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A Vida de Francisco – O Papa do Povo – Evangelina Himitian

Quando o voo da Alitalia finalmente decolou do solo argentino, na terça-feira, 26 de fevereiro de 2013, Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, teve uma sensação diferente no estômago. Eram 14h15, e o avião acabava de sair pontualmente do aeroporto internacional de Ezeiza. O cardeal se colocou em seu assento, esticou as pernas e respirou fundo. Tinha pedido para sentar na fileira da porta de emergência porque uma dor no joelho e no quadril, que o obriga a tomar corticoides, piora quando fica várias horas sentado. Não gosta de ficar muito tempo parado. Estava com os sapatos de sempre. Os outros, que algumas horas antes seus colaboradores da Catedral Metropolitana, emBuenos Aires, tinham lhe presenteado, estavam na mala. Compraram-nos como se tivessem intuído que o cardeal se negaria a usar os sapatos vermelhos de papa. “Você não pode viajar com estes sapatos”, pronunciou-se o conclave local. Bergoglio agradeceu o presente, guardou-o na mala e calçou seus velhos companheiros de viagem. Chegou ao aeroporto com pouco mais de duas horas de antecedência. Foi sozinho, como fazia toda vez que voava a Roma. Saiu da cúria portenha com uma mala e sua pasta preta como bagagem de mão. Atravessou a Plaza de Mayo e subiu em uma van da empresa de transportes Manuel Tienda León, que o levou até o aeroporto. Antes de partir, despediu-se dos seus, como sempre. Como quem vai e volta. “Jorge, você vai pegar a batuta?”, profetizou o jornaleiro. “Não, é um ferro quente”, respondeu. Ao longo do dia, as pessoas de seu entorno insistiam em se despedir dele com certa emoção. “Não me venham com isso. Dentro de duas semanas nos veremos”, disse a todos. Pouco depois da decolagem, na solidão e no silêncio do voo, sentado no seu assento de classe econômica — fileira 25, corredor — , as dúvidas começaram a assaltá-lo. “Fiquem tranquilos. Não existe nenhuma possibilidade de que eu venha a ser papa.” Bergoglio tinha repetido esta frase aos seus muitas vezes.


“No dia 23 [de março] estarei de volta em Buenos Aires.” Por que este dia? “No dia seguinte é domingo de Ramos. Tenho que rezar a missa”, foi sua resposta. “Não existe nenhuma possibilidade.” Havia dito isso tantas vezes que quase tinha conseguido se convencer. O cardeal tinha certeza de que sua hora já tinha passado, entre outras razões, pelos seus 76 anos. Mas a possibilidade existia, e ele sabia melhor do que ninguém. Não estava feliz. Sentia-se contrariado. Não queria. Algo parecido tinha acontecido quando o nomearam bispo auxiliar de Buenos Aires, em 1992. Cinco anos depois, quando soube que Roma ia nomear um auxiliar com direito à sucessão para o cardeal Antonio Quarracino, não achou que seria o escolhido. Ao contrário, imaginou que o transfeririam para uma diocese do interior do país. Sua primeira reação foi pedir que não o fizessem. “Sou portenho, e fora de Buenos Aires não sei fazer nada”, desculpou-se. Os anos, no entanto, o ensinaram a não se deixar guiar por suas reações instintivas. Havia que esperar, portanto, a decantação das notícias que transbordavam suas emoções. Assim surgia a resposta sensata. “Sim?” Enquanto o avião se aventurava sobre o oceano Atlântico e as aeromoças serviam bebidas aos passageiros, algumas das últimas conversas que tinha mantido antes de partir voltaram à sua cabeça. “Está levando muita bagagem, padre?”, tinha lhe perguntado uma pessoa de sua confiança, tentando discernir se se tratava de uma viagem de duas semanas ou uma mudança. “Com todas as roupas que os cardeais devem vestir para o conclave…”, acrescentou. De qualquer forma, este colaborador próximo sabia que os pertences que o padre Bergoglio tinha acumulado nesta terra cabiamperfeitamente em uma mala: seus discos de música clássica, tango e ópera; um pôster do San Lorenzo — o time de futebol de seu coração — autografado pelos jogadores, que mantém preso em uma das paredes de seu escritório; os sapatos pretos imensamente confortáveis; o crucifixo de seus avós, que pende sobre sua cama no apartamento do terceiro andar da cúria portenha, em frente à Catedral. Pouco mais que isso. Certa vez lhe perguntaram o que levaria consigo em caso de incêndio. A agenda e o breviário, foi a resposta imediata.

Sua agenda é preta e pequena, e ali acumulava os telefones de muitas das pessoas a quem algum dia ajudou. Alternadamente, durante o ano, lhes telefona para saber como estão, felicitá-las pelo aniversário ou perguntar como vão os filhos. O breviário é o livro litúrgico que sintetiza as obrigações públicas do clero ao longo do ano. Anda sempre com ele. “É o primeiro que abro pela manhã e o último que vejo antes de dormir”, garante. Dessa vez, para ir a Roma, para o conclave que escolheria o sucessor de Bento XVI, guardou os dois volumes em sua pasta. “Não, não levo muita bagagem — respondeu ao colaborador. Viajo leve. Uma única mala, pequena, como sempre. Está um pouco pesada, mas não pela roupa, e sim porque levo alfajores e doce de leite para os amigos. Não me perdoariam se não levasse…”, respondeu o cardeal. “Fique tranquilo, não existe nenhuma possibilidade”, declarou Bergoglio, lendo nas entrelinhas a conversa que se aproximava. — Estou rezando por você, padre. — Como você gosta de mim… — Você vai ser papa. — Não. Acho que não. Dia 23 estarei de volta. — Como sabe que vai voltar? Se o Espírito Santo disser que não, é uma coisa. Mas se é você quem está dizendo que não, pense a quem está dizendo que não. O silêncio se tornou eterno. Depois se despediram. “Você sempre fala que se deve levar a pátria nos ombros; neste caso, a Igreja. Talvez esta seja sua hora de fazer isso. É provável que este seja o último serviço que presto ao Senhor”, lhe disse outro colaborador, momentos antes de embarcar no avião. Todas as mensagens pareciam encaminhadas neste sentido.

Um destino que começava a se configurar como inexorável, pelo menos em seu foro íntimo, em sua convicção e em sua intuição. Mas não em seu desejo. E tampouco na opinião pública. O nome do Jorge Mario Bergoglio, por alguma razão, não figurava entre os cinco principais candidatos da imprensa nem dos apostadores. E se fosse verdade? E se esta fosse sua hora de colocar a Igreja nos ombros? A Igreja perde — ou perdia — milhares de fiéis por dia. Seria ele o homem que deveria enfrentar esta terrível realidade e colocar-se à frente? Ele se transformaria no bom pastor que sai para buscar as ovelhas afastadas do rebanho ou, como costuma dizer em suas homilias, se transformaria no “penteador de ovelhas: aquele que se dedica a fazer cachinhos na única ovelha que resta no rebanho”, enquanto as outras andamextraviadas pelo caminho? Seria ele o papa americano? Não soava absurdo, uma vez que metade dos católicos do mundo vive na América Latina. Mas na Argentina só um de cada cinco católicos assiste à missa aos domingos. O verdadeiro desafio seria reconciliar a Igreja com aquilo que o mundo inteiro espera dela: honestidade, transparência, austeridade, coerência, proximidade e maior abertura. Um dia depois de que a fumaça branca avisasse ao mundo que um novo pontífice tinha sido eleito, o telefone voltou a tocar em Buenos Aires. A pessoa que o havia desafiado antes do voo atendeu. De Roma soou uma voz fresca e alegre. Era o papa. “Você tinha razão. No fim das contas… os cardeais me aprontaram essa”, disse, em tom risonho, irônico, inconfundível. Os cardeais… Com eles foi mais direto. No conclave, quando se soube que tinha superado os noventa votos, sem rodeios emitiu sua primeira absolvição: “Eu os perdoo”, disse. Alguns meses antes, um grupo de sindicalistas portenhos tinha ligado para o escritório da Pastoral Social da Arquidiocese de Buenos Aires. Estavam preocupados. “Diga ao padre Bergoglio que não ande sozinho pela rua. É perigoso. Tem muita gente que não gosta dele. Deve se cuidar”, disseram. Não era uma ameaça, justamente o contrário. Era um pedido de pessoas próximas ao poder genuinamente preocupadas com sua segurança e com sua opção de andar pelas ruas como qualquer portenho. “Não deixarei a rua”, respondeu Bergoglio, desconsiderando o comentário trazido por seus colaboradores.

“Preciso estar em contato com as pessoas. Senão, fico neurótico. E me transformo emum rato de sacristia”, acrescentou. Sua opção tem fundamento. Ele sabe que a chave da revolução que começa na vida daqueles que o conhecem recentemente reside no fato de que o veem como uma pessoa próxima. Como mais um entre eles. Como um homem comum. “Jesus viveu fazendo o bem. Ele andou, caminhou no meio do seu povo. Entrou no meio das pessoas. Sabem qual é o lugar físico em que Jesus passava mais tempo? A rua”, disse durante uma fala pública em outubro de 2012. “O que lhe agrada tanto em Buenos Aires?”, lhe perguntaram em uma entrevista realizada pela equipe de imprensa do Arcebispado de Buenos Aires em novembro de 2011, quando concluiu seu mandato como presidente da Conferência Episcopal Argentina. “Caminhar. Qualquer canto de Buenos Aires tem algo a dizer. Buenos Aires tem lugares, bairros e povoados. Lugano é mais que um bairro: é um povoado com idiossincrasias que o diferenciam de um bairro comum. Há lugares, como grandes avenidas, que são só lugares; alguns bairros mantêm sempre seu encanto”, respondeu, sempre apaixonado pela sua cidade. Talvez tenha sido por isso que, quando da sacada do Vaticano anunciaram a eleição do sucessor de Bento XVI e que era argentino, a festa irrompeu justamente no lugar que Bergoglio mais ama de sua cidade: a rua. Buenos Aires, quarta-feira, 13 de março de 2013. Os instantes que se seguiram à fumaça branca foram eternos. A humanidade inteira sabia que já havia um papa e esperava conhecer seu nome. Na cidade, nos bares, nos locais de trabalho, nas casas, se abriu um parêntese temporário, um parêntese em que estava permitido abandonar a rotina e ver televisão. Mas só uns poucos, talvez os mais próximos, esperavam ouvir um nome argentino. Para os outros, o italiano Angelo Scola ou o brasileiro Odilo Pedro Scherer encabeçavam as apostas. “Bergoglio poderia se tornar a surpresa”, publicou em um destaque da página 3 do jornal argentino La Nación a jornalista Elisabetta Piqué, correspondente em Roma, no próprio dia do conclave.

Deve-se dizer: essa não era a expectativa quando o cardeal protodiácono francês do Vaticano, Jean-Louis Tauran, saiu à sacada principal da Basílica de São Pedro, escoltado por dois padres. Com voz trêmula e tom pausado, aproximou-se do microfone e pronunciou o que todo mundo já sabia: “Habemus Papam”. Na praça do Vaticano explodiram os aplausos, e a tensão contagiou todo o planeta. E então chegou o anúncio do nome em latim que poucos compreenderam nesta primeira instância: “Eminentisimum ac Reverendisimum Dominum, Dominum Georgium Marium Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Bergoglio.” “O que disse? Disse Bergoglio?”, era a pergunta repetida pela audiência universal. A dúvida durou apenas alguns segundos. Logo as cadeias de notícias confirmaram: o argentino Bergoglio era papa. Na cidade de Buenos Aires a surpresa foi como uma explosão. Houve gritos, abraços, aplausos, mãos na boca, incredulidade, festejos e, obviamente, também comentários pessimistas. Como se fosse um gol de ouro na final de uma copa do mundo. A notícia deixou as pessoas sem palavras. Transbordou. Agarrado às grades de sua sacada do 12º andar em um edifício na avenida del Libertador perto de Salguero, em um bairro elegante da cidade de Buenos Aires, um jovem gritava a notícia a quem quisesse ouvir: “O papa é argentino! O papa é Bergoglio! Obrigado, Deus!” Eufórico, emocionado. Os motoristas não soltavam as buzinas, em um concerto que em poucos segundos se estendeu por toda a cidade. Ouviu-se em bairros tão distantes entre si quanto Palermo, Flores e Almagro. Nas ruas de Buenos Aires, o lugar favorito do novo papa, havia alegria, saudações, pessoas que gritavam a novidade, que telefonavam, que falavam com desconhecidos sem importar a religião, semjulgar a notícia como boa ou ruim… O papa era argentino. CAPÍTULO II Não se nasce papa O bairro de Flores é o centro geográfico da cidade de Buenos Aires. Está em convulsão. Não são todos os dias que os moradores ficam sabendo que o papa veio ao mundo em sua própria comunidade. Na rua Membrillar, 531, entre Francisco Bilbao e Espartaco, ainda se mantém de pé a casa de sua infância, onde Jorge Mario Bergoglio, o homem que hoje senta no trono de Pedro, viveu até os 21 anos. Da versão original da casa só subsistem duas grades e uma pracinha que coroa o pátio. É preciso percorrer um longo corredor, destes em que ecoam os saltos dos sapatos, para chegar até ali. Embora a fachada tenha sido reformada, a estrutura da casa se mantém firme depois de uns 76 anos. “Tem fundações boas”, aponta Arturo Branco, atual dono da propriedade, um ex-seminarista que mora ali com Marta, sua mulher. Nos dias seguintes à nomeação de Francisco, a casa de Flores se converteu no epicentro das peregrinações dos vizinhos.

São muitos os que dizem compartilhar lembranças da infância com o novo pontífice. E reunir-se, contá-las e rememorá-las é a forma que os vizinhos encontraram para se somar ao furor pelo novo papa. Bergoglio nasceu na quinta-feira, 17 de dezembro de 1936, e foi o primeiro dos cinco filhos que tiveram Mario José Francisco Bergoglio, contador, e Regina María Sívori, dona de casa. Depois vieram Oscar, Marta, Alberto e María Elena, a única viva atualmente. Rosa Margarita Vasallo, a avó, morava perto de sua casa. Ensinou-o a memorizar as orações e o incentivou, desde pequeno, a abraçar a fé cristã. Quando nasceram seus irmãos mais novos, o pequeno Jorge costumava passar o dia na casa dos avós, onde aprendeu a falar piemontês. Embora ambos tivessem emigrado da Itália, os pais de Bergoglio se conheceram em Buenos Aires, quando participavam de uma atividade da igreja. A história de como a família Bergoglio veio da Itália para a Argentina é longa. Em 1864, o bisavô do papa comprou uma casa de campo em Bricco Marmorito, que se encontra à sombra dos Alpes, em uma região produtora de vinhos do noroeste da Itália. Ali também explodiu a festa quando se ouviu o último “Habemus Papam”. Um ramo da família, primos distantes do papa Francisco, acompanhava atentamente a eleição. “Quando soubemos da notícia, ficamos surpresos, porque nunca pensamos que ele poderia chegar a ser papa”, disse Anna Bergoglio, uma prima distante. Os Bergoglio se estabeleceram neste povoado da província de Asti junto com outros membros da família. Alguns anos mais tarde voltaram a se mudar para Portacomaro, no centro da Lombardia, onde nasceu e cresceu Angelo, o avô do papa. Também neste pequeno villagio italiano, de apenas 1.960 habitantes, soaram os sinos e se organizou uma grande festa na praça, celebrada dois dias depois. Na cidade de Buenos Aires, no bairro de Flores, e também em Bricco Marmorito e em Portacomaro, todos queriam reivindicar o novo papa como verdadeiro filho de sua terra. “É o neto do Angelo Bergoglio”, anunciava a todos os que passavam o padre Andrea, responsável pela Igreja de San Bartolomeo. Em 1920, Angelo se mudou com seus seis filhos para Torino. Dois anos depois, três de seus irmãos emigraram para a Argentina e se instalaram na cidade de Paraná, em Entre Ríos, onde fundaram uma empresa de pavimentação. Em 1929, Angelo decidiu juntar-se a eles. Não porque tivesse problemas financeiros, mas porque sentia falta dos irmãos. Então, decidiu vender a confeitaria de que era dono e comprar passagens para a Argentina no navio Principessa Mafalda. Mas o navio sofreu uma avaria e acabou naufragando no norte do Brasil, de modo que viajaram no Giulio Cesare.

Mario José, o pai de Francisco, tinha 21 anos, era solteiro e havia se formado como contador. Quando desembarcaram no porto de Buenos Aires era uma tarde quente de verão. No entanto, Rosa — a avó do pontífice — estava com seu casaco de pele de raposa, pois levava costurada no forro uma verdadeira fortuna: todas as suas economias. Não podia tirá-lo. Os recém-chegados não se instalaram no Hotel dos Imigrantes, localizado na zona portuária, como costumavam fazer os que atracavam naqueles anos. Seguiram viagem para o Paraná. Um imponente edifício os esperava ali, perto do rio. Tinha sido construído pelos tios-avós do papa Francisco, que o batizaram com o ambicioso nome de Palácio Bergoglio. Possuía um andar para abrigar cada uma das famílias. Mas quando explodiu a crise de 1931, as contas não renderamcomo haviam calculado, e um ano depois ficaram sem nada. Tiveram que vender até o túmulo da família. O irmão mais velho dos Bergoglio morreu de câncer, o mais novo foi para o Brasil e o do meio, junto comAngelo, recomeçou de zero, relata María Elena, a irmã mais nova do papa, que atualmente vive no distrito de Ituzaingó, na zona oeste da Grande Buenos Aires. Recomeçou. Angelo conseguiu um empréstimo e comprou um armazém em Buenos Aires. Não era um negócio refinado como a confeitaria que tinha administrado na Itália, mas ele dominava o ofício. Mario José, o pai do cardeal, começou a procurar emprego como contador em outras empresas. Enquanto isso, fazia as entregas das mercadorias de bicicleta. Em 1934, os pais do Bergoglio se conheceram no bairro portenho de Almagro, no oratório salesiano de Santo Antônio, durante uma missa. Um ano depois se casaram, e um ano mais tarde nasceu o papa. O cardeal Bergoglio passou boa parte de sua primeira infância na casa da avó paterna. Recentemente, quando lhe perguntaram pela pessoa que mais o teria influenciado em sua vida, semhesitar apontou: “Minha avó”. Foi durante a última entrevista radiofônica que concedeu antes de ser papa. Um amigo, o padre Juan Isasmendi, responsável pela rádio Paróquia Nossa Senhora dos Milagres de Caacupé, na villa de Nº 21, no bairro portenho de Barracas, o havia convidado. Bergoglio, que não é adepto de dar entrevistas e evita o máximo a exposição pública, havia concordado com uma condição: que enviassem as perguntas por e-mail. Algumas vezes, logo depois de ser entrevistado, o cardeal costuma incutir no jornalista a dúvida a respeito da utilidade de suas respostas.

“Você acha que o que eu disse vai servir para alguma coisa?”, indaga. Ingenuidade ou modéstia? É difícil discernir. Quando Bergoglio finalmente decidiu aceitar a entrevista da rádio paroquial, não hesitou diante da pergunta: “Uma pessoa?” “Minha avó”, respondeu. E a seguir justificou: “Foi ela quem me ensinou a rezar. Marcou-me muito na fé. Contava-me histórias de santos. Quando eu tinha 13 meses, meu irmão nasceu. Minha mãe não dava conta de cuidar de nós dois, e minha avó, que morava perto, me levava pela manhã para a casa dela e me trazia à tarde. Do que mais me lembro é desta vida dividida entre a casa de minha mãe e meu pai e a casa dos meus avós. E quem me ensinou a rezar de fato foi a minha avó.” “Ele fala muito de sua avó Rosa. Nota-se que era muito apegado a ela e também a vincula com sua vocação para o sacerdócio”, lembra Francesca Ambrogetti, autora, junto com Sergio Rubín, de um livro de entrevistas e experiências de Bergoglio intitulado El jesuita. Entre outras coisas, sua avó lhe transmitiu os costumes piemonteses. A hora da refeição era um momento especial para a família, em particular aos domingos, quando os jantares podiam se estender até a madrugada. Bergoglio garante ter aprendido com a avó a resposta abrangente e bondosa para aquele que está prestes a se aventurar em um desafio incerto. Assim fez quando ele lhe disse que queria entrar no seminário: “Bem, se Deus o está chamando, bendito seja… Mas, por favor, não se esqueça de que as portas desta casa estão sempre abertas e que ninguém vai condená-lo se você decidir voltar.” A devoção do cardeal pela avó se manteve intacta até o final. Nos anos 1970, sempre que podia ia visitá-la na casa de idosos da Ordem de São Camilo, onde ela se alojava. Era o único a quem ela dava ouvidos. No dia de sua morte, contam as freiras enfermeiras que o acompanharam, Bergoglio permaneceu ao lado dela o tempo todo. “Quando sua vida se apagou, prostrou-se no chão e disse: ‘Neste momento minha avó enfrenta o momento mais importante de sua existência. Está sendo julgada por Deus. Este é o mistério da morte.’ Alguns minutos depois se levantou e saiu, sereno como sempre”, relatou a irmã Catalina. No seio familiar, María Elena lembra que Mario José foi um pai firme, mas jamais levantou a mão para os filhos.

Esse papel era cumprido pela mãe. “Meu pai olhava para nós, e a gente preferia dez chicotadas a este olhar. Com a mãe, voava o sopapo! Mas, também, pobre mulher… éramos cinco!”, comentou rindo. “Com minha mãe ouvíamos, nos sábados às duas da tarde, as óperas transmitidas pela Radio del Estado. Ela nos fazia sentar ao redor do aparelho e, antes que a ópera começasse, nos explicava do que tratava. Quando estava para começar uma ária importante, dizia: ‘Ouçam bem que vão cantar uma canção muito linda.’ A verdade é que estar com minha mãe, os três irmãos mais velhos, nos sábados às duas da tarde, desfrutando da arte, era uma beleza”, relatou Bergoglio em El jesuita. Colecionar selos foi uma de suas paixões quando criança. As outras? Ler e jogar futebol; nesta ordem. Também caminhar. Naqueles anos, o bairro de Flores era um pulmão na cidade, já que quase todas as casas tinham umquintal ou um jardinzinho. Em sua quadra, todos se conheciam e as famílias antigas, que ainda permanecem no bairro, se atrevem a contar casos da infância do sucessor de Bento XVI. A praça Herminia Brumana, a poucos metros da casa dos Bergoglio, era o epicentro das atividades. “Eu o conheço há cinquenta anos. Nos reuníamos para jogar bola, mas ele estava quase sempre com livros”, diz Rafael Musolino, um colega de infância. Outros amigos de infância lembram que Bergoglio era um líder de perfil discreto. Reuniam-se para jogar bola e depois das peladas ele ajudava os colegas com os deveres escolares. Estavam no primário e ainda demoraria para que despertasse para sua vocação religiosa. Na praça entre as ruas Membrillar e Bilbao ainda se ouvem alguns testemunhos de moradores que o viam passar correndo na saída da escola laica Nº 8, Coronel Pedro Cerviño, perto do número 300 da rua Varela. Tirava o guarda-pó branco enquanto percorria apressado a quadra, que tinha mais terra que grama. Toda tarde, quando saíam da aula, Bergoglio e seu primo se uniam a um grupo de garotos que apressavam o passo para dar início a uma partida de futebol. Entre eles já era um líder. Talvez não aquele que organiza o jogo com a bola debaixo do braço e determina quem vai para cada time. A liderança de Bergoglio começava a se esboçar de maneira muito mais sutil, desde baixo. Era a quem o time olhava para organizar o jogo no campo, embora não fosse nem de longe o melhor jogador, ou o goleador.

Convocava, organizava, distribuía. Era um líder, sim, mas de perfil discreto, como hoje o vê o mundo. Na escola em que curs

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