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A Vida do Livreiro A J Fikry – Gabrielle Zevin

NA BALSA DE HYANNIS PARA ALICE ISLAND, Amelia Loman pinta as unhas de amarelo e, enquanto espera que sequem, dá uma lida nas anotações de seu predecessor. “Island Books, aproximadamente 350 000 dólares per annum em vendas, a maior parte para os veranistas nas férias”, reportou Harvey Rhodes. “Cento e oitenta metros quadrados de área de vendas. Sem funcionários em tempo integral exceto o dono. Seção infantil muito pequena. Presença na internet incipiente. Pouca influência na comunidade. O inventário dá ênfase à literatura, o que é bom para nós, mas o gosto de Fikry é muito específico e, sem a Nic, não dá para experimentar coisas diferentes por ali. Pra sorte dele, a Island é a única livraria da cidade.” Amelia boceja — está com uma ressaquinha leve — e pensa se uma única livraria esnobe vai valer a pena uma viagem tão longa. Quando o esmalte secou, seu incansável lado otimista já tinha dominado: Claro que vai valer a pena! Sua especialidade são livrariazinhas esnobes e os tipos que cuidam delas. Seus talentos também incluem ser multitarefas, selecionar o vinho ideal para o jantar (e a habilidade adjunta: cuidar dos amigos que beberam demais), plantas caseiras, vira-latas e outras causas perdidas. Ao descer da balsa, seu telefone toca. Ela não reconhece o número — nenhum dos seus amigos usa o celular como telefone. Mas ela fica feliz com a distração e não quer se tornar o tipo de pessoa que pensa que boas notícias só chegam em ligações esperadas e de conhecidos. O autor da chamada é Boyd Flanagan, sua terceira tentativa fracassada de namoro on-line. Ele a levara ao circo seis meses antes. “Eu mandei uma mensagem pra você, umas semanas atrás”, ele diz. “Recebeu?” Ela conta que mudou de emprego recentemente, e por isso seus celulares estão zoados. “E tambémandei pensando nessa história de namoro on-line. Se eu nasci pra isso mesmo.” Boyd parece não ter ouvido a última parte. “Você quer sair comigo de novo?”, ele pergunta. Recapitulando esse encontro. Por um tempinho, o circo a distraiu do fato de que não tinham nada em comum.


Ao fim do jantar, a verdade sobre a incompatibilidade já tinha vindo à tona. Talvez tivesse sido óbvio a começar pela inabilidade em chegar a um consenso sobre o que pedir de aperitivo ou pela admissão durante o prato principal de que ele não gostava de “coisas velhas” —antiguidades, casas, cachorros, pessoas. E mesmo assim, Amelia não se permitiu ter certeza até chegar a sobremesa, quando perguntou que livro o tinha mais influenciado, e ele respondeu Princípios de contabilidade, Parte II. Educadamente, disse que não, que não queria sair com ele outra vez. Ela consegue ouvir a respiração de Boyd, rápida e irregular. Fica assustada com a possibilidade de ele estar chorando. “Tá tudo bem?”, pergunta. “Não seja condescendente.” Amelia sabe que deveria desligar, mas não desliga. Uma parte dela quer a história. Qual o sentido de ir a encontros ruins a não ser ter histórias divertidas para contar aos amigos? “Como é?” “Notou que eu não liguei pra você de cara, Amelia? É que eu encontrei alguém melhor, mas não deu certo, então resolvi te dar uma segunda chance. Então não vai se achando a superior. Você tem um sorriso razoável, admito, mas seus dentes são grandes demais, que nem sua bunda. E você não tem mais vinte e cinco anos, apesar de beber como se tivesse. A cavalo dado não se olha o dente.” O cavalo dado começa a chorar. “Desculpa. Me desculpa.” “Tá tudo bem, Boyd.” “Qual é o meu problema? O circo foi legal, né? E eu não sou tão ruim.” “Você é ótimo. E o circo foi muito criativo.” “Mas deve ter um motivo pra você não gostar de mim. Fala a verdade.” A essa altura, há muitos motivos para não gostar dele.

Ela escolhe um. “Lembra quando eu disse que trabalhava com livros e você falou que não gostava de ler?” “Você é esnobe”, ele conclui. “Com relação a algumas coisas, suponho que sim. Escuta, Boyd, estou trabalhando. Preciso ir”, Amelia desliga. Ela não é orgulhosa da aparência e certamente não dá valor à opinião de Boyd Flanagan, que nem estava falando com ela de qualquer maneira. Ela só é a mais recente decepção dele. Também já teve sua cota de decepções. Tem trinta e um anos e pensa que já deveria ter conhecido alguém a essa altura. No entanto… Amelia, a otimista, acredita que é melhor ficar só do que com alguém que não compartilha de suas sensibilidades e interesses. (É, não é?) Sua mãe gosta de falar que os romances arruinaram Amelia para homens reais. O comentário insulta Amelia porque insinua que ela só lê livros com heróis românticos clássicos. De vez em quando até que curte, mas seu gosto literário é muito mais variado. Além disso, adora Humbert Humbert como personagem, mas aceita o fato de que não iria querê-lo como parceiro, namorado ou até como um casinho. Sente o mesmo por Holden Caulfield, sr. Rochester e Darcy. A placa sobre a varanda da casa roxa da era vitoriana está desbotada, e Amelia quase passa reto. ISLAND BOOKS A única fonte de boa literatura em Alice Island desde 1999 Nenhum homem é uma ilha; Cada livro é um mundo Lá dentro, uma adolescente cuida do caixa enquanto lê a nova seleção de contos de Alice Munro. “Ah, está gostando?”, Amelia pergunta. Adora Munro, mas quase não tem tempo de ler livros fora da sua lista, a não ser nas férias. “É pra escola”, a menina responde, como se isso resolvesse a dúvida. Amelia se apresenta como a representante de vendas da editora Pterodactyl Press, e a adolescente, sem tirar os olhos da página, aponta pra qualquer lugar nos fundos. “O A.J. tá no escritório.

” Pilhas instáveis de exemplares para divulgação e provas emolduram o corredor, e Amelia sente uma desesperança incomum. A sacola ecológica que traz no ombro contém muitos acréscimos às pilhas de A.J. e um catálogo repleto de outros livros para sugerir. Ela nunca mente sobre os livros em sua lista. Nunca diz que amou um livro se não é verdade. Normalmente consegue achar algo positivo pra dizer sobre o livro, e quando não, sobre a capa, e quando não, sobre o autor, e quando não, sobre o site do autor. E é por isso que eles me pagam tão bem, de vez em quando brinca consigo mesma. Ganha 37 mil dólares por ano mais os bônus possíveis, embora ninguém no seu cargo tenha ganhado um bônus há muito tempo. A porta para o escritório de A.J. Fikry está fechada. Amelia está quase lá quando a manga de seu suéter fica presa a uma das pilhas e centenas de livros, talvez mais, caem ao chão, fazendo umbarulhão embaraçoso. A porta é aberta, e A.J. Fikry olha da destruição para aquela gigante loira, que está tentando freneticamente arrumar os livros. “Quem é você, porra?” “Amelia Loman.” Ela empilha mais dez volumes e metade cai. “Deixa quieto”, A.J. ordena. “Tem uma ordem certa. Você não está ajudando. Por favor, vai embora.” Amelia fica de pé.

É pelo menos dez centímetros mais alta que ele. “Mas temos uma reunião.” “Não temos reunião nenhuma”, A.J. responde. “Temos, sim”, insiste Amelia. “Mandei um e-mail semana passada sobre os lançamentos de inverno. Você disse que eu podia vir na quinta ou na sexta à tarde. Eu disse que viria na quinta.” A troca de e-mails tinha sido rápida, mas real. “Você é representante?” Amelia assente, aliviada. “Qual é a editora mesmo?” “Pterodactyl.” “A Pterodactyl Press é do Harvey Rhodes”, A.J. retruca. “Quando você mandou e-mail semana passada, pensei que fosse assistente dele ou coisa do tipo.” “Sou a substituta do Harvey.” A.J. suspira pesadamente. “Pra qual empresa o Harvey foi?” O Harvey morreu, e por um segundo Amelia considera fazer uma piada ruim, como se o além fosse um tipo de empresa e Harvey estivesse trabalhando lá. “Ele morreu”, ela diz secamente. “Pensei que soubesse.” A maior parte dos seus contatos já tinha ficado sabendo. Harvey tinha sido uma lenda, pelo menos dentro do mundo dos representantes de vendas.

“Publicaram um obituário na newsletter da ABA e talvez na Publishers Weekly também”, ela diz para se redimir. “Eu não sigo notícias do mercado editorial”, diz A.J. Ele tira os óculos de aros grossos e pretos e fica um tempão limpando as lentes. “Sinto muito.” Amelia coloca a mão sobre o braço de A.J., e ele se desvencilha dela. “Que me importa? Eu mal conhecia o homem. A gente se via três vezes por ano. Não é o suficiente pra fazer amizade. E todas as vezes que ele vinha, era pra me vender algo. Isso não é amizade.” Amelia percebe que A.J. não está no clima de saber sobre o catálogo de inverno. Ela devia se oferecer pra voltar outro dia. Mas depois pensa na viagem de duas horas até Hyannis e na balsa de uma hora e vinte até Alice, e nos horários da balsa, que ficam cada vez mais irregulares depois de outubro. “Já que estou aqui”, diz Amelia, “se importa em olharmos os lançamentos de inverno da Pterodactyl?” O escritório de A.J. é um armário. Sem janelas, sem quadros, sem fotos da família sobre a mesa, sem bibelôs, sem saída. Tem livros, prateleiras baratas de metal, tipo as de garagem, um armário e um computador antigo, provavelmente do século XX. A.J.

não oferece algo pra beber, e, embora Amelia esteja com sede, não pede. Tira uns livros de cima da cadeira e se senta. Amelia começa a falar da lista de inverno. É a menor do ano, tanto em tamanho quanto emimportância. Alguns poucos estreantes de grande porte (ou ao menos de grandes expectativas), mas, exceto por esses, a lista é cheia de livros pelos quais a editora não tem a menor esperança comercial. Apesar disso, Amelia geralmente gosta mais dos “invernais”. São azarões, pobres coitados, as apostas arriscadas. (Não é exagero dizer que é assim que ela se vê também.) Deixa por último seu favorito, memórias escritas por um homem de oitenta anos, um solteirão convicto que se casou aos setenta e oito anos. Sua noiva morreu dois anos após o casamento, aos oitenta e três. Câncer. De acordo com a biografia, o autor trabalhou como repórter científico para vários jornais do meio-oeste dos Estados Unidos e sua prosa é precisa, engraçada e nem um pouco piegas. Amelia chorou incontrolavelmente no trem de Nova York para Providence. Sabe que Desabrochar tardio é um livro de pouca importância e que a descrição soa bastante clichê, mas tem certeza de que as pessoas vão amar se lhe derem uma chance. Pela experiência de Amelia, a maior parte dos problemas das pessoas seria resolvida se dessem mais chances às coisas. Amelia está na metade da descrição de Desabrochar tardio quando A.J. coloca a testa na mesa. “O que foi?”, Amelia pergunta. “Não é pra mim”, A.J. responde. “Lê só o primeiro capítulo.” Amelia enfia a prova na mão dele. “Eu sei que o assunto parece brega, mas quando ler a escri…” Ele interrompe: “Não é pra mim”.

“O.k., então vou apresentar outra coisa.” A.J. inspira profundamente. “Você parece uma jovem legal, mas seu antecessor… O negócio é: Harvey conhecia meus gostos. Eram os mesmos que os dele.” Amelia coloca a prova sobre a mesa. “Eu gostaria de conhecer os seus gostos”, ela diz, se sentindo um pouco como num filme pornô. Ele murmura algo entre os dentes. Ela acha que foi Pra quê?, mas não tem certeza. Amelia fecha o catálogo da Pterodactyl. “Sr. Fikry, por favor, me fale do que gosta.” “Gosta”, ele repete com desgosto. “Que tal eu falar do que não gosto? Não gosto de pósmodernismo, ambientações pós-apocalípticas, narradores post mortem nem de realismo mágico. Não costumo gostar de artimanhas nos formatos, fontes múltiplas, imagens desnecessárias — basicamente, truques de qualquer tipo. Acho ficção sobre o Holocausto ou qualquer outra grande tragédia mundial de mau gosto: apenas não ficção, por favor. Não gosto de mistura de gêneros, tipo romance literário de detetive ou fantasia literária. Literatura é literatura, gênero é gênero, misturar as coisas não costuma dar muito certo. Não gosto de livros infantis, principalmente os com órfãos, e prefiro não entulhar minhas prateleiras com livros juvenis. Não gosto de nada com mais de quatrocentas páginas e menos de cento e cinquenta. Sinto repulsa por romances escritos por ghost-writers para estrelas de reality show, livros de imagens de celebridades, memórias de esportistas, edições pós-filme, livrobrinquedo e, suponho que nem preciso dizer, vampiros. Não costumo estocar lançamentos, chick lit, poesia e traduções.

Preferiria não ter que estocar séries, mas minha conta bancária me obriga. Você não precisa me contar da ‘próxima grande série’ até que ela esteja abrigada na lista de best-sellers do New York Times. E, o mais importante, srta. Loman, não tolero memórias curtinhas de velhinhos cujas esposinhas morreram de câncer. Não importa quão bem escritas a representante de vendas diga que são. Não importa quantas cópias prometa vender no Dia das Mães.” Amelia fica vermelha, embora seja mais por raiva e não tanto por vergonha. Ela concorda emparte com A.J., mas o modo de falar foi desnecessariamente mal-educado. A Pterodactyl Press nem vende metade daquelas coisas. Ela o estuda. É mais velho que ela, mas não muito, não mais que dez anos. É muito novo pra gostar de tão pouco. “Do que você gosta?”, pergunta. “Todo o resto”, ele responde. “Admito que de vez em quando tenho uma queda por compilações de contos. Mas os clientes nunca compram.” Há apenas uma compilação de contos na lista de Amelia, um estreante. Não leu inteira, e o tempo dita que provavelmente não lerá, mas gostou da primeira história. Uma classe da sexta série nos Estados Unidos e outra na Índia participam de um programa internacional de correspondência. O narrador é um menino indiano na classe americana que passa informações erradas e engraçadas sobre a cultura indiana para os colegas americanos. Ela tosse para limpar a garganta, que ainda está terrivelmente seca. “O ano em que Bombaim virou Mumbai. Acho que vai ser especialmente int…” “Não.

” “Eu nem contei do que se trata.” “Disse que não.” “Mas por quê?” “Você sabe que só está me contando desse livro porque sou descendente de indianos e pensa que vai ser especialmente interessante pra mim. Não é?” Amelia se imagina pegando o computador arcaico e jogando na cabeça dele. “Estou lhe contando porque falou que gosta de contos! E é o único de contos na minha lista. E só pra você saber”, agora ela mente, “é maravilhoso, do começo ao fim. Mesmo sendo um autor estreante. “E quer saber o que mais? Eu amo estreantes. Amo descobrir algo novo. É em parte por isso que tenho esse emprego.” Amelia fica de pé. Sua cabeça lateja. Será que anda bebendo demais? Sua cabeça lateja e seu coração palpita. “Quer minha opinião?” “Na verdade, não. Quantos anos você tem? Vinte e cinco?” “Sr. Fikry, esta loja é uma graça, mas se continuar com esse, esse, esse”, quando criança, gaguejava, e isso de vez em quando volta quando está transtornada; tosse outra vez, “esse jeito atrasado de pensar, logo não haverá mais Island Books.” Amelia deixa o Desabrochar tardio e o catálogo sobre a mesa. Tropeça nos livros do corredor ao ir embora. A balsa seguinte só sai dali a uma hora, então ela aproveita pra ir a pé pela cidade. Uma placa de bronze do lado de fora do Bank of America comemora o verão que Herman Melville passou ali, na época em que o edifício era o Alice Inn. Pega o celular e tira uma foto de si com a placa. Alice é legal, mas não acha que vai ter motivo pra voltar logo. Manda uma mensagem para o chefe, em Nova York: Acho que não vamos ter pedidos da Island. :- ( O chefe responde: Não esquenta. Uma continha de nada, e a Island costuma pedir logo antes do verão, quando os turistas chegam.

O dono da loja é esquisitão, e o Harvey costumava ter mais sorte com a lista de primavera/verão. Você vai ter também. Às seis, A.J. fala pra Molly Klock ir embora. “Está gostando da Munro?”, pergunta. Ela bufa. “Por que tá todo mundo me perguntando isso hoje?” Só a Amelia tinha perguntado, mas Molly gosta de exagerar. “Acho que é porque você está lendo.” Molly bufa outra vez. “Tá o.k. As pessoas são, sei lá, humanas demais às vezes.” “Acho que essa é a intenção da Munro”, ele diz. “Sei lá. Prefiro os clássicos. Até segunda.” Algo tem que ser feito a respeito de Molly, pensa A.J. ao girar a placa para o lado FECHADO. Apesar de gostar de ler, Molly é uma péssima vendedora de livros. Mas ela trabalha só meio período, e é tão chato treinar uma pessoa nova, e pelo menos ela não rouba. Nic tinha contratado a garota, então devia ter visto algo na rabugenta srta. Klock. Talvez no verão A.

J. tenha energia para despedi-la. A.J. expulsa os últimos clientes (está irritado com um grupo que estuda química orgânica e não comprou nada, mas ficou acampado desde as quatro na seção de revistas — tem certeza de que umdeles entupiu a privada também), e depois lida com as notas fiscais, uma tarefa tão deprimente quanto parece. Por fim, sobe as escadas para o apartamento na sobreloja, onde mora. Pega uma embalagem de curry congelado e coloca no micro-ondas. Nove minutos, de acordo com as instruções. Parado ali, pensa na garota da Pterodactyl. Parecia uma viajante no tempo, direto de Seattle dos anos 90, com suas galochas de estampa de âncora e o vestido floral de brechó e o suéter bege esfiapado e o cabelo na altura dos ombros que parecia ter sido cortado na cozinha pelo namorado. Namorada? Namorado, decide. Pensa na Courtney Love, na época em que casou com o Kurt Cobain. A boca rosa durona diz Ninguém é capaz de me machucar, mas os olhos azuis suaves dizem Sim, você é capaz e provavelmente me machucará. E ele fez aquela flor de menina enorme chorar. Parabéns, A.J. O cheiro do curry fica mais forte, mas ainda faltam sete minutos e meio. Ele precisa de uma tarefa. Algo físico, mas não cansativo. Ele vai até o porão para desmontar caixas com seu estilete. Corta. Achata. Empilha. Corta. Achata.

Empilha. A.J. se arrepende de seu comportamento com a representante. Não foi culpa dela. Alguém devia ter avisado a ele que Harvey Rhodes tinha morrido. Corta. Achata. Empilha. Alguém provavelmente tinha avisado. A.J. apenas olha e-mails por cima, nunca atende ao telefone. Será que houve funeral? Não que A.J. teria ido de qualquer maneira. Ele mal conhecia Harvey Rhodes. Obviamente. Corta. Achata. Empilha. No entanto… Tinha passado horas com o homem nos últimos seis anos. Só conversaram sobre livros, mas o que, nessa vida, é mais íntimo do que livros? Corta. Achata. Empilha.

E como é raro achar alguém com seus gostos! A única briga que tiveram foi a respeito de David Foster Wallace. Na época do suicídio do Wallace. A.J. detestou o tom reverente dos tributos. O homem tinha escrito um livro razoável (apesar de indulgente e grande demais), alguns artigos modestamente perspicazes e não muito mais. “Infinite Jest é uma obra de arte”, dissera Harvey. “Infinite Jest é um teste de resistência. Se der conta de chegar ao fim, não tem escolha a não ser dizer que gostou. Se não, tem que lidar com o fato de que desperdiçou semanas da sua vida”, retrucara A.J. “Estilo sem substância, meu amigo.” O rosto de Harvey ficara vermelho ao se debruçar sobre a mesa. “Você fala isso de todo escritor que nasceu na mesma década que você!” Corta. Achata. Empilha. Quando ele sobe, o curry já esfriou. Esquenta de novo na bandeja de plástico, provavelmente vai ter câncer. Leva a bandeja para a mesa. A primeira garfada queima. A segunda está congelada. Comida pronta de supermercado. Ele joga a bandeja na parede. Quão pouco ele tinha significado para Harvey e quanto Harvey tinha significado para ele. A desvantagem de morar sozinho é que, qualquer bagunça que faça, você mesmo tem que limpar.

Não, a verdadeira desvantagem de morar sozinho é que ninguém se importa se está chateado. Ninguém se importa por que um homem de trinta e nove anos jogou uma bandeja de plástico comcurry do outro lado do cômodo, como uma criança. Ele se serve de uma taça de vinho. Abre a toalha sobre a mesa. Vai até a sala. Abre a redoma de vidro com controle de temperatura e retira Tamerlane. De volta à cozinha, ele o coloca na mesa, à sua frente, apoiado contra a cadeira onde Nic costumava sentar. “Saúde, sua bela bosta”, ele fala para o fino volume. Ele termina a taça. Serve-se de outra e, depois que termina essa, promete a si mesmo que irá ler um livro. Talvez um velho querido como Velha escola, de Tobias Wolff, embora seu tempo certamente seria mais bem gasto com algo novo. Sobre qual aquela representante bobinha não parava de falar? Desabrochar tardio… Argh. Ele tinha falado sério. Não há nada pior que memórias fofinhas de viúvos. Ainda mais quando se é um viúvo, como A.J., havia vinte e um meses. A representante era nova — não era sua culpa que não soubesse de sua entediante tragédia pessoal. Nossa, ele sentia saudade da Nic. De sua voz e seu pescoço e até de suas axilas. Ásperas como língua de gato, e no fim do dia, cheirava a leite pouco antes de talhar. Três taças depois, desmaia na mesa. Tem apenas um metro e setenta e sessenta e cinco quilos, e nem tinha forrado o estômago com o curry. Não vai avançar na sua pilha de leitura esta noite. “Ajay”, Nic sussurra.

“Vai pra cama.” Ao menos, ele sonha. O objetivo de toda bebedeira é chegar a este estado. Nic, sua esposa fantasma de sonho bêbado, o ajuda a ficar de pé. “Você é uma desgraça, seu nerd. Sabia disso?” Ele faz que sim. “Curry congelado e vinho tinto de cinco dólares.” “Estou seguindo as tradições de minha ascendência.” Ele e o fantasma arrastam os pés para a cama. “Parabéns, sr. Fikry. Está se tornando um alcoólatra de carteirinha.” “Desculpa”, ele diz, e ela o coloca na cama. Seu cabelo castanho está curto, “Cortou o cabelo, meio moleca”, ele diz. “Que estranho.” “Você foi horrível com aquela menina hoje.” “Foi por causa do Harvey.” “Óbvio.” “Não gosto quando as pessoas que eu conheço morrem.” “É por isso que não manda a Molly Klock embora?” Ele assente. “Não pode continuar assim.” “Posso”, diz A.J. “Estou. E vou.

” Ela o beija na testa. “O quero dizer é que eu gostaria que não continuasse.” Ela vai embora. O acidente não tinha sido culpa de ninguém. Ela tinha levado um autor para casa após um evento durante a tarde. Provavelmente corria para pegar a última balsa de automóveis para Alice. Possivelmente tinha desviado para não atropelar um veado. Possivelmente foram as estradas de Massachusetts no inverno. Não havia como saber. O policial no hospital perguntou se ela tinha tendências suicidas. “Não”, respondeu A.J. “De jeito nenhum.” Ela estava grávida de dois meses. Ainda não tinham contado a ninguém. Já tinham se frustrado antes. Na sala de espera do necrotério, ele desejou ter contado. Ao menos teriam tido um breve período de felicidade antes… Ainda não sabia como chamar isso. “Não, não tinha tendências suicidas.” Fez uma pausa. “Era uma péssima motorista que achava que dirigia bem.” “Sim”, disse o policial. “Não foi culpa de ninguém.” “As pessoas gostam de falar isso”, retrucou A.J.

“Mas foi culpa de alguém. Dela. Que coisa idiota ela foi fazer. Que coisa idiota e melodramática ela foi fazer. Que jogada de Danielle Steel, Nic! Se fosse um romance, eu pararia de ler agora. Eu jogaria o livro do outro lado da sala.” O policial (que não lia muito, a não ser o popular Jeffery Deaver durante as férias) tentou direcionar a conversa de volta à realidade. “É verdade. Você é o dono da livraria.” “Minha esposa e eu somos”, A.J. corrigiu sem pensar. “Nossa, acabei de fazer aquela coisa idiota, quando o personagem esquece que a esposa morreu e usa ‘nós’ sem querer. Que clichê. Senhor”, parou para ler o distintivo do policial, “Lambiase, você e eu somos dois personagens de um romance ruim. Sabia disso? Como é que viemos parar aqui, pô? Você deve estar pensando, Pobre coitado, e hoje à noite vai abraçar seus filhos mais apertado porque é isso que personagens nesse tipo de romance fazem. Sabe de que tipo de livro estou falando, não sabe? O tipo de ficção literária que faz sucesso que, tipo, segue um personagem coadjuvante sem importância por um tempo pra parecer coisa do Faulkner, efusivo. Olha como o autor gosta das pessoas comuns! Até seu nome. Policial Lambiase é o nome perfeito para um tira clichê de Massachusetts. Você é racista, Lambiase? Porque o seu tipo de personagem tem que ser racista.” “Sr. Fikry”, o policial Lambiase dissera, “tem alguém para quem possa telefonar?” Ele era um bom policial, acostumado às diversas maneiras como os que perdem um ente querido podem ter umcolapso. Pousou a mão sobre o ombro de A.J. “Sim! Isso mesmo, policial Lambiase, é exatamente o que deve fazer neste momento! Está atuando perfeitamente.

Por acaso você sabe o que o viúvo deve fazer agora?” “Ligar para alguém”, respondeu Lambiase. “Sim, deve ser isso mesmo. Mas já liguei para os meus sogros.” A.J. assentiu. “Se fosse um conto, nossa conversa acabava aqui. Um pequeno desvio irônico. Por isso, não há nada mais elegante na prosa que um conto, sr. Lambiase. “Se fosse Raymond Carver, você me ofereceria pouco conforto e a escuridão baixaria e tudo isso teria fim. Mas isso… isso está me parecendo mais um romance. Emocionalmente, quero dizer. Vou demorar um pouco para chegar ao fim. Sabe?” “Não sei, não. Nunca li Raymond Carver”, disse o policial Lambiase. “Eu gosto de Lincoln Rhyme. Conhece?” “O criminologista tetraplégico. Escreve bem para o nicho. Já leu contos?!” “Talvez na escola. Contos de fadas. Ou, hum, O menino e o alazão? Eu acho que devo ter lido O menino e o alazão.” “Esse é uma novela.” “Ah, desculpa. Eu… Espera, tem um com um policial que me lembro de ter lido no colegial.

Uma coisa de crime perfeito, acho que é por isso que lembro. Um policial é morto pela esposa. A arma é uma carne congelada, e ela serve pro outro…” “‘Cordeiro ao matadouro’”, disse A.J. “O conto se chama ‘Cordeiro ao matadouro’ e a arma é um pernil de cordeiro.” “Sim, é esse!” O policial ficou felicíssimo. “Você entende do assunto.” “É um texto muito conhecido. Meus sogros devem estar pra chegar. Desculpa ter me referido a você como ‘personagem coadjuvante sem importância’. Fui rude, e, até onde a gente sabe, eu sou ‘personagem coadjuvante sem importância’ na grande saga do Policial Lambiase. Um tira é um protagonista mais provável que um livreiro. Você, meu caro, tem seu próprio nicho.” “Hum”, disse Lambiase, “você deve ter razão. Voltando ao assunto. Como policial, meu problema é a sequência de eventos. Tipo, ela coloca a carne…” “Cordeiro.”

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