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A vida louca dos revolucionarios – Demetrio Magnoli

“Meu Deus! Você se torna puro e santo por uma semana!”. Era esse, precisamente, o maior temor de John Reed – o alçapão aberto sob os pés de um jovem radical de Harvard naquela transição que custava a se concluir. Reed seria puro e santo por toda a vida, uma vida apropriadamente curta, que acabou a tempo de poupá-lo do cinismo. A glória jornalística e literária veio com Dez dias que abalaram o mundo, a narrativa célebre do “assalto ao Céu” dos bolcheviques russos em 1917. Quatro anos antes, ele escreveu Another case of ingratitude, um conto sobre a escolha moral inscrita na filantropia, organizado como diálogo entre um benfeitor casual e um pobre trabalhador faminto que perambulava no frio cortante. O benfeitor paga ao outro uma refeição quente e lhe dá dinheiro para uma noite de hotel. Quando o infeliz recupera algum alento, o filantropo força um diálogo, mas é rechaçado e suas motivações são impugnadas. – Qual é o problema? Sem emprego? Ele olhou-me nos olhos, pela primeira vez desde o início do jantar, com expressão surpresa. “Claro”, disse secamente. Notei, um pouco chocado, que seus olhos eram cinza, embora eu tivesse tomado-os como marrons. – Qual é seu ofício? Não respondeu por um instante. “Pedreiro”, resmungou. Qual era o problema com o homem? – De onde você é? Même jeu. “Albany”. – Faz tempo que está por aqui? “Diga-me”, disse meu convidado, inclinando-se na minha direção, “o que você acha que sou, um golpista, um mendigo impostor?”. Por um momento, fiquei atarantado, sem palavras. “Ora, eu só estava tentando manter uma conversa”, disse debilmente. – Necas, você não estava. Você pensou que só porque me deu uma ajuda, eu te derramaria uma novela lacrimejante. Que direito tem você de me fazer todas essas perguntas? Conheço vocês. Só porque têm dinheiro, pensam que podem me comprar com uma refeição. “Absurdo”, protestei. “Fiz isso de modo perfeitamente desinteressado. O que você acha que ganho alimentando-o?”. Ele acendeu mais um dos meus cigarros.


“Você ganha tudo que quer”, sorriu. “Qual é? Não se sente super-bem salvando a vida de um vagabundo faminto? Meu Deus! Você se torna puro e santo por uma semana!” 2 John, ou melhor, Jack Reed, quis fazer parte da história da Revolução Russa, e suas cinzas foram enterradas nas muralhas do Kremlin, uma homenagem reservada a poucos. Mas a sua história é outra: a do radicalismo americano, o fruto retardatário de uma tradição cujas raízes encontram-se emAndrew Jackson, o sétimo presidente dos Estados Unidos e a fonte original de inspiração do Partido Democrata. Durante a campanha presidencial de 1828, os rivais de Jackson tratavam-no, jocosamente, como “jumento”, uma referência à sua defesa dos interesses do “homem comum” – na época, o colono, o pequeno agricultor – contra os poderosos financistas. Mais tarde, a figura do jumento se tornaria o símbolo dos democratas e a ideia da “democracia jacksoniana” formaria o leito de um dos principais rios da paisagem política americana. Charles Jerome Reed, o pai de Jack, um modesto negociante de Portland, Oregon, engajou-se numa cruzada contra os poderosos empresários de serrarias, que fraudavam títulos de propriedade e devastavam florestas. Charles atendia a um pedido de Francis J. Heney, promotor federal especial nomeado por Theodore Roosevelt, o presidente que abraçou a bandeira do movimento conservacionista, plenamente ciente dos custos de sua opção. Na condição de delegado, ele perderia oportunidades e teria que dar duro para assegurar a seus filhos a chance de estudar em escolas privadas e universidades de elite. Além disso, enfrentaria o rancor de seus colegas do clube da cidade, que ele presidia. Mas seguiu em frente, fiel a um princípio. Jack era dessa estirpe. Até os dezesseis anos, Jack sofria de uma doença renal, carecia de vigor físico e, em suas próprias palavras, temia os “garotos irlandeses brutais”. 3 Refugiava-se nos livros: bem cedo, começou a amar as narrativas históricas e a poesia, e, em seguida, passou a escrever versos, peças teatrais e jornais juvenis. Mesmo assim, não deixou de brigar na rua, perdendo mais que ganhando. Curiosamente, nadava bem e muito. O rio Willamette, que corta o centro de Portland antes de desaguar no Colúmbia, tornou-se o único palco de seus triunfos atléticos e um lugar marcante de sua adolescência. Em 1905, ano da insurreição do encouraçado Potemkin, Jack cursou a escola preparatória para Harvard, onde ingressou meses depois dos massacres e prisões que encerraram o “ensaio geral” da Revolução Russa. Sem muita convicção, Jack tentou, mas nunca se tornou um verdadeiro “homem de Harvard”. Em compensação, aproximou-se de Walter Lippman, um aluno brilhante que presidia o Clube Socialista e viria a ser o mais influente colunista político liberal do país, e descobriu os livros dos socialistas fabianos ingleses Graham Wallas e H. G. Wells. Também circulou pela Liga de Harvard, pelo Sufrágio Feminino e pelos clubes acadêmicos Anarquista e do Imposto Único; apalpou os debates sobre as vanguardas artísticas, o antipuritanismo e o amor livre. O jovem já não cabia na caixa do liberalismo progressista americano, mas ainda não fora tocado pela chama da revolução social. 2 REED, John.

Adventures of a Young Man: Short Stories from Life. San Francisco: City Lights, 1975, p. 49-50. 3 MUNK, Michael. “John Reed”. Marxist’s Internet Archive: John Reed. http://www.marxists.org/archive/reed/bio/portland.htm Vinte e um anos mais velho que Jack, o jornalista investigativo Lincoln Steffens aceitou o pedido de seu amigo Charles, que vinha junto com uma recomendação de outro Charles, Charles Townsend Copeland, o mais destacado professor de literatura de Harvard daquela geração. Ele olharia pelo jovem, não para facilitar-lhe uma carreira mas, ao contrário, para forçá-lo a experimentar diferentes caminhos: “Ele tem um espírito jovial”, disse o pai, “é uma coisa alegre. Conserve-o assim. É um poeta, acho; faça-o continuar a cantar. Deixe que conheça tudo, mas não, não permita que ele fique como eu.” 4 Charles acreditava no gênio do filho, mas temia que, como ele, se deixasse prender por umcompromisso precoce – com uma profissão, um negócio, o dinheiro ou uma obsessão. “Deixe-o brincar”, insistiu. Steffens era a pessoa certa para a missão. Cansado de denunciar as vilanias da Grande Corporação, o consagrado jornalista sentia-se cada vez mais atraído pela ideia da revolução. Contudo, seu diletantismo funcionava como uma fronteira: ele não iria além do jornalismo. Jack, pelo contrário, não tinha limites. GREENWICH VILLAGE Numa noite fria e nevada de janeiro de 1917, do teto do arco da praça mais célebre do sul de Manhattan, Marcel Duchamp e outros quatro artistas cercaram-se de balões vermelhos de festa e proclamaram a “república livre e independente de Washington Square”. Luc Sante, um comentarista contemporâneo, registrou que a proclamação dos “conspiradores do Arco” ecoava um sentimento geral entre os habitantes de Greenwich Village, desejosos de um “território livre, desembaraçado de convenções”. John Reed estabeleceu-se no bairro seis anos antes daquela declaração de independência, encontrando em seus cafés, restaurantes, ateliês e livrarias sua pátria ideológica . 4 STEFFENS, Lincoln. John Reed under the Kremlin Wall.

Chicago: The Walden BookShop, 1922, p. 10. Junto com três companheiros de Harvard, Jack alugou um apartamento no número 42 da Washington Square South. Steffens trocou um endereço confortável pelo modesto apartamento disponível um andar abaixo. Distante apenas seis quarteirões, na esquina da rua 11 com a University Place ficava o Hotel Albert, que servira de residência a Robert Stevenson, Mark Twain e Walt Whitman – e viria a receber Salvador Dalí e Andy Warhol. Em 1914, a dançarina Isadora Duncan abriu seu estúdio pouco acima, na rua 23 com a Quarta Avenida. Um ano após a morte de Reed, atraída pela promessa do comunismo, ela inaugurou uma escola de dança emMoscou, que duraria pouco. No Greenwich morava também Max Eastman, que cursava o doutorado sob a orientação do filósofo John Dewey. Da sua pena, saiu o manifesto do The Masses, publicado pela primeira vez em 1911: “Esse periódico é controlado e publicado cooperativamente por seus editores. Não paga dividendos e ninguém quer fazer dinheiro com ele. Um jornal revolucionário, não uma publicação reformista; um jornal com senso de humor e sem respeito pelo que é respeitável; franco, arrogante, impertinente, em busca de causas verdadeiras; um jornal dirigido contra a rigidez e o dogma em qualquer lugar em que se encontrem (…)”. 5 The Masses era política e arte – qualquer coisa, desde que fosse bastante radical. Jack, claro, logo se tornou algo como umcoeditor. Greenwich fazia mágicas, como transformar greves operárias em peças teatrais protagonizadas pelos próprios líderes grevistas. A operação começou por acaso, sob o influxo de uma rica herdeira e patronesse das artes, e terminou pela adesão definitiva de Reed à militância revolucionária. Dali em diante, Jack se empenharia em transferir seu personagempara o palco de uma revolução de verdade. A patronesse era Mabel Dodge, ativamente bissexual, que retornara de sua villa em Florença, estabelecendo-se na “feia, repulsiva” Nova York e promovendo animadas reuniões semanais no seu apartamento da Quinta Avenida, a duas quadras da Washington Square. Steffens, Eastman e Reed eram figuras carimbadas desses encontros, que contavam até com a presença ocasional da veterana líder anarquista Emma Goldman. Uma noite, na primavera de 1913, os convidados ouviram um relato do destacado líder sindical Bill Haywood, sobre a greve dos tecelões de seda de Paterson, Nova Jersey, reprimida pela polícia e ignorada pela imprensa. Num impulso, Mabel sugeriu representá-la como um drama, no Madison Square Garden. Jack saltou à frente e prontificou-se a fazê-lo. Passou os meses seguintes em Paterson, discursou para os grevistas, engajou-se na IWW, conheceu a cadeia, produziu o roteiro do espetáculo e, no palco, representou a si mesmo, entoando canções revolucionárias ao lado dos sindicalistas. A IWW, Industrial Workers of the World, não era uma central sindical convencional, mas uma organização política que reunia socialistas, anarquistas e sindicalistas revolucionários. Ela não queria “salários justos”, mas “todo o produto do meu trabalho”, na expressão de Eugene Debs, um de seus fundadores e companheiro de Reed. 6 A organização, cujo horizonte era a derrubada do capitalismo, nascera pelas mãos de imigrantes e funcionava como a coisa mais próxima que existia nos Estados Unidos de um partido revolucionário europeu.

Eugene O’Neill, filho de um imigrante irlandês que ganhava a vida como ator, começou a vida como marinheiro e logo aderiu à IWW. Em 1914, depois de uma longa depressão e uma temporada num sanatório, O’Neill ingressou no curso de dramaturgia de Harvard e passou a frequentar a cena do Village. No bairro onde tudo acontecia, conheceu Jack. Eles tinham quase a mesma idade e exatamente as mesmas ideias. Mas um seguiria no teatro, escrevendo inúmeras peças e produzindo um impacto cultural duradouro, enquanto o outro enveredaria pela revolução, deixando uma única obra notável. 5 GAINOR, J. Ellen. Susan Glaspell in Context: American Theater, Culture and Politics 1915-48. The University of Michigan Press, 2004, p. 62. 6 DEBS, Eugene V. “Revolutionary unionism”. Discurso em Chicago, 25 de novembro de 1905. E. V. Debs Internet Archive, 2001. AMOR E REVOLUÇÃO Eles eram jovens e aquilo era o Village. Jack teve inúmeros casos efêmeros, mas sua primeira paixão foi por Mabel, um namoro tórrido, entremeado por doídas separações. No fim, ela deixou subitamente de amá-lo. A ferida custou a secar, até dezembro de 1915, quando ele encontrou a mulher que logo nomeou como “Ela”, o amor de sua vida. “Ela” se chamava Louise Bryant, acabara de completar 30 anos, dois mais que ele, era casada e jornalista, envolvera-se com o movimento pelo sufrágio feminino. Jack mostrou a Louise todos os endereços relevantes do Village, apontou-lhe a estrada da aventura e contaminou-a com o gosto da revolução. A revolução – essa obsessão colara-se no jovem radical desde 1913, quando percorreu um México em ebulição escrevendo reportagens para jornais de Nova York. Jack viajou com Steffens, e cada um escolheu seu herói. O de Steffens era o patriarca liberal Venustiano Carranza; o de Reed, o turbulento caudilho Pancho Villa.

Carranza era um reformista; Villa, um rancheiro, quase um peão, elevado ao posto de general. Nos seus domínios de Chihuahua, o caudilho confiscou fazendeiros e distribuiu terras aos pobres, algo que não fazia parte do cauteloso compromisso político de Carranza. Jack dirigiu a Villa a pergunta jornalística inevitável, se ele poderia se tornar presidente do México. “Eu sou um guerreiro, não um estadista. Não sou instruído o suficiente para ser presidente. Aprendi a ler e escrever há apenas dois anos. (…) Há uma única coisa que não farei – assumir uma posição para a qual não sou qualificado. Só existe uma ordem de meu Chefe (Carranza) que eu recusaria – se ele me ordenasse ser governador ou presidente.” 7 Jack voltou a formular a mesma questão nos dias seguintes, para ira e, depois, divertimento, do caudilho. O jornalista pouco sabia sobre a história ou a economia do México – e quase não entendia espanhol. Mesmo assim, México insurgente, a coleção de reportagens daquela viagem, é jornalismo de primeira. A guerra seguinte não era uma revolução, e Jack experimentou o gosto do fracasso. O Metropolitan Magazine, satisfeito com as reportagens do México, enviou-o para cobrir a guerra que explodira na Europa em 1914. O jornalista passou pouco tempo nas frentes de batalha, que não registravam muita ação. Concentrou-se, em vez disso, nos bares e prostíbulos de Paris, Berlim e Londres, produzindo textos medíocres de análise do que lhe parecia ser uma guerra por interesses comerciais. Explorando a frente oriental, acabou num calabouço russo – de onde, para sua suprema humilhação, foi resgatado pelo embaixador americano. No seu passaporte, escreveu uma provocação adolescente destinada às autoridades russas: “Sou umespião germânico e austríaco. Faço isso por dinheiro. Reed.” As duas semanas na prisão não impediram Jack de se apaixonar perdidamente pela Rússia, que era ainda o Império Russo no seu declínio final. Sob o impacto da capital russa, que conheceu após sair do calabouço, ele escreveu: [Em Petrogrado] as casas permanecem sempre abertas, as pessoas visitam-se continuamente, a todas as horas do dia e da noite. Comida e chá e conversa fluem sem parar; cada um age como sente que deve agir, e diz aquilo que quer. Não há horários definidos para acordar ou dormir ou jantar e não há um modo convencional de matar um homem ou fazer amor. 8 “Ela” apareceu quando Jack voltou dessa acidentada viagem. Meses depois, ele teve a curiosa ideia de reunir Louise e Eugene O’Neill numa aventura de verão.

Os três alugaram um chalé em Provincetown, em Cape Cod, Massachusets. A península de areias brancas e faróis náuticos, um destino turístico popularizado pelos contos de Joseph Lincoln, recebia escritores e dramaturgos de vanguarda, que apresentavam peças na pequena cidade, bebiam sem parar, faziam rodas de discussão, amavam e brigavam. Sob o signo do amor livre, tanto Jack quanto Louise abriram breves parêntesis no tórrido romance para experimentar casos incidentais. Desviando-se, porém, de um roteiro inteiramente previsível, Louise engatou um caso comEugene, ferindo os sentimentos de Jack. Eles brigaram, ela desfraldou a bandeira da modernidade, ele gritou e recuou, fizeram as pazes. De volta ao Village, Jack engajou-se na campanha de escritores pacifistas pela reeleição de Woodrow Wilson. O lema do presidente era “Ele nos manteve fora da guerra”, algo que lhe valeu o apoio de liberais e radicais. Um manifesto foi assinado por Dewey, Steffens, Susan Glaspell, o próprio Reed e várias outras figuras carimbadas. Wilson, contudo, nunca prometeu que os Estados Unidos não entrariam na guerra em nenhuma circunstância e alertou para as ações de submarinos alemães contra alvos americanos. A declaração de guerra quase coincidiu com o início do segundo mandato, o que enfureceu as lideranças do movimento pacifista. Jack interpretou a derrota como a confirmação daquilo que sentia desde a temporada no México: ele era um estrangeiro em seu próprio país. Na Europa, desde os tempos de Friedrich Engels e Karl Kautsky, os socialistas estavam organizados em grandes partidos, que se inscreviam na dinâmica da democracia parlamentar e exerciam influência decisiva sobre os sindicatos. Do outro lado do Atlântico, pelo contrário, o socialismo não chegava a perfurar a epiderme da sociedade americana. O Partido Socialista, criado em 1901, conseguira 6% dos sufrágios para seu fundador, Eugene Debs nas eleições presidenciais de 1912, a maior votação da esquerda na história americana, e não disputara as eleições de 1916. A IWW dirigia greves operárias relevantes, mas fechava-se na concha do sindicalismo revolucionário e desconfiava da ação parlamentar, enveredando pelo rumo que a conduziria à irrelevância. O entusiasmo patrótico criado pela declaração de guerra formava umcordão sanitário ao redor dos radicais. Farto de escrever conclamações, Jack queria ação. O czar acabava de ser derrubado por uma insurreição popular. A Rússia, aquele país mágico, convertera-se na parteira da revolução proletária. Lá, nos confins da Europa, estava a sua pátria ideológica.

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