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A Vida de Isaac Newton – Richard S. Westfall

ISAAC NEWTON NASCEU nas primeiras horas do dia de Natal de 1642, na casa senhorial de Woolsthorpe, perto da aldeia de Colsterworth, cerca de 11 km ao sul de Grantham, em Lincolnshire. Uma vez que Galileu, em cujas descobertas se apoiaria maciçamente grande parte da carreira científica do próprio Newton, havia falecido naquele ano, há um significado ligado a 1642. Estou longe de ser o primeiro a assinalá-lo — e, sem dúvida, estarei longe de ser o último. Nascido em 1564, Galileu vivera até quase 80 anos de idade. Newton viveria até quase 85. Entre eles distribuiu-se praticamente toda a revolução científica, cujo núcleo central constituiu-se do conjunto de seus trabalhos. A rigor, somente o obstinado protestantismo da Inglaterra permitiu essa ligação cronológica. Por considerar que o papado havia contaminado de maneira fatal o calendário gregoriano, a Inglaterra estava dez dias defasada do continente europeu, onde era dia 4 de janeiro de 1643 quando Newton nasceu. Mas podemos sacrificar o simbolismo sem nada perder da substância. O importante é que ele nasceu, e o fez numa época em que pôde utilizar o trabalho de Galileu e de outros pioneiros da ciência moderna, como Kepler (que morrera 12 anos antes) e Descartes (que ainda vivia e trabalhava ativamente na Holanda). Antes de Isaac, a família Newton era totalmente desprovida de destaque e inteiramente desprovida de cultura. Uma vez que havia experimentado um avanço econômico sistemático no século que antecedeu o nascimento de Isaac, podemos presumir que não fosse desprovida de perseverança, nem da inteligência que é capaz de fazer o empenho frutificar. Um certo Simon Newton, o primeiro da família a erguer hesitantemente a cabeça acima do anonimato rural, morou emWestby, uma aldeia situada uns 8 km a sudeste de Grantham, em 1524. Juntamente com outros 22 habitantes de Westby, havia atingido o status de contribuinte no subsídio concedido naquele ano. {1} Quatorze desses 22, inclusive Simon Newton, pagaram o tributo mínimo de 4d. Outros oito pagaramimpostos que iam de 12d a 96s 6d, {2} e um contribuinte, Thomas Ellis, que era um dos homens mais ricos de Lincolnshire, pagou acima de £16. Se os Newton haviam-se erguido além do completo anonimato, está claro que não ocupavam uma posição muito elevada na ordem social, nem mesmo na aldeia de Westby. Considerando-se que a aldeia média, nessa parte de Lincolnshire, compunha-se de umas 25 a 30 famílias, o imposto de Simon Newton talvez indique que ele e outros 13 ocupavam o patamar mais baixo da escala social de Westby. Mas estavam subindo, e bem depressa. Quando novo subsídio foi concedido em 1544, apenas quatro homens de Westby tiveram o privilégio de contribuir; dois deles tinham o sobrenome Newton. Simon Newton havia falecido, mas John Newton, presumivelmente filho dele, e um outro John Newton, supostamente filho deste, eram então, segundo um homem chamado Cony, os habitantes mais prósperos de Westby. Em seu testamento de 1562, o John Newton mais moço ainda se denominava “agricultor”; passados 21 anos, seu filho, um terceiro John, faleceu como “yeoman” {3} um degrau acima na escala social; e um irmão de nome William, dessa mesma geração, também reivindicou para si essa condição de proprietário. Como era inevitável, a linhagem de Newton foi levantada com detalhes consideráveis, primeiro pelo próprio Newton e, depois, pelos estudiosos do passado cuja atenção é atraída pelos grandes homens. Mas o rol de seus tios, tios-avós e similares, bem como das relações que mantiveram comele, tem menos interesse do que as implicações da passagem da condição de agricultores à de pequenos proprietários rurais. Em Lincolnshire, os séculos XVI e XVII assistiram a uma concentração sistemática das terras e da renda, com o conseqüente aprofundamento das distinções sociais e econômicas.


Os Newton situavam-se na minoria que prosperou. Westby fica localizada num urzal de calcário, o planalto de Kestevan — uma faixa de terreno montanhoso que se estende até Lincoln por entre os pantanais do leste e as terras baixas e alagadiças do vale do Trent, a oeste. O planalto sempre se apresentou como um acesso possível para o norte. Os romanos haviam construído a Via Ermina em seu topo, e a Grande Rota do Norte, na Inglaterra medieval e do início da era moderna, seguia a mesma trilha até Grantham, onde dobrava à esquerda para fazer uma travessia mais fácil do rio Humber. Até hoje, a principal rodovia para o norte, nas imediações da costa leste da Inglaterra, cruza o planalto pelo mesmo trajeto. Woolsthorpe, onde Newton foi criado, situava-se a menos de 1,5 km de uma das grandes estradas de sua época. Se o planalto era uma estrada natural, não era um celeiro natural. O solo era fraco e pobre. Grande parte das terras aráveis só conseguia suportar uma alternância de duas culturas, o que as deixava sem cultivo durante metade do tempo. A demarcação de terras aconteceu lentamente nessa região, enquanto grandes faixas sem cultivo eram usadas em comum como pasto para as ovelhas. A lã era a base da economia agrícola planaltina. Para compensar o solo avarento, o planalto abrigava uma população relativamente escassa. Os que estivessem dispostos poderiam prosperar. Os Newton estavam. Essa história é narrada nos pormenores dos sucessivos testamentos. A partir de John Newton, de Westby, que ao morrer deixou um testamento, em 1562, cada geração seguinte, durante um século, legou um patrimônio consideravelmente ampliado. Melhor dizendo, elas legaram patrimônios ampliados. Os Newton foram também um clã prolífico. John Newton, de Westby, teve 11 filhos, dos quais dez sobreviveram. Seu filho Richard, bisavô de Isaac, teve sete filhos, dos quais cinco vingaram. O avô de Isaac, Robert, teve 11, dos quais seis sobreviveram. Nenhuma herança isolada aumentou e foi passada adiante. A herança era continuamente dividida, mas a maioria das ramificações criou raízes e floresceu. Em meados do século XVII, um número considerável de pequenos proprietários abastados de sobrenome Newton espalhava-se pela área ao redor de Grantham, sendo todos descendentes do John Newton de Westby, agricultor. Sem dúvida, o fato de esse John Newton ter feito um ótimo casamento — com Mary Nixe, filha de um próspero membro da burguesia rural — contribuiu para sua posição.

Mas ele também deve ter sabido administrar o dote, pois conseguiu prover generosamente o sustento de três filhos. Os descendentes de um deles, William, prosperaram ainda mais do que os outros; em 1661, um de seus descendentes, de novo chamado John, abriu caminho para a aristocracia rural como Sir John Newton, baronete. Em 1705, Isaac Newton procurou aflitivamente o filho deste, também chamado Sir John Newton, baronete, para obter uma confirmação de sua linhagem. Mais ou menos na época de sua morte, o John Newton de Westby adquiriu em Woolsthorpe uma ampla fazenda com bem mais de 100 acres, que incluía 60 acres de terra arável, para outro de seus filhos, Richard. Woolsthorpe ficava aproximadamente 5 km ao sul de Westby, e Richard Newton era o bisavô de Isaac Newton. Para dar uma idéia da situação econômica da família, o patrimônio médio, na década de 1590, dos camponeses do urzal que eramdonos de terras — ou seja, dos camponeses mais ricos — eqüivalia a umas £49. O proprietário rural mais rico a falecer em Lincolnshire na década de 1590, como se pode avaliar por seu testamento, deixou bens pessoais de quase £400. Pouquíssimos testamentos da época legavam posses com valor superior a £100. Richard Newton, cujo pai o instalara numa fazenda adquirida por £40, deixou bens avaliados em £104; o inventário não incluiu as terras nem a casa. Incluiu um rebanho de 50 ovelhas, bem acima da media. As ovelhas eram o padrão de riqueza no urzal. O John Newton de Westby não apenas deixou um legado magnífico para três filhos, pelos padrões da pequena burguesia rural, como também casou uma filha com Henry Askew (ou Ayscough), de Harlaxton. Os Ayscough eram uma família proeminente de Lincolnshire, embora não se saiba ao certo qual era, se é que existia, o parentesco de Henry Askew com o tronco principal da família, cuja sede ficava bem ao norte. E essa não foi a última aliança entre as duas famílias. Robert Newton, o avô de Isaac, nasceu por volta de 1570. Herdou a propriedade do pai emWoolsthorpe, à qual acrescentou o solar de Woolsthorpe, mediante uma compra feita em 1623. O solar não estava em condições nada prósperas. Havia trocado dc mãos por quatro vezes, emoperações de venda, nos 100 anos anteriores. No entanto, sua receita anual foi calculada como sendo de £30. Acrescido à propriedade original, ele deu à família uma moradia realmente confortável, pelos padrões da pequena burguesia rural da época. Socialmente, é possível que isso tenha elevado Robert ainda mais. Agora, ele era dono de uma casa senhorial, legalmente habilitado a exercer os poderes da autoridade local, tais como presidir a corte feudal e o tribunal senhorial, que, como elementos ainda operantes da administração do lugar, tinham jurisdição sobre pequenas perturbações da ordem e podiam aplicar multas, embora não pudessem decretar prisões. O senhor de uma herdade não era apenas um mero agricultor. Em dezembro de 1639, Robert legou toda a propriedade de Woolsthorpe a seu filho mais velho ainda vivo, Isaac, e a Hannah Ayscough (ou Askew), de quem Isaac estava noivo. Isaac estava longe de ser um rapazinho.

Havia nascido em 21 de setembro de 1606. Embora não se saiba ao certo a idade de Hannah Ayscough, parece provável que ela estivesse bem longe da adolescência; seus pais haviam-se casado em 1609, e seu irmão William era, provavelmente, o William Askue que se matriculou em Cambridge no início de 1630, vindo do Trinity College. Contudo, o casal não contraiu matrimônio de imediato, e tudo indica que tenha esperado para receber a herança primeiro. Afinal, Robert Newton estava perto dos 70 anos. Ele faleceu no outono de 1641; em abril de 1642, os noivos realizaram o enlace. O casamento com uma Ayscough foi outro claro passo à frente na escalada dos Newton. Hannah era filha do fidalgo James Ayscough, de Market Overton, no condado de Rutland. Como dote pelo casamento, ela trouxe consigo uma propriedade em Sewstern, Leicestershire, com renda anual de £50. É difícil imaginar esse enlace sem o recém-adquirido título de senhor de herdade de Newton. Porém Hannah trouxe mais do que um aumento da riqueza. Pela primeira vez, os Newton tiveramcontato com a instrução formal. Antes de 1642, nenhum Newton do ramo familiar de Isaac fora capaz de assinar o próprio nome. Seus testamentos, redigidos por escrivães ou curas, traziam apenas cruzes grafadas por eles. Isaac Newton, pai de nosso biografado, era incapaz de assinar seu nome, o mesmo ocorrendo com o irmão que o ajudou a preparar o inventário de seus bens. Em contraste, pelo menos um dos Ayscough recebera instrução formal. William, irmão de Hannah (M. A. [Master of Arts] em Cambridge, 1637), seguiu uma vocação em que a instrução era essencial. Ordenado no clero da igreja anglicana, foi nomeado para a reitoria de Burton Coggles, 3 km a leste de Cols- terworth, emjaneiro do ano em que sua irmã casou-se com Isaac Newton, pai. Sucede que nosso Isaac foi inteiramente criado pelos Ayscough. Só nos resta especular o que teria acontecido se seu pai continuasse vivo. O pai, a essa altura, era senhor de uma herdade, o que não ocorrera com seu próprio pai durante sua criação. Talvez ele houvesse encarado a instrução do filho como uma conseqüência natural de sua posição. No entanto, seu irmão Richard, embora por certo fosse apenas membro da burguesia rural, e não senhor de uma herdade, não julgou apropriado educar seu filho, que morreu analfabeto. Sendo criado como um Ayscough, Isaac deparou com um conjunto diferente de expectativas.

A presença do reverendo WilliamAyscough, apenas 3 km a leste, talvez tenha sido o fator decisivo. Numa ocasião posterior, sua intervenção ajudou a encaminhar Isaac para a universidade. Mas, quaisquer que tenham sido os papéis individuais, os Ayscough julgavam natural que o menino recebesse no mínimo uma instrução elementar. Temos razões para duvidar de que os Newton tivessem feito o mesmo. Seis meses depois do casamento, Isaac Newton faleceu, logo no início de outubro de 1642. Deixou bens e uma viúva grávida, mas praticamente nenhuma informação a seu respeito. Temos dele apenas uma descrição sucinta, datada de um século e meio após sua morte, feita por Thomas Maude, que afirmou ter realizado diligentes investigações sobre os ancestrais de Newton entre os descendentes de seu meio-irmão e suas meio-irmãs, bem como nos arredores da paróquia de Colsterworth. De acordo com Maude, Isaac Newton, pai, era “um homem impetuoso, extravagante e fraco”. É possível que assim fosse, mas, como Maude nem sequer registrou o nome dele corretamente, chamando-o de John, dificilmente estaríamos obrigados a aceitar essa descrição. No que tange a seus bens, temos informações diretas, extraídas de seu testamento. Uma vez que esse documento definiu a situação econômica de Isaac Newton, filho, por ocasião de seu nascimento, ele merece um exame mais minucioso. Além de extensas terras e da casa senho- rial, Isaac Newton, pai, deixou provisões e bens móveis avaliados em £459 12s 4d. Seu rebanho somava 234 ovelhas, muitas se comparadas a um rebanho médio, que era de cerca de 35. Aparentemente, era dono de 46 cabeças de gado (divididas em três categorias parcialmente ilegíveis no documento e, de qualquer modo, difíceis de interpretar), o que também correspondia a várias vezes a média. Em seus celeiros havia malte, aveia, milho (provavelmente, cevada, que era o produto principal do urzal) e feno, avaliados em quase £140. Como o inventário foi feito em outubro, não há dúvida de que esses itens representavam a colheita de 1642. Ao colocarem a aveia (£1 15s) numa categoria separada, juntando o milho e o feno (£130) em outra, os homens que levantaram o inventário tornaram-no difícil de interpretar. É possível que a aveia e o feno constituíssem forragem para o inverno, mas o milho certamente não o era. O gado (avaliado em £101) e as ovelhas (no valor de £80) teriam consumido essa forragem no inverno que se aproximava, de modo que ela não constitui um produto final da propriedade. Parte do produto final era a lã, e o inventário incluiu lãs avaliadas em £15. É improvável que a safra de lã de 1642, datada de junho, ainda estivesse disponível; pelo menos, £15 são uma soma muito pequena, já que a tosquia anual correspondia, em média, a 1/4 ou 1/3 do valor do rebanho. O patrimônio também incluía, é claro, numerosos equipamentos agrícolas e o mobiliário da casa. E incluía ainda o direito de pastorear o rebanho na área comum. O valor de tais direitos é impossível de estimar, mas, quando a lã impera, o direito de pastoreio vale ouro. Entretanto, tal como a forragem, é claro, ele seria apenas um meio para chegar à produção anual.

À distância de hoje, é impossível determinar a receita anual total da propriedade. Uma estimativa de no mínimo £150 por ano não parece despropositada. Convém acrescentar que o inventário talvez fosse inferior ao valor médio do espólio a longo prazo. A década de 1620 tinha sido difícil e, por conseguinte, os testamentos homologados na de 1630 envolveram valores menores. Só recuperaram plenamente seu nível anterior por volta de 1660. A mãe de Newton reservou para Isaac a renda do patrimônio paterno, quando voltou a se casar; as terras de Sewstern, que tinham feito parte de seu dote, parecemter sido incluídas. Além disso, seu segundo marido legou a Isaac outro pedaço de terra. Newton acabou herdando todos os bens paternos, somados às terras provenientes de seu padrasto e algumas outras propriedades adquiridas por sua mãe. Resumi o patrimônio em termos financeiros porque esse foi o único sentido que ele teve durante a vida de Newton. Em certa época, a família quis que ele o administrasse. Mas isso não estava fadado a acontecer, e os bens funcionaram em sua vida apenas como uma fonte de segurança financeira. Quaisquer que fossem os problemas que aguardavam o bebê ainda não nascido, por ocasião da feitura do inventário, a pobreza não tendia a figurar entre eles. O descendente único de Isaac Newton nasceu três meses depois da morte de seu pai, na casa senhorial de Woolsthorpe, nas primeiras horas da manhã de Natal. Esse rebento póstumo, um menino, recebeu o nome do pai, Isaac. Já órfão de pai e aparentemente prematuro, o bebê era tão minúsculo que ninguém esperava que sobrevivesse. Mais de 80 anos depois, Newton contou a John Conduitt, marido de sua sobrinha, a lenda familiar sobre seu nascimento. Diz-nos Conduitt: Sir. I. N. contou-me terem-lhe dito que, quando nasceu, ele era tão pequeno que podia ser colocado numa vasilha pequena, e tão fraco que era forçado a ficar com uma almofada enrolada no pescoço para mantê-lo ereto sobre os ombros, e com tão pouca probabilidade de viver que, quando duas criadas foram enviadas à casa de Lady Pakenham, em North Witham, para buscar alguma coisa para ele, as duas sentaram-se nos degraus de uma cerca no caminho e disseram não haver motivo de pressa, pois tinham certeza de que o menino estaria morto antes que conseguissem voltar. {4}

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