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A Vida Passada A Limpo – Carlos Drummond de Andrade

Esta é a orelha do livro por onde o poeta escuta se dele falam mal ou se o amam. Uma orelha ou uma boca sequiosa de palavras? São oito livros velhos e mais um livro novo de um poeta inda mais velho que a vida que viveu e contudo o provoca a viver sempre e nunca. Oito livros que o tempo empurra para longe de mim mais um livro sem tempo em que o poeta se contempla e se diz boa-tarde (ensaio de boa-noite, variante de bom-dia, que tudo é o vasto dia em seus compartimentos nem sempre respiráveis e todos habitados enfim). Não me leias se buscas flamante novidade ou sopro de Camões. Aquilo que revelo e o mais que segue oculto em vítreos alçapões são notícias humanas, simples estar-no-mundo, e brincos de palavra, um não-estar-estando, mas de tal jeito urdidos o jogo e a confissão que nem distingo eu mesmo o vivido e o inventado. Tudo vivido? Nada. Nada vivido? Tudo. A orelha pouco explica de cuidados terrenos: e a poesia mais rica é um sinal de menos. NUDEZ Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem sabe a planta o vento que a visita. Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite, mas tão disperso, e vago, tão estranho, que, se regressa a mim que o apascentava, o ouro suposto é nele cobre e estanho, estanho e cobre, e o que não é maleável deixa de ser nobre, nem era amor aquilo que se amava. Nem era dor aquilo que doía; ou dói, agora, quando já se foi? Que dor se sabe dor, e não se extingue? (Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio, nesta concha.) Que sentimento vive, e já prospera cavando em nós a terra necessária para se sepultar à moda austera de quem vive sua morte? Não cantarei o morto: é o próprio canto. E já não sei do espanto, da úmida assombração que vem do norte e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos, ajusta em mim seu terno de lamentos. Não canto, pois não sei, e toda sílaba acaso reunida a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas. Amador de serpentes, minha vida passarei, sobre a relva debruçado, a ver a linha curva que se estende, ou se contrai e atrai, além da pobre área de luz de nossa geometria. Estanho, estanho e cobre, tais meus pecados, quanto mais fugi do que enfim capturei, não mais visando aos alvos imortais. Ó descobrimento retardado pela força de ver. Ó encontro de mim, no meu silêncio, configurado, repleto, numa casta expressão de temor que se despede. O golfo mais dourado me circunda com apenas cerrar-se uma janela. E já não brinco a luz. E dou notícia estrita do que dorme, sob placa de estanho, sonho informe, um lembrar de raízes, ainda menos um calar de serenos desidratados, sublimes ossuários sem ossos; a morte sem os mortos; a perfeita anulação do tempo em tempos vários, essa nudez, enfim, além dos corpos, a modelar campinas no vazio da alma, que é apenas alma, e se dissolve. AR Nesta boca da noite, cheira o tempo a alecrim.


Muito mais trescalava o incorpóreo jardim. Nesta cova da noite, sabe o gesto a alfazema. O que antes inebriava era a rosa do poema. Neste abismo da noite, erra a sorte em lavanda. Um perfume se amava, colante, na varanda. A narina presente colhe o aroma passado. Continuamente vibra o tempo, embalsamado. INSTANTE Uma semente engravidava a tarde. Era o dia nascendo, em vez da noite. Perdia amor seu hálito covarde, e a vida, corcel rubro, dava um coice, mas tão delicioso, que a ferida no peito transtornado, aceso em festa, acordava, gravura enlouquecida, sobre o tempo sem caule, uma promessa. A manhã sempre-sempre, e dociastutos eus caçadores a correr, e as presas num feliz entregar-se, entre soluços. E que mais, vida eterna, me planejas? O que se desatou num só momento não cabe no infinito, e é fuga e vento. OS PODERES INFERNAIS O meu amor faísca na medula, pois que na superfície ele anoitece. Abre na escuridão sua quermesse. É todo fome, e eis que repele a gula. Sua escama de fel nunca se anula e seu rangido nada tem de prece. Uma aranha invisível é que o tece. O meu amor, paralisado, pula. Pulula, ulula. Salve, lobo triste! Quando eu secar, ele estará vivendo, já não vive de mim, nele é que existe o que sou, o que sobro, esmigalhado. O meu amor é tudo que, morrendo, não morre todo, e fica no ar, parado. LEÃO-MARINHO Suspendei um momento vossos jogos na fímbria azul do mar, peitos morenos. Pescadores, voltai. Silêncio, coros de rua, no vaivém, que um movimento diverso, uma outra forma se insinua por entre as rochas lisas, e um mugido se faz ouvir, soturno e diurno, em pura exalação opressa de carinho. É o louco leão-marinho, que pervaga, em busca, sem saber, como da terra (quando a vida nos dói, de tão exata) nos lançamos a um mar que não existe.

A doçura do monstro, oclusa, à espera… Um leão-marinho brinca em nós, e é triste. A UM MORTO NA ÍNDIA Meu caro Santa Rosa, que cenário diferente de quantos compuseste, a teu fim reservou a sorte vária, unindo Paraíba e Índias de leste! Tudo é teatro, suspeito que me dizes, ou sonhas? ou sorris? e teu cigarro vai compondo um desenho, entre indivisos traços de morte e vida e amor e barro. Amavas tanto o amor que as musas todas ao celebrar-te (são mulheres) choram, e não pressentem que um de teus engodos é não morrer, se as parcas te devoram. Retifico: são simples tecedeiras, são mulheres do povo. E teu destino, uma tapeçaria onde as surpresas de linha e cor renovam seu ensino. Que retrato de ti legas ao mundo? Se são tantos retratos, repartidos na verlainiana máscara, profunda mina de intelecções e de sentidos? Meus livros são teus livros, nessa rubra capa com que os vestiste, e que entrelaça um desespero aberto ao sol de outubro à aérea flor das letras, ritmo e graça. Os negros, nos murais, cumprem o rito litúrgico do samba: estão contando a alegria das formas, trismegisto princípio de arte, a um teu aceno brando. Essa alegria de criar, que é tua explanação maior e mais tocante, fica girando no ar, enquanto avulta, em sensação de perda, teu semblante. Cortês amigo, a fala baixa, o manso modo de conviver, e a dura crítica, e o mais de ti que em fantasia dança, pois a face do artista é sempre mítica, em movimento rápido se fecha na rosa de teu nome, claro véu, ó Tomás Santa Rosa… E em Nova Delhi, o convite de Deus: pintar o céu. A VIDA PASSADA A LIMPO Ó esplêndida lua, debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81. Tu não banhas apenas a fachada e o quarto de dormir, prenda comum. Baixas a um vago em mim, onde nenhum halo humano ou divino fez pousada, e me penetras, lâmina de Ogum, e sou uma lagoa iluminada. Tudo branco, no tempo. Que limpeza nos resíduos e vozes e na cor que era sinistra, e agora, flor surpresa, já não destila mágoa nem furor: fruto de aceitação da natureza, essa alvura de morte lembra amor. SONETOS DO PÁSSARO I Amar um passarinho é coisa louca. Gira livre na longa azul gaiola que o peito me constringe, enquanto a pouca liberdade de amar logo se evola. É amor meação? pecúlio? esmola? Uma necessidade urgente e rouca de no amor nos amarmos se desola em cada beijo que não sai da boca. O passarinho baixa a nosso alcance, e na queda submissa um voo segue, e prossegue sem asas, pura ausência, outro romance ocluso no romance. Por mais que amor transite ou que se negue, é canto (não é ave) sua essência.

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