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A Vida quer e coragem – Ricardo Batista Amaral

A manhã de abril chegava ao fim e as nuvens encobriam a serra do Curral, prenunciando uma chuva de outono em Belo Horizonte. No auditório da Federação das Indústrias de Minas Gerais, a Fiemg, o telefone celular vibrou discretamente no bolso do paletó de Anderson Dorneles, secretário particular da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ela terminava uma palestra para empresários sobre investimentos do governo federal, primeiro compromisso de uma pesada agenda na cidade. Os dígitos azuis no visor do aparelho indicavam uma chamada de São Paulo. O secretário não precisou atender para saber que se tratava de assunto sigiloso e urgente. Conhecia Dilma havia 15 anos, desde os tempos em que ela era economista numa fundação do governo do Rio Grande do Sul, onde ele trabalhava como mensageiro para pagar a Faculdade de Administração. Anderson compreendia gestos, olhares, palavras, silêncios. Conhecia hábitos, preferências, humores, restrições. Recolhia documentos e organizava os arquivos no laptop da ministra. “Esse menino”, como Dilma o chamava, embora ele já tivesse passado dos 30, sabia ouvir broncas, passar mensagens e guardar segredos. O segredo por trás daquele telefonema estava guardado havia duas semanas, desde o dia em que Dilma Rousseff esteve no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para extrair uma pequena erupção na axila esquerda. O carocinho tinha sido encontrado num check-up rotineiro, no começo daquele ano de 2009. Foi por insistência do cardiologista Roberto Kalil Filho – o mesmo que atendia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alguns dos políticos e empresários mais conhecidos do país – que Dilma concordou em extrair o nódulo numa cirurgia e submeter o material a uma biópsia. “Pra não restar sombra de dúvida”, como ela costumava dizer quando queria enfatizar uma decisão. Sem demonstrar ansiedade diante dos convidados em torno da ministra, Anderson pediu ao interlocutor que aguardasse na linha, localizou a porta de uma sala contígua ao auditório e indicou o caminho para Dilma, sussurrando o nome do doutor Kalil de um modo que só ela conseguiu ouvir. Fechada a porta da sala, Dilma tomou o telefone nas mãos e ouviu a confirmação da suspeita que levara o cardiologista a insistir com obstinação nos exames: a biópsia, ele disse, indicou um linfoma, um câncer nos gânglios. Um tipo bem conhecido, que os médicos sabiam tratar com grande chance de sucesso quando diagnosticado a tempo, como era o caso; mas, sem sombra de dúvida, um câncer. A ministra sentou-se numa cadeira para conversar com o médico. Falaram sobre o tratamento inadiável, doloroso e incômodo. O exame definitivo tinha chegado de um laboratório de Houston, nos Estados Unidos, naquela sexta-feira, 17 de abril. Quanto mais rápido iniciassem o procedimento terapêutico, melhor. Combinaram data e hora, ela agradeceu, despediram-se. Um breve silêncio foi quebrado por um suspiro longo, e Dilma voltou os olhos na direção do secretário particular, que tinha permanecido todo o tempo vigilante junto à porta da sala: – A vida não é fácil. Nunca foi. A ministra devolveu o telefone ao secretário e seguiu para a entrevista coletiva.


Parecia segura. Vestia um casaco de linho vermelho sobre a blusa de seda preta, o decote redondo acompanhava a curva do colar de pérolas. Era a Dilma de sempre, respondendo com firmeza, até que lhe pedirampara falar sobre a sensação de estar de volta à cidade onde nasceu. – Tem uma musicalidade em Minas, e na nossa fala, que só quando sai daqui que ocê percebe, e só escuta às vezes, como diz aqui o Patrus, nos livros do João Guimarães Rosa. Patrus Ananias, sentado a sua esquerda, era o ministro do Desenvolvimento Social, além de estudioso da obra de Rosa. Ele murmurou algo que fez Dilma balbuciar fora do microfone: – É… Me emociona… O que se passou nos oito segundos seguintes foi algo que só Dilma, ninguém mais, podia entender completamente. A ministra levou a mão direita à altura dos olhos e pressionou-os com o indicador e o polegar, que ela fez descer pelo rosto até apertar com força o contorno dos lábios. O único som no auditório era o espocar dos flashes. Ela encarou os repórteres e concluiu, com os olhos marejados: – É o som da infância, gente. É isso… Das janelas do prédio da Fiemg, era possível captar o burburinho do trânsito na avenida do Contorno em direção à Savassi, um movimentado centro de comércio, serviços e restaurantes de Belo Horizonte. Cerca de dez quarteirões ao sul daquele edifício ficava a casa onde Dilma morou do dia em que nasceu, em 1947, até os oito anos de idade. Era um tempo em que o nome Savassi não indicava uma região da cidade, mas apenas a sortida padaria de dois imigrantes italianos no tranquilo bairro dos Funcionários. A casa da rua Sergipe não existia mais; em seu lugar havia um pequeno prédio de escritórios, igual a tantos outros. Mas era dali que brotava o som da infância. Na memória de Dilma, era o som das conversas na padaria dos italianos, com seu imenso balcão de guloseimas, a algazarra das crianças no cinema do bairro, suas matinês de desenhos animados e seriados de ação. Era a alegria de pedalar a bicicleta pintada de amarelo vivo, nas ruas de terra ou calçadas com pedras, nos anos 1950. Conduzindo a memória serra abaixo, em direção ao centro da cidade, Dilma chegaria ao apartamento 1.001, no décimo pavimento do Edifício Solar, construção modernista dos anos 1960 perto da Faculdade de Direito. Foi daquele apartamento que Dilma e o primeiro marido, o jornalista Cláudio Galeno, tiveram de fugir numa manhã de janeiro de 1969, driblando a polícia política sem produzir som nenhum. Ela tinha acabado de completar 21 anos quando mergulhou na clandestinidade, procurada pela ditadura militar. Escondeu-se no Rio, foi presa e torturada em São Paulo, cumpriu pena de quase três anos no Presídio Tiradentes. Só iria recomeçar a vida em 1973, em Porto Alegre, ao lado do segundo marido, o advogado Carlos Araújo. Fez novos amigos, formou-se em Economia, teve uma filha e continuou fazendo política – a resistência, a oposição, a luta pela democracia e a reinvenção dos governos populares. Ali seria convocada, no final de 2002, para integrar o governo do primeiro operário eleito presidente do Brasil – e então a vida recomeçou mais uma vez para Dilma Rousseff. Fácil, nunca foi.

Desde o início do segundo mandato de Lula, em janeiro de 2007, a ministra percorria o país explicando, defendendo, fiscalizando ou inaugurando obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. Criado e comandado pela chefe da Casa Civil, era o plano de investimentos de 500 bilhões de reais em infraestrutura e projetos sociais com o qual Lula pretendia colocar o país numa rota de crescimento sustentável. O PAC também era um instrumento para consolidar sua liderança política, que ia muito além do PT, o partido que ele criou em 1980 e que chegou à presidência da República 22 anos depois. Lula enxergava no PAC a possibilidade de realizar um segundo governo melhor que o primeiro, numa conjuntura econômica e política mais favorável que a do mandato anterior. Nos quatro primeiros anos de Lula o país tinha voltado a crescer, mas 12 meses de recessão, em 2005, comprometeram o desempenho final. O padrão de vida dos trabalhadores e da população mais pobre tinha se elevado, pela combinação de salários mais altos, mais crédito, alimentos mais baratos e menos inflação, além de um gigantesco programa de distribuição de renda, o Bolsa Família. O mandato foi marcado também por um escândalo político, que ficou conhecido como mensalão e levou o PT e o governo às cordas. Agora, o aquecimento da economia, a preservação da base política e o sucesso do PAC eram os ingredientes que poderiam levar à vitória nas eleições presidenciais de 2010, e Dilma Rousseff estava no centro da estratégia política de Lula. Pelo restante daquela sexta-feira e no final de semana prolongado pelo feriado de Tiradentes, ninguém além dos médicos ouviria da ministra um comentário sequer sobre o telefonema do doutor Kalil. Somente na noite de 22 de abril, uma quarta-feira, Dilma iria compartilhar a angústia e umprato de massa com Carlos Araújo, agora ex-marido e melhor amigo, e a filha dos dois, Paula. Aos 32 anos, Paula era formada em Direito, procuradora do Trabalho e estava casada havia menos de um ano. Escolheram conversar a três num pequeno restaurante do bairro da Tristeza, em Porto Alegre. Naquele mesmo lugar, entre o Natal de 2008 e o ano-novo, Dilma havia reunido sua pequena família gaúcha para confirmar, na intimidade, aquilo que o mundo político brasileiro especulava abertamente: sim, ela, que nunca havia disputado uma eleição, embora se dedicasse à luta política de corpo e alma desde a adolescência, seria mesmo a candidata do PT e do presidente Lula ao Planalto. Era a primeira mulher com chances reais de presidir o maior país da América Latina, com 190 milhões de habitantes, a sétima maior economia do mundo, Produto Interno Bruto de 2 trilhões de dólares e um passivo de desigualdade social que desafiava sua história. Ao passado de militante clandestina, Dilma havia somado a experiência de participar, na fase final da ditadura militar, do movimento pela anistia e da reorganização dos partidos políticos legais. No Rio Grande do Sul, uma considerável corrente da esquerda associou-se não ao nascente PT, mas à tradição trabalhista, fortemente arraigada na terra natal dos ex-presidentes Getúlio Vargas e João Goulart. Dilma e Carlos Araújo participaram da fundação do Partido Democrático Trabalhista de Leonel Brizola, o herdeiro do trabalhismo. Pelo PDT e, anos mais tarde, incorporada ao PT, Dilma foi secretária de Fazenda da prefeitura de Porto Alegre, presidenta da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul e duas vezes secretária de Energia, Minas e Comunicação, antes de se tornar ministra de Minas e Energia e chefe da Casa Civil do governo Lula – sempre a primeira mulher a assumir aquelas funções. Um currículo e tanto para quem se considerava sobrevivente da luta contra a ditadura – uma luta que ceifou companheiros em combates desiguais ou nas masmorras do regime. Para Dilma Rousseff, aos 61 anos, a vida teimava em recomeçar sempre. A presidência da República jamais esteve nos planos de Dilma. Nem em sonhos. Que se lembrasse, quando criança queria ser bailarina, porque achava bonito, ou entrar para o corpo de bombeiros, que nem era profissão de menina, mas era bonito também. Em dezembro de 2008, quando conversou sobre o assunto com Carlos e Paula, faltavam quase dois anos para as eleições. Nada era oficial ainda, mas o projeto Dilma presidenta era bem mais do que a insinuação feita por Lula no começo do ano, quando a chamou de “mãe do PAC” no lançamento das obras do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

Lula associava boa parte do sucesso de seu governo, que batia recorde sobre recorde de aprovação nas pesquisas, ao trabalho de coordenação da ministra na Casa Civil. Ela assumiu a função em junho de 2005, em plena tormenta do mensalão, depois de cumprir todas as tarefas que o presidente lhe havia confiado nas Minas e Energia. Os dois estabeleceram uma relação de lealdade política e pessoal que viria a ser o cimento da candidatura. Lula nunca disse diretamente a Dilma que a queria como sucessora. Também não abriu essa discussão com o PT ou com os ministros mais próximos. Foi simplesmente criando fatos, até que todos, inclusive Dilma, compreendessem que a decisão estava tomada. Na virada de 2008 para 2009, o projeto era evidente, e Dilma decidiu preparar o espírito da filha. Paula guarda uma impressionante semelhança com a mãe, no rosto e no caráter. Como a maioria dos filhos de militantes de esquerda de sua geração, ela cresceu numa casa em que tinha de dividir os pais com a política; o espaço da sala com as reuniões dos companheiros; e os iogurtes da geladeira com os famélicos do mundo, que entravam a qualquer hora, saíam sempre tarde e muitas vezes dormiam temporadas inteiras ao abrigo de Carlos e Dilma. Carlos Araújo também foi preso pela ditadura – ele e Dilma dirigiam a organização clandestina Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares. Livre, elegeu-se três vezes deputado estadual pelo PDT no Rio Grande do Sul e disputou duas vezes a prefeitura de Porto Alegre. Paula sabia bem o que era uma campanha eleitoral na vida da família, mas nesse momento Dilma estava no centro de uma disputa pelo poder, com tudo o que isso significa em termos de cautelas, restrições e obrigações para parentes e amigos. “Você é a pessoa de quem a Dilma mais vai precisar ao longo dessa campanha”, Lula diria a Paula numa noite de comício. O fato de jamais ter disputado uma eleição não preocupava Dilma. Lula e seu assessor de marketing, o jornalista João Santana, consideravam que o noviciado da candidata, somado ao fato de ser mulher, poderia representar uma vantagem comparativa num país em que a imagem geral dos políticos ia de mal a pior. Dilma confiava acima de tudo nas razões objetivas que indicavam o sucesso do governo nas urnas: a aprovação ao presidente Lula estava lastreada no crescimento constante da economia, combinado a um processo de redistribuição de renda que tinha gerado uma nova classe média no país, incorporando 28 milhões de pessoas ao mercado de trabalho e de consumo. Dilma percebia nas viagens pelo país um ambiente de otimismo e confiança, confirmado pelas pesquisas, embora o favoritismo do governo ainda não tivesse o nome e o sobrenome da candidata. Seria questão de tempo para se tornar conhecida e reconhecida. Além do mais, ela teria a seu lado o líder político mais popular que o país conheceu ao longo de gerações. Não, Dilma já não tinha receio de entrar na disputa, mesmo sabendo que as condições favoráveis fatalmente levariam a oposição a atacá-la duramente durante a campanha. Daquela primeira conversa a três, Carlos Araújo guardou na memória a segurança serena de Dilma: – Quem vai para a campanha com um peso sobre os ombros é o adversário, não sou eu. Eu vou com o sangue doce – foi o que ela disse no restaurante italiano. *** Na noite de 22 de abril de 2009 ela estava ali novamente, no pequeno restaurante da Tristeza, para contar a Carlos e Paula que a vida tinha lhe aprontado mais uma. O linfoma, conforme explicou o doutor Kalil, era um tipo de câncer que podia ser tratado com amplas chances de sucesso – os médicos evitam, nesse caso, a palavra cura, preferem falar remissão. Era uma questão de método, disciplina e sacrifício.

A rotina seria subordinada ao horário dos remédios, e a agenda, às sessões de tratamento no hospital em São Paulo. Ela teria de receber as drogas da quimioterapia por meio de um cateter que já estava implantado no lado direito do tórax. Sentiria náuseas, ficaria cansada e estressada. Os cabelos cairiam. Sua pele e sua carne seriamliteralmente queimadas nas sessões de radioterapia. Durante algum tempo, que ainda não era possível definir, a vida ficaria em suspenso, na dependência do resultado de exames minuciosos e invasivos. Quem passou pela violência do pau de arara, pelas máquinas de choques elétricos, pela agonia incerta de resistir à tortura sabe que a vida não é fácil. Nunca foi. Mas havia outra dimensão na notícia que ela compartilhava com a pequena família: a dimensão da política. Por mais seguro e otimista que fosse o prognóstico dos médicos, câncer era uma palavra maldita quando pronunciada em público, especialmente se relacionada a um candidato presidencial. No Brasil, o estigma da doença poderia despertar no eleitorado a memória trágica de Tancredo Neves, primeiro presidente civil depois da ditadura, eleito indiretamente em 1985, que morreu semtomar posse, de uma doença que ele tentava esconder. A frustração com a morte de Tancredo, ao fim de uma jornada de esperança que mobilizou a nação, tornou-se um episódio traumático na história do país. Mas também havia o exemplo do vice-presidente José Alencar, que nos últimos dez anos vinha superando cirurgia após cirurgia. A sua história era de perseverança, e mostrava os avanços da medicina no combate à doença. O câncer era um episódio que não estava previsto no roteiro da vida de Dilma Rousseff, nem da mulher nem da candidata. Ela precisava avaliar com Lula a nova situação. Dilma expôs a questão a Carlos e Paula com objetividade: se o mais prudente fosse desistir da campanha, trocar de candidato, o correto era tomar a decisão logo, dando tempo a Lula para refazer sua estratégia. Antes de voltar a Brasília, Dilma pediu uma conversa pessoal com o presidente, que só iria acontecer na manhã de 24 de abril, na Base Aérea da capital, onde Lula desembarcaria vindo da Argentina. – Eu tenho uma coisinha importante para contar – ela disse ao telefone, sem ligar para a contradição aparente entre as palavras “coisinha” e “importante”. Se Dilma e Lula ainda não haviam conversado formalmente sobre a campanha eleitoral, tratandose pelo que de fato eram – ela, a candidata, e ele, o presidente que a apoiaria na campanha –, o momento seria aquele. Conferiram os prognósticos dos médicos e das pesquisas. Confirmaram a confiança mútua. Acertaram com o ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação, a divulgação do diagnóstico e do tratamento, para exorcizar os fantasmas da desinformação. Dilma concederia uma entrevista coletiva no dia seguinte, um sábado, ao lado dos médicos em São Paulo. O presidente se despediu da candidata com palavras de amigo: – Tranquila, Dilminha, tranquila.

Você é forte, vai conseguir. Ela conseguiu, mas fácil não foi. Nunca foi. capítulo 2 Um homem muito alto Dilma Vana Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947, na maternidade do Hospital São Lucas, em Belo Horizonte. Foi batizada com o mesmo nome da mãe e por isso, em família, seria para sempre Dilminha. O segundo nome, Vana, era uma homenagem à irmã mais nova de seu pai, o imigrante Pedro Rousseff, que em 1929 deixou a família na longínqua Bulgária e em 1945 veio parar no Brasil, onde o acaso o conduziu a Minas Gerais. Pedro tinha olhos claros, cabelos louros e andar ereto. Era um homem muito alto, de quase dois metros, e muito branco, “quase azul de tão branco” na memória da filha. Tinha 46 anos quando se casou com a professora primária Dilma Jane Coimbra da Silva, uma beleza morena, prendada e altiva, 26 anos mais jovem, nascida em Nova Friburgo, na serra fluminense, e criada em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Dilminha era a segunda filha do casal, que já tinha Igor, nascido em janeiro do mesmo ano, também batizado com nome búlgaro (em casa diziase Igór, à maneira eslava). O parto da menina foi conduzido pelo doutor Lucas Machado, formado nas primeiras turmas da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Doutor Lucas Machado foi da primeira e privilegiada geração de estudantes de Belo Horizonte. A cidade tinha apenas 50 anos de existência, completados dois dias antes do nascimento de Dilma. Nesse tempo tão curto passou de aldeia pastoril a canteiro de obras, de centro político e administrativo a eixo de comércio regional, e estava ingressando na era industrial. Seus 300 mil habitantes conviviam com características de todas essas etapas simultaneamente. O leite ainda era vendido nas esquinas – fluía das torneiras de caminhõezinhos-pipa, as vaquinhas – e o bonde subia a avenida Afonso Pena à sombra das fileiras de fícus. Ao mesmo tempo, um moderno parque siderúrgico se erguia na direção oeste, nos bairros empoeirados onde ia morar a nova classe operária. Não era uma cidade grande, mas já tinha deixado de ser a província em que Lucas Machado e seus colegas de faculdade reinaram nas décadas de 20 e 30. Foi uma geração que estudou com grandes mestres, conviveu com poetas inspirados e boêmios fenomenais, lutou contra os paulistas nas revoluções de 1930 e 1932 e iria povoar os romances memoriais de Pedro Nava. No ano em que Dilma nasceu, brilhava a estrela do mais famoso representante daquela geração: Juscelino Kubitschek, deputado federal do PSD, maior partido do país, em campanha pelo governo de Minas. Prefeito nomeado de 1940 a 1945, JK liderou a modernização urbana de Belo Horizonte. Mandou abrir e asfaltar 43 quilômetros de avenidas, estendendo-as à nascente Cidade Industrial, fez novas captações de água, enterrou mais de cinco quilômetros de rede de saneamento, trouxe os ônibus elétricos e construiu, em ritmo alucinante, a represa e o conjunto turístico da Pampulha – a primeira joia arquitetônica de Oscar Niemeyer. A Pampulha foi o ensaio de Brasília, com jardins de Burle Marx, painéis de Candido Portinari e esculturas de Alfredo Ceschiatti. [1] No pioneiro bairro dos Funcionários, onde a família Rousseff morava no começo dos anos 50, as ousadias urbanísticas de JK eram pouco percebidas, a não ser pelo novo calçamento das ruas, com paralelepípedos retirados das avenidas que ele mandou asfaltar. Os sinais mais visíveis de que a cidade vivia novos tempos estavam encravados no topo dos muros que protegiam as casas e dividiamquintais.

Cada vez mais os muros ficavam pontilhados de cacos coloridos de garrafas. Disformes, cortantes, ameaçadores, os cacos de vidro serviam para espantar os gatunos numa cidade onde a população crescia ao ritmo de 7% ao ano. Também serviam de barreira para as crianças, que faziam das ruas território de brincar, desafiando cercas, escalando telhados. A Dilminha eles não intimidariam. Cedo a menina aprendeu a se equilibrar sobre as bordas dos muros encarquilhados, valendo-se de alguma coragem e das plantas dos pés acentuadamente arqueadas. – Eu tinha os pés assim, ó – ela recordou muito tempo depois, desenhando uma curva no ar. Vida de criança era andar em bandos, tocar campainhas e se esconder correndo, subir nas árvores para comer fruta no pé, pedalar ladeira acima e soltar a bicicleta do ponto mais alto da rua, ganhando velocidade na descida. Aos sete anos, Dilma foi presenteada com uma bicicleta amarela, cor que ela escolheu e Pedro Rousseff mandou pintar. Preso ao guidão, havia um disco estampado com o Mickey Mouse e o número 14, dia do seu aniversário. Foi o presente de um Natal inesquecível, por causa da bicicleta e de uma revelação inesperada. Às vésperas da festa, Dilma e Igor brincavam na porta de casa com Mauro, um tio materno com mais jeito de primo (era apenas cinco anos mais velho que os dois), quando Pedro Rousseff chegou de carro, seguido por um caminhãozinho de entregas. As crianças receberam ordem de entrar, com uma desculpa qualquer, e Mauro provocou: – Não é nada disso, são os presentes de Natal. Esconderam-se entre as folhas de uma cerca viva e viram desembarcar a bicicletinha amarela. – Se vocês contarem, sua mãe me mata – advertiu o menino tio. Dilma guardou a desilusão: “Além de ficar sabendo, de repente, que Papai Noel não existia, tive de aguentar caladinha.” Domingo era dia de matinê no cinema do bairro, o Cine Pathé, com fachada art déco, equipamento de projeção moderno e mil poltronas na plateia. [2] A programação era irresistível para as crianças. Festival Tom e Jerry e desenhos da Disney: Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve e os sete anões. Filmes de aventura: Robinson Crusoé; Simbad, o marujo. Seriados emocionantes: Flash Gordon no planeta Mongo, Buck Rogers no século XXV e Zorro, o cavaleiro solitário, os favoritos de Dilma. A criançada torcia e pulava sobre as poltronas de couro. Num domingo daqueles, Dilminha voltou para casa e foi se balançar feito o Tarzan na corda amarrada a uma árvore no quintal. Ficou com as mãos em carne viva. Quem a escoltava até o Cine Pathé era tia Arilda, uma das irmãs de Dilma Jane. Um dia fizeram a menina vestir anágua por baixo da saia.

A peça não resistiu aos pinotes de Dilminha e estava no chão, aos seus pés, quando as luzes do Pathé se acenderam. – Não liga. Finge que é um lenço e apanha do chão – sugeriu a tia. E quem disse que a sobrinha aceitou aquela ideia besta? Choro, bater de pés, protesto. Nunca mais usou anáguas. O filme que mais a impressionou foi O maior espetáculo da Terra, uma história de circo, comCornel Wilde no papel de Sebastian, o grande trapezista. Quando foi a um circo de verdade, dos Irmãos Garcia, Dilminha admirou os trapezistas, mas saiu com uma vontade imensa de ser bailarina. Tirando os anos de prisão e de clandestinidade, Dilma sempre teve um cachorro por perto, até mais de um. Pingo, um fox terrier preto e branco, pelo de arame, foi o primeiro e mais querido de todos. Cúmplice, esperto, carinhoso, morreu de velhice embaixo da cama da menina. O enterro, numlote vago a três quarteirões de casa, teve caixãozinho de papelão e cortejo fúnebre. Nos almoços de domingo – sempre o arroz de forno e a maionese introduzida em Belo Horizonte pela cozinha francesa do Cassino da Pampulha – Pingo se aninhava embaixo da mesinha das crianças. Quando os pais se distraíam, ela atirava para o cãozinho os nacos de carne que não conseguia engolir. Tinha a garganta estreitada por amígdalas gigantes, que teve de extrair aos sete anos.

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