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A VIDA NUM SOPRO – Jose Rodrigues dos Santos

O sol jorrava por todas as janelas em cascatas de luz, tépidas e difusas, e os alunos inclinaramse na sua direcção; pareciam flores em busca do calor meigo que lhes faltava, o rosto procurando a quentura acolhedora com as suas promessas de aconchego. O impiedoso Inverno transmontano aproximava-se, lento mas inexorável, e o calendário pregado à porta marcava 1929. Luís Afonso passou a mão pelo cabelo, deixou a franja castanho-clara descair-lhe para o lado e espiou furtivamente a fila de janelas para lá do pátio do Liceu Central Emídio Garcia, em Bragança. Lá estava ela, a beldade do outro dia. Na semana anterior, os olhos castanhos de Luís haviam-se cruzado pela primeira vez com aqueles mesmos olhos cor de mel, verdadeiros rebuçados dourados que espreitavam do outro lado, da ala feminina. Foi um momento breve, o tempo de uma abelha beijar uma pétala, o instante que demora um fugaz palpitar do coração; mas também eterno, eterno como o incansável cintilar de uma estrela incrustada no firmamento negro ou o contínuo marulhar do mar sobre a areia fulgente da praia. Eterno. Aquele efémero momento foi eterno, porque foi com ele que tudo começou. O olhar dos dois voltou a cruzar-se essa manhã, cada um na sua sala, ele no piso superior, ela no piso inferior, as duas alas separadas pelo pátio; ambos espreitavam pela janela como se o sonho estivesse para lá dela, como se o fluir da vida ali os aguardasse, mas desta vez a rapariga manteve-se um tudo-nada mais a fitá-lo, o olhar de jade prendendo-o no tempo, um instante sem fim, ela comaqueles olhos melífluos, não eram castanhos nem verdes, eram áureos e açucarados, carregados de promessas, olhos quentes e brilhantes. Como o mel. O momento prolongou-se por três inextinguíveis segundos, tão longos como se o tempo tivesse parado, tão intensos que tudo desapareceu a não ser aquelas jóias hipnóticas, tão fortes que os corações ribombaram descontroladamente no peito; até que ela, com um súbito rubor a colorir-lhe a face delicada, acabou por virar a cara e escondê-la entre os cabelos ondulados com madeixas aloiradas. Um anjo, pensou Luís; era um anjo como nunca se vira por aquelas paragens. “Então, senhor Afonso? Para onde está o senhor a olhar, pode-se saber?” Luís estremeceu e voltou bruscamente o rosto, a realidade da aula impondo-se à fantasia da janela; encostado à sua carteira, as pontas dos dedos sujas com o pó branco de giz, o professor de Química observava-o, o bigode a tremelicar de irritação. “Hã?” “Aqui não há hã nem meio hã”, repreendeu-o o professor. “Faz o obséquio de me dizer para onde estava o senhor a olhar?” “Eu?” “Sim, o senhor.” “Oh, nada de especial”, devolveu Luís, esboçando um gesto vago com a mão esquerda na direcção do pátio. “Estava apenas a… a ver ali uma pardaleca a pardalar.” O professor observou as raparigas visíveis na fileira de janelas do outro lado e, coruja velha, tamborilou os dedos na madeira rude da carteira do aluno. “Você é que me saiu um bom pardal.” O toque das onze ‘da manhã assinalou o fim da aula e, instantes depois, no meio da enxurrada de alunas que abandonavam a sala em catadupa, a rapariga esgueirou-se pela porta e deslizou pelo corredor na direcção das escadas. Com o coração aos pulos pela temeridade do que planeava fazer, Luís abandonou o lugar onde se ocultara, um discreto pilar estrategicamente colocado diante da sala, apressou o passo atrás dela e apanhou-a já na escadaria; ao ultrapassá-la abriu os braços e, comespalhafato, deixou tombar os cadernos nos degraus, mesmo à frente da beldade dos olhos de mel. “Perdão”, desculpou-se, dobrando o corpo para apanhar os cadernos espalhados diante dela. “Sou um desastrado.” Voltou a cabeça e espreitou-a sobre o ombro, embora se mantivesse debruçado a recuperar o material escolar. “Não se assustou, pois não?” A rapariga tinha estacado num degrau, pestanejando de surpresa com a confusão gerada a seus pés.


Mal o moço a encarou, porém, recuperou do espanto e reconheceu-o; era o rapaz da janela. Num relance estudou-o da cabeça aos pés, procurando o que a longínqua janela escondera. O rapaz era mais alto e bem constituído do que parecia à distância; tinha os sapatos impecavelmente engraxados, as roupas claras vinham limpas e bem passadas, o cabelo liso castanho-claro brilhava à luz do dia, os pelinhos de adolescente-que-se-faz-homem nasciam–lhe nos cantos da boca e os expressivos olhos castanhos brilhavam na face máscula e quadrada de varão atraente. Era a primeira vez que o encarava de perto e reconheceu nele um ar bem tratado; o rapaz vinha certamente de boas famílias. Ao vê-lo assim, naquela embrulhada diante dela, depois de tantas e tão intensas trocas de olhares pelas janelas do liceu, a rapariga logo suspeitou que não houvera ali acidente nenhum, antes um estratagema para meter conversa, e não conseguiu ocultar o leve esboço de um sorriso, pormenor pequeno, mas significativo, que não escapou a Luís. “Não me assusto com facilidade”, observou ela por fim, contornando-o e fazendo tenção de prosseguir caminho, ciente de que uma rapariga de bem tinha de se dar ao respeito. Luís recuperou os cadernos e apressou-se a acompanhá-la. “Sabe, quando vejo uma moça bonita, assim como você, fico, sei lá, fico nervoso, não é? E foi isso que… que me atrapalhou.” A rapariga olhou-o, divertida com a audácia do piropo. “Não, você não é desastrado. É atrevido.” “Receio que esteja a confundir atrevimento com sinceridade.” Estendeu a mão. “Sou o Luís e sou sincero.” Ela riu-se, ignorando a mão que lhe era oferecida. “É atrevido e tem muita conversa, já vi.” “Não me diga que não me vai dizer o seu nome…” “Para que quer o meu nome, pode-se saber?” “Ora, para sermos amigos, claro.” “Ai quer ser meu amigo, ora é?” Luís parou, dobrou o joelho e fez uma vénia. “Seria uma honra.” “E para que preciso eu de um amigo?” “Todas as damas têm o seu cavaleiro.” Encantada com aqueles modos, a rapariga estendeu-lhe enfim a mão e rendeu-se. “Chamo-me Amélia.” Cumprimentaram-se e ele mirou-a com um sorriso. “Amélia dos olhos garços?” Amélia voltou as costas, embaraçada e deliciada com a audácia do moço, e apressou o passo com um doce e fresco menear das ancas, como se balouçasse o corpo ao ritmo de um sensual bolero. Correu assim para as amigas, que tudo observavam com invejosa curiosidade, soltando risinhos excitados e sussurrando com agitação.

Uma vez com elas, Amélia voltou a cabeça, observou Luís parado na escadaria a admirá-la, os olhos inflamados por tanta graciosidade, e acenou timidamente com o braço. “Adeus!” E corou. O resto do dia foi vivido por Luís com um misto de ansiedade e exaltação. Mal comeu ao almoço, a mente sempre absorvida a reconstituir o que sucedera na escadaria do liceu. Quando as aulas terminaram à tarde, seguiu direito para a pensão onde estava hospedado em Bragança e fechouse no quarto. Ah, Amélia! Que lindo nome! Tudo nela lhe parecia perfeito. Uma estranha e saborosa euforia apossou-se dele, desinquietado com a temeridade com que se aproximara da rapariga mais bonita do liceu, alvoraçado com a reacção que dela tivera. A luz do Sol sorria-lhe da janela e convidava-o a abraçar o dia dourado. Reviu vezes sem conta as breves palavras que trocaram nos degraus e escalpelizou ao pormenor as expressões desenhadas naquele rosto fino. Procurou ler nas entrelinhas do que não fora dito, buscou emoções por detrás dos sorrisos que Amélia lhe exibira, encontrou conforto no adeus que ela lhe lançara na despedida. Ficara na escadaria a vê-la juntar-se às amigas; desejara ardentemente que ela se virasse, que ela não se mostrasse indiferente àquele encontro, que ela o olhasse uma derradeira vez. E Amélia olhara. Toc-toc-toc. “Quem é?” “Sou eu, menino Luís. A dona Hortense. Estamos todos à sua espera para a janta.” Luís rolou os olhos, impaciente com a inoportuna interrupção, a deleitosa cadeia de pensamentos e fantasias brutalmente quebrada pela voz esganiçada. “Rai’s t’a parta o diabo da mulher!”, murmurou, contrariado, desencostando-se da almofada langorosa. “Que maçada, só pensa na engorda…” Saltou a custo da cama e entreabriu sem entusiasmo a porta. Parada diante dele como um arbusto plantado no corredor estava a dona da pensão, uma senhora redonda de meia-idade, de cabelo encaracolado e faces rosadas, o aspecto bonacheirão de transmontana bem nutrida. “Atão, menino?” “Desculpe, dona Hortense, mas não tenho fome.” “O menino não vem à janta?”, admirou-se ela, limpando as mãos ao avental sujo. “Sabe o que é? Tenho muito que estudar.” “Arre diabo! Então esteve a abelhinha da Graciete a esmerar-se para fazer um belo cozidinho, daqueles cheios de chicha valente, como o menino gosta, e agora não quer comer? Logo o menino, que sempre foi tão lambiteiro!” “Pois é, mas preciso de estudar.” A dona da pensão inclinou a cabeça e tentou espreitar pela frincha da porta entreaberta.

“Mas que estudos são esses, valha-me Deus, que o botam no quarto e não o deixam comer?” O rapaz encostou a porta o mais que podia, de modo a manter a frincha num fio. “São os trabalhos que os professores mandam para casa.” Desconfiada, dona Hortense fitou-lhe os olhos com atenção e, de repente, abrindo o rosto comar de quem acabou de descobrir a resposta para o enigma, colou-lhe a palma da mão sapuda à testa. “Não me diga que está febroso…” “Não, não, eu estou bem.” Constatando que a temperatura na testa era normal, a dona da pensão endireitou-se e indicou com a cabeça o andar inferior, onde se situava a sala de jantar. “O menino é muito fisquinho, tem de comer.” “Eu sei, dona Hortense. Mas primeiro preciso de alimentar a alma.” “Ora, cenórias! Primeiro enche-se o bandulho e só depois é que vem a alma. Sem paparoca boa, a cabeça não pensa. Além disso, a sua tia mandou-me cebá-lo bem e não quero cá reclamações.” “Fique descansada.” A dona da pensão deu meia volta e desceu as escadas, os braços gordos agarrados ao corrimão. “Quando lhe der a galgueira, já sabe: vai à cozinha, hem?” Vendo-a desaparecer nos degraus inferiores, Luís fechou a porta do quarto e suspirou. “Que estopada!” Mas logo se recompôs. O quarto era animado pelo alegre chalrar dos periquitos que esvoaçavam para cá e para lá dentro de uma espaçosa gaiola, as irrequietas penas verdes e amarelas contempladas pelo olhar vidrado dos peixes que deslizavam em silêncio no pequeno aquário do canto. Habitualmente era com os seus animais que se distraía, mas desta vez havia um atractivo diferente. A fantasia esperava-o na cama, a noite seria longa e os sonhos ardentes. Ah, Amélia! II O apetite só lhe veio ao pequeno-almoço do dia seguinte e, mesmo assim, com uma moderação que deixou dona Hortense rubra de tão escandalizada. “Concho!”, exclamou, levando as mãos gordas ao rosto corado. “aquase que me dá um fanico de o ver assim a modos que estrelicado! Um moço tão peleiroso como o menino precisa de gafar melhor, ouviu? Senão falta-lhe a genica e nunca chegará a deitor!” “O dona Hortense, não vale a pena exagerar. Bebi o leite e comi o papo-seco, não foi?” “É pouco.” Luís arrastou a cadeira para trás e ergueu-se. “Chega-me perfeitamente”, disse. “Agora tenho de ir para o liceu, já se fazem horas.

” “O quê?”, admirou-se ela, seguindo-o com os olhos contrariados. “Mas ainda falta uma hora para as aulas começarem. Para quê essa pressa toda, valha-me Deus?” “Tenho muito que fazer.” “Ai tem, tem. E a primeira coisa que tem a fazer é comer. Lembre-se que o menino não gafou nada ontem à noite. Devia ao menos levar uma merendinha.” “Não é preciso.” Dona Hortense virou-se e dirigiu-se à cozinha. “Desculpe, mas tem de ser”, insistiu. “Onde é que já se viu ir assim para a escola? Vou ali pedir à Graciete que lhe bote na cestinha as sobras do cozido e um chouricinho de mel.” “Não quero.” Mas a dona da pensão já nem o ouvia e desapareceu para além da porta. “Ó Graciete! Gracieeeete!” “Senhora?”, respondeu uma voz longínqua. “Preparas aí uma merendinha para o menino Luís, ora preparas?” “Sim, senhora.” Percebendo que a preparação da merenda se iria eternizar, Luís pegou apressadamente na mala, que deixara encostada à parede do corredor, e correu lá para fora. “Até logo!” “Espere!”, gritou dona Hortense da cozinha, apercebendo-se de que ele saía. “Espere pela merendinha, valha-me Deus.” A voz dele desaparecia já na rua. “Adeus!” A dona da pensão veio à porta da hospedaria, a sua figura larga a encher a entrada, e ficou a vêlo descer a rua. “Aiche, onde é que já se viu isto?”, protestou ela, abanando a cabeça com uma expressão reprovadora, os braços à ilharga em pose afirmativa. “Olhem-me o moço, credo! Parece endiabrado!” Esticou o pescoço gordo e atirou em voz alta, na esperança de ainda ser ouvida: “Se a sua tia sabe, vai-lhe ler a panjelíngua! Ai vai, vai!” Alheio à voz que se esganiçava lá para trás, Luís estugou o passo em direcção ao liceu. Na verdade, não ia atrasado; tinha era pressa de chegar cedo. A excitação acelerava-lhe os movimentos, queria espreitá-la a entrar no edifício e adivinhar-lhe no rosto se pensara tanto nele como ele pensara nela. Passou à frente de duas lojas e, abrandando, mirou-se no reflexo das vitrinas.

Ia janota, o cabelo liso bem penteado para o lado, o corpo alto e elegante, o vestuário claro impecavelmente arranjado; não parecia o transmontano que era, mas um lisboeta que acompanhava a moda parisiense. Tivera o cuidado de vestir nessa manhã as suas melhores roupas e fez uma nota mental para, de tarde, dar umsalto ao alfaiate e comprar calças e camisas ainda mais vistosas do que aquelas que trazia agora. Talvez até uma água-de-colónia. Retomou a marcha e, como planeara, chegou cedo ao liceu. O movimento era ainda lento àquela hora matinal e Luís ficou cá fora a contemplar as chegadas. Os alunos vinham ainda a conta-gotas, a maior parte a pé, alguns de bicicleta, um ou outro era largado por um carro. Mas a manhã nascera fria e a exasperante inactividade da espera começou a deixá-lo gelado, pelo que, a contragosto, decidiu aguardar no interior. Não era decerto ao borralho, mas sempre se estava melhor. Alguns colegas de turma vieram ter com ele para combinar um jogo de trincassuada no recreio, mas, de modos impacientes e olhar distraído, Luís não alimentou a conversa e eles acabaram por ir procurar parceiros para outro lado. A medida que a hora do início das aulas se aproximava, o pingar de entradas foi-se intensificando até que se tornou corrente, era já um caudal de gente que afluía sem cessar pela porta, numa crescente animação, a algazarra enchendo agora o pátio do liceu. Luís perscrutou comimpaciência a multidão de rostos jovens e procurou Amélia a cada face, a cada corpo, a cada voz. Mas não a viu. O primeiro toque soou e ele suspirou, decepcionado. Deu meia volta e percorreu apressado o corredor em direcção à sala. O dia começava com Matemática e nem pensar em chegar atrasado. O professor Marques não era para brincadeiras. Seguiu a aula distraidamente, prestando à matéria a atenção mínima que a cautela requeria. Tomou os apontamentos que precisava de tomar, mas os olhos fugiam-lhe amiúde para a janela, como se na rua encontrasse a resposta para a raiz quadrada da equação seguinte. Da janela os olhos voavam para o relógio, do ponteiro dos minutos para o professor, da figura esguia do professor Marques para o caderno e de novo para a janela. Uma deliciosa impaciência ruminava-lhe no peito; queria vê-la e não havia meio de a aula terminar, tinha a impressão de que nunca uma hora lhe parecera tão longa. Foi só ao segundo intervalo, entre as aulas de Biologia e Desenho, que deu com Amélia. Estava encostada a uma parede à conversa com duas amigas e ria-se com uma alegria desprendida. Luís sentiu um baque no peito ao vê-la assim tão contente. Como é que ela se consegue rir?, interrogou-se, perturbado. Então ando eu aqui de rastos, a morrer de impaciência por lhe pôr os olhos em cima, e ela a rir-se? Fitou-a com apreensão, preocupado com a possibilidade de ter interpretado mal as reacções dela na véspera, fazendo tábua rasa de tudo o que excitadamente concluíra ao longo de todas aquelas horas em que estivera fechado no quarto.

Será que lhe sou indiferente? Serei eu apenas mais um? Procurou-lhe os olhos, mas ela mantinha-se embrenhada na conversa com as amigas. Parecia divertida e ria-se e sorria com frequência. Do que se ri ela? Será de mim? Perscrutou-a com atenção, tanta que a perturbação se evaporou e a mente se deixou enlevar pelo brilho que dela emanava. Que sorriso tão bonito, pensou. Tão bonito, parece que cintila! Quando ela sorria, não era só a boca que sorria, eram os olhos, as bochechas, todo o rosto, o corpo inteiro. Abanou a cabeça, quase desesperado. Realmente, como posso eu atrever-me a desejar uma coisa assim tão bela? Suspirou, o peito oprimido pela angústia. Foi então que os olhos se cruzaram. Amélia deixou um sorriso suspenso enquanto o seu olhar cor de mel pousava em Luís. A graça parecia soltar-se-lhe naquele olhar. Viu-o, acenou timidamente e voltou a atenção para as amigas, mas com o ar algo comprometido. Algumas notaram o gesto e viraram para ele as atenções, para logo se multiplicarem em risinhos e em murmúrios excitados. “Olha para ele, olha para ele!”, cacarejou uma voz no meio do pequeno tumulto. “Onde?” “Ali, parva!” Risinhos. Apanhado de surpresa pelas vozes indiscretas que flutuavam no corredor, Luís percebeu que falavam dele. Sentiu-se um animal enjaulado no zoológico e lidou mal com o desconforto. Embaraçado e irritado por se ter tornado objecto de tanto comentário mexeriqueiro entre as raparigas, voltou as costas e afastou-se com gestos alheados, como se a troca de olhares comAmélia tivesse sido acidental, coisa demasiado insignificante para justificar tão grande alarido. III Andou dias à procura de uma oportunidade, mas as coisas pareciam difíceis e a possibilidade de conseguir um momento a sós comAmélia escapava-se-lhe. Até que, na semana seguinte, quando já desesperava, a apanhou sozinha num intervalo das aulas, debruçada sobre um livro volumoso na biblioteca do liceu. A biblioteca estava quase deserta e, enchendo-se de coragem, o ritmo cardíaco acelerado e a garganta subitamente seca, Luís aproximou-se e sentou-se ao lado dela. “Ora viva”, saudou, surpreendido com o seu próprio atrevimento. “Por aqui?” Ela olhou-o com uma expressão de admiração e corou ao reconhecê-lo. “Olá”, devolveu, baixando de imediato os olhos para o livro, o ar muito comprometido. Ele inclinou o rosto para o volume que ela tinha aberto sobre a mesa de madeira. “Então? A estudar?” “Sim.

” “Está a ler o quê?” Ela ergueu os olhos e girou o rosto em redor da biblioteca, como se receasse ser vista por alguém. “Por favor, as minhas amigas podem aparecer a qualquer momento.” “E então? Elas comem-nos?” “Não, mas… mas podem aparecer.” “Que eu saiba, não estamos a fazer nada de mal, pois não?” Amélia pareceu por momentos ter perdido as palavras, como se o que quisesse dizer fosse tão óbvio que nem precisasse de ser dito. “Elas vão comentar”, observou por fim. “E depois? Não me diga que tem medo daquelas galinhas…” Ela soltou um riso nervoso. “Não é isso. Mas são minhas amigas… Vai haver falatório, já sabe como é.” Luís torceu a boca. “Eu pensei que você também fosse minha amiga…” Amélia calou-se, sem resposta, e fixou de novo a atenção no livro. Assim sentada, serena e inatingível, dava a impressão de ser o tipo de rapariga que apenas se vislumbra num palacete distante, o perfil recortado pela neblina, os cabelos incendiados por halos de luz crepuscular. Luís sentiu que tinha de forçar uma decisão. O burburinho dos últimos dias entre as raparigas e o quase distanciamento de Amélia machucavam-lhe o orgulho e enchiam-no de ansiedade. Passava tardes inteiras a considerar se lhe era ou não indiferente e tinha de pôr fim a essa angústia permanente. Precisava a todo o custo de clarificar a situação e aquela era a oportunidade para o fazer. Tinha ou não hipóteses com ela? Valeria a pena suspirar sempre que a via? Sentia o coração aos pulos no peito e a respiração oprimida, receando a resposta à sua tormentosa dúvida, apavorado com a incerteza, mas mesmo assim não deixou de formular a pergunta. “Quer que eu me vá embora?” A rapariga ficou um instante calada, como se quisesse desaparecer nas páginas do livro que fitava mas não lia. Encolheu-se toda e sussurrou num fio de voz quase inaudível: “Pode ficar.” Foi como se uma explosão de luz e cor enchessem a biblioteca. Luís sentiu um peso desprenderse de si e tornar-se leve como as páginas do livro aberto sobre a mesa. A rapariga mais bonita do liceu aceitava a sua companhia, deixava-o ficar ali com ela. O dia pareceu-lhe mais belo, a vida mais intensa, o ar mais puro. Inebriado com a resposta, abriu o rosto num imenso sorriso e respirou fundo. “Sabe quem é que você me faz lembrar?” Amélia ergueu os olhos interrogativamente para ele. “Quem?” “A May McAvoy.

” Ela franziu o sobrolho, como se nada daquilo fizesse sentido. “A mãe e a maca da avó?” Luís reprimiu um sorriso e arregalou os olhos, fingindo-se escandalizado. “McAvoy. A May McAvoy.” “Não conheço.” “Não viu o Ben-Hur?” “Claro que vi.” “A May McAvoy é a actriz principal.” Os olhos de Amélia iluminaram-se com a comparação. “Ah, já sei. Aquela do…” Corou. “É… é bonita.” Luís riu-se. “Bonita? É lindíssima!” Inclinou a cabeça, como se a avaliasse. “Acho que é esse seu ar meio melancólico, meio sonhador.” Estreitou as pálpebras enquanto fazia a comparação mental. “Sim, você é a cara chapada da May McAvoy.” Amélia, que tal como ele se descontraía a olhos vistos, curvou os lábios rosados e simulou umar amuado. “Se quer que lhe diga, estou ofendida consigo.” “Porquê?” “Esperava que me comparasse com a Garbo. Não são os homens que dizem que a Greta Garbo é a mais bela de todas?” O rapaz abanou a cabeça, enfático. “Nem pensar! Para mim, a May McAvoy é a mais bonita.” “A sério? Mais bonita do que a Greta Garbo ou a Gloria Swanson?” “Ui, muito mais!” “Ah, então está bem.” Fez-se silêncio. Luís endireitou-se, satisfeito com o piropo que acabara de lhe atirar e sobretudo com a reacção de Amélia. Ela parecia agora mais à vontade e calorosa, o que lhe dava maior confiança.

“E eu?”, perguntou Luís. “Você o quê?” “Eu pareço-me com quem?” Amélia fixou-lhe as linhas da face e fez um ar pensativo, como se considerasse a semelhança mais adequada. Passou os dedos pelos lábios e franziu os olhos, apreciando-lhe as linhas quadradas do rosto, a pele lisa de marfim, os cabelos castanho-claros a refulgir contra o hálito de luz, o olhar sonhador a emprestar um suave toque de poeta ao semblante másculo. “Ah, já sei!” “Quem?” Voltou a franzir os olhos. “Você parece-se com o… o… como é que ele se chama?” “O Rudolfo Valentino?” Ela soltou uma gargalhada. “Não”, disse. “O Carmona!” “Quem?” “Aquele que foi eleito no ano passado.” Apontou para o quadro pregado na parede da biblioteca, exibindo a figura austera do presidente da República em farda militar, as medalhas a lampejarem-lhe ao peito como as penas vistosas de um pavão. “O Carmona!” Luís observou a fotografia exposta no quadro, um homem de cabelo e bigode brancos, os malares salientes no rosto gasto e macilento, e esboçou um esgar incrédulo. “Eu? O Carmona?” Ela ria-se. “Sim.” “A Amélia está a reinar comigo, não está?” Apontou para o quadro. “Onde é que eu me pareço com o Carmona?! Olhe para ele! É um velho jarreta!” Mais risos. “Então é o Carmona quando era novo.” “Ora bolas! O Carmona é feio!” Amélia inclinou-se para ele, provocadora. “Como sabe? Porventura aprecia a beleza dos homens?” “Eu não”, apressou-se Luís a dizer, preocupado em afirmar a sua masculinidade. “Mas… enfim, parece-me que o Carmona nunca entraria numa fita americana… acho eu.” “Pois nunca se pode ter a certeza. Às vezes é preciso botar alguém para o papel de mau, não é?” Desconcertado com a resposta, Luís baqueteou os dedos pela madeira da mesa. “Hmm… não me diga que se interessa pela política.” “Um bocadinho. Escuto as conversas.” O rapaz observou-a com mais atenção, fascinado. Aquela moça tinha algo de especial, era um je ne sais quoi que a tornava diferente, como se uma aura própria a envolvesse. Os olhos lânguidos e o sorriso insinuante incendiavam-lhe o rosto e inflamavam-lhe o corpo.

“A sério?” “Hmm-hmm.” Considerou aquela revelação. “Nunca conheci uma rapariga que se interessasse pela política.” Ela observou-o pelo canto do olho, com ar atrevido, segurando-lhe a atenção. “E eu nunca conheci um rapaz que se parecesse com o Carmona.” “Já vi que tem resposta para tudo.” A rapariga soltou uma gargalhada. “É o que diz a minha mãe. Sou respondona.” Esforçando-se por não parecer hipnotizado por Amélia, Luís levantou de novo os olhos para o quadro, fitando a figura emproada do presidente da República. “A sério que me pareço com ele?” Amélia abanou a cabeça. “O que acha?” “Quer dizer, eu acho que não.” “Claro que não”, concedeu. “Você parece-se consigo mesmo, não há ninguém que se lhe assemelhe.” “Nem mesmo o Rudolfo Valentino?” Ela voltou a rir-se, uma deliciosa expressão trocista a bailar-lhe nos olhos. “Pff… não exagere!” Foi nessa altura que soou o toque a anunciar que era hora de irem para as aulas. O burburinho recrudesceu lá fora e Amélia, quase num salto, agarrou no enorme volume que consultava, colocou-o na estante e escapuliu-se da biblioteca. “Até logo!” “Vemo-nos depois no recreio?”

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