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A Vida e As Extraordinárias Aventuras do Soldado Ivan Tchônkin – Vladimir Voinovitch

Pois bem, torna-se impossível dizer claramente se tudo aconteceu ou não, porque o incidente que pôs todo o caso em movimento (movimento esse que até recentemente continuara) sucedeu na aldeia de Krásnoie há tanto tempo que não resta praticamente qualquer testemunha ocular dessa época. As que existem se saem com todos os tipos de relatos diferentes e algumas não conseguem lembrar-se de coisa alguma. Ademais, para sermos fiéis à verdade, não foi o tipo de incidente do qual alguém se lembraria por tanto tempo. Quanto a mim, consegui reunir tudo que ouvi falar sobre o assunto e aduzi um pouco mais por conta própria; talvez tenha aduzido mais do que me contaram. Mas ao fim fiquei tão empolgado por esse relato que resolvi escrevê-lo. Se lhe parecer desinteressante, cacete, ou mesmo tolo, basta cuspir e esquecer que comecei a narrá-lo. A coisa aconteceu pouco antes do início da guerra, no final de maio e início de junho de 1941, em algum lugar por lá. Era um dia quente comum, típico daquela época do ano. Todos os kolkhózniks estavam trabalhando nos campos, mas Niúra Beliachova, que trabalhava no correio e não se achava diretamente ligada ao kolkhoz {1} , estava de folga e trabalhava em sua horta, fazendo leiras para batatas. O calor era tanto que percorrer o comprimento de três canteiros esgotara Niúra por completo. Tinha o vestido encharcado nas costas e sob os braços; onde secara ele se pusera branco e endurecido pelo calor do suor. O suor caía-lhe sobre os olhos e Niúra parou para arredar alguns feixes de cabelos negros que tinha sob o lenço e olhar para o sol a fim de calcular quanto tempo faltava para a hora do almoço. Não chegou a ver o sol porque uma grande ave de ferro, o bico retorcido a encobrir o sol e o resto do céu, vinha diretamente para cima dela. — Ai! — berrou tomada de pavor, e cobriu o rosto com as mãos, caindo desmaiada em uma vala. Borka, o porco, fossando perto da varanda, tratou de se escafeder, mas vendo que não corria perigo voltou ao mesmo lugar de antes. Após algum tempo Niúra se reanimou. O sol lhe esquentava as costas e ela percebeu o cheiro de terra seca e estrume. Em algum lugar os pardais chilravam e galinhas cacarejavam. A vida prosseguia. Niúra ergueu o olhar e viu a terra em torrões abaixo de si. “O que estou fazendo, deitada aqui?”, pensou, perplexa, e imediatamente se lembrou da ave de ferro. Niúra era uma jovem educada. Às vezes lia O Caderno do Ativista, que o organizador do Partido, Kilin, encomendava com regularidade. O Caderno afirmava em termos totalmente destituídos de qualquer incerteza que as superstições eram uma herança do passado obscuro e deviam ser por completo desarraigadas. Essa idéia se afigurava inteiramente correta aos olhos de Niúra.


Ela voltou a cabeça para a direita e viu sua própria varanda e Borka, o porco, ainda fossando por ali como antes. Nada havia de sobrenatural em tudo isso. Borka sempre fossava quando encontrava o lugar adequado, e mesmo se o lugar não fosse adequado fossava por lá, de qualquer jeito. Niúra voltou mais a cabeça e viu o céu de um azul puro e o sol amarelo. Incentivada, virou a cabeça para a esquerda, e seu rosto baixou no mesmo instante. Aquela ave terrível realmente existia; lá estava, não muito longe do jardim de Niúra, asas verdes e grandes espalhando-se bastante para os lados. “Dê o fora daí!”, ordenou-lhe Niúra, em pensamento. Queria persignar-se, mas era difícil fazê-lo, pois estava caída sobre o estômago e tinha medo de se levantar. Foi quando um pensamento lhe ocorreu como um choque elétrico. “Está claro, é um aeroplano!” E realmente assim acontecia. O que Niúra interpretara como sendo uma ave de ferro era um aeroplano comum, e o que lhe parecera um bico retorcido era a hélice, agora parada. Quase raspando o telhado de Niúra o aeroplano tocara o chão, correra pela relva e viera parar tão perto de Fedka Rechetov que sua asa direita quase o derrubara. Fedka, um grandalhão de rosto avantajado e cabeça ruiva, mais conhecido pelo apelido de “Grandão”, estivera cortando a relva com a foice. Vendo Grandão, o piloto desafivelou o cinto de segurança, inclinou-se para fora da cabine e gritou: — Ei, mujique, que aldeia é essa? Grandão não ficou absolutamente surpreso ou assustado. Aproximou-se do aeroplano e explicou prontamente que sua aldeia se chamava Krásnoie, embora costumasse chamá-la de Griáznoie anteriormente, e que as aldeias de Kliukvino e Nova Kliukvino faziam parte de seu kolkhoz embora estivessem do outro lado do rio, enquanto a Velha Kliukvino, que ficava no lado do rio em que se achavam, pertencesse a outro kolkhoz. Seu kolkhoz chamava-se Folha Vermelha e o outro era Vorochi-lov. Tinham ocorrido três mudanças de presidente nos últimos dois anos, lá por Vorochilov. Haviam trancafiado o primeiro por roubo, o segundo por seduzir menores e o terceiro, que fora enviado até lá para endireitar as coisas e que endireitara as coisas por algum tempo de início, começara a beber e continuara bebendo até beber tudo o que possuía e todos os fundos do kolkhoz. Finalmente as coisas haviam piorado de tal maneira que, durante um acesso de D{2} ele fora enforcarse, deixando um bilhete com uma só palavra, “Eh”, acompanhada por três pontos de exclamação. Ninguém fazia a mínima idéia do que esse “Eh!!!” significava. Quanto a seu próprio presidente, ele também bebia incontrolavelmente, mas não era ainda O que alguém pudesse chamar de caso sem esperanças. Grandão estava prestes a proporcionar ao piloto maiores informações sobre a vida dos povoados vizinhos, quando começaram a chegar pessoas correndo. Como de costume as crianças foram as primeiras a chegar. Vinham acompanhadas por mulheres às pressas, algumas com criancinhas e outras grávidas, e muitas com os filhos pequeninos e tambémgrávidas. Havia até mesmo algumas com uma criança presa às saias, outra a lhes segurar a mão, umbebê aninhado no braço e mais um amadurecendo no ventre.

Por falar no assunto, em Krásnoie (e Krásnoie por acaso será uma exceção?) as mulheres se deliciavam em ter muitos filhos, e estavamsempre grávidas ou haviam acabado de ter um bebê, e às vezes acabavam de ter um bebê e já estavam grávidas de novo. Os velhos e as velhas vieram arrastando os pés em seguida. Depois os demais kolkbózniks abandonaram o trabalho nos campos próximos e vieram às pressas, empunhando ainda as foices, ancinhos e cortadoras, formando uma visão que em muito se parecia ao quadro Levante dos camponeses, pendurado no clube do distrito. Niúra, ainda deitada na horta, voltou a abrir os olhos e se ergueu sobre o cotovelo. “Deus”, um pensamento alarmante percorreu-lhe o cérebro, “estou deitada aqui enquanto todos foramdar uma boa olhada.” Pernibamba, as pernas ainda atacadas de medo, Niúra se contorceu com agilidade, passando pela cerca de trilhos, e disparou em carreira na direção da multidão que pouco a pouco engrossava. As mulheres estavam nas fileiras de trás e Niúra as acotovelou para o lado, gemendo: — Oi, meninas, deixem-me passar! E as mulheres abriram caminho para Niúra porque dava para perceber, em sua voz, que ela precisava estar lá. Veio depois uma fileira de mujiques, mas Niúra os acotovelou igualmente, dizendo: — Oi, mujiques, deixem-me passar! Finalmente encontrou-se na fileira da frente, bem próxima do aeroplano. Dava para ver uma faixa larga de óleo que corria por todo o comprimento da fuselagem e o piloto em seu paletó de couro inclinado na asa, fitando cheio de confusão a multidão, e girando seu capacete destroçado e óculos escuros em um dos dedos. Grandão se achava em pé, ao lado de Niúra. Olhou-a de cima a baixo, riu e depois disse comternura: Parece que você ainda está viva, Niurka. Pensei que tinha morrido. Você sabe, eu vi esse aeroplano. Estou lá cortando o feno quando vejo que ele vem. Bem na direção de seu teto, Niúra, ia bater na sua chaminé. Depois, eu digo, vai derrubar a velha Niúra. Bosta de cavalo! — disse Nikolai Kurzov, em pé à direita de Grandão. Grandão parou no meio do que dizia, olhou Nikolai de cima a baixo, tarefa bem fácil para ele, criatura mais alta do que Nikolai, e depois fez uma pausa para pensar, dizendo: — Bosta de cavalo vem de cavalo. E eu não sou cavalo. Assim sendo, cale essa boca e fique com ela fechada até eu dizer que pode abrir. Entendeu? Não fui eu quem se intrometeu por aqui. Grandão olhou para a multidão, piscou o olho para o piloto e depois, satisfeito com a impressão que havia causado, prosseguiu: — Niurka, aquele aeroplano passou a um dedo de sua chaminé, no máximo. No mínimo, menos ainda. Se tivesse derrubado sua chaminé, estaríamos lavando seu cadáver amanhã. Eu não ia ajudar a laválo, mas Kolka Kurzov ajudaria, com certeza.

Ele é muito curioso nessas coisas de corpo de mulher. No ano passado foi trancafiado em Dolgov durante três dias por ter entrado no banheiro das mulheres e ter se escondido sob o banco. É isso mesmo. Todo mundo prorrompeu em gargalhadas, embora soubessem que não era verdade e que Grandão acabara de inventar aquilo, naquele instante. Quando haviam parado de rir, Stepan Lukov perguntou: — Grandão! Ei, Grandão! Quando você viu que o avião ia derrubar a chaminé ficou com medo ou não? O rosto de Grandão retorceu-se de desdém. Queria cuspir, mas não havia onde, com tanta gente por ali. Por isso engoliu o cuspe e disse: — E por que eu iria ficar com medo? O aeroplano não é meu, a chaminé também não é. Se fosse minha, talvez ficasse com medo. Foi exatamente quando um dos garotinhos que corriam em meio às pernas dos adultos rompeu por ali e bateu com um pau na asa, fazendo-a soar como um tambor. — O que está fazendo aqui? — gritou o piloto para o menino. Assustado, o garotinho mergulhou na multidão, mas voltou momentos depois, desta feita sem o pau. Tendo ouvido o som que a asa fazia, Grandão sacudiu a cabeça, e com maldade escondida perguntou ao piloto: Isso é coberto de pele de porco? O piloto respondeu: É coberto com percalina. O que é isso? Uma espécie de tecido — explicou o piloto. Engraçado — disse Grandão. — Pensei que era tudo feito de metal. Se fosse tudo de metal — voltou Kurzov a se intrometer — o motor não conseguiria tirá-lo do chão. Não é o motor que o tira do chão, é a força de sustentação — disse o armazenista Gladichev. Todos respeitavam Gladichev por sua erudição, mas dessa vez duvidaram do que ele afirmava. As mulheres não davam atenção a essas conversas, outra coisa lhes chamara a atenção. Avaliavam o piloto, olhavam-no diretamente e debatiam os pontos positivos de sua indumentária, sem se embaraçarem de modo algum por sua presença, como se ele fosse um objeto inanimado. — Meninas, aquela jaqueta de couro é de puro terneiro — declarou Taika Gorchkova. — Olhem, é até franzida. Dá para ver que não negam o bom couro a eles. Ninka Kurzova contrapôs: Isso não é terneiro, isso é couro de cabrito. Ei, não acredito! — prorrompeu Taika.

— Que quer dizer com couro de cabrito? Couro de cabrito tem borbulhas. E o dele também. E onde é? Vá apalpar e você vê — disse Ninka. Taika olhou o piloto com expressão de dúvida e proclamou: — Eu ia apalpar, sim, mas ele deve sentir cócegas. O piloto corou, cheio de embaraço e sem a menor idéia de como devia portar-se diante daquilo. Salvou-o Golubev, o presidente do kolkhoz, que chegava ao cenário naquele momento em seu carrinho de duas rodas. Toda a questão viera apanhar Golubev exatamente quando ele e Volkov, o contador de um só braço, estavam a questionar Vovó Dúnia sobre a questão da mistura alcoólica que ela fazia em casa. Os resultados do interrogatório eram evidentes: o presidente desceu do carrinho com cuidado especial, a ponta da bota procurando devagar a braçadeira de ferro que estava presa ao lado e servia como degrau. O presidente estava bebendo com muita freqüência e bastante ultimamente, à altura do presidente que se enforcara na Velha Kliukvino. Algumas pessoas achavam que bebia porque era um bêbado, já outras pensavam que o motivo eram problemas familiares. O presidente tinha família numerosa — a esposa, que sofria sempre de problemas renais, e seis filhos, que andavam por ali sujos, sempre brigando, e comiam muito. Tudo isso não teria sido tão terrível se, por infortúnio, as coisas no kolkhoz não estivessem andando mal. Não o que alguém chamaria de muito mal; podia-se até afirmar que as coisas iam bem, só que pioravam a cada ano. De início, quando todos haviam arrastado seus pertences e empilhado tudo em um só grande monte, tal fora uma visão cheia de inspiração, e encarregar-se de tudo aquilo parecera idéia bastante agradável; mais tarde, todavia, alguém pensara melhor e fora apanhar suas coisas de volta, mesmo que isso não devesse ser feito. Desde então o presidente se sentia como a mulher velha que haviamcolocado em cima do montão a fim de guardá-lo: as pessoas a cercavam por todos os lados, agarrando seus pertences de qualquer maneira; se ela agarrasse um pela mão, imediatamente outro começava a puxar algo que estava por baixo — ela partia na direção do segundo e o primeiro conseguia safar-se. O que se pode fazer? Fora uma vivência dura para o presidente, já que não compreendia que a culpa não era apenas sua. Vivia na expectativa constante da chegada de alguma comissão de inspeção — ocasião em que pagaria por tudo, e pagaria todo o preço. Até então, todavia, haviam conseguido arranjar-se. De quando em vez diversos inspetores distritais, examinadores e instrutores vinham de carro e tomavam vodca com ele enquanto comiam toucinho com ovos, assinavam os documentos comprobatórios e partiam de carro, e tudo ao mesmo tempo. O presidente deixara até mesmo de receá-los, mas, como não era imbecil, compreendia que as coisas não podiam seguir sempre assim e que um dia uma Comissão de Inspeção de Responsabilidade Máxima apareceria de repente e resolveria a questão de uma vez. Assim é que Golubev não teve a menor surpresa ao tomar conhecimento de que um aeroplano pousara nos arrabaldes da aldeia, perto da casa de Niúra Beliachova. Percebera que o dia da verdade chegara, e se preparara para enfrentá-lo com coragem e dignidade. Ordenou a Volkov, o contador, que juntasse o pessoal, e depois de sorver um gole de chá para refrescar um pouco o hálito montou no veículo de duas rodas e partiu para onde o aeroplano pousara, decidido a enfrentar seu destino. Quando apareceu, a multidão abriu caminho, formando um corredor vivo entre ele e o piloto. Com os passos bem firmes o presidente rumou para o piloto, estendeu o braço para ele enquanto se achava a alguma distância.

— Golubev, Ivan Timofêievitch, presidente do kolkhoz — apresentou-se, sem errar uma só palavra, soprando para o lado a fim de não se arriscar. — Tenente Melechko — apresentou-se o piloto. O presidente ficou um tanto surpreso pelo fato de que o representante da Comissão Máxima fosse tão jovem e de patente tão modesta, mas não o deixou perceber e disse: — Prazer em conhecê-lo. Em que posso ajudá-lo? — Não tenho certeza — disse o piloto. — Meu tubo de óleo partiu, e o motor parou. Por isso tive de fazer um pouso forçado aqui. — Seguindo ordens? — indagou o presidente. — Que quer dizer com “ordens”? — retrucou o piloto. — Estou lhe contando que foi um pouso forçado. O motor parou. “Isso mesmo, isso mesmo, pode vir com essa”, pensava Ivan Timofêievitch enquanto dizia em voz alta: — Se é alguma coisa no motor, podemos ajudar. Stepan — disse, voltando-se para Lukov —, dê uma espiada nisso aí e veja o que pode fazer. Ele trabalha com nossos tratores — explicou para o piloto. — Sabe desmontar qualquer máquina e montar outra vez. Quebrar e consertar são duas coisas diferentes — confirmou Lukov, tirando uma chave inglesa do bolso lateral da jaqueta suja de graxa e partindo diretamente para o aeroplano. Ei, ei, não, não faça isso. — O piloto tratou de impedi-lo com rapidez. — Isso não é um trator, é uma máquina de voar. Não tem diferença — prosseguiu Lukov, cheio de esperanças. — O mesmo tipo de porcas nas duas. Você roda para um lado, aperta. Roda para o outro lado, afrouxa. Você não devia ter pousado aqui — disse o presidente —, mas lá perto da Velha Kliukvino. Eles têm um posto de máquinas e tratores e uma oficina. Lá poderiam consertar direitinho.

Quando se faz um pouso forçado — explicou o piloto, cheio de paciência —, não se escolhe o lugar. Eu vi que o campo não estava plantado e tratei de descer. Nós praticamos o sistema de grama, por isso o campo não está plantado — disse o presidente a se justificar. — Talvez você queira examinar os campos e nossos livros. Meu gabinete está aberto para isso. E para que preciso de seu gabinete? — perguntou o piloto, com raiva ao notar que o presidente continuava querendo chegar a algum ponto do qual não fazia a menor idéia. — Mas espere um pouco. Existe um telefone em seu gabinete? Preciso fazer uma chamada. Por que telefonar agora mesmo? — perguntou Golubev, ofendendo-se. — Primeiro você deve ver o que se passa, conversar um pouco com as pessoas. Escute — implorou o piloto. — Por que está querendo me deixar doido? Por que devo falar com essa gente? Preciso falar é com meus superiores. “Que conversa esta!”, observou Golubev para si mesmo. “Trata-me com educação. Nada de palavrões. Não fala com as pessoas, vai diretamente aos superiores.” — A seu critério — disse Golubev, o destino pressagiado na voz. — É só que, a meu ver, não dói conversar com as pessoas. Elas vêem tudo, sabem de tudo… Quem esteve aqui, quem disse o quê, quem andou esmurrando a mesa. Ai, de que adianta falar! — E Golubev, balançando a mão em desagrado, convidou o piloto a embarcar em seu carrinho. — Entre, eu o levo lá. Telefone o quanto quiser. Mais uma vez a multidão abriu caminho. Golubev ajudou obsequiosamente o piloto a embarcar no carrinho, depois montou, fazendo com que a mola do lado cedesse e rangesse. Capítulo 2 Murchando com o calor, a camisa desabotoada e as botas sem graxa há muito tempo, cobertas por uma camada espessa de poeira, o Capitão Zavgórodni, oficial de serviço da unidade, estava sentado na varanda no quartel-general e observava o que acontecia diante da entrada dos alojamentos, onde a companhia do comandante se encontrava aquartelada.

O seguinte acontecia por lá: Ivan Tchônkin, soldado baixote e de pernas tortas do Exército Vermelho, tendo ainda um ano de serviço ativo a cumprir, a gandola pendurada para baixo na correia e o quepe cobrindo-lhe as orelhas grandes e vermelhas, as perneiras mal colocadas e escorregando pelas pernas, achava-se em posição de sentido diante do sargento-mor da companhia, Peskov, e o olhava apavorado, os olhos inflamados pelo sol. O sargento-mor, criatura bem-alimentada, faces rosadas e cabelo louro, refestelara-se em um banco de pranchas sem pintura, com as pernas cruzadas e fumando um cigarro. No chão! — ordenou o sargento, e não o fez em voz muito alta, como se não estivesse com grande vontade de emitir essa ordem; Tchônkin obedientemente jogou-se ao chão. Ultima forma! — Tchônkin saltou e pôs-se em pé. — No chão! Última forma! No chão! Camarada capitão — gritou o sargento a Zavgórodni —, que horas são em seu relógio de ouro? O capitão consultou o grande relógio feito nas usinas de Kirov (não era de ouro, naturalmente, o sargento apenas brincava) e respondeu ociosamente: Dez e meia. Tão cedo — lamentou o sargento —, e o calor já mata a gente. — Ato contínuo voltou-se para Tchônkin. — Última forma! No chão! Última forma! Alimov, o ordenança, apareceu na varanda. Camarada sargento — gritou —, estão chamando ao telefone. Quem é? — perguntou o sargento, relanceando o olhar malsatisfeito ao redor. Não sei, camarada sargento. A voz era tão rouca, parecia alguém com resfriado. Pergunte quem é. O ordenança desapareceu, passando pela porta, e o sargento voltou-se para Tchônkin. — No chão! Última forma! No chão! Logo o ordenança voltava, caminhava até o banco e, lançando um olhar cheio de simpatia a Tchônkin, esparramado na poeira, informou: Camarada sargento, estão chamando do banho. Querem saber se o senhor vai apanhar o sabão ou manda alguém até lá. Você não vê que estou ocupado? — disse o sargento, sofreando a raiva. — Diga a Trofímovitch para apanhar. — E voltou-se para Tchônkin: — Última forma! No chão! Última forma! No chão! Última forma! Ei, sargento — disse Zavgórodni, agora curioso —, por que faz isso com ele? Este aqui, camarada capitão, este é um palerma e porcalhão — o sargento apressou-se a explicar, e ordenou novamente a Tchônkin que se jogasse ao chão. — No chão! Está quase dando baixa e ainda não aprendeu a fazer continência. Última forma! Em vez de cumprimentar corretamente, ele abre os dedos até a orelha. E não marcha, arrasta os pés como se estivesse passeando. No chão! — O sargento tirou do bolso um lenço e enxugou o suor na testa. — Eles acabam com a gente, camarada capitão. A gente gasta tempo com eles, prepara-os, escangalha o sistema nervoso e quase não vale a pena.

Última forma! Mande para além do posto — propôs o capitão. — Deixe-o marchar por lá, de um lado para outro, dez vezes em passo de parada, fazendo continência. Uma possibilidade — reconheceu o sargento e cuspiu o cigarro. — Muito boa idéia, camarada capitão. Tchônkin, ouviu o que o capitão disse? Tchônkin limitou-se a ficar onde estava, ofegante, sem responder. Olhe para ele! Coberto de poeira, o rosto imundo; isso não é soldado, é uma piada de mau gosto. Dez vezes de lá para cá, até o poste, e… — ordenou o sargento de súbito: — marcha rápida! É assim — aprovou o capitão, empertigando-se. — Sargento, ordene que ele aponte melhor o dedo do pé, quarenta centímetros acima do chão. Eh, que palerma! Incentivado com o apoio proporcionado pelo capitão, o sargento ladrava as ordens: — Suspenda essa perna. Dobre o cotovelo. Dedos na têmpora. Ainda hei de lhe ensinar como cumprimentar seus oficiais comandantes. Meia-volta… Marcha rápida! Nesse momento o telefone tocou no corredor do quartel-general. Zavgórodni olhou para lá, mas não se levantou. Não sentia a menor inclinação a se mexer. Gritou: — Sargento, olhe, as perneiras se desamarraram. A qualquer instante ele vai tropeçar e cair. Olhe só, você vai morrer de rir. O que o Exército tem a ver com um espantalho como esse, afinal, hein, sargento? No corredor, entrementes, o telefone tocava mais alto e com mais insistência. Zavgórodni levantou-se com grande relutância e entrou no quartel-general. — Alô, Capitão Zavgórodni falando — disse inquieto ao telefone. A distância entre a aldeia de Krásnoie e o local do acampamento era cerca de cento e vinte quilômetros, talvez mais, e a transmissão telefônica se mostrava a mais abominável. A voz do Tenente Melechko surgia entremeada de estalidos e música, e foi preciso grande esforço da parte do Capitão Zavgórodni para compreender do que se tratava. Desde o início ele não atribuiu a devida importância à mensagem do tenente e queria voltar ao espetáculo que o telefonema viera interromper. A caminho do telefone para a porta, entretanto, o significado do que acabara de ouvir chegou-lhe à percepção consciente.

Compreendendo então o que acontecera, abotoou a gola da gandola, limpou as botas uma na outra e foi apresentar-se ao chefe do Estado-Maior. Zavgórodni bateu à porta com o punho (o chefe do Estado-Maior tendia um pouco para a surdez) e sem esperar que atendessem entreabriu-a, cruzou o umbral e gritou: Solicito permissão para entrar, camarada major. Negada — disse o major em voz baixa e sem erguer o olhar dos documentos que lia. Zavgórodni, entretanto, não deu atenção às palavras do major; não conseguia lembrar-se de um só caso em que o chefe do Estado-Maior houvesse dado permissão a pessoa alguma para fazer qualquer coisa. Solicito permissão para me apresentar, camarada major. Negada — disse o major, erguendo a cabeça e interrompendo a leitura. — É esse o aspecto que tem, capitão? Não fez a barba, os botões não foram polidos, as botas não foram engraxadas. Vá à… — disse o capitão em voz baixa, fitando chistosamente o major, olho a olho. Pelo movimento dos lábios do capitão o major pôde compreender aproximadamente o que lhe fora dito, mas não podia ter certeza, já que era impossível imaginar tamanha impertinência por parte de um oficial comum, e assim, fingindo não ter compreendido, continuou com o que estava dizendo: Se não tem dinheiro para comprar graxa na cantina posso dar-lhe uma lata de presente. Obrigado, camarada major — disse Zavgórodni com grande educação. — Solicito permissão para informar que o motor do Tenente Melechko pifou e que ele teve de fazer um pouso forçado. Pousou? Onde?

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