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A Vida E uma Festa – Sarah Mason

Ele está pronto para ir embora. Reconheço os movimentos irrequietos das mãos, os gestos entediados, a postura do corpo que está pronto para sair. Ou seja, tenho cerca de trinta segundos para dizer algo descontraído, espirituoso e sofisticado, com uma entonação não-estou-nem-aí-para-você, veja-só-como-me-dei-bem. Não é preciso entra em pânico, basta pensar em algo. Vinte segundos. Droga. Droga. Pense, sua estúpida, pense. O turbilhão de emoções faz minha cabeça girar. O problema todo está no fato de que, nas poucas ocasiões em que pensei a respeito de um reencontro com Simon, sempre me vi deslizando no meu carro esportivo imaginário, com uma bolsa Prada bem posicionada nas mãos, e mais bem posicionada ainda no alto de um par de sapatos Manolo Blahnik. Imaginei cenas onde esnobava sua fazenda, enquanto Simon dizia o quanto lamentava o seu comportamento no passado e mostrava sua incredulidade ao ver como eu estava glamourosa/linda/inteligente. Estive esperando essa oportunidade durante anos, mas, agora que ela se concretiza à minha frente, estou nervosa e apreensiva. Simon teve um efeito tão grava na minha infância que eu mal posso acreditar que ele está a poucos passos de distância. Este tipo de encontro não deveria ter trovões e fogos de artifício, em vez de canapés de enroladinhos de salsicha? E para onde vão todas aquelas observações espirituosas e sarcásticas que você tem guardadas na memória quando você mais precisa delas? Olho em direção a Dominic, que supostamente é o meu melhor amigo, balançando a cabeça de um modo ridículo e ignorando solenemente os dois cavalheiros que pairam em frente a bandeja de canapés que ele deveria estar servindo. No exato momento em que as mãos dos dois movem-se em direção à bandeja, Dom não agüenta mais, tira bandeja que estava bem embaixo de seus narizes e marcha na minha direção. — Izzy, o que você está fazendo? — ele cochicha. — Você sabe que é ele, não sabe? Vá até lá e diga alguma coisa. Ele me empurra na direção da porta, onde Simon Monkwell está vestindo seu casaco, ainda ignorando minha presença. — Eu não sei o que dizer — cochicho nervosa. — Basta começar uma conversa — resmunga Dom enquanto revira os olhos dramaticamente. Basta começar uma conversa. Falando assim parece fácil, não é? Bom, é muito fácil começar uma conversa com uma bandeja de canapés na mão, não é? O senhor gostaria de provar o rocambole de salmão defumado ou a tortinha de cogumelo? Sim, claro! É muito simples. Antes que eu possa impedi-lo, Dominic coloca sua bandeja nas minhas mãos e me empurra comforça na direção de Simon. Mas meus sapatos são novos e ainda não foram usados o suficiente, as solas novas deslizam levemente no piso encerado, fazendo com que eu pare quase em cima dele. Simon parece muito surpreso em tem uma morena e vários rocamboles de salmão defumado nos seus braços.


Fantástico, Izzy. Simplesmente genial. Agora você está, literalmente, jogando-se em cima dele. — Puxa, desculpe — murmuro, tentando me desvencilhar dele. Chegou a hora. E não é nada parecido com o que eu havia planejado. Apesar de ter sempre imaginado o que aconteceria se eu acabasse ficando novamente cara a cara com Simon Monkwell, não pensei que seria algo tão ao pé da letra. Simon me segura pelos ombros e me endireita com firmeza, como se estivesse me colocando no meu lugar. Algumas coisas nunca mudam. Ele olha dentro dos meus olhos com uma expressão levemente confusa. — Gostaria de provar uma tortinha de cogumelo selvagem? — pergunto. Bravo, Isabel. Você não vê este homem há quinze anos e esta é a única pergunta que passa pela sua cabeça? Simon olha para mim intrigado. — Hão, não. Obrigado. Estava de saída. — Sua voz é como uma ligeira nuvem de perfume. Ela toca a minha memória por um segundo e desaparece. — Um enroladinho de bacon e nozes? — insisto. Por trás do ombro esquerdo de Simon está Dominic, fazendo gestos de quem está cortando a garganta. Simon me olha como se estivesse tentando me reconhecer. Não tenho certeza se ele vai se lembrar de nosso último encontro: eu tinha onze anos e ele, treze. E eu o reconheço somente por causa da sua meteórica ascensão empresarial, registrada pela mídia. — Nós já nos encontramos antes? — ele pergunta intrigado. — Hum-hum…—gaguejo.

Minha boca tem a enorme tendência de ignorar qualquer instrução que venha do meu cérebro. Ás vezes me pergunto se meu cérebro e minha boca não são, de fato, duas entidades separadas e independentes. Não sei por quê, mas, subitamente, descubro que não tenho muita vontade de revelar quem sou. Estamos em uma festa muito elegante no centro de Krightsbridge. É o lançamento de um novo tênis de corrida, cheio de estilo, chamado Zephyr, que é, supostamente, a Dom Pérignon do mundo dos esportes. Eu organizei a festa — sou uma promoter –, mas ele provavelmente deve pensar que sou uma garçonete, ali de pé, oferecendo canapés como uma idiota. Agora, Dominic acena para mim por trás das costas de Simon. Lanço um olhar fulminante de indignação na direção dele, enquanto Simon olha para nós dois, completamente desorientado. De repente, uma luz surge nos olhos de Simon. Ele me reconheceu. Sabe exatamente quem sou e me encara por um segundo, mergulhado em um fascínio quase mórbido. Mas desisto de cumprimentálo quando ele inclina a cabeça, sem graça, escolhe um canapé da bandeja, coloca-o na boca e continua a vestir o casaco sem voltar a fazer contato visual. Ele me reconheceu e me ignorou, semsequer me dar uma oportunidade para explicações. Sou transportada imediatamente para casa onde crescemos juntos, e as lembranças ruins daqueles anos preenchem minha mente. Faço um último esforço para falar com ele. — Tenho, hã… — Dom está pulando para cima e para baixo. -— há… lido tudo sobre…—Dom está agora com a mão erguida no ar, como um menino de quatro anos de idade –… você na… DEUS DO CÉU! O QUE É, DOM? — Izzy, você precisa vir comigo agora. — Dom sussurra no meu ouvido. — Parece que a amante do diretor-gerente da Zephyr apareceu. E acho que a esposa dele não está muito feliz comisso. — Olho por cima do ombro de Dom e vejo uma mulher brandindo um espeto de frutas e ummonte de pessoas encolhidas em um canto da sala. Genial. Por que coisas como estas sempre acontecem no meu turno? É claro que isso vai acabar sendo minha culpa, de um jeito ou de outro. Viro-me para pedir desculpas a Simon, mas ele já foi embora. CAPÍTULO 1 Dez meses depois É extremamente difícil conversar com um viking.

Em primeiro lugar, é impossível manter a concentração, os chifrinhos espetados no alto do capacete estão praticamente tremendo de indignação e ele não pára de jogar sua capa no meu rosto. — Não acho que você esteja me dando material suficiente para trabalhar. Como espera que alguém consiga trabalhar com isso? — Ele brande uma espada de plástico atarracada bem à frente dos meus olhos. — Como é possível encontrar o verdadeiro eu nórdico de alguém? Hum? Como é possível? E por que Oliver ganhou a picareta e o martelo e eu só ganhei isso? Dou uma olhada em Oliver, que espera pacientemente na porta, de uma maneira decididamente nada nórdica. Provavelmente espera que o ensaio comece. Conformado, ele acende um cigarro. Volto a olhar para o viking enfurecido e digo calmamente: — Olhe, Sean, você sabe perfeitamente que o seu papel é muito mais importante do que o de Oliver. Apenas achei que, dandolhe mais alguns adereços, ele não se sentiria posto de lado. — E obvio par todo mundo, menos para Sean, que Oliver não está nem aí para o fato de ser posto de lado ou não. Sean acalma-se um pouco. — Entendo o seu ponto de vista, Izzy. Obrigado por ser tão honesta. Mas eu realmente acho… — e começa a sussurrar. –… que você deveria pedir ao Oliver para ele perder uns quilinhos. Afinal de contas, um viking não deveria ter muito o que comer, certo? Alguns legumes e, talvez, um pouco de frango. Ele não deveria dar a impressão de ter engolido a Delia Smith (famosa escritora britânica de livros de culinária — todas as notas são da autora) e todos os livros de culinária dela juntas. — Aaaah, mas Oliver não é um viking guerreiro da mesma estirpe que você. Ele é mais do tipo que fica na retaguarda. — Mais pilhagens do que saques? — Isso mesmo. Sean balança a cabeça em sinal de compreensão e, ao mesmo tempo, consegue disparar umolhar maldoso na direção de Oliver, que de nada desconfia. Ele funga e diz: — Foi o que pensei. Dou umas palmadinhas reconfortantes no braço dele, mas, antes que consiga planejar minha fuga, ele acrescenta: — Outra coisinha de nada, Izzy. Acho que, de agora em diante, você deveria me chamar de Arnog ou coisa parecida. — Arnog? — Acho que isso vai me ajudar a entrar no personagem. Dou um sorrisinho forçado e resisto à tentação de olhar novamente o meu relógio.

Estamos aqui há mais de duas horas e sei que Aidan está esperando para poder usar a sala para sua prova de guarda-roupa. A Festa Nórdica do Gelo de Lady Boswell está sendo mais problemática do que pensei e ainda tenho semanas de planejamento pela frente. — Está bem, há, Arnog, Como você achar melhor. Podemos recomeçar? Espio através de um espaço entre os meus dedos enquanto eles ocupam suas posições. A porta se abre suavemente e Aidan entra furtivo. Ele olha ao redor por um segundo, me encontra e anda nas pontas dos pés ao redor da sala. — Como vai indo? — sussurra, fazendo uma careta que mostra que o seu voto seria ―horrivelmente mal — Horrivelmente mal. — respondo, retribuindo a careta. — Acho que pode ser culpa do feng shui daqui. Ultimamente os meus ensaios também têm sido horríveis, A encenação começa. Logo nos primeiros dois segundos, Oliver quase fura o olho de Sean com a picareta, mas é difícil saber se foi de propósito ou não. Sei que os vikings deveriam adorar usar aqueles capacetes. O que deveria ser uma exibição natural de exuberância nórdica transforma-se rapidamente em uma pantomima. Junto com os ferozes gritos de batalha e o brandir das espadas há pessoas caindo sobre tapetes de pele de urso no meio de cantarolados ―desculpe, meu bem Dois atores usam o capacete ao contrário, Oliver derrubou Sean com um golpe de rúgbi, engalfinhou-se com ele no chão e está tentando sufocá-lo com a sua capa. Aidan inclina-se na minha direção. — Meu Deus, querida, isto é mais do que feng shui. Meus ensaios nunca foram tão ruins. Acho que você está é com uruca. — Parece mesmo — digo desanimada, imaginando quanto tempo Sean pode ficar sem respirar. — Querida, só se passaram duas semanas. É natural que você cometa alguns erros depois de ter levado um fora. É natural. — Obrigada, Aidan. Tinha conseguido esquecer a minha vida amorosa por dois longos minutos. E, achando que Sean já havia sofrido bastante, corro para salvá-lo.

Nossa sala de ensaios fica no porão de uma grande casa em estilo georgiano que é a sede de nossa empresa. É uma entre as várias casas idênticas, enfileiradas ao redor de uma praça em South Kensington, e a única coisa que nos identifica no meio de toda aquela nobreza serena é uma pequena placa de bronze com as palavras ―Table Manners Na verdade, fazemos o planejamento de todo o tipo de eventos: casamentos, lançamentos de produtos, eventos corporativos, coquetéis para vinte pessoas, bailes de máscaras para quatrocentos convidados, em qualquer ligar imaginável. Meu amigo e colega Aidan, o Salvador Dali do mundo das festas, já usou cabanas de índios, submarinos, estábulos e até mesmo uma fábrica de camas. Eu realmente não vejo motivos para fazer outro ensaio e, exausta, dispenso todo mundo, que sai correndo da sala como se fosse o último dia de aula antes das férias de verão. Fico feliz em ver como a minha equipe me respeita. Verifico se todos os acessórios foram colocados de volta na enorme sala ao lado, que é o depósito do nosso considerável estoque de equipamento teatral, copos, louças, talheres, capas para cadeiras, toalhas de mesa, guardanapos e outros tipos de tralhas. Todos penduram suas fantasias numa arara de roupas de enorme debaixo de um aviso gigantesco que diz: FESTA NÓRDICA DO GELO DE LADY BOSWELL. Começo a subir os dois lances de escadas em direção à minha mesa. No primeiro patamar, ouço o Aidan gritando no andar de baixo: — Não diga ao Gerald onde estou. Gerald é o nosso fantástico diretor-gerente e não tem saco para o temperamento artístico de Aidan. — Aidan, ele sabe onde você está. Seu nome está no quadro de ensaios. — grito de volta. — Bom, não deixe que ele desça aqui. Não estou falando com ele. — OK. Tentarei. –Suspiro e continuo a escalada. A recepção e os escritórios da empresa ocupam dois andares superiores da casa. O térreo abriga as cozinhas, onde toda a comida é preparada e enviada para o local da festa em uma das nossas caminhonetes refrigeradas. Os chefs são um pouco explosivos e eu tento ficar longe deles. Termino o último lance de escadas e chego ao coração da sede nacional da Table Manners onde Stephanie, nossa recepcionista, trabalha duro. — Algum recado, Stephanie? — pergunto, mais pelo hábito do que por ter esperanças reais de que ela tenha mesmo anotado algum deles. Stephanie é uma discípula ferrenha da escola de pensamento que diz que se-é-importante-eles-ligarão-novamente. Ela solta uma baforada de fumaça e aperta os olhos, pensativa.

Temos uma política severa contra o fumo no local de trabalho e Gerald espalha memorandos sobre o assunto com regularidade. Stephanie os digita com uma bituca dependura nos lábios. Mas tudo o que Stephanie não sabe sobre o mundo das celebridades não vale mesmo a pena saber. Uma habilidade que eu tive que admitir, relutantemente, que é muito útil no nosso meio. E esse é o único motivo pelo qual eu imagino que Gerald não a despede. — Alguém ligou pra você, mas não pareceu muito interessante e eu não me dei ao trabalho de anotar. — OK. Maravilha. Lady Boswell vem para uma reunião mais tarde, Será que poderíamos evitar um repeteco do que aconteceu na última vez? — Ela é uma bruxa velha — Stephanie responde emburrada. — Pode ser, mas ela é uma bruxa velha e rica, e uma de nossas melhores clientes. — Espero que ela fique com hipotermia nessa festa do gelo dela. — Do jeito que as coisas vão, esta pode ser uma aposta com boas chances. Stephanie volta a ler a Woman’s Weekly e eu volto para a minha mesa. O primeiro andar é umambiente sem paredes. O lugar está entulhado com amostras de decorações, acessórios teatrais (que deveriam estar no porão, onde é o lugar dele, mas Aidan insiste que devemos mantê-los aqui para conseguir inspiração), um urso de pelúcia gigante que sobrou de uma festa, chamado Zé Colméia, arranjos flores dos eventos da semana passada, mostruários e catálogos sobre quase tudo, de guardanapos a fitas, vários tipos diferentes de vasos e candelabros, além dos computadores e laptops de praxe. Papéis e convites transbordam por todos os lados. Assim que chego à minha mesa, a porta da sala do nosso diretor-gerente se escancara —ISABEL. VENHA CÁ — diz, através dos alto-falantes do intercomunicados portátil, que ele insiste em usar mesmo quando estou tão perto que posso me inclinar e tocá-lo. Gerald é um homem elegante beirando os cinqüentas. Tem cabelo escuros sempre penteados com cuidado e ostenta uma barriguinha. É o nosso diretor-gerente e merece todos os xingamentos que receber dos funcionários, pois é, sem dúvida alguma, o homem mais rude e sarcástico que eu já conheci. E eu gosto muito dele. Ele não acredita em fazer rodeios, diz que é cansativo. Com Gerald, nada de amenidades como ― bom-dia, como vai? Sigo-o, entro na sala e fecho a porta. — Como foi o ensaio? — pergunta Geral enquanto vou até a cafeteira e encho uma caneca.

— Horrível. Sean insistiu em trocar todos os seus adereços com os de Oliver. Café? — Por favor. Preciso de algo que me ajudar a agüentar este dia horrível. Sean e Oliver ainda vão acabar matando um ao outro. Só nos resta torcer por isso. Você vai trabalhar o dia todo na Festa Nórdica? — Infelizmente. Lady Boswell vem aqui mais tarde. Vai ser uma semana muito comprida. — Onde está Aidan? — Na sala de ensaios. — Ele está atravessando uma de suas fases. Sorrio. Aidan sempre entra em uma de suas fases se acha que Gerald vai começar a fazer perguntas difíceis. — Ele já estourou o orçamento de novo? — pergunto. — Mandou tudo para o espaço. Honestamente, não sei por que ele se dá ao trabalho de fazer estimativas de custo. Gerald olha cuidadosamente para mim quando faz esse último comentário. É fato conhecido na empresa que Aidan prefere morrer a fazer uma estimativa de custo. E acho que Gerald, com razão, suspeita de que sou eu quem faz as estimativas dele. — Nem eu — digo fazendo de conta que não e comigo. — Sempre que eu faço uma pergunta sobre o custo ele tem um dos seus ataques. — Ah. Isto envolve Aidan jogando-se sobre o móvel mais próximo, gemendo algo como ―Perguntas, perguntas. Por que tenho que agüentar tantas perguntas? De vez em quando ele se compara a Picasso ou Bach, dizendo que a genialidade deve ter liberdade para se manifestar. Eu adoro os ataques de Aidan.

Há sempre uma pequena multidão ao seu redor no fim de um ataque. — Falo com ele, se você quiser. — Faça isso. Faça com que ele corte despesas em algum lugar. — Vou tentar. Mas não prometo nada. — Já se recuperou do fora? — ele pergunta sem cerimônia. — Você não é o ser humano mais animado no momento. Meu relacionamento com Gerald não permite que eu chore silenciosamente no seu ombro por uns vintes minutos, portanto respondo simplesmente que estou ótima. Aidan reaparece na hora do almoço, senta ansioso na minha mesa e cruza suas pernas vestidas com calças Versace. Aidan é meu melhor amigo no escritório. Quando entrei na empresa, fui sua assistente por um ano, antes de começar a planejar festas sozinha. Ele trabalha aqui há anos e é o promoter mais solicitado da empresa. Ele é, e sempre que pode lembra a todos disso, criativo. Este é o passe livre dele com Gerald. Qualquer mau comportamento é posto de lado com a desculpa de ter uma natureza criativa. Aidan matou quatro clientes com uma bombinha de São João e uma toalha de mesa? Oh, isso é porque ele é criativo. — Então, como você está hoje? — pergunta ele. — Não vi coe antes para poder perguntar. — A frase vem acompanhada de muitas caretas. Você não consegue manter uma conversa com Aidan sem essas caretas e descobre que tem passado muito tempo com quando vê que também é incapaz de dizer uma frase sem chupar as bochechas para dentro, revirar os olhos e menear afetadamente o ombro. — Ótima! — digo toda animada e faço uma careta de volta. — Você não parece ótima. Não consigo esconder nada dele por muito tempo. — Aconteceu uma coisa no metrô hoje — suspiro.

— Alguém achou que eu estava grávida e me ofereceu o seu lugar. — Oh. — Não se atreva a rir, Aidan — digo zangada, vendo que ele está mordendo o lábio inferior com força –, porque simplesmente não tem graça nenhuma. — Ora, não estou rindo, Isabel. Estou simplesmente, hum. E o que você fez? — O que eu poderia fazer? Dizer que meu estômago levemente inchado deve-se ao fato de ter comido Cornettos demais desde que o Rob me deu o fora? Fiz a única coisa que poderia fazer. Agradeci educadamente e sentei. Aidan estende uma mão para me confortar. — Querida, você sabe que tudo acaba aumentando o seu estômago e nunca os seus seios. A natureza é uma filha-da-mãe. — Por que eu não consegui simplesmente dizer que eu ganhei uns quilinhos depois que meu namorado me deu o fora? Poderíamos ter conversado sobre os prós e os contras da dieta Hay, quando comparada à dieta Atkins, e todos iriam se divertir. Mas, não, fui completamente britânica a respeito de toda a situação. Alguém me acusa de estar grávida e eu sou demasiadamente educada para desmentir isso. — Deixa pra lá, Izzy. Só se passaram três semanas. Além disso, eu acho que é muito útil que seja o seu estômago que aumente de tamanho quando você engorda. Pelo menos o peso não está indo se esconder traiçoeiramente no seu traseiro quando você não está olhando. — Se fosse assim as pessoas não iriam pensar que estou grávida. — Não. Elas só iriam pensar que você tem uma bunda grande. — Muitíssimo obrigada. Por que não posso ser ma daquelas mulheres que encolhem quatro manequins quando levam um fora? — reclamo. — Ah, benzinho, porque aí você não seria você. E gosto de você como você é. Tirando, é claro, essa sua obsessão perfeccionista com as estimativas de custos.

— Eu só queria entender por que Rob me deu o fora. — digo. — Nós passamos um tempo maravilhoso juntos. Talvez eu tenha me esforçado demais, Aidan. Ele bufa, sarcasticamente. — Demais, ai-ais. Querida, não estamos mais no jardim-de-infância. — Você acha que devo ligar para ele e perguntar? — Não, não e não. — diz Aidan –, já falamos disso antes. Qualquer pessoa que termina um relacionamento pelo telefone não vale um minuto do seu tempo. E não se esqueça de que ele tentou ligar em uma hora em que pudesse deixar um recado na secretária eletrônica porque não queria ter o trabalho de falar com você pessoalmente. E, se puder, gostaria de salientar o fato de que deixar uma mensagem na secretária eletrônica do seu trabalho é simplesmente a coisa mais covarde e horrível que eu já vi. — Eu sei — sussurro com voz trêmula. Antes que posamos dizer mais alguma coisa, Stephanie chega perto de nós com um cigarro na mão. — Lady Bostawell chegou. — Stephannnieee — censuro, levantando e alisando a saia. — Já disse para não chamá-la assim. Você a acompanhou até a sala de reuniões? — Sim. — Obrigada. — Pego meu bloco de anotações, respiro fundo e marcho rapidamente pela recepção, subo um lance de escadas e entro na sala de reuniões. Lady Boswell está sentada em uma das cadeiras, espetada como um pau de vassoura, com uma mão apoiada elegantemente no colo e a outra no alto do cabo de um grande guarda-chuva que ela gosta de carregar por todo lado. — Lady Boswell, que prazer revê-la — digo suavemente. — Stephanie lhe ofereceu um café? Lady Boswell olha para mim como se eu tivesse acabado de lhe oferecer uma xícara de vômito de gato com umas colheradas de vermes. — Café, Isabel, café? Fique sabendo que nunca tomo cafeína à tarde. Vivemos em uma era obcecada por café.

Aquelas cafeterias horrorosas estão espalhadas por toda parte. Lady Boswell é uma representante típica de nossos clientes mais tradicionais. Defensora das regras sociais e da etiqueta rígida, também é terrivelmente magra, o que não me ajuda a gostar mais dela. E hoje está vestida com um tailleur azul-marinho completo, meias e luvas brancas. Uma bolsa grande a acompanha sempre e comenta-se que ela dá umas bolsadas nas pessoas quando as coisas não saem como ela planeja. Daí vem todo o meu nervosismo com a Festa Nórdica do Gelo.

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