vermos as coisas do terraço. Assim fizeram, subindo as trémulas e desengonçadas escadas, do lado de dentro do balcão, que finalmente os levaram às janelas perigosamente inclinadas sobre a Broad Street. No quartinho das traseiras o pequeno William Henry chorava, com a mãe e a avó debruçadas sobre o seu berço amimando-o e dando pequenos estalos com a língua para o sossegar; o tumulto na rua não tinha qualquer interesse para Peg ou Mag enquanto William Henry mostrasse tão terrível desgosto. E também não interessou Richard que foi ter com as mulheres. — Richard, ele não vai morrer nos próximos minutos! — disse rispidamente Dick da sala. —Vem cá ver, que raio! Richard obedeceu, mas foi com relutância que se debruçou da janela aberta e olhou atordoado. — São ianques, pai! Meu Deus, que estão a fazer àquelas coisas? Tratava-se certamente de “oisas duas efígies de trapo profissionalmente recheadas de palha, cobertas de alcatrão ainda fumegante e com penas espetadas, exceto as cabeças, sobre as quais se podia ver a insígnia dos colonos — os seus chapéus abismalmente fora de moda, mas muito práticos, com a aba levantada, toda em volta, de modo que a copa redonda parecia a gema, no meio de um ovo estrelado. — Salve! — vociferou Jem Thistlethwaite, ao divisar um rosto seu conhecido, pertencente a umcorpo ricamente vestido, empoleirado numa carroça puxada por um cavalo, carregada de altos barris. — Que se passa, mestre Harford? — A Steadfast Society diz que enforcou o John Hancock (1) e o John Adams! — respondeu o quaker plutocrata. — Como? Porque o general Gage se recusou a estender o seu perdão depois de Concord (2)? — Não sei, mestre Thistlethwaite. — Decerto aterrorizado que também ele fosse admoestado com um libelo pouco elogioso, Joseph Harford desceu do seu ponto de observação e misturou-se na turba. — Hipócrita! — disse o Sr. Thistlethwaite entre dentes. — Samuel Adams, não John Adams — esclareceu Richard, já mais interessado. — Com certeza se trata do Samuel Adams (3). — Se a Steadfast Society tenciona enforcar os abastados mercadores de Boston, então sim, deve tratar-se de Samuel. Mas John escreve e fala ainda mais — afirmou o Sr. Thistlethwaite. Numa cidade maritimamente orientada, não havia qualquer dificuldade em fazer aparecer cordas com os eficazes nós dos enforcados; surgiram duas, como que por magia, e os bonecos rígidos e hirsutos foram pendurados pelo pescoço no poste da tabuleta da American Coffee House para rodarem preguiçosamente e arderem pouco a pouco. Tendo dado vazão à sua raiva a multidão de homens da Steadfast Society desapareceu dentro das acolhedoras portas azuis dos tories da White Lion Inn. — Tories emproados! — disse o Sr. Thistlethwaite, descendo as escadas com o pensamento quase exclusivamente ocupado por uma bela caneca de rum. — Fora, Jem! — disse o estalajadeiro, trancando a porta até ter a certeza de que a perturbação tinha definitivamente terminado. Richard não seguiu o pai até lá abaixo, embora o dever o exigisse; o seu nome estava agora junto ao de Dick nos livros oficiais da Corporação. Richard Morgan, dono de um estabelecimento de venda de bebidas alcoólicas, pagara a quota e tornara-se um creditado Homem Livre, cidadão comdireito de voto numa cidade, só por si um condado distinto do de Gloucestershire e do de Somersetshire que a rodeavam, um cidadão da segunda maior cidade de toda a Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda.

(1) John Hancock (1737-1793), estadista americano, primeiro signatário da Declaração de Independência dos Estados Unidos. (N. da T.) (2) Segunda batalha da Revolução Americana, travada na cidade do mesmo nome, a 19 de Abril de 1775. (N. da T.) (3) John Adams (1735-1826) e Samuel Adams (1722-1803) foram ambos líderes da Revolução Americana, acabando o primeiro por vir a ser o segundo presidente dos Estados Unidos. (N. da T.) Das cinquenta mil almas que viviam apertadas dentro dos seus limites, apenas sete mil eramHomens Livres, com direito a voto. — Está a pegar? — perguntou Richard à mulher, inclinando-se sobre o berço; William Henry acalmara e parecia dormitar um pouco inquieto. — Sim, meu amor — respondeu Peg, com os olhos castanhos subitamente cheios de lágrimas e os lábios trémulos. — Agora é altura de rezarmos, Richard, para que ele não tenha varíola. Embora a febre não seja tão alta como a de Mary — empurrou afetuosamente o marido. — Vai dar um grande passeio. Podes rezar e caminhar. Vai lá! Por favor, Richard. se ficares o teu pai vai resmungar. Uma peculiar letargia descera sobre a Broad Street como resultado do pânico que parecia espalhar-se pela cidade, sempre que havia ameaça de motins. Ao passar pela American Coffee House, Richard deteve-se por um momento a contemplar as efígies penduradas de John Hancock e John Samuel Adams, assaltando-lhe os ouvidos as gargalhadas caprichosas e as más disposições que se originavam por entre as fileiras dos comensais da SteadEast Society dentro da White Lion Inn. Torceu ao de leve os lábios num jeito de desprezo; os Morgan eram whigs (1) ferrenhos, cujos votos tinham contribuído para o sucesso de Edmund Burke e Henry Cruger nas eleições do ano anterior —e que circo tinha sido! E como Lorde Clare tinha ficado irritado por mal ter conseguido um voto! Caminhando agora a passos largos, Richard caminhou ao longo de Com Street e passou pela fabulosa Bush Inn de John Week, quartel-general do Whig Union Club. Dali cortou para norte e subiu a Small Street para sair na Key junto à Ponte de Pedra. O panorama que se avistava a sul era magnífico. Parecia uma rua muito larga, que estivesse repleta de navios, ainda em esqueleto, apenas com os mastros, as vergas, as escoras e as enxárcias sobre as traves dos bojos de carvalho. Do rio Froom, onde de fato se encontravam, nada se podia ver, por causa dessas numerosas embarcações que, pacientemente, aguardavam o passar dos dias da sua quarentena de vinte semanas.

A maré tinha vazado completamente, para logo começar a subir a uma velocidade espantosa: o nível da água quer no Froom quer no Avon subia nove metros em cerca de seis horas e meia e depois baixava outros nove. Na vazante os navios ficavam assentes na lama fétida, que descia a pique, escorregadia e que os inclinava para o lado sobre os costados; na enchente os navios flutuavam, pois eram construídos para isso. (1) Membros do principal partido político na Grã-Bretanha, entre 1679 e 1832, que seguia princípios liberais e era favorável às reformas. (N da T.) Fim da nota de rodapé. Muitas quilhas se tinham arqueado e deformado devido à pressão de ficarem inclinadas na lama de Bristol. Uma vez terminada a sua reação instintiva àquela larga avenida de navios, o espírito de Richard voltou ao mesmo. Senhor Deus, escutai a minha prece! Protegei o meu filho. Não me tireis o meu filho, a mim e à sua mãe… Não era o filho único do seu pai, embora fosse o mais velho; o irmão William era serrador, com negócio montado em St. Philip, na margem do Avon, perto de Cuckold’s Pill e das estufas, e tinha trés irmãs, todas elas bem casadas com Homens Livres. Havia aglomerações de Morgan em várias partes da cidade, mas os do clã de Richard — talvez emigrantes do País de Gales em tempos idos —eram já residentes havia muitas gerações e tinham por conseguinte ganho alguma posição; de facto, os luminares do clã, como o primo James-Farmacêutico dirigiam significativas empresas, pertenciamaos Merchant Venturers (1) e à Corporação, faziam chorudos donativos às casas dos pobres e esperavam vir um dia a ser presidentes da câmara. O pai de Richard não era um luminar do clã. Mas também não era a vergonha da família. Depois da escola elementar, fora aprender o ofício de aprovisionador e já Homem Livre, tendo pago a quota, esforçou-se por atingir o objetivo de possuir a sua própria taberna. Arranjaram-lhe um casamento socialmente aceitável: Margaret Biggs vinha de uma boa família de agricultores de perto de Bedminster e gozava da distinção de saber ler, mas não escrever. Os filhos, tendo começado com uma rapariga, chegaram em intervalos demasiado frequentes, evitando que o desgosto de ter perdido um ou outro se tivesse tornado realmente insuportável. Quando Dick aprendeu a controlar-se para se retirar antes da ejaculação, os filhos acabaram por se manter em dois rapazes e trés raparigas, todos vivos. Uma bela família, pouco numerosa, o que tornava possível a sua educação. Dick queria pelo menos um filho letrado e centrou as suas esperanças em Richard, ao aperceber-se de que William, dois anos mais novo, não tinha queda para os estudos. Assim, quando Richard fez 7 anos, foi matriculado na Escola Colston para Rapazes e vestiu o famoso casaco azul que informava as gentes de Bristol que o seu pai era pobre mas respeitável, fiel da Igreja Anglicana. (1) Comerciantes que, em tempos antigos, tomavam parte no comércio com terras distantes. (N. da T.) No decorrer dos cinco anos seguintes as letras e os números foram-lhe martelados na cabeça. Aprendeu a escrever bem, a fazer cálculo mental, mergulhou nas Guerras da Gália de César, nos discursos de Cícero e nas Metamorfoses de O vídeo, estimulado pelas pancadas amargas do ponteiro e pelos comentários cáusticos do seu professor.

Como era bom aluno, embora sem ser brilhante, e além do mais sentia alguma atração pelos estudos, resistiu melhor e retirou mais benefícios do que muitos outros da instituição filantrópica do falecido Sr. Colston. Aos 12 anos foi altura de a abandonar para se dedicar a uma profissão ou a uma arte de acordo com a sua instrução. Para surpresa dos parentes quis seguir um caminho diferente de todos os outros Morgan até esse momento. Entre as suas qualidades principais havia um talento especial para a mecânica, para juntar as peças dos quebra-cabeças; aliado a ele mostra a uma paciência verdadeiramente notável numa pessoa tão jovem. Por sua própria decisão tornou-se aprendiz de armeiro (1), o senhor Tomas Habitas. Tal decisão agradou secretamente ao pai, adepto da idéia de os Morgan produzirem um artesão ao invés de um comerciante. Além do mais, a guerra fazia parte da vida e as armas parte da guerra. Um homem que soubesse fabricá-las e repará-las, provavelmente não se transformaria em carne para canhão num campo de batalha. Para Richard, os sete anos como aprendiz foram um prazer no tocante ao trabalho e à aquisição de conhecimentos, embora um pouco menos felizes no conforto físico. Como todos os aprendizes, não era pago, vivia em casa do seu mestre, servia-o à mesa, comia os restos e dormia no chão. Felizmente o senhor Tomas Habitas era um mestre bondoso e um soberbo armeiro. Embora soubesse fazer maravilhosas pistolas de duelo e armas desportivas, era suficientemente inteligente para perceber que, se desejava prosperar naquelas áreas, teria de ser um Manton (2) e não poderia ser um Manton senão em Londres. Assim decidiu-se a fabricar o mosquete militar afetuosamente conhecido como Brown Bess por todos os soldados e marinheiros, pois as suas polegadas, de madeira para a coronha e de aço para o cano, eram de cor castanha, como uma noz. Aos 19 anos Richard estava certificado e mudou-se da casa de Habitas, sem no entanto abandonar a oficina. Aí, já como mestre continuou a fabricar as Brown Bess. (1) Em português no original. (N. do Editor) (2) Referência ao teólogo puritano Thomas Manton (1620-1677), capelão de Olíver Cromwell. (N. da T.) Casou, coisa que não lhe fora permitido enquanto aprendiz. A mulher era filha do irmão da sua mãe e, portanto, sua prima em primeiro grau, mas como a Igreja Anglicana nada tinha a opor, desposou a noiva na Igreja de St. James, sob os auspícios do primo James – do Clero. Embora arranjado, o casamento fora por amor, e os dois apaixonaram-se ainda mais com o passar dos anos.

Não sem algumas dificuldades de nomenclatura, pois Richard Morgan, filho de Richard Morgan e de Margaret Biggs tomara por esposa outra Margaret Biggs. Enquanto a armaria de Habitas prosperou, não fora muito difícil, pois o jovem casal vivia numandar de duas divisões, arrendado na Temple Street, do outro lado do Avon, mesmo à esquina da oficina de Habitas e da sinagoga judaica. O casamento realizara-se em 1767, trés anos depois da Guerra dos Sete Anos contra a França ter sido concluída com uma paz impopular. Pesadamente endividada, não obstante a vitória, a Inglaterra teve de aumentar os seus proventos, lançando novos impostos e diminuindo os gastos com o exército e a marinha por meio de pesados cortes. As armas já não eram necessárias. Assim, um a um, os artesãos de Habitas foram desaparecendo até que no estabelecimento se mantiveram apenas Richard e o próprio senhor Tomas Habitas. Por fim, logo após o nascimento da pequena Mary em 1770, Habitas, relutante, viu-se na obrigação de deixar partir Richard. — Vem trabalhar comigo — dissera cordialmente Dick Morgan. — As armas podem ir e vir, mas o rum será eterno. Acabara por ser acertado, apesar do problema dos nomes. A mãe de Richard sempre fora conhecida por Mag e a mulher por Peg, dois diminutivos do nome Margaret. O verdadeiro problema era que, excetuando os sarcásticos dissidentes protestantes, que batizavam a sua descendência masculina com nomes como “Cranfield” ou “Onesiphorus”, quase todos os varões de Inglaterra se chamavam John, William, Henry, Richard, James ou Thomas, enquanto as mulheres eram Ann, Catherine, Margaret, Elizabeth ou Mary. Um dos poucos costumes que abrangia todas as classes, da mais alta à mais baixa. Afinal Peg, deliciosamente terna e aquiescente, não concebia com facilidade. Mary fora o fruto da sua primeira gravidez, quase trés anos depois do casamento, mas não por falta de tentativas. Naturalmente que o casal esperara um filho varão, por conseguinte fora uma desilusão terem de procurar um nome feminino. Richard preferiu Mary que não era vulgar no clã e (conforme o pai lhe dissera, com toda a franqueza) tinha um certo toque papista. Não importava. A partir do momento em que tomou nos braços a filha recém-nascida e a olhou com assombro, Richard Morgan descobriu dentro de si um oceano de amor ainda por explorar. Talvez por ser tão paciente, sempre gostara e se dera bem com crianças, mas isso não o preparara para aquilo que sentiu quando olhou a pequena Mary. Sangue do seu sangue, ossos dos seus ossos, carne da sua carne. Assim, agora que era pai, a nova profissão de aprovisionador ser via melhor que a de armeiro; a taberna era um negócio de família, um local onde poderia estar constantemente com a filha, vê-la com a mãe, observar o milagre do belo seio de Peg transformado em amparo para a cabeça do bebé, enquanto a sua boquinha mamava o leite. Peg não lhe fazia quaisquer restrições, temendo o dia emque Mary tivesse de ser afastada do seu peito e passasse para a cerveja fraca. Nada de água para as crianças de Bristol, tal e qual como acontecia com as de Londres! A cerveja fraca não embriagava, mas tinha algum álcool. Os bebés que a tomavam demasiado cedo, dizia Peg, filha de agricultor (apoiada por Mag), tornavam-se bêbados depois de crescidos.

Embora pouco propenso a confirmar idéias de mulheres, Dick Morgan, veterano de quarenta anos na profissão de taberneiro, concordava plenamente. A pequena Mary tinha já mais de dois anos quando começou a ser desmamada. Nessa altura tinham a Bell, a primeira taberna de Dick. Estava situada na Bell Lane e fazia parte de um tortuoso complexo de estabelecimentos, armazéns e câmaras subterrâneas controladas pelo primo James – Farmacêutico, que dividia a parte sul da ruela estreita com as instalações igualmente tortuosas da firma americana de intermediários de lanifícios Lewsley & Co. Deverá acrescentar-se que o primo James – Farmacêutico tinha uma esplêndida loja de retalhista na Com Street, porém, fazia a maior parte dos seus lucros no fabrico e exportação de drogas e compostos químicos, desde o corrosivo sublimado de mercúrio (utilizado para tratar os cancros sifilíticos) até ao láudano e outros opiláceos. Quando, no ano anterior, surgiu a licença para o Cooper’s Arms, na esquina da Broad Street, Dick Morgan entusiasmou-se. Uma taberna em Broad Street! Ora bem, mesmo depois de pagar à Corporação uma renda de vinte e uma libras por ano, o proprietário de uma taberna em Broad Street nunca deixaria de ver um lucro de cem libras por ano (1)! (1) O dinheiro inglês estava dividido em libras, xelins e dinheiros, juntamente com a excentricidade do guinéu. Um guinéu tinha 21 xelins, uma libra 20 e um xelim 12 dinheiros. Um penny correspondia a meio dinheiro, umfarthing a um quarto. (N da A.) Deu bom resultado, pois a família Morgan não tinha medo do trabalho duro, Dick Morgan nunca misturara água no rum ou na genebra e a comida ao almoço (perto do meio-dia) e ao jantar (cerca das seis horas era excelente. Mag era uma esplêndida cozinheira de comida simples e todos os regulamentos que datavam do tempo da Boa Rainha Bess (1) e que limitavam as atividades dos taberneiros de Bristol — o pão não podia ser cozido nas instalações, nem os animais lá mortos para terem de ser comprados ao carniceiro — eram afinal e, segundo a opinião de Dick Morgan, benefícios. Se um homem pagasse as suas contas no devido tempo, podia sempre conseguir condições especiais dos seus fornecedores. Mesmo quando os tempos eram difíceis. Meu Deus, disse Richard a esse Ser invisível, imploro-Vos que não sejais tão cruel. Pois a Vossa ira parece cair tantas vezes sobre aqueles que não vos ofenderam. Protegei o meu filho, imploro-vos… Em seu redor, nos montes e pântanos, a cidade de Bristol nadava num mar de fumo escuro, com as cúpulas das suas muitas igrejas quase ocultas. O Verão fora invulgarmente quente e seco e o fim de Agosto não lhe vira qualquer alívio. As folhas dos olmos e das tílias em College Green, a poente, e em Queen Square, a sul, pareciam secas e descoradas, sem qualquer lustro ou brilho. Por todo o lado saíam colunas de fumo negro — as fundições em Friers e Castle Green, as refinarias de açúcar, em volta de Lewin’s Mead, a fábrica de chocolate de Fry, os altos cones das estufas e os atarracados fornos de cal. Se o vento não viesse de oeste, aquele inferno atmosférico receberia o calor abafado de Kingswood, um local que nenhum habitante de Bristol visitava voluntariamente. As minas de carvão e as enormes metalúrgicas, junto a elas, davam origem a uma gente meio selvagem, facilmente irritável, com um ódio espantoso por Bristol. Não seria de admirar, dado os horríveis fumos e a maldita humildade de Kingswood. Movimentava-se agora num território verdadeiramente naval: a doca seca de Tombs, outra doca seca, o cheiro do alcatrão quente, os navios em construção, ainda sem amuradas, quais costelas de gargantões animais. Em Canon Marsh meteu pelo caminho das cordas para atravessar o pântano, emvez de percorrer o atalho encharcado que serpenteava junto à margem do Avon.

(1) Referência à rainha Isabel I de Inglaterra (N. da T.) Acenou aos fabricantes de corda, que tinham de percorrer uns quinhentos metros, torcendo inexoravelmente os fios de cânhamo ou linho, já enrolados pelo menos uma vez, naquilo que era a ordem do dia — cabos, amarras, cordas. Tinham os braços e os ombros tão encordoados como o material que enrolavam, as mãos endurecidas, sem qualquer sensibilidade — como poderiam ter prazer ao tocar a pele de uma mulher? Passou pela única estufa à entrada de Back Lane, umamontoado de fornos de cal e assim chegou à entrada de Clifton. Erguia-se ao fundo a enorme massa de Brandon Hill e, diante de si, numa ladeira íngreme da encosta coberta de bosques que descia até ao Avon, estava o local com que sonhava. Clifton, onde o ar era mais limpo e os vales e as colinas ondulavam quando o vento agitava avencas e Eufrásia, as flores púrpura da urze, a manjerona e os gerânios silvestres. As árvores cintilavam, sem fuligem e, lá em cima, avistavam-se enormes mansões rodeadas de pequenos parques — Manilla House, Goldney House, Cornwallis House, Clifton HillHouse… Ansiava desesperadamente por viver em Clifton. Aí as pessoas não ficavam tísicas, não adoeciam de disenteria nem de anginas malignas, de febres ou de varíola. E isto era igualmente verdade tanto para as pessoas humildes que viviam nas cabanas e barracos toscos à beira da estrada para Hotwells, atrás dos montes, como para os ricos, que se passeavam lá em cima, junto aos pilares majestosos dos seus palácios. Fossem eles marinheiros, fabricantes de corda, operários nos estaleiros ou senhores da nobreza rural, as pessoas de Clifton não morriam prematuramente. Ali conservavam-se os filhos.

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