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A Vida no Limite – A Ciencia da Sobreviven – Frances M. Ashcroft

Em novembro de 1999, os jornais foram dominados pela história da morte do campeão de golfe Payne Stewart e quatro outras pessoas num desastre de avião. O jato Lear em que estavam perdeu contato com a base logo após ter decolado de Orlando, na Flórida, a uma altitude de cerca de 11.300m. Temendo que o aparelho pudesse cair numa área povoada, autoridades dos EUA puseram às pressas dois aviões de caça da Força Aérea no ar — para abatê-lo, se necessário. Relataram que não havia sinal de vida a bordo do jato e que as janelas estavam congeladas, o que sugere que o avião sofrera despressurização e que o ar gélido do lado de fora inundara a cabine. O avião continuou sob o piloto automático antes de finalmente ficar sem combustível e cair em South Dakota, mas seus ocupantes teriam morrido muito antes por falta de oxigênio. Não foi a primeira vez que uma tragédia como essa aconteceu e não é provável que seja a última, pois em altitudes tão grandes simplesmente não há oxigênio bastante para manter a vida e uma avaria na vedação de uma porta ou janela pode ter conseqüências fatais. Como Stewart e seus colegas, muitos de nós vivemos no limite, com freqüência sem sequer nos darmos conta disso. Voamos rotineiramente ao redor do mundo em altitudes grandes demais para permitir a vida, velejamos em águas gélidas, expomo-nos aos perigos da doença de descompressão mergulhando com scuba nas férias, ou simplesmente moramos em lugares em que o inverno é tão rigoroso que não é possível sobreviver uma noite do lado de fora sem auxílio. Extremos ambientais não são privilégio de um punhado de aventureiros — com a ajuda da tecnologia, todos nós somos capazes de tolerar condições severas com equanimidade. Sem proteção adequada, no entanto, a questão é totalmente diferente e a cada ano milhares de pessoas comuns morrem por excesso de frio ou calor, ou sucumbem ao mal-das-montanhas. No entanto, apesar (ou talvez por causa) do perigo, as pessoas sempre se sentiram atraídas pela vida nos extremos. Oitocentos milhões de pessoas em 59 nações diferentes assistiram a Neil Armstrong pôr o pé na Lua, e as proezas de exploradores dos pólos, montanhistas e outros aventureiros continuam a nos fascinar. Participamos de fora dos riscos que eles enfrentam, e quanto mais temerariamente desafiam a morte, maior nossa emoção. Há mesmo um fascínio terrível na tragédia. A história comovente de um alpinista morrendo sozinho no alto de uma montanha, impedido de receber qualquer ajuda pela severidade do clima, mas ainda assim capaz de usar seu telefone celular para dizer adeus à mulher nos toca mais do que a de centenas de mortos por inundações ou terremotos. Os perigos dos invernos glaciais, das águas gélidas e dos verões escaldantes eram reconhecidos nos tempos clássicos, mas no final do século XIX e no início do XX o advento dos balões, aeroplanos, submarinos e mergulho submarino de profundidade, assim como a intensificação da exploração dos pólos e das montanhas, acarretou novos perigos cuja superação exigiu uma compreensão mais profunda da fisiologia humana. Para muitas pessoas, como mergulhadores de profundidade e astronautas, esses riscos constituem parte inevitável de seu trabalho. Outras, porém, põem suas vidas em perigo por prazer. Homens — e, cada vez mais, mulheres — buscam constantemente novos desafios físicos. Nossas próprias vidas são tão resguardadas do perigo e da morte que ansiamos por aventura. Em vez de férias tradicionais, sentados na praia, muitos preferem a injeção de adrenalina de esportes como esqui fora das pistas, excursões pelos altos Andes, mergulho com scuba, bungee-jumping e asa-delta. Nossa capacidade de enfrentar esses riscos com relativa segurança evoluiu a partir de uma parceria entre fisiologistas interessados em como o corpo humano funciona e intrépidos aventureiros empenhados em forçar ainda mais os limites. Este livro descreve a resposta fisiológica do corpo a ambientes extremos e explora os limites da sobrevivência humana. Considera o que acontece quando nos vemos trancados no freezer, aprisionados no gelo ou perdidos no deserto sem água.


Também responde a perguntas como: por que um alpinista de elite é capaz de escalar o Everest sem oxigênio suplementar enquanto os ocupantes de um avião que sofresse despressurização na mesma altitude perderiam a consciência em segundos? Por que astronautas podem ter dificuldade de ficar de pé sem desfalecer quando retornam à Terra? Por que mergulhadores submarinos de profundidade sofrem de doença óssea? E outros enigmas semelhantes. A solução desses problemas apresentou muitos desafios para a fisiologia, tanto físicos quanto intelectuais. O filósofo Heráclito observou certa vez que “a guerra é a mãe de todas as coisas”. No que diz respeito à fisiologia dos ambientes extremos, ele tem razão. Soldados são rotineiramente expostos a condições adversas — só nos últimos anos, vimos guerras acontecendo no gélido inverno dos Bálcãs, no calor tórrido do deserto do Kuwait e nos elevados desfiladeiros entre a Índia e o Paquistão. Muitas pesquisas sobre os efeitos do calor, do frio, da pressão e da altitude em seres humanos foram iniciadas, direta ou indiretamente, em conseqüência desse imperativo militar. É salutar também compreender que não foi basicamente por razões científicas, mas sim por causa da Guerra Fria, que os seres humanos se aventuraram no espaço. O esporte — forma muito mais aceitável de competição entre as nações do que a guerra —também estimulou grande interesse pela fisiologia humana e, nos últimos anos, a fisiologia esportiva se desenvolveu como uma disciplina distinta. Muitos de nós praticamos alguma forma de exercício, ainda que apenas a corrida ocasional para pegar o ônibus. Mas há um limite para a velocidade a que podemos correr, mesmo com treinamento, e o exercício impõe suas próprias cargas ao corpo. Esse tipo de limitação muito diferente, mas relacionado, é discutido no capítulo 5. O estudo científico da fisiologia humana se baseia no experimento controlado. Como os perigos potenciais mal podem ser compreendidos e os limites para a sobrevivência são desconhecidos, freqüentemente se utilizam animais em experimentos iniciais para identificar os tipos de perigos envolvidos e obter uma indicação dos limites de segurança para uma pessoa. Em última instância, contudo, não há substitutos para seres humanos, e os fisiologistas muitas vezes fizeram experiências consigo mesmos — e ainda o fazem. Alguns chegaram a utilizar os filhos. O eminente cientista J.B.S. Haldane comentou certa vez que seu pai o havia usado como cobaia desde que ele tinha quatro anos (embora ele não pareça ter ficado desencorajado por essa experiência, pois seguiu os passos do pai e fez uma brilhante carreira como fisiologista). Há boas razões para os fisiologistas usarem a si mesmos e a seus colegas como sujeitos experimentais. Muitas vezes é mais fácil compreender algo experimentando-o pessoalmente que por uma descrição de segunda mão; e, especialmente no passado, como o trabalho era freqüentemente perigoso e imprevisível, muitos cientistas preferiam correr eles próprios o risco em vez de pedir a um voluntário que o fizesse. Era mais rápido também — encontrar um voluntário requer tempo. Os primeiros fisiologistas precisavam de considerável coragem, bem como habilidade e curiosidade científica. Ficar sentado numa câmara de aço exígua cheia de oxigênio puro enquanto a pressão é elevada, sabendo que estamos condenados a entrar em convulsões que podem nos causar danos permanentes, mas não sabendo exatamente quando isso vai acontecer, está longe de ser uma experiência agradável. Mas, como é discutido no capítulo 2, esses experimentos foram vitais para a segurança dos mergulhadores submarinos de profundidade.

As pessoas podem reagir de maneiras muito diferentes ao estresse físico, e seu comportamento emcondições normais não dá nenhuma indicação do desempenho que vão ter sob estresse: fortes páraquedistas podem sucumbir rapidamente ao mal-das-montanhas, enquanto suas mais frágeis companheiras do sexo feminino não sofrem nenhuma indisposição. Assim, embora isso possa não ser essencial para a compreensão dos princípios científicos envolvidos, quando se trata de aplicações práticas os experimentos devem ser repetidos com um grande número de voluntários. Lamentavelmente, nem todas as cobaias humanas foram voluntárias. Há alguns casos famigerados emque se realizaram experimentos com pessoas sem seu consentimento. Os nazistas usaram os prisioneiros de Dachau, supõe-se em geral que os russos usaram prisioneiros de guerra, os japoneses fizeram experimentos com a população da Manchúria e criminosos condenados foram usados por governos ocidentais até épocas recentes. Embora estes últimos pudessem ser teoricamente voluntários, a escolha entre a execução ou o adiamento da pena mediante a participação numexperimento possivelmente perigoso não é realmente uma escolha. Ademais, em muitos casos as pessoas não eram plenamente informadas dos riscos. Muitos desses experimentos eram relacionados à testagem dos efeitos químicos da radiação. Mas nem todos. Alguns eram projetados para ampliar nossa compreensão de como seres humanos enfrentam condições extremas. Como veremos, tambémno estudo da vida há um lado obscuro. Experimentos com seres humanos continuam sendo necessários, pois novos tipos de roupas de sobrevivência para imersão em água gelada precisam ser testados constantemente e trajes espaciais ainda são uma tecnologia em desenvolvimento. Hoje, contudo, os experimentos são conduzidos sob condições rigorosas de segurança, e os limites para a vida, obtidos a partir de acidentes e experimentos, estão bem documentados. O estudo da fisiologia humana tem aplicações práticas óbvias, mas para muitos cientistas (talvez a maioria) a verdadeira motivação é a curiosidade; eles são movidos pelos “seis servidores honestos” de Kipling — pelo “O Que e Onde e Quando, e Como e Por Que e Quem”. Conseqüentemente, a vida do fisiologista, como a de muitos cientistas experimentais, é uma curiosa combinação de entusiasmo e frustração — entusiasmo quando uma hipótese defendida se revela correta, e frustração quando, por razões técnicas, um experimento não funciona e a pergunta que ele fora projetado para testar não pode ser respondida. Com muita freqüência, parece haver muito pouco do primeiro e demais da segunda. Mas montar um quebra-cabeça, solucionar um desafio intelectual ou descobrir um fato novo pode ser muito compensador, e a intensa emoção da descoberta é uma satisfação não igualada por nenhuma outra que experimentei. É essa euforia que nos sustenta durante as longas horas necessárias para a obtenção dos resultados. Embora para muitas pessoas possa parecer difícil apreciar os prazeres da vida científica, a maioria vai compreender a exultação de atingir o cume de uma montanha e a sensação de realização que se tem após correr uma maratona. Alguns fisiologistas são felizes porque conseguem combinar aventura física e espiritual. Os que buscavam responder a questões sobre o funcionamento do corpo, por exemplo, tiveram muitas vezes de ir a extremos — os cumes das montanhas, as profundezas do mar, as banquisas antárticas, ou até o espaço — para encontrar as respostas. O conhecimento que adquiriram tem sido inestimável, pois, como este livro irá mostrar, a fisiologia não é apenas uma ciência de laboratório, mas algo aplicável à vida cotidiana. Em nossa batalha para sobreviver nos limites, algum conhecimento de fisiologia, a “lógica da vida”, é crucial. Subindo o KilimandjaroO Kilimandjaro visto do Amboseli Park, no Quênia O Kilimandjaro é uma das mais belas montanhas do mundo. Um cone vulcânico perfeito, ele enforquilha a fronteira entre o Quênia e a Tanzânia, elevando-se 5.

896m acima das planícies africanas. A seus pés se estende a reserva de caça Amboseli, com prolíficos bandos de gnus, antílopes e elefantes. Seu cume é coroado por banquisas de beleza arrebatadora. Apesar de sua grande altura, não são necessárias quaisquer habilidades de alpinista para se atingir o topo do Kilimandjaro; da base ao cume, é uma caminhada que leva menos de três dias e meio. Infelizmente, a rapidez dessa subida é cheia de perigos para os incautos. Começamos a atravessar a floresta pluvial de manhã bem cedo. O ar estava morno, pesado e úmido, com o aroma dos trópicos. Cheirava como a estufa de palmeiras do Jardim Botânico de Kew. Nossos pés quase não produziam som sobre a terra úmida e fofa do solo da floresta. Macacos balançavam-se guinchando nas copas das árvores, muito acima de nós. Enquanto avançávamos pela sombra escura e fresca da floresta, tínhamos dificuldade em nos dar conta de que estávamos subindo o dia inteiro. No fim da tarde, emergimos das árvores para encontrar uma pequena cabana triangular aninhada contra a vertente da montanha em meio a campinas que lembravam as dos Alpes. O sol se pôs e a noite caiu quase instantaneamente, pois o Kilimandjaro está situado no equador. No dia seguinte subimos até uma altitude de cerca de 3.700m, cruzando capinzais altos e passando por uma vegetação característica dessas altitudes na África e na América do Sul. O senécio gigante, um parente da tasneirinha comum, pairava sobre nossas cabeças. Flores de lobélia faziam sentinela à beira do caminho como enormes velas azuis. O ar mais rarefeito era estimulante, convencendo-me de que eu estava imune ao mal-das-montanhas. A manhã seguinte foi muito fria. Ao avançarmos, deixamos a vegetação para atrás e entramos numelevado vale rochoso que se encontrava entre os dois picos gêmeos do Kilimandjaro. À nossa direita erguia-se o Mawenzi e à nossa esquerda, o Uhuru, mais alto, nossa meta final. Embora o terreno fosse muito plano, senti-me cansada. O caminho através do vale, e mesmo depois, até as cabanas de lata situadas no sopé da subida final — um gigantesco cone de cinzas — pareceu muito longo. Passamos uma terceira noite, fria e desconfortável, a 4.600m de altitude.

Foi impossível dormir. Minha cabeça doía e o mundo girava à minha volta quando fechava os olhos. Apesar da falta de apetite, forçara-me a engolir uma comida morna e um chá tépido (nessa altitude, a água ferve a 80°C), consciente de que iria precisar de energia para a escalada iminente. Agora me sentia mal. A respiração de meus companheiros vinha em arfadas desordenadas, interrompidas por silêncios tão longos que eu tinha vontade de sacudi-los, com medo de que tivessem parado de respirar para sempre. Esperei, tremendo, que o tempo passasse. Levantamo-nos às duas horas da madrugada para iniciar a longa jornada até o cume, pois nosso guia nos persuadira de vermos o alvorecer sobre o pico Mawenzi. Agora sei que sua verdadeira razão para essa partida de madrugada era bem mais prosaica: subiríamos no escuro para não vermos a enormidade da tarefa que tínhamos pela frente. O caminho subia num ziguezague raso por um cone de 1.200m de cinza fina, pardacenta, e de pequenas pedras, até as proximidades da borda da cratera. Mesmo no nível do mar, galgar dunas de areia é árduo; naquela altitude, era uma tortura. Para cada três passos adiante dados a duras penas, eu escorregava dois para trás. Minhas botas ficaram cheias do fino pó abrasivo. Sentia as pernas bambas e descontroladas, de modo que caminhava cambaleando, o que comprometia ainda mais o meu progresso pela areia instável. Um de meus companheiros prostrou-se, incapaz de seguir em frente. Não é fácil prever quem vai sucumbir ao mal-das-montanhas; ele era provavelmente o que estava em melhor forma física e o mais forte de nosso grupo, mas agora ali estava sentado, ofegando como um peixe encalhado, só lhe restando descer. Continuamos, o guia iluminando o caminho à nossa frente com uma lanterna que segurava baixa a seu lado. Não era fácil avançar. Eu lutava para respirar e para dar alguns passos entre os descansos cada vez mais longos. Só à custa de pura força de vontade e da determinação (bastante insensata) de não me deixar vencer consegui transpor os últimos 100m. Desabei no topo da borda da cratera, com a sensação de estar levando facadas na cabeça, minha visão girando com pontos pretos. Uma miscelânea de imagens dançava na minha mente. Eu estava sentada num empoeirado anfiteatro de Cambridge, dardos de sol caindo sobre as carteiras, ouvindo uma palestra sobre maldas-montanhas. O que dissera exatamente o conferencista? Parecia importante, mas escapou, quando ziguezagues brilhantemente coloridos marcharam majestaticamente diante dos meus olhos. O ar tremia e um leopardo da neve movia-se furtivamente em torno da borda das banquisas de gelo que se movem dentro da cratera do Kilimandjaro.

Ele me encarou com olhos amarelos e contraiu a cauda. Levantei a vista e o sol surgiu, inundando o céu de um brilho suave rosa e laranja, matizando de dourado as bordas das nuvens finas; o pico Mawenzi era uma silhueta negra e nítida recortada contra um céu de Botticelli. Sentei-me no topo da cratera do Uhuru, o vento frio ouriçando-me os cabelos, e compreendi que as miragens eram um aviso. Meu cérebro estava parando de funcionar lentamente por falta de oxigênio. Era mais que hora de partir. Escorreguei e deslizei como uma bêbada pela encosta íngreme abaixo, tomada subitamente pelo medo de um edema cerebral e, ao mesmo tempo, receando tombar para frente e descer aos trambolhões se fosse depressa demais. A cada passo, à medida que oxigênio fluía pelo meu cérebro, sentia-me mais viva. Corri pelo cascalho, deslizando montanha abaixo em grandes escorregões, ziguezagueando para me esquivar de pedras e matacões. Só precisei de meia hora para percorrer a distância que levara mais de cinco horas para subir tão penosamente. Tive sorte; na semana anterior duas pessoas haviam morrido de mal-das-montanhas na mesma empreitada. Minha breve experiência do mal não teve efeitos permanentes, mas eu fui insensata. Havíamos subido depressa demais: 5.896m em três dias e meio. Talvez os altos picos não estejam reservados para os deuses, mas devem ser tratados com respeito.

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