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A Vida dos Beatles – Hunter Davies

Liverpool fica no lado esquerdo da Inglaterra, logo depois da reentrância do mapa que é chamada País de Gales. Liverpool olha de seu canto para a Irlanda e, além dela, para a América. Em Liverpool vivem muitos irlandeses e galeses. Dizem que os irlandeses são espirituosos e que os galeses são bons cantores. Os cantos e o humor não começaram senão a partir do século XIX. Até aí, nada de muito importante aconteceu em Liverpool. Seu primeiro mapa data de 1207, mas a maioria das antiguidades de hoje data apenas da Revolução Industrial. Em 1830, foi iniciada em Liverpool a primeira ferrovia de passageiros e, dez anos mais tarde, a companhia de navegação Cunard Steamship Company lançou os primeiros transatlânticos do mundo. Nos cem anos seguintes, Liverpool foi tôda progresso. Desde a Segunda Guerra Mundial e o declínio da indústria têxtil de Lancashire, as coisas não têm progredido tanto. Hoje, a população é de 712.040 habitantes, não muito maior do que era em 1901. Mas Liverpool ainda é uma cidade orgulhosa e agitada. Os governantes da cidade podem mostrar e orgulhar-se de muitas realizações. A Corporation (Prefeitura) edita folhetos para nos informar que os mostradores do relógio do Royal Liver Building são maiores em diâmetro do que os do Big Ben, que Liverpool teve o primeiro médico de saúde pública da Inglaterra em 1847, e que tanto a RSPCA como a NSPCC tiveram seu início em Liverpool. E quanto às realizações de hoje, temos a nova catedral católica romana, que possui mais vitrais do que qualquer outra catedral do mundo, e, dos nove membros do Parlamento eleitos pela cidade, um é o Sr. Harold Wilson, primeiro-ministro da Inglaterra. Desde a guerra, o homem da rua, quando pensa em Liverpool, não pensa em nenhuma destas grandes realizações. Na mitologia britânica, Liverpool é famosa por três coisas — futebol, brigas e comediantes. A lista de comediantes de Liverpool inclui Tommy Handley, Robb Wilton, Arthur Askey, Ted Ray, Ken Dodd, Norman Vaughan e Jimmy Tarbuck, mas êles são só de interêsse inglês. Rex Harrison, também liverpooliano, é mais conhecido do que qualquer um dêles, em platéias fora da Inglaterra, pois suas representações estão longe de ser liverpoolianas. Fanny Hill nasceu, imaginàriamente, em Liverpool. Era uma cômica de primeiro time. Matthew Arnold morreu aqui, o mesmo acontecendo com William Huskisson, presidente da Comissão de Comércio, morto em 1830, no primeiro desastre de trem ocorrido no mundo. Liverpool ainda tem a sua aparência do século dezenove.


Todos os edifícios públicos do centro têm aquêle aspecto de grandeza clássica tão admirado pelos vitorianos. O Hotel Adelphi, nome e alma e uma peça da época, apesar de estar tentando desesperadamente parecer majestoso. Muitos dos heróis dêste livro costumavam encontrar-se no Adelphi. Do lado de fora, naturalmente. Nossos heróis, seus amigos e seus parentes não são muito majestosos. A Lime Street Station é outro ponto de encontro de Liverpool, que será ressaltado em nossa narrativa. Senhoras da rua, tais como a famosa Maggie May, costumavam pegar ali os seus melhores fregueses, antes de serem obrigadas a se esconder, devolvidas ao pôrto e “para o outro lado da água”. “Do outro lado da água”, em Liverpool, quer dizer as pessoas que moram do outro lado do Mersey, em Cheshire. Cheshire é muito grã-fino. Nenhum de nossos heróis vivia em Cheshire. O marco para tôdas as águas de Liverpool é o Pier Head. Os barcos vão para tôdas as partes: cruzam as águas para Gales, para a Irlanda ou para a América. É dominado pelo enorme Royal Liver Building, que é muito escuro e sujo. Êle tem um grande pássaro verde em cima e amarrado com fios, pois, caso contrário, há muito tempo êle já teria voado para algum lugar mais quente e mais limpo. Tem, ainda, uma grande estátua negra de Eduardo VII montado a cavalo. Fora isso, o Pier Head é um desapontamento. É apenas uma grande praça vazia, cercada num dos lados pelo pier. Também êle é o principal ponto final dos ônibus para a cidade. A maioria dos liverpoolianos passa grande parte de suas vidas em tôrno do Pier Head, especialmente os nossos heróis. Todos aquêles grandes navios e locomotivas, todos êsses comediantes engraçados, e mesmo tôdas aquelas brigas e futebol empalideceram diante dos nossos heróis. Para os que nunca ouviram falar em Liverpool, e, mesmo para aquêles que, de certo modo, dela ouviram falar, é bom saber que, hoje, Liverpool é o lugar de origem dos nossos heróis. PRIMEIRA PARTE LIVERPOOL 1.JOHN Fred Lennon, o pai de John, foi criado como um órfão. Foi para a Bluecoat School, em Liverpool, que, naquela época, recebia meninos órfãos. Quando saiu, Fred foi vestido de casaca e cartola; êle diz que havia recebido uma educação muito boa.

Ficou órfão em 1921, aos nove anos de idade, quando seu pai, Jack Lennon, morreu. Jack Lennon havia nascido em Dublin, mas passara grande parte de sua vida na América, como cantor profissional. Êle havia sido membro de um dos primeiros grupos de Kentucky Ministreis. Depois de se ter aposentado, voltou para Liverpool, onde Fred nasceu. Fred deixou o orfanato aos quinze anos, com sua boa educação e dois ternos novos para encaminhálo na vida, e se tornou contínuo num escritório. “Vocês podem pensar que eu não era grande coisa, mas eu estava lá, fazia só uma semana, quando o patrão pediu mais três garotos ao orfanato. Dizia que, mesmo que êles tivessem só a metade da minha vitalidade, seriam ótimos. Êle achava que eu era excelente.” Excelente ou não, aos dezesseis anos, Fred trocou o escritório pelo mar. Tornou-se camareiro e mais tarde garçom. Diz que era o melhor dos garçons, mas que não tinha ambição. Êle era tão bom, que os navios não saíam de Liverpool sem que êle estivesse a bordo. Foi pouco antes de iniciar sua grande carreira marítima que Fred Lennon começou a sair com Julia Stanley. Seu primeiro encontro foi logo na semana seguinte à sua saída do orfanato. “Foi um lindo encontro. Eu estava usando um dos meus dois ternos novos. Estava sentado no Sefton Park com um companheiro que me ensinava como pegar as garôtas. Eu havia comprado uma piteira e um chapéu-côco. Achava que isso realmente impressionaria as pequenas.” “Havia essa garôta em quem estávamos de ôlho. Quando passei ao seu lado ela disse: — “Você parece um bôbo.” — Eu respondi: — “Pois você é linda” — e sentei-me ao lado dela. Foi tudo inocente. Eu não sabia nada.” Ela disse que, se eu fôsse sentar-me ao lado dela, teria de tirar aquêle chapéu ridículo.

Então tirei-o e joguei-o no lago. Desde aquêle dia, nunca mais usei chapéu. Fred e Julia saíram juntos, durante as estadas de Fred em terra, cêrca de dez anos. Dizia êle que a mãe dela era apaixonada por êle, mas que o pai não se importava nem um pouco com êle. Ensinara Julia a tocar banjo. “Eu e Julia costumávamos tocar e cantar juntos. Hoje em dia, seríamos campeões de popularidade. Um dia, ela me disse —“Vamos casar.” Eu disse que teríamos de fazer correr os proclamas e fazer as coisas como manda o figurino. — “Aposto que você não fará nada disso”, — respondeu ela. Então, eu fiz, só de gozação. Foi tudo muito engraçado.” A família Stanley não achou muita graça. “Nós sabíamos que Julia estava saindo com Alfred Lennon”, diz Mimi, uma das quatro irmãs de Julia. “Êle era bastante bem-apessoado, tenho de admitir. Mas sabíamos que êle não serviria para ninguém, muito menos para Julia.” O casamento teve lugar no Mount Pleasant Register Office, no dia 3 de dezembro de 1938. Nenhumdos pais compareceu. Fred chegou primeiro, do lado de fora do Adelphi Hotel, às dez da manhã. Não havia nem sinal de Julia. Êle saiu e tentou pegar uma libra emprestada com seu irmão. Quando voltou, Julia ainda não havia aparecido. Então foi até ao cinema Trocadero. Julia costumava passar muito tempo no Trocadero, pois sempre fôra deslumbrada pelo palco. Na verdade ela nunca trabalhou lá, apesar de ter dado como sua profissão “lanterninha de cinema”, para a certidão de casamento.

“Conversei com uma de suas colegas no Troc”, diz Fred. “Tôdas elas diziam que se um dia eu deixasse de gostar de Julia elas me estariam esperando.” Julia, finalmente, apareceu e êles passaram a lua-de-mel no cinema. Depois disso, Julia foi para sua casa e Fred para a dêle. No dia seguinte, Fred embarcou, partindo para as Índias Ocidentais por três meses. Julia ficou em casa com seus pais, onde Fred também passou a viver durante os intervalos de suas viagens. Depois de uma viagem, Julia descobriu que estava grávida. Foi no verão de 1940. Liverpool estava sob pesados bombardeios. Ninguém sabia onde estava Fred Lennon. Julia foi internada no Maternity Hospital de Oxford Street para ter seu bebê. Êle nasceu durante umgrande ataque aéreo, no dia 9 de outubro de 1940, às seis e meia da tarde e passou a se chamar John Winston Lennon. Winston foi o resultado de um impulso momentâneo de patriotismo. Mimi, que viu o bebê, vinte minutos depois de ter nascido, escolheu o nome John.

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