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A vida privada de Stalin – Lilly Marcou

O HOMEM STÁLIN ACABOU OFUSCADO pelo mito, cujo espectro determina toda a perspectiva do século XX. Neste livro, procuro descrever a vida privada desse homem, aludindo aos fatos históricos apenas quando necessários à inteligibilidade do itinerário pessoal do indivíduo ou quando permitem desvelar, nuançar ou transformar as interpretações julgadas definitivas. Por muito tempo a aura de “monstro abjeto” impediu que desvendássemos o enigma de um caráter. Decerto é tranquilizador pensar que o homem sob cujo regime tais horrores foram cometidos não pode ser senão um demônio: maneira de desculpar as pessoas que o cercavam, preservar o otimismo à la Rousseau quanto à inocência da natureza humana e banir dessa humanidade comum o único responsável pelos crimes perpetrados. Essa demonização de Stálin, contudo, não passa de preguiça intelectual, como sua deificação o fora ontem: fazendo-o existir em carne e osso, humano, demasiado humano, nem por isso ele se torna menos vulnerável ao julgamento da História. Não ignoro que tentar captar a personalidade do homem Stálin, a partir de arquivos inéditos e conversas com os sobreviventes da linhagem familiar e do círculo mais íntimo, poderá parecer obsceno aos olhos de alguns. O quê?! Falar das emoções desse tirano sem levar em conta sua responsabilidade nos milhões de mortes pelas quais ele é culpado? Mergulhar sem ideias préconcebidas nos ignóbeis segredinhos da história privada, deixando em segundo plano uma das maiores tragédias do século? A estes, faço questão de responder antecipadamente que minha proposta aqui não é promover um novo julgamento dos anos de terror stalinista: a causa é justa, e subscrevo-a. Acontece apenas que estou convencida de que, no caso de um personagem dessa dimensão, não há “ignóbeis segredinhos”: toda e qualquer prova material que venha a surgir deve ser despejada no dossiê da História. À exceção de numerosos e abalizados estudos dos sovietólogos ocidentais, a abertura dos arquivos soviéticos estimulou a publicação de livros que escapavam a qualquer rigor deontológico. A liberdade de expressão, em se tratando de um tema tabu, era confundida com o direito de falar qualquer coisa. Proliferaram então publicações fantasiosas e rocambolescas, que ainda pululam nas bancadas dos livreiros ambulantes pelas ruas de Moscou. Cumpria esperar por uma nova geração de historiadores que esmiuçassem os documentos com a única preocupação de apreender a verdade, para reconstituir uma história que deixara de ser prisioneira dos arquivos fechados. EM BREVE COMPLETARÃO trinta anos que estudo a vida de Stálin, e cinquenta que o enigma Stálin me obceca. Nenhuma explicação jamais me convenceu inteiramente, ainda que eu concorde com as grandes biografias a ele dedicadas por Isaac Deutscher ou Robert C. Tucker, que muito me ensinaram e ajudaram a empreender minha própria reflexão. Portanto, o esboço biográfico que hoje apresento constitui a síntese de anos de estudos que nem por isso deixaram de resultar num saber sempre fragmentado e parcial, tão vasto é o tema. Ele não pretende elucidar todas as questões teóricas e históricas que o caso Stálin coloca para os pesquisadores. Procurar estudar a pessoa, sem cair no psicologismo, não tem como intenção qualquer tipo de reabilitação – operação impossível, pareceme, até para as gerações vindouras. Alimenta apenas a modesta ambição de, por meio das fontes primárias, inéditas em sua maioria, apreender a complexidade, as contradições e os paradoxos do personagem. Mergulhando nos arquivos de Stálin, busquei criar um vazio com relação a um saber por demais engessado, no intuito de captar o que há de novo, iluminar as zonas de sombra, fazer a mediação entre verdade e rumor, dirimir certas controvérsias e revelar aspectos ignorados ou desconhecidos.ª Se por um lado o retrato pessoal ganha proporções humanas, por outro ele só faz endurecer os traços de caráter daquele que sempre colocou acima de tudo seu credo revolucionário, a razão de Estado, o poder absoluto, a certeza de que ele e seus métodos fariam a felicidade de todos. AOS CRIMES, ao terror e aos erros com que Stálin e seu reinado são confundidos há cerca de quarenta anos, esqueceram-se recentemente de acrescentar a esperança, o entusiasmo, o heroísmo, o espírito de sacrifício de que essa história “impossível” foi porta-voz. O arroubo e a admiração despertados pela URSS e seu líder carismático nos anos 1930 e 1940 podem ter outras explicações que não a enganação, a mentira, o medo e a manipulação… Complexa e paradoxal, a URSS oferecia, aos que dela se aproximavam, um leque de sucessos e fracassos, de magia e tragédias ao mesmo tempo. Numerosos foram os que apreenderam esse carácter dúplice de uma realidade inédita para a época. O Estado inovador fascinava; a utopia em vias de tornar-se realidade entusiasmava; o voluntarismo, transformado em valor fundamental, era contagiante.


Nem o relatório secreto de Kruchtchev, nem a glasnost de Gorbatchev foram capazes de arrefecer, nas profundezas da memória coletiva da ex-sociedade soviética, a ideia de que a época stalinista foi igualmente motivo de glória e orgulho nacional para os povos da URSS. E de que o homem que a encarnou não é o único responsável pelo terror que a sacudiu. 1 Para todos, ele continua um gigante que marcou duradouramente o século com seus crimes e suas vitórias. Nem epifenômeno, como pensava Roy Medvedev; nem termidoriano, como julgava Trótski, porque Stálin pretendia-se herdeiro fiel do legado leninista; nem causa de todos os males, como o acusava Kruchtchev, porque havia uma relação simbiótica entre ele e seu “mundo”. a Recusei-me a entrar numa polêmica sobre afirmações difusas, não alicerçadas nos arquivos, como as de Victor Suvorov, que, por ter sido anteriormente agente dos serviços secretos militares soviéticos, julgou-se capaz de convencer o público com “revelações” segundo as quais Stálin teria ajudado Hitler a tomar o poder e deflagrado a Segunda Guerra Mundial, e preparava um ataque, às vésperas da invasão nazista da URSS, no intuito de conquistar a Europa. (Cf. Victor Suvorov, Le brise-glace, Paris, Orban, 1989.) Da mesma forma, recusei-me a participar de outra controvérsia – antiga e atual ao mesmo tempo – sobre Stálin como agente da Okhrana, que nenhum arquivo confirma e que Robert C. Tucker recusou de maneira científica em sua grande biografia Staline révolutionnaire, 1879-1929, essai historique et psychologique (Paris, Fayard, 1975, p.93-6). 1. Sosso Gori Cercada de montanhas e situada a aproximadamente setenta quilômetros de Tíflis, a cidade de Gori, na Geórgia, assentada numa colina arborizada e florida, em meio a uma natureza encantadora e agreste, não imaginara, ao longo de sua veneranda e trágica história, que se tornaria conhecida no século XX graças a um robusto caucasiano ali nascido em 6 de dezembro de 1878 e batizado no dia 17 do mesmo mês (no início de sua carreira de revolucionário profissional, ele mudará a data de nascimento, declarando 21 de dezembro de 1879 à polícia). 1 Localizada numa das margens do Kura, na encruzilhada de três vales ricos em vinhedos e terras escuras, iluminada pelo sol meridional – embora ali o céu fosse quase sempre tempestuoso –, Gori tinha ao fundo a cadeia das montanhas caucasianas, cujos picos mais altos permanecem eternamente cobertos de neve. Não longe da cidade, erguia-se uma antiga fortaleza bizantina. Foi nesse panorama, ao mesmo tempo despojado e aconchegante, que Iosif Vissarionovitch Djugachvili, alcunhado Sosso desde o nascimento por seus pais, amigos e colegas de escola, passou os primeiros 16 anos de sua vida. Uma infância penosa, apesar de protegida pelo amor profundo de uma mãe extremosa e devota. A casinha onde ele nasceu, lar do casal Vissarion Ivanovitch Djugachvili (vulgo Besso) e Ekaterina Gavrilovna Gueladze (Keke), atesta a pobreza endêmica da família. Situada no centro da cidade, perto de uma catedral – que foi destruída em 1921 por ocasião de um terremoto –, a construção, coberta por uma laje de argila, tinha apenas dois cômodos. Havia buracos no teto e, durante as chuvas diluvianas que às vezes despencavam na cidade, entrava água na casa. Poucos e modestos móveis conferiam ao cenário um caráter austero, malgrado as paredes forradas comtapeçarias, à moda caucasiana: um baú que servia de armário, uma mesa na qual ficavam o samovar e os livros escolares de Sosso, uma cama de madeira. Uma escada íngreme descia até o porão, onde a mãe cozinhava. O piso de todos os cômodos era de tijolos. Keke, que se esfalfava da manhã à noite para prover as necessidades do filho que ela criava sozinha, descansava no quintalzinho, num banco de madeira. 2 Essa pequena casa continua a existir, incrustada no mármore e transformada em museu. A família Djugachvili, de origem osseta, tinha ancestrais servos, e um dos bisavós paternos do futuro Stálin gozara de uma fama fugaz na região.

No despontar do século XIX, Zaza Djugachvili participara de um levante camponês contra os russos e tivera de se esconder, primeiro nas montanhas, depois na aldeia de Didi-Lilo, não muito longe de Tíflis, onde permanecera até sua morte. Vano, seu filho, tornara-se vinicultor na região, e foi nesse lugarejo que nasceu Vissarion. Após a morte do pai, Besso emigrara para a capital e arranjara um emprego na fábrica Adelkhanov, onde aprendera a profissão de sapateiro. Em seguida, estabelecera-se em Gori, onde trabalhara numa oficina de conserto de calçados antes de abrir sua própria lojinha. Nessa nova vida, conhecera a bela Ekaterina, por sua vez oriunda de uma família de servos da aldeia de Gambareuli, que, quando estes foram emancipados na Geórgia, em 1864, instalara-se em Gori. Quando conheceu Besso, ela tinha dezoito anos e ele, 24. Casaram-se logo depois, em 1874. a Casamento fracassado, em função do caráter inconsequente de um marido alcoólatra. Violento, espancava sem escrúpulo e por ninharias sua mulher e seu filho único recém-nascido. Por conta desses furores sem fim, bem como do fracasso do empreendimento privado de Besso, o casal terminou por separar-se em 1883. O pai voltou a trabalhar e morar em Tíflis, quando Sosso tinha apenas cinco anos. Retornava de tempos em tempos à sua casa em Gori, deixando invariavelmente apenas lágrimas atrás de si. Morreu em 1909, b em Tíflis, durante uma briga numa taberna. Sosso não guardou uma boa recordação desse pai beberrão que o queria à sua imagem, opondo-se à mãe, que fazia esforços sobre-humanos para enviá-lo à escola. Vissarion era o verdadeiro pai de Stálin? Há mais de uma versão a respeito disso. Dependendo dos períodos e dos autores, essa paternidade foi atribuída ora a um prelado, em cuja casa sua mãe trabalhou por um tempo, ora a um aristocrata georgiano, do qual ela era lavadeira, ora a um célebre explorador russo, Prjevalski, que visitou Gori e em quem alguns observadores viram uma semelhança espantosa com Stálin. E muitos outros. Mas é o conde Iakov Egnatachvili que Nadejda, neta de Stálin, considera o pai mais plausível. Keke trabalhava como faxineira na casa e era ama de leite do filho do conde, Aleksandr, que a mãe, doente, não podia aleitar. Keke teria tido um relacionamento amoroso com o conde num momento em que a condessa estava acamada. Mais tarde, em todo caso, Sosso será constantemente recebido e alimentado por essa família, e foi uma parenta do conde, uma certa Sophiko, que o tomou sob seus cuidados, em Rustavi, cidade situada nas proximidades de Tíflis, quando ele adoeceu seriamente. Para os descendentes do conde, não resta dúvida: Stálin é um filho da família, e foi graças a ela que conseguiu matricular-se no seminário de Gori, depois no de Tíflis. Prova disso, afirmam, é que, quando Stálin estava no auge do poder, mandou chamar ao Kremlin seu irmão de leite Aleksandr Iakovlievitch. Embora soubesse quem era seu pai verdadeiro, Iosif deu credibilidade à lenda de Vissarion a fim de lavar a honra da mãe, conforme declara Nadejda Stálina. Fato é que a única fotografia que possuímos do pretenso pai legítimo de Stálin é uma fraude.

Vissarion jamais foi fotografado em vida. Pegaram uma fotografia de Stálin e acrescentaram-lhe uma barba: a semelhança era necessariamente perfeita. c Cumpre dizer que, ruiva, com um rosto franco e sossegado, cheio de sardas, Keke era atraente e parece de fato ter vivido várias aventuras galantes. Dela Stálin herdou sobretudo a tenacidade, 0 pragmatismo, a aplicação no trabalho, bem como a rudeza. Com o tempo, ela aderiu ao visual das devotas georgianas, usando o barrete tradicional e vestindo-se com roupas pretas de freira. Muito respeitada, era vista como uma mulher que consagrara a vida a Deus e ao filho. Após a partida de Besso, mãe e filho instalaram-se num dois quartos contíguo à casa de umpadre, onde Keke fazia faxina. Antes de Iosif, o casal Djugachvili tivera dois filhos: Mikhail e Giorgy, ambos mortos antes de completar um ano de vida. É compreensível o cuidado extremoso que Keke dispensou ao terceiro filho. Aos oito anos, Sosso entrou no seminário de Gori, onde, bom aluno, obteve uma bolsa. Era um menino ativo, enérgico, que procurava companhia. Alegre, fazia piadas, gostava de falar e chamar a atenção para sua pessoa. Desenhava mapas otimamente. Mostrou logo desenvoltura com a aritmética, depois foi brilhante em matemática. Espantava os professores acima de tudo pela prodigiosa memória. Embora a mãe fosse devota e ele tenha frequentado uma escola religiosa, nunca foi tocado pela fé. A necessidade de rezar e adotar os ritos do culto o entediavam. Assim, aprendeu muito cedo a dissimular o que efetivamente pensava e sentia. Sua verdadeira natureza impelia-o para o real, o racional, o pragmático. A leitura precoce, aos treze anos de idade, de Darwin – seguramente uma versão adaptada – pôs um termo definitivo às suas dúvidas sobre a existência de Deus: “Eu já sabia. Deus não existe!” teria exclamado, fechando o livro. 3 Constantemente estabelecia metas que terminava por atingir. Plenamente satisfeito, exprimia então sua alegria dando cambalhotas, lembra-se Piotr Kapanatze, seu amigo de infância. 4 Trabalhava com afinco, tornou-se o líder no pátio de recreio e primeiro-tenor no coro da escola e da igreja. Nem por isso o aluno brilhante deixava de viver constantemente numa situação material precária.

Para prover suas necessidades, a mãe trabalhava como faxineira na casa dos professores da escola de Iosif, lavava roupa e costurava para os ricos da cidade. Seu pai opunha-se a que ele permanecesse na escola. Quando Sosso fez dez anos, o pai arrancou-o a força de Gori e levou-o para Tíflis, onde empregou-o na fábrica Adelkhanov como operário. Não sem dificuldades, a valente Keke conseguiu trazer o filho de volta para Gori, após uma semana de brigas, matriculando-o novamente na escola. Naquele fim de século, dois graves problemas agitavam a sociedade na Geórgia: as relações russo-georgianas e as consequências da abolição da escravidão no Cáucaso. Foi nessa época que o menino tomou consciência das desigualdades sociais e nacionais, mostrando-se ressentido diante da arrogância dos ricos filhos de mercadores de vinho ou de sementes e dos descendentes das antigas famílias aristocráticas. Suas tentativas para impor-se a todo custo, graças às suas proezas escolares e sua agilidade no terreno esportivo, para adquirir o status de líder, talvez sejam a primeira desforra do filho do sapateiro contra suas modestas origens sociais. A despeito de seu desempenho escolar e esportivo, era de certa forma uma criança de saúde frágil. Aos seis anos pegou varíola, o que deixou seu rosto marcado para sempre. Aos dez, foi atropelado por uma carroça durante um festejo popular. Levado para casa quase sem sentidos, teve forças para dizer à mãe desesperada: “Não se preocupe. Está tudo certo!” Após semanas de dores, acabou convalescendo, com um achaque menor, que o acompanhará por toda a vida: uma rigidez crônica na articulação do cotovelo esquerdo. Mais tarde, isso fez com que fosse declarado inapto para o serviço militar. Superou com coragem as dores físicas: alguns amigos desse período afirmam nunca tê-lo visto chorar. 5 Recebia os golpes da vida com estoicismo e, também, aparentemente, com um quê de indiferença. Seu cotidiano, porém, não era cor-de-rosa. Não conhecia o aconchego de um lar estável e protetor. Precisava esforçar-se para escapar das pancadas do pai ébrio e assistir, impotente porque muito jovem, às brutalidades que este infligia à mãe, que se matava de trabalhar para criar o filho segundo seus preceitos. Iosif amava aquela mãe devota que tinha apenas a ele na terra, embora tampouco ela economizasse nos tabefes e severidades de todo tipo. Embora ela não tivesse nenhuma instrução e falasse apenas o georgiano, ele a respeitava. Um dia, para defendê-la, acabou lançando uma faca na direção do pai. Este jogou-se sobre ele, que se safou por um triz, escondendo-se por alguns dias na casa de vizinhos. 6 A partir desse dia, adotou uma atitude de desconfiança, vigilância e dissimulação com relação ao pai. Traços de caráter que carregará para sempre. PARA ESCAPAR DESSE COTIDIANO PENOSO , o jovem Sosso refugiava-se nos livros.

Apesar da inclinação pronunciada pelo real e o concreto, tinha uma grande propensão ao sonho. Identificando-se com personagens heroicos, buscava sublimar a vida miserável que levava. No início, suas primeiras leituras, emgeorgiano, limitam-se aos romances de capa e espada. Afora dramas sociais e amores infelizes, eles exaltavam de maneira romântica a resistência caucasiana face à grande Rússia. Guardou especialmente na memória a narrativa O parricídio, de Aleksandr Kesbegui. A ação se passa na época do lendário imã Chamil, quando os montanheses caucasianos combatiam os russos. A história celebra a coragem e tenacidade de um fora da lei conhecido como Koba (que significa o Indomável), vingador exemplar do povo escravizado. Essa alegoria romântica, que exalta o patriotismo caucasiano, parece ter marcado profundamente o imaginário do jovem Sosso, que prendia a respiração diante das façanhas guerreiras de Koba. Anos mais tarde, durante sua clandestinidade revolucionária, em Batum (em 1901), adotará o nome, que conservará até tornar-se, dez anos mais tarde, Stálin. No fim dos estudos em Gori, sendo o primeiro da classe, candidatou-se ao seminário de Tíflis. d Recebeu um diploma especial. Partiu com a mãe para Tíflis em 1894, um menino magro e de aspecto atlético, com olhos pretos brilhantes e um nariz proeminente, cujo caminhar denunciava um caráter independente e determinado, para cursar a escola religiosa e cumprir os votos maternos tornando-se padre. Passou com louvor no exame de admissão e foi matriculado em setembro como semi-interno, 7 com bolsa. Isso era ainda mais meritório na medida em que, em seus anos em Gori, Sosso tivera de mudar seu idioma de estudo. Quando entrara na escola, o ensino era ministrado em georgiano. Dois anos mais tarde, o russo tornara-se a língua nacional. A passagem havia sido dolorosa para a maioria dos alunos: os recalcitrantes eram severamente punidos. Aparentemente, o jovem Djugachvili saiu incólume dessa provação ao mesmo tempo linguística e patriótica. Estava impregnado da ambição que sua mãe lhe incutira. Tíflis O seminário de teologia ortodoxa russa de Tíflis, o estabelecimento de ensino superior mais importante da Geórgia, oferecia ao jovem Sosso uma perspectiva de vida bem diferente da que ele conhecera em Gori. Embora o objetivo inicial da instituição fosse a formação de sacerdotes, ela não deixou de ser um viveiro de revolucionários, devido tanto à atmosfera repressiva reinante quanto à russificação exagerada lá adotada. Nos anos 1860 e 1870, ali eclodiram atos de rebelião e grupelhos secretos conspiravam na sombra, permitindo a infiltração de ideias políticas subversivas que desafiavam as normas feudais então vigentes na escola. Grandes figuras nacionais georgianas fizeramsua iniciação nas armas atrás dos muros espessos desse seminário. Djugachvili só passou a frequentá-lo meses depois da última grande greve que paralisou o estabelecimento. Percebendo imediatamente o clima opressivo, ele também não demorou a rebelar-se contra a rotina estabelecida.

Já em seu primeiro ano letivo em Tíflis deixou de ser o aluno aplicado que tanto admirava os professores em Gori, e o registro das punições comprova sua indisciplina e gênio difícil, como se a libertação da influência protetora mas decerto opressiva da mãe lhe permitisse finalmente exprimir sua verdadeira natureza. “Iosif Djugachvili, falando alto e rindo, impede seus colegas de dormir”, já anotava o inspetor em 21 de novembro de 1894. E em dezembro as punições multiplicaram-se: almoço depois de todo mundo, refeição de pé na cantina, horas de solitária… Mas o que ele fazia de tão grave? Artes típicas de um adolescente cuja educação não havia sido muito esmerada: comportava-se mal na igreja, recostando-se na parede; cantava alto demais no coro, sem levar em conta as observações do inspetor; ameaçava os colegas; chegava atrasado às preces matinais; não respeitava a disciplina da instituição, que vivia no ritmo de um quartel; fazia barulho na cantina; muitas vezes não aparecia na sala de aula. 8 Nesse primeiro ano, seus resultados escolares sofreram com isso, ficando muito aquém do desempenho em Gori. Ainda assim, na volta às aulas, em 1895, foi aceito como interno em tempo integral. 9 Atrás dos muros da escola levava-se uma vida difícil, os alunos eram malnutridos e espremiam-se em grupos de vinte ou trinta nos dormitórios, sob constante vigilância. Esse confinamento quase penitenciário era-lhe insuportável. A camisa de força da escola deixava-o furioso e ele manifestava ruidosamente sua recusa a entrar na linha com um comportamento cada vez mais recalcitrante. Alvorada às 7h, preces, café da manhã, aula até as duas, almoço às três, chamada às cinco, preces da tarde, chá, estudo, cama às dez: 10 Essa rotina de vida cronometrada e monótona deixou-o alérgico para sempre a qualquer programa que envolvesse um horário preciso. As disciplinas que era obrigado a estudar não despertavam nem sua curiosidade nem sua sede de saber: teologia, escrituras sagradas, literatura, matemática, história, grego e latim. Aos domingos e feriados, tinha de assistir a ofícios religiosos que duravam horas. Os reiterados castigos desestabilizavam-no completamente. Começou então uma queda de braço entre um aluno cada vez mais revoltado e a direção do seminário, que desejava subjugá-lo e humilhá-lo. Ele adotou a revolta como regra. Embora cultivasse uma paixão pela leitura, o jovem Iosif não apreciava os livros religiosos. Desde o início de seus estudos no seminário, mostrou-se interessado pelos textos profanos, à margemdo caminho traçado pela escola. Leu então, em edições adaptadas, Galileu, Copérnico e Darwin. Emhistória, foi a Comuna de Paris que mais o entusiasmou. Devorava igualmente a literatura clássica russa: Púchkin, Lermontov, Dobroliubov, Saltykov-Chtchedrin, Gógol, Tchekhov. “Os livros eram os amigos inseparáveis de Iosif. Não queria ficar longe deles nem nas horas de comer”, lembra-se Glurdjidze, um de seus colegas de classe. Sosso lia durante a noite, escondido, à luz da vela, lembrase Iremachvili. Seus novos focos de interesse afastaram-no ainda mais da escola religiosa. 11 Os registros da escola listam escrupulosamente suas condenáveis leituras: em 30 de novembro de 1896, o inspetor anota: “Soube que Djugachvili era sócio da biblioteca popular, onde pegava livros emprestados. Hoje confisquei-lhe Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo.

Foi castigado com a solitária prolongada. Eu já o avisara quando encontrei com ele o Noventa e três, de Victor Hugo.” Em 3 de março de 1897, confiscam-lhe A evolução literária das nações, de Letourneau; foi novamente punido com a solitária prolongada em regime severo. 12

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